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domingo, 12 de dezembro de 2021

A "Parêsia" e seu significado para Foucault

 No Collège de France, mas especificamente no curso de 1983, o tema de Foucault gira em torno da noção de "parêsia", o dizer verdadeiro, isto é, com convicção e séria intenção de propósito, é igualmente uma demonstração de coragem. A verdade neste caso não é a da proposição lógica, a da sentença verdadeira, a verdade que pode ser verificada. 

No caso da "parêsia" a verdade é aquela que a própria pessoa é levada a dizer, não só dizer, mas também agir de acordo com essa verdade, a da vida autêntica, a verdade ousada, aquela que a pessoa cultiva em seu íntimo, em sua vida, em seus projetos e ações. 

Foucault expõe a diferença entre o conhecer-se a si mesmo e o cuidar de si mesmo. O primeiro modo é representado pelos conselhos de Sócrates ao jovem Alcebíades, futuro governante. Sem o autoconhecimento o jovem não estaria preparado para conhecer os outros, e por isso mesmo, governá-los. O segundo modo é exposto por Platão nas Cartas, em especial na Carta VII, nos conselhos ao Jovem Dionísio, tirano de Siracusa. 

Enquanto em A República e em As Leis o bom governo se estabelece com leis justas, com uma forma ideal de governo, o governo dos sábios, do rei filósofo (ver postagem anterior), Platão mais velho, calejado com democracias que falham, oligarquias que falham, não recorre às constituições e nem à melhor forma de governar e sim a algo inusitado: o olhar para dentro de si, buscar em si mesmo o melhor caminho, ouvir o conselheiro como se ouve e se seguem os cuidados médicos. A busca da temperança, do comedimento, da transformação de seu modo de vida, de seu regime de vida seria o caminho para um bom e justo governo. 

O curioso é tentar saber por que razões Foucault extrai desses poucos e quase desconhecidos escritos de Platão, como se estivesse tirando leite de pedra, um novo conceito, uma nova concepção, ousaria dizer, ético/política. O curso de 1983 consta de longas aulas, com muita repetição, com bastante insistência nesse tema da busca da verdade em si, em seu modo de viver, no cuidado de si, no dizer-verdadeiro. Afinal, qual é a importância desse tema antigo, cujo exemplo mais notório Foucault buscou na importância dos conselhos de Platão a um governante cujo pai, Dionísio o Velho, o exilou? 

Parece que Foucault está menos interessado em decifrar um tipo de verdade pouco estudado no que toca à filosofia antiga, particularmente a Platão, e mais interessado em explorar como seria a governabilidade de si, um tipo de ética do total desvendamento da própria pessoa. Como seria esse desvelamento corajoso, de dizer a verdade que absolutamente não está ligada à comprovação empírica, que não está ligada aos meandros do inconsciente que a escuta analítica traz à tona. Essa verdade deve ser dita para chegar à transformação de si, e quando ela é exposta ao outro, dirá respeito aos seus atos, hábitos, valores. 

Seria como iluminar-se, seguir um caminho, transformar-se por meio de conselhos, nada a ver com a verdade de tipo cartesiano, do penso logo sou. Ao contrário, não é a verdade intelectualizada, é um dizer verdadeiro, o caminho aconselhável, preferível, que realiza, que proporciona bem-estar interior. A condição, entretanto, é de que a pessoa esteja aberta ao autoconhecimento, à corajosa verdade que supera o egoísmo, o achar-se sempre com a razão de uma postura autocentrada. 

Interessante como um filósofo enverada por diferentes caminhos. Essa trajetória final de Foucault acrescenta-se às trajetórias antes percorridas, como: a crítica ao saber das ciências humanas ignorantes de seu nascimento e de seu uso histórico, à constituição do sujeito em certo tipo de discurso, os de saber e os de poder, à forma como o poder se institucionaliza e é distribuído, ao surgimento de modos de governar populações, quais seriam as diferentes "normalidades". 

                                           ***

Um exercício de imaginação: como seria aconselhar nosso atual Presidente em termos éticos e políticos? Impossível... 



 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Biopoder de Foucault e a pandemia

Como não poderia deixar de acontecer, Foucault ainda é alvo de louvor cego ou de cega execração. Ora, nem uma nem outra das avaliações se aplicam ao filósofo.

Se episódios de sua vida são de fato notoriamente condenáveis moral e socialmente? Sim. Se seu pensamento vale ser pesquisado e exposto? Sim.

Em seus 14 cursos no Collège de France é possível extrair noções que Foucault utiliza nas obras publicadas e há nessas aulas igualmente estudos eruditos, por vezes maçantes e repetitivos. Um dos conceitos chave para entender o filósofo e sua importância (o que não significa especializar-se nele e insistir em análises sem fim como ainda o fazem alguns "intelectuais"), é o conceito de biopoder

Bem conhecido é o conceito de poder soberano, e sobre este se debruçaram por exemplo, Rousseau e Hegel. O poder absoluto do monarca se dava pela condição que ele detinha de fazer morrer ou deixar viver, sendo que não se tratava de um apoio ou cuidado com relação à vida dos súditos mas apenas uma decorrência de seu poder de matar.

Como em todas as análises, Foucault remete às mudanças de fins do século 18, século 19. Na análise do biopoder, a mudança se deu no século 19. No direito de fazer viver e de deixar morrer, a vida é levada em conta para  se exercer o poder plenamente, acrescida ao poder disciplinar exercido sobre o corpo vigiado e punido. O biopoder não se dirige ao indivíduo para dele extrair forças, mas à vida não a de cada um e sim a da população, aos fenômenos gerais como taxa de nascimento, morbidade, doenças endêmicas, e de como questões econômicas e do trabalho são afetadas por problemas de saúde. Em suma, como a vida em geral se torna fator essencial para governar a população. Um exemplo disso são os sistemas de proteção à saúde e ao trabalho, a seguridade social.

E a pandemia, como ela entra nesta análise?

No distante ano de 1976, a última pandemia registrada fora a da gripe espanhola, e Foucault se refere a pandemias como mais longínquas ainda, as medievais. Numa pandemia "... a morte que se abate brutalmente sobre a vida", diz ele, em contraposição às endemias, "a morte permanente, que se introduz sorrateiramente na vida, a corrói perpetuamente, a diminui e enfraquece". A biopolítica exige práticas como higiene e medicalização da população, questões como natalidade e morbidade. Ela visa igualmente as anomalias físicas e mentais.

Como se pode ver, a pandemia não é controlável pelo biopoder, a política de manter a vida saudável e produtiva e assim governar de modo ótimo a população, simplesmente não serve para controlar pandemias.

E essa é nossa atual situação. Pandemias não são reguláveis, obviamente, incontroláveis.

As medidas de fechamento batem de frente com o tipo de governo, o tipo de poder público, entre elas saneamento, vacinas, medicamentos, prevenção. O biopoder é incapaz de lidar com e de abater uma pandemia. Daí as extremas dificuldades e dúvidas. O que seria mais eficiente para controlar a praga que se abate e derrota a vida, derrota os sistemas públicos e privados de saúde, desafia os grandes laboratórios, e paralisa a economia, bestializa certos governantes, faz sofrer famílias, semeia a desconfiança, e revira, revoluciona o que a modernidade conseguira vencer ?!

