Em nosso cotidiano empregamos "realidade" e "aparência" como em oposição, quer dizer, o que é real não pode ser aparente e vice-versa. O mesmo quanto a "ser" e "não ser", e isso desde os princípios do aprendizado da linguagem. Exemplos: esse animal que você vê no zoológico é real, um bicho com vida, tem existência própria. Um desenho desse animal, o leão em um desenho animado, é também real, mas não existe como vivente, em "carne e osso" como se costuma dizer. A cadeira em que me sento é real, sua foto também é real, mas cadeiras não existem no sentido de seres com vida própria. O que é, então o aparente?
Alguém bem vestido, tem "boa aparência". Experimente entrar em uma loja de artigos de luxo "bem" vestido e vestido com simplicidade. O vendedor irá tratá-lo de forma muito diferente.
Nos habituamos a essas constatações, o hábito faz o monge...
Acontece que a aparência de algo ou de alguém, é também real. Ninguém dirá que vestimentas são irreais!
Será que a filosofia esclarece essas nomeações e identificações ou as complica?
Realidade tem a ver com ser, e aparência com não ser?
Sim, para Platão. Com um complicador: o ser em sua essência não é o que aparece, o que nossos sentidos visualizam ou percebem são sombras dos verdadeiros seres, cuja identidade (ou essência permanente) se dá no mundo ideal. Então, o que é real para o senso comum, no idealismo platônico é aparência...
Se o filósofo for adepto da concepção realista, Aristóteles, por exemplo, cada ser, cada indivíduo, o animal no exemplo acima, tanto o do zoológico quanto o do desenho, são entes, são entidades com uma essência que permanece, e várias qualificações que mudam. Há uma essência no ser leão, compartilhada por todos os entes dessa espécie, e qualidades como estar em certo lugar, estar doente ou saudável, ser leão no desenho infantil, filhote ou adulto. Quando muda a essência, por exemplo, leão vivo e carcaça de leão, trata-se de diferentes entidades.
Problema: e quando não se pode identificar, passa a não ser? Outro problema: não ser é nada, e nada não pode receber uma qualidade, um atributo como o da existência. Aparência não pode ser nada, pois, afinal, é o que aparece...
Passemos para o empirismo. Um filósofo do século 18, John Locke, que era médico, postulava que apenas por meio de nossas experiências poderíamos chegar ao que são e ao que não são as coisas. Desde as sensações de amargo ou doce, as visualizações de algo, podermos distinguir, qualificar, e até mesmo nossas ideias, tudo vem da experiência. Meninos lobos (há relatos históricos de sua existência), não aprendem a falar, não se "humanizam", pois falta-lhes a experiência fornecida pela cultura e pelas sociedades humanas.
Se o filósofo for adepto do pragmatismo, dirá que ser e não ser, aparência e realidade, dependem do contexto de uso, são empregáveis em situações exigidas pelo tipo de ação com valor ou não, conforme nossos objetivos. Isso se dá no emprego de termos, de conceitos, inclusive os de uso filosófico e os de uso cotidiano. Em si mesmos, ser e nada são vazios de sentido. É preciso um contexto de uso, seja em sala de aula de filosofia, seja no emprego comum, se não fizer sentido, se não tiver um emprego, se não for explanável, não faz parte de nossa linguagem, de nossa cultura nem de nossa sociedade. Em lugar de postular um mundo absolutamente estável e de essências permanentes, o pragmatismo postula que tudo depende do uso.
Faz sentido perguntar qual dessas escolas filosóficas está certa?
Não, pois filosofar é ousar levar o pensamento até as últimas consequências.
Na vida prática, idealizamos o amor, identificamos as coisas, experimentamos quase tudo, e usamos ou não o necessário (também o supérfluo). Somos idealistas, realistas, empiristas e pragmatistas.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O que é realismo? O que é empirismo?
