terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Realidade e aparência; ser e não ser

Em nosso cotidiano empregamos "realidade" e "aparência" como em oposição, quer dizer, o que é real não pode ser aparente e vice-versa. O mesmo quanto a "ser" e "não ser", e isso desde os princípios do aprendizado da linguagem. Exemplos: esse animal que você vê no zoológico é real, um bicho com vida, tem existência própria. Um desenho desse animal, o leão em um desenho animado, é também real, mas não existe como vivente, em "carne e osso" como se costuma dizer. A cadeira em que me sento é real, sua foto também é real, mas cadeiras não existem no sentido de seres com vida própria. O que é, então o aparente?
Alguém bem vestido, tem "boa aparência". Experimente entrar em uma loja de artigos de luxo "bem" vestido e vestido com simplicidade. O vendedor irá tratá-lo de forma muito diferente. 
Nos habituamos a essas constatações, o hábito faz o monge... 
Acontece que a aparência de algo ou de alguém, é também real. Ninguém dirá que vestimentas são irreais!

Será que a filosofia esclarece essas nomeações e identificações ou as complica?
Realidade tem a ver com ser, e aparência com não ser?
Sim, para Platão. Com um complicador: o ser em sua essência não é o que aparece, o que nossos sentidos visualizam ou percebem são sombras dos verdadeiros seres, cuja identidade (ou essência permanente) se dá no mundo ideal. Então, o que é real para o senso comum, no idealismo platônico é aparência...

Se o filósofo for adepto da concepção realista, Aristóteles, por exemplo, cada ser, cada indivíduo, o animal no exemplo acima, tanto o do zoológico quanto o do desenho, são entes, são entidades com uma essência que permanece, e várias qualificações que mudam. Há uma essência no ser leão, compartilhada por todos os entes dessa espécie, e qualidades como estar em certo lugar, estar doente ou saudável, ser leão no desenho infantil, filhote ou adulto. Quando muda a essência, por exemplo, leão vivo e carcaça de leão, trata-se de diferentes entidades. 
Problema: e quando não se pode identificar, passa a não ser? Outro problema: não ser é nada, e nada não pode receber uma qualidade, um atributo como o da existência. Aparência não pode ser nada, pois, afinal, é o que aparece...

Passemos para o empirismo. Um filósofo do século 18, John Locke, que era médico, postulava que apenas por meio de nossas experiências poderíamos chegar ao que são e ao que não são as coisas. Desde as sensações de amargo ou doce, as visualizações de algo, podermos distinguir, qualificar, e até mesmo nossas ideias, tudo vem da experiência. Meninos lobos (há relatos históricos de sua existência), não aprendem a falar, não se "humanizam", pois falta-lhes a experiência fornecida pela cultura e pelas sociedades humanas.

Se o filósofo for adepto do pragmatismo, dirá que ser e não ser, aparência e realidade, dependem do contexto de uso, são empregáveis em situações exigidas pelo tipo de ação com valor ou não, conforme nossos objetivos. Isso se dá no emprego de termos, de conceitos, inclusive os de uso filosófico e os de uso cotidiano. Em si mesmos, ser e nada são vazios de sentido. É preciso um contexto de uso, seja em sala de aula de filosofia, seja no emprego comum, se não fizer sentido, se não tiver um emprego, se não for explanável, não faz parte de nossa linguagem, de nossa cultura nem de nossa sociedade. Em lugar de postular um mundo absolutamente estável e de essências permanentes, o pragmatismo postula que tudo depende do uso.

Faz sentido perguntar qual dessas escolas filosóficas está certa? 
Não, pois filosofar é ousar levar o pensamento até as últimas consequências. 
Na vida prática, idealizamos o amor, identificamos as coisas, experimentamos quase tudo, e usamos ou não o necessário (também o supérfluo). Somos idealistas, realistas, empiristas e pragmatistas. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O que é consciência?

Filósofos da mente a definem como estado cerebral alerta, desperto, atento com o que se passa no interior do sujeito pensante e no exterior, seu entorno, objetos, situação.
A que se oporia a consciência? Ao inconsciente, ao subconsciente, aos estados letárgicos (provocados por drogas, bebida alcoólica, medicamentos), ao sono.
Até aqui a conceituação é relativamente fácil, e há certa unanimidade. Alguns psicólogos e neurologistas podem até mesmo "provar" por meio de tomografia em qual região do cérebro são produzidos aqueles estados.
Já no campo filosófico há diferentes interpretações do que seja a consciência. Na filosofia antiga, o homem não era caracterizado como consciente, como sujeito individual pensante. Sua alma se dividia em alma intelectual,  digamos uma alma superior semelhante a um sopro divino (a psiché), a alma da coragem e a da concupiscência, que é a alma dos apetites e paixões. Pensamento não tem a ver com sujeito consciente e sim com sujeito racional. O homem é um animal racional para Aristóteles.
O termo "consciência" vem do latim "conscientia", que se traduz por "consciência, sentimento, senso íntimo, conhecimento"; "conscio" é o verbo que se traduz por "ter conhecimento, saber". É neste sentido que o usam Descartes, e depois dele toda a filosofia moderna, até hoje.
Os filósofos substantivaram a consciência, quer dizer, postularam para o sujeito uma condição única, indispensável, cuja capacidade é ter domínio sobre si e, ao mesmo tempo, ser o meio por excelência do conhecimento.
Sou o que sou por ter consciência disso, de meu eu. Ora, e o que é o "meu eu"? Minha personalidade, minha pessoa, o conjunto de meus atos, minha identidade, meus projetos (Sartre), o espaço e o tempo que ocupo, minhas ideias, tudo o que aprendi, minhas experiências, "eu sou e minhas circunstâncias" (Ortega y Gasset), resultado de minha infância, de minha vida emocional, de minha educação? E é possível acrescentar ainda outros fatores, como família, biológicos como herança genética, sociais como o meio, culturais, como a formação em certa comunidade. Sou eu apenas quando penso em mim? Não é estranho quando sob forte emoção e em certas reações impulsivas, esqueço de mim?
Acontece que ninguém se tornou o que é sem os outros, família, escola, amigos, inimigos (por que não?)... Trata-se da relação eu/outro, sendo o outro também um eu...
E que dizer dos fatores aleatórios, dos acasos, dos encontros, dos sucessos, dos fracassos, dos traumas, das alegrias, das recordações e dos esquecimentos (às vezes esquecer importa mais do que lembrar)?
Fomos longe demais, e a tentativa era "apenas" definir "consciência"!

E isso sem contar com um conceito capaz de virar de cabeça para baixo o dito acima, o de subjetividade.
Consciência subjetiva difere de consciência objetiva? E quando eu me torno objeto para mim mesmo, a autoanálise? Sob o olhar e a análise objetiva de meu eu, este se torna outro, estranho, um objeto? Isso é possível?
Chegou a hora de desenredar esses labirintos conceituais. De substância, o eu consciente passaria a um instrumento necessário para conduzir a ação, que se transforma, que é móvel e maleável, com usos na comunicação diária e na inserção social. Se assim não fosse, não haveria como adjetivar a consciência, por exemplo, "consciência política", "consciência corporal", "consciência de seus deveres...", "consumo consciente" e outros usos no negativo: "Fulano não tem consciência".
Reflexão de inspiração nietzschiana: a consciência se desenvolveu pela necessidade de comunicação, linguagem e consciência são codependentes. O homem inventor de signos desenvolve conjuntamente a autoconsciência.Os indivíduos precisam de noções como causa, sequência, reciprocidade, relatividade, número, lei, liberdade, motivos, todos como guias de sua ação, de sentimentos, emoções e impulsos. O que não significa desmerecer questões como mérito pessoal, responsabilização pelos atos, em oposição a pessoas indiferentes ou omissas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A condenação do capitalismo à serviço do ensino ideologizado

