sábado, 31 de dezembro de 2011

Liberdade


Que em 2012 vocês que acessam este blog e amam a filosofia aproveitem e criem oportunidades para aprender mais e melhor, para participar em diálogos de compreensão e para agir conforme as virtudes de justiça, solidariedade e moderação!

Muito mais importante do que ser livre é saber que se é livre e o que fazer com essa liberdade!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Metafísica e ontologia

A filosofia comporta três áreas de estudo, a do ser (metafísica, ontologia e teodiceia), a do conhecer (teoria do conhecimento, epistemologia, filosofia da linguagem e lógica) e a do agir (ética, estética, filosofia social, filosofia política e antropologia).
O propósito dessa divisão é didático, prático. Em tese essas áreas podem ou não se distinguir e a filosofia pode estender ou encolher seu campo teórico e prático.
Na postagem anterior abordei a metafísica, ou melhor, a crítica de Kant à  metafísica tradicional.
Mas, o que é metafísica?
Na definição clássica de Aristóteles, é a ciência (no sentido de saber especulativo) do ser enquanto ser. E o que é o ser enquanto ser?
É preciso antes entender que pelo raciocínio e pela reflexão filosófica é possível abstrair qualidades e características mutáveis das coisas, como seu aspecto, sua duração, seu gênero, sua localização, etc., para ficar apenas com a característica ou categoria essencial, imprescindível, aquela sem a qual nada seria o que é. Trata-se justamente do ser.
Um cão, por exemplo, pertence a um reino, a uma espécie, a uma raça, e antes de tudo, ele é cão.
Determinar por meio de categorias todos os seres, leva à abstração do particular para ficar com o mais geral, com o universal.

Imediatamente surge a pergunta seguinte:
O ser é e existe como? Por que e de onde surgiu essa existência como tal ou tal ser?

A pergunta metafísica recebe resposta filosófica bastante intrigante: do nada é impossível, e se veio de outro ser, este deve ter sido original, primeiro, causa de tudo, como: a Ideia do Bem (Platão), o motor primeiro imóvel que produziu o movimento inicial do cosmo (Aristóteles), Deus criador do mundo a partir do nada (filosofia cristã), o Uno (Plotino), o Ser Perfeito (Descartes).


A pergunta feita pela ontologia (ontos=ser), em contraste, não requer eleger uma causa inicial e dar uma resposta definitiva. É a pergunta pelo que move a razão, a inteligência humana, a curiosidade, a capacidade de nomear, de inquirir, de investigar uma região do saber, a do ser e do existir. O instrumento é também a reflexão, porém sem a exigência de sistematizar por meio de conceitos como causa, uno, universal, origem e fim último.
É uma indagação que precisa da linguagem que nomeia tal categoria, a do ser. Promove aquele que faz a pergunta pelo ser, como responsável por ela; nós todos, seres humanos que usamos o verbo ser, e também culturas em que tal verbo tenha outras traduções, carregamos a pergunta cuja resposta depende de nossa liberdade, criatividade e de nossos limites.




O alvorecer dessa questão, desde que passamos a nos perceber em meio a um cosmo, a uma natureza e o anoitecer dessa pergunta em meio a nossas dúvidas, fraquezas e tudo o que viemos a construir e a destruir - cabe apenas a nós, nos pertence. Pode se apresentar sob a forma da arte, do teatro, da poesia. Pode se dar na meditação, no recolhimento pessoal. Pode ocorrer em uma cena épica da literatura ou do cinema.

Quem já experimentou essa voragem, essa revelação e essa transcendência, a sensação de que tudo se encaixa, os raros e sublimes episódios de epifania, tranquiliza-se. O ser das coisas tal como está, está bem.

Há quem sofra com o oposto: nada se encaixa, a vida, o ser das coisas é absurdo, nada faz sentido. Não será também uma revelação, uma epifania? O necessário avesso, talvez.

David Foster Wallace é cético e pessimista. Diz ele:

In reality, genuine epiphanies are extremely rare. In contemporary adult life maturation & acquiescence to reality are gradual processes. Modern usage usually deploys epiphany as a metaphor. It is usually only in dramatic representations, religious iconography, and the 'magical thinking' of children that insight is compressed to a sudden blinding flash.
(Na verdade, epifanias genuínas são extremamente raras. Hoje em dia, na vida adulta a maturação e a concordância com a realidade são processos graduais. O uso moderno em geral entende epifania como uma metáfora. É em geral apenas em representações dramáticas, na iconografia religiosa, e no 'pensamento mágico' infantil que essa súbita visão é comprimida em um rápido brilho que cega).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Kant e a metafísica

Kant concorda com Hume na crítica que este fez à indução. A observação de numerosos casos no passado não permite a conclusão de que no futuro eles se darão do mesmo modo. Por exemplo: até o momento, todas as experiências com pão, são de que ele alimenta, mas isso não garante que no futuro todo pão alimente. A intenção de Hume era mostrar que não há um princípio de causalidade, não há a priori uma regra geral confiável absolutamente.
Para Kant, entretanto, não se deve concluir ceticamente que não haja leis por detrás dos objetos da experiência. Essas leis podem ser conhecidas, não dogmaticamente, mas criticamente.
A razão é instruída pela natureza, mas não de modo passivo,
não na qualidade de um aluno que se deixa ditar tudo o que o professor quer, mas sim na de um juiz que obriga as testemunhas a responder às perguntas que lhes propõe.


Monumento a Kant (1724-1804) em Königsberg, sua cidade natal

É preciso dotar a Metafísica de um método seguro, método esse que revolucionou a concepção de conhecimento: ao invés de os objetos penetrarem passivamente na mente, o inverso: os objetos são regulados pelo entendimento do sujeito de conhecimento, que estabeleceria algo a priori sobre os objetos. E isso se dá por meio de uma faculdade capaz de apreender o que é dado à experiência e que, portanto, se encontra no tempo e no espaço. Assim, para Kant o conhecimento é ativo e não pura apreensão passiva da mente, como se esta fosse uma página em branco na qual são impressas as qualidades sensíveis dos objetos, como proposto por Locke.
A metafísica pré-kantiana sustentava que a realidade em si mesma pode ser conhecida, inclusive suas causas, como o primeiro motor de Aristóteles.
Para Kant, ao contrário, não se tem acesso à realidade tal como ela é em si mesma, pois são necessários recursos, as chamadas categorias que são propriedades de nosso entendimento sempre que ele representa a realidade. O ser em si mesmo é incondicionado, ora, quando a realidade é acessada pelo sujeito, passa a ser condicionada. Quer dizer, os fenômenos se regulam pelo nosso modo de representá-los.
A consequência mais interessante dessa revolucionária concepção de metafísica é dar todo poder à razão humana, é ela que dá a si mesma os limites e as possibilidades de conhecer não só o real, mas também os próprios recursos da razão. Ou seja, a razão se autoconhece.
Os limites da razão pura são os limites da experiência, ir além da sensibilidade é algo impossível para ela. Apenas pela moralidade, pela eticidade se justifica existir Deus e uma alma imortal.
A razão especulativa não tem como chegar a Deus, liberdade e imortalidade da alma, pois para chegar a essas “visões transcendentes” precisa empregar princípios, e os princípios dependem da experiência. Com isso Kant elimina o dogmatismo metafísico, e se atém ao que a razão alcança e ao que a experiência fornece. Questões de fé pertencem ao terreno prático, da moral.
Muito poucos até hoje aprenderam essa lição de sabedoria!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Natureza, sentimento e razão

Nós, seres humanos, somos frutos da natureza e pertencemos todos a um fundo natural. E isso pode ser interpretado de diversas maneiras, seja biologicamente, seja por meio de teorias filosóficas. Hobbes lançou a hipótese de que o homem em estado de natureza precisava lutar e defender seu território; Rousseau, também partiu de uma hipótese, mas ela era baseada no que já se sabia sobre povos selvagens no século 18. Ele dizia que em estado natural os homens dispunham apenas de seu instinto de conservação, não havia necessidade alguma de guerrear, não havia posse de bem algum, a abundante natureza tudo fornecia. Apenas sensações imediatas e nada de racional e muito menos moralidade.