O realismo toma por base, como o nome indica, a realidade das coisas tais como elas se apresentam, os objetos como origem de todo conhecimento, aquilo com que nos defrontamos é aquilo que conhecemos, impossível iludir-se ou enganar-se quanto a isso. A realidade não é uma construção do sujeito.
Por essas razões, os realistas criticam o idealismo filosófico. Para que multiplicar entidades em um mundo platônico ideal, pergunta Aristóteles. A essência dos seres reside em sua individualidade, em sua especificidade. Todo ser possui uma essência que o caracteriza e o distingue, e acidentes, isto é, o modo como se apresentam, seu estado, seu lugar, seu tempo.
O realismo vem até a filosofia atual. Moore é um dos principais representantes. Ele argumenta ser impossível negar que "Isso é uma mão" se refere realmente à mão da pessoa; essa constatação é também a base para um juízo verdadeiro sobre a realidade.
A corrente do empirismo é inglesa, surge no século XVII. John Locke era médico, e a ciência o ensinou que a experiência é o ponto de partida e a finalidade de toda atividade do pensamento, que as ideias provêm todas das sensações por meio das quais nossa capacidade intelectual surge e se desenvolve. A mente é vazia até o contato com o mundo, depois vêm as ideias, a imaginação, a memória, há o papel da linguagem na transmissão e conservação do pensamento. Todos os princípios e máximas morais são produto da cultura e não inerentes ou inatos. Podemos aprender sempre, é pelo uso da razão que crianças aprendem, mas esse uso depende inicialmente das sensações, e estas levam à reflexão. Nada há a priori na mente, nenhuma forma, nenhum princípio transcendental. Digamos que tudo está por fazer, tudo depende da capacidade humana de experimentar, de explorar. As ideias e a consciência delas são operações produzidas pelo próprio indivíduo.
Como saber que o pão alimenta ou que a água afoga quem não sabe nadar? Sabemos disso pela experiência, responde Hume (empirista inglês, século XVIII).
Esses argumentos pretendem "derrotar" todo tipo de idealismo, e também o racionalismo francês de Descartes.
Um parêntese: interessante que hoje há um retorno às concepções de estilo cartesiano, a bagagem inata prepondera sobre a adquirida, o cérebro/mente carrega grande parte de nossas capacidades, o código genético coordena nossa vida física e mental, decretam filósofos como Pinker.
Críticos do realismo, o consideram ingênuo. O que se vê, o chamado real, requer contato, descrição, interação, objetivos. As coisas não estão ali, pura e simplesmente. Situações reais e corriqueiras, quando transpostas para a literatura, para o cinema, por exemplo, assumem outro tipo de realidade, a ficcional. O objeto visto pela lente de um fotógrafo se transforma. Se torna outro tipo de objeto. E que dizer de sonhos, ilusões, desejos, o inconsciente?
Wittgenstein considera que as situações de nossas formas de vida são tão diversas e variadas, que ver a mão, como no exemplo de Moore, e com base nessa constatação achar que o real produz certeza, são aspectos, possibilidades. Que sentido faz dizer "Isso é uma mão" ? Pode ser, por exemplo, a resposta de um paciente a um médico que avalia seu estado de consciência, ou alguém mostrando a uma criança o desenho de uma mão. Depende das circunstâncias. Achar-se diante de uma árvore e constatá-la não assegura que todo conhecimento assim começa; "isso é uma árvore" pode ser a avaliação de um botânico. Em nossa lida com o mundo, observações desse tipo fazem sentido dependendo do contexto de uso. Como saber se não é resposta a uma objeção? Ser real ou não é o que menos importa. Importam aspectos relevantes para aquela situação. Falantes trocam ideias, informações, levam em conta os propósitos de um e outro, entre muitas outras possibilidades.
Críticos do empirismo, em geral kantianos, acham que sem aparatos racionais para ordenar as experiências, estas só nos confundiriam. Sem princípios universais e atemporais para avaliar e validar as experiências, estas se multiplicariam em vão.
