terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O sentido do conceito de "crítica" em filosofia

Tornou-se lugar comum acrescentar o adjetivo "crítica" à filosofia. Mas o que isso significa?
O termo tem origem no grego kriticos do verbo krinein, julgar. Portanto, capacidade de avaliar. O uso mais comum do termo em filosofia, especialmente em manuais de divulgação e, por consequência, em sala de aula, decorre de se compreender que a exigência maior da filosofia é "mudar a realidade". E isso vem ligado à noção de que as aulas de filosofia seguem uma missão, há um papel social e político no ensino de filosofia.
Porém, o termo "crítica" indica capacidade de avaliação, de julgamento, está ligado antes à noção de uso criterioso de conceitos, que permitam olhar a realidade não pelo véu da ideologia, e sim pelo estudo, pela investigação que o modo reflexivo de pensar enseja.
Ao invés de ver nos alunos cabeças vazias que precisam ser preenchidas por certo "pensamento crítico", leia-se, "doutrinação político/ideológica", o professor de filosofia deve considerá-los como sendo capazes, como diz Kant, de pensar com sua própria cabeça, serem livres e autônomos; os alunos tanto no nível médio como no superior não uns são alienados que precisam ser acordados para a realidade econômica da diferença de classes e do terrível capitalismo.

É evidente que há profundas diferenças de classe, o capitalismo tem consequências como desemprego, crises, inflação. E isso precisa ser analisado, sim, com critérios, portanto, com crítica, no sentido mais profundo da filosofia. A perspectiva do olhar filosófico distancia as situações para formar um conjunto, e depois aproxima a visão de um problema, de uma questão e a pergunta que o filósofo faz é pelo porque, pela razão de ser, pelo sentido de todas as coisas. Que coisas? A existência humana sujeita a sentimentos, dores e prazeres, compensações, valores, projetos; a consciência de si, dos outros, e, principalmente a consciência da condição humana: a inelutável morte.
No atropelo das dificuldades cotidianas, essas questões são ignoradas. A crítica filosófica as levanta, as suscita por meio de indagação e reflexão. 
Desse modo filosofar é avaliar, medir, dimensionar, isto é, criticar. Crítica não é, portanto, demolição. É construção de um saber, de uma prática que ilumina a vida, dá condições de ver com um sentido renovador a situação humana, seja ela política, social, moral, religiosa, cultural.

O que fazer com relação à morte? O filósofo aceita a inevitabilidade do fim com serenidade.
O que fazer com relação ao sofrimento pessoal e mesmo o de grupos inteiros discriminados pela pobreza, pela opressão, pela injustiça social e econômica? Minorar esse sofrimento denunciando tais situações, expondo essas diferenças e mostrando que e como a vida em sociedade pode atingir ideais de justiça e solidariedade.

A filosofia também teoriza sobre questões mais abstratas, difíceis de compreender. Metafísica, ontologia, epistemologia, lógica são territórios ocupados pela razão quando pensa sobre suas próprias possibilidades. 
Há uma causa geral de tudo ser, de as coisas existirem? Esse tipo de indagação precisa de certos conceitos e de categorias, como essa, a de causalidade. O incrível ou o misterioso nisso é que esse tipo de decifração depende de nosso tipo de pensamento, do modo como nosso entendimento funciona.
A filosofia leva o pensamento a esses limites, a esses enigmas. Isso não é exclusividade da filosofia: a literatura e a poesia levam o pensamento às  metáforas que também instigam, a linguagem poética revela o mundo. A diferença existe: o filósofo raciocina com conceitos, com o rigor da razão; o poeta usa imagens com liberdade de criação.
***
Essas perguntas e dúvidas "contêm os mais profundos questionamentos possíveis com relação ao destino do homem. Elas dizem respeito ao critério (g.m.) que ele precisa empregar para formar suas crenças; os princípios por meio dos quais ele irá dirigir sua vida e os fins para os quais ele a dirigirá" ("contain the deepest possible questionings regarding the career of man. They concern the criteria he is to employ in forming his beliefs; the principles by which he is to direct his life and the ends to which he is to direct it"): John Dewey, Reconstruction in Philosophy.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Crítica e repetição: sobre as diferenças entre Filosofia e as ciências

Filosofia e ciência diferem? Sim, sob vários aspectos: forma, conteúdo, objetivo, função e inserção social, gênese histórica, aplicação entre outros. Não há, então convergência? Sim, se tomarmos ciência no sentido amplo de saber. Nesse sentido Kant exigiu que a metafísica se firmasse como ciência.
A filosofia nasceu antes da ciência moderna, quando mitos passaram a ser questionados. Portanto, de algum modo,  a filosofia é crítica. Se em seu nascimento a filosofia repete os mitos no modo de ver o cosmo, a origem dos seres e o destino humano, ao contrário da visão mitológica, a filosofia usa a razão, passa a deduzir que há uma causa que determina o ontos, pressupõe um princípio ou causa geral do ser: um elemento primordial ou algo mais abstrato, como o conceito/ideia para Platão, o motor que destrava o movimento para Aristóteles. 
A ciência moderna nasce de outra necessidade, a de explicar por meio de observação, experiência, resultados práticos, a constituição da matéria. Descobre a causa de os corpos, astros inclusive se movimentarem, a existência de corpúsculos, força, inércia, átomos, moléculas, evolução, bactérias, código genético, e não vai parar nesses incríveis resultados. As ciências, Física, Química, Biologia progridem e levam a revoluções na vida humana, transformações que reinventaram o modo como vivemos e nossas relações com o planeta Terra, com benefícios e os conhecidos malefícios (desde a bomba atômica até as emissões de gases com o aquecimento global).
E a filosofia? Formalmente é indagação, construção de conceitos, teoria, crítica, busca de sentido. Seu conteúdo não são leis que explicam a natureza ou a vida, e sim o fenômeno natureza, o fenômeno vida, o fenômeno mente/espírito/alma, o fenômeno linguagem, o fenômeno bem/mal, o fenômeno estético, o fenômeno lógico/inteligível.
Ficou difícil? Sim, conceituar e abstrair não faz parte da lida cotidiana, a não ser quando a pessoa se depara com certo tipo de dificuldade ou pergunta: por que vivemos? qual é o sentido profundo da vida humana? a morte é o fim de tudo? ou o começo de outra vida?
Se a resposta for o transcendente, o sobrenatural não se trata de filosofia e sim de religião, crença, fé, adesão a uma doutrina, prática de ritos.
A filosofia é razão e crítica. Ela não pede adesão e sim argumentação, raciocínio, deduções. Enquanto o objetivo dos cientistas é explicar e obter resultados práticos, e o objetivo da doutrina religiosa, pelo menos das religiões monoteístas é a salvação, redenção, premiação das boas almas, castigo do mal -, o objetivo da filosofia é pensar seu próprio movimento, sua história feita de pensadores que inovam e ao mesmo tempo repetem. 
Repetem temas, renovam o modo de ver, de avaliar os eternos temas ou questões que nos intrigam. O que aprendemos com os grandes filósofos, porque vale a pena estudar seu pensamento, como suas ideias podem mudar algo na cabeça das pessoas? A função e a inserção social da filosofia é sempre educacional. Exemplo: o conceito de ideia. É possível repetir as lições de Platão (conceitos eternos e divinos), as de Descartes (produtos do espírito quando pensa), e até mesmo perguntar como surgiu a ideia de "ideia" (R. Rorty). O conceito de origem ou de causa: imprescindível para Aristóteles, uma categoria usada pelo nosso entendimento (Kant), e um simples recurso do tipo de lógica que usamos (Wittgenstein).
Na ciência há explicação e renovação; na filosofia há crítica e repetição.  

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A polêmica sobre a frase "Deus seja louvado" nas cédulas do real

Ninguém mais reparava na frase "Deus seja louvado" nas cédulas de nosso dinheiro, até que um procurador resolve criar polêmica (sim, pois não passa disso!) e manda retirar dita frase das notas. Argumento: há outros deuses de outras religiões que devem ser respeitados e que não são mencionados.




Evidentemente que o argumento não procede. Não se trata de Deus específico, e sim do Criador na fé do cristianismo. Além disso, a própria concepção de um  Ser Superior está presente em todas as religiões. Não faz sentido algum haver ritos e doutrinas, crenças e deveres religiosos sem Deus, isto é, sem um ser transcendente, pelo qual se tem respeito, fé, obrigações morais, e, especialmente, devoção.

Outros condenam o uso da louvação a Deus com o argumento da ingerência do poder público na fé privada, pois na constituição nosso Estado é laico e as crenças são de foro íntimo. Nisso o procurador de certa forma segue uma tendência. Começou com a proibição do véu para a muçulmanas na França, e vem até a retirada de crucifixos de gabinetes de juízes no Brasil.

A questão de fundo, nesses casos é uma questão cultural. Há símbolos valorizados, cujo significado está presente não só nos espaços públicos, mas também nas manifestações pessoais. Uma procissão é manifestação de fé pública ou de foro íntimo e privado? Adesivos nos carros (terços, mensagens, figuras), cartazes com frases da Bíblia, significam que a pessoa declara aos outros sua fé? Ou quer com isso adesão à sua fé? Como se vê, a pretensa separação entre público e laico de um lado, e privado de outro, em matéria de crença religiosa é relativa. A quê? À cultura, aos costumes, à aceitação social ou à rejeição social; outras vezes se deve à moral dos grupos sociais. A própria moeda já foi chamada de "cruzeiro", as pessoas esquecem que é um termo derivado de cruz, símbolo máximo da cristandade.

Há um outro fator, esse sim, importante: a liberdade de crença, de opinião, de manifestação em democracias ocidentais é imprescindível. A convivência com o outro, com o diverso, com adversários políticos e mesmo de times esportivos antagônicos, é própria de sociedades modernas. Por tudo isso não se deve impor o uso de símbolos que constrangem a liberdade de expressão, que menosprezem ou ridicularizem outras religiões, crenças ou modos de ver e de viver.

Há quem argumente contra a proposta do procurador por razões filosóficas e teológicas. A necessidade da crença em Deus é incontestável e necessária, sem Deus nada somos, não pode nem passar pela cabeça de ninguém negar Deus. Rejeição do ateísmo como sendo absurdo, perigoso.
E o oposto, não há tal ser superior, o ateísmo deve ser cultuado, Deus não passa de uma invenção.
Ambos radicalizam, o primeiro pelo dogmatismo, o segundo além de radicalizar, acaba em uma redução ao absurdo: o ateísmo passa a ser um tipo de crença, o que é contraditório.

A vida em sociedade institui normas, significados, símbolos. Se eles forem vazios acabam esquecidos ou perdem sentido. Se forem impostos, como foi o caso da frase na moeda do real (por Sarney, em uma atitude hipócrita e nada original), causam desconforto em um primeiro momento, depois são também ignorados.

De qualquer forma, algo não soa bem, pois a crença em Deus pressupõe coração aberto, desprendimento, confiança. O dinheiro simboliza o oposto: luxúria, ganância, e falta. Falta no sentido financeiro para a grande maioria e falta no sentido psicanalítico. Talvez para todos...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A pedagogia do "engajamento" prejudica e deturpa o ensino

Há algumas décadas os livros didáticos nas áreas de ciências humanas (História, Geografia) e de Sociologia e Filosofia mais recentemente, têm ido além do propósito de ensinar conteúdos dessas disciplinas. Em geral o argumento é o de que não há neutralidade com relação a posicionamento político e/ou ideológico, que entre as missões do educador, está a de engajar os alunos na "luta política", leia-se teses marxistas, supostamente as únicas capazes de satisfazer os aspectos da crítica política e evitar a "alienação" das cabeças dos adolescentes e jovens. 

Analisemos a primeira parte do argumento, a de que não há neutralidade, que esconder-se na neutralidade de valores é o mesmo que entregar a condução da política e da história brasileiras para a direita, para o conservadorismo retrógrado, empecilho para fazer a justiça social.

Se a história é resultado de luta de classes, nesse caso, a classe dominante e os países dominantes são responsáveis por todos os nossos males (pobreza, ignorância, injustiça social); e mais: todos os patrões oprimem, a classe operária é vítima. Para fazer essa crítica social é imperativo adotar uma concepção marxista da história e da sociedade, cujo método é o dialético, o único correto. Como esse método da dialética é compreendido e aplicado? Grosso modo: a história é movida pela luta de classes, em um processo contraditório, a superação do capitalismo se fará em uma sociedade socialista. O modelo de preferência é o cubano, mas serve um modelo antiamericano, vale até o dos guerrilheiros mexicanos. De qualquer modo, a solução passa pela crítica social via lições marxistas, já que a luta armada não deu certo.

Mas é essa mentalidade desses pedagogos "engajados" que precisa e deve ser contestada. A história é movida por séries de acontecimentos, há choque de civilizações e de interesses políticos e econômicos; evidentemente a base material de toda sociedade, em especial desde a modernidade, tem sido o comércio em escala mundial, a industrialização, e hoje o fortalecimento da informação, do conhecimento e das fortes transações financeiras. O capitalismo mudou, há uma crise financeira mundial, endividamento e desemprego. O terceiro mundo permanece alijado da concorrência, sofre com a pobreza e a ignorância. Há corrupção, tráfico de armas e de drogas. Problemas ambientais se agravam, e sim, EUA e China produzem energia suja.

É por essas razões, pela análise desses acontecimentos locais, nacionais e internacionais que o ensino de História e Geografia deve se pautar. O ensino deve ser aberto, sério, bem documentado, com fontes fidedignas, para assim os fatores em jogo poderem ser melhor analisados, comentados e, claro, criticados. Isso vale especialmente para a Sociologia e para a Filosofia. É nesse sentido que não há texto didático "neutro" e não porque sem o discurso marxista ao aluno estaria vedada uma "visão crítica da sociedade". 

A segunda parte do argumento, combater a alienação. Faz parte dessa linha, predominante entre pedagogos principalmente, a adoção de uma "visão crítica da sociedade",  que representa uma batalha com dois lados, ou se é engajado ou se é alienado. Alienado é todo aquele que não compartilha de noções como luta de classes, injustiça social produzida exclusivamente pelo capitalismo, sendo o mercado o grande vilão, o poço em que a sociedade está mergulha até a alma.
Assim, se nossos alunos não tomarem partido, no caso o único partido válido porque comprometido com a "transformação da sociedade", eles permanecerão alienados. A eles é preciso ensinar que o capitalismo e a "classe dominante" devem ser abolidos, para isso o professor precisa engajá-los na "ideologia crítica". A julgar pelo sucesso da imagem do Che, até hoje, parece que têm conseguido. Para quebrar a monotonia "protestantes" vestiram recentemente máscaras do personagem Guy Fawkes.

Esse tipo de pensamento simplificador e impositivo impede de se ter uma visão dos processos realmente prejudiciais da economia e da má distribuição de riquezas. Escolhem-se vilões que cabem na ideologia mistificadora que demoniza o capitalismo e o mercado, como se fosse possível eliminá-los. Isso resulta em uma absoluta falta de alternativas e de soluções factíveis (certamente difíceis) para serem postas na mesa e discutidas em sala de aula. É que cabeças "engajadas" pela doutrina marxista acabam com uma visão unilateral, ao invés de pensarem, param de pensar, ficam ocas.

O processo de escolarização, juntamento com o processo de educação visa a formação completa. O compromisso dos livros didáticos é com a informação, com a honestidade intelectual e ética, com a apresentação de questões e situações, a análise acurada dos fenômenos sociais, econômicos e culturais. 
A história ensina, sim, mas é preciso apresentá-la e não deturpá-la. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Política revolucionária X política autoritária, a trajetória do PT

Para uma melhor compreensão de um dos mais representativos fatos políticos da atualidade brasileira, o julgamento da compra e venda de votos de parlamentares no primeiro governo Lula, uma breve incursão na ideologia político-partidária do PT é esclarecedora.
A oposição ao regime militar fez surgir uma oposição combativa e corajosa. Um dos marcos foi a arregimentação, após a ditadura militar, de um partido de esquerda, socialista, surgido da militância de sindicatos e de intelectuais, com destaque para professores universitários.
Proclamava-se a esperança em um governo eleito, não por meio de revolução proletária, mas de instituições democráticas como via para o socialismo. Esse governo deveria levar a uma mudança radical, afinal socialismo é a repartição social igualitária de todos os bens produzidos. Deveria redimir a pobreza, aplicar a justiça social na cidade e no campo. A produção de riqueza viria da industrialização com base em crescimento de recursos internos. E, entre os mais radicais ou talvez mais ingênuos, a crença de que combater e mesmo eliminar o capitalismo, seria a redenção do povo brasileiro.
Com base nessas crenças e lutas, firmou-se certo autoritarismo, quem está do nosso lado, está no lado da verdade e do bem. Os outros, presume-se, estão errados e serão um dia vencidos. Ora, sem a pressuposição de que há diversidade ideológica, de que em uma democracia vozes diferentes e diversas expressões devem e podem coexistir, isso tudo gera intolerância
Aos poucos, e depois da vitória de Lula para o seu primeiro mandato, os motivos ideológicos acima descritos passaram por uma mudança inesperada. Um choque de realidade. Como de fato governar? Sem capitalismo, sem produção com lucro, sem investimento externo? Sem FHC, Banco Mundial e FMI surgiria o melhor dos mundos? Declarar a moratória?
Nada disso: para governar é preciso administrar a sociedade, a economia real (e do real, nossa moeda); há uma constituição a ser respeitada, cidadãos com direitos e deveres; também há três poderes, legítimos e independentes.
Praça dos Três Poderes - Brasília
Seguiram-se ações governamentais ancoradas na realidade econômica, projetos de mudança foram implementados, com ganhos visíveis. O malfadado capitalismo não pôde ser eliminado...
Mas havia ainda outro projeto ou estratégia: o que fazer para permanecer no poder? Além de planejar para bem governar e alcançar as metas de redução da pobreza e da enorme diferença social, do gritante déficit educacional, do sofrimento com doenças,projetos legítimos, alguns deles alcançados -, seria preciso também ganhar o total apoio do Congresso.
Nascia a ideia de compra de votos. Afinal parlamentares são corruptíveis, não é mesmo? Toma lá, dá cá, na surdina. Até que alguém dá com a língua nos dentes. 
Entretanto, o governo Lula seguiu, firme, forte e confiante, caiu um aqui, (Dirceu) outro ali (Genoino). Julgamento pelo Supremo Tribunal Federal? Adia-se, quando chegar a hora, contrata-se advogados, afinal o PT e seus membros acusados podem pagar, regiamente! Tinham, além disso, costas quentes, o próprio Lula. 
Imprevisto: passados 7 anos, juízes examinam o processo vindo da procuradoria, julgam e condenam!
Para o PT e seu presidente, Rui Falcão, houve "apenas" caixa 2, o partido da ética valida a prática de caixa 2, e vai além: 
Primeiro uma reforma política, financiamento público de campanhas; mas quem em sã consciência quer dinheiro público, do meu e do seu imposto para pagar campanhas de pessoas que visam o poder a qualquer preço, quantos medíocres se candidatem e se elegem! 
Segundo ponto: controlar a mídia. Afinal, jornais "estragam" e "deturpam" tudo, por isso precisam ser monitorados...
E o antigo projeto de ética na política? O partido não o menciona mais! Não expulsará de seus quadros os condenados pelo STF. Ao invés disso pretende regulamentar a mídia. Jornalistas teriam então regras sobre o que escrever e noticiar?
No século 18 Kant defendia a liberdade de escrita e de publicação! Esclarecimento, é disso que o público precisa. Sim, pois a imprensa pauta-se pela defesa da liberdade de expressão, cuidado com a verificação e a veracidade, resposta do leitor, não precisa de um partido político para "regulamentá-la".
O cunho autoritário do PT é o lado avesso de suas pretensões revolucionárias.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Kant na velhice: rigor na teoria e na prática

Não bastasse a genial contribuição da Crítica da Razão Pura para uma revisão sem volta da metafísica tradicional, Kant se volta para a razão prática, para as fronteiras entre filosofia e teologia, para o papel dos juízos de valor, as avaliações morais, sempre guiado pelos princípios da pura racionalidade.

A experiência com as coisas que nos cercam só é possível quando situadas no tempo e no espaço (Crítica da Razão Pura - 1781) e também quando organizada pelas categorias, que são como que nossas habilidades lógicas de pensar, de tornar as coisas inteligíveis para nós, sem depender de uma noção cara à filosofia até então: a de que a própria realidade tal qual ela é em si mesmo chega às representações mentais, que as causas físicas são também causas metafísicas, que o mundo é gerado por causas independentes de nosso conhecimento, entre elas, a maior e mais inalcançável - Deus como criador.

Kant teve que enfrentar a censura devido a suas ideias sobre religião e Deus. Frederico Guilherme II primeiramente apoiou Kant, mas depois censurou os escritos sobre religião (entre eles: Religião nos Limites da Razão Pura). Havia um comitê para assuntos religiosos que ameaçava com reclusão e perda do cargo na universidade. O rei era adepto do movimento Rosa Cruz, para Kant fruto da irracionalidade, do fanatismo e do obscurantismo.
Aos homens é necessário postular Deus, mas não há como provar que é ele o criador, que o mundo teve um começo. Problemas que a própria razão levanta ela não pode resolver. Há os limites da razão, ela só funciona situando as coisas, classificando-as, buscando sua causalidade, predicando sua existência. E isso sempre por meio de princípios puros a priori. É próprio aos homens especular, a razão se esforça, mas as ideias de Deus, alma imortal e origem do mundo extrapolam tempo e espaço, não são "captáveis" pelos conceitos e categorias racionais. A lei moral que cada um traz em si é a base para a crença em Deus e não o inverso, quer dizer, agimos moralmente não por ordem divina e sim livremente. Deus e alma imortal são, portando, objeto de fé, a certeza que se tem deles é moral, não racional. Em religião vale a "sinceridade do coração". 

Do que a razão precisa, com o que ela "aprende"? Apenas com a experiência.

Essa lição kantiana tem sido sistematicamente ignorada até em nossos dias: moral e religiosidade diferem do conhecimento (científico ou não). Impor uma religião, acreditar que ela é única, que sem ela a humanidade estaria sem rumo, tem acarretado trágicos resultados: fanatismo, perseguição e muita crueldade...
A moralidade, por sua vez, depende da liberdade, da autonomia, dar a si mesmo suas leis, sem precisar de uma autoridade, de dogmas, de doutrinas. A moralidade prescinde de base externa, esteja ela na natureza ou nos"céus". 

Nessa altura Kant já morava em sua própria casa e ainda levantava bem cedo, fumava seu cachimbo, tomava o chá, passeava nos arredores, sempre bem vestido. Recebia convidados para o jantar, os divertia com assuntos diversos. Com a morte de Green, perdeu o amigo que lia seus escritos, ouvia suas confidências e o recebia com regularidade. Kraus foi outro amigo bastante próximo. Era uma personalidade controvertida, escritor de vários livros sob anonimato, mas bastante caro a Kant. Essa morte também foi outro choque.
Königsberg, com o castelo nos fundos e a casa de Kant na frente, à esquerda

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Se há um conceito que dá sentido e amarra a obra, o pensamento e a vida de Kant, esse conceito é o da liberdade. Por ela lutaram os franceses, a liberdade e a autonomia fundamentam a moral, a própria natureza tem como fim último constituir um tipo de cultura humana regulando a ação para que os homens, com sua liberdade individual, não lutem entre si. Para tal eles podem constituir uma sociedade civil cosmopolita, que administre a justiça por leis universais, para todas as nações. Liberdade de palavra e de escrita, um público cultivado, um estado ético que una os homens sob leis sem coerção, apenas seguindo as leis da virtude, esse é o ideal, um ideal cosmopolita. Pode-se dizer que ainda não o alcançamos, mas almejarmos chegar a ele já vale.
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Nos últimos seis ou sete anos Kant decaiu, física e mentalmente. Fraco, passou a levar uma vida reclusa, suas notas eram confusas, o grande pensador perdia a capacidade de pensar. "Muitas das anedotas sobre as visões e hábitos indecentes se originam, claro, deste período. Não são indicativos de sua filosofia e nem de sua personalidade" diz o biógrafo M. Kuehn (p. 416). Quando morreu (fevereiro de 1804) já não reconhecia as pessoas, gostaria de ter ido antes, não temia a morte. Seguira na prática o que elaborara nas teorias: aguentar as vicissitudes da vida e abster-se, moderar, seguir o imperativo do dever enquanto homem livre. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Kant na maturidade

Aos 40 anos adquirimos nosso caráter, segundo Kant. Essa aquisição é como que um renascimento, uma palingênese, uma promessa feita a si mesmo. "A fundação de um caráter é de fato a absoluta unidade do princípio interno de como viver em geral", afirma ele. É dever de cada um formar seu caráter no sentido moral, ser sincero, honesto e confiável. A maturidade favorece uma melhor compreensão das coisas, a ação diária segue máximas ou princípios que são um guia a ser seguido com firmeza e constância. 
As máximas morais estão ligadas ao nosso modo de pensar e não ao de sentir, por meio delas se distingue o bom do mau caráter. Somos nossos próprios legisladores, não há necessidade de tutela, de seguir um líder, nem uma ideologia, nem ficar cego por doutrinas ou por ditames divinos.
Nessa época Kant começa a levar menos uma vida social e mais uma vida metódica e previsível, segue suas máximas como rigor nos estudos, na preparação das aulas, nas leituras e na sua produção intelectual.
Faz amizade com Green, que tem um estilo de vida que Kant admirava: a construção do caráter depende de seguir um estilo de vida regrado; visitava-o à tarde e saia pontualmente às 7:00 da noite. Green lia e comentava os escritos de Kant, tinha acesso às obras de Hume e Rousseau que estavam entre os escritores favoritos de ambos.
A obra de Kant começa a repercutir, inclusive em Berlim, para cuja universidade foi convidado, mas declinou da cadeira de poesia, pois seu interesse era a metafísica e a moral. 
Em 1765 passou a trabalhar na biblioteca de Königsberg, 4as e sábados à tarde, o que lhe dava proventos e a oportunidade de ler. Morou em quarto alugado na casa de seu editor. Comprou sua casa apenas aos 59 anos.
Acordava cedo, 5 horas da manhã, fumava seu cachimbo, depois do café preparava aulas e conferências. Lecionou a vida toda, pelo menos 20 horas semanais. Nas aulas de Antropologia e de Geografia, favorecia a compreensão dos alunos com exemplos. Mais tarde, a dificuldade dos temas metafísicos e morais prevaleceu.
Há um lado irônico pouco conhecido. Publicou anonimamente reflexões sobre visões e espíritos em resposta  a um famoso vidente, Swedenborg. Espíritos não são de outro mundo como afirmam os visionários. Estes deveriam ser despachados para um hospital para investigação. Não seria caso de doença nas entranhas? Em seus momentos de humor, Kant se saiu com esta tirada: "visões são caso de entranhas, se para baixo, um pum (!), se para cima se confundem com uma aparição ou inspiração divina". Esse humor fazia parte das reuniões da sociedade literária, a qual Kant frequentou durante algum tempo.
Esse Kant pré-crítico, buscava um conceito de natureza, de tempo, sob influência da física e também de Rousseau. Natureza e razão humana se complementam. 
Mas já há indícios do Kant crítico, as pessoas não se devem levar por conhecimentos ilusórios. O mundo dos espíritos é incognoscível, adota certo ceticismo propedêutico e catártico, ao estilo de Hume que viria a ser o filósofo responsável em grande parte por sua virada crítica. Crítica da razão, da metafísica tradicional, da moral dos sentimentos.
Kant das críticas e da metafísica dos costumes fica para a próxima postagem.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O jovem Kant: desmanchando alguns pré-juízos

 Atualmente há nada menos do que 483 biografias de Kant. Mas não é exagero afirmar a necessidade de ler a biografia escrita com primor de estilo e seriedade de pesquisa de Manfred Kuehn (2001), "Kant, a biography". Ele recorre a biógrafos, a cartas, a uma extensa pesquisa histórica e sociológica para reconstituir em detalhes a vida de Kant, seu modo de viver, sua educação, sua família, sua cidade natal, Königsberg, a Prússia, enfim, a evolução pessoal e intelectual de Kant.
Kant tinha uma constitução franzina (1.57 de altura), louro, com penetrantes olhos azuis; provavelmente sofria de angina.


(1724-1804)

Seu pai fabricava arreios, a infância decorreu sem dificuldades financeiras, que vieram mais tarde quando da morte de seu pai. Kant tinha apenas 22 anos. Com a morte da mãe, aos 40 anos, Kant que era o filho mais velho, teve que assumir a responsabilidade pelos seus irmãos. Teve ajuda financeira de um tio. Os estudos foram feitos em colégio que seguia a ortodoxia da teologia pietista e cuja disciplina era extremamente rígida.
Todos conhecem episódios até mesmo anedóticos sobre a vida metódica e a influência da religião pietista (os pietistas faziam seu próprio estudo e leitura da Bíblia, importava a devoção pessoal, caridade, desprendimento e a salvação viria após arrependimento e conversão).
Mas Kuehn considera que a teologia pietista não teve o efeito poderoso na filosofia madura de Kant. Ele admirava as ações dos pietistas, não suas teorias teológicas. Que ações eram essas? Respeito, cumprimento dos deveres não pelo medo de punição, evitar excessos, a sinceridade, ter confiança em si, separação entre moralidade e religião.
"Se o pietismo teve absolutamente alguma influência em Kant, então essa foi negativa" afirma o biógrafo (p. 54). Basta pensar em teses fundamentais, como a da autonomia da vontade, a moralidade racional e não sentimental, a separação entre religião e moral para concordar com Kuehn.
Kant era solitário, metódico ao extremo, misógeno, nunca saiu de Königsberg?
Em geral é assim que Kant é conhecido, o que não passa de uma caricatura. 
Sua vida era modesta, tinha hábitos frugais, mas não vivia isolado, teve amigos, alguns dos quais bem próximos, se interessou por algumas mulheres, pensou até em pedir uma delas em casamento, desistiu por não ter como sustentar uma família.
Quando passou a dar conferências na universidade e ser pago por elas, se tornou um "elegante professor" entre os anos 1755-1764, participando ativamente do debate intelectual entre os influentes professores da universidade. Dos 36 aos 39 anos foi figura central nos círculos sociais de Königsberg.
Enfim, há todo um conjunto de circunstâncias que pesaram na constituição do pensamento maduro de Kant e que são desconhecidas ou menosprezadas.

Com relação à amizade, quando da morte de seu amigo Funk, assim ele reflete em carta escrita à mãe do amigo morto prematuramente:

Todo ser humano faz planos sobre seu próprio destino no mundo. Há habilidades que ele quer aprender, há a honra e a paz que ele espera assim alcançar, felicidade duradoura na vida conjugal e uma longa lista de prazeres ou projetos compõem as figuras da lanterna mágica, que ele imagina para si mesmo e que passam continuamente em seus devaneiios. A morte, que põe um fim a este jogo de sombras, se mostra apenas a uma grande distância e é obscurecida e tornada estranha pela luz que envolve os locais mais aprazíveis. Enquanto sonhamos, nosso verdadeiro destino nos conduz de um modo inteiramente diferente. A parte que esperamos raramente aparece do jeito que gostaríamos e vemos nossa esperança ser arremessada a cada passo nosso ... até que a morte, que sempre pareceu distante, de repente acaba com todo o jogo (1760).

PS: sobre Kant na maturidade e na velhice, escreverei oportunamente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Bóson de Higgs, Deus e a metafísica

A Física teórica, que usa cálculos e comprova suas hipóteses pela experiência e/ou pelos produtos técnicos e tecnológicos, é de certo ponto de vista, recente. Surgiu nos século 16, com Galileu, foi aperfeiçoada por Newton no século 17 e deu enormes saltos no século 20 com o modelo atômico.

Partículas já foram pressupostas pela filosofia natural com Demócrito, século 6 a. C., mas a intenção dos primeiros filósofos era dar uma resposta metafísica sobre a causa natural e primeira da existência de corpos e de seu movimento.

Há diferenças importantes entre a fé em Deus (monoteísmo cristão), a ciência natural e a indagação filosófica. Essa diferença reside em métodos, propósitos, perspectivas, resultados e visões de mundo.A religião e a crença em Deus dispensam provas, não requerem experiência sensível, muito menos resultados aplicáveis.

É muito estranho e mesmo absurdo, paradoxal, que a comprovação da existência de uma partícula, por mais essencial que ela seja para entender a relação entre matéria e energia, seja "a partícula de Deus", como tem sido chamado o bóson de Higgs.
bóson de Higgs

Nesse caso Deus ou seria materializado ou então teria que fazer parte de sua própria criação. Então, não seria Deus como os cristãos o concebem, e como pressupõe a fé em um ser absoluto, transcendente, que tudo sabe e que não está em lugar ou espaço algum. Criar algo, a tal partícula que decifraria todo o universo, significa que o próprio Deus seria perfeitamente inteligível pelos humanos. Mas como Deus criou, precisou sair de si? E partir do que, como? De sua vontade?

Faz parte da religião e mesmo da ciência e da filosofia, o desconhecido, o misterioso. Nossa mente, nossa inteligência e o modo como significamos e nos comunicamos resultou de uma evolução histórica; o modo como produzimos conhecimento depende de teorias, cálculos, fórmulas, instrumentos. A ciência progride com esses recursos. E todos eles são produtos de nossa história e de nossa evolução. Não há como sair dessas situações e circunstâncias. Quer dizer, o modo como indagamos e as razões que nos incitam dependem dos tipos de conhecimento, da curiosidade, da linguagem e dos signos. São eles que permitem fazer essas perguntas. Respondê-las pode abrir caminhos, ou não...
E essas são reflexões filosóficas.

A metafísica é aquela parte da filosofia que indaga pelas causas primeiras de todas as coisas, os princípios do ser, como é possível que haja ser e não nada. É um pouco difícil entender essas perguntas em torno do ser, do nada, do vir a ser, se os seres são determinados, como identificá-los, se todos têm uma finalidade ou não, se são fruto do acaso ou de um princípio superior.

A ciência até pode ser reflexiva e mesmo crítica quando os cientistas se perguntam sobre os limites de seu conhecimento e os objetivos mais gerais da ciência, sobre seus fundamentos e modelos (matemático, empírico, lógico, tecnológico).
Mas a ciência não deve e nem pode pretender ter a verdade última ou ter descoberto e decifrado a origem do universo.
Certa dose de ceticismo é uma precaução contra a risível pretensão de, com nossos instrumentos e recursos, responder a todas as nossas dúvidas.
Inclusive porque o tipo de pergunta que fazemos, pela causa ou origem, é característica de nosso humano modo de ser.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A cultura de uma "moral" da egolatria

Nossa época vê surgir um novo tipo de personalidade que pode ser analisado de um ponto de vista moral. E de que ponto de vista moral? Sugerimos um contraste com uma moral que propõe uma vida virtuosa no sentido do cultivo de hábitos moderados, como a ética de Aristóteles.

O que um executivo, um profissional hoje em geral cultiva, aprecia e valoriza?
Ele precisa ser empreendedor, seu corpo é seu ego, o estilo de vida depende de mostrar-se, construir um eu e fazer sua vida girar em torno desse ego, bastante inflado. O corpo precisa de músculos, vestir-se requer marcas, conviver exige espaços de prazer imediato, como bares e restaurantes da moda, shoppings e todo e qualquer lugar onde ele possa exibir suas conquistas. Pode ser um automóvel ou um objeto da mais recente tecnologia.

O respeito, o cuidado com relação aos outros, a bela e boa vida interior são deixados de lado. Coisa de fracos ou inferiores.
O ególatra aprecia e tem como objetivos apenas o que pode ser medido, calculado, ranqueado. Escalar degraus na empresa, sucesso profissional, viajar para mostrar para onde foi, aliás, mostrar-se é imperativo. E como é fácil, mil fotos, filmes, eu fiz isso ou aquilo, o menor gesto ou atitude é sempre o de uma conquista de si que é exposta diariamente nas redes sociais. Sua vida gira em torno de si mesmo, a "moral" da egolatria. Valores são todos os que levam ao crescimento ou engrandecimento de si mesmo. Foi publicado recentemente um livro chamado, pasmem, "A anatomia da liderança ética" (sic), autoajuda para ter sucesso.

Para que modéstia ou moderação? Para que sinceridade ou autenticidade? Para que desprendimento ou altruísmo?
Essas e outras capacidades como a coragem moral, a justa indignação, a busca da calma e da paz interior, não servem ao ególatra.
Ao passo que contar vantagem, a gabolice, as bravatas, vencer a qualquer preço, isso lhe serve. Por vezes precisa ser subserviente, ele curva a espinha se precisar. O que pode levar ao despeito, ao vazio, sempre insatisfeito, talvez mesmo infeliz.

Entretanto, é possível ser bem-sucedido no trabalho, ser uma boa pessoa na vida familiar, cultivar amizades e atingir certa plenitude e satisfação, mesmo em meios competitivos.
É uma questão de estilo de vida, de escolha de valores, de reflexão e moderação. Buscar o que é justo. Uma vida plena não pode ser medida, ela não cabe em escalas ou rankings.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Com qual desses filósofos você se identifica?

Você é platônico se considera importante se comprometer com o ideal, com a realização perfeita de valores e se esses valores forem principalmente os do Belo e do Bem. Se você gosta de ensinar e entregar-se de corpo e alma à busca incessante de melhoria em especial a da alma, em tudo superior ao corpo, seu mestre é Platão.
Aristótelicos preferem a ordem lógica, a busca das causas principais e essencias por meio do raciocínio, a pesquisa de todos os setores da realidade de modo a chegar ao cerne das questões. Para você tudo tem um limite e não há mistério para a investigação humana. As coisas todas se encaixam, é possível ser feliz desde que se pratique atos justos e virtuosos.
Aqueles para quem a matemática é o compasso para medir todos os seres e ordená-los, aqueles que gostam da razão e consideram que clareza é o mesmo que verdade, que a negação e as dúvidas podem ser vencidas, aqueles para os quais pensar na solidão de seu quarto é a maior das aventuras, estes são cartesianos.
A confiança estrita no poder da razão e no cumprimento do dever pelo dever, caracteriza kantianos. Se, além disso você gostar de levar uma vida metódica e preferir sua cidade a todas as outras, aplicar-se com rigor a não transigir em matéria moral, você se identifica com Kant.
Mas se você se inclina ao que é transitório, ao que muda e evolui seguindo uma trajetória histórica, então sua afinidade é com Hegel. As coisas estão em curso para você, e se elas mudam, o fazem para melhor, culminam em algo absoluto; tudo o que for realizável o será por ser racional.
Esse otimismo não cabe para os nietzschianos. Eles são os irônicos, céticos, do alto da montanha contemplam ridículas criaturas perseguindo valores gastos como se a vida dependesse disso. A vida não pode depender de nada, há que inventar, há que criar seus próprios valores. Mesmo que isso os faça sofrer.
Os wittgensteinianos são intransigentes, exigentes consigo mesmos, acham que podem decifrar os códigos humanos, mas que Deus e religião são indecifráveis. Também gostam da vida simples e da solidão. Abrem mão da riqueza e seu espírito é investigador. A verdade pertence às atividades cotidianas, nelas há tudo do que se precisa para dar e encontrar sentido nas coisas. Sua metáfora predileta é a do jogo. Jogos exigem regras, cálculo e lógica.
Se você é desconfiado, se você não aceita regra alguma sem dar uma olhada no que a produziu e quais são os resultados dessas regras aparentemente inocentes e pretensamente científicas, você é um crítico de nossa cultura e do modo como as instituições nos limitam. O filósofo mais próximo a esse modo de ver é Foucault.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fato, verdade e realidade: as dificuldades da comissão da verdade

Nosso cotidiano depende de uma lida com os três fatores do título: fato, verdade e realidade. Na maioria das vezes esses condicionantes de nossa vida se embaralham, se misturam e são tomados uns pelos outros.
Desde a instalação da comissão da verdade que tem como meta investigar e chegar justamente à verdade sobre crimes políticos acobertados durante tanto tempo, posições diferentes surgiram. Quais crimes investigar, os da ditadura militar apenas? Ou também atos da esquerda (atos terroristas) que se opunha à censura e ao regime de força que eliminara a democracia?
Como chegar à verdade? Pelos fatos, se diz. Mas quais fatos investigar? Documentos? Quais? Como decidir se são ou não significativos, se ajudam para esclarecer quantos morreram, foram perseguidos, sofreram a violência da tortura?
E mais: quem será ouvido, quem testemunhou a prisão e a tortura?
Fatos precisam de algum tipo de constatação objetiva, mas ainda assim, provocam controvérsia quando pessoas com diferentes pressupostos e valores resolvem que uns importam mais do que outros...
Acresce-se a isso a realidade. Em geral se usa o conceito de realidade para uma situação mais geral, no caso, a história da ditadura que se inicia com o imbróglio de Jânio Quadros, a posse de Goulart, o regime parlamentar, sua queda e a revolução militar com os atos institucionais.

Para a atual geração fica difícil entender o que é viver sob censura, não poder eleger prefeitos de capitais, governadores e nem o presidente. Fica difícil imaginar o que é optar por dois partidos apenas: um "oficialmente" situação, o outro "oficialmente" oposição.
A luta contra a ditadura se fazia em pelo menos duas frentes: a clandestina e a de figuras notórias de políticos, intelectuais, jornalistas.
Manifestações de rua contra a ditadura e a repressão da polícia
E isso é parte da realidade da época.
Havia também o medo, pois ser fichado pelo Dops, a polícia política da ditadura, poderia significar prisão e tortura para delatar os clandestinos.
Sua casa poderia ser invadida e vasculhada: certa literatura, em especial relacionada ao comunismo, o poria sob suspeita.
Outros fatores pesam também nessa conjuntura: havia militares que desejavam o fim da repressão, de um lado. De outro lado, há vários opositores que se beneficiam com indenizações até hoje, por terem perdido um cargo, ou por terem sido afastados de sindicatos (isso é justo ou abusivo?).

Enfim, há muito o que fazer e nunca se chegará à verdade.
Se a verdade for algo inflexível é difícil de obtê-la. Se a verdade for flexível, deixa de ser confiável.
De qualquer maneira, é preferível recuperar injustiças e erros do que sepultá-los.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Habermas entre Kant e Hegel

A teoria da ação comunicativa de Habermas (1929-) elaborada nas décadas de 70/80, representa uma proposta de renovar a tradição kantiano/hegeliana.

No lugar de conceitos a priori e de categorias formais da razão pura (Kant), para conhecer é preciso usar a linguagem, afirma Habermas. Não é possível pensar ou conhecer o mundo, nem mesmo situar acontecimentos no tempo e no espaço sem usar atos de fala. Quem diz, o que diz, a quem, em que situação e contexto, bem como o uso de afirmações com conteúdo proposicional (proposição é uma formulação da linguagem que objetiva algo no mundo, que descreve algo com sentido e se refere a um estado de coisa): o que conta é o discurso.
Um ato de fala requer, portanto, conteúdo proposicional quando se trata de afirmações sobre algo que o ouvinte compreende e sabe a que se refere. Atos de fala têm validez, quem faz uma promessa, por exemplo, implica intenção sincera de cumpri-la, do contrário ela se torna um ato de fala vazio. Pedir informação pressupõe condições de validez, como ser relevante e obter resposta do ouvinte (que tem ou não condições de informar). E assim por diante em nossa vida cotidiana: nos comunicamos.
De outro lado, pode-se agir estrategicamente, impondo, influenciando, negociando. Nesses termos a ação tem a ver com o poder de barganha, de convencimento, como na política, na propaganda, no comércio, no mercado.

Onde entra Kant?
O transcendental passa a habitar a linguagem que é uma prática aprendida, conhecer e lidar com o mundo dependem dela, os atos de fala são necessários, mas não puros, nem a priori. Habermas "destrancendentaliza" a razão por meio da comunicação linguística.

Onde entra Hegel?
Se a linguagem é aprendida, isso depende da cultura, de sua evolução histórica e das necessidades que nascem de situações concretas. Como resolver problemas, como enfrentar obstáculos, como realizar obras? Hegel "historiciza" a razão e dá ao entendimento funções, o espírito humano se concretiza nas religiões, na arte, na filosofia. Por meio do trabalho, da linguagem e da ação, o espírito desempenha suas tarefas em direção a maior liberdade e plenitude. Direito, ética, o funcionamento pleno da sociedade civil, nada disso depende de imperativo categórico puro, e sim de transformações históricas.
Habermas concorda com tudo isso. O problema é que Hegel entende que esse processo dialético é unidirecional, que ele culmina no Espírito Absoluto, plenitude e realização máxima de seu caminhar histórico.

Para Habermas a ação comunicativa não tem fim. Ela envolve argumentação, pessoas capazes de usar a razão socializada por meio do aprendizado de atos de fala. Os participantes integram uma comunidade ética, política, social. O ideal para Habermas não é culminar em uma totalidade abstrata, e sim a concretização do dar e ouvir razões, em comunidades de comunicação ilimitadas, que negociem e conciliem interesses e valores, cujos membros sejam suficientemente educados e seus propósitos sejam os de inclusão do maior número possível de pessoas. Quer dizer, democracias que respeitem o estado de direito, sendo "a consciência da solidariedade cosmopolita obrigatória" diz ele em A constelação pós-nacional (2001).

Atingir esse ideal tem sido difícil: crise econômica, guerras, perseguição religiosa, conflitos étnicos, violência são severos obstáculos. Com educação, liberdade e solidariedade eles são transponíveis.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Por que é tão difícil compreender Hegel?

O marxismo foi em grande parte responsável pela divulgação da dialética de Hegel como método, como explicação do sentido da história. Os três momentos por que passam a história, o conhecimento e mesmo a natureza em seu desenvolvimento são: tese (ser, afirmação), antítese (não ser, negação) e síntese (vir a ser, superação ou ultrapassagem). Essa espiral crescente e transformadora mostra que não é por acréscimo que há mudança e sim por superação de dois momentos ou movimentos antagônicos reunidos em um terceiro momento em que a totalidade da história muda.
Mas Hegel não se limitou a esse esquema, e, é claro, nunca pretendeu com isso chegar à revolução do proletariado...

O que significa a mudança por contradição?
Que a negação é inseparável das determinações, do ser isso ou aquilo. Para algo ser determinado, isso requer ao mesmo tempo que ele não seja isso ou aquilo. A verdade reside na passagem, no devir. Quer dizer, a marca característica de algo, ser de tal ou tal espécie, implica diferença. Mas se é preciso a diferença, como se conhece tal espécie? Não é pela identidade?

Enquanto Kant resolve o problema pela fixação por meio de conceitos, pelo juízo que afirma, nega, contrapõe, etc., pelo recurso do entendimento às categorias imutáveis, puras a priori da razão, para Hegel isso levaria a um abismo entre o sujeito que representa o mundo e a realidade representada. Haveria dois momentos, o da apercepção do sujeito e o daquilo que ele conhece. Se o em si é incognoscível a consequência é o ceticismo, pois não é possível conferir ou confrontar representação com representado, seria preciso alguém ou algo de fora para "juntar" os dois momentos, os recursos para conhecer e o que é conhecido.
Para Hegel não há essa distância, a realidade em si pode ser apreendida, sensações que se tem e ideias ou conceitos são momentos que não se justapõem e nem se excluem, mas se complementam. Não por força do sujeito com sínteses transcendentais, mas do sujeito em relação permanente com as coisas em recíproca influência e modificação pelo uso da linguagem em proposições nas quais entram categorias e conceitos.
As proposições não são pura síntese, pois foram forjadas pelo próprio movimento histórico que pretendem explicar. Isto é, a história é o espírito humano se manifestando. Conceitos são criados e modificados. Quando se formula um juízo a respeito de algo há um uso, há a responsabilidade por conferir a apropriação ou não desse uso em um contexto. Em suma, há a preocupação pela correção do uso de uma proposição. As coisas são como o juízo afirma que elas são? Podemos conferir se sim ou não.
Como se vê, Hegel não se resume ao "método" dialético.

Se Kant não tivesse feito a mais radical crítica à metafísica (não se pode conhecer o noumeno ou algo em si mesmo e enquanto tal, só os fenômenos, o que se apresenta e como se apresenta ao conhecimento), Hegel não precisaria ter se esforçado tanto para recuperá-la. O em si e o para si não podem se divorciar, do contrário não haveria formas culturais de vida, a vida social e a construção do conhecimento da realidade são formas de o espírito operar sobre as coisas e de estas serem percebidas, ditas e usadas.
Esse duelo de gigantes, Kant X Hegel, é retomado por Habermas. Isso fica para a próxima postagem.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Somos autônomos ou autômatos? Um confronto entre Kant e Freud

Todos temos noções de dever e de leis morais, diz Kant na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Uma lei moral só tem sentido se valer igualmente para todos, se for universal. As qualidades de caráter, dons naturais, saúde, poder, inclusive a busca da felicidade, tudo isso depende da vontade, da boa vontade. Nossa existência tem um objetivo mais nobre do que a busca da felicidade. Esse objetivo se encontra na razão que conduz a vontade para agir conforme ao dever, desinteressadamente.
Tudo o que fazemos por nossos impulsos e inclinações, amores, desejos não possui valor moral. Agir somente pelo dever é próprio de seres racionais para os quais vale a máxima: a ação deve poder servir como lei universal. Se alguém faz uma falsa promessa, e isso se tornasse válido para todos, a mentira seria regra e as promessas perderiam o sentido. E se ninguém for sincero? Não importa, isso não retira o valor da sinceridade, por exemplo, como necessária para a amizade.
Se alguém joga papel na rua com a justificativa de que nem todos jogam, imagine se esse ato fosse generalizado! A maioria de nossas ações, segundo Kant são movidas pelo egoísmo e pelo amor próprio e não pelo comando do dever, que pode exigir renúncia. É difícil praticar ações morais por puro dever da vontade.
A característica fundamental da vontade é a autonomia, a livre capacidade de escolher sob o comando da razão e não dos impulsos e instintos. O imperativo da ação moral é categórico, i. é, independe de desejos, pois a lei moral trata todos como se fossem fim em si, ou seja, são pessoas. O requisito absoluto é o respeito à dignidade da pessoa humana, sempre. Tratar os outros como um fim e não como um  meio. A base da dignidade da pessoa é sua autonomia, as pessoas dão leis a si mesmas e seguem livremente o que estiver de acordo com a autonomia da vontade. Sem liberdade não há moralidade.

Em contraste, Freud mostra que autonomia, autodeterminação e liberdade têm uma quota limitada em nossas ações. O ego, a consciência de si mesmo é uma camada superficial. Por debaixo estão os impulsos, as pulsões e toda uma carga de afetos e emoções guardadas no inconsciente. É como se a luz do dia fechasse essa carga, resistimos em abri-la mesmo porque sentimentos, afetos, mágoas, traumas sofreram um processo de repressão. Isso tudo aflora nos sonhos, no que por vezes dizemos "sem querer", em nossos lapsos de linguagem, em certos gestos automáticos.
O psicanalista puxa o fio da meada, eventualmente chega aos episódios ou ao episódio traumático, que via de regra está ligado à vida sexual infantil. E não há como fugir disso.
Freud teve o mérito de descartar a noção de que transtornos psicológicos seriam inatos. Eles não são inatos, nem hereditários e nem fruto da "degeneração da personalidade", conceitos esses que levavam os problemas mentais e psicológicos para uma área próxima à da condenação moral. No lugar de "você é um degenerado", compreender que há um conflito no indivíduo entre seus desejos e as "aspirações morais e estéticas da própria personalidade". Pois "as aspirações individuais, éticas e outras, eram as forças repressivas" diz Freud. O impulso desejoso seria incompatível com a vida civilizada, com os códigos morais, por isso o ego reprime tais forças, e assim protege sua personalidade de um desprazer. Neuroses vêm daí. A possibilidade de alívio da ansiedade que elas produzem, pode vir da livre associação de ideias que o psicanalista induz. "... o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da vida mental. Para ele não existe nada insignificativo, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas" (Freud, Cinco lições de psicanálise).

Para Kant somos autônomos, a liberdade da vontade de decidir levando em conta o que vale para todos eleva o homem ao máximo de sua dignidade. Para Freud, valores morais têm o poder de sublimar impulsos, aquele que age por dever seria um obsecado, ou pelo menos, seduzido pelo dever como se esse fosse um prazer.

Qual dessas análises traduz melhor a condição humana? Excluir um ou outro desses pensadores seria uma perda cultural irreparável.




sábado, 14 de abril de 2012

Sobre os cientistas ateus

Cientistas famosos e conceituados como o biólogo Richard Dawkins, o físico Stephen Hawking e Lawrence Krauss (ver entrevista em Época) se declaram ateus em nome de descobertas e teorias da ciência, e em razão do método científico fornecer provas.
Os argumentos utilizados se baseiam nas evidências acerca da origem da vida em nosso planeta (biologia) e no que até agora a astrofísica tem pesquisado sobre como o universo surgiu. A mais famosa teoria, como todos sabem, é a de uma explosão inicial de energia. E isso do nada.

Ora, na área cultural que as religiões ocupam há milênios, seres superiores ou, no caso do monoteísmo, Deus é a absoluta origem de todas as coisas. Para os gregos não poderia haver criação a partir do nada. Impossível o não ser gerar o ser. Para os cristãos, a geração divina de todas as coisas veio, sim, do nada. A pergunta não é como Deus poderia ter criado tudo do nada, como fazem os cientistas, pois assim usam uma questão científica para "provar" seu ateísmo. Os cristãos não precisam sequer pôr esse tipo de questão, Deus é onipotente e isso basta para aqueles que creem.

Não se pedem provas ou teorias para amparar crenças, a base delas é a fé transmitida pela tradição oral ou textos sagrados.

Quando um cientista faz profissão de fé em uma teoria científica, comete alguns equívocos:
- a ciência exige revisão permanente, todas suas teorias, ainda que sustentadas por cálculos e comprovação por meio de testes e/ou instrumentos, devem permanecer abertas para revisão. A ciência não pode se arvorar em palavra final. Se as teorias forem consideradas verdade final, a primeira teoria considerada científica bastaria e até hoje professores ensinariam a teoria de que tudo se compõe de terra, água, ar, fogo e éter (física aristotélica);
- se a ciência é convincente e seus resultados fantásticos, nem por isso ela ilumina corações e mentes com o conforto espiritual proporcionado pela fé religiosa ou pela crença em Deus;
- estados e nações em que a ciência e as religiões ocupam lugares específicos com funções próprias a cada uma delas, há maior tolerância e ambas são livremente praticadas e respeitadas.

Nada disso justifica, porém, a imposição de certas religiões ou chefes religiosos para que nas escolas em lugar do ensino de ciência (física, biologia em especial) sejam adotadas uma doutrina ou uma crença (criacionismo em lugar do darwinismo, por exemplo).

A separação entre Estado, religião e educação é imprescindível para assegurar a todos os cidadãos, justamente, que eles possam seguir uma crença, se assim desejarem, e aprender, informar-se e formar-se nas diversas e necessárias disciplinas escolares.

Essas reflexões que a abordagem filosófica enseja não são uma condenação do ateísmo. O problema do ateísmo é usá-lo como bandeira político-ideológica de defesa da ciência como saber absoluto. Dessa forma ela, ciência, extrapola suas funções e se assemelha a uma religião. Algo estranho e paradoxal: a fé no ateísmo...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Segurança, prisão e liberdade

O modelo prisional norte-americano vem de longa data. Mais precisamente 1790, estado da Filadélfia. Esse modo exclusivo e cada vez mais aperfeiçoado de punir, desde as menores infrações como beber na rua, ultrapassar limite de velocidade, portar e usar drogas ilícitas, mesmo a denúncia de que bate nos filhos, até o latrocínio e assassinato. Nada fica impune.
Prisão em Nova York: nos EUA há 304 milhões de habitantes e uma população carcerária de 2.3 milhões

A população carcerária nos EUA é a maior do planeta. O orçamento com segurança, fora gastos militares, é gigantesto. Uma briga entre prisioneiros, por exemplo, é captada por câmeras, os envolvidos são  julgados, o culpado é punido pelas regras internas com um ano de solitária.

Aeroportos são vigiados, todos os passageiros são "filtrados". Nos locais onde transitam muitas pessoas, o lixo é recolhido para ser examinado.
O preço a pagar para haver segurança, é, portanto, bem alto.
Ao mesmo tempo a democracia se enraizou nas instituições e os cidadãos se consideram livres e responsáveis.

Por que em uma sociedade democrática e liberal a prisão é o tipo quase exclusivo de punição até hoje?

As sociedades de segurança que emergiram com o aumento da produção e da população, instituíram não só um sistema carcerário rígido, como outros meios para assegurar que indivíduos pudessem ser moldados por instrumentos aparentemente não violentos, como analisa Foucault em Vigiar e Punir. O espaço ocupado pelo corpo em escolas, no exército, em hospitais, nas fábricas, desde meados do século 18, permite examinar, vigiar e punir indivíduos, facilmente detectar gestos e comportamentos desviantes da norma, e aplicar corretivos. Assim, todos são induzidos a responder às instruções, às ordens, aos medicamentos, ao aprendizado e rápida e eficazmente operar máquinas.

Enquanto escolas se tornaram também espaço de criação pessoal, os exércitos se sofisticaram por meio da tecnologia, hospitais refinaram métodos de detecção e cura de doenças, fábricas passaram a empregar maquinário que automatiza a produção - as prisões, em contraste, pouco mudaram.
Além da vigilância central, câmeras. Mas o regime prisional como um todo ainda visa observar, regular, recuperar, controlar, corrigir e restringir a ação e o comportamento para obter obediência estrita.

No Brasil, com exceção de prisões de segurança máxima, a situação em que se encontra a maioria dos cárceres é bárbara. Corrupção, violência e o resultado: nem punição, nem correção e nenhuma confiança da sociedade nesse sistema punitivo.

Prisão Central de Porto Alegre

Assim, haver uma relativamente alta segurança, depende de um sistema carcerário bastante sofisticado apoiado por instituições judiciárias e policiais que fazem parte do cotidiano e do imaginário social.
E a inexistência ou a precariedade disso, como no Brasil, resulta em insegurança como permanente ameaça. As pessoas se defendem como podem: cerca elétrica, vigilância privada, vidros escuros e toda uma parfernália para evitar furto, roubo e morte.

Não há saída, não há a possibilidade de segurança com mais liberdade?  Como evitar a impunidade e, ao mesmo tempo, cultivar a sociabilidade?

Alguns países encontraram essa saída em mais igualdade de oportunidades e educação, sempre que elas caminham juntas e uma reforça a outra.

terça-feira, 20 de março de 2012

Como se começa a filosofar?

Para filosofar basta fazer certo tipo de indagação: por que? como? quando?
E ir fundo com as questões. Quais são as causas mais essenciais e imprescindíveis de todas as coisas? Como é possível existirem tais coisas, como elas vieram a ser, não é incrível que haja o ser e não o nada? O que determina que um ser tenha as propriedades e características que o distinguem dos demais? Há um tempo, um "quando" responsável pela origem de tudo?

Essas perguntas também são feitas pelas religiões, e recebem respostas definitivas: no começo o caos ou o nada, depois a organização por forças cósmicas ou por Deus como nas crenças monoteístas. Tudo faz sentido, há um destino para todos os seres e em especial para os seres humanos.

A ciência também propõe investigar e procura respostas para o que nos intriga: tempo finito ou infinito, qual é a origem do universo, como a vida começou? Mas, ao contrário da filosofia e da religião, os cientistas não visam conciliar, consolar, dar sentido, apaziguar a existência humana, nossas dúvidas, nossos anseios.

A filosofia, sim. Ela busca pela razão de sermos no mundo, o que nos move, se há um sentido na história da humanidade, o que se pode mudar e o que nos condiciona.
O questionamento filosófico exige dialogar. Exige que nesse diálogo entrem pessoas dispostas a argumentar, a raciocinar, a ouvir as razões do outro, buscar respostas, inclusive com o risco de não encontrá-las, o que não leva a desistir do diálogo. Até mesmo o cético necessita argumentar para expor suas dúvidas. 
Mas se o caminho for o da imposição dogmática, o diálogo cessa. Sempre que um dos lados se considera  com a plena razão, resta ao outro submeter-se. É a morte da filosofia e o nascimento da intolerância, da violência, da censura.
Sendo assim, por que os próprios filósofos dificultam o acesso a essas indagações com seu vocabulário especializado, com termos e expressões que parecem nem fazer sentido?
Quem ler o prefácio da Crítica da Razão Pura ou o da Fenomenologia do Espírito desiste, a menos que haja um professor para debulhar conceitos e noções, comparar, expor com termos acessíveis o difícil pensamento dos mestres da filosofia.

Aulas de filosofia são exemplos de diálogos em estilo platônico: examinar conceitos revirando-os para que os alunos possam acompanhar o significado, ou seja, seu uso ou usos.
Se, ao final da aula pelo menos alguns alunos chegarem, eles próprios, a novas questões, se eles chegarem a esse ponto: "Como é que eu nunca havia pensado nisso!", a aula foi bem-sucedida.
Mudar algo na cabeça das pessoas, como disse certa vez Foucault, levá-las a pensar novamente o que estava assentado e dado como evidente, isso é filosofar.
Outros filósofos acrescentariam que há também a esperança iluminista de que tais diálogos melhorem nossas relações, ainda primitivas sob muitos aspectos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Teoria do Conhecimento e Epistemologia

O que é conhecimento, quais são suas fontes, como é possível assegurar se o conhecimento é confiável, verdadeiro, falível ou não, é disso que se ocupa uma área da Filosofia chamada de "Teoria do Conhecimento".
Para os céticos nada se pode saber com certeza. Platão discorda, pensamos por meio das ideias, ao mesmo tempo elas são o que há para ser conhecido após uma difícil empreitada, que começa com os objetos físicos apreendidos pelos sentidos, que nos enganam, até o mundo superior, inteligível.
Aristóteles considera que o acesso ao real, aos seres individuais é direto; a fonte do conhecimento é a capacidade de perceber e de pensar, e isso não se deve às ideias, que são apenas abstrações. Para conhecer a causa geral de todos os seres é preciso partir da experiência e ir abstraindo até formular juízos sobre a essência e as características das coisas.
Empiristas pensam que a experiência é fundamental, racionalistas como Descartes rejeitam a experiência como fonte: ela pode nos enganar e todo saber só é digno do nome se for indubitável, evidente e claro.O homem é uma coisa pensante dotado de um corpo, pura matéria.
Kant dá um passo definitivo e imprescindível: o conhecimento se estrutura por meio de formas puras, transcendentais sem as quais o mundo sensível permaneceria caótico e inacessível.
A fenomenologia eleva os fenômenos kantianos à condição de essência. Enquanto Kant se detinha na faculdade humana de apreensão ou intuição, dizia que o mundo das coisas em sua própria essência é inacessível, a fenomenologia de Husserl afirma que o conhecimento é das coisas mesmas. O fluxo da consciência que se tem dos fenômenos, das coisas (seja qual for a natureza delas) é próprio da consciência, é imanente a ela e, ao mesmo tempo, há a consciência que tem papel transcendental, o "eu penso" é evidente, tal como para Descartes.
Chama-se "Epistemologia", a indagação sobre o tipo de conhecimento da ciência. Já não é mais um sujeito que conhece realidade a questão central, e sim quais são os meios para construir o edifício da ciência: experiência, testes, observações, instrumental técnico, sínteses sob a forma de leis e grandes teorias.
Entre os epistemólogos se destacam: Wittgenstein (de cuja expressão "edifício da ciência" me apropriei); os filósofos analíticos (como Carnap, para quem o conhecimento científico é o único verificável, portanto, o único confiável); Popper (o critério para o conhecimento científico é a refutação, em contraste com o que é irrefutável como ideologias e credos) e T. Kuhn com a noção de paradigma (apenas a ciência progride e isso se deve aos paradigmas que funcionam como modelos capazes de levantar todo um campo prático e teórico utilizável pelos cientistas em dada época).

Pois bem, em linhas muito gerais é disso que trato em meu último livro "Curso de Teoria do Conhecimento e Epistemologia", resultado de aulas na UFPR e das aulas na PUCPR sobre essas disciplinas. Agradeço aos meus ex-alunos e alunas. 



quinta-feira, 8 de março de 2012

Tempo cíclico, dialético e o eterno retorno

O cosmo para os gregos na antiguidade clássica era circular, fechado, finito. Os astros se movimentavam em esferas fixas. Não havia noção de expansão e todo espaço era limitado pelo lugar ocupado pelos diversos corpos. Os mais pesados abaixo, os mais leves para cima, em movimentos circulares. Vácuo ou vazio são inconcebíveis, pois implicam em nada. Ora, nada pela lógica e pela ontologia não "é".
O que é se opõe ao que não é absolutamente. Algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Aliás, o tempo cíclico garante que as coisas permaneçam em sua essência e identidade. Nascer e morrer, geração e corrupção das coisas, faz da vida uma repetição das características das espécies.
A divindade (Zeus) é uma projeção de vícios e virtudes humanos.

Sem contestar o princípio de contradição para os discursos, Hegel (1770-1831) inaugura outra visão de tempo, de história, de natureza e de sociedade. Ele renova a metafísica posta em xeque por Kant ao entender que toda realização humana, seja na arte, na religião ou na filosofia, é obra do espírito, são ideias que movem a história. Essas realizações passam por mudanças. Para Hegel, houve o momento grego, uma cultura de harmonia na cidade-estado, legitimada pela representação do cidadão na pólis. Com o cristianismo houve nova transformação: todos podem pleitear representação mediante sua crença, há uma universalização do conceito de liberdade. E esta se torna plena nos Estados modernos. No início do século 19, após as conquistas napoleônicas, a Alemanha e a Prússia resgatam a representação política e a vida do povo como nação que se realiza em um tipo de moral social.
Hegel na chegada triunfal de Napoleão em Jena

A dialética é a lógica que expõe e que permite essas transformações históricas. Se houvesse simplesmente o ser e o não ser, algo e nada, teríamos duas "naturezas" distintas, fechadas em si mesmas. O ser não poderia determinar nada para o não ser e vice-versa. Mas, supõe Hegel, se olharmos para a história, as culturas e as sociedades, o que se tem é um movimento, um devir, o vir a ser isso ou aquilo.
Todo ser identificável, determinado, o é pelo não ser outro, e não por uma identidade ou essência fixas. Ser e não-ser só são inteligíveis pelo mover-se, pelo transformar-se.
E tudo culmina na plena realização do Espírito Absoluto. Em um céu platônico ou cristão? Não, na história moderna, na liberdade dos cidadãos.


Nietzsche (1844-1900) detona com todos esses conceitos. Não se deve buscar na história nenhum resgate, ela é feita de acontecimentos opacos, não há um Napoleão para encarnar o Estado. O próprio Estado e todas as instituições recebem uma marca, a das necessidades humanas, de troca, de vingança, de negociação. O tempo volta sempre, como em um imenso carrossel. Não há um valor transcendente, acima das lutas que envolvem desde a mesquinharia até a necessidade de poder. Em meio a esse tempo de condicionamentos, não há um absoluto e nem um devir a não ser aquele que serve para apascentar rebanhos, o dos conformistas. Ausência de fé, ausência de metas, de sentido e de valor, esses são os guias do niilista. Mas o niilismo não significa abandono ou renúncia absoluta, o puro não ser, o nada. Niilismo significa ir ao modo como os entes se manifestam, pelo eterno retorno do mesmo.

Concepção estranha e de difícil compreensão. É como se todo ente tivesse como condição ontológica a vontade de poder. Quer dizer, não se atinge nunca um fim, não há apaziguamento, e sim a vontade de poder que se distende sempre e nunca é satisfeita. Isso porque é impossível não haver obstáculos, e é covardia sucumbir a eles.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Como é possível ter ideias segundo o empirismo?



As primeiras noções sobre empirismo se devem a Bacon (1561-1626) que defendia o valor da ciência e da prática como transformadoras do mundo. Nessa época a Inglaterra se tornara potência política e econômica. A filosofia contribuiria com um método novo, revolucionário, o método indutivo. Fazer experiência com a realidade externa, com fatos e assim valorizar a produção de instrumentos e da técnica dos artesãos que poderia ser empregada para fazer ciência útil. Ao contrário da visão platônica de sociedade , na qual o lugar de destaque é o da teoria e dos filósofos - na perspectiva do empirismo nascente, o trabalho técnico não é desprezível. Pelo contrário, a ciência resulta de um esforço conjunto, não decorre da autoridade superior de um só homem, mas de pessoas humildes.

Enquanto Aristóteles considerava que o raciocínio e a demonstração eram a base da ciência, em especial da metafísica, para os empiristas ingleses vale o trabalho de investigação da natureza partindo de fatos particulares; neles descobrem-se variações e permanência. É possível descrevê-los e formular leis a respeito dos acontecimentos. Essa é a base das ciências, a física, a química e mais tarde a biologia.
Locke (1632-1704) era médico, o caminho para o conhecimento é
empírico, a única fonte do conhecimento é a experiência. Mas
como é possível que tenhamos ideias? Como funciona nosso
entendimento?Todas as nossas ideias provieram da experiência, diz Locke, a mente é vazia e vai sendo preenchida pelo contato com o mundo, cujos dados nos vêm por meio das sensações.
Ideia é todo e qualquer “objeto do entendimento quando o homem
pensa , tudo o que pode ser empregado pela mente pensante", diz
Locke. Se uma criança fosse abandonada ao nascer (há casos de
crianças criadas por animais, como os meninos lobo) não
poderia conhecer o mundo como os humanos o fazem e nem ter ideias. Não poderia pensar porque não desenvolveu a capacidade de conhecer. É por meio do uso do entendimento (hoje diríamos "mente" ou "raciocínio"), em um ambiente cultural, que a criança aprende a distinguir cores, sabores, e mais tarde, falar, calcular, perceber formas e figuras, etc.
Mesmo os princípios de moralidade e as virtudes só se desenvolvem em sociedade.
Locke criticou Descartes que defendia haver ideias inatas. Para
Descartes a ideia de Deus como ser perfeito leva à existência de
Deus, pois, ter uma noção de absoluta perfeição exige o ser a quem
essa ideia pertence.
Para Locke, a ideia de Deus não é inata e nem evidente. Ele questiona: “não se descobriram, em épocas mais recentes, nações
inteiras entre as quais não se encontra nenhuma noção de Deus e nem da religião?”

Quem está certo, o racionalista ou o empirista? Segundo Kant são necessários princípios e conceitos que não dependem da
experiência como afirmava Descartes, mas é preciso fazer experiência, do contrário os conceitos seriam vazios de sentido, como afirmava Locke.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Mente, cérebro e linguagem

Mente e cérebro diferem radicalmente, cada qual pertence a um nicho do ser, haveria uma diferença ontológica entre o mental e o cerebral?
Vejamos quando se diz que um fenômeno é mental. Pensar, desejar, falar, sonhar, perceber, imaginar, parece que há um acordo quanto a serem resultado de uma atividade mental, irredutível ao físico, ao neuronal, ao cerebral.
E o que é considerado cerebral? Um déficit de inteligência, um lapso de linguagem, depressão, transtorno de personalidade, impulso suicida, esquizofrenia, são alguns dos fenômenos listados como cerebrais, suscetíveis de modificação com a interferência de medicamentos. Estes incidiriam sobre certa região e modificariam a química cerebral. Claro, com divergências nesse terreno.
Alguns vão mais longe: o mental pode ser reduzido aos circuitos neuronais, às sinapses. O mental seria, então, físico?!
Esses impasses e paradoxos só existem para filósofos, psicólogos, psiquiatras para os quais há diferença de natureza, ontológica, seriam duas realidades distintas, uma imaterial, a outra material.
O que impressiona os defensores da mente é haver o mental distinto do físico, o pensamento distinto do corpo, a consciência distinta do desvario, a capacidade de deliberar distinta dos impulsos cegos, voltar-se para si (introspecção) distinto de comportar-se e reagir ao meio.
A tese oposta se demonstra pelo óbvio: todo o nosso comportamento e as mais variadas atividades dependem do comando cerebral. Isso pode inclusive ser detectado por aparelhos. Eles mostram que tal ou tal emoção afeta tal região, falar afeta outra, sonhar outra, e assim por diante.

Mas, se considerarmos que para falar e perceber, para pensar e imaginar, para compreender e agir, enfim, para o diversificado tipo de vida dos seres humanos, foi necessário tanto que o cérebro se desenvolvesse e se adaptasse para comandar nossas atividades, como essas atividades constituiram pessoas vivendo em sociedades e dependentes de regras e instituições, que são culturais. Na medida em que a criança entra no circuito social da linguagem, portanto, das significações e signos, dos ruídos que passam a formar signos com sentido, é impossível separar o físico/cerebral da vida humana inteligente.
É por meio de signos, da linguagem humana articulada que nos tornamos pessoas, formas de vida que empregam vários jogos de linguagem sempre mergulhados em regras que validam ou invalidam nossas atividades.
Respondemos ao meio, o enfrentamos e o modificamos desde há muito tempo. Assim, separar em duas regiões ontológicas o mental e o cerebral se deve a particularidades da cultura humana. Por exemplo, perguntar a um amigo se sua tristeza é "curável", seria classificá-la como cerebral e apostar no prozac. O mais incrível, é que isso é cultural, há poucos anos se medicaliza emoções e sentimentos "excessivos".
Enquanto que, procurar compreender as reações e sentimentos desse amigo, é algo que se faz desde que relações humanas, entre elas a amizade, passaram a constituir nossa humanidade, o ser que somos. Há milênios.