quarta-feira, 19 de abril de 2017

A era da técnica e o minimalismo

Chamamos nossa era de técnica. A palavra se refere a todo tipo de atividade pela qual se produz algo, portanto, desde tempos remotos há produção técnica. No grego, "techné" significa trabalho dos artesãos, inferior à sabedoria, à contemplação das ideias, e mesmo subordinada à missão dos guerreiros. 
A era moderna consagrou o trabalho com máquinas, aperfeiçoou as técnicas, principalmente em função da indústria armamentista, e chegou ao que se tem hoje: o completo domínio dos aparelhos de alta tecnologia e de alta performance, como este computador em que escrevo. Acelerou a comunicação e revolucionou os meios de informação.
A pergunta é: esse domínio técnico significa submissão total do homem aos instrumentos e artefatos que ele mesmo criou?
Houve uma completa transformação do ser humano moderno, no modo como produz, transporta, se comunica, na automatização da indústria por meio da robotização, na exploração da natureza, no extenso e poderoso maquinário para cultivo em larga escala.
Dispomos da natureza, fazemos a natureza produzir em nosso favor, para nossa sobrevivência. A civilização técnica não tem volta atrás, e o problema é que dificilmente sucumbiremos ao lixo que resulta desse mesmo progresso e consumo extremos.
Há sempre compensações devidas à autorregulação, os dispositivos técnicos inventados por nós, acabam por nos superar, se tornam quase que impossíveis de controlar.
E como reagimos a isso tudo?
Procuramos despertar em nosso entorno o que vem de graça, tudo aquilo que podemos contemplar, usufruir, sem precisar de controle algum. Resta-nos certa autonomia, quer dizer, conduzirmos a nós mesmos como que levados por uma corrente libertadora. São espaços destinados à arte, à amizade, à contemplação, à meditação, ao prazer de simplesmente viver.
Claro que para isso são necessárias condições, como tempo de lazer, educação da sensibilidade, condição financeira suficiente para o mínimo de bem estar. Condições estas inexistentes em países em guerra, extrema pobreza, em luta pela sobrevivência, sem acesso à educação e a uma vida segura e saudável.
Ora, esses requisitos que nos abrem para viver de forma mais consciente, usufruir o que os meios tecnológicos proporcionam sem escravizar-se a eles, sem precisar abandonar a civilização, acabam por precisar da própria tecnologia.
Educar, criar, contemplar, desprender-se de excessos, evitar o consumismo, menos lixo, mais leveza de espírito, são hábitos de vida divulgados e muitos deles possibilitados pelos meios eletrônicos.

A saída: saber usar vale mais do que acumular. A arte de viver com o essencial, o minimalismo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O que é historicidade?

Foi apenas a partir da segunda metade do século 18 que a noção de historicidade foi incorporada pela Filosofia. A narração histórica é antiga, assim como a percepção da mudança temporal. Mas considerar que a história integra o nosso modo de conhecer e interpretar, isso é mais recente, caracteriza a modernidade.
É impossível desconsiderar que nosso modo de pensar e agir muda com o tempo histórico, que sem levar em conta seu tempo, fica difícil, senão impossível compreender nossa situação e avaliá-la. A mais notável contribuição desse novo modo de ver, é que conceitos, ideias, noções, visões, interpretações mudam, que não há como sair da história para, de um ponto acima dela, atemporal, julgar o verdadeiro e o falso.
Isso porque os próprios critérios se modificam, não há um acesso privilegiado, um juiz supremo e superior capaz de decidir que esse modo ou aquele de julgar, esse valor ou aquele outro é o verdadeiro.
Isso significa que não há a Verdade, nem verdades diversas (o que é uma contradição), e sim que toda realidade passa a ser compreendida, interpretada e avaliada de formas diferentes, o chamado relacionismo.
Relacionismo quer dizer, todas as coisas, situações, conceitos, práticas se relacionam, são contrapostas, e, como é impossível anular diferenças e chegar a uma visão comum, entra em cena a liberdade, a criatividade, vastos territórios a serem cultivados. Isso em lugar da imposição de um ponto de vista apenas, universal e comum, que serviria de guia e ponto de partida para todos, independentemente de cultura, de época, de sociedade.
O relacionismo, aliado da livre escolha, adepto da pluralidade, não anula a possibilidade de entrar em acordo, de ouvir as diversas vozes, como pleiteia Habermas, e encontrar para elas não um patamar comum e universal, e sim bases sólidas, que estão abertas para novas formas de pensar, por que não, melhores, terreno em que possam eclodir transformações. A pergunta é, como saber o que é melhor se todos os acontecimentos têm inserção histórica, portanto, carregam o peso do que Nietzsche chamou de "humano, demasiado humano"?! 
Por meio das consequências decorrentes das tomadas de posição. Essas escolhas contribuem para o bem estar, para a não violência, para a integridade da pessoa, ou degradam, violentam, cerceiam a capacidade de escolher, ou pior, sonegam às crianças essa capacidade?
Desse modo, evita-se o irracionalismo, rejeitam-se as ideologias que tapam o processo histórico por meio da imposição de um credo único, de uma política ditatorial e discricionária, da visão totalitária de chefetes fascistas e cruéis.
Assim, a historicidade é o conceito principal da Filosofia da História, sempre aberta para a autoavaliação, para as mudanças, um antídoto contra o pensamento único. 
No caso específico do ensino de História, a visão pobre e contraproducente de que há uma classe a ganhar o paraíso, a dos trabalhadores e de que a economia deve ser socializada. Marxismo em versão antipedagógica.