Regimes violentos se tornaram mais raros e expostos à crítica pública, governos cruéis e racismo de estado (nazismo) foram derrotados por meio de guerra.

E para derrotar a epidemia? Uma corrida sem precedentes pelas vacinas! A medicina se torna o poder acima de governos e de regimes. Restaria para os pensadores e filósofos, se debruçarem sobre a nova realidade, para além do poder disciplinar, para além do biopoder, e, ao mesmo tempo apostar todas as fichas no discernimento de governantes (não é o caso do Brasil) e dos recursos da medicina científica, da microbiologia. 

Pela primeira vez em mais de um século, estamos todos no mesmo barco. Que ele não afunde depende de cada um de nós, do compromisso público e da pesquisa científica...


terça-feira, 26 de novembro de 2019

O que é a ética dos atos de liberdade para Foucault? (Ainda sobre as práticas para uma vida feliz)

Foram as pesquisas sobre o pensamento antigo que levaram Foucault a voltar-se para a ética.O que chamou a atenção do filósofo foi a diferença entre o "conhece-te ati mesmo" e o cuidado consigo mesmo. O conhecer-se a si mesmo é o oposto da ascese cristã, quer dizer, do acesso a si o qual paradoxalmente significava a renúncia de sua própria pessoa, que ficaria sob tutela de outro, ao qual devia-se obediência.
A ética antiga propõe algo diverso, uma "construção de si", entre os filósofos cínicos cultivavam-se práticas de ascetismo que levavam a provar sua resistência, sua coragem e força (não no sentido físico).
Recuando a Platão, um dos conceitos-chave é o da "vida verdadeira", sendo que verdade neste contexto não se identifica com verdade de enunciados ou de proposições, e sim a dos modos de conduta: não dissimulação no modo de falar, veracidade para evitar opiniões e aparência, adoção de um discurso reto, em conformidade com as leis, e que não possa ser revertido ou derrotado.
Na concepção platônica, seria o verdadeiro amor, autêntico, incorruptível, aquele da verdadeira vida.
Para Sócrates, cuidar de si é cuidar de sua alma em oposição aos cuidados com o corpo. Trata-se de uma metafísica, a da alma que é o fundamento ontológico do ser do homem, e daí provêm as regras de conduta. "Cuidar de si", "ocupar-se consigo", essa é a temática de Sócrates, o permanente e completo exame de si, o cuidado consigo.
Para que conclusões Foucault foi levado com estes estudos detalhados da cultura antiga?
Seu propósito foi evidenciar o quanto somos devedores de nossa própria cultura, em que medida ela se enraíza na cultura grega e como esta se transforma na cultura cristã, que radicaliza a noção do exame de si, mais particularmente, do exame de consciência.
O raciocínio de Foucault é o seguinte:
Se foram inventados métodos e regras para nos constituirmos como sujeitos pensantes e responsáveis, esse é um legado histórico. Poderia ter sido tudo muito diferente, portanto, podemos inventar novos modos de nos constituirmos, de nos transformarmos, de aceder ao nosso "interior", de analisar, ou melhor, de criar algo diverso das análises que implicam em confessar aos que são capazes de nos diagnosticar, e sermos mais livres e criativos.
Daí uma ética dos atos de liberdade, capacidade de aderir ou não em total consonância com nossos próprios valores e propósitos. Ganhar uma autonomia tal que ela seja um tipo de garantia de que nosso agir seja movido e motivado pela recusa do que está aí, pronto, tomado como evidente, obrigatório.

Difícil mas não impossível modo de ver e de viver, livre, liberto e autêntico.
Pergunte a si mesmo: as coisas precisam realmente ser assim?!
Ou posso mudar algo???

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Filosofia Contemporânea (II)

Como dissemos na postagem anterior, destacam-se ainda na Filosofia Contemporânea o existencialismo e pensadores independentes.
O existencialismo, Sartre: a diferença entre o ser em si que são simplesmente as coisas e a existência humana como escolha, liberdade e ação consciente, saem do próprio nada que vem ao mundo por meio do homem e seus projetos. Isso leva à total responsabilidade, à angústia da plena liberdade da existência, sem Deus, lançada por acaso no mundo. Ignorar a liberdade e o engajamento pessoal diante das escolhas seria delegar ao outro o que cabe a mim somente. Eu que nada sou tenho que realizar o sentido de minha existência, devo decidir e me responsabilizar pelas decisões.
Heidegger: caracterizam o pensamento do filósofo o rigor, a crucial importância dos primeiros filósofos, a existência humana como ser-aí no tempo e tendo que se haver com a sua finitude, o ser-para-a-morte. Num segundo movimento, Heidegger dá uma guinada em direção ao Ser já não mais do homem e sim da força plena que se abre para o homem por meio da linguagem. E ainda o desvelar da verdade. Verdade com a qual teve que se haver devido ao seu comprometimento com o nazismo. Reconheceu que nazismo nada tinha a ver com a força vital do Ser.
Wittgenstein: hoje chamaríamos o filósofo de gênio multitarefas. Inventor, lógico, matemático, metafísico, antimetafísico, destaca-se pela originalidade de suas propostas, que foram como que arrancadas com esforço e exigências autoimpostas. Como solucionar a questão do sentido se precisamos da nossa linguagem para justamente obter sentido? Se precisamos de formas que a linguagem oferece, podemos utilizá-las como escada atirada fora ao final do processo? Ou a alternativa não seria permanecer com os usos diversos da linguagem ("jogos de linguagem") em situações absolutamente ordinárias de nossos modos de vida? Wittgenstein deu a si e à Filosofia essa última tarefa: não quebrar a cabeça com enigmas que nós mesmos colocamos, dissolver problemas filosóficos na vida cotidiana.
Foucault: quais foram e quais são os artifícios inventados por diferentes tipos de saber que resultaram nesse tipo de sujeito submetido a normas sem origem nobre, ontológica ou metafísica? Foram "saberes de pouca glória" e práticas que passam batido pelos filósofos. Para reconhecer seu papel, há que ir para a história, para a produção de recursos não os das grandes causas econômicas ou sociais, mas as invenções como circulação de mercadorias, tipos de penalidades, discursos médicos, asilo psiquiátrico, exame e enquadramento a fim de obter certo tipo de comportamento, efeitos do dizer verdadeiro. Enfim, fazer-nos entender do que somos afinal feitos e refeitos. E assim visualizar brechas de liberdade e de reinvenção de si.

