sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Contingência e necessidade

Há algo absolutamente necessário, condição sine qua non para nossa existência?
Sim, nascer, viver/sobreviver e inevitavelmente morrer. Nós e outras criaturas. Outras criaturas, seres que habitam nosso planeta, necessariamente, com certeza.
Tudo mais, são condições adventícias, contingentes, que podem ou não ocorrer.
A pergunta pelo limite do que sabemos, vale também para a dúvida sobre o que não sabemos.
Não sabemos, mas gostaríamos muito de saber, se estamos sós, se nosso planeta, esse grão de poeira no infinito do espaço, é nele, e só nele que surgiu essa capacidade de indagar, de inventar, de usar recursos para sobreviver.
Impossível com nossos signos, linguagem, modos de comunicar, imaginar, transmitir dados, aceder ao Outro, ao além de nosso mundo. Não podemos saber se estamos sós, se acompanhados por outro tipo de inteligência, ou se é nossa capacidade de imaginar, de sonhar, de prever, de justificar a solidão cósmica que nos impulsionam a pleitear outras formas de vida.
Se aceitarmos a hipótese filosófica de que tudo é contingente, de que tudo poderia ser ou não ser, e dessa forma ou de outra, poderíamos abrir novos caminhos. Se, pelo contrário, dermos tudo como necessário, credos, religiões, ideologias, violência, preconceitos farão parte da existência, e, nesse caso, existências presas a essas crenças. 
Vai-se o espírito livre, e, absurdo, nossa história passa a ser imposta. Vai-se a concórdia, instala-se a discórdia. Espíritos livres aderem à contingência, buscam a paz e dizem não ao conformismo; mas aceitam as exigências existenciais que levam a suportar o mundo real. 
Assim, sem pretender transformar o mundo real em mundo fictício, aquele inventado por nós e posto por nós a serviço do poder de uns poucos dominadores, exerceríamos nossa liberdade. Rejeitaríamos as imposições de partidos políticos doutrinadores, ideologias ditatoriais de igualitarismo, fanáticos religiosos. Então e só então prevaleceria a liberdade.
Liberdade tem a ver com contingência, com experimentação, com inovação, com dizer não às tiranias e imposições que produzem animais fracos e gregários, como criticou Nietzsche.
Ao exercer a liberdade e admitir nossa contingência, que tudo pode ser diferente e transformado para melhorarmos nossa condição existencial, poderíamos aplicar a máxima de que somos obras eternamente inacabadas.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quem e o que somos nós, os humanos?

Como os filósofos concebem o homem? Hoje se recusa a usar o termo geral homem, a cultura europeia exige que se desfilem os gêneros em sua diversidade.
Tudo bem, trata-se de uma idiossincrasia de nossa época, que revela como a própria civilização ocidental pretende ser inclusiva e despida de preconceitos. Mas essa é outra história, que, aliás, esconde a enorme distância entre um novaiorquino e um habitante dos confins africanos, entre uma executiva paulista e um sertanejo, e assim por diante. Sempre são minorias poderosas ou não, que impõem suas concepções e estilos de vida, como se unicamente a sua valesse como modelo universal.

Feitas essas observações, vejamos como os filósofos, ao abstrair e generalizar com seus conceitos, conceberam o homem sem o atenuante (ou o agravante...) do "politicamente incorreto".