Infelizmente a confusão que se faz em sala de aula, e não só na disciplina de filosofia (em todos os níveis de ensino), também na de história, geografia, até mesmo português, que educar significa incutir "pensamento crítico". 
Está na lei de diretrizes para a educação o preparo para o "exercício da cidadania", implicitamente interpretado como opção ideológica de luta em prol dos fracos e oprimidos da sociedade capitalista de classes. Grande parte dos livros didáticos traz essa lição ideológica, de inspiração marxista. Há desigualdade social, isso é injustiça e a fonte dessa injustiça, que precisa ser esclarecida às crianças, adolescentes e jovens, é a sociedade capitalista, que explora a classe trabalhadora. 
Como e quando surgiu essa instrumentalização do ensino?
Houve necessidade de reagir à ditadura, uma reação necessária à extorsão da liberdade de pensamento promovida nos anos em que os militares ocuparam o poder no Brasil. Um dos instrumentos de justa revolta e inspirador da luta pela democratização do país foram as universidades. Marx e o marxismo pareciam ser a tábua da salvação, mesmo porque eram professores e alunos que professavam a filosofia e a doutrina ideológica marxista, ou de esquerda em geral, os que eram censurados e perseguidos. Muitos foram obrigados a se exilarem.
Pois bem, de instrumento ideológico de luta e reação, passou a verdade histórica, social, política única. O poder considerado como exclusivamente econômico, hegemônico, dos países do hemisfério norte (capitalismo dos EUA), esmaga o hemisfério sul, pobre, explorado, e pior, impõe a cegueira para "realidade" do mercado, dos bancos internacionais, do terceiro mundo espoliado e mantido na pobreza pelos interesses do grande capital. "A propriedade é roubo!", exclamam. A cegueira se deve à instigação ao consumo pela propaganda, e até pelas novelas globais! 
Essa análise se impôs como verdade incontestável, sem contra argumentação, pois seu apelo político-partidário é forte, e se espalhou pela cultura, pela educação, pelas Ongs, nos movimentos sociais de reivindicação pelos direitos de inúmeros segmentos sociais (movimentos de ocupação de propriedades rurais e urbanas).
Sim, o capitalismo cria uma realidade chamada "mercado", com suas regras próprias, visa sim o lucro, muitas vezes explora o trabalho e a mão de obra. Há problemas estruturais difíceis de solucionar em países pobres. Mas não impossíveis de solução. O Estado interventor precisa governar, precisa gerir a sociedade, e para isso precisa da produção e ampla circulação de bens e mercadorias. A chamada produção de riqueza, o liberalismo, execrado e necessariamente praticado, desde fins do século 18. Simplesmente governos não governam sem deixar livre a produção. E isso não tem nada a  ver com regimes políticos. A propriedade, aliás, é um direito e não um roubo.
Socialistas, comunistas, democratas, democracias  sociais, ditaduras de esquerda e de direita, nenhum regime político pode dispensar o fator econômico de produção, e nele há quem produz, quem consome, quem comercializa, quem transporta. E isso independentemente de ideologia político partidária. Não foi a esquerda e nem a direita que inventaram o mercado, que se internacionalizou, que requer investimento em larga escala em todos os setores, principalmente o tecnológico.
Criar riqueza e não manter largas faixas da população na ignorância e na pobreza, essa deveria ser a preocupação dos governos. Para isso é preciso educação, saúde, segurança, direitos básicos e inalienáveis, para faixas cada vez maiores de cidadãos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O medo venceu a esperança

Quais foram as pessoas que insistiram em entronizar novamente o PT no poder, do qual não deseja e nem pode sair?
Anos atrás uma colega da UFPR me convidou para evento ou manifestação do PT, sequer passou pela sua cabeça que eu não fosse partidária daquele ideário e daquelas propostas, socialismo, ocupação de terras, Lula no poder, triunfo da esquerda, etc.
Isso porque petistas sempre se consideraram acima de suspeita, partido da ética (pois sim!!!), militância aguerrida, modelo socialista cubano, a estrela vermelha acima de tudo e de todos. Nós, e somente nós, temos razão, somos bons, os melhores, o Brasil irá se transformar, sem miséria, sem fome, nacionalizaremos os bancos, o MST será o dono do campo, fora agricultura de exportação, todo poder aos sindicatos, enfim, vários slogans e palavras de ordem para ganhar não adeptos e sim fervorosos militantes.
Nada disso, e Lula para exercer governo minimamente eficaz, precisou usar dos princípios e bases da economia de mercado. O FMI não teve sua dívida paga, o MST só não invadiu à vontade propriedades rurais, porque, afinal, sem exportar grãos a balança comercial entraria em colapso. Depois foi o que se viu, cabresto à custa de dinheiro de deputados (mensalão) e agora, justamente depois de acusar Fernando Henrique, Alckmin e Serra de quererem privatizar a Petrobras, o lulopetismo afundou a Petrobras, "privatizou" a empresa, mas para eles!!!
A oposição perdeu novamente.
Quem votou em Dilma?
Pobres e miseráveis amedrontados, amordaçados e deixados em condição de pobreza e miséria. Sim, aumentou o número de miseráveis, isso convém, isso é necessário, manter toda uma população sob o garrote. A distribuição de riqueza falhou, ou melhor, foi feita na medida certa para a manutenção no poder.
Os que usufruem do poder, não saem, assim não precisam batalhar por emprego, e as falhas podem continuar acobertadas. De qualquer modo, milhares de apaniguados que não largam o osso.
Votaram também, é claro, os militantes, eu diria, os fiéis à causa, cuja cartilha são as lições pré-históricas dos intelectuais marxistas. Para eles o muro de Berlim, que caiu há 25 anos, precisa ser reerguido. A imprensa precisa ser censurada (há os simpatizantes da Folha de São Paulo, mesmo quando este jornal critica o governo, a militância acusa apenas a TV Globo, claro, analfabetos assistem TV mas não leem jornal...), os grupos sociais simpáticos à causa serão financiados, os professores de História contarão que o capitalismo é mau, que os pobres são bons e os ricos maldosos, esse conto de fada tão fácil de fazer a cabeça da rapaziada.
A desconstrução mentirosa foi muito bem articulada, deu certo. 
O que o lulopetismo não  previu foi a força dos protestos, a indignação,  a esperança de ter um governo eficiente e ético foi frustrada e hoje serve de mola para protestos pós-eleitorais. Isso nunca se viu antes!
Os que votaram em Aécio podem esperar mais quatro anos. Será difícil, muito difícil...

domingo, 19 de outubro de 2014

Filosofia e política, a antiga e a atual

Se é possível afirmar que com Platão surgiu a filosofia sistemática, então é possível afirmar que a filosofia nasceu já política.
O diálogo A República, tem como tema central o ideal político de justiça, sendo esta o principal e indispensável requisito para que um Estado funcione. Para Platão, a cidade ideal é semelhante à alma. O verdadeiro Estado se constitui de modo perfeito, quando os sábios comandam e têm a ciência do que é próprio às demais classes, que são a classe dos artesãos (comandada pela alma dos apetites) e a dos guerreiros que protegem a cidade (comandada pela alma da coragem e fortaleza). Pela temperança se estabelece a concórdia entre a parte superior e a parte inferior tanto de um indivíduo como de toda a sociedade. A justiça decorre de cada um ocupar sua respectiva função, que é aquela que melhor cabe à natureza de cada um. Se cada um cumpre suas obrigações o Estado é justo e feliz. No livro IV de A República Platão explica que a justiça está em cada um cumprir a sua função, o seu dever, que a justiça garante a cada aquilo que lhe é devido. O sábio governa, o rei filósofo aplica as leis de forma justa, as tarefas são distribuídas conforme a capacidade de cada cidadão. 
***
Em uma leitura atual, se condenaria Platão por ele ignorar a igualdade e a liberdade. Mas seria uma condenação inapropriada, pois na Grécia clássica justiça é distribuição de funções de acordo com capacidades diferentes. Um oleiro faz bem tijolos, o arquiteto depende desse material e a construção depende de uma boa planta, de um bom planejamento, de um bom arquiteto, portanto, como Platão exemplifica em Político.
Isso seria considerado desigual porque um ganha menos, outro mais. Para nós as oportunidades devem ser as mesmas. Os homens nascem iguais e a sociedade os acorrenta, diria Rousseau. 

Como sair desse impasse?
Com educação universal, seriamente comprometida com o despertar de habilidades e de funções que aliem a capacidade individual com a demanda social e econômica. 
No Brasil, há uma enorme distância entre um atraso que remete ao passado colonial e uma grande parte educada, participante da vida social, com condições de escolher sua atividade conforme sua capacidade, como queria Platão. 
É possível melhorar as condições dos mais pobres? Sim, se houver uma ótima interação entre governo empenhado com escolas e professores de qualidade, com a produção de bens, com a eficiência econômica, com regras transparentes, liberdade pessoal e justiça social.
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Nesse difícil processo, há um obstáculo a mais, que passa batido: são justamente educadores, filósofos, historiadores, pessoas com alguma influência no setor educacional, em geral, cujas cabeças estão encalacradas com uma ideologia ultrapassada, paradoxalmente, marxista. Por que "paradoxalmente"?
Ideologia, segundo Marx, é um véu de ignorância. Faz ver as coisas de cabeça para baixo. Ora, a ideologia de uma esquerda que vive de palavras de ordem ("fora FMI", "fora FHC", "fora capitalismo", "a culpa é das elites", "fora economia global", "fora agricultura de exportação", etc.) representa o atraso para a educação, se por educação se entende abertura, compromisso com a pesquisa séria e responsável nas universidades, com a formação de profissionais aptos para compreender nossa história e nossa realidade.

Ar renovado, precisamos disso, com urgência.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Se Foucault estivesse vivo...

Trinta anos se passaram da morte de Foucault. Sem cair no esquecimento, muito pelo contrário, suas concepções revolucionárias sobre as ciências humanas, inserção social da medicina, denúncia da instrumentalização da psiquiatria, sexualidade vista pelo ângulo de práticas sociais e históricas (não como fato natural ou biológico), produção da verdade com uso social, político e jurídico (e não descoberta da verdade) - entre outras, permanecem vivas e atuais. E mais, são noções que se oferecem ao debate, não se fecham no dogmatismo, ainda que sofram interpretações um tanto escorregadias.