domingo, 13 de maio de 2018

A ética dos atos de liberdade de M. Foucault

As duas últimas obras publicadas por Foucault, o foram no ano de sua morte, 1984. Os títulos indicam que o tema é a história da sexualidade, mas não havia sexualidade no sentido biológico, médico, psicológico e psicanalítico tal qual desde o século 19 se compreende, nem para os gregos antigos e nem para os latinos do século 1 e 2 de nossa era.
Para os gregos tratava-se dos aphrodisia, quer dizer, dos prazeres e de como moldá-los no sentido de seguir hábitos de saúde, observar certo tipo de dieta conforme as estações do ano e a idade, respeitar o jovem efebo em sua virilidade nas relações que hoje chamaríamos de homossexuais. Ora, justamente, esse é um termo de ajustamento de condutas seguindo normas, próprio da modernidade.
E esse modo de avaliar a sexualidade em termos de normal e anormal sugere que a moral e a ética da carne, do pecado, das transgressões que nasceu com o cristianismo, se prolongou até hoje. Mesmo as tentativas de liberação, nada mais são do que o reconhecimento de que sexo é reprimido.
Para Foucault, não se trata de repressão e sim de uma pletora discursiva. Fala-se, às vezes veladamente, mas fala-se de sexo o tempo todo.
A ética grega e latina se dava em outra perspectiva. A da liberdade e autonomia sem que sexo fosse a questão dominante. A medicina oferecia conselhos para a prática mais prazerosa e oportuna, inclusive o regime do não desperdício nas relações sexuais.
Mas, o que essas práticas têm a ver com atos de liberdade, como cerne da ética?
Ao contrário de Marcuse que propusera liberar a sexualidade como forma política de emancipação, o eros não é central para Foucault. Quais seriam, pergunta ele, as práticas de liberdade que usaríamos para definir prazer, relações eróticas, amorosas e passionais? A ética como práticas que envolvem atos de liberdade, assumidos pelas pessoas e não impingidos por códigos e preceitos, com regras que definem o que é permitido ou proibido, tampouco a fala nos consultórios para extrair o sexo reprimido.
O modelo seria então, o dos gregos da antiguidade clássica: o justo meio, a modulação de seus atos em um estilo pessoal de vida, que poderia ser resumido na pergunta:"O que eu quero para mim?"
O difícil seria entender que não se trata de um "tudo vale", pois é preciso ser o dono de si, ter domínio sobre si mesmo, justamente, "a prática refletida da liberdade", uma arte de viver, e de viver bem. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O que é discurso para Foucault?

Discurso não é simplesmente uma fala, não é simplesmente linguístico, nem um enfático pronunciamento. Tampouco provém de uma infraestrutura econômica, nem baseado em ideologia. Foucault não fez história das ideias, nem se preocupou com a evolução histórica em termos de causalidade.
Discurso para Foucault se forma não só com palavras e conceitos, pois seus enunciados são de fato ditos por quem de direito assume o lugar de sujeito. Como são práticas que ordenam o saber de uma época, podem ser avaliados por seus efeitos que se disseminam e se constituem pelas instituições, costumes, certos objetos que surgem em dada configuração de saber, as chamadas "epistemes".
E isso sem nada de transcendental, sem buscar causa definitiva ou superior, sem invocar o ser nem o nada, sem ambição de fazer ciências, de encontrar um método geral e definitivo. Pelo contrário, pesquisa em arquivos históricos, em geral anônimos, não para detectar se são verdadeiros ou falsos, e sim para mostrar seus usos.

Foucault foi criticado pelos marxistas por desprezar as forças históricas da evolução dialética dos modos de produção, por esquecer das lutas de classe, e assim compactuar com o "status quo", quer dizer, com o poder das classes dominantes.
Ora, isso é no mínimo risível, pois justamente seus estudos, os documentos e arquivos que ele recolhe, têm sua própria singularidade, são específicos, são acontecimentos que não requerem uma interpretação definitiva, ideal, que pudesse, por assim dizer, guiar o destino humano, dar um sentido geral para a história.
A história é obra humana, e transformá-la em dever ser, funciona como refúgio, como panaceia, como se nós devêssemos seguir um guia geral, uma fórmula para acabar com todas as diferenças, estas vistas como prejudiciais, malévolas.
A questão é que os discursos, as formações discursivas não retratam o mais geral, nem conduzem a soluções grandiosas. As formações discursivas trazem a tona temas, conceitos, os modos como certos discursos são atribuídos, circulam, quais instituições se apropriam deles, como são distribuídos, quais são seus efeitos.
Assim, verdade deixa de ser concebida como única, preciosa, confirmada, para ser algo produzido por discursos. O que e como certa época vê, trata, interna ou não, ouve ou não, concebe ou não como anormal, por exemplo, se mostra justamente na escavação que Foucault fez das práticas discursivas, dos dispositivos de saber.

E isso o que é? Filosofia? Ciência? História? 

Isso é pesquisa histórica, uma cartografia com resultados que dão o que pensar, uma reflexão sobre a condição humana. Como? Pela análise das técnicas, comportamentos, instituições e suas transformações, os efeitos no modo de constituição de nossas formas de existência, de pensamento, de exercício da liberdade, de fazer leis, de governar, enfim, de como produzimos não só coisas, mas também verdades, valores, corrigimos comportamentos, examinamos corpos, e vários outros procedimentos.
Enfim, uma história dessas práticas "pouco gloriosas".

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A "História da Loucura", o que Foucault quis dizer?

Importa ressaltar antes de tudo, que essa obra, fruto de seu doutoramento, aborda tema inusitado entre filósofos. Por que Foucault escolheu o tema da loucura?
Porque ele viu de perto como se tratava, como se lidava com a doença mental pela psicologia e pela psiquiatria de fins dos anos 50. A tese foi publicada em 1961, é longa, mais de 500 páginas de pesquisa impressionante. O que não será novidade em suas futuras obras, baseadas em documentos da época, que ele traz para a luz do dia em leitura fascinante e original.

Na chamada idade clássica, fins do século 16 até metade do 18, na Europa, especialmente França e Inglaterra, houve uma mudança no modo de lidar com a loucura. Antes os loucos eram os que perturbavam, e seguiam destino errante nas naus, de cidade em cidade. 
Bosch, paisagem das delícias, século 15
Mais tarde passaram a ser internados com pobres, desocupados, e mesmo presos políticos da Revolução Francesa.Os furiosos eram acorrentados, as condições terríveis. Quem os mandava prender? A própria família e os encarregados da ordem pública. 
Internamento, sob correntes

A verdade sobre a loucura ainda não era questão, saber o que e quem era o louco não eram problemas. Em fins do século 18, com a produção econômica suficiente para surgirem as primeiras fábricas, os pobres úteis se tornaram mão de obra, os presos políticos se rebelavam, houve um movimento de beneficência do estado que levou a nova mudança: deixem os loucos mais livres, essa liberdade poderá servir de tratamento, até de cura.
Foucault demonstra por meio de documentos que quando Pinel liberou os loucos do Hospital Geral (Bicêtre), não foi um puro gesto humanitário. Foi um gesto próximo ao da consideração de que é possível retornar à calma com outros meios: banhos, passeios ao ar livre, uma condução de seu comportamento, como se o louco tivesse que ser protegido dele mesmo.
Pinel liberta os loucos
O que Foucault pretendia mostrar foram essas transformações: ao mesmo tempo que separa os loucos de outros, a loucura fica restrita a um espaço e a um olhar objetivos, daqui para frente, médico.
O asilo é o lugar para curar e aliviar a loucura, sob vigilância beneficente.

"É essencial para a possibilidade de uma ciência positiva do homem que exista, do lado mais recuado, esta área da loucura na qual e a partir da qual a existência humana cai na objetividade".

