terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Kant e a metafísica

Kant concorda com Hume na crítica que este fez à indução. A observação de numerosos casos no passado não permite a conclusão de que no futuro eles se darão do mesmo modo. Por exemplo: até o momento, todas as experiências com pão, são de que ele alimenta, mas isso não garante que no futuro todo pão alimente. A intenção de Hume era mostrar que não há um princípio de causalidade, não há a priori uma regra geral confiável absolutamente.
Para Kant, entretanto, não se deve concluir ceticamente que não haja leis por detrás dos objetos da experiência. Essas leis podem ser conhecidas, não dogmaticamente, mas criticamente.
A razão é instruída pela natureza, mas não de modo passivo,
não na qualidade de um aluno que se deixa ditar tudo o que o professor quer, mas sim na de um juiz que obriga as testemunhas a responder às perguntas que lhes propõe.


Monumento a Kant (1724-1804) em Königsberg, sua cidade natal

É preciso dotar a Metafísica de um método seguro, método esse que revolucionou a concepção de conhecimento: ao invés de os objetos penetrarem passivamente na mente, o inverso: os objetos são regulados pelo entendimento do sujeito de conhecimento, que estabeleceria algo a priori sobre os objetos. E isso se dá por meio de uma faculdade capaz de apreender o que é dado à experiência e que, portanto, se encontra no tempo e no espaço. Assim, para Kant o conhecimento é ativo e não pura apreensão passiva da mente, como se esta fosse uma página em branco na qual são impressas as qualidades sensíveis dos objetos, como proposto por Locke.
A metafísica pré-kantiana sustentava que a realidade em si mesma pode ser conhecida, inclusive suas causas, como o primeiro motor de Aristóteles.
Para Kant, ao contrário, não se tem acesso à realidade tal como ela é em si mesma, pois são necessários recursos, as chamadas categorias que são propriedades de nosso entendimento sempre que ele representa a realidade. O ser em si mesmo é incondicionado, ora, quando a realidade é acessada pelo sujeito, passa a ser condicionada. Quer dizer, os fenômenos se regulam pelo nosso modo de representá-los.
A consequência mais interessante dessa revolucionária concepção de metafísica é dar todo poder à razão humana, é ela que dá a si mesma os limites e as possibilidades de conhecer não só o real, mas também os próprios recursos da razão. Ou seja, a razão se autoconhece.
Os limites da razão pura são os limites da experiência, ir além da sensibilidade é algo impossível para ela. Apenas pela moralidade, pela eticidade se justifica existir Deus e uma alma imortal.
A razão especulativa não tem como chegar a Deus, liberdade e imortalidade da alma, pois para chegar a essas “visões transcendentes” precisa empregar princípios, e os princípios dependem da experiência. Com isso Kant elimina o dogmatismo metafísico, e se atém ao que a razão alcança e ao que a experiência fornece. Questões de fé pertencem ao terreno prático, da moral.
Muito poucos até hoje aprenderam essa lição de sabedoria!

4 comentários:

  1. "A razão se autoconhece", para Wittgenstein, esta afirmativa, não seria apenas um jogo de linguagem? E como tal, não teríamos apenas um novo jogo que estaria tentando aproximar o racionalismo do empirismo?

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  2. Oi Huk
    É quase impossível aproximar as noções de Kant, que pretendia fundar ou refundar o conhecimento, das intenções de Wittgenstein de dissolver problemas filosóficos.
    Sobre a razão, não é para Wittgenstein uma faculdade nem a marca registrada do humano, e sim o nome ou conceito que é usado em certos jogos de linguagem para se referir seja à capacidade de conhecer, seja em um diálogo, "Ele tem razão!", etc. Sem contextualização a afirmação "a razão se autoconece" não faz sentido para Wittgenstein.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Gostei muito do blog, kant da uns nos na minha cabeça as vezes, mas ao pouco vou caminhado nessa jornada do conhecimento :)

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