sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O que é paradigma?

O termo "paradigma" se tornou um desses muito usados e mal compreendidos.
Há um emprego genérico para significar mudança no modo de ver ou entender algo, quase sempre com uma conotação de transgredir uma situação e adotar outra digamos, mais apropriada ou mesmo revolucionária. Inclusive por detrás desses usos há certa inclinação a considerar a mudança de paradigma como algo necessário até mesmo benéfico.
Nada contra essa concepção. Mas propriamente dito, o conceito é muito mais específico. Refiro-me a Thomas Kuhn e sua obra "A Estrutura da Revoluções Científicas" publicada no longínquo ano de 1962, fruto de monografia quando estudante de Física em Harvard.
O primeiro mito que Kuhn derruba é o de que as ciências naturais (Física e Química) retratam a realidade mesma dos fatos, que suas teorias são comprovadas e que por isso sua verdade é inquestionável.
Se assim fosse, a ciência não progrediria, as atuais teorias seriam definitivas. Mas como foi possível que antes outras teorias fossem consideradas como comprovadas e mais tarde questionadas?
Então não seriam teorias científicas e sim mitos?
Para solucionar esses impasses, T. Kuhn considera que as ciências naturais não acumulam verdades, elas fornecem modelos, paradigmas aceitos e praticados por uma comunidade de cientistas. Os paradigmas funcionam regularmente por fornecerem diretrizes metodológicas que conduzem a contento as experimentações e com as quais se chega a resultados. Praticar a ciência é propor questões, solucionar problemas, usar os meios apropriados (laboratórios, pesquisas, artigos científicos, conjunto de leis e teorias) para chegar a resultados. Esse corpo de estudos e de práticas, forma o paradigma e quando ele é bem sucedido, a ciência progride rapidamente, pois o paradigma enseja coletar ainda mais fatos por meio das experiências, inclusive inventar instrumentos, aparelhos, e permite precisar cálculos.
Ora, quanto mais aprofundadas essas pesquisas maior a probabilidade de encontrar "furos", o que pode levar a dúvidas, e ou o paradigma aceito e praticado soluciona o problema, ou ele se torna mais difícil e pode levar a rompimento com as regras que norteavam o paradigma aceito.
Kuhn chama a esse problemas de anomalias, pois fogem às exigências teóricas do paradigma que vinha sendo praticado.
As mudanças de paradigma são as revoluções científicas. Assim, por exemplo, a teoria da relatividade revolucionou a Física e a anterior concepção de Newton sofreu abalos.
Como se vê, os paradigmas podem mudar, o que não significa que devam mudar. E quando mudam, muda a imagem de mundo, muda todo um quadro teórico e prático de referências.

Então não posso confiar na atual teoria porque ela poderá mudar?
Claro que não, se a pesquisa dá resultados confiáveis, ela vale. Mas não é simplesmente verdadeira, definitiva ou absoluta.

Conclusão: se você considera que pode apoiar suas ideias e crenças em teorias científicas, saiba que é próprio da ciência mudar de modelo. Já ideias, crenças, fundamentos religiosos, éticos ou filosóficos não são regidos por paradigmas. Não busque respostas para o sentido da existência do homem ou do cosmo na ciência.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A "História da Loucura", o que Foucault quis dizer?

Importa ressaltar antes de tudo, que essa obra, fruto de seu doutoramento, aborda tema inusitado entre filósofos. Por que Foucault escolheu o tema da loucura?
Porque ele viu de perto como se tratava, como se lidava com a doença mental pela psicologia e pela psiquiatria de fins dos anos 50. A tese foi publicada em 1961, é longa, mais de 500 páginas de pesquisa impressionante. O que não será novidade em suas futuras obras, baseadas em documentos da época, que ele traz para a luz do dia em leitura fascinante e original.