Quer dizer, o fato de se constituir uma ciência é ao mesmo tempo alívio e prisão. Não a das grades mas a do saber positivo.Qual é a mensagem?
Grande parte dos especialistas em Foucault afirma que ele denuncia a violência, que ele critica o hospital, as escolas, as prisões, que ele pretende sua eliminação; para os leitores mais radicais, que o filósofo faz juízo moral, que ele condena todo tipo de repressão e de alienação. Se há esse lado do protesto na obra de Foucault, há o outro lado, mais difícil de perceber.
Suas pesquisas retratam nossas práticas muitas delas violentas outras suaves, em sua maioria toscas invenções para lidar com nossas dificuldades. Isso mostra que nós, quando lidamos conosco, somos no mínimo... humanos.
Nossa existência, sob essas mutações do saber ocidental, nada tem de grandioso, verdadeiro, sublime. São mudanças com a eficácia possível e desejável pelo tipo de sociedade que construímos.

terça-feira, 31 de março de 2015

Foucault não é da esquerda marxista!

Socialismo, comunismo, esquerda marxista, nenhum desses rótulos, ideologias ou concepção política cabem no pensamento e no ideário de Foucault.
O comunismo, com Stálin, matou mais do que Hitler no auge da eliminação de judeus e outros povos pelo chamado nacional socialismo, leia-se nazismo. E intelectuais que se prezam não podem ignorar a miséria do comunismo, o autoritarismo, a violência, a irracionalidade e inaplicabilidade de seus "princípios".
Considerar que Foucault é de esquerda, é impingir a ele um credo na transformação revolucionária por meio do poder do proletariado, ou hoje em dia, pelo poder dos trabalhadores, dos sindicatos, e no Brasil, do PT, do PCdoB, do MST. Estes são sectários, acham que o capitalismo é o sistema responsável pela pobreza, que os bancos especialmente os internacionais e os conglomerados industriais e financeiros devem ser eliminados, e nunca, nunca esse tipo de bandeira foi levantado por Foucault.
Foucault estudou a história da loucura, das ciências humanas, das prisões, da sexualidade; analisou o modo como aos poucos foi se constituindo um tipo de poder apaziguador, para governar e manter sob obediência populações, torná-la governável, portanto é preciso controlar desvios, desmandos, anormalidades. O Estado e sua conservação, dependem de governar populações, gerir a vida, a saúde, o comércio, e isso repercute no comportamento, no condicionamento de práticas, inclusive a "produção de verdade" e de nossa subjetividade.
O marxismo concebe a história como luta de classes, Foucault não. Nem passa pela sua cabeça a dialética da contradição social e econômica, condição de uma futura revolução social. 
Sua fontes de inspiração são Nietzsche, o estruturalismo francês, Canguilhem (historiador da biologia), os poetas malditos, como G. Bataille. Evidentemente conhecia a literatura marxista, mas dizia que Marx teve seu mérito em propostas e críticas para o capitalismo do século 19, e fora desse século "era como peixe fora d'água".
O capitalismo sofreu várias transformações, a riqueza tem se concentrado, bancos investem no próprio sistema, há muita pobreza, miséria, doenças, sofrimento, mas impossível eliminar trabalho, investimento, produção, circulação de riqueza e de bens, relações comerciais internacionais, e os diversos fatores da economia nacional e mundial. Regras e legislação existem, nem sempre são respeitadas.
Os poucos exemplos de países comunistas, com concentração do poder no Estado, foram violentos. Na antiga URSS houve morte, exílio, perseguição política e banimento da liberdade de credo, de pensamento, de crítica. Idem na China de Mao, e esta teve que se reinventar para que bilhões não morressem de fome.
E que dizer de Cuba, da Coreia do Norte? A pretensa igualdade produz déficits de todo tipo, humano, social, econômico. 
Se você preza sua liberdade de ir e vir, de pensar, de ser isso ou aquilo, de criar, de produzir, de instruir, de inovar, fique longe do comunismo/socialismo/marxismo.
Assista o vídeo do MST destruindo pesquisas científicas em nome da agricultura familiar. E o PT apoiando, aplaudindo, ao mesmo tempo em que precisa dar conta do mundo real...
Ah, Foucault daria boas risadas!

sábado, 4 de maio de 2013

O que Foucault diria sobre o casamento gay?

É provável que ele seria contra o casamento gay, mas evidentemente que não pelas razões do pastor Feliciano!
O pastor se baseia em um credo pentecostal que condena o homossexualismo. Inclusive, pasmem, a última proposta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é excluir do código dos profissionais de psicologia cláusulas sobre o homossexualismo. Uma dessas cláusulas diz que não se trata de doença, portanto, longe de precisar de cura. Isso foi um grande avanço, significa respeito pela pessoa, justamente o que a Comissão de Direitos joga no lixo.
Deputado da discriminação de minoria na Comissão de Direitos Humanos e de Minorias, mais um subproduto gerado no Congresso Nacional

Voltando a Foucault, o filósofo da história da sexualidade, o filósofo que enfrentou pessoalmente preconceito por ser gay, morreu com aids, a chamada "doença gay" na década de 80; o filósofo que denunciou a violência dos hospitais psiquiátricos e da prisão; o filósofo que destrinchou o poder do saber médico, psiquiátrico, psicológico com seus "tratamentos"; o filósofo que viu nesses discursos, práticas e políticas das quais nasce um tipo de subjetividade passível de correção, de disciplina, de normalização, de punição; o filósofo que viu na sexualidade não uma pulsão reprimida (como em geral a vê a psicanálise), mas sim resultado de dispositivos para encaixar desejos, comportamentos, prazeres, em um esquema de verdade; o filósofo para o qual a verdade não é a descoberta de fatos, a verdade é constituída por discursos, por normas, por práticas do cotidiano; a verdade também se instala mesmo em instituições, como o hospital psiquiátrico, justamente o caso do homossexualismo tratado e tratável por ser doença (física, mental, psíquica!?), e mesmo aberração. Enfim, Foucault foi um dos primeiros e principais pensadores a defender publicamente a causa gay.
Foucault (1926-1984) em seu gabinete de trabalho

Pois bem, poderia então Foucault ser contra o casamento gay, como estamos especulando?
Sim, em nome da liberdade de optar por estilos de vida alternativos, por políticas de afirmação não do sexo, nem da sexualidade, e sim de viver com mais liberdade, estilos de vida em que importam mais o prazer, a amizade, as relações afetivas, do que analisar que tipo de desejo seria esse ou institucionalizar a relação

A avaliação moral, médica, jurídica ainda é responsável pelo exame, pelo escrutínio desse "tipo de vida". O homossexual tem sido condenado por credos, e até mesmo por leis, seu comportamento é condenável pela moral burguesa, execrado pelo moralismo de certas religiões, perseguido e exposto à violência de fanáticos. Ele ainda é classificado como se classificam doenças e animais... 