A mais usada definição e uma das mais antigas, é a de Aristóteles: "animal racional", e sua também a menos famosa, "animal político". Aquele que tem a razão, raciocina, pensa, difere dos irracionais e mais ainda, necessita do convívio para não só viver, como para viver bem. E esse viver bem requer a prática das virtudes, que podem ser resumidas no equilíbrio, na justa medida.
Os estoicos ressaltam a vida prática, moderação nos prazeres, serenidade, refletem sobre os desejos, de como são naturais, mas com seus inconvenientes: "A quem não basta pouco, nada basta" (Epicuro).
O homem do humanismo clássico se contrapõe à concepção cristã, de criaturas com alma imortal, destinada a julgamento, marcada pelo pecado. O Renascimento põe o homem em contato com o cosmo, divinos são o cosmo e o próprio homem, cuja mente é capaz de desvendar os segredos do universo; ao invés de submissão à natureza, a compreensão da natureza.
Somos, segundo Pascal, um simples caniço, mas um caniço pensante, pensamentos estes que uma simples mosca pode perturbar. Oscilações da natureza humana, vista pelo prisma de sua finalidade, "é grande e incomparável", mas se for comparada com os animais, baixa e vil. Mas não se deve limitar a sua baixeza e nem ignorar sua grandeza. 
Em contraste, Kant eleva o homem à mais nobre e abstrata razão, uma razão pura para teorizar e uma razão prática para seguir os estritos comandos morais. O puritanismo nos amarra a imperativos éticos, e o idealismo de Kant nos ata a conceitos puros que são condições necessárias para o nosso entendimento.  
A virada da modernidade sai dos limites da razão, para o homem que trabalha, transforma e se transforma, a práxis marxista nos define como feitores de uma história de luta social e econômica, somos o "homo oeconomicus", produtores.
Nessa virada está também Nietzsche, o iconoclasta, ateu, destruidor de todos os mitos e mistificações em torno da moral, da metafísica, da natureza humana. Não passamos disso, humanos, muito humanos em nossas valorações; aquilo que consideramos grande e nobre deve ser reavaliado. Em lugar da imposição de sistemas morais, sermos espíritos livres. Livres das religiões quando tiranizam e se impõem como necessárias, absolutas e supremas. A vontade de potência rejeita o espírito gregário, de rebanho e enaltece a criação, a vida livre, as forças vitais; contra verdades impostas, sermos nossos próprios juízes.
Problema: para Freud jamais seremos estes seres livres e criadores. Espremido entre o inconsciente e suas turbulências, e a sociedade civilizada e suas regras, o eu (Ego) e suas neuroses procuram estabilizar-se entre um e outra.

Afinal, quem e o que somos? Um pouco disso e daquilo, atribulados com nossas invenções e limitados em nossas pretensões.

sábado, 1 de julho de 2017

"Por que existe o ente e não antes o nada?"

Ainda sobre a Metafísica, faremos rápida incursão na obra de Heidegger "Introdução à Metafísica" (1935), conferência pronunciada na Universidade de Freiburg que problematiza a questão do título. Nela o filósofo aborda a pergunta mais profunda e essencial da Filosofia.
Tentemos decifrá-la, afinal o objetivo deste blog é aplicar no dia a dia certas lições filosóficas.
Tudo o que existe, ou seja, os entes, antes de serem isso ou aquilo, importa a pergunta "por que". Nossa curiosidade, inclusive a de crianças, reside nisso, o acontecimento primeiro, original, saber que mesmo sem os homens na face da terra, o planeta e todo o universo existem, quer dizer, perguntar por que existe o ente não altera o próprio ente.
Para aqueles que creem na Bíblia, está tudo pronto, a resposta é Deus, mas o terreno aqui não é o filosófico e sim o teológico.
Assim, é para a Filosofia que a questão do "por que" permanece. Evidentemente não é algo do interesse de cientistas, artistas, técnicos, ela surge na história dos povos, em suas visões do todo, em suas imagens do mundo. A Filosofia não tem uso imediato, com ela nada se pode fazer, mas ela pode fazer algo conosco.
É nesse último sentido que vale a pena ir do domínio banal da existência, para o domínio do extraordinário, dar um salto, ser livre investigador e tentar alçar ao mais fundo como fizeram os primeiros filósofos, entre eles Heráclito e Parmênides.
O que unifica todos os entes em seu ser, o que os "essencializa"?
Para ambos é a força primordial, a physis. A poesia e o pensamento desvelaram a physis, ela é tudo, deuses, homens, pedras, é o que brota, o vigor, a intensidade, a permanência e o vir a ser.
O sentido primordial de physis não se restringe à natureza, portanto. Só mais tarde assume esse sentido e se opõe ao criado, ao produzido, à techne. Meta-física se tornou a investigação que vai além do ente físico.
Alguns exemplos da história da filosofia: os escolásticos, na Idade Média, respondiam à questão primordial, qual é o Ser dos entes com o "ato puro"; para Hegel, na Idade Moderna, o Ser essencial é o conceito absoluto; para Nietzsche é o eterno retorno da mesma potência; o próprio Heidegger essencializou o ente com o conceito de tempo, o homem é o ser-aí no tempo, aberto para a morte.

E quanto à segunda parte da pergunta, "e não antes o nada?" Como abordar o nada sem cair em paradoxo? Para falar sobre o nada não seria preciso que ele fosse algo, e então já não "seria" nada?
Isso de um ponto de vista lógico, mas a questão não é lógica e sim metafísica...
Um exemplo dado por Heidegger pode facilitar: o quadro de Van Gogh das botas, qual é o ser delas? Parece nos escapar, são tantas as leituras, e o mesmo se dá com o nada, a necessária suposição de que ser algo e não ser algo, quer dizer que há inúmeras possibilidades de ser e de não ser. 
Van Gogh, em uma de suas representações de botas, rotas, desgastadas. 