A passagem para a sociedade se deu devido à escassez provocada por desastres naturais, e foi isso que suscitou o uso da razão, da deliberação, das escolhas morais. Foram necessárias trocas, e sem linguagem, para Rousseau, não há razão, não há lei, não há acordo. A perda da liberdade natural e da igualdade natural é compensada pela adesão de todos a uma vontade geral que firma acordos e acaba por igualar todos os homens perante o social, o legal, os governos.
Mas essa evolução do homem natural, puro sentimento, para o homem social, que faz uso da razão, não segue como pretendiam Hobbes e Rousseau, uma linha reta e ascendente.
Isso porque sociedades se encontram em estágios diferentes, em algumas ainda predomina a guerra de todos contra todos, não alçaram ao patamar social que implica cidadãos representados legitimamente por governantes; não se legisla, não há reciprocidade de direitos e deveres.
Mesmo em sociedades mais avançadas, o perigo de regressão é permanente. Pode se dar com um governo autoritário (como o de Bush, o de Putin, o de ditadores mundo afora) grupos armados (movimentos de guerrilha, desde as Farc e IRA até o Hamas); país algum é imune à violência causada pelo tráfico de armas e drogas.
Assim, somos parte da natureza, até gostaríamos de viver mais próximos dela, de termos uma vida na qual os sentimentos mais puros prevalecessem. Mas, naturalmente somos também movidos por um inconsciente que represa sentimentos e os faz vir à tona com a mais banal discussão de trânsito, por exemplo. Viramos bichos, como se diz.

Ao mesmo tempo contamos muito com a razão, ela não é apenas o que nos distingue dos animais como queria Aristóteles, a razão precisa da capacidade de usar a linguagem para diversos atos de comunicação (afirmações, pedidos, promessas) pelos quais nos relacionamos; precisa de práticas sociais, de códigos e signos. Esse é o lado "brilhante" da razão, formas e categorias puras investidas no uso comunicativo, a tese kantiana de Habermas sobre a racionalidade.
E há o lado cinza, obscuro da razão quando ela se manifesta por meio de discursos que marcam, que oprimem, que castigam, que dividem. Em geral esses discursos se dirigem aos mais fracos, às minorias, aos rejeitados. Pior: eles são disfarçados, pretendem ser científicos, assim escapam da dúvida. Verdade que oprime.
Como se vê, é quase impossível distinguir natureza, sentimento e razão...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O absurdo da violência gratuita

Atos gratuitos não são livres como pensava Albert Camus. Eles podem ser terríveis. Há tipos de violência que decorrem de comandos políticos absurdos, incompreensíveis, parece que vão além de nossa humanidade.
Há na história do comunismo stalinista um desses episódios de violência que revoltam e chocam, infelizmente pouco divulgado.
Em reportagem recente, a TV5 Monde abordou a história narrada na obra l'Île aux cannibales (A Ilha dos Canibais), de Nicolas Werth. O subtítulo é: uma deportação-abandono.
Em 1933, em plena época stalinista na ex-URSS, perseguia-se e deportava-se para a Sibéria todos os suspeitos de não colaborarem com o Partido Comunista.
Bastava que a pessoa circulasse sem o passaporte ou que tivesse alguma atitude suspeita para ser declarado inimigo do Estado.
No documentário em que se entrevistaram pessoas que viveram ou souberam desses castigos, e com filmes da época em que encarregados da deportação se dizem incapacitados de atender na ilha tantos deportados (6000 pessoas em poucos meses), a crueldade do regime stalinista se expõe, ela é estarrecedora.A ilha em questão fica em um rio perdido na imensidão da Sibéria.
Um caso exemplar:
Uma mãe chega em Moscou, na estação de trem, pede à filha de 12 anos que vá comprar pão. A menina é chamada de vagabunda, agarrada e deportada para a ilha.
Não havia como abrigar e nem alimentar tantos deportados. Os guardas matavam os que ousavam fugir a nado, alguns se agarravam a troncos e eram também caçados e mortos.
A brutalidade dos guardas e comandantes era inominável. Alguns comandantes questionavam se havia necessidade de tanta brutalidade, mas nunca questionavam a necessidade de deportar.
O que fazer com os prisioneiros se não havia comida? Um comandante diz:
"Deixem-nos sair, eles que pastem!"
E outro: "Para vocês eu sou Stálin!"

A fome e a degradação, a impossibilidade de fuga, o desespero, tudo isso induziu ao canibalismo entre os prisioneiros. Os alvos mais fáceis eram as mulheres e crianças. Eram amarradas ao tronco de árvores, e partes do corpo arrancadas, as mais fáceis de comer...

É fundamental recuperar em livros e documentários o descalabro de regimes ditatoriais. É importante lembrar e informar que pessoas inocentes, vítimas de um ditador cruel, foram levadas a um ato a que apenas situações extremas constrangem.

Levou muito tempo para que os crimes de Stálin ficassem conhecidos. É incrível que mesmo quando já haviam sido divulgados (sem condenação alguma!) ainda houvesse intelectuais "esclarecidos" que apoiavam e justificavam o regime e o partido que o sustentava.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Essência e existência

Os filósofos antigos, tanto Platão como Aristóteles, consideram inquestionável que o ser humano possui uma essência que o distingue dos demais seres. Para Platão, a alma imortal e divina habita o corpo perecível. A alma racional guia as outras duas almas, a da coragem e a alma dos apetites. Sem a alma racional, não passaríamos de animais.
A alma inteligível “se assemelha ao que é divino, imortal, dotado da capacidade de pensar, ao que tem uma forma única, ao que é indissolúvel e possui sempre do mesmo modo identidade”, escreve Platão no Fédon. A mais elevada capacidade da alma é contemplar o Belo e o Bem em si mesmos, assim alcançar a verdadeira virtude pelo contato com a verdade. As Verdades Eternas foram contempladas pela alma, mas nem todas as almas se recordam com a mesma facilidade das ideias puras e perfeitas. É preciso reflexão filosófica para ascender até elas.
O corpo, ao contrário, é mortal, tem formas mutáveis, não tem inteligência, e se decompõe. Quando a alma se separa do corpo com a morte, ela migra para o lugar de onde veio e se liberta do corpo que “constituía para a alma uma espécie de prisão” . O filósofo, aquele que ama a verdade e a sabedoria, é aquele que tem a missão de ensinar a libertar-se do corpo e livrar-se da opinião, variável e instável, e ater-se às ideias que são as essências imutáveis de todas as coisas.

Para Aristóteles a essência que distingue e individualiza os homens é sua racionalidade. Todo ser é individual, é uma substância, algo que permanece mesmo com as mudanças. Em toda substância, há matéria e forma, potência e ato, diz Aristóteles.
Pela forma os seres distinguem uns dos outros; eles subsistem ou existem em uma matéria (o corpo humano, a madeira, o ferro, o barro); há um produtor da forma, que age na matéria: é sua causa eficiente; todo ser se destina a uma finalidade, sua causa final é o bem, sua plena realização.
A definição significa a essência de uma coisa. Por exemplo: “Homem é animal racional”. Suas propriedades variam: "São elas: Essência, Quantidade, Qualidade, Relação, Lugar, Tempo, Posição, Estado, Ação, Paixão” diz Aristóteles em Metafísica. Por exemplo, algum homem com sua essência de ser individual, que tem uma aspecto, um peso, está em nossa frente, neste momento, parado, em certa atitude.
***
Para a filosofia contemporânea a essência, o que é comum a todos os homens é sua existência, finita, particular, no tempo e no espaço, a vida é de cada um, pertence apenas àquela pessoa, há uma autodeterminação e liberdade de ser e de agir, de decidir, de optar, de valorar, inclusive de criar valores.
São análises muito diferentes das concepções antigas.
O laço que une os homens em uma identidade parece ser na atualidade a dignidade da pessoa humana, ainda assim, difícilmente há acordo quanto ao que seja a dignidade, a integridade da espécie e o valor da vida. De modo que essa característica não é universalmente aceita, não é nossa essência. As religiões, culturas, geografias, modos de viver e de pensar, são específicos.
O que leva à questão:
Todos existem sim, mas existem sob o mesmo padrão, haveria uma espécie de "teto" comum e universal, atemporal?
Desde que filósofos introduziram dois fatores interligados, a temporalidade e a historicidade, não há mais régua capaz de medir e padronizar uma essência humana.

Schopenhauer assim se expressa:
A vida humana em seu conjunto revela as propriedades de uma tragédia...uma série de esperanças mal-sucedidas, tentativas fracassadas e enganos conhecidos tardiamente. Reconhecer, observando sua vida, que todo homem está in the wrong pode ser sua salvação.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A política da resistência segundo Foucault

Em uma sociedade super conectada, na qual pessoas não devem nem conseguem escapar da avalanche de informações que se acham disponíveis, basta clicar (evidentemente é preciso certo nível de educação formal, acesso a redes de comunicação, e também ter e saber o que dizer, o que procurar na web), será que os atuais protestos atingem o alvo, serão eficazes, há resistência aos poderes que Foucault chamou de "locais"?
O que são e como funcionam esses poderes locais?
A invenção de máquinas para produzir, para divulgar, para educar, para endireitar comportamentos e atitudes, para treinar, para examinar, para punir, para investigar, para vigiar se espalharam e passaram a fazer parte da criação e do exercício de normas.
Sociedade de normas é algo relativamente novo, vem de meados do século 18. A sociedade de leis é muito mais antiga, nasceu com as primeiras formas de governo.
Pois bem, as formas de governar nas sociedades de normas (que não deixam de ser de leis também) se modificaram e se transformaram nos últimos dois séculos, não por meio de guerras e revoluções apenas. A industrialização, o crescimento populacional, o surgimento de ciências que medem a riqueza (economia), o fluxo de pessoas (estatística), a vigilância de ruas e portos para maior e melhor circulação de produtos, a urbanização (saneamento e transporte), controle de natalidade, todos são fatores que exigem governar indivíduos pertencentes não a uma massa amorfa, mas a uma população. Saúde, educação, segurança, passam a ser fatores decisivos que testam a capacidade de governar.
Não mais o príncipe astuto que retira as forças de seus súditos, e sim governabilidade, isto é, investimento em localizar no espaço e no tempo indivíduos sujeitados (sem que eles se deem conta disso) a normas, a regulamentos, a modos de vida (famílias cada qual em sua casa, vacinados, reprodutoras de filhos saudáveis, aptos a serem instruídos e responder às necessidades da sociedade de regulação e controle), todos e cada um identificáveis, rebanho pacificado e útil. Só assim esse rebanho pode servir a novos modos de exercer poder: vigiar, treinar e capacitar indivíduos produtivos e dóceis de um lado, e a população registrada, encaixada, manobrável, suscetível de ser mantida em espaços controláveis e saudável o suficiente para produzir e reproduzir, para consumir e circular.

Industrialização, urbanização e crescente capacidade de produzir exigem novo modo de governar

Quanto maior a riqueza e a força de produção, maior o controle sobre o território e a população. Quanto menor, menor também o controle, menores também os índices de desenvolvimento.
Atualmente a China é o exemplo mais notório desse novo modo de governar mais de um bilhão de indivíduos com sucesso, extrair força, exigir trabalho regular, exaustivo, mas não excessivo a ponto de comprometer a produção e a competência. Em contrapartida o Estado não precisa fornecer armas e sim treinamento, disciplina, saúde.
Países da África, e sem esquecer o Haiti e outros da América Latina, nem tampouco os bolsões de pobreza no Brasil, são exemplos de menor controle, há um uso político do discurso da inclusão social, mas enquanto a miséria não atrapalhar a capacidade de o Estado governar, ela não precisa ser erradicada.  
As políticas de resistência visam esses poderes instalados nos maquinários que inventaram o sujeito moderno. Muito mais difíceis de resistir na medida em que nos tornamos corpos dobráveis com comportamentos normalizados, um número da população.
O limite da competência do governo será definido pelas fronteiras da utilidade de uma intervenção governamental, afirma Foucault em Naissance de la biopolitique (p. 42).

domingo, 13 de novembro de 2011

Normas e transgressão

Transgredir normas pode resultar em mudança de visão, renovação de ideias e valores e às vezes revolução social e política.
Exemplos de transgressão: ajudar judeus a fugir do regime nazista, denunciar pela Internet abusos cometidos contra a oposição ao regime sírio, a coragem de seguir o caminho da integridade moral em meio à corrupção, discursos contra o racismo nos EUA nos anos 60 (Martin Luther King), a resistência de Mandela ao apartheid.

Resistir é também uma ação política, implica a não aceitação do que é imposto, do que é impingido e quando pessoas são privadas de seu poder de deliberar e reagir contra a violência e o preconceito, como: os movimentos feministas, a causa gay, denúncia de opressão, condenação do castigo físico, recusar suborno, greve de fome, ocupação de espaço público (como o atual OWS). 

Mas não é forma de transgressão e nem de resistência depredar o patrimônio público. Depredação não é transgressão, como no episódio da ocupação da reitoria da USP. Não sequer é uma forma de protestar pelo uso livre de maconha em espaços públicos.
Se de fato houvesse a intenção de lutar pela liberação do uso de maconha, o meio deveria ser outro, com argumentos, com justificativas razoáveis. Mostrar que a proibição alimenta a corrupção, o crime organizado, o aliciamento de menores. Também expor os riscos e as consequências do uso para a pessoa, há quem diga que maconha entorpece ou embota a mente, entre outros efeitos...
Se há normas e regras, a sociedade deveria ser chamada a dar sua opinião seja para aperfeiçoá-las, seja para rejeitá-las.

***
A política de combate às drogas faliu.
Quem consome tanta droga a ponto de enriquecer os traficantes? Morro abaixo habita a silenciosa classe média, que consome, mas não tem a coragem de admitir.
Drogar-se não é transgredir nem resistir.

***

Durante 40 anos lecionei filosofia. Sei que é preciso haver muito estudo e dedicação para honrar a universidade gratuita e, assim, fazer o mínimo e devolver à sociedade os impostos que ela paga para que o ensino público funcione.

Uma curiosidade/brincadeira:
Se aos estudantes detidos após ocupação da reitoria na USP (alguns nem eram alunos regulares) fossem feitas algumas perguntas básicas sobre história da filosofia, ou sobre sociologia, política ou psicologia, será que estariam aptos a responder?
  • Aponte três diferenças entre as ideias de Platão e Aristóteles.
  • Qual a finalidade do método para Descartes?
  • Quem afirmou: "Como meio geral de pagamento, o dinheiro torna-se a mercadoria geral dos contratos, de início apenas no interior da esfera de circulação de mercadorias... O grau em que o dinheiro se tornou meio de pagamento exclusivo indica em que medida o valor de troca se apoderou da produção em extensão e profundidade"?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hobbes, a violência e o papel do Estado

Hobbes ficou famoso com sua declaração de que o homem é o lobo do homem. No estado natural, primitivo, os homens competiam entre si, havia certo equilíbrio, contra a força física de uns era usada a astúcia dos mais fracos. Mas se um plantava e colhia, o vizinho queria se apossar da terra. Não havia paz.
A natureza humana, dizia Hobbes, é dotada de paixões, impulsos, e uma guerra pela sobrevivência se instala. Para não se entredevorarem, os homens entenderam que era preciso buscar paz. Mas como, se a luta pela vida não cessa?
Pelo pacto de não agressão obtido por meio de um poder que contivesse aqueles impulsos e fosse compulsório, absoluto.
Pois bem, Pinker, que se tornou famoso pelos seus estudos polêmicos sobre o funcionamento da mente, do cérebro e da linguagem, em seu último livro afirma que Hobbes estava certo, que a guerra de todos contra todos só pode cessar com um poder delegado e legitimado pela aceitação voluntária. Segundo Pinker, há muito menos violência hoje, se compararmos com civilizações mais antigas, pelos menos em número absoluto.
Discordo. Governos legítimos, com constiuições e leis, estado de direito democrático e um mínimo de segurança, isso existe em poucos países.
Um olhar sobre o globo revela que há luta para sobreviver nos países mais pobres, onde falta tudo: comida, segurança, educação, trabalho decente. E onde nascer mulher significa permanecer na ignorância e submissão!
Exemplos que ocorrem imediatamente são os dos países africanos.
Mas na China, que acumula riqueza e pode até ser chamada para injetar dinheiro em fundos monetários (salvar a zona do euro), há milhões de pessoas vivendo amontoadas, trabalhando de sol a sol, carregando como formigas a economia que mais cresce. E isso com censura, sem direitos políticos e sociais consolidados. Luta, sim, de todos contra todos.

***
Os acampados de Wall Street não gritam contra um sistema de competição regrado e sim contra o 1% que enriquece à custa de especulação, dinheiro para fazer mais dinheiro, improdutivo, fruto da ganância. Os atuais protestantes, ao contrário do que pregava Hobbes, não podem pactuar para se salvar do poder financeiro, e isso porque foram os próprios governos, caso dos EUA, que se viram obrigados (será mesmo?) a salvar os bancos. Deveriam pensar em reformar o sistema financeiro!
Saídas?
Prosseguir, contra Hobbes, na direção de mais liberdade, educação, democracias comprometidas com o bem estar de pessoas com direitos e deveres legitimados por leis e regras. O respeito ao estado de direito moderno não vem de um pacto, de imposição e nem da delegação do poder a um soberano absoluto. Ninguém gosta de baixar a cabeça. Saber viver bem é muito melhor do que tão somente sobreviver, ainda mais que para isso seria preciso abrir mão de sua própria liberdade e determinação.
No que apostar?
Talvez em  uma regulamentação internacional para o capital financeiro, contra paraísos fiscais e a especulação.
Modelos?
Grécia (a antiga!) com seus legisladores; Inglaterra desde o século XVII com a Revolução Gloriosa; França depois de acertar contas com as palavras de ordem: liberdade, igualdade e fraternidade; Estados Unidos com a invenção da federação e o respeito secular à constituição.
E o Brasil?
Já despertou como nação, falta ainda consciência de bem comum, mais seriedade no trato com o que é de todos e vale para todos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Por que os brasileiros reagem tão pouco à corrupção?

Muito se comenta sobre o contraste entre movimentos de afirmação, como a "Parada Gay", que levam multidões às ruas no Brasil, e os protestos contra a corrupção, que arregimentam pouca gente.
Há uma diferença conceitual entre os dois tipos de protesto, sobre a qual pouco ou nada se diz. No primeiro há diversão, alegria.
No segundo desilusão e tristeza.


Simpatizantes dos movimentos pelo direito de expor publicamente sua opção sexual saem em grande número também (não só pela diversão), pela liberação de algo que foi proibido e excluído. O efeito é semelhante ao do carnaval, liberar o que é censurado ou proibido.
Motivos para protestar contra a corrupção não faltam. Mas para mobilizar é preciso uma agenda mais afirmativa e premente. E as razões desse aparente imobilismo talvez não sejam a alienação política, o conformismo e nem o entorpecimento ético.
Passeatas contra a ditadura nas décadas de 60/70 eram duramente reprimidas, mas o forte motivo de combater a ditadura levava multidões às ruas ("Diretas Já").
Mal governos democráticos se instalaram, e cedo a esperança de que fossem honestos e representassem o interesse da nação foi solapada. E justamente pelo partido que se dizia ético, o PT...
Assim, há uma dose compreensível de ceticismo. Parlamentares, com as honrosas exceções de sempre, buscam favorecer interesses ilegítimos, o ex-presidente compactuou com a corrupção, até mesmo a tornou aceita, oficializada pela não punição. Lula não disfarça, considera que governar implica em usar de qualquer meio, mesmo os ilícitos, para atingir o fim: décadas no poder, usufruindo pessoalmente desse poder. Não entende que esse poder é público!
As pessoas se desanimam diante desse quadro político de desfaçatez escancarada! E pensam: adianta sair às ruas? Protestar contra a corrupção dá resultado ou você se sente um palhaço, que, além de tudo é obrigado a votar?
Dos ovos da serpente nascem o apego pelo poder que favorece benesses pessoais e alimenta os cofres partidários, o da vez, é o PCdoB.
Esses políticos pensam, refletem, estão conscientes minimamente de que foram eleitos para um cargo público?
Claro que não!
Pessoas que pensam, refletem, enfim, filosofam, não cometem injustiça. A prática filosófica, expor razões no espaço público, ao público, isto é, aos eleitores,  é incompatível com a injustiça.
Por isso se diz que é impossível filosofar sem ser justo.
Portanto, os políticos desonestos e corruptos são, além de tudo, estúpidos no pior sentido da palavra: sem educação, sem ética, sem postura pública, não merecem o cargo que ocupam!
Ora, justamente os mandatários deveriam ser os mais dignos, pessoas excelentes em caráter e em disposição para governar a todos, com justiça, como escreveu Platão:
Nossa política, a política verdadeiramente conforme à natureza, jamais consentiria em constituir uma cidade formada de bons e maus. Ao contrário, começaria por [...] confiá-los a educadores competentes e habilitados para esse serviço. [...] É somente entre caracteres em que a nobreza é inata e mantida pela educação que as leis poderão criar este laço.
Platão se referia ao político e ao sábio legislador, eles são capazes de criar a tessitura social, com sua alma penetrada de verdade, aberta às ideias de justiça.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O empreendedor e o caminhante: para celebrar o dia das crianças

Até para crianças as escolas, em geral as particulares, treinam para que elas sejam futuras empreendedoras. Quer dizer, aptas para vencer no mundo dos negócios, há que saber organizar, planejar, investir em uma carreira, como se diz, "sólida", leia-se "lucrativa".
Certamente escolas formam em dois sentidos, o da pessoa e seus valores, seus projetos, sua realização; e no sentido profissional, a necessidade de uma habilidade, seguir uma vocação, aliar seu sustento com o prazer de trabalhar, de exercer uma atividade compensadora.
Houve, portanto, um desvio da função educacional, para um objetivo estratégico. No mundo dos negócios é preciso usar técnicas vencedoras de empreendedorismo. E isso foi projetado para o universo infantil: dá-se excessivo valor à capacidade da criança de iniciativa, de jogar e vencer, desenvolver uma capacidade no sentido de expertise, uma logística, um cálculo.
Mas, se não houver lugar para a reflexão e para questões como gosto pessoal, fruição da vida, a pergunta essencial sobre o sentido do que se faz, e mesmo sobre a relevância e o valor das escolhas éticas e profissionais, não há por acaso o risco de transformar as crianças em adultos que agem enquanto executivos, gerentes, negociadores? 

***
Rousseau (1712-1778) foi péssimo marido e pai de família, pelo menos pelo ângulo da atualidade. A mãe morreu no parto. Na infância foi um leitor voraz, e quando adulto teve uma vida amorosa tumultuada. Escreveu sobre arte, política, educação infantil, romances; compôs peças musicais. Instável no trabalho e com suas finanças, um aventureiro, um romântico e, no fim da vida, sofreu com perturbações, mania de perseguição. Em sua autobiografia com mais de mil páginas, Confissões, revela os motivos mais profundos que o impulsionaram.
No fim da vida, mais calmo, escreve sobre a natureza, seus devaneios, seus passeios, despreocupado, reconciliado, talvez feliz. Em Devaneios de um Caminhante Solitário  Rousseau mostra que a vida pode ser simples, poética, que é agradável e prazeroso caminhar, contemplar, deitar-se na relva, olhar o céu e perder-se no azul imenso.
As crianças precisam disso: que lhes seja ensinado contemplar, ter paciência, caminhar, passear. E também ler, aprender e saber usufruir disso. Atividades que não exigem nada em troca, sem obrigação alguma.

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Escreve Rousseau em Promenades:
Tout est dans un flux continuel sur la terre : rien n'y garde une forme constante et arrêtée, et nos affections qui s'attachent aux choses extérieures passent et changent nécessairement comme elles. Toujours en avant ou en arrière de nous, elles rappellent le passé qui n'est plus ou préviennent l'avenir qui souvent ne doit point être : il n'y a rien là de solide à quoi le coeur se puisse attacher. Aussi n'a-t-on guère ici-bas que du plaisir qui passe ; pour le bonheur qui dure je doute qu'il y soit connu. A peine est-il dans nos plus vives jouissances un instant où le coeur puisse véritablement nous dire : Je voudrais que cet instant durât toujours ; et comment peut-on appeler bonheur un état fugitif qui nous laisse encore le coeur inquiet et vide, qui nous fait regretter quelque chose avant, ou désirer encore quelque chose après ?
Arrisco traduzir essas reflexões do caminhante:
"Tudo está em fluxo contínuo sobre a terra: nada retém uma forma constante e parada, e nossas afecções que se ligam às coisas exteriores passam e mudam necessariamente com elas. Sempre antes ou atrás de nós, elas nos lembram o passado que não é mais ou preveem o futuro que no mais das vezes não deverá ser: nada há nisso de sólido com que o coração possa criar laço. Do mesmo modo temos aqui embaixo tão somente o prazer que passa; quanto à felicidade que dura, duvido que ela seja conhecida. Pelo menos haveria em nossos mais vívidos prazeres um instante em que o coração pudesse verdadeiramente nos dizer: Eu gostaria que este instante durasse sempre; e como se poderia chamar felicidade um estado fugidio que nos deixa ainda o coração inquieto e vazio, que nos faz lamentar um acontecimento passado ou desejar ainda algo depois?" (Rousseau, 5e. Promenade).

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A noção de causalidade

Há povos e culturas nos quais está ausente a noção de causalidade, quer dizer, para esses povos não há como conceber que os acontecimentos fazem parte de uma história que muda e cujas mudanças são o estofo de nossas atividades. Buscar a causalidade implica reduzir tudo a uma suposta causa única para todo o universo, para todos os seres, o que leva igualmente a supor uma causa final para a qual todos os seres tendem, à qual todos se subordinam. (Exemplo na história da filosofia: Aristóteles e os conceitos de motor primeiro e causa final).
Povos indígenas que habitaram (e ainda habitam?) o Brasil, aborígenes australianos, tribos africanas, todos eles viviam um eterno presente, caçar, eventualmente plantar; mudavam suas choças em busca de água e alimento, cultuavam a natureza, endeusavam suas forças; esses povos não evoluíram, não transformaram seu modo de ser e nem de pensar. Repetem hábitos e usos de geração a geração.
O intrigante é que outros povos e culturas tiveram uma história, e nela a noção de causalidade era fundamental. Deuses egípcios, sumérios, gregos eram personagens de episódios longos nos quais eram narrados seus feitos heroicos, eles comandavam o destino humano. Essas culturas buscaram uma causa geral para explicar a geração do mundo, que aliviasse o sofrimento, que desse um sentido à existência, às emoções, às guerrras, às conquistas. (Exemplo: Zeus; narrativas: Ilíada, Odisseia)
A narração leva à necessidade de uma escrita que preserva a história e que funda, ao mesmo tempo, a noção de história e, com ela, a de que há uma causa primeira e um destino final.

Zeus no comando do destino para os gregos

Quando os aborígenes foram contactados pelos conquistadores da Austrália, o que eles viram foram povos coletores, ligados à terra, aos animais, sem escrita, sem história. Foram colonizados, era preciso convertê-los à cultura e crenças dos europeus, à força; assim foram quase completamente dizimados.

Restam 1% dos aborígenes australianos

Apenas em anos recentes e muito devido ao abalo no modo de pensar que tudo tem uma origem e um fim último, levou a poder dispensar a causalidade, o que permitiu compreender que as culturas sem história são parte da própria história da humanidade.
Vive-se hoje, na chamada modernidade, sob um novo padrão de interpretação da história: não é porque seres evoluem que se precisa pôr todos eles sob uma única causa. Quer dizer, estamos como que soltos no ar, desobrigados, um pouco ao modo dos povos primitivos, de buscar uma explicação sobre a origem primeira. Surgem novos conceitos: inconsciente, desconhecido, finitude; a análise se volta para os usos de signos, para a linguagem como detentora da doação de significado, para a criação humana de valores (leia-se: Hegel, Nietzsche, Freud, Wittgenstein, Foucault). 

O divã de Freud: somos sujeitados ao que não conhecemos, o inconsciente
Sem a obrigação de impor crenças e sem a autoridade absoluta de reis, não só podemos compreender nossa história dentro de uma perspectiva mais ampla, como também modificá-la, quem sabe um dia para melhor...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os vinhedos de Frederico II e o quarto de Van Gogh

Entre as mais vívidas impressões de um breve percurso recém feito a alguns países europeus, há duas que são contrastantes e marcantes. Ambas dão a pensar.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.


Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.


Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
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É possível usar o fausto para promover a grandeza como fez Frederico II.
É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A perda de referência nos princípios da educação no Brasil

Os índices internacionais mostram as insuficiências na educação básica e na formação profissionalizante brasileiras; mostram também as disparidades regionais e entre ensino público e privado. Inclusive disparidades entre escolas públicas. O ensino médio em escolas técnicas federais tem índice de qualidade bastante alto que rivaliza com países tradicionalmente fortes em educação de jovens.
De cada dez crianças que ingressam no ciclo básico, apenas três concluem o ensino médio!
Basta de índices, eles são bem conhecidos...
Despreparo dos professores, baixo salário, falta de condições físicas, e muitos outros problemas, são igualmente bem conhecidos, podem e devem urgentemente ser sanados.
Há um ponto em que poucos tocam, a formação de professores nos cursos de educação, nos de pedagogia, nas licenciaturas, e, de modo geral, o modo como esses cursos compreendem a função da educação e da formação no ensino fundamental e médio.
A filosofia da educação, quer dizer, os princípios que norteiam o ensino, sofre de uma doença que parece incurável: sua ideologização.
Tudo começou com uma luta justa e necessária contra a ditadura militar (anos sessenta), mas que se enrijeceu em doutrinas, bem ao gosto dos regimes totalitários. Educar passou a incluir obrigatoriamente a ideologia que supostamente combateria um tipo nocivo de educação imposto pelos militares. Ela favoreceria o trabalho, as profissões, a técnica, o que representava uma ameaça, a da intervenção de interesses do grande capital (americano, claro). Se não houvesse uma reação da esquerda dirigida pelo único pensar, o do marxismo, os alunos permaneceriam "alienados".
Infelizmente essa tem sido uma forte motivação por detrás das concepções de educação. A história, decretam esses pensadores, não passa de lutas de classes, a classe oprimida precisa tomar consciência dessa opressão e avançar para o socialismo.
Com um agravante: intelectuais e estudiosos da educação que não seguem essa cartilha ideológica "compactuam" com o capitalismo.
Estuda-se Gramsci, endeusa-se Adorno, cita-se Saviani e Chauí, condena-se a chamada "prática mercantil" (sic), a "desumanização produzida pelo capitalismo" (sic), como se nesse tipo de filosofia da esquerda houvesse solução para os problemas crônicos da educação, como se buscar qualidade no ensino fosse incompatível com o trabalho e a profissionalização.
Nessa "filosofia" há noções aceitas sem nenhum exame crítico, ela é cega para a história dos acontecimentos recentes como mundialização, como o crescente e poderoso capitalismo financeiro que invade fronteiras, os acelerados processos de industrialização que aos poucos cedem lugar à sociedade de informação.
Há necessidade de alta qualidade na educação para compreender e reagir a essas novidades.
Se alguém mencionar J. Dewey ou Anísio Teixeira, por exemplo, corre o risco de não ter seu trabalho ou sua proposta aceitos.
"Para Dewey o fim da educação é a vida progressiva, em constante ampliação...ela cresce à medida em que aumentamos o conteúdo de nossa experiência, alargando-lhe o sentido, enriquecendo-a com ideias novas, novas distinções e novas percepções...O mundo em que vivemos é essencialmente precário e indeterminado, mas o esforço humano conta como fator predominante no destino que esse mesmo mundo pode tomar. O homem refaz o mundo pelo seu esforço."
Quem diz isso é Anísio Teixeira e como ele há outros para inspirar uma urgente renovação na filosofia da educação que possa acompanhar mais de perto nossa época e dar condições para uma melhoria na educação, na formação e no preparo de nossos alunos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Você conhece algum filósofo (a) brasileiro (a) digno (a) do nome?

As publicações em filosofia cresceram bastante nos últimos 30 anos, aproximadamente. Mas creio que nada de original, relevante, interessante, produtivo ou que valha uma reflexão foi escrito. Nem livros, nem artigos e nem cursos transmitiram uma única ideia ou um conceito inovador, um método ou uma nova maneira de ver nas mais diversas áreas da filosofia. Talvez alguma contribuição exista na lógica, porém esse é cada vez mais um domínio da ciência formal e não da filosofia.
Escrevem-se livros pesados no sentido físico e pesados no sentido metafórico, tão pesados que o leitor se sente desestimulado...
Razões para tal?
Obrigações acadêmicas, luta para publicar, muitas vezes sob pressão, seguindo critérios burocráticos e arbitrários.
É bem verdade que nem todos os países e culturas produzem filosofia original. Filósofos relevantes estão em geral na Europa e nos Estados Unidos, com raras exceções.Os livros didáticos apontam Farias Brito, mas sua importância é quase nula. Não há curso algum, nem professores ou alunos que sabem de sua existência.
O mesmo não se pode dizer de outras áreas como direito, sociologia, história, literatura, nelas há brasileiros que se destacaram.
Houve época em que predominaram os estudos de filosofia cristã; desde a década de 60 e até os dias atuais, com cada vez menos intensidade, houve uma avassaladora invasão de marxismo dos mais variados matizes. Isso produziu mais doutrinação do que reflexão.
Atualmente há bastante liberdade de escolha, tanto de filósofos como de escolas de pensamento, o que é promissor.
Ainda assim, dificilmente há filósofos brasileiros de renome internacional ou cujas ideias tenham mudado algo na cabeça das pessoas. Repete-se, repete-se e nada se cria.
Aliás, doutores em filosofia se concentram em um único autor, em geral aquele escolhido para sua dissertação de mestrado, que depois é estudado no doutorado, até aí tudo bem. O problema é suas pesquisas afunilarem certo tema ou certo aspecto da obra de um filósofo ad nauseam, e eles se tornam super especialistas, ficam cegos para a contextualização do pensamento do autor de sua eleição, e pior, estão certos de que o "seu" filósofo basta, que aquela visão de mundo é a única verdadeira, que fora daquela doutrina falta o ar!
E o modo como os cursos universitários de pós-graduação são avaliados contribui para esses afunilamentos, para as análises cheias de pretensão, com citações a perder de vista, uma bibliografia que exige consulta no original. Quanto mais citação no original (em geral alemão) maior é o sinal de maturidade intelectual.
Interessante observar que nos EUA basta saber inglês...
E, contudo, não faltam os pretensos filósofos e filósofas que se apoiam na autoridade da fama adquirida na academia. Fulano ou fulana é um estudioso em tal ou tal filósofo, escreveu um catatau de 600 páginas, oram vejam só, que proeza. Pergunta crucial: alguém leu, alguém sorveu nessa fonte uma ideia interessante sequer? Algo original para pensar as coisas, nossa situação? Nada! Uma impressionante pobreza intelectual!
Mas esse professor (a) se torna um oráculo, é preciso consultá-lo (a) e tentar pelo menos que ele ou ela oriente o trabalho de alunos que, com isso, ganharão pontos em seu currículo.
Ora, a prática da filosofia requer liberdade de criação, o argumento de autoridade mata o pensamento.
É preciso cultivar outro tipo de relação com a filosofia e com a história da filosofia: estudo sério, capacidade de inovar, criar e, principalmente, de amar a sabedoria.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Liberdade de expressão, protesto e censura


O poder de congregar e de influenciar das redes sociais ficou bastante evidenciado em episódios recentes. Foi o caso da "primavera árabe", em que o clamor pela democracia, no Egito, levou multidões à praça Tahir. Com coragem e persistência, conseguiram derrubar um ditador e expor suas crueldades e arbitrariedades. A convocação via internet e telefonia móvel foi o pontapé inicial para deslanchar o movimento.
Mensagens pelo facebook e pelo blackberry levaram jovens a depredar lojas, incendiar e assaltar o comércio em Londres e outras cidades inglesas. Bagunçar, enfrentar a polícia, levar para casa o que pudessem, sem temer represália, tudo isso começou como protesto pela morte de um jovem por policiais e acabou em bandos incitados a depredar.
Dois usos do mesmo veículo de comunicação. No segundo caso a polícia londrina aventou a hipótese de bloquear ou pelo menos cercear o uso de redes sociais quando incitam à violência. Não há como, a menos que se monte um esquema de censura como na China.
As mensagens eletrônicas são rápidas, atingem um público vasto e, como se vê, produzem mobilização. Quando bandos e multidões depredam, incendeiam e se escondem em capuzes, isso não se deve à pobreza, exclusão, revolta para com a sociedade ou protesto pela injustiça social e econômica. É pura e simples violência descontrolada, rebanho enfurecido, tumulto.
No caso dos protestos na praça Tahir havia um objetivo político defensável e justo, que levou pessoas a certo tipo de consenso, as palavras de ordem representaram reivindicações, todas elas públicas.
Protestos desse tipo se dão no que Habermas chama de "esfera pública". Nela pessoas responsáveis, com informação e com sinceridade de propósitos, discutem, exercem o poder de comunicação. E esse poder é o de atos de fala que produzem troca de informação, com intenção de esclarecer regras e normas, propor mudanças, alçar a um patamar em que razões pró e contra são livremente discutidas.
Ameaçar, incitar, proibir são atos estratégicos que barram a possibilidade de responder com um sim ou um não, de entrar em acordo ou de discordar.
Nos regimes democráticos há liberdade de expressão.
A expressão de ideias, conceitos e mensagens é garantida pela liberdade de credo e de opinião por constituições em democracias modernas. Tampouco a liberdade de expressão artística poderia, por princípio, ser censurada.
Mas ela é regulada em nome dos indefesos (crianças, por exemplo). Há imagens, filmes, propaganda cuja veiculação é regrada, regras essas que são discutidas e depois são aceitas e praticadas. Isso não viola a liberdade de expressão e nem caracteriza censura.
No caso do cinema, filmes polêmicos, como o recente  "Serbian Film" e muitos outros que escandalizaram no passado como Bertolucci com "Último Tango em Paris" ou Godard com "Je vous salue Marie", acabam por levantar a questão da legitimidade ou da utilidade da censura.
Mas a questão não é essa e nem se resolve pela censura. A preocupação deveria ser antes a de educar, instruir, discutir valores, aprimorar os juízos estéticos. Censurar quando se pode ver de tudo pela internet?
A capacidade de usar a comunicação para veicular livremente ideias e conceitos deveria ser suficiente para condenar a incitação, pelos mesmos meios de comunicação, à violência. Talvez evitassem também o péssimo gosto.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Reinvenções de Foucault

Michel Foucault (1926-1984) deveria ter seguido a profissão de médico, era o desejo de seu pai, cirurgião. Seu irmão seguiu o apelo paterno, ao passo que Paul-Michel estudou filosofia e psicologia. Ganhamos nós com seus escritos contundentes, como que flechadas no coração do tempo presente, nas palavras de Habermas.


Ele reinventou noções que estavam desgastadas e bloqueavam uma visão mais acurada e crítica de nossa época. A história do tempo presente moveu seus interesses intelectuais e pessoais. Um a um conceitos foram derrubados e novamente constituídos à luz de novos intrumentos "metodológicos", a arqueologia do saber, a genealogia do poder e a análise das práticas de si. Renovou não só quanto à abordagem, também nos temas: loucura, medicina, práticas discursivas, o poder microfísico, a prisão, a sexualidade, a governamentalidade. Com enorme erudição, facilidade de assimilação, um arco de pensamento que percorre desde os clássicos gregos, latinos, escritos medievais e do renascimento, passa pelas as fontes documentais esquecidas, formas arquitetônicas, os mais importantes filósofos, cientistas notórios, mas também práticas menores e obscuras de médicos e psiquiatras que forjaram o moderno sujeito medicalizado e psiquiatrizado; e ainda, o nascimento de instituições como a prisão e seu papel  na "sociedade  disciplinar", as formas de governar, desde os gregos até a do neoliberalismo do século 20.


A reinvenção da história: considerar os acontecimentos como feixes de relações e não como ascenção dialética em direção a uma realização mais completa e final ao estilo de Hegel. Exemplo: a história dos saberes no ocidente é tecida em formações discursivas; nelas nascem conceitos como os de circulação das riquezas, vida, evolução, norma, sistema. As mutações na concepção de sujeito, o sujeito pensante (Descartes) que representa o mundo pela sua consciência, o sujeito transcendental de Kant que "formata" a realidade, o de Heidegger que é finito e morrerá - são mutações que mostram como o saber ocidental elege certos temas e constitui verdades. Não há a verdade, a filosofia faz e refaz perspectivas. A relação entre o que se diz, as palavras, e o que é dito, as coisas, produz mudanças no modo como se concebe o ser humano, como figura de saber.


A reinvenção do papel das instituições sociais: família, governo, Estado, direito, leis penais não formam um bloco sólido e permanente. Há profundas modificaçoes das instituições sociais que não se devem exclusivamente a estadistas, conquistas, guerras, grandes invenções, mas a necessidades estratégicas e ao surgimento de tecnologias, que servem para o controle das populações, e também para a circulação de bens e indivíduos. Podem assegurar, ainda, a saúde dos governados, o que inclui desde a separação e a exclusão de doenças contagiosas, até a vacinação e o controle de fronteiras. Outros exemplos: a invenção do fusil exigiu novo modo de formação dos exércitos; acomodar o comportamento humano para operar com máquinas, aprender em escolas, curar-se em hospitais, exigiu do corpo treino, saúde, disciplina; as intervenções do governo a partir de meados do século 18 na família visaram produzir uma população saudável, ou seja, mais produtiva e menos onerosa para o Estado. E isso até nossos dias.


A reinvenção da concepção de ser humano: houve profundas mudanças no modo como nos conduzimos criando e modificando comportamentos e concepções, as chamadas "práticas de si". Exemplo: estilos de vida antigos, como o dos gregos, eram pautados pela moderação, usufruindo de conselhos para um domínio ativo de seus desejos e prazeres, uma espécie de economia da vida que leva a satisfações e serve inclusive à educação de cidadãos e dos governantes.  Em contraste, as práticas de si dos cristãos privilegiavam o ser governado por um tipo de poder pastoral, o que exigia submissão e, mais tarde, a confissão dos pecados. Já o homem moderno, é aquele que nasce de ciências "humanas", sempre que elas visam conhecer, dominar, interpretar, moldar, examinar o comportamento e a subjetividade, entregues ao saber de Outro. Este tem o poder de apaziguar, reconduzir os desejos, a sexualidade inclusive, para algo paradoxal: curar expondo que não há cura para o desejo.



Pinel libertou os insanos das correntes e os prendeu à objetividade do saber com pretensão à cura pela estrita disciplina asilar
Ainda assim, há espaço para o exercício de atos de liberdade: recusar ser moldado, o que inclui estilos de vida alternativos, mais prazerosos e menos sujeitados à vontade de saber e ao biopoder (ver postagem anterior). Um exemplo: recusar a instituição do casamento no caso dos gays, pois casar implica laços jurídicos, uma dependência do dispositivo de aliança.


Cuidar de si, reinventar-se é melhor do que prender-se à ditadura do "você deve ser e agir assim" e do que a obrigação de ser "normal".

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Hitler da Noruega

Não há limite nítido nem um critério razoável para se avaliar as motivações que levaram Breivik à matança generalizada em Oslo e na ilha de Utoya.
Fanatismo fruto de uma ideologia de extrema direita, renascimento da direita nazi-fascista em uma Europa que rejeita imigrantes, em especial africanos e muçulmanos, diagnóstico de insanidade (monstro moral incapaz de empatia) - são alguns dos juízos de avaliação/dignóstico para tentar compreender, mas nunca justificar o ato brutal.
Como é possível que uma sociedade avançada e pacífica, democrática, em que o acesso à educação de qualidade é uma conquista de há muito tempo, tenha produzido esse filhote de Hitler?
Se fosse em país pobre, com baixo índice de desenvolvimento humano, social e econômico, provavelmente essas seriam as justificativas. Não é o caso da Noruega.
Foi por ideologia? Breivik escreveu livremente um compêndio de 1500 páginas, espécie de diário on line insuflando uma revolução da direita contra o marxismo, contra o islamismo, contra os imigrantes, contra os governantes do partido trabalhista, contra a democracia.
Ideologias são formações políticas baseadas em ideias e propostas às quais é preciso aderir e pelas quais é preciso lutar, de alguma maneira, e também propagar. Breivik seguiu todos os passos dessa cartilha. A ironia da situação é que diferentes ideologias podem e devem contrapor-se no cenário democrático. Quer dizer, se não houvesse uma esfera pública com liberdade e que assegura a representatividade, seriam todos prejudicados. Não se pode impedir o livre acesso aos meios para a mobilização política. 
O autor dos massacres pode ser incluído no rol de cidadão com direitos? E quando cultivou e propagou uma ideologia predadora, e nenhuma voz se ouviu que o criticasse? Controle e censura, até que ponto são aceitáveis e/ou necessários?

Terrorista loiro em uniforme militar, sem véus ou turbantes...
Quanto ao renascimento do nazi-facismo na Europa e nos EUA por meio de partidos de direita extremista, sabe-se que Breivik foi filiado a um deles. Portanto, mais um vez, a própria sociedade democrática não tem meios legais de barrar a implantação e o crescimento desses partidos. Cabe informar o eleitor para que, pelo seu voto e opinião, exclua o extremismo, seja de direita ou de esquerda.
E que dizer das análises do advogado do sorridente Breivik? Em declaração para a imprensa, o advogado afirma que após horas de reflexão resolveu aceitar a defesa do criminoso que não demonstra nenhum arrependimento, e até mesmo não estava suficientemente satisfeito com o resultado. Queria mais, as mortes eram "necessárias". É difícil explicar esse tipo de comportamento, afirma o advogado, "ele se considera um combatente, e em guerra é isso mesmo que se faz, mata-se o inimigo". Ele acha que Breivik pode ser considerado louco, "mas ainda é cedo para saber"...
O inimigo no caso foram jovens escolhidos estrategicamente, ilhados e indefesos. A polícia fora mobilizada duas horas antes para atender a explosão no centro de Oslo, demorou para agir, tal o inusitado dos pedidos de socorro. Vestido com uniforme da polícia, o matador tinha farta e devastadora munição, seu objetivo era matar o máximo de jovens para ter a mesma fama de Hitler, disse ele. 
Lição 1: fanáticos podem surgir em qualquer tipo de sociedade.
Lição 2: não há como prever seus ataques.
Lição 3: paradoxo da liberdade: se democracias barrarem a livre representação, deixam de ser democráticas. Se não punirem, vigiarem e aumentarem a segurança põem em risco a vida de inocentes, mas perdem enquanto sociedades abertas. 
Lição 4: psiquiatrizar o criminoso, diagnosticá-lo como louco e incapaz de julgamento moral não deve servir como parâmetro para julgar, pois desse modo se anula a responsabilidade das "escolhas" cruéis do fanatismo que acabam neutralizadas pela psiquiatria forense.

domingo, 17 de julho de 2011

Algumas (boas) razões para viver bem

Não faltam receitas e conselhos para viver bem. Em geral se referem à saúde física e mental. A maioria das pessoas já leu sobre isso, há fartura de livros de auto-ajuda, sites, informação na TV e nos jornais: faça exercício, procure seu médico, não se estresse, durma, coma isso e não aquilo, etc.
Mesmo a filosofia tem sido usada com esses propósitos.
É possível, entretanto, apontar para campos pouco explorados, com ajuda de alguns filósofos.
No século I de nossa era os estóicos, filósofos romanos, se voltam para a vida concreta, para os valores que ensejam aceitação, simplicidade, confiança, sobriedade, moderação. Há que desprezar o caráter fraco, "bestial, infantil, indolente, desleal, de histrião, de mercador, de tirano", escreve Marco Aurélio, "a vida é breve; é preciso desfrutar o presente com prudência e justiça, ser sóbrio folgando", nada de ficar lastimando, ser como o promontório que permanece firme com o vai e vem das ondas.
Difícil, em uma sociedade que prega o sucesso a qualquer preço e o imediatismo. Resolver tudo já, cumprir metas, devorar e devolver, de preferência sem precisar pensar muito.
É pena, deveríamos ter as malas prontas para partir, o navio mesmo longe, um dia chega. Mas para ir embora é melhor estar leve, não precisamos de bagagem alguma...
Outros filósofos ensinam a desconfiar de mitos, de crenças arraigadas, riem dos presunçosos e criticam as pessoas que se têm alta conta. A meta que os orgulhosos perseguem é a glória. Mas também o oposto, crer-se inferior ao que se vale, é viver na sombra, de sobras.
Montaigne (século 16) não teme ferir os orgulhosos e nem teme desprezar os fracos e subalternos. Chegar à velhice, aceitar doenças, sem temor. "É impossível que alguém tenha descanso enquanto temer a morte", diz ele. (Ilustração de Dali para "Ensaios" de Montaigne)

O homem oscila entre a animalidade e a racionalidade. Não se deve ignorar nem uma nem a outra: semelhança com os animais e ao mesmo tempo capaz de grandeza; algo de monstruoso (vilanias e violência), algo de gradioso (criatividade e atos livres). É isso que Pascal (século 17) chama de "duplicidade do homem". Talvez levar em conta essas facetas e disparidades sirva para mostrar porque ainda há fome no Sudão e fartura em shoppings. "Praça de alimentação" não é algo bizarro?


Alargar o horizonte e ver mais longe, praticar virtudes sem esnobismo, aprender com a análise de situações e do que nos cerca, crer sem exigir dos outros que também creiam, ver a partir de novas perspectivas tudo aquilo com que se está habituado; estranhar e indagar; saber quando parar; considerar que cada pessoa tem sua própria vida; livrar-se da ignorância, a melhor forma de cultivar a liberdade.
Essas são algumas das boas razões para vidas mais satisfatórias.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Porque Wittgenstein é considerado um gênio da filosofia

Considerar alguém como gênio pode parecer exagêro ou muita pretensão, além do que pode sugerir uma avaliação métrica da inteligência.
Consideremos gênio, então, aquele que inova, que revoluciona, que transforma nossa maneira de ver, de pensar e de agir. Nesse sentido, Wittgenstein, é senão gênio, pelo menos genial!   mansão da família
Nascido em Viena (1889-1951)), de família riquísssima, seu pai era industrial e foi dos poucos que não perderam a fortuna no período de guerra. Música, artes plásticas, educação refinada, a casa frequentada por artistas e intelectuais, dois irmãos excelentes músicos, mas havia o outro lado: todos sofriam a pressão do pai para seguir carreira na engenharia e o sucederem na sua indústria.
Ludwigg frequentou a escola técnica, mas em seu íntimo não cessava de indagar, o que se é, o dever de ser verdadeiro, como se tornar um excelente ser humano. Mais tarde abriu mão de sua herança, e passou a vida de forma quase ascética.
O caminho em direção à filosofia seria o mais apropriado para realizar objetivos estritos do pensar e do agir, manifestados na lógica e na ética.
Como expressar o pensamento e como chegar à justeza da ética? O primeiro, pela linguagem. Ela estrutura todas as possibilidades de dizer com sentido, com propriedade, podendo projetar tudo o que pode ocorrer no mundo e pode ser dito. Ele chega assim, ao limite do pensável. Ser ético é algo inteiramente diverso, depende apenas de sua força interior, pois valores éticos não podem ser verificados, eles são vivenciados.
E Ludwigg Wittgenstein foi além: o que faço quando falo? Não expresso estados de coisa do mundo, nem dou nome às coisas, nem apenas me refiro a algo. Eu ajo. Sim, falar é ação e não expressão do pensamento.
Em nossas formas de vida, ao longo de todo o aprimoramento social, vital, cultural, crianças aprendem a dar nomes às coisas, a chamar alguém, a entender histórias, a distinguir cores, a usar a tabuada, a calcular, a distinguir o que é correto dizer em que circunstâncias, a empregar critérios, a decifrar signos e sinais, a perceber tal coisa como reta ou curva, que algo pode ocorrer em dado instante, que coisas podem se suceder uma após outra, que há o ver aspectos, ler para si, ler em voz alta, etc. etc. Não há "o" mental, mas operações diversas, atividades, comportamentos que requerem linguagem. Os jogos de linguagem.
Ao mesmo tempo nos são dadas certas imagens, certas concepções nas quais acreditamos, nas quais confiamos ou não, que servem de marcas, de parâmetros.
Procurar um fundamento? Só quando for o caso.
Trazer a filosofia para o cotidiano, retirá-la do mundo platônico, pôr nossas dúvidas e buscas no solo áspero do dia a dia. E o que se revela? Paisagens humanas, tudo o que se construiu, aspectos diversos.
Sua sede de infinito cessou. Nem Deus, diz ele, se precisasse calcular, poderia chegar ao infinito. Uma ação sem fim é impossível, assim como uma proposição sem sentido. Como dizer o sem sentido?
Cabana que servia de refúgio nos fiordes da Noruega
É impossível. O mundo faz sentido para nós e isso é terapêutico.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O que diz Foucault a respeito do neoliberalismo

No curso Nascimento da Biopolítica (Collège de France, 1978-1979) Foucault continua o curso anterior sobre o tipo de governo centrado na razão de Estado. Razão de Estado como uma arte de governar, é analisada por um novo ângulo. Não o da história dos regimes políticos, mas a de uma prática de governar o Estado, com um tipo de racionalidade, de cálculo, responsável, ao mesmo tempo, pela construção do Estado; e isso requer o enriquecimento pelo acúmulo monetário, que ocorrre paralelamente ao aumento populacional e à concorrência entre países. Outro aspecto é a organização policial e um aparelho militar e diplomático para tentar um equilíbrio na Europa. O Estado nada tem do monstro frio, no estilo do Estado absoluto analisado por Hobbes. Ele resulta de um modo de governar que surge no século XVII, bem diferente do modo de governar centrado no poder soberano e teocrático, do período medieval, em que o direito era exercido pelo rei.
No século XVIII ocorre nova transformação, que ampliou e serviu para melhor implantar a razão de Estado. Não é possível governar sem a economia política, é preciso organizar, distribuir e limitar os poderes, manter certo equilíbrio para haver concorrência. Os governos despóticos serviam muito bem ao controle e expansão da economia. No lugar de questionar a legitimidade de suas práticas, esses governos precisam controlar os efeitos de suas práticas para serem bem sucedidos, algo tipicamente utilitarista.
A pergunta que os governantes se fazem é: será que eu governo bem dentro desses limites do que é necessário para lidar com a natureza das coisas?
E isso é o liberalismo, ele requer a criação de métodos próprios para definir os limites das práticas de governo. A abordagem de Foucault não envereda pela costumeira crítica (e condenação) ideológica de governos. Ele faz análise histórica das práticas de governar.
Neste sentido, o liberalismo que nasceu na segunda metade do século XVIII, permanece nos governos europeus dos anos 60 e 70, diz Foucault.
O mercado regula preços por meio de seus "mecanismos naturais". O poder público intervém para aparar os efeitos de mercado não desejáveis para a própria capacidade de governar. Qual é o valor em termos de utilidade do governo e de suas ações, em uma sociedade em que a troca determina o verdadeiro valor das coisas?
O neoliberalismo propõe não apenar deixar o mercado ordenar-se naturalmente, como o liberalismo, mas ainda que os governos sigam regras institucionais e do direito. Assim se instaura uma ordem social regrada economicamente pelo mercado. Há uma valorização da "empresa" como principal agente econômico. Nasce assim, segundo Foucault, uma nova arte de governar, que atende ao chamado "capital humano", certo nível de emprego, de renda, de saúde da população, isso tudo é necessário para o Estado funcionar. E também indivíduos treinados, aptos a desempenhar o papel de "empreendedores de si mesmos".
Essa é nossa atual "arte de governar": mercado, regras institucionais, indivíduos produtores e, claro, consumidores. A cada crise, é isso que governos precisam salvar para manter a concorrência e a produção. As ações se transformam em "desafios". Desapareceram termos para analisar e propor metas, como "dificuldade", "problemas" e os planificadores, os empreendedores preferem o termo esportivo, concorrencial "desafio".
Viver se tornou uma corrida de obstáculos!