Sendo assim, o casamento gay realmente levaria a superar ou pelo menos enfrentar todos esses problemas? Dificilmente.
Casamento é uma instituição, ele surge com o que Foucault chamou de "dispositivo de aliança". A família moderna ainda sustenta esse dispositivo, que cerca de cuidado seus membros e restringe o sexo ao leito conjugal, à procriação. 
Ou seja, casar implica em institucionalizar uma relação que, segundo Foucault deveria representar, pelo contrário, certa rebeldia, até mesmo beirar certo anarquismo. "Segundo Paul Veyne, nos últimos meses de vida Foucault costumava conversar sobre essas estilizações da vida, esses trabalhos de si para consigo mesmo para constituir um eu fora dos modelos e dos códigos impostos" (ARAÚJO, 2008, p. 179).

Assim, o argumento de que o casamento gay confere direitos como herança, igualdade, reconhecimento social, etc.,  não seria ceder à uma pressão da sociedade? Talvez Foucault respondesse afirmativamente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Segurança, prisão e liberdade

O modelo prisional norte-americano vem de longa data. Mais precisamente 1790, estado da Filadélfia. Esse modo exclusivo e cada vez mais aperfeiçoado de punir, desde as menores infrações como beber na rua, ultrapassar limite de velocidade, portar e usar drogas ilícitas, mesmo a denúncia de que bate nos filhos, até o latrocínio e assassinato. Nada fica impune.
Prisão em Nova York: nos EUA há 304 milhões de habitantes e uma população carcerária de 2.3 milhões

A população carcerária nos EUA é a maior do planeta. O orçamento com segurança, fora gastos militares, é gigantesto. Uma briga entre prisioneiros, por exemplo, é captada por câmeras, os envolvidos são  julgados, o culpado é punido pelas regras internas com um ano de solitária.

Aeroportos são vigiados, todos os passageiros são "filtrados". Nos locais onde transitam muitas pessoas, o lixo é recolhido para ser examinado.
O preço a pagar para haver segurança, é, portanto, bem alto.
Ao mesmo tempo a democracia se enraizou nas instituições e os cidadãos se consideram livres e responsáveis.

Por que em uma sociedade democrática e liberal a prisão é o tipo quase exclusivo de punição até hoje?

As sociedades de segurança que emergiram com o aumento da produção e da população, instituíram não só um sistema carcerário rígido, como outros meios para assegurar que indivíduos pudessem ser moldados por instrumentos aparentemente não violentos, como analisa Foucault em Vigiar e Punir. O espaço ocupado pelo corpo em escolas, no exército, em hospitais, nas fábricas, desde meados do século 18, permite examinar, vigiar e punir indivíduos, facilmente detectar gestos e comportamentos desviantes da norma, e aplicar corretivos. Assim, todos são induzidos a responder às instruções, às ordens, aos medicamentos, ao aprendizado e rápida e eficazmente operar máquinas.

Enquanto escolas se tornaram também espaço de criação pessoal, os exércitos se sofisticaram por meio da tecnologia, hospitais refinaram métodos de detecção e cura de doenças, fábricas passaram a empregar maquinário que automatiza a produção - as prisões, em contraste, pouco mudaram.
Além da vigilância central, câmeras. Mas o regime prisional como um todo ainda visa observar, regular, recuperar, controlar, corrigir e restringir a ação e o comportamento para obter obediência estrita.

No Brasil, com exceção de prisões de segurança máxima, a situação em que se encontra a maioria dos cárceres é bárbara. Corrupção, violência e o resultado: nem punição, nem correção e nenhuma confiança da sociedade nesse sistema punitivo.

Prisão Central de Porto Alegre

Assim, haver uma relativamente alta segurança, depende de um sistema carcerário bastante sofisticado apoiado por instituições judiciárias e policiais que fazem parte do cotidiano e do imaginário social.
E a inexistência ou a precariedade disso, como no Brasil, resulta em insegurança como permanente ameaça. As pessoas se defendem como podem: cerca elétrica, vigilância privada, vidros escuros e toda uma parfernália para evitar furto, roubo e morte.

Não há saída, não há a possibilidade de segurança com mais liberdade?  Como evitar a impunidade e, ao mesmo tempo, cultivar a sociabilidade?

Alguns países encontraram essa saída em mais igualdade de oportunidades e educação, sempre que elas caminham juntas e uma reforça a outra.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O que diz Foucault a respeito do neoliberalismo

No curso Nascimento da Biopolítica (Collège de France, 1978-1979) Foucault continua o curso anterior sobre o tipo de governo centrado na razão de Estado. Razão de Estado como uma arte de governar, é analisada por um novo ângulo. Não o da história dos regimes políticos, mas a de uma prática de governar o Estado, com um tipo de racionalidade, de cálculo, responsável, ao mesmo tempo, pela construção do Estado; e isso requer o enriquecimento pelo acúmulo monetário, que ocorrre paralelamente ao aumento populacional e à concorrência entre países. Outro aspecto é a organização policial e um aparelho militar e diplomático para tentar um equilíbrio na Europa. O Estado nada tem do monstro frio, no estilo do Estado absoluto analisado por Hobbes. Ele resulta de um modo de governar que surge no século XVII, bem diferente do modo de governar centrado no poder soberano e teocrático, do período medieval, em que o direito era exercido pelo rei.
No século XVIII ocorre nova transformação, que ampliou e serviu para melhor implantar a razão de Estado. Não é possível governar sem a economia política, é preciso organizar, distribuir e limitar os poderes, manter certo equilíbrio para haver concorrência. Os governos despóticos serviam muito bem ao controle e expansão da economia. No lugar de questionar a legitimidade de suas práticas, esses governos precisam controlar os efeitos de suas práticas para serem bem sucedidos, algo tipicamente utilitarista.
A pergunta que os governantes se fazem é: será que eu governo bem dentro desses limites do que é necessário para lidar com a natureza das coisas?
E isso é o liberalismo, ele requer a criação de métodos próprios para definir os limites das práticas de governo. A abordagem de Foucault não envereda pela costumeira crítica (e condenação) ideológica de governos. Ele faz análise histórica das práticas de governar.
Neste sentido, o liberalismo que nasceu na segunda metade do século XVIII, permanece nos governos europeus dos anos 60 e 70, diz Foucault.
O mercado regula preços por meio de seus "mecanismos naturais". O poder público intervém para aparar os efeitos de mercado não desejáveis para a própria capacidade de governar. Qual é o valor em termos de utilidade do governo e de suas ações, em uma sociedade em que a troca determina o verdadeiro valor das coisas?
O neoliberalismo propõe não apenar deixar o mercado ordenar-se naturalmente, como o liberalismo, mas ainda que os governos sigam regras institucionais e do direito. Assim se instaura uma ordem social regrada economicamente pelo mercado. Há uma valorização da "empresa" como principal agente econômico. Nasce assim, segundo Foucault, uma nova arte de governar, que atende ao chamado "capital humano", certo nível de emprego, de renda, de saúde da população, isso tudo é necessário para o Estado funcionar. E também indivíduos treinados, aptos a desempenhar o papel de "empreendedores de si mesmos".
Essa é nossa atual "arte de governar": mercado, regras institucionais, indivíduos produtores e, claro, consumidores. A cada crise, é isso que governos precisam salvar para manter a concorrência e a produção. As ações se transformam em "desafios". Desapareceram termos para analisar e propor metas, como "dificuldade", "problemas" e os planificadores, os empreendedores preferem o termo esportivo, concorrencial "desafio".
Viver se tornou uma corrida de obstáculos!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