Como nossa época trata do ser? Ela pulveriza o ser em multiplicidades, inúmeros usos, o mundo se obscurece com guerras e terrorismo, um ditador assassina famílias com armas químicas, dependemos de energia em todas nossas atividades, e assim também destruímos o mundo, nos massificamos, nos reduzimos às escalas do tudo pronto, do imediato, do consumo instantâneo que leva ao esquecimento do primordial, não fazemos mais uso de nossa liberdade.
Isso é o que nós modernos temos feito com o ser dos entes, reduzimos tudo à mensagem, à imagem.

Mas ainda dá para perguntar, o que cada um de nós faz consigo, o que pensa de si, ao que dá valor?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sobre a verdade

Há um uso bastante corriqueiro de "verdade". Observem como se diz "na verdade" e com qual significado. Evidentemente não se trata de verdade testemunhal, nem no sentido filosófico (que abordamos em seguida) e sim de uma confirmação, de uma insistência para chamar a atenção, esclarecer melhor o que se quer dizer.
Não significa que a pessoa confessa, ou que declara que tem razão ou não, apenas uma pausa para expressar de forma mais adequada o que quer dizer.
Estamos aqui no nível do discurso cotidiano.

Em outro sentido, a verdade a ser descoberta, investigada, comprovada pertence a dois campos da cultura, o jurídico e o científico.
Sentido jurídico:
A palavra do investigado passa a valer em seu julgamento, busca-se provas sobre quem cometeu o delito, entram em cena advogado, procurador e peritos. Se há provas consistentes ou não, a verdade que surge depende de astúcia, argumentação, provas documentais, e outros recursos. Pode acontecer de não se chegar a nenhum resultado, a propalada verdade fica nas sombras, desejada e não alcançada, apesar de a pretensão ser atingi-la.

No campo científico:
Obtém-se verdade, sempre provisória, por meio de experimentação, testes, provas laboratoriais, cálculos, fórmulas, enfim, todo um aparato que depende do paradigma aceito e praticado pelos cientistas em certa época e em certo domínio do saber. O que não se sabe é tão vasto, que buscar a verdade, ou seja, o que realmente ocorre ou quais são os fatos em sua plena evidência, finalmente deixa a questão da  verdade como secundária e os resultados obtidos como o fundamental.

No sentido moral, como oposto ao de mentira, fingimento, hipocrisia. Já a pessoa veraz, é autêntica, confiável, justamente pessoas que estão cada vez mais raras.

No sentido filosófico:
Busca-se a essência da verdade, busca essa difícil, há posições antagônicas, o conceito depende do sistema ou da escola filosófica adotados. 
Para os realistas a verdade é fática, o que é percebido pelos sentidos realmente se dá na realidade. A verdade é a adequação entre o que uma proposição designa, e algo da coisa que é apresentado ou designado. "A grama é verde" é verdade se a grama é verde, um fato constatado.
Para os idealistas a verdade requer um aparato de tipo transcendental, como se fosse uma superposição ou um projetar que segue condições necessárias. Exemplo: "Todos os triângulos têm três lados" não requer comprovação, é algo necessário, obtido pelo puro entendimento.
Para os pragmatistas, verdade é uma questão prática, a situação, as avaliações, e o que deve ser levado em conta permitem obter verdade, aplicá-la e, principalmente, valem os resultados, o que eles favorecem ou não, e como funcionam para as tomadas de decisão. Por exemplo: "Alimentação saudável e exercícios garantem longevidade", supõe uma série de testes e avaliações de especialistas, todas eles suscetíveis de reconsideração. A verdade é falível.

Sempre que nosso modo de ser, nossos comportamentos se abrem para as coisas das quais dependemos, de alguma maneira pomos em rota nossa liberdade de ser isso ou aquilo, de fazer isso ou aquilo. Daí resultam possibilidades, decisões, e a própria incorreção ou erro se mostram.
Isso de tal modo que a verdade e a não-verdade andam juntas.
E mais, há o insondável, o incognoscível, o inatingível, e tais limites deslocam a verdade ou as verdades para a zona brumosa do que jamais saberemos.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O que é ontologia?

