sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O problemático conceito de ideologia

Quais são as raízes de nosso pensamento?
São várias e diversas: carga genética, experiências de vida, emoções, aprendizado, influência do meio social e familiar, escolarização, entre outras; cada uma delas, a seu modo, influenciará o modo de pensar e de ver o mundo, desde a infância e em especial na idade adulta.
E quanto à ideologia?
Mas antes, o que vem a ser "ideologia"?
Em um sentido positivo, são as ideias e conceitos que moldam a produção intelectual, as visões políticas, inclusive as metáforas e a simbolização da linguagem, e até mesmo certas utopias.
Vista dessa maneira, trata-se de um conteúdo formado basicamente por ideias que podem ajudar partidos e sistemas políticos a formular e a aplicar um ideário que pode e deve ser aberto às discussões, ao aperfeiçoamento dos objetivos políticos e sociais, e, principalmente, a leitura de sua época, às exigências de seu tempo.
Em flagrante contraponto a essa modo de ver e de usar as ideologias, prepondera a radicalização.
Em primeiro lugar, a imposição de um conjunto de propostas que não passam pelo exame crítico, pelo contrário, iludem, mascaram, seu objetivo é se transformar em única bandeira de luta, com prévios acertos sobre o que entendem ser a realidade social e política, capaz de produzir o que Marx chamara de "falsa consciência".
Essas ideologias visivelmente tendenciosas, conduzem aos extremismos de direita e de esquerda. Os de direita distorcem a realidade em prol do conservadorismo, da resistência às mudanças que a própria vida em sociedade produz. Se a sociedade evolui em direção à tolerância religiosa, por exemplo, os ideólogos de direita consideram que há um só credo "verdadeiro", o seu!
E as ideologias de esquerda consideram que o capital, que a burguesia, que a classe dominante também domina ideologicamente e impõe de cima a baixo seus conceitos, ideias e concepções políticas. Não conseguem pensar a realidade social fora do esquematismo "burguesia x trabalho". Que o socialismo é o único regime que resolverá a contradição, que acabará com o lucro ("mais valia") do capitalismo, intrinsecamente mau. Os olhos se fecham para a realidade histórica. 
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Em seu último boletim, a ANDES traz um artigo sobre o legado do direito soviético, como "a obrigatoriedade do trabalho, o que fez da URSS o primeiro lugar do mundo em que toda a população teve garantidas as condições para reprodução de sua vida" (...) e, paulatinamente, reduzir a jornada de trabalho, ao contrário do que acontece nas sociedades capitalistas, onde o Direito do Trabalho tem como foco garantir a extração da mais-valia" (p. 16). É um resumo da pesquisa do professor docente de Direito da Universidade Federal de Lavras, Gustavo Seferian.

É um caso evidente de distorção ideológica, só para ilustrar o direito do trabalho surgiu na Europa, nos EUA e também no Brasil sem nenhuma lei que promova o lucro. Mais adiante nesse artigo, reconhece que Stálin foi um contrarrevolucionário. Mas que felizmente também o "Direito é passível de alterações (sic), não só as favoráveis à burguesia, mas também alterações que são reflexo das ofensivas e resistências dos trabalhadores".
Esse discurso ideológico eivado de conceitos que nem Marx usaria, predomina ainda em vários setores da inteligenzzia universitária.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O ser para a morte, segundo Heidegger

Na concepção de ser para a morte, Heidegger concebe nossa fiitude como marca essencial do ser humano, em termos ontológicos.

Viver no tempo é saber-se finito, que o ser humano vive até o fim. A morte está em nossa vida. O fato de estar lançado e ser para a morte angustia. A experiência da morte dos outros faz ver nossa determinação ontológica, isto é, o fim inevitável. O corpo do morto ainda é cercado por resquícios de algo vivo nas celebrações do funeral, muitas vezes se procura substituir quem já foi, mas não se pode assumir a morte do outro, e sim a sua própria, ser-aí que vai morrer, que esse é seu modo de ser, insubstituível. O ser-aí não finda como as coisas que se acabam ou como animais que morrem. No momento em que o homem é, ele já é seu fim, esse é seu modo de ser.