sobre a noção de sujeito

Todos nós, seres humanos, temos consciência de nós mesmos, sabemos que podemos escolher, imaginar, falar, lembrar, raciocinar, exceto no sono, ou em alguns estados excepcionais (sob efeito de uma droga, por exemplo).
Essas atividades conscientes de uma pessoa, foram eleitas por muitos filósofos desde os gregos até os modernos, como pertencentes ao sujeito. "Conhece-te a ti mesmo", foi, talvez, a primeira tentativa de pôr o sujeito no centro do conhecimento, da ética, e do valor da pessoa humana. Nesse preceito do oráculo, Sócrates via a missão por excelência do filósofo, o autoconhecimento como salvo conduto para desempenhar as funções de cidadão na polis.
Mas ainda não era do "eu", da interioridade, da biografia pessoal que se tratava. Santo Agostinho (354-430), diferentemente da filosofia antiga, escreve e medita sobre sua vida, o que fazer, como fazer, e para tal examina-se e se arrepende de seus erros. A existência de si como sujeito é evidente, pois, mesmo se ele pudesse se enganar, há alguém que se engana, cuja existência é incontestável.
O ponto de partida de Descartes foi o sujeito: "eu penso", pensando, existo, essa certeza fundamenta todo tipo de conhecimento.
Partir do eu, do sujeito que existe e existe como ser pensante, foi a alavanca das filosofias da consciência
O problema dessas filosofias é o beco sem saída, chamado em filosofia de aporia (verdade calcada naquilo que pretende provar, um círculo vicioso) em que elas se enredam: para ter certeza de sua própria subjetividade, é preciso pressupor que o sujeito se conheça, e para isso, o sujeito se põe como objeto para ele mesmo. Ora, como objeto, deixa de ser sujeito.
Foucault em As Palavras e as Coisas (1966), analisa a virada da soberania do sujeito das filosofias da consciência, para a nova formação de saber (século 18), que leva em conta as circunstâncias que constituem o sujeito, como a linguagem, os produtos do trabalho e a vida; além desses fatores que não podemos modificar pela magia da consciência, há o inconsciente e as diversas culturas que nos moldam. Em  A história da sexualidade - A vontade de saber (1976) Foucault vê no dito socrático o primeiro passo para repartir entre o autoconhecimento e o oposto, simplesmente viver com prazer, cuidar de si. A lição socrática aos poucos se transformou em necessidade de examinar sua consciência, seus desejos, o mais fundo do eu, e aprisioná-lo pela vontade de saber. Por que esta vontade não é libertadora? Porque ela pressupõe um centro, um comando ao qual de bom grado nos submetemos. Analisa-se tudo: desejos, amor, sexo, a decifração de si. Entrega-se ao especialista, a algum tipo de ciência a tarefa de revirar nosso interior, cria-se um "eu sou um sujeito que deseja".
Dotar o sujeito da capacidade que ele exclusivamente tem de conhecer, de representar o real como fazem as filosofias da consciência, foi um passo para a "invenção da mente" como pura capacidade de um sujeito, privadamente, conhecer o real. A consciência seria o facho de luz sem o qual não há acesso aos objetos. 
Se fosse assim, não precisaríamos da linguagem, da percepção, das distinções entre forma e conteúdo (figura pato/lebre da postagem anterior), da compreensão de significados, das interpretações, do aprendizado, da inteligência, da sensibilidade.
Como se vê, é possível dispensar o "eu penso", o sujeito soberano, a mente como substrato das ideias. E ficamos com pessoas, sua liberdade, sua dignidade, suas capacidades.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quando e porque Sartre brigou com Foucault


Foucault (1926-1984) e Sartre (1905-1980), ambos filósofos franceses, que muitas vezes lutaram pelas mesmas causas na política interna da Fança, estavam em lados opostos em suas concepções filosóficas. Em temas como o marxismo, o sujeito humano, sua existência, as ciências humanas, a teoria sobre a história - a disputa foi acirrada.

Sartre e Foucault nos anos 70, vendo-se atrás deles Deleuze

Sartre discordou da análise de Foucault sobre a história, este "esqueceu a história", pois não diz como os acontecimentos se transformam em função do movimento dialético (veja postagem sobre a dialética marxista). E pior, Foucault "matou o homem", que não passa de um sujeito assujeitado e constituído por saberes de certa época. Quer dizer, Foucault despreza a dignidade e a liberdade humanas. Os estruturalistas visam constituir, sempre segundo Sartre, uma nova ideologia, burguesa, se recusam a prestar atenção às relações de produção, à praxis e consideram que a estrutura da linguagem é mais importante do que a história material e social. Ora, argumenta Sartre, a linguagem é inerte, uma rede de oposições e de regras, de onde o homem está ausente.


Em suma, para o existencialismo sartreano, que aos poucos se tornou um marxismo sartreano, sem o homem concreto, abolindo sua existência e a história dos modos de produção que o transformam, Foucault comete, proclama Sartre "um escândalo lógico". O homem é mais do que as estruturas que o condicionam.


Foucault sustenta algo muito diferente. Para ficarmos só com As Palavras e as Coisas (1966), para ele a história não é feita de passagens, mas de cortes, diferentes práticas de saber para falar, para situar e lidar com os acontecimentos. Acontecimentos são fabricados, inclusive esse humanismo que vê o homem como pura existência, genérica. A história produz lutas, mas muitas delas nada têm a ver com classes sociais. O próprio marxismo surgiu de condições históricas, Marx é um peixe nas águas do século 19, há que compreendê-lo e lê-lo nesse "ambiente". Ele escreveu sobre uma dessas situações históricas: conflitos no nascimento do capitalismo moderno. Conhecimentos só podem nascer de circuntâncias que os homens produziram, o que, diga-se de passagem, Marx sabia. O que ele não sabia, tampouco Sartre, é que não há nada por detrás, nem um projeto de avançar para o socialismo, nem a existência como essência do homem.


Foucault não pretende que uma ideologia deva servir à revolução de que classe for. Não há revolução de classe que acabe com as diferenças, com ciências que marcam e classificam, como a psiquiatria. As transformações históricas não têm uma causa geral ou única. Foucault não negou a história, ele mostrou que a história pode ser vista de outra forma. Ele não foi um antihumanista, ele foi o cartógrafo dos saberes que permitiram o surgimento da figura do homem como alguém vivo, que trabalha e fala. Essa figura é recente. Se pensarmos no modo como Platão, por exemplo, via o homem - alma imortal presa a um corpo, e como nós hoje nos pensamos, e como certos saberes nos produziram como seres finitos, sujeitados a normas , a técnicas, a ciências, nada disso nos "humaniza", tudo isso nos tiraniza.

Na entrevista em que Foucault, com 38 anos, rebate a acusação de Sartre de que ele despreza a subjetividade e o humanismo (um dos escritos mais difundidos de Sartre chama-se , aliás, O existencialismo é um humanismo), Foucault responde: o esforço feito pela nossa geração não é o de reivindicar o homem contra o saber e contra a técnica, mas o de mostrar que nosso pensamento, nossa vida, nosso modo de ser, até o mais cotidiano, fazem parte da mesma organização sistemática, dependem das mesmas categorias que regem o mundo científico e técnico.