terça-feira, 21 de março de 2017

Criacionismo e evolucionismo

Educadores se vêem diante de dilemas quando de suas aulas de ciência, em especial sobre a evolução do planeta, dos seres vivos, entre eles nós, seres humanos, ao serem confrontados com ensinamentos bíblicos sobre a criação do mundo e de todos os seres por Deus.
Se explicam de acordo com a ciência estariam negando a fé? Se adotam a postura religiosa, cristã, estariam sonegando conhecimento científico aos seus alunos?
Trata-se de um falso dilema, pois a fé sincera brota de crença, de iluminação, de tradições. A ciência nasce de perguntas, questões a serem postas sobre como a vida surgiu, e isso por meio de comprovação, de exposição de suas observações e experiências ao crivo da comunidade de cientistas. Com esses procedimentos, sempre sujeitos a acertos e erros, a cálculos, ao avanço dos instrumentos de teste, à publicidade de resultados, a ciência é imprescindível. E mais, em nossa época a aplicação em benefício da saúde e melhoria da vida (exemplo: vacinas), não permite volta atrás.
Pesquisa científica: conhecer e aplicar
Impossível e condenável deixar as explicações científicas de lado como se fossem desacreditar ensinamentos bíblicos.
Deus criador é tema de fé religiosa, baseada em dogmas, em verdades da tradição, às quais não cabem dúvidas. Os professores e a própria escola devem deixar isso claro. A fé diferencia-se do conhecimento, seu poder quando sincera e aberta é o de dar paz e respostas satisfatórias à alma, ao espírito. 
Ao passo que a ciência, se for ignorada ou banida, produz conflitos desnecessários, leva ao obscurantismo, e como consequência, insufla preconceitos. Além disso, como negar o poder da ciência, as evidências da teoria evolucionista, sem, ao mesmo tempo, fechar as portas para o saber?
No remoto século 13, o filósofo e religioso Duns Scotus entendera que a fé verdadeira pertence a uma dimensão superior à do conhecimento, mas não substitui o conhecimento. 
Hoje diríamos que a fé, aquela que move montanhas, não deveria fanatizar e sim abrir os corações para essa vida de recolhimento, de meditação, de oração, de desprendimento.
A interioridade da fé
E que, de outro lado, a ciência, não anula a fé pois requer pesquisa e comprovação, satisfaz a inteligência, a razão em suas necessidades de indagar e obter resposta. 
De onde viemos? Como surgiu e se transformou a vida? A ciência é exigente e cautelosa, avança com estudo, teses, teorias, sempre suscetíveis de correção e, por isso mesmo, confiável.