Enquanto modo de ser, a análise existencial é incompatível com suposições sobre a pós-morte. A estrutura ontológica e existencial da morte consiste na possibilidade de poder não mais estar aqui, ser-aí, presente. Ora, como o ser-aí depende de poder ser isso ou aquilo, o tempo todo, a morte é a possibilidade que impede todas as possibilidades. É a possibilidade mais própria e insuperável na qual o ser-aí já está lançado. E ele experimenta isso pela angústia. Ser no mundo angustia pois é ser para o fim. Nada a ver com o medo da morte. Esse medo de morrer se acha na cotidianidade, a morte é compensada pelo palavrório, pelo tornar público aquele sentimento, escamotear dissolvendo-a pela publicidade, e isso para evitar encará-la, melhor não pensar nisso.


No projeto existencial, diferentemente, sabe-se que a morte é inevitável, ponto final. Daí decorre uma liberação para as possibilidades compreendidas agora como finitas. O que dá uma nova dimensão para a existência. Estar aberto para a certeza da morte redimensiona a vida, a angústia mantém essa abertura frente ao nada, a liberdade para a morte. Não somos o nosso próprio fundamento, o pro-jeto nos lança para frente, o que no fundo é nada, e ao mesmo tempo, somos livres para assumir diversas possibilidades. O nada está essencialmente inserido na estrutura do estar-lançado” e “o nada existencial não possui o caráter da privação”. Ser livre em suas possibilidades é ser livre para escolher uma delas e suportar não ter escolhido outras.

Em nossa situação atual, o esquecimento do ser parece mais grave. Domina o que Heidegger chamou de "palavrório", a inconstância, a agitação febril, o diz que diz que, mensagens e mais mensagens, imagens e mais imagens. Veja isso, comi pizza, meu filho engatinha, meu gato mia, e mais e mais banalidades.
Você se sente confortável com tanto poder da curiosidade?!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Foucault, um incompreendido

Sim, poucos leem Foucault de fato, daí não compreenderem seus escritos, seus propósitos e suas críticas. Há os que o criticam e não entendem, há os que o apoiam e divulgam, mas acabam por distorcê-lo de modo a sustentar seus próprios mitos, como se Foucault fosse uma cornucópia de onde se podem retirar toda e qualquer ideia "combativa".
Nada disso se sustenta.
Dia desses li com espanto o seguinte absurdo: "Numa espécie de pedagogia à la Foucault, a escola foi igualada à caserna e ao hospital psiquiátrico, todos equiparados à prisão, no sentido de um espaço para o controle e a 'disciplinarização do corpo'".
Pois bem, quem afirmou isso é um crítico da nova pedagogia baseada no princípio de que o aluno deve ser livre para se manifestar, renunciar à tal disciplina.
Nem esse é um modo correto de ler "Vigiar e Punir" da parte dessa nova pedagogia, a intenção de Foucault jamais foi propor que suas leituras do nascimento da disciplina signifique um "então temos que liberar geral". E nem está correto afirmar que Foucault poderia inspirar tal pedagogia.
Um pouco de esclarecimento:
Foucault é autor polêmico, muitas vezes fustigado pelo fogo cruzado da velha esquerda por ter se voltado para prisão, sexualidade, loucura, temas pouco ortodoxos, e pelo fogo cruzado dos atuais críticos dessas tendências de fato cansativas de atribuir a Foucault o que ele não disse. E há os que o criticam por razões equivocadas. Então, vamos lá.
Foucault pesquisa a história em documentos esquecidos, analisa como surgiram as ciências humanas, como doenças passaram a ser tratadas pela clínica, como a loucura passou a ser tratada como caso médico e internada, como a escola, os hospitais, a prisão se instituíram por meio de recursos tais como visar o corpo de modo a calcular suas forças (trabalho nas fábricas), dispor de espaços individualizados para obter melhor resultado na escola, punir por meio de prisão e não mais por tortura, forca, esquartejamento.
Esses procedimentos, em comparação com os meios do século 17 até meados do 18, são mais eficazes por mudarem o comportamento de indivíduos, pelo lado da sujeição suave. 
A torre dos castelos vigiava para fora, como alerta para a aproximação do inimigo.
A torre de vigilância das prisões serve para vigiar internamente e individualmente, disciplina, ordena e impõe certo tipo de comportamento.