A velocidade das informações foi acompanhada de crescente disseminação nas redes sociais de suas ideias, seus livros são reeditados como filósofo algum foi até hoje em nosso país. Mas Foucault está longe de ser senhor de alguma verdade, ou consolador das esquerdas pós-marxistas, muito menos o profeta de uma nova ordem social.
 "Vigiar e Punir" com mais de 30 edições

Como entender, então, tantos estudos, dissertações,  teses e artigos em que ele é estudado ou pelo menos citado?

Inversão de expectativas é um traço forte. O outro, desconstrução de conceitos estabilizados, tomados como verdadeiros e indiscutíveis. Em lugar do culto às ciências, sem discutir o mérito de avanços que possam trazer, mostrou que a medicina, a psiquiatria, a psicanálise constituíram um tipo de saber útil às sociedades modernas. É que essas sociedades a partir de fins do século 18, funcionam muito melhor ao disporem de indivíduos saudáveis, trabalhadores capacitados, instituições para isolar e "curar" doenças, invenção de aparelhos eficazes para não só controlar indivíduos, mas também extrair deles comportamentos e atitudes que facilitam governar.

Desde a circulação urbana, portos, controle sanitário, inspeção de produtos, exigência de segurança cada vez mais fechada (ao mesmo tempo em que a ameaça à segurança se torna cada vez maior), até práticas aceitas sem contestação como benéficas e/ou saudáveis (vacinação, testes de saúde, monitoramento por câmeras): nelas transcorrem relações de um poder aquietado, invisível, sobre o qual não há uma consciência social ou política de que seja opressor ou destrutivo.
Claro, é que assim são criadas condições para indivíduos e grupos circularem, agirem, produzirem, reproduzirem. Fica fácil governar em um sentido mais profundo de governar, não a do partido político ou do sistema democrático ou ditatorial, e  sim o que Foucault chamou de "governabilidade". Quer dizer, meios não violentos que instam populações inteiras a se comportarem do modo esperado, obedecendo não só às necessárias regras de conduta (sem elas impossível o convívio social), mas às inúmeras formas de sujeição por ele denunciadas.

A ironia: quanto mais sofisticada e moderna for uma sociedade, maior o controle. E o inverso, vide surto de ebola na Libéria. Menos controle, mais pobreza, mais pobreza, menos controle. Dois mundos e a dificuldade de sair desses dois círculos ...

Enfim, somos produto de invenções para curar, instruir, extrair habilidades, usar os prazeres, investir na sexualidade como um modo de existência sobre a qual incidem discursos especializados, isolar e disciplinar anormalidades, normas de adequação do comportamento.

Pergunta-se, então, há alternativas?
Sem enxergar os procedimentos de normalização, exame do desejo (sujeito moderno "precisa" confessar sua intimidade, hoje ainda mais, escandalosamente) e como nossas práticas dependem  de algum tipo de diagnóstico, não há como resistir. Sucumbimos à saturação de poderes.

Se Foucault estivesse vivo talvez dissesse: "Sou mesmo tão importante? Sou mesmo compreendido? Consegui modificar algo no modo de pensar das pessoas?"

domingo, 14 de setembro de 2014

A idade da razão

O título acima não se reporta ao romance filosófico de J.-Paul Sartre. Trata-se de analisar uma questão, a do aprendizado da responsabilidade, da independência e da autonomia das pessoas na evolução de suas vidas.

Algumas crianças, desde cedo, 7 ou 8 anos, iniciam esse processo de entender que são responsáveis pelos seus atos. Outras pessoas demoram mais, muitos adolescentes são dependentes do abrigo paterno, da tolerância com pequenos atos reprováveis. Alguns exemplos: pichar a propriedade alheia, faltar a compromissos, lançar fotos e mensagens nas redes sociais comprometedores, jogar lixo na rua, desrespeitar horários de silêncio em condomínios. Daí a jovens e adultos que cometem pequenos delitos sem noção de culpa ou de responsabilidade, é um passo.

Imagine-se então a responsabilidade, autonomia, senso crítico no terreno político e social. Pouca ou nenhuma leitura séria para informação fidedigna, as decisões são tomadas aleatoriamente, vão, como se diz "na onda", ouvem o canto da sereia e não fazem como Ulisses, resistem ao encantamento. Pelo contrário, embarcam na canoa do personagem da moda, do time campeão, do político carismático e falastrão, mas extremamente cativante, do herói ou heroína do momento. 

Analisar, pensar, informar-se, isso tudo dá trabalho, cansa. Seguir o chefe ou os ídolos aclamados é muito mais fácil.

Até mesmo a escola favorece esse tipo de comportamento por meio de conceitos e palavras de ordem digeríveis, como abaixo o capitalismo, a propriedade privada é um roubo, a classe dirigente ("as elites") querem tomar o poder e prejudicar os oprimidos. Esse discurso, penetra as cabeças, impede de olhar as diversas e diferentes perspectivas da história social e econômica cujos fatores são múltiplos: processo de industrialização, infraestrutura, importação, exportação, distribuição da riqueza, índices de desenvolvimento, o fator crucial que é educação, entre outros.

Apenas se repetem velhos chavões: bancos visam o lucro e o lucro é pernicioso, privatizar é roubar, é crime ser gay, ateu, etc.

O incrível é que todos querem bens que são produzidos (sem capital e lucro impossível produzir, distribuir e vender), desde o melhor automóvel, casa, celular até as roupas de grife. A maioria desses pregadores é hipócrita, pena que na multidão a hipocrisia vence pois os hipócritas e pregadores convencem!



O uso da razão, em especial nesta eleição para presidente, deu lugar à mentiras, ao convencimento, à propaganda, duas candidatas que se unham uma à outra e nenhuma das duas parece ter chegado à idade da razão. Uma quer se manter no poder para continuar a acobertar seu chefe. A outra passa a imagem de incorruptível, defensora do país, mas está mais para líder religiosa ou militante em Ongs.
Tantos interesses escusos, mas a maioria não pensa. Há também o medo de expor suas ideias e contrariar essa maioria. E os detentores do poder sabem disso. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Momentos inusitados na vida de alguns filósofos

Há certos momentos marcantes na vida dos filósofos, alguns típicos do que se espera deles, outros inusitados e até surpreendentes.

Sócrates cercado de alunos, Sócrates que abreviou sua morte com cicuta, episódios típicos de um filósofo. Mas imagine Sócrates no banquete em que o jovem e belo Alcebíades, embriagado como relata Platão, seduz pela juventude e beleza. Relata Alcebíades ter dormido sob o manto de Sócrates, e "pensava que logo ele iria tratar comigo o que um amante em segredo trataria com o bem amado, e me rejubilava", mas isso não aconteceu, Sócrates acordou e retirou-se.

Mudança de quadro: Agostinho no jardim de sua casa em Milão (ano 386), aos 32 anos busca um sentido para sua vida. Uma súbita iluminação lhe mostra o caminho da fé em Deus, a leitura de Paulo de Tarso muda por completo sua visão de mundo, ele se converte ao catolicismo, e encontra a paz depois do que chamou de "vida em pecado".

Bem diferente de Descartes, uma cena de intimidade, descrita pelo próprio filósofo na primeira Meditação: "Por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel à mão...", quando analisa o grau de certeza proporcionado pelos sentidos. Por que será que ele mencionou o modo como se vestia?

E Nietzsche dançando? Em Ecce Homo ele recorda dos passeios em Nice, onde terminou "Assim Falou Zaratustra": "Muitas alturas silentes da paisagem de Nice são sagradas para mim devido a momentos indeléveis que ali passei ...; a agilidade muscular foi sempre tanto maior em mim quanto a força criadora mais fluentemente me inundou o espírito. O corpo é entusiamo: não nos ocupemos da 'alma' ... Frequentemente viram-me dançar."

Entre as muitas "esquisitices" de Wittgenstein, mania por limpeza, comida frugal, acessos de violência (o famoso puxão de orelha em uma menina, sua aluna quando professor de matemática em uma aldeia; discutindo com B. Russell e o ameaçando com um atiçador de lareira), há uma pouco conhecida, mas marcante cena passada na Irlanda. "Seus vizinhos mais próximos, a família Mortimer, consideravam-no completamente louco ... Chegaram a proibi-lo de passar por seu terreno, afirmando que ele assustaria os carneiros". Assim, Wittgenstein tinha que desviar, e "num desses passeios, os Mortimer viram-no parar de repente e, servindo-se de um bastão, desenhar uma figura (um pato-lebre?) no chão da trilha, a qual ficou contemplando por um longo tempo, inteiramente absorto, antes de retomar a caminhada" (cf biografia "O dever do gênio", Ray Monk).