E o que diz o senso comum? Que pão é pão, que pedra é pedra... Filósofos justamente discutem isso.
Pergunte você também: o que é real?
Por essas razões, os realistas criticam o idealismo filosófico. Para que multiplicar entidades em um mundo platônico ideal, pergunta Aristóteles. A essência dos seres reside em sua individualidade, em sua especificidade. Todo ser possui uma essência que o caracteriza e o distingue, e acidentes, isto é, o modo como se apresentam, seu estado, seu lugar, seu tempo.
O realismo vem até a filosofia atual. Moore é um dos principais representantes. Ele argumenta ser impossível negar que "Isso é uma mão" se refere realmente à mão da pessoa; essa constatação é também a base para um juízo verdadeiro sobre a realidade.
A corrente do empirismo é inglesa, surge no século XVII. John Locke era médico, e a ciência o ensinou que a experiência é o ponto de partida e a finalidade de toda atividade do pensamento, que as ideias provêm todas das sensações por meio das quais nossa capacidade intelectual surge e se desenvolve. A mente é vazia até o contato com o mundo, depois vêm as ideias, a imaginação, a memória, há o papel da linguagem na transmissão e conservação do pensamento. Todos os princípios e máximas morais são produto da cultura e não inerentes ou inatos. Podemos aprender sempre, é pelo uso da razão que crianças aprendem, mas esse uso depende inicialmente das sensações, e estas levam à reflexão. Nada há a priori na mente, nenhuma forma, nenhum princípio transcendental. Digamos que tudo está por fazer, tudo depende da capacidade humana de experimentar, de explorar. As ideias e a consciência delas são operações produzidas pelo próprio indivíduo.
Como saber que o pão alimenta ou que a água afoga quem não sabe nadar? Sabemos disso pela experiência, responde Hume (empirista inglês, século XVIII).
Esses argumentos pretendem "derrotar" todo tipo de idealismo, e também o racionalismo francês de Descartes.
Um parêntese: interessante que hoje há um retorno às concepções de estilo cartesiano, a bagagem inata prepondera sobre a adquirida, o cérebro/mente carrega grande parte de nossas capacidades, o código genético coordena nossa vida física e mental, decretam filósofos como Pinker.
Críticos do realismo, o consideram ingênuo. O que se vê, o chamado real, requer contato, descrição, interação, objetivos. As coisas não estão ali, pura e simplesmente. Situações reais e corriqueiras, quando transpostas para a literatura, para o cinema, por exemplo, assumem outro tipo de realidade, a ficcional. O objeto visto pela lente de um fotógrafo se transforma. Se torna outro tipo de objeto. E que dizer de sonhos, ilusões, desejos, o inconsciente?
Wittgenstein considera que as situações de nossas formas de vida são tão diversas e variadas, que ver a mão, como no exemplo de Moore, e com base nessa constatação achar que o real produz certeza, são aspectos, possibilidades. Que sentido faz dizer "Isso é uma mão" ? Pode ser, por exemplo, a resposta de um paciente a um médico que avalia seu estado de consciência, ou alguém mostrando a uma criança o desenho de uma mão. Depende das circunstâncias. Achar-se diante de uma árvore e constatá-la não assegura que todo conhecimento assim começa; "isso é uma árvore" pode ser a avaliação de um botânico. Em nossa lida com o mundo, observações desse tipo fazem sentido dependendo do contexto de uso. Como saber se não é resposta a uma objeção? Ser real ou não é o que menos importa. Importam aspectos relevantes para aquela situação. Falantes trocam ideias, informações, levam em conta os propósitos de um e outro, entre muitas outras possibilidades.
Críticos do empirismo, em geral kantianos, acham que sem aparatos racionais para ordenar as experiências, estas só nos confundiriam. Sem princípios universais e atemporais para avaliar e validar as experiências, estas se multiplicariam em vão.
E o que diz o senso comum? Que pão é pão, que pedra é pedra... Filósofos justamente discutem isso.
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