O filósofo é um crítico de nossa época, sem se dar uma missão salvífica ou revolucionária, apenas apontando para certas práticas, como elas surgiram e quais são seus efeitos.
Jamais pretendeu que a escola deveria virar um "podemos tudo", "abaixo a disciplina" ou algo semelhante. Escolas não são prisões, evidentemente...
Foucault fez certos diagnósticos de nossa sociedade, como produzimos, inclusive, verdade, aquela de tipo estatístico, médico, mas isso não implica invalidar a pesquisa científica!
Enfim, Foucault deveria ser melhor estudado, ou mesmo, deveria ser esquecido como Baudrilhard escreveu, mas não pelas razões apontadas pelos filósofos da pós-modernidade.
Sim, deixem Foucault em paz, esqueçam-no!

sábado, 26 de agosto de 2017

Eternidade ou temporalidade?

Em conversa na fila do super mercado sobre idade e velhice, um senhor disse não ter pressa, pois o aguarda a eternidade, seja no céu seja no inferno.
Como seria uma eternidade no céu dos cristãos católicos? Bem aventurança, anjos, paz celestial, sem nenhuma mudança, uma vez que eternidade pressupõe a repetição do mesmo, para sempre. Um tanto aborrecido esse celestial...
E o inferno? A eterna danação, arder sem queimar, se queimar acaba o castigo que é para o todo e sempre. Infernal demais...
Enfim, eternidade não parece favorável nem para premiar as boas almas (e o que são boas almas?) e nem para punir as más (idem).
E que dizer do paraíso muçulmano? Baús repletos de jóias, só para homens que desfrutariam para sempre de lindas donzelas ...

A imaginação, o sentimento trágico, o inconformismo com o fim da vida levam a pintar cenários onde seríamos todos imortais, mas imortalidade implica em ser, desejar, permanecer, sentir?
Claro que não, teria que haver total e completa imobilidade, um escoar sem fim, sem tempo, sem antes, durante, depois. 
Nós, humanos, que tecemos essas tramas para nelas deitarmos eternamente, somos fruto do tempo. Nossa existência humana é antes de tudo temporal. Na e pela temporalidade construímos nosso mundo, nossa cultura, nossa arte, nossas técnicas. O fazer e o pensar estão imersos no escoar do tempo. 
Não podemos sair dessa condição, porque inclusive para sair há um antes da decisão e um depois da decisão, isto é, tempo.

Pois bem, é em nome do paraíso profético dos fanáticos do Estado Islâmico que jovens se imolam para matar o maior número possível de "infiéis". Infiéis são todos que desobedecem aos preceitos corânicos, por eles mesmos interpretados, em oposição à fé pacifista da religião.
A liberdade de credo e crença é o maior mérito da cultura ocidental, junto com a tolerância e o respeito à dignidade.
Evidentemente para implantar o Estado Islâmico liberdade é impensável. Fanatizar e espalhar medo e terror são suas armas.

A reflexão, que poderia levar ao respeito mútuo inexiste; a reflexão sobre a condição humana, a de ser no tempo, necessariamente, inexiste. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Contingência e necessidade

Há algo absolutamente necessário, condição sine qua non para nossa existência?
Sim, nascer, viver/sobreviver e inevitavelmente morrer. Nós e outras criaturas. Outras criaturas, seres que habitam nosso planeta, necessariamente, com certeza.
Tudo mais, são condições adventícias, contingentes, que podem ou não ocorrer.
A pergunta pelo limite do que sabemos, vale também para a dúvida sobre o que não sabemos.
Não sabemos, mas gostaríamos muito de saber, se estamos sós, se nosso planeta, esse grão de poeira no infinito do espaço, é nele, e só nele que surgiu essa capacidade de indagar, de inventar, de usar recursos para sobreviver.
Impossível com nossos signos, linguagem, modos de comunicar, imaginar, transmitir dados, aceder ao Outro, ao além de nosso mundo. Não podemos saber se estamos sós, se acompanhados por outro tipo de inteligência, ou se é nossa capacidade de imaginar, de sonhar, de prever, de justificar a solidão cósmica que nos impulsionam a pleitear outras formas de vida.
Se aceitarmos a hipótese filosófica de que tudo é contingente, de que tudo poderia ser ou não ser, e dessa forma ou de outra, poderíamos abrir novos caminhos. Se, pelo contrário, dermos tudo como necessário, credos, religiões, ideologias, violência, preconceitos farão parte da existência, e, nesse caso, existências presas a essas crenças. 
Vai-se o espírito livre, e, absurdo, nossa história passa a ser imposta. Vai-se a concórdia, instala-se a discórdia. Espíritos livres aderem à contingência, buscam a paz e dizem não ao conformismo; mas aceitam as exigências existenciais que levam a suportar o mundo real. 
Assim, sem pretender transformar o mundo real em mundo fictício, aquele inventado por nós e posto por nós a serviço do poder de uns poucos dominadores, exerceríamos nossa liberdade. Rejeitaríamos as imposições de partidos políticos doutrinadores, ideologias ditatoriais de igualitarismo, fanáticos religiosos. Então e só então prevaleceria a liberdade.
Liberdade tem a ver com contingência, com experimentação, com inovação, com dizer não às tiranias e imposições que produzem animais fracos e gregários, como criticou Nietzsche.
Ao exercer a liberdade e admitir nossa contingência, que tudo pode ser diferente e transformado para melhorarmos nossa condição existencial, poderíamos aplicar a máxima de que somos obras eternamente inacabadas.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quem e o que somos nós, os humanos?

Como os filósofos concebem o homem? Hoje se recusa a usar o termo geral homem, a cultura europeia exige que se desfilem os gêneros em sua diversidade.
Tudo bem, trata-se de uma idiossincrasia de nossa época, que revela como a própria civilização ocidental pretende ser inclusiva e despida de preconceitos. Mas essa é outra história, que, aliás, esconde a enorme distância entre um novaiorquino e um habitante dos confins africanos, entre uma executiva paulista e um sertanejo, e assim por diante. Sempre são minorias poderosas ou não, que impõem suas concepções e estilos de vida, como se unicamente a sua valesse como modelo universal.

Feitas essas observações, vejamos como os filósofos, ao abstrair e generalizar com seus conceitos, conceberam o homem sem o atenuante (ou o agravante...) do "politicamente incorreto".

A mais usada definição e uma das mais antigas, é a de Aristóteles: "animal racional", e sua também a menos famosa, "animal político". Aquele que tem a razão, raciocina, pensa, difere dos irracionais e mais ainda, necessita do convívio para não só viver, como para viver bem. E esse viver bem requer a prática das virtudes, que podem ser resumidas no equilíbrio, na justa medida.
Os estoicos ressaltam a vida prática, moderação nos prazeres, serenidade, refletem sobre os desejos, de como são naturais, mas com seus inconvenientes: "A quem não basta pouco, nada basta" (Epicuro).
O homem do humanismo clássico se contrapõe à concepção cristã, de criaturas com alma imortal, destinada a julgamento, marcada pelo pecado. O Renascimento põe o homem em contato com o cosmo, divinos são o cosmo e o próprio homem, cuja mente é capaz de desvendar os segredos do universo; ao invés de submissão à natureza, a compreensão da natureza.
Somos, segundo Pascal, um simples caniço, mas um caniço pensante, pensamentos estes que uma simples mosca pode perturbar. Oscilações da natureza humana, vista pelo prisma de sua finalidade, "é grande e incomparável", mas se for comparada com os animais, baixa e vil. Mas não se deve limitar a sua baixeza e nem ignorar sua grandeza. 
Em contraste, Kant eleva o homem à mais nobre e abstrata razão, uma razão pura para teorizar e uma razão prática para seguir os estritos comandos morais. O puritanismo nos amarra a imperativos éticos, e o idealismo de Kant nos ata a conceitos puros que são condições necessárias para o nosso entendimento.  
A virada da modernidade sai dos limites da razão, para o homem que trabalha, transforma e se transforma, a práxis marxista nos define como feitores de uma história de luta social e econômica, somos o "homo oeconomicus", produtores.
Nessa virada está também Nietzsche, o iconoclasta, ateu, destruidor de todos os mitos e mistificações em torno da moral, da metafísica, da natureza humana. Não passamos disso, humanos, muito humanos em nossas valorações; aquilo que consideramos grande e nobre deve ser reavaliado. Em lugar da imposição de sistemas morais, sermos espíritos livres. Livres das religiões quando tiranizam e se impõem como necessárias, absolutas e supremas. A vontade de potência rejeita o espírito gregário, de rebanho e enaltece a criação, a vida livre, as forças vitais; contra verdades impostas, sermos nossos próprios juízes.
Problema: para Freud jamais seremos estes seres livres e criadores. Espremido entre o inconsciente e suas turbulências, e a sociedade civilizada e suas regras, o eu (Ego) e suas neuroses procuram estabilizar-se entre um e outra.

Afinal, quem e o que somos? Um pouco disso e daquilo, atribulados com nossas invenções e limitados em nossas pretensões.

sábado, 1 de julho de 2017

"Por que existe o ente e não antes o nada?"

Ainda sobre a Metafísica, faremos rápida incursão na obra de Heidegger "Introdução à Metafísica" (1935), conferência pronunciada na Universidade de Freiburg que problematiza a questão do título. Nela o filósofo aborda a pergunta mais profunda e essencial da Filosofia.
Tentemos decifrá-la, afinal o objetivo deste blog é aplicar no dia a dia certas lições filosóficas.
Tudo o que existe, ou seja, os entes, antes de serem isso ou aquilo, importa a pergunta "por que". Nossa curiosidade, inclusive a de crianças, reside nisso, o acontecimento primeiro, original, saber que mesmo sem os homens na face da terra, o planeta e todo o universo existem, quer dizer, perguntar por que existe o ente não altera o próprio ente.
Para aqueles que creem na Bíblia, está tudo pronto, a resposta é Deus, mas o terreno aqui não é o filosófico e sim o teológico.
Assim, é para a Filosofia que a questão do "por que" permanece. Evidentemente não é algo do interesse de cientistas, artistas, técnicos, ela surge na história dos povos, em suas visões do todo, em suas imagens do mundo. A Filosofia não tem uso imediato, com ela nada se pode fazer, mas ela pode fazer algo conosco.
É nesse último sentido que vale a pena ir do domínio banal da existência, para o domínio do extraordinário, dar um salto, ser livre investigador e tentar alçar ao mais fundo como fizeram os primeiros filósofos, entre eles Heráclito e Parmênides.
O que unifica todos os entes em seu ser, o que os "essencializa"?
Para ambos é a força primordial, a physis. A poesia e o pensamento desvelaram a physis, ela é tudo, deuses, homens, pedras, é o que brota, o vigor, a intensidade, a permanência e o vir a ser.
O sentido primordial de physis não se restringe à natureza, portanto. Só mais tarde assume esse sentido e se opõe ao criado, ao produzido, à techne. Meta-física se tornou a investigação que vai além do ente físico.
Alguns exemplos da história da filosofia: os escolásticos, na Idade Média, respondiam à questão primordial, qual é o Ser dos entes com o "ato puro"; para Hegel, na Idade Moderna, o Ser essencial é o conceito absoluto; para Nietzsche é o eterno retorno da mesma potência; o próprio Heidegger essencializou o ente com o conceito de tempo, o homem é o ser-aí no tempo, aberto para a morte.

E quanto à segunda parte da pergunta, "e não antes o nada?" Como abordar o nada sem cair em paradoxo? Para falar sobre o nada não seria preciso que ele fosse algo, e então já não "seria" nada?
Isso de um ponto de vista lógico, mas a questão não é lógica e sim metafísica...
Um exemplo dado por Heidegger pode facilitar: o quadro de Van Gogh das botas, qual é o ser delas? Parece nos escapar, são tantas as leituras, e o mesmo se dá com o nada, a necessária suposição de que ser algo e não ser algo, quer dizer que há inúmeras possibilidades de ser e de não ser. 
Van Gogh, em uma de suas representações de botas, rotas, desgastadas. 

Como nossa época trata do ser? Ela pulveriza o ser em multiplicidades, inúmeros usos, o mundo se obscurece com guerras e terrorismo, um ditador assassina famílias com armas químicas, dependemos de energia em todas nossas atividades, e assim também destruímos o mundo, nos massificamos, nos reduzimos às escalas do tudo pronto, do imediato, do consumo instantâneo que leva ao esquecimento do primordial, não fazemos mais uso de nossa liberdade.
Isso é o que nós modernos temos feito com o ser dos entes, reduzimos tudo à mensagem, à imagem.

Mas ainda dá para perguntar, o que cada um de nós faz consigo, o que pensa de si, ao que dá valor?