E esse questionar os seres tem um limite, nossa própria capacidade de compreensão. Como, com nossos meios, podemos interrogar e saber até onde esse questionamento nos leva. Conhecer nosso próprio modo de conhecer, e por aí entramos noutro terreno que a cultura humana proporcionou desde Tales de Mileto até os pensadores de nossa época: o saber filosófico.
Esse saber filosófico entende que essas distinções, entre fé e ciência permitem que ambas convivam, que uma não substitui a outra, que há um enorme ganho cultural e educacional se vistas sob a perspectiva da reflexão. 
Em tempo: as religiões e os credos são vários e diversos, a ciência é unificada.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Heidegger e o nazismo

O Partido Nacional Socialista (PSN) atraiu Heidegger desde o início dos anos 1930. Em 1933, como reitor da Universidade de Freiburg, bastante reconhecido, e de confiança do partido, em seus discursos enaltece a filosofia que deveria voltar aos inícios gregos e daí saltar para o presente. A vontade de saber dos gregos como que ilumina o pensamento livre de deuses, e essa liberdade deveria servir como inspiração para que grupos revolucionários, na Alemanha e em conjunto com o "espírito alemão", se insurgisse contra os fracos do partido democrático, e ganhasse as forças do ser-aí (dasein), como nova "energeia". Povo que se fortalece, sem desculpas, sem consolos, assim entendeu Heidegger o papel da universidade e dele próprio.
A justificativa que apresentaria mais tarde, diante do comitê que investigou o nazismo e seus crimes, foram a miséria, o desemprego, crise política e econômica, motins acontecendo nas ruas, algo próximo a uma guerra civil.
Hitler seria o salvador, atraia pela força do discurso que inflamava o povo alemão no culto à pátria, ao novo Reich. Nessa época professores judeus foram demitidos, e campos de concentração começam a receber os considerados párias. A noção de raça pura passa orientar a política nazista.
Heidegger, caminhos, montanha, sedução; mais tarde reconhecimento do grande erro.
Heidegger estava, segundo seu amigo Karl Jaspers, fascinado pelo que considerava renovação de forças, o ser mesmo se realizava, e o que Heidegger considerava essencial nessa "política", seria a condução para maior responsabilidade, união, realização histórica. Discordou do que passaria a ser a base ideológica do nazismo, pureza racial, o arianismo. 
Mas, para sua amante e brilhante aluna, Hannah Arendt, isso era condenável, execrável. Os encontros eram programados por Heidegger e absolutamente às escondidas (ele era casado com Hermine, tinha filhos). Nessa época de ascensão do nazismo, ela havia rompido o relacionamento. Criticou acidamente o regime, que integrou a massa inteiramente manobrada com a classe dos ricos. Analisou as raízes do totalitarismo, não se deixou levar pelos apelos emocionais de que seria um novo impulso, uma nova nação, destino do povo alemão.
Hannah Arendt
Como mostra Rüdiger Safanski, quando do fim da II Guerra, Heidegger reconhece seu engano, seu erro, que ele sonhou filosoficamente e que isso é inaceitável em filosofia. O filósofo deve ser o investigador do tempo histórico, deve interpretar filosoficamente os acontecimentos. 
O que o fascinou foi a possibilidade de dissolver o ente, as coisas, no ser, e e esse novo ser viria imbuído de elevação, de autenticidade, heroísmo, ouviria o chamado da pátria, alçaria às montanhas.
Digamos que o filósofo aprendeu a lição.
Transcendência e fanatismo são incompatíveis, democracia e fanatismo são incompatíveis, liberdade e fanatismo são incompatíveis.
***
"A diferença fundamental entre as ditaduras modernas e as tiranias do passado está no uso do terror não como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes, mas como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes" (Hannah Arendt, in Origens do Totalitarismo).