A Filosofia se divide em três grandes campos de estudo: o do ser (Metafísica, Ontologia, Teodiceia), o campo da ação (Ética, Estética, e demais abordagens da prática), e o campo do conhecimento (Teoria do Conhecimento, Epistemologia, Lógica). Outros ramos de estudo incluem as Filosofias da Linguagem, do Direito, Social, da História, da Ciência.
Qual a diferença entre a Metafísica e a Ontologia?
Elas abordam a questão mais abstrata, mais transcendente, mais abrangente da Filosofia, que é a questão do ser, de modo diferente.
Como assim, o "ser"? Trata-se de um verbo auxiliar? Ou de seres, i. e, indivíduos particulares?
A questão do ser vai além, há simplesmente o ser, em seu mais amplo e geral sentido, há o ser e não o nada. 
Sim, claro, responderiam, isso é óbvio!
Mas qual é a natureza do ser
A resposta da Metafísica vai às causas mais gerais de tudo o que há: o universo, o cosmo, nosso mundo, os objetos, os indivíduos, enfim, como tudo veio a ser? A totalidade dos entes repousa sobre quais princípios e fundamentos?
A Filosofia Antiga responde que o cosmo se fundamenta em causas, como a do primeiro motor aristotélico; a Filosofia Cristã responde que Deus é a causa de tudo o que existe, o mundo foi criado por Deus a partir do nada;  os filósofos modernos, como Descartes também são metafísicos, pois um ser inteligente e perfeito deu origem a tudo, se temos ideia de perfeição, tal ideia só poderia vir de um ser mais perfeito do que nós, humanos, e esse ser perfeito necessariamente existe, do contrário não seria perfeito.
Note-se que a Metafísica pergunta e responde pelo ser, pelas causas, pelas essências, pelos fundamentos.
Ao passo que a perspectiva da Ontologia é outra: especula-se, reflete-se, pergunta-se pela natureza do ser, mas não em vista de obter resposta causais, e sim pela indagação envolta em mistério e perplexidade.
Qual é o sentido do ser? Teriam os seres uma essência comum? Todos eles existem? Em que sentido? A ameba existe do mesmo modo que seres humanos existem? Uma porta é um ente, ou um ser?
Qual a diferença entre entes e seres?
Ontologicamente humanos, objetos, animais, a imensa variedade biológica, a Terra com suas riquezas e diversidade, cada individualidade tem seu modo de ser, cada entidade ou ente, tem seu modo de ser. É sobre esses modos de ser que a Ontologia reflete. 
Ontos se origina do grego, "ser", há uma natureza de ser que é ontológica, e uma natureza "ôntica", aquela à qual não se deu ainda um destino, uma função, um desdobrar-se no tempo, um uso.
Exemplos: a madeira serrada o que será? porta, mesa, cadeira, lápis. O lápis tem qual função ontológica? Qual ser se desprende desse ente?
O tempo cronológico é ôntico, viver no tempo finito, é algo ontológico. A totalidade dos entes no mundo é de natureza ôntica, o modo como o mundo é visto e se reveste de sentido, é ontológico.
Qual a natureza ontológica de nós, seres humanos? 
Existimos, temos uma vida temporal, morreremos e mais, sabemos disso.
Em suma, a Ontologia tem em vista o ser dos entes, seu sentido, seus usos, suas modificações, no caso do ser humano, sua existência.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pós-metafísica não implica em ser pós-moderno

Habermas, e também o sociólogo Max Weber, consideram que vivemos ainda a modernidade, cujos projetos não se esgotaram.
 Em contraposição, Lyotard representa o protótipo do filósofo pós-moderno e pós-metafísico (1979, A condição pós-moderna).
Quem argumenta melhor?
A modernidade se caracteriza pela descentralização do poder político, ascensão das democracias, forte industrialização, o capital e as forças produtivas contribuem para melhor e maior produtividade, intenso intercâmbio cultural, arte separada da religião, primazia da ciência e do profano, instituições baseadas em princípios. 
Essa enorme e profunda transformação social, econômica e política encontra reflexos na filosofia, seus princípios passam a ser alvo de reconsideração, de crítica, de debate e argumentação. Justamente, a entrada na pós-metafísica implica pensar de modo  linguístico e pragmático, pois o discurso filosófico se faz com argumentos e estes recaem sobre a ação (pragma) e não sobre sujeitos isolados e encapsulados em si mesmos. Logo, não há contradição entre  pós-metafísico e a sustentação de que a modernidade ainda vige.