Na chamada idade clássica, fins do século 16 até metade do 18, na Europa, especialmente França e Inglaterra, houve uma mudança no modo de lidar com a loucura. Antes os loucos eram os que perturbavam, e seguiam destino errante nas naus, de cidade em cidade. 
Bosch, paisagem das delícias, século 15
Mais tarde passaram a ser internados com pobres, desocupados, e mesmo presos políticos da Revolução Francesa.Os furiosos eram acorrentados, as condições terríveis. Quem os mandava prender? A própria família e os encarregados da ordem pública. 
Internamento, sob correntes

A verdade sobre a loucura ainda não era questão, saber o que e quem era o louco não eram problemas. Em fins do século 18, com a produção econômica suficiente para surgirem as primeiras fábricas, os pobres úteis se tornaram mão de obra, os presos políticos se rebelavam, houve um movimento de beneficência do estado que levou a nova mudança: deixem os loucos mais livres, essa liberdade poderá servir de tratamento, até de cura.
Foucault demonstra por meio de documentos que quando Pinel liberou os loucos do Hospital Geral (Bicêtre), não foi um puro gesto humanitário. Foi um gesto próximo ao da consideração de que é possível retornar à calma com outros meios: banhos, passeios ao ar livre, uma condução de seu comportamento, como se o louco tivesse que ser protegido dele mesmo.
Pinel liberta os loucos
O que Foucault pretendia mostrar foram essas transformações: ao mesmo tempo que separa os loucos de outros, a loucura fica restrita a um espaço e a um olhar objetivos, daqui para frente, médico.
O asilo é o lugar para curar e aliviar a loucura, sob vigilância beneficente.

"É essencial para a possibilidade de uma ciência positiva do homem que exista, do lado mais recuado, esta área da loucura na qual e a partir da qual a existência humana cai na objetividade".

Quer dizer, o fato de se constituir uma ciência é ao mesmo tempo alívio e prisão. Não a das grades mas a do saber positivo.Qual é a mensagem?
Grande parte dos especialistas em Foucault afirma que ele denuncia a violência, que ele critica o hospital, as escolas, as prisões, que ele pretende sua eliminação; para os leitores mais radicais, que o filósofo faz juízo moral, que ele condena todo tipo de repressão e de alienação. Se há esse lado do protesto na obra de Foucault, há o outro lado, mais difícil de perceber.
Suas pesquisas retratam nossas práticas muitas delas violentas outras suaves, em sua maioria toscas invenções para lidar com nossas dificuldades. Isso mostra que nós, quando lidamos conosco, somos no mínimo... humanos.
Nossa existência, sob essas mutações do saber ocidental, nada tem de grandioso, verdadeiro, sublime. São mudanças com a eficácia possível e desejável pelo tipo de sociedade que construímos.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O problemático conceito de ideologia

Quais são as raízes de nosso pensamento?
São várias e diversas: carga genética, experiências de vida, emoções, aprendizado, influência do meio social e familiar, escolarização, entre outras; cada uma delas, a seu modo, influenciará o modo de pensar e de ver o mundo, desde a infância e em especial na idade adulta.
E quanto à ideologia?
Mas antes, o que vem a ser "ideologia"?
Em um sentido positivo, são as ideias e conceitos que moldam a produção intelectual, as visões políticas, inclusive as metáforas e a simbolização da linguagem, e até mesmo certas utopias.
Vista dessa maneira, trata-se de um conteúdo formado basicamente por ideias que podem ajudar partidos e sistemas políticos a formular e a aplicar um ideário que pode e deve ser aberto às discussões, ao aperfeiçoamento dos objetivos políticos e sociais, e, principalmente, a leitura de sua época, às exigências de seu tempo.
Em flagrante contraponto a essa modo de ver e de usar as ideologias, prepondera a radicalização.
Em primeiro lugar, a imposição de um conjunto de propostas que não passam pelo exame crítico, pelo contrário, iludem, mascaram, seu objetivo é se transformar em única bandeira de luta, com prévios acertos sobre o que entendem ser a realidade social e política, capaz de produzir o que Marx chamara de "falsa consciência".
Essas ideologias visivelmente tendenciosas, conduzem aos extremismos de direita e de esquerda. Os de direita distorcem a realidade em prol do conservadorismo, da resistência às mudanças que a própria vida em sociedade produz. Se a sociedade evolui em direção à tolerância religiosa, por exemplo, os ideólogos de direita consideram que há um só credo "verdadeiro", o seu!
E as ideologias de esquerda consideram que o capital, que a burguesia, que a classe dominante também domina ideologicamente e impõe de cima a baixo seus conceitos, ideias e concepções políticas. Não conseguem pensar a realidade social fora do esquematismo "burguesia x trabalho". Que o socialismo é o único regime que resolverá a contradição, que acabará com o lucro ("mais valia") do capitalismo, intrinsecamente mau. Os olhos se fecham para a realidade histórica. 
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Em seu último boletim, a ANDES traz um artigo sobre o legado do direito soviético, como "a obrigatoriedade do trabalho, o que fez da URSS o primeiro lugar do mundo em que toda a população teve garantidas as condições para reprodução de sua vida (...) e, paulatinamente, reduzir a jornada de trabalho, ao contrário do que acontece nas sociedades capitalistas, onde o Direito do Trabalho tem como foco garantir a extração da mais-valia" (p. 16). É um resumo da pesquisa do professor docente de Direito da Universidade Federal de Lavras, Gustavo Seferian.

É um caso evidente de distorção ideológica, só para ilustrar o direito do trabalho surgiu na Europa, nos EUA e também no Brasil sem nenhuma lei que promova o lucro. Mais adiante nesse artigo, reconhece que Stálin foi um contrarrevolucionário. Mas que felizmente também o "Direito é passível de alterações (sic), não só as favoráveis à burguesia, mas também alterações que são reflexo das ofensivas e resistências dos trabalhadores".
Esse discurso ideológico eivado de conceitos que nem Marx usaria, predomina ainda em vários setores da inteligenzzia universitária.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O ser para a morte, segundo Heidegger

Na concepção de ser para a morte, Heidegger concebe nossa fiitude como marca essencial do ser humano, em termos ontológicos.

Viver no tempo é saber-se finito, que o ser humano vive até o fim. A morte está em nossa vida. O fato de estar lançado e ser para a morte angustia. A experiência da morte dos outros faz ver nossa determinação ontológica, isto é, o fim inevitável. O corpo do morto ainda é cercado por resquícios de algo vivo nas celebrações do funeral, muitas vezes se procura substituir quem já foi, mas não se pode assumir a morte do outro, e sim a sua própria, ser-aí que vai morrer, que esse é seu modo de ser, insubstituível. O ser-aí não finda como as coisas que se acabam ou como animais que morrem. No momento em que o homem é, ele já é seu fim, esse é seu modo de ser.

Enquanto modo de ser, a análise existencial é incompatível com suposições sobre a pós-morte. A estrutura ontológica e existencial da morte consiste na possibilidade de poder não mais estar aqui, ser-aí, presente. Ora, como o ser-aí depende de poder ser isso ou aquilo, o tempo todo, a morte é a possibilidade que impede todas as possibilidades. É a possibilidade mais própria e insuperável na qual o ser-aí já está lançado. E ele experimenta isso pela angústia. Ser no mundo angustia pois é ser para o fim. Nada a ver com o medo da morte. Esse medo de morrer se acha na cotidianidade, a morte é compensada pelo palavrório, pelo tornar público aquele sentimento, escamotear dissolvendo-a pela publicidade, e isso para evitar encará-la, melhor não pensar nisso.


No projeto existencial, diferentemente, sabe-se que a morte é inevitável, ponto final. Daí decorre uma liberação para as possibilidades compreendidas agora como finitas. O que dá uma nova dimensão para a existência. Estar aberto para a certeza da morte redimensiona a vida, a angústia mantém essa abertura frente ao nada, a liberdade para a morte. Não somos o nosso próprio fundamento, o pro-jeto nos lança para frente, o que no fundo é nada, e ao mesmo tempo, somos livres para assumir diversas possibilidades. O nada está essencialmente inserido na estrutura do estar-lançado” e “o nada existencial não possui o caráter da privação”. Ser livre em suas possibilidades é ser livre para escolher uma delas e suportar não ter escolhido outras.

Em nossa situação atual, o esquecimento do ser parece mais grave. Domina o que Heidegger chamou de "palavrório", a inconstância, a agitação febril, o diz que diz que, mensagens e mais mensagens, imagens e mais imagens. Veja isso, comi pizza, meu filho engatinha, meu gato mia, e mais e mais banalidades.
Você se sente confortável com tanto poder da curiosidade?!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Foucault, um incompreendido

Sim, poucos leem Foucault de fato, daí não compreenderem seus escritos, seus propósitos e suas críticas. Há os que o criticam e não entendem, há os que o apoiam e divulgam, mas acabam por distorcê-lo de modo a sustentar seus próprios mitos, como se Foucault fosse uma cornucópia de onde se podem retirar toda e qualquer ideia "combativa".
Nada disso se sustenta.
Dia desses li com espanto o seguinte absurdo: "Numa espécie de pedagogia à la Foucault, a escola foi igualada à caserna e ao hospital psiquiátrico, todos equiparados à prisão, no sentido de um espaço para o controle e a 'disciplinarização do corpo'".
Pois bem, quem afirmou isso é um crítico da nova pedagogia baseada no princípio de que o aluno deve ser livre para se manifestar, renunciar à tal disciplina.
Nem esse é um modo correto de ler "Vigiar e Punir" da parte dessa nova pedagogia, a intenção de Foucault jamais foi propor que suas leituras do nascimento da disciplina signifique um "então temos que liberar geral". E nem está correto afirmar que Foucault poderia inspirar tal pedagogia.
Um pouco de esclarecimento:
Foucault é autor polêmico, muitas vezes fustigado pelo fogo cruzado da velha esquerda por ter se voltado para prisão, sexualidade, loucura, temas pouco ortodoxos, e pelo fogo cruzado dos atuais críticos dessas tendências de fato cansativas de atribuir a Foucault o que ele não disse. E há os que o criticam por razões equivocadas. Então, vamos lá.
Foucault pesquisa a história em documentos esquecidos, analisa como surgiram as ciências humanas, como doenças passaram a ser tratadas pela clínica, como a loucura passou a ser tratada como caso médico e internada, como a escola, os hospitais, a prisão se instituíram por meio de recursos tais como visar o corpo de modo a calcular suas forças (trabalho nas fábricas), dispor de espaços individualizados para obter melhor resultado na escola, punir por meio de prisão e não mais por tortura, forca, esquartejamento.
Esses procedimentos, em comparação com os meios do século 17 até meados do 18, são mais eficazes por mudarem o comportamento de indivíduos, pelo lado da sujeição suave. 
A torre dos castelos vigiava para fora, como alerta para a aproximação do inimigo.
A torre de vigilância das prisões serve para vigiar internamente e individualmente, disciplina, ordena e impõe certo tipo de comportamento.

O filósofo é um crítico de nossa época, sem se dar uma missão salvífica ou revolucionária, apenas apontando para certas práticas, como elas surgiram e quais são seus efeitos.
Jamais pretendeu que a escola deveria virar um "podemos tudo", "abaixo a disciplina" ou algo semelhante. Escolas não são prisões, evidentemente...
Foucault fez certos diagnósticos de nossa sociedade, como produzimos, inclusive, verdade, aquela de tipo estatístico, médico, mas isso não implica invalidar a pesquisa científica!
Enfim, Foucault deveria ser melhor estudado, ou mesmo, deveria ser esquecido como Baudrilhard escreveu, mas não pelas razões apontadas pelos filósofos da pós-modernidade.
Sim, deixem Foucault em paz, esqueçam-no!

sábado, 26 de agosto de 2017

Eternidade ou temporalidade?

Em conversa na fila do super mercado sobre idade e velhice, um senhor disse não ter pressa, pois o aguarda a eternidade, seja no céu seja no inferno.
Como seria uma eternidade no céu dos cristãos católicos? Bem aventurança, anjos, paz celestial, sem nenhuma mudança, uma vez que eternidade pressupõe a repetição do mesmo, para sempre. Um tanto aborrecido esse celestial...
E o inferno? A eterna danação, arder sem queimar, se queimar acaba o castigo que é para o todo e sempre. Infernal demais...
Enfim, eternidade não parece favorável nem para premiar as boas almas (e o que são boas almas?) e nem para punir as más (idem).
E que dizer do paraíso muçulmano? Baús repletos de jóias, só para homens que desfrutariam para sempre de lindas donzelas ...