O que ele quis dizer com isso? O homem não tem uma essência pura, ele não está salvo se o livrarmos dos condicionamentos. Em nossa época predominam os saberes técnicos, das várias ciências, a tecnologia. DNA, exames, testes, diagnósticos, controlar, produzir, empreender, obter sucesso, comunicar -, é isso que nossa "humanidade" carrega.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Foucault revoluciona a noção de sujeito, de história e de governo


A noção de sujeito para Descartes é a de pessoa com uma mente autoconsciente e a de um corpo como uma máquina; a de Kant é a de pessoa dotada de liberdade de decidir, absoluta, incondicional, e também de capacidade racional para pensar o real por meio de formas invariáveis, que possibilitam conhecer tudo o que está no tempo e no espaço, que tem uma causa e pode ser determinado.
Pois bem, Foucault tem outra noção de sujeito. Ele pensa um pouco como Nietzsche, nada além de atos e práticas que pertencem à história pode nos constituir, seja para pensar, seja para agir, seja para valorar. Sujeito e história se constituem um ao outro. Como?
Foucault, sem negar que é possível entender a história humana pelas guerras, nações que nascem e morrem, grandes líderes, grandes descobertas -, inaugura outro modo de olhar a história. Ele analisa acontecimentos que passam batido, como a história da loucura, história do surgimento da clínica médica, do nascimento das ciências humanas, da sexualidade, dos modos de constituição do sujeito, da violência nas prisões, do hospital psiquiátrico, das modificações no governo de si mesmo e no governo dos outros.
O modo de abordar tudo isso também é inédito:
- Pelas práticas discursivas, por exemplo: a produção de verdade de tipo classificatória, que põe os seres em um quadro geral como a história natural de Lineu, século 17; isso sofreu uma mutação com Darwin: não mais um quadro estático, mas evolução natural. No século 18, novas práticas discursivas fazem surgir novos objetos de saber: a vida que evolui, as gramáticas e suas regras para que haja línguas, e os modos de produção pelo trabalho.
- Pelas práticas não discursivas, exemplos: o hospital psiquiátrico que encerra o louco e permite um saber sobre a loucura que se torna objeto médico; a forma prisão de punir, que reúne saber sobre o delinquente e um tipo ágil e rápido de poder, que requer o exame, a vigilância, o isolamento celular. Não mais o corpo orgânico, mas dobrar, corrigir, modificar o comportamento individual (fins do século 18);
- Pelas práticas de governo dos outros: o antigo soberano governa súditos e tem o poder sobre território; o Estado moderno surgiu de práticas de governo sobre populações, é necessário atuar sobre a saúde, o meio, a produção, o mercado. Deixar o mercado agir livremente numa ponta e na outra manter a população governável, cuidando de cada um e de todos como o pastor cuida de suas ovelhas. Poder governar na modernidade exige mecanismos de segurança da vida (biopoder).
-Pelas práticas de governo de si: desde o conhece-te a ti mesmo de Sócrates, até o divã freudiano, passando pela confissão dos pecados cristã. Essas práticas nos levam ao domínio de si, ao prazer de escarafunchar o inconsciente, à invenção de uma alma a ser salva.
Enfim, somos pensados, punidos, governados, objeto de saberes, alvo de poderes. Ainda assim, mais livres do que sonhamos, pois somos capazes de enfrentar, denunciar e às vezes até de modificar aquelas práticas!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O que a filosofia permite realizar?

Quando se fala em filosofia, logo vem à mente algo complexo, abstrato e inútil. Coisa da cabeça, dizem. Nada prática.
Na última postagem publiquei a estátua do Semeador para ilustrar a filosofia como ação, como atividade, semear ideias, conceitos, novas visões, modos de nos compreendermos, de avaliar situações e lidar com elas de forma mais investigadora e instigadora.
A filosofia se volta para ela mesma, para a sua história, e repensa seu papel, leva-nos a aprender com a realidade e a apreendê-la, isto é, pensar o real e transformar algo nas pessoas, a semente da pergunta, da indagação.
Ela proporciona conceitos para uma melhor compreensão de três áreas:
1. A ética e a política. O filósofo emblemático é Aristóteles para entender porque ética e política estão relacionadas. A sociedade política é um bem de e para todos, o homem como animal social, tem o senso do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião de pessoas para promover o bem viver; é preciso que o Estado proporcione uma vida feliz e virtuosa, que seja conduzido por um piloto que entenda de navegação. Diz Aristóteles em A Política:
Quando o monarca, a minoria ou a maioria, não buscam senão a felicidade geral, o governo é justo. Mas se visa ao interesse particular do príncipe ou dos outros chefes, há um desvio (p. 93). É impossível um Estado feliz se dele a honestidade for banida (p. 49).
2. A cultura. Vejamos o que diz Nietzsche: é preciso coragem para romper com valores gastos e estabelecidos. Reinventar valores cabe ao poeta solitário, capaz de dispensar a moeda gasta, de associar conceitos às necessidades e atribulações. A cultura sofre, foi banalizada, tudo está a serviço da barbárie, até mesmo a arte e a ciência (cf Considerações Contemporâneas, p. 74). Há que fugir do conformismo, do é assim mesmo, e penetrar nos difíceis caminhos do "eu assim o quis" (moral do forte).
3. As práticas humanas. Nasceram na história, e têm uma história, muita vezes cruel. Foucault mostra que o modo como o sujeito humano moderno se constitui, depende de práticas como as da prisão, hospitais, invenção da psiquiatria, das ciências humanas, que servem para conhecer o homem, e, ao mesmo tempo domesticá-lo. Em Vigiar e Punir Foucault analisa como o saber produz poder instalado em práticas como o castigo para o escolar, a prisão como forma generalizada para punir, o surgimento de instituições que dependem de vigilância. Esse é tema para próxima postagem.
Pensar não é pouca coisa...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Foucault e o conceito de loucura


Em sua tese de doutorado A História da Loucura na Idade Clássica ( 1961), Foucault trata de um tema estranho à academia e que inova no modo de abordar a loucura. Ele a situa na história a partir do século 15, até o tratamento asilar que surge em fins do século 18 e que se transforma no hospital psiquiátrico moderno.


O rosto, os gestos e atitudes da loucura sempre foram reconhecidos, mas o modo de "tratar" e de lidar com a loucura sofreram transformações que seguem ou são criadas por diferentes necessidades sociais e econômicas. Nem sempre o louco foi percebido como doente mental, alvo de intervenção médica. A "Nau dos Loucos" no fim da Idade Média (quadro acima de Bosh), percorria os portos e ora deixava essas estranhas figuras para serem encarceradas, ora seguia com elas de porto em porto, sem que representassem uma ameaça à razão ou à ordem social. Isso só aconteceu mais tarde, com a criação do Hospital Geral, que como o nome indica, encarcerava doentes, vagabundos, loucos. Os mais violentos eram presos a correntes, o chão era feito de tábuas vazadas para que as fezes caíssem na palha.