quarta-feira, 1 de março de 2017

Existência, cuidado, morte: temas essenciais para Heidegger

Debaixo do céu há o mundo, os seres humanos e a lida desses com as coisas, em total dependência com relação ao tempo, ao desdobrar da existência. 
Quando Heidegger abandona o catolicismo e seu projeto de seguir a vocação eclesiástica, foi movido pela fenomenologia, como vimos na postagem anterior, e pela nova visão de que o mundo que está aí à disposição dos homens, é disso que se trata. Não basta reconhecer a realidade das coisas que fazemos, a vida em sua evolução. Sem deuses e sem religião, o filósofo se volta para a existência, o ser aí, no mundo, sem que algo divino ou superior dê sentido ou justifique essas existências. O que as sustenta? Nada a não ser o tempo. Tempo não o do calendário, nem os tempos que virão, não a promessa de imortalidade. Tempo não da alma ou do espírito, tempo não do corpo, tempo da minha vida, ou melhor, da minha existência.
O jovem Matin Heidegger
Como lidar com esse ter que agir e enfrentar a cada instante o que está por vir?
Impossível prever o futuro, mas possível e próprio ao ser no tempo é preocupar-se em tecer o que está por vir, cuidar, lidar com as coisas, atividades que se desdobram no tempo.
A experiência de ter que lidar, enfrentar, faz com que esqueçamos de nós, de nossa vida, e súbito caímos. A essa queda Heidegger chama de "ruína", aquele incrível insight de que somos algo fadado ao nada, à morte.
A sensação de queda, de estranhamento, de nada, ao invés de levar a um tipo de renúncia ou de derrota, impulsiona o ser para sua existência própria, aí, no meio às coisas, diante de um futuro inteiramente aberto, e aberto para que? Para o fim. Saber-se vivente, existente que vai morrer, não desestimula e nem assusta, pelo contrário, dá sentido à vida.
Um paradoxo?  
Não, se pensarmos que paradoxal implica em raciocínio lógico, e não é de lógica que se trata e sim desse abandono do ser a si mesmo, quando se percebe mortal e precisa viver essa mortalidade. 
Acontece que é mais fácil esquecer disso, divertir-se, escamotear a fragilidade, pretender-se incólume ao tempo, remendar aqui e ali, seu corpo, seu rosto, seu dia a dia. Com deuses, profetas, milagreiros, passatempos, diversões, com as receitas de ajuda e de consolo. Pular, pular, pular... Como macacos, não como existências atentas ao seu poder ser: "coragem para a angústia".

O que move a Filosofia? Desde seus primórdios a questão do ser, como ocorre que tudo seja, que entes tenham vindo a existir, começo, causa, fim, busca de sentido.
Heidegger põe essas questões em novo trilho, o de nossa existência. Em lugar da fuga em direção a um transcendente, a abertura, ser livre e escolher a si mesmo, ver o mundo como disponível, habitável, que a condição humana é feita de escolhas no tempo que nos move, que somos absolutamente contingentes, e que angustiar-se com isso, é próprio de nossa existência.

P. S.: E pensar que Heidegger abraçou o nazismo durante certo período, e pensar que foi amante de Hannah Arendt... Fica para outra postagem.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O que é fenomenologia?

Ao reler a biografia "Heidegger, um mestre da Alemanha entre o bem e o mal", de Rüdiger Safranski, pode-se melhor compreender a relação de Heidegger com a fenomenologia. Os primeiros estudos de Heidegger estavam enraizados na tradição católica, especialmente no tomismo. Seu encontro com as ideias de Husserl a respeito de um  recomeço para a Filosofia, a fim de baseá-la em sólidos e novos fundamentos, foi o ponto de partida para a filosofia existencial de Heidegger.
O novo modelo era a fenomenologia. Ir às coisas mesmas, deixar o real se mostrar, sendo esse real o fenômeno, e isso por meio da consciência.
A consciência passa a ter função primordial,  há que observar seu interior por meio da introspecção. Tudo é dado a ela que percebe o exterior de diversos modos, a distinção clássica da teoria do conhecimento entre essência da coisa e sua aparência, não faz mais sentido. O que se percebe não é a essência das coisas e nem sua aparência enganosa para o sujeito e sim os fenômenos que a consciência capta como isso ou aquilo, como objeto, como visível, invisível, sensível, onírico, ou seja, há muitos modos de se relacionar com o que nos cerca. Nossa consciência não é um quadro em branco, um receptáculo passivo das impressões. Ela vai às coisas, se relaciona com os objetos, "a consciência é sempre de algo", afirma Husserl, não está apartada das coisas, pois isso exigiria um elo, uma ponte. Não, ela está junto às coisas de que é consciência, explica Safranski.
Valorizar a consciência é o mesmo que valorizar o fenômeno, isto é, o que é dado a ela. Daí a necessidade de prestar atenção aos modos pelos quais os fenômenos se apresentam. Uma árvore que vejo assume o status de real, pode-se recordar da árvore, posso representá-la como uma que dá frutos, ou que se tornará madeira, a que abriga animais, a que será plantada, a que já morreu.
Por isso não faz sentido supor a árvore em si, os fenômenos se apresentam a mim, à minha vivência, valem a minha vida e as minhas experiências, não há consciência de nada, mas é sempre de algo, intencional. 
Husserl se deu conta de que essa passagem obrigatória das coisas tornadas fenômenos pela consciência, as torna móveis, mutáveis, variam a cada momento das vivências e com cada um de nós, e assim tornar a Filosofia rigorosa, tanto quanto a ciência, seria inviável. Seria preciso um eu transcendental, aquele que tudo abarca e compreende. Essa conclusão, a da necessidade do "ego transcendental", não foi seguida por Heidegger e nem por Sartre.
Heidegger entendeu a impossibilidade de um tal eu, daí a sua noção de tempo, de fluxo das vivências, da existência nossa aí, da autenticidade (saber-se mortal) ou inautenticidade (deixar-se levar).
Sartre apropriou-se do importante conceito da fenomenologia de intencionalidade. O modo como o objeto é acolhido, temido, querido, rejeitado, compreendido e de muitas outras maneiras, se deve à intencionalidade.
Saber-se aí no mundo para Sartre provoca a náusea, a sensação de que nada preenche o homem completamente, estamos jogados no mundo, daí a angústia.
Claro que Husserl não concordaria com essa reflexão existencialista.
Interessante notar que a fenomenologia é ponto de partida para Heidegger e Sartre, mas não ponto de chegada...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O que é humanismo?