A imaginação, o sentimento trágico, o inconformismo com o fim da vida levam a pintar cenários onde seríamos todos imortais, mas imortalidade implica em ser, desejar, permanecer, sentir?
Claro que não, teria que haver total e completa imobilidade, um escoar sem fim, sem tempo, sem antes, durante, depois. 
Nós, humanos, que tecemos essas tramas para nelas deitarmos eternamente, somos fruto do tempo. Nossa existência humana é antes de tudo temporal. Na e pela temporalidade construímos nosso mundo, nossa cultura, nossa arte, nossas técnicas. O fazer e o pensar estão imersos no escoar do tempo. 
Não podemos sair dessa condição, porque inclusive para sair há um antes da decisão e um depois da decisão, isto é, tempo.

Pois bem, é em nome do paraíso profético dos fanáticos do Estado Islâmico que jovens se imolam para matar o maior número possível de "infiéis". Infiéis são todos que desobedecem aos preceitos corânicos, por eles mesmos interpretados, em oposição à fé pacifista da religião.
A liberdade de credo e crença é o maior mérito da cultura ocidental, junto com a tolerância e o respeito à dignidade.
Evidentemente para implantar o Estado Islâmico liberdade é impensável. Fanatizar e espalhar medo e terror são suas armas.

A reflexão, que poderia levar ao respeito mútuo inexiste; a reflexão sobre a condição humana, a de ser no tempo, necessariamente, inexiste. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Contingência e necessidade

Há algo absolutamente necessário, condição sine qua non para nossa existência?
Sim, nascer, viver/sobreviver e inevitavelmente morrer. Nós e outras criaturas. Outras criaturas, seres que habitam nosso planeta, necessariamente, com certeza.
Tudo mais, são condições adventícias, contingentes, que podem ou não ocorrer.
A pergunta pelo limite do que sabemos, vale também para a dúvida sobre o que não sabemos.
Não sabemos, mas gostaríamos muito de saber, se estamos sós, se nosso planeta, esse grão de poeira no infinito do espaço, é nele, e só nele que surgiu essa capacidade de indagar, de inventar, de usar recursos para sobreviver.
Impossível com nossos signos, linguagem, modos de comunicar, imaginar, transmitir dados, aceder ao Outro, ao além de nosso mundo. Não podemos saber se estamos sós, se acompanhados por outro tipo de inteligência, ou se é nossa capacidade de imaginar, de sonhar, de prever, de justificar a solidão cósmica que nos impulsionam a pleitear outras formas de vida.
Se aceitarmos a hipótese filosófica de que tudo é contingente, de que tudo poderia ser ou não ser, e dessa forma ou de outra, poderíamos abrir novos caminhos. Se, pelo contrário, dermos tudo como necessário, credos, religiões, ideologias, violência, preconceitos farão parte da existência, e, nesse caso, existências presas a essas crenças. 
Vai-se o espírito livre, e, absurdo, nossa história passa a ser imposta. Vai-se a concórdia, instala-se a discórdia. Espíritos livres aderem à contingência, buscam a paz e dizem não ao conformismo; mas aceitam as exigências existenciais que levam a suportar o mundo real. 
Assim, sem pretender transformar o mundo real em mundo fictício, aquele inventado por nós e posto por nós a serviço do poder de uns poucos dominadores, exerceríamos nossa liberdade. Rejeitaríamos as imposições de partidos políticos doutrinadores, ideologias ditatoriais de igualitarismo, fanáticos religiosos. Então e só então prevaleceria a liberdade.
Liberdade tem a ver com contingência, com experimentação, com inovação, com dizer não às tiranias e imposições que produzem animais fracos e gregários, como criticou Nietzsche.
Ao exercer a liberdade e admitir nossa contingência, que tudo pode ser diferente e transformado para melhorarmos nossa condição existencial, poderíamos aplicar a máxima de que somos obras eternamente inacabadas.