Prender ou não e quem prender, dependia da falta ou excesso de mão de obra. Olhar e intervir no Hospital Geral se deveu, em parte, aos protestos de presos políticos da Revolução Francesa, que exigiam tratamento diferenciado daquele dado aos pobres e delirantes. Finalmente os loucos foram separados dos demais. Na França, Pinel inaugura o asilo, o mesmo fez Tuke na Inglaterra. A obediência, o rigor disciplinar, o poder do médico de acalmar o doente, fazer com que ele reconhecesse seu "erro", olhar a si mesmo e acabar por admitir que delirava, voltar à realidade, tudo isso põe a loucura num novo patamar, o do olhar objetivador, médico, científico. O louco é libertado das correntes e preso a um novo ordenamento de saber: a loucura se torna doença mental.


O passo seguinte para as instituições psiquiátricas que combinam a hierarquia do asilo com choque, química e intervenções cirúrgicas foi o que o próprio Foucault verificou, logo após se formar em filosofia pela Sorbonne, quando foi voluntário no Hospital Sainte-Anne.


O sofrimento do doente, o internamento, como tratar, se há tratamento, o que é doença mental, como diagnosticar, todas essas questões são hoje levantadas. Não há resposta clara. Há um lado trágico da loucura presente nas obras literárias, na pintura, no cinema. Há outro lado em que se pretende enquadrar como doença sujeita a algum tipo de intervenção.


Em suma, pouco sabemos, somos confrontados com pessoas e seu sofrimento. A situação é melhor quando se recusa o conceito de loucura e se prefere o de doença mental? O que é o físico e o mental? O que é comportamental e o que é experiência pessoal? Com tantas dúvidas, que se tenha, pelo menos, cautela. Para Foucault são acontecimentos na ordem do saber que têm efeitos de poder.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A sexualidade como dispositivo histórico para Foucault


A subjetividade na modernidade ocidental se constitui em larga escala pelo saber de si, pela vontade de saber. Essa vontade de saber é conduzida pelo dispositivo histórico de sexualidade. Esta não é uma pulsão, uma realidade profunda, subterrânea, mas uma rede de estímulo a prazeres, de incitação dos corpos, de intervenções médicas, de discursos, de práticas de normalização que se apoiam uns nos outros e são conduzidos por estratégias de saber e poder. No lugar da sexualidade/pulsão, o biopoder cria uma sexualidade na qual se pode e deve intervir, que é induzida por discursos produzidos em geral na área médica (psiquiatria) e na área da psicanálise. O poder, tal como Foucault o analisa, produz discursos de verdade pelos quais "somos julgados, condenados, classificados, obrigados a tarefas, destinados a certa maneira de viver ou a uma certa maneira de morrer". As ciências da vida, as ciências humanas, as ciências "cartográficas", a estatística, permitem dominar e controlar a vida, a saúde, a sexualidade. O biopoder se constituiu no século 19 em função da necessidade política de moldar e conservar a vida através de tecnologias que criam algo novo para gerenciar, a população; esta é governável, pode ser transformada e regulada. Ao biopoder importam taxa de natalidade, taxa de mortalidade, modos e níveis de reprodução, a fecundidade. O que exige a formação de saberes rigorosos e um controle político cerrado. É preciso examinar, analisar, cuidar e estabelecer os custos das doenças que incidem sobre a população. É nesse campo que o dispositivo de sexualidade tem a função de regular o sexo, restrito ao leito conjugal, vigiado pela família, que, por sua vez é controlada pelos mecanismos do biopoder. Vem daí a novidade na história ocidental, considerar que nossa verdade está escondida num ponto de difícil acesso, a sexualidade, que pode e/ou precisa ser dita, confessada. Por isso a sexualidade é aquilo de que mais se fala, para o ouvido "certo", na hora "certa". A tese de Foucault é a de que há muito mais uma "explosão discursiva" do que repressão. O próprio fato de esconder, de velar, implica revelá-la, tanto faz se é um especialista ou o amigo(a), namorado (a). Sequer percebemos que isso nos prende, nos controla ao invés de libertar. Seríamos muito mais livres fora desse esquema da vontade de saber, novos prazeres, novos estilos de vida nos tornariam mais criativos, menos sujeitos ao controle pelo exame do desejo, mais abertos para o prazer.

domingo, 23 de maio de 2010

Freud explica!?

Não, acho que Freud não explica, na medida em que não há o que explicar sobre o comportamento, os desejos, angústias, temores, valores nossos, dos seres humanos. Toda teoria científica com pretensão de explicar, converter, elucidar e pôr um ponto final em nossas interrogações e conflitos, é falha.
Freud contribui com algumas análises interessantes, como a de que o inconsciente move nossas intenções, que ele é inacessível, que não podemos apreendê-lo. Se conseguíssemos atingir os mecanismos psíquicos do inconsciente, é claro que tais mecanismos passariam a ser conscientes. Então temos apenas pistas do que acontece no mais fundo do nosso psiquismo.
Porém, não foi apenas Freud que supôs que algo desconhecido nos move. Hobbes, no século 17 já falava em forças impossíveis de controlar, como o instinto de conservação. Naturalmente egoísta, o homem luta por mais e mais poder, os fracos sucumbem e os fortes sobrevivem.
O que Freud apresentou como novidade foi a teoria da sexualidade. Somos movidos pela pulsão sexual, a repressão da sexualidade explica, inclusive, haver civilização. O inconsciente é movido pela pulsão sexual , esse impulso é inelutável, está presente em todos nós, da mesma forma e desde sempre, tanto na espécie humana, como em cada indivíduo. Mas o tempo todo ele é reprimido pelo nosso eu e pela sociedade.
Há quem conteste. Wittgenstein não aceitou essas ideias. Freud afirma que sonhos são realizações de nossos desejos. Sonhos, diz Wittgenstein, tanto podem proteger nosso sono, como perturbar, podem tanto preencher um desejo, quanto impedir um desejo. Quantos sonhos são terríveis ou prazerosos! Não há uma teoria dinâmica dos sonhos, a psicanálise não é uma ciência: uma teoria científica precisa ser verdadeira ou falsa. As explicações de Freud para as doenças mentais, para a loucura, em nada ajudaram. Pelo contrário. A busca da causa do sofrimento psíquico na vida sexual da criança, além de não se justificar (todas as crianças teriam um mesmo complexo, todas odiariam ou amariam seu pai ou sua mãe - mas isso é estranho, não?), nada explica sobre doença mental, o sofrimento psicológico. Além disso, diz Wittgenstein, qualquer idiota apela para essas pseudo-explicações, e eu acrescentaria, com o ar de quem entende, decifra e aposta que anos no divã podem reconciliar a pessoa com seus problemas!
Foucault também critica Freud, não por afirmar que desejos nunca são supridos, nem pela teoria do inconsciente, mas pela teoria da repressão sexual. Para Foucault a sexualidade é um dispositivo histórico, cultural e não biológico, instintivo. Foi inventado! Experimente dizer a um budista ou a um muçulmano ou a um cristão que sua vida se reduz à pulsão sexual. Não faz sentido para nenhum deles, e todos vivem muito bem, obrigado. Ou não, mas isso não tem nada a ver com a sexualidade.