Amar a humanidade, valorizar o humano, entender que acima de tudo estão os homens, parece algo canhestro e fora de moda. Humanismo, mais um "ismo" vazio de significado?
A doutrina do cristianismo se baseia no humanismo, sem o qual Deus não faria sentido.
Ora, há filósofos ateus que também pleiteiam o humanismo, como o existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o faz, justamente, para defender o existencialismo das críticas de pensadores católicos, que entenderam ser o ateísmo incompatível com o humanismo.
Antes de prosseguir, o que seria, afinal, "humanismo"?

Valorizar os homens como um todo, ou cada um em particular? (Refiro-me por "homens", nestes tempos em que gênero parece ser mais importante, a pertencermos ao que os filósofos chamam de "ser humano" e não animal ou coisa).
 "(...) humanismo, diz Heidegger (1889-1976), é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora de sua essência." 
Humanismo?! 
E a essência do homem para os antigos reside em ser animal racional; para os cristãos reside em sua alma imortal, a salvação e o julgamento dela por Deus; para Marx a essência requer o processo social com os requisitos da alimentação, procriação, produção; para Sartre não há humanismo algum em cultuar a humanidade, como se fosse uma deusa,  caso do positivismo de A. Comte. Sartre recusa o humanismo abstrato e genérico, e defende "o universo da subjetividade humana", estamos em constante processo de transcender, de ir além, de superar a nós mesmos, na medida em que nossa subjetividade é absolutamente livre para decisões, os homens estão por assim dizer presos à sua própria liberdade, só fogem dela os covardes.

Voltando a Heidegger, para ele pensar exige a linguagem e uma casa, uma morada para a linguagem, a dos seres humanos. Estes existem sob o modo do cuidado.
Como todo humanismo precisa determinar o que seria a essência do homem, todo humanismo se baseia numa metafísica, quer dizer, numa visão geral que explica tudo, tanto as determinações, como as particularidades dos seres. Essa visão geral, metafísica, seria a de que o homem é um animal que se distingue de todos por poder pensar?
Não, a essência do homem, responde Heidegger, vem de sua existência no sentido de permanecer nela, de estar presente ao ser, de estar-aí, no tempo, e saber-se vivo no tempo e com o tempo.
E mais, é preciso que, no distender do tempo, de sua vida (e de sua morte) ele possa transformar o genérico humanismo, em um existir específico, que vê no homem o portador, o defensor do ser, da verdade do ser que a linguagem permite, exige e desdobra. A essência do homem é morar na linguagem, não como dono, mas como o cuidador da linguagem.

Neste sentido, nada de humanismo, refúgio fácil para abstrações, para justificar o pacifismo, o igualitarismo e outros "ismos" convenientes para os defensores do nacionalismo, do populismo, das generalizações.
Importa, isto sim, o inverso, especificar o ser que cada um constrói por meio de sua ação, sejam europeus, americanos, africanos, asiáticos, crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, gays, pobres, ricos, entre tantas outras especificidades. Importa pleitear a autenticidade, fazer valer o seu caminho, estar aberto às determinações, responsabilizar-se pelas consequências de suas deliberações.
Abertura e não fechamento!