Se permanecer absorto é algo que até se espera de um filósofo, comprar um Jaguar e dirigir em disparada, fere nossa imagem do pensador (a da estátua de Rodin, por exemplo). Trata-se de Foucault em Uppsala (Suécia). "Um dia vai com Jean-Christophe a Estocolmo comprar um carro. Voltam com um suntuoso Jaguar bege que surpreende a boa sociedade local", gostava de comer bem, bebia de vez em quando até cair de bêbado, "também gostava de se vestir de chofer para levar Dani (uma amiga) a suas compras na cidade. Seu Jaguar se tornou lenda entre todos que o conheceram em Uppsala. Todo mundo conta que ele dirigia como um louco" (cf biografia de Didier Eribon). Temiam que se acidentasse, o que, felizmente para a filosofia, não aconteceu.
Decididamente, filósofos não andam com a cabeça nas nuvens...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pessimismo

Matança de ratos presos em uma ratoeira, é essa imagem que vem para descrever o massacre da população civil da Faixa de Gaza. Espremidos entre o mar, a fronteira com Israel e com o Egito, ambas fechadas, dois milhões de habitantes não têm para onde fugir dos bombardeios israelenses.
Enquanto o Hamas se serve de prédios particulares e públicos para a entrada de túneis e depósito de armamento, e Israel bombardeia tais prédios, o pior, em abrigos da ONU, mais de mil pessoas, crianças e mulheres morrem, outras são feridas, mutiladas. Qual esperança para esse canto fervilhante do planeta?
Leste da Ucrânia, uma senhora tem o teto de sua cozinha perfurado pelo cadáver nu de uma mulher! Estilhaços de um míssil derrubaram um avião civil, choveram cadáveres (298) do céu!
Brasil: pai que mata filho, madrasta que o enterra; policiais que arrastam o corpo de uma mãe caído do porta malas de uma viatura, talvez ainda com vida; black blocs com seus coquetéis e uma ação de protesto contra o capitalismo, bancos, revendedoras de veículos, prédios públicos, mataram um jornalista. 
Examinemos a ação terrorista destes encapuçados. No comando deles no Rio de Janeiro, uma professora de filosofia, Camila Jourdan. Jovem, bonita, com artigos sobre Wittgenstein. Enfim, mestre, quer dizer, habilitada para ensinar o pensamento de filósofos, aqueles amigos da sabedoria, que ensinam ética, moderação, reflexão, raciocínio, lógica, uso de conceitos, busca da verdade!
Retire-se de nossa sociedade as indústrias, as trocas internacionais, a mediação dos bancos, o sistema financeiro, automóveis, ônibus (que foram incendiados), impeçam a circulação de pessoas, seria o caos.
É isso que visam os anarquistas do movimento black blocs? 
Cegueira social, teórica e prática! Camila Jourdan chefia a "Organização Anarquista Terra e Liberdade". Ora, se é "anarquista", como pode ser ao mesmo tempo "organizada"?!
Alguns os defendem em nome do direito democrático de protestar; enquanto isso os que foram detidos, se serviram do sistema judiciário que eles próprios querem destruir. Se fossem consequentes e coerentes, dispensariam advogados, estes, afinal, pertencem ao sistema...

Diante desse quadro (e ele está incompleto), a pergunta:
Somos melhores que nossos antepassados?
Democracia? Os gregos a inventaram, talvez a tenham usado mais e melhor do que nós modernos.
Justiça? Os romanos e povos antes deles tinham leis, códigos e os aplicavam (prisões lotadas? no Brasil atual ...)
Conhecimento, ciências, progresso tecnológico? O que dizer da Renascença, de Leonardo da Vinci?
Medicina, antibióticos, mas e o vírus ebola? Não há vacina...

O que procuramos, nós humanos, o que conseguimos, e o que fazemos conosco mesmos?
Absurdos, abusos, violência, violação de direitos, muito sofrimento.

A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas... E de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua... Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta, e morre de armas em punho (Schopenhauer)

Atos de fala segundo Austin ("speech acts")

Em uma série de conferências de 1962, o filósofo inglês J. L. Austin contribuiu com uma nova forma de ver a linguagem, a da ação, a da pragmática. Falar pode ser um ato realizado apenas pela fala, como em "Eu batizo" "Eu juro...", "Eu aposto....". Em atos que constatam, como afirmações a respeito de algo, isso também ocorre como Austin acaba por concluir.
Todo ato de fala emitido em situação, em contexto apropriado, com intenção de dizer realmente o que se quer significar, há três dimensões concomitantes:
- Um ato locucionário, expressões usadas são inteligíveis pois gramaticalmente aceitas em termos de regras sintáticas, com vocabulário de certa língua, com certa entonação, reporta-se algo, e em geral se refere a algo, a um estado de coisa do mundo.
- Um ato ilocucionário, que é a ação implícita no ato de dizer algo a alguém, por exemplo, "Meus vizinhos se mudaram para longe daqui". Afirma-se com intenção sincera, informa-se algo, ou pode servir como uma mentira se alguém os ameaça e a pessoa que informou pretende defender seus vizinhos. Os atos de fala, neste nível, são como que revestidos de um valor. Se alguém compreende um ato de fala como aviso, imediatamente age de acordo, acata ou não o aviso. E assim com uma ordem, um pedido, uma sugestão, uma pergunta, etc.
-Um ato perlocucionário, há um efeito produzido em quem ouve, certa afirmação, em certo contexto, pode alegrar, amedrontar, ser útil ou nociva. 

Habermas, em sua teoria da ação comunicativa, mostrou que os atos de fala ou atos de discurso, tal como propusera Austin, são o núcleo do discurso comunicativo. Isso porque falar não é trocar sentenças de uma língua, e sim enunciações em situação de discurso. Não há diálogo possível sem a execução de atos de discurso, quer dizer, é preciso compreender o que se diz para haver resposta: sim, não, talvez, é verdade, concordo, discordo, por favor repita, explique-se melhor... São situações criadas por diálogos, por textos, por atos comunicativos.
É possível influenciar pelo discurso, pela fala, levar alguém a crer, a obedecer, instigá-lo, quer dizer, por meio da linguagem se exerce poder.
E isso desmonta a suposição de que verdade e afirmações se ajustam para constatar fatos, de que a linguagem é relato, nomeação de algo, ou então, pura significação. Linguagem é sempre ação, de outro tipo da ação normalmente reconhecida, a física. Impossível que palavras firam alguém fisicamente, mas podem ferir alguém em sua vida, na autoestima.

Words, words, words, em Hamlet (Shakespeare), palavras ao vento... Alguém poderia objetar que palavras não passam disso, palavras. Entretanto, para que o personagem assim se expressasse e fosse compreendido, isto é, que são palavras apenas, é preciso usar a linguagem, um ato de fala sobre o que valem as palavras. A linguagem é autorreferencial.
Millôr Fernandes: "Uma imagem vale mais que mil palavras... Experimente dizer isso sem palavras!"

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O que há em comum entre Wittgenstein, Foucault e Habermas?

Os três pensadores são considerados filósofos pós-metafísicos (ver postagem anterior). Quer dizer, no lugar de instâncias permanentes e transcendentes, de um ser superior, de fundamentos absolutos, eles se voltam para a história e a cultura humanas. Sob que aspectos, sob que condições? Aquelas mesmas produzidas por nós: linguagem, símbolos, significação, interações, trocas, o contato permanente e criador com a natureza (eventualmente destruidor), enfim, seres humanos em suas relações.
A ação humana nos modifica e cria constantemente produtos e valores, ao construir situações necessárias à vida cotidiana. Há dois mundos constituídos pela ação: o das trocas de produtos, bens e valores por meio de instituições econômicas, sociais, políticas, culturais, grosso modo o mundo dos negócios; e o das relações humanas voltadas à comunicação, à criação cultural, aos cuidados com a saúde, instituições jurídicas, educacionais, segurança pública. Além disso, há setores que interligam os dois "mundos": informação, ecologia, engenharia, arquitetura, biologia.
Os filósofos mencionados no título, Wittgenstein, Foucault e Habermas, se voltam para a investigação filosófica do "segundo mundo", importa considerar os jogos de linguagem (Wittgenstein), os enunciados do discurso (Foucault) e os atos de fala comunicativos (Habermas).
Em comum, a linguagem considerada como ação. Sim, pois enunciados ditos por alguém, para alguém em situações comuns da vida não servem apenas para significar, isto é, sons de uma língua emitidos de um locutor a outro, com significado, valem segundo Wittgenstein (Investigações Filosóficas) como afirmações a respeito disso ou daquilo, narração de um acontecimento, um questionamento, uma anedota, um aviso, uma cantiga de roda, uma piada, uma confissão. São todos jogos de linguagem, que dependem do contexto, da intenção, da situação dos interlocutores, do meio de comunicação, da capacidade de interpretação. Se alguém ouve ou lê "Hoje é dia de festa", compreende que é uma frase significativa e bem formada da língua portuguesa, mas precisa de um contexto de enunciação para saber a que se refere, o que se quer dizer com a frase.

Wittgenstein (1889-1951) "Nosso erro é buscar por uma explicação quando o que deveríamos olhar é para o que ocorre como um 'proto-fenômeno'. Isto é, onde deveríamos ter dito: este jogo de linguagem é jogado".

Foucault analisa em As Palavras e as Coisas e em Arqueologia do Saber enunciados do discurso, outro nível da linguagem, diverso da significação das frases, diverso dos jogos de linguagem e dos atos de fala (que veremos logo abaixo), porque têm a peculiaridade de criar certo poder, justamente o poder do discurso. Este não é um poder político, nem poder de mando ou comando, autoritário, mas um poder que nasceu com a instituição social de certos saberes, em nossos dias muitos deles próprios para readequar o comportamento humano. O saber de uma época forma um desenho, o das práticas discursivas com seu peso, uma materialidade institucional, uma utilidade. Por exemplo, o uso da norma como fiel da balança para avaliar, diagnosticar no discurso psiquiátrico. O sujeito desse discurso é o médico e a sociedade atribui e distribui o uso desses discursos, dessas práticas a certas instituições e saberes, no caso, o hospital psiquiátrico e a psiquiatria. 

Foucault (1926-1984) "Esses princípios de exclusão e de escolha, cuja presença é múltipla, cuja eficácia toma corpo em práticas ... não remetem a um sujeito de conhecimento (histórico ou transcendental) ...; elas designam antes uma vontade de saber, anônima e polimorfa..."

Quanto a Habermas, herdeiro de Kant e Hegel, a linguagem serve para atos de comunicação ou atos estratégicos. Os atos de fala (explico melhor em próxima postagem) serviriam para comunicação em contextos da sociedade, da cultura e das pessoas em sua individualidade. Produzem consenso (eventualmente dissenso), laços de solidariedade e socializam pessoas. Os atos estratégicos, ao contrário, serviriam para influenciar, seu poder decorre do Estado e das relações econômicas, compra-se e vende-se tudo, na modernidade as relações pessoais são em grande parte filtradas por interesses, pelo poder do estado e pelo poder econômico, inclusive a ordem jurídica.


Habermas (1929-) "Devemos nos compreender ainda como seres normativos de maneira geral, ou até como seres que esperam uns dos outros uma responsabilidade solidária e que têm igual respeito uns pelos outros?"


Interessante notar que os três pensadores não se excluem, que pensar a lógica da vida cotidiana (Wittgenstein), o poder do discurso (Foucault) e a capacidade de entendimento cerceada pelas estratégias sociais (Habermas), são análises que se complementam, intersubjetividade no lugar do sujeito/pensamento. Ou como se expressou Nietzsche: "Pensamentos são ações".

domingo, 29 de junho de 2014

Filósofos metafísicos e filósofos pós-metafísicos

A filosofia nasceu com filósofos metafísicos, como os gregos clássicos. A busca desses filósofos, principalmente Platão e Aristóteles, se dirigiu aos princípios primeiros de todas as coisas, às causas iniciais e às causas finais, quer dizer, a que se destinam os seres, quais são suas características essenciais, as propriedades principais que conduzem tudo o que existe a certo fim. Assim, o ser humano para Aristóteles, por exemplo, dirige sua conduta por valores éticos e políticos de realização plena. Como? Por meio do equilíbrio, da justa medida em termos éticos, individuais, e como cidadão na polis.
Até Kant, a filosofia com raras exceções, entre elas os filósofos céticos (Hume é um deles), pautou-se pela indagação "o que é o ser em geral?" e deu a essa indagação uma resposta com pretensão a ser a verdade final. Tomemos Descartes: o ser é o cognoscível, Deus inclusive, é nossa inteligência que conclui sobre a existência de um ser perfeito, e, sendo perfeito, logicamente deve existir. A razão passou a comandar a metafísica.

Kant desbancou a metafísica desse altar da razão, não há como saber se nosso conhecimento chega até os seres neles mesmos, isto é, independentemente do conhecedor. Nosso conhecimento depende de processos e procedimentos (as categorias), sem eles impossível saber algo do mundo que nos cerca.
Os ideais Deus, destino final da alma, e a razão de ser do mundo, questões essencialmente metafísicas, recebem resposta moral. No recôndito da alma humana há uma relação do homem consigo mesmo permeada pela consciência do dever moral. Kant eleva o homem à dignidade máxima, à liberdade máxima que permite decidir desapegadamente, a única e nobre finalidade é a realização de ações que refletem o que é bom para todos igualmente.

Pois bem, os filósofos pós-metafísicos vão em outra direção.
Nietzsche desmonta o edifício moral kantiano, o imperativo categórico manda que se obedeça a sistemas morais, o que não passa de uma tirania; não há sequer porque considerar o ser em si, pressuposto dos metafísicos. "O que chamamos de mundo é o resultado de uma multidão de erros", e "a coisa em si digna de um riso homérico, ... vazia, vazia de sentido". Isso porque noções como as de ser, causa final, bem supremo, noções morais, estéticas, religiosas são todas obra do intelecto humano, da ação humana, e cabe ao filósofo fazer a história da proveniência desses valores, todos eles humanos.

No século passado a filosofia se viu diante de novas questões, como a lógica da ciência para o positivismo lógico, questões sociais e políticas, a pergunta sobre a liberdade e sobre a existência que se "historicizou", por assim dizer. As perguntas que mais interessam à filosofia dizem respeito à compreensão do que fazemos, de nossa história, das transformações que sofremos, e do que podemos almejar com as condições criadas por nós. Antes, no século 19, Marx considerou que essas condições são as da produção material, transformações econômicas respondem à questão "o que somos, de onde viemos e para onde vamos?".
Ainda na vertente da filosofia alemã, a escola de Frankfurt atualizou o pensamento da esquerda e foi além da proposta de uma revolução que devolvesse os meios de produção ao trabalho e não ao capital.
Habermas reafirmou seu pertencimento à filosofia pós-metafísica. Para ele, sem a linguagem, sem a comunicação não há ordem social, o pensamento depende da linguagem, e a crise com a questão do ser em si (qual é a essência fundamental de todas as coisas), é recolocada: trata-se de um jogo de linguagem. Ou, mais precisamente, um ato de fala, uma pergunta feita por filósofos interessados na origem de tudo.
Então, tudo se enraíza na linguagem? Sim, mas evidentemente o mundo não é feito de linguagem e sim de coisas e suas interações. E como pensaríamos a respeito disso tudo sem a linguagem? Impossível para a filosofia pós-metafísica.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Solidão cósmica

A Terra vista das aeronaves leva a pensar na dimensão infinita, e em um planeta solitário. Nossa perspectiva é terrestre, mas nossos sonhos são estelares.
As metáforas filosóficas e religiosas habituais remetem à caverna humana em contraste com os deuses no Olimpo, no paraíso, no além. Rastejar se opõe a voar, alçar as alturas como bem superior. O que nos leva a sonhar assim, a sondar o universo e pleitear que não estamos sozinhos?
Quem assistiu ao filme Gravidade deve ter sentido que desprender-se da Terra não faz parte de nossa natureza, a volta da personagem principal destaca o solo, o contato com a areia, nossa marca em nosso chão.
Solta no espaço
O retorno feliz
Entretanto, deuses, anjos, seres extraterrestres povoam nosso imaginário. Basta entrar em uma igreja, em um templo, que prêmio eterno ou castigo eterno dão sentido à alma imortal, desde Platão e antes dele, até o cristianismo e outras fés religiosas.
À parte disso, há a hipótese para alguns, cientistas inclusive, de que é impossível não haver vida inteligente em outros planetas e que tais seres possuem artefatos capazes de os trazerem ao nosso planeta! E vão além, certos relatos de abdução, são levados à sério. Curitiba sediou há semanas atrás um encontro em que esses relatos servem para confirmar a existência de ovnis. Um deles é o de uma família abduzida juntamente com o fusca 72! Outra pessoa afirma que após ser abduzida, voltou com um chip implantado em seu dedão do pé direito!
***
Evidentemente a imaginação humana vai longe, fica interessante e inteligente em filmes e na literatura de ficção científica: Jornada nas Estrelas, Júlio Verne, Isaac Asimov, H. G. Wells, Ray Bradbury, entre outros.
Mas nenhum deles ultrapassa o que a condição humana enseja, permite, cria: linguagem, sensações de ver, ouvir, criar veículos, tecnologias, mover-se, transportar-se, guerrear, etc, etc.
É possível que em outra ou outras galáxias planetas semelhantes à Terra tenham evoluído em condições semelhantes às nossas, a ponto de construir naves espaciais, comunicar-se, sequestrar pessoas com suas naves? E o que estariam esperando que ainda não invadiram a Terra? Apenas espreitam para dominar o planeta? Por que isso já não ocorreu?
Quando perguntamos o que querem conosco, essa dúvida por ventura não seria uma questão que só nós levantamos?
Por mais estranho que seja o ET, ele terá corpo, ou será uma espécie de ser gelatinoso, uma bolha, de todo modo representa uma ameaça aos seres humanos.
Ora, essas características são simplesmente nossas, elas não passam de projeções da condição humana. Não podemos sair de nosso corpo, de nossa linguagem, de nossos símbolos, de nossa cultura, enfim, de nosso modo de ser.
Buscar provas e evidências, é também uma necessidade humana. Além disso, que podemos saber?
Nada sem os nossos meios.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Nós humanos e a busca por razões

Época de futebol, época de lembrar de episódios de raiva e preconceito racial nos estádios mundo afora.
O gesto de Daniel Alves e o comentário "somos todos macacos", repercutiram em favor do jogador, com velocidade e entusiasmo.

Alguns preferiram o "somos todos humanos", esquecem que o sentido da frase referente ao nosso parentesco, que existe sim com os macacos se devia à comparação de negros com macacos. Ofensivo, preconceituoso, mas apanhar a banana e comê-la equivaleu a dizer, e daí? Vocês são macacos também!
***
A evolução nos tornou humanos, mas não humanos suficientemente. Quer dizer, de um lado, somos resultado de transformações biológicas, históricas, sociais, culturais, somos "humanos, demasiado humanos". De outro lado, ainda somos bárbaros, comparáveis a feras, aos brutos.
Justificamos crenças como se fossem verdades inamovíveis, e povos inteiros as impõem. É incrível que séculos atrás os gregos buscavam razões, justificavam suas crenças em deuses e mitos como interpretação de atitudes e valores humanos, usavam argumentação, raciocínio, fundaram a lógica e buscaram os princípios de todas as coisas na metafísica, indagaram sobre as causas mais gerais de todos os seres.
Escola peripatética 
Enquanto isso, em outras partes do mundo, tais usos da razão estavam ainda muito longe de serem conquistados, alguns povos jamais os alcançariam.
Entretanto, na modernidade não há mais justificativas para desconhecer que buscar razões, espírito de tolerância, abertura para o outro, o diferente, usar a mesa de negociações e outras tantas práticas que costumamos chamar de "civilizadas", beneficiariam todos. Qual a razão, o que justifica guerras fratricidas, eliminação racial, ódio, desrespeito às mulheres e crianças, ao que fala outra língua, ao que pratica outra religião, que habita outra fronteira?
O ideal de muitos chefes de países ainda é obter pela violência a obediência restrita, melhor é dirigir manadas do que cabeças pensantes. Muitos governantes não passam de chefes de gangues. Quanto mais poderoso é o tirano, mais submisso seu povo, são de fato súditos (submetidos). Se o momento da revolta chega, os encontra despreparados para se autogovernarem.
***
O que esperar de nações onde a escola é um meio de doutrinação?! Ou onde não há escola ou onde são destruídas? Onde a educação é desprezada?
Escola na Nigéria destruída por fanáticos
Crianças educadas para não pensar, para fazer parte de uma manada, servirão quando adultos a uma classe, a uma seita, a um poder, endeusarão o estado. Isso aconteceu no século passado, na Alemanha à época do nazismo. E acontece ainda hoje, escolas há que doutrinam, dogmatizam e impedem a busca de razões. Para chefetes e ditadores é perigoso argumentar, é uma ameaça dotar-se de liberdade de espírito, imbuir-se da necessidade de investigar, e não se contentar com regras nem com princípios intelectuais que não passaram pelo crivo da indagação.
As muitas possibilidades na aventura intelectual, na aventura humana, são limitadas somente por nós mesmos!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Religião e ciência

Uma das mais fundamentais e remotas necessidades da humanidade foi o culto aos deuses, às forças naturais, às manifestações misteriosas. Aos poucos os sacrifícios prestados a tais elementos a fim de restaurar o equilíbrio e apaziguar inimigos, foi sendo alçado a um nível superior, o de um só ser, absoluto, transcendente,todo-poderoso, numa palavra, Deus.
O monoteísmo prevalece na maioria das religiões, e, por sua vez, as religiões se mantêm firmes e influentes, mesmo nas atuais culturas e sociedades. Podem levar a barbarismos como certo "islamismo" radical, caso do grupo terrorista que sequestrou meninas na  Nigéria, o Boko Haram, sob o pretexto absurdo de que meninas não podem ir à escola!!!, a guerras, espalhar morte e ódio.
São exceções, pois religiões podem e devem cumprir outras funções, levar à paz, espalhar solidariedade, ajuda humanitária, conforto interior. E esse é o papel esperado das diversas crenças religiosas, fiéis seguem seus preceitos, oram, encontram nos textos sagrados a verdade revelada e por isso mesmo, incontestável. A fé é uma das dimensões da vida humana, outros produtos culturais não a substituem pois apenas religiões levam ao encontro com o sagrado e o divino, além do humano. Não é preciso provar nada, e sim vivenciar a crença.
Fé e revelação
Por isso mesmo, não faz sentido algum obrigar alguém a crer e nem impor uma religião. Infelizmente, há muita manipulação e forte indução em certas seitas, mas sempre cabe à pessoa aceitar ou não esse tipo de pressão.
Por todas essas razões, a ciência não pode ser posta no lugar da crença em entes superiores e divinos, muito menos o inverso, crer em vez de conhecer.
Revelação e prova científica são antípodas, inteiramente diversas, uma não pode substituir a outra.
A ciência requer um tipo de conhecimento que, inclusive, não é uniforme, há tipos de ciência, a biológica (Biologia, Medicina), a natural (Física, Química), as ciências humanas e sociais (História, Sociologia), as da comunicação, as da informação, as matemáticas, a Economia. É preciso haver pesquisa, resultados, métodos, verificação, publicidade nos resultados, uma linguagem tradutível por meio de cálculos, símbolos, estatísticas, provas laboratoriais. As ciências progridem e estão em constante mudança. Podem também produzir guerra, morticínio, devastações, como a bomba nuclear, experimentos com vacinas e medicamentos (nazistas com os judeus e laboratórios nos EUA com negros). 
A teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein, as concepções de que somos feitos de células, organismos que evoluíram, que somos dotados de um psiquismo, neurônios, sinapses, enfim, que há um universo em expansão e que nosso organismo e nosso cérebro são objeto de pesquisa e que há muito, muito mesmo ainda desconhecido - tudo isso é matéria de ensino, ciência, pesquisa.
Explicações são objeto de ciências
Não há impedimento algum e nem incompatibilidade com religião alguma, ensinar princípios, métodos e resultados das ciências, em níveis que acompanham os graus de compreensão dos alunos.
É possível e condizente com a educação, os alunos ficarem cientes de que há tipos de questionamento. Um questionamento sobre nossa origem pode ser respondido por meio de verdade revelada (o professor expõe para a criança ou para o jovem certo tipo de fé ou de religião), e por meio de ciência em constante mudança com novas teorias, com novos instrumentos e novas necessidades sociais e econômicas.
Educar é alargar horizontes, esclarecer, instruir, informar e, principalmente, formar pessoas responsáveis, abertas, livres para pensar e decidir.
Nietzsche em Humano, demasiado humano escreve: 
Aforismo 128: Promessas da ciência
"A ciência moderna pretende diminuir a dor tanto quanto possível, uma vida tão longa quanto possível, isto é, um tipo de felicidade eterna, muito modesta, é fato, em comparação com as promessas da religião".
Essa reflexão, extremamente crítica, infelizmente não é feita nem nem na escola, nem pelas religiões.

sábado, 26 de abril de 2014

O valor da ironia

Para o senso comum, ironizar equivale a caçoar, a gozar de algo ou de alguém, a conotação do termo é negativa.
Para a filosofia, a ironia tem outro alcance e outra conotação. Toda situação pode ser reelaborada pelo ângulo da ironia, de modo a assumir certa distância que um olhar perquiridor e atento, que permite a reflexão e o questionamento, abalam o que já sabia, o que se tinha como certo e seguro.O ironista pergunta, será assim mesmo? Você não conseguiria ver de um modo novo, diferente? Aquilo que você considera assentado, por acaso não poderia ser abalado, modificado, reinventado?
E a resposta do filósofo irônico será sempre SIM! 


A ironia de Sócrates parte da introspecção, da descoberta de seu eu, atingir pelo olho interior o que há de divino dentro de si, a sua sabedoria. Aquele que crê saber, nada sabe, pois acha que já conhece tudo. Aquele que diz nada saber é realmente sábio, pois este não crê saber o que ainda ignora. Ou seja, não se trata de um jogo de palavras e sim de um ponto de partida: para chegar à sabedoria, é preciso reconhecer a ignorância, livrar o espírito dos erros e prosseguir no caminho da verdade. A ironia leva ao

Sócrates


desmonte das ideias prontas, a ironia tira o chão dos que se creem superiores. Sócrates conduz a argumentação fazendo com que a pessoa se confronte consigo e com tudo o que considera como correto e verdadeiro sem exame prévio, a ponto de essa pessoa se irritar; o próximo efeito é a pessoa se libertar das opiniões e abrir-se para novos ensinamentos.Como Sócrates tinha muitas dúvidas, ele instigava dúvidas nos outros, e, pelo diálogo ia modificando as noções antes aceitas; desse modo o próprio filósofo ia construindo o conhecimento, ele como que pavimentava o caminho para a vida reta e virtuosa, que é a finalidade da sabedoria.


Voltaire ironizou por meio do recurso ao absurdo, ao non sense e à contradição: dizer o contrário do que se quer comunicar, mesmo correndo o risco de não ser compreendido. Aliás, quem não compreende o significado de um dito irônico, falta-lhe informação, leitura, cultura. E talvez com pessoas muito ingênuas ou pouco informadas, o esforço de ironizar não compense.

E ironizar compensa? Não será uma ironia que a própria ironia desloque a si mesma?

O riso silencioso do filósofo, a que se referia Foucault, é irônico. Apontá-lo como estruturalista ou como filósofo da vanguarda, ou como um guru que tem resposta para todas as questões, a isso tudo a resposta vem num tom irônico. Se me consideram positivista, disse ele, sou um "positivista feliz".

Há todo um jogo de significações com ida e volta a contextos para que a ironia seja interpretada corretamente. Ironia: mas como assim, "corretamente"? E o que dizer, ironicamente, do que se considera como correto? A quem ou a que atribuir correção, sem tropeçar na ironia?
E a ironia das ironias? Viver para morrer...


sábado, 12 de abril de 2014

As diretrizes do Plano Nacional de Educação e a questão da igualdade

Em recente debate acerca das diretrizes do PNE sobre a promoção da igualdade via educação, Toni Reis (Gazeta do Povo) defende o plano original, o de que esse objetivo seria alcançado pela "promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual".
Problema: como ser igual se é preciso respeitar as diferenças entre gêneros, se a própria orientação sexual deve ser vista como permitindo que sejam seguidas sem discriminação, se ser mulher é algo de que nos devemos orgulhar, como, repito, esse justo realce nas diferenças pode ser compatibilizado com igualdade?
A igualdade jurídica e política pertence à esfera legal, constitucional. Já está assegurada.
Mas não é possível haver igualdade nas expressões de si, de seus gostos, desejos, orientações. Nesta esfera, o que deve e precisa ser respeitado e compreendido, são os estilos de vida diversificados.

Na outra ponta, e contrário a esses propósitos na educação, Paulo Vasconcelos Jacobina acusa Foucault, Freud e Lacan, de serem os inspiradores dessa política que vê o lado da opressão e não o da educação para a ciência, para a cidadania, e que cultua aqueles pensadores os quais, segundo ele, se prestam apenas para denunciar toda sorte de opressão e investem em "educação de 'vanguarda' sexual".
Errado também.
Se pedagogos fazem uso inadequado e mesmo errôneo de noções e conceitos de Foucault, Freud e Lacan, é porque desconhecem suas ideias. 


Tomemos o caso de Foucault. A desculpa para o desconhecimento e mau uso de seus escritos, aparece invariavelmente sob o manto acusatório de ser "pensador da moda".
Que moda duradoura é essa!
Em nenhuma obra, entrevista, curso Foucault defende a igualdade, nem que é dever educacional promover a igualdade de orientação sexual.
Entre outros objetivos, Foucault é um analista, um historiador do presente, isto é, de como práticas diversas instituídas e/ou inventadas em épocas históricas determinadas, constituíram esse homem, esse sujeito, esse indivíduo moderno. Ele inventariou as mudanças históricas que resultaram, por exemplo, no indivíduo político, produtor, que precisa ser vigiado e punido para que governos usufruam do trabalho, produção, produtividade como se exige tanto hoje em dia; desse modo, é possível governar com menos aparatos, policiais inclusive. População governável, depois do século 18, saudável, mantida em mínimas condições vitais de saúde; ditaduras de direita como de esquerda precisam dela, tanto quanto democracias.
Foucault investigou como resultamos em indivíduos encaixáveis, submissos, mas não tem um discurso político pronto para que nos libertemos da opressão, seja ela qual for.
Até mesmo a sexualidade moderna resulta de práticas, discursos, aparatos médicos, psicológicos, psiquiátricos que moldaram a relação com o sexo e deram novo sentido às práticas sexuais. Não mais o foco nos prazeres, na fruição e sim na relação de si com o desejo, com o desejo posto sob exame, confessar sua intimidade, colocá-la voluntariamente sob o escrutínio de algum ouvido sábio...
E esse indivíduo moderno está aí, policiado, tutelado, examinado, investigado por questionários e enquetes, que cada vez mais confessa seus desejos sob o crivo da ciência especializada.
Voluntariamente se orna com aparelhos que medem tudo o que ele faz. Se corre, quer saber das batidas do coração, não para prevenir alguma doença cardíaca (que também está sob vigilância) e sim para aumentar sua performance. Sofisticados rastreadores de atividade esportiva acoplados ao corpo operam uma "verdade" utilizável.
Como diz Foucault, esse domínio cada vez mais fechado sobre o corpo, sobre a sexualidade, permite ao Estado funcionar otimamente, com menos rebeliões.

Então Foucault não tem nenhuma mensagem aos jovens educandos?
Abram os olhos!
PS: desconheço lições de rebeldia contra a "opressão" por parte de Freud e Lacan...

domingo, 16 de março de 2014

A ética da coragem e a ética da responsabilidade

A virtude da coragem deixou de ser modelo ético em nossos dias. A coragem é considerada um atributo da força física, ou uma qualidade atlética, no sentido de enfrentar e vencer perigo. Ser corajoso significa destemor, não ter medo de obstáculos, caso dos desportistas em geral. Nada contra...
Mas, a coragem ética é de outra natureza. Não requer treinamento, exercício ou superação. Requer uma aguda consciência de viver conforme seus projetos, saber-se só nos momentos cruciais de decisão, encarar a vida do ponto de vista de nossa mortalidade. Assim, subir em uma montanha não seria desafiar os perigos, e sim poder contemplar, alargar horizontes e perspectivas. Olhar lá de cima o precipício, entender que essa altura e essa contemplação são a metáfora por excelência para a coragem ética, é raro encontrar quem assim reflita. E por que? 
Não interessa às pessoas enfrentarem a si mesmas, se ocuparem consigo, perceberem a si próprias como um ponto frágil e ao mesmo tempo forte. Frágil porque mortais, embora fortes o suficiente para abastecer seu dia a dia com a confiança dos que usufruem e sorvem da passagem do tempo, que procuram compreender, ouvir, tolerar, que abominam hipocrisia e fingimento. Que prezam a autenticidade.
E por que essa virtude é tão importante?
A importância dessa virtude, a coragem moral, decorre de suas consequências: desprendimento, solicitude, grandeza , abertura para o outro, para o diferente, a aceitação e compreensão dos limites do humano.

Quanto à ética da responsabilidade, essa é bem conhecida, inculcada, e dela só se eximem os que agem de má-fé.

Fomos educados para o estudo, para o trabalho, para a responsabilidade com deveres e com compromissos. Não temos desculpa para atrasos, para faltas, somos cobrados o tempo todo no trabalho, pelo Estado, pela família, nas transações de compra e venda, somos afogados por impostos, somos responsabilizados por todo tipo de atitude, as que devem ser tomadas e as que não devem ser tomadas. Crianças não escapam, idosos não escapam. A impressão é de que apenas prisioneiros estão dispensados de tarefas, responsabilidade e deveres! 

Que contraste entre os dois estilos de vida, o do solitário no alto da montanha, e o do cidadão responsável! Seguir regras, ter direitos e deveres, sentir-se e saber-se responsável pelos que nos são próximos e também pela própria humanidade, como queria Kant (a ética do dever), isso tudo pesa e muito. Parece incompatível com certa leveza que há no modo de viver do corajoso, como o leão ou, melhor, a águia de Nietzsche.


Muito difícil, senão impossível viver como um ermitão. Não há sequer espaço para a solidão!

Mas, se a responsabilidade for tomada em sentido mais amplo, se, além de cumprir deveres ela incluir a mais completa e total solidão das tomadas de decisão, como quer Sartre? Quer dizer, não haveria um atributo ou uma propriedade humana, para além das virtudes acima? Sim, a liberdade, ela é inerente aos seres humanos, um bem inalienável, não se destitui ninguém de sua liberdade. Mesmo alguém escravizado pode assumir-se como livre do ônus de quem escraviza. 
É na condição de seres livres que a coragem e a responsabilidade se complementam e se compatibilizam.


domingo, 9 de março de 2014

A democracia e suas vozes, segundo Habermas

A legitimidade e os efeitos políticos dos protestos na Venezuela e na Ucrânia, estão na ordem do dia.
O sucessor de Chaves, Nicolás Maduro perde  o controle de seu governo a cada dia que passa. Argumenta-se que a Venezuela bolivariana é um obstáculo à influência dos EUA, que o governo norte-americano apoia os protestos em razão do petróleo abundante no país latino. Já a parte da população que protesta, quer liberdade de voz e voto, fim da censura, melhoria na produção de itens básicos, controle da inflação, enfim, um governo mais responsável e menos ideológico. Ajudar Cuba enquanto há desabastecimento é, no mínimo, injusto. Mas Maduro foi eleito, a democracia venezuelana, apesar de um sistema judiciário arbitrário, vige no país.

A Ucrânia também elegeu um presidente. Este, após protestos que já duram meses e causaram inúmeras mortes, se refugiou não se sabe onde. A Rússia, com Putin, quer manter a influência sobre a Ucrânia e a Crimeia, região anexada pela Ucrânia nos anos 50, estratégica para a Rússia devido ao porto de Sebastopol no Mar Negro. Para o gás russo chegar à União Europeia, passa pela Ucrânia. Esta não pode boicotar os gasodutos, pois tem interesse em se unir à UE.
Como se vê, a situação em ambos os países tem variáveis difíceis de equacionar.
A democracia tem e precisa ter várias vozes, e essas vozes devem ser representadas por presidente e deputados eleitos por meio de leis e regras estabelecidas em comum acordo, discutidas e votadas em um sistema aberto, que funciona bem.
A mesa de negociações deveria ser o local de plena vigência dos regimes democráticos, nela deveriam ser ouvidos governo, parlamentares, representantes do povo, do poder judiciário de tal modo que as reivindicações sejam ouvidas, discutidas e comunicadas. Imprensa livre é fundamental como canal de acesso às informações.
Ora, nos países em foco essas vozes múltiplas não têm sido ouvidas, pelo contrário.
Quais seriam os requisitos para que sejam ouvidas e atendidas?
Em toda sociedade, diz Habermas, há três colunas mestras: a da sociedade propriamente dita, a da cultura e a da personalidade. Normas, valores e educação pautam cada uma delas, respectivamente.
Sociedades devem ser constituídas de modo a haver convívio entre as diferentes e diversas camadas da população, devem ser atendidas as necessidades básicas de seus cidadãos, leis devem ser obedecidas, regras de convivência respeitadas. Alguns chamam a isso de civilização.
A cultura diz respeito aos aspectos simbólicos como literatura, arte, ciência, e todo o saber que circula no que Habermas chamou de "mundo da vida".
A personalidade é formada por pessoas, sua integridade, o modo como foram educadas e como respeitam umas às outras.
Quanto mais fortalecidas essas bases, melhores são as condições para que a produção econômica e as estratégias do poder político (o sistema) se estabeleçam sem colonizar o mundo da vida, isto é, sem que normas, educação, valores sejam pautados pelo dinheiro e pelo poder.
Entrar no debate democrático requer, portanto, o bom funcionamento das instituições, nível cultural e educacional cada vez mais aprimorados, e pessoas íntegras. Em outras palavras, reivindicações justas e legítimas, pleiteadas publicamente por pessoas honestas e preparadas para o debate.
Faltam todas essas condições tanto à Venezuela como à Ucrânia.
E no Brasil? Falta justiça social, melhoria urgente na educação, melhores condições de vida, principalmente nas grandes cidades. Isso, por enquanto, tem sido compensado pelo funcionamento das instituições públicas, da constituição, da imprensa livre. Não desejamos nem um presidente fantoche e nem ingerência externa em assuntos internos.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os pseudo herois do momento no Brasil

Deixando de lado vantagens e recursos que o Brasil tem (esperemos que não se esgotem, que sejam respeitados e cultivados com cuidado e responsabilidade), ao que parece nos encontramos como que emparedados por dificuldades.
Explico: o desemprego se situa em nível abaixo da média, porém o descontentamento está muito acima da média. Razões não faltam, recomeço da inflação, corrupção na política, ceticismo com relação à classe dirigente, sofrimento de grande parte da população com violência (no trânsito, nas estradas, nas ruas, ao chegar em sua própria casa!), prisões abarrotadas sem solução à vista, uma presidente (a) autoritária que ao mesmo tempo depende de seu tutor e mentor, deputados que só pensam na próxima eleição. E recentemente, o temor de sair para protestar e ser ferido ou morto por idiotas mascarados, que, agora sabemos, são paus mandados. A morte do cinegrafista Santiago custou R$ 300,00, somadas as quantias pagas aos dois rapazes!
Considerar que queimar bancos e lojas de automóveis acabará com o capitalismo é ignorância, irresponsabilidade e reles imitação de outros movimentos semelhantes que nada conseguiram, a não ser disseminar medo.
Vejamos, historicamente e socialmente falando, algumas questões sobre o capitalismo.
Empresas e indústrias surgiram do nada com o objetivo de semear desigualdade, injustiça, fome, pobreza?
Multinacionais norte-americanas e europeias são intrinsecamente más e prejudiciais à humanidade?
Há que se abolir todos os bancos, bancos oficiais inclusive, como o Banco do Brasil? E também empresas como a Petrobras?
Ao tempo dos reinados e impérios, desde os egípcios até Napoleão, o reino britânico, belga, czares russos não havia exploração e desigualdade, despotismo, miséria? Apenas no capitalismo começou a luta de classes?
Estas e muitas outras questões não passam pela cabeça fechada pela ideologia que impregna muitos de nossos herois intelectuais, sociólogos, filósofos, historiadores, enfim, os chamados intelectuais de esquerda.
Eles ainda querem "tomar o poder"? Pois bem, o PT, comprometido com a ética na política, com o plano de acabar com miséria, a desigualdade e a pobreza frutos do capitalismo (mas a favor, como diz o nome do partido, dos trabalhadores) e inspirado pelo socialismo de vertente cubana, hoje visa somente poder. O poder político, cargos federais, ministérios, todo o funcionalismo e as benesses que cargos proporcionam. Nem qualidade e nem o compromisso com a causa pública são invocados. Só interessa permanecer no poder. Para isso vale trazer o empresariado que também se beneficiará com contratos para realizar grandes obras, pelas quais recebem fortunas em troca de que? 
Pouco ou quase nada. Com a máquina pública deteriorada, nossos dirigentes começam, por debaixo dos panos, a  reconhecer que privatizar é a saída. Claro que sem usar o termo que outrora demonizaram, "privatizações do PSDB"... 
Demonizar o capitalismo, em que pesem seus defeitos e problemas, crises e desemprego, é descer sobre estudantes e jovens, uma cortina de fumaça, pegajosa, perigosa, até mesmo covarde.

Aos pseudo herois do momento, Genoíno, Dirceu e companhia, ao deputado que cerrou o punho levantado, vieram juntar-se intelectuais. Entre eles, destaque para Caetano Veloso vestindo máscara dos black blocs. Ele revelou um lado seu, é um mascarado mesmo, no outro sentido do termo. Uma bela voz em uma cabeça carcomida.

Não esqueçamos: o Brasil é uma democracia, é preciso fortalecer o regime democrático, especialmente em ano eleitoral. Escolher os mais dignos, creiam, eles existem.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Em que sentido espírito e/ou alma existem?

Quem leu a postagem anterior, talvez tenha concluído que seria impossível falar de alma e espírito, se eles não existissem. Faz sentido atribuir qualidades como imortalidade, espiritualidade, invisibilidade, capacidade de pensar, de isolar-se no íntimo de seu eu, sem que haja tais entes, quer dizer, algo em si ao qual podem ser atribuídas a existência, a subsistência, a temporalidade, e outras categorias?

É preciso levar em conta duas possibilidades:
A primeira possibilidade, considerar que a resposta à pergunta "o que existe?" é: entidades com a capacidade ontológica de ser, de existir ou de subsistir são uma resposta evidente e imediata a essa pergunta. Espírito/alma existem, mas não do mesmo modo que uma mesa existe, que corpos de um modo geral existem. A natureza dessa existência seria a espiritual, incorpórea. Prova disso: somos seres pensantes, nosso espírito subsiste nas ideias, imaginação, vida interior, pensamento. Difere do corpo, portanto, também difere do cérebro e de suas complexas engrenagens. Descartes defendeu essa visão dualista do homem.

A segunda possibilidade: o sentido ontológico de alma/espírito é atribuível a facetas, a características da cultura humana, às ações, às situações desde as mais corriqueiras, até os ritos mais secretos, às celebrações mais solenes. Exemplos de atos de fala com emprego contextual compreensível e que não levantam problemas ontológicos, isto é, perguntas sobre se se trata de espírito "mesmo" e como é sua natureza, imaterial, pessoal, imortal, etc.
"Pedro é uma pessoa boa, tem um espírito conciliador"
"O Espírito dos povos evolui e se aperfeiçoa"
"Pobres almas inocentes dessas crianças que morreram nos bombardeios da Síria"
"Um raio de luz me transpassa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros!" (Nietzsche).
"Espíritos elevados constroem um mundo melhor".
E inúmeros empregos dos termos, como "parece uma alma penada" sobre o aspecto lúgubre de alguém; "espírito de corpo", para corporativismo, e "espírito de porco" em um xingamento; e tantas outras de nosso uso diário, por vezes na poesia, na literatura, nos ditos populares.

Assim, há os que creem na alma como uma entidade pelo menos subsistente cuja natureza difere radicalmente da corpórea, e aqueles que partem de outro pressuposto, o da vida humana inserida em uma cultura, com seus signos, linguagem, atos de fala, jogos de linguagem, símbolos. Estes últimos não precisam elucubrar, apenas ver o que e como ocorrem as situações em que faz perfeitamente sentido se expressar com termos que se referem às capacidades de pensar, refletir, falar, dar sentido ao mundo, comunicar, decifrar, inventar, imaginar, e tantas outras. 

Como resolver a seguinte questão, para os adeptos da primeira possibilidade. Sentir prazer ou dor é corporal ou espiritual? A dor física e a dor moral, a dor de uma perda, em que diferem? Valores morais pertencem ao corpo ou ao espírito? 
Ou essa outra, para os adeptos da segunda possibilidade: depressão (doença inventada/diagnosticada pela psiquiatria) é física, cerebral, mental, espiritual, cultural, genética, inclassificável em um só gênero? 
E mais essa: por que faz muito mais sentido dizer "força de vontade" do que "força de espírito"?

Quero dizer uma coisa aos que menosprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem sua estima. Quem criou a estima e o desprezo, o valor e a vontade? O próprio ser criador criou sua estima e seu desprezo, criou sua alegria e sua dor. O corpo criador criou para si mesmo o espírito como procedência de sua vontade  (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).