Já para os adeptos da corrente pós-moderna, tudo se dissolve, a ciência mesma depende de paradigmas que são ou não bem-sucedidos e estes não produzem superações capazes de conduzir à verdade crescente e completa; nada é absoluto, impossível unificar perspectivas, pretender à totalidade é ignorar a multiplicidade das culturas e narrativas, em outras palavras, algo próximo a um poder fascista que anula diferenças.
Assim, ser pós-moderno inclui todas as condições para ser também pós-metafísico.

A quem dar razão, a Habermas ou a Lyotard?
Habermas, Rorty entre outros discordam de Lyotard, o primeiro ao apostar na comunicação sem entraves e sem limite, obra da razão comunicativa, capaz de reunir vozes dissonantes por meio do argumento calcado em razões, que podem falhar, mas que evitam a hegemonia do poder político e econômico. Quer dizer, confiança no direito e na democracia como meios para barrar a invasão de interesses escusos com seus efeitos prejudiciais, como a corrupção (no caso do Brasil, corrupção deslavada, criminosa e impune, até que justamente a justiça e o direito, com seus meios legítimos pusesse o dedo na ferida e mobilizasse a sociedade). 
O segundo, Rorty, ao preconizar que sociedades democráticas são as únicas a oferecer liberdade, condição necessária para que a verdade se produza; conversação, tolerância e práticas de justificação evitam o dogmatismo e o totalitarismo. 

A defesa das múltiplas narrativas dos pós-modernos leva filósofos e intelectuais a um beco sem saída, se tudo vale, por que dar-se ao trabalho de argumentar e justificar? 

Neste sentido, pós-metafísico seria incompatível com pós-moderno: a abertura para validar e questionar não faria sentido. Pós-metafísica não implica em pós-modernidade.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O que é pensamento pós-metafísico?

Em posts anteriores mostramos o que é metafísica em contraste com a pós-metafísica, de acordo com o pensamento de Habermas.
Para este o momento atual da filosofia se caracteriza pelo pensamento pós-metafísico, mesmo que ainda seja uma época ainda moderna, e não pós-moderna.
Como se explica esse paradoxo? 
Vamos por partes. A metafísica clássica, cujos representantes principais são Platão e Aristóteles, vê o todo como causado pelas ideias, Platão, e pelo motor primeiro, Aristóteles. As ideias são o modelo para todos os entes, tudo o que existe são cópias dos conceitos ideais e divinos. Já as causas para Aristóteles produzem os entes mesmos, em sua individualidade e especificidade.
Com a filosofia cristã, Deus é a causa absoluta de todos os entes, criados do nada. Interessante que os gregos entendem que o nada, nada pode produzir. Ao passo que o conceito de nada é fundador para filosofia cristã.
Note-se os termos e conceitos essenciais ao pensamento metafísico: causalidade, totalidade, unidade, essência, absoluto, nada e o conceito de ser ligado ao de pensamento abstrato. Dada a multiplicidade dos entes no mundo, para poder pensá-los há que abstrair, deduzir a unidade a partir da heterogeneidade.
Descartes, Spinoza, Leibniz e Kant representam a metafísica nos séculos 17 e 18, e Kant, mesmo criticando a metafísica baseada no ser em si mesmo, quer dizer, independente de pensá-lo por meio de conceitos, recupera conceitos metafísicos, o de Deus e de alma imortal como pilares da razão prática.
As exceções na história da filosofia até chegar ao pensamento de tipo pós-metafísico são os nominalistas (sem nomear, sem conceituar seria impossível conhecer as coisas), os materialistas e o empirismo (a experiência e não os conceitos abstratos são a base para atingir a realidade). Impera a noção de uno, de identidade e de que a teoria é necessária para chegar à verdade.

O pensamento pós-metafísico em contrapartida dispensa a busca de uma origem primeira de todas as coisas, nega que haja necessidade de um fundamento ou essência permanente a sustentar todos os seres, afirma que não há teoria sem prévia experimentação, como demonstram as ciências. 
O primeiro passo para a pós-metafísica foi a substituição do modelo filosófico baseado no eu, no sujeito, em sua consciência, para o modelo baseado na linguagem. Somos sujeitos sim, mas devido a nossa capacidade de articular signos, de abstrair por meio da linguagem, de formalizar, de compreender devido à capacidade de formular frases significativas, atos de fala para afirmar, deduzir, mostrar, negar. Em suma, conceitos absolutos se tornam significados comunicáveis.

Habermas contesta a pretensão de Heidegger de ainda dar sentido à metafísica. Em Que é Metafísica? (1929), Heidegger parte da questão mais abrangente da metafísica, a questão da totalidade dos entes, para a questão do nada, do que absolutamente não são os entes. Há necessidade de postular o nada inclusive porque aquele que questiona se vê às voltas com o nada ao se angustiar, a totalidade dos entes parece escapar em momentos de nossa existência aí no mundo.
Para Habermas, que é um anti-Nietzsche, esses abismos de ser e nada são pura abstração. De uma perspectiva pragmática, afirma Habermas, nós agimos, e, principalmente agimos pela linguagem. Nos comprometemos em atos comunicativos ou usamos a linguagem para o disfarce, para a subjugação (em atos estratégicos). A vida prática vale mais que a vida teórica.

(a ser continuado em outra postagem, para expor o paradoxo pós-metafísico mas não pós-moderno)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A era da técnica e o minimalismo

Chamamos nossa era de técnica. A palavra se refere a todo tipo de atividade pela qual se produz algo, portanto, desde tempos remotos há produção técnica. No grego, "techné" significa trabalho dos artesãos, inferior à sabedoria, à contemplação das ideias, e mesmo subordinada à missão dos guerreiros. 
A era moderna consagrou o trabalho com máquinas, aperfeiçoou as técnicas, principalmente em função da indústria armamentista, e chegou ao que se tem hoje: o completo domínio dos aparelhos de alta tecnologia e de alta performance, como este computador em que escrevo. Acelerou a comunicação e revolucionou os meios de informação.
A pergunta é: esse domínio técnico significa submissão total do homem aos instrumentos e artefatos que ele mesmo criou?
Houve uma completa transformação do ser humano moderno, no modo como produz, transporta, se comunica, na automatização da indústria por meio da robotização, na exploração da natureza, no extenso e poderoso maquinário para cultivo em larga escala.
Dispomos da natureza, fazemos a natureza produzir em nosso favor, para nossa sobrevivência. A civilização técnica não tem volta atrás, e o problema é que dificilmente sucumbiremos ao lixo que resulta desse mesmo progresso e consumo extremos.
Há sempre compensações devidas à autorregulação, os dispositivos técnicos inventados por nós, acabam por nos superar, se tornam quase que impossíveis de controlar.
E como reagimos a isso tudo?
Procuramos despertar em nosso entorno o que vem de graça, tudo aquilo que podemos contemplar, usufruir, sem precisar de controle algum. Resta-nos certa autonomia, quer dizer, conduzirmos a nós mesmos como que levados por uma corrente libertadora. São espaços destinados à arte, à amizade, à contemplação, à meditação, ao prazer de simplesmente viver.
Claro que para isso são necessárias condições, como tempo de lazer, educação da sensibilidade, condição financeira suficiente para o mínimo de bem estar. Condições estas inexistentes em países em guerra, extrema pobreza, em luta pela sobrevivência, sem acesso à educação e a uma vida segura e saudável.
Ora, esses requisitos que nos abrem para viver de forma mais consciente, usufruir o que os meios tecnológicos proporcionam sem escravizar-se a eles, sem precisar abandonar a civilização, acabam por precisar da própria tecnologia.
Educar, criar, contemplar, desprender-se de excessos, evitar o consumismo, menos lixo, mais leveza de espírito, são hábitos de vida divulgados e muitos deles possibilitados pelos meios eletrônicos.

A saída: saber usar vale mais do que acumular. A arte de viver com o essencial, o minimalismo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O que é historicidade?

Foi apenas a partir da segunda metade do século 18 que a noção de historicidade foi incorporada pela Filosofia. A narração histórica é antiga, assim como a percepção da mudança temporal. Mas considerar que a história integra o nosso modo de conhecer e interpretar, isso é mais recente, caracteriza a modernidade.
É impossível desconsiderar que nosso modo de pensar e agir muda com o tempo histórico, que sem levar em conta seu tempo, fica difícil, senão impossível compreender nossa situação e avaliá-la. A mais notável contribuição desse novo modo de ver, é que conceitos, ideias, noções, visões, interpretações mudam, que não há como sair da história para, de um ponto acima dela, atemporal, julgar o verdadeiro e o falso.
Isso porque os próprios critérios se modificam, não há um acesso privilegiado, um juiz supremo e superior capaz de decidir que esse modo ou aquele de julgar, esse valor ou aquele outro é o verdadeiro.
Isso significa que não há a Verdade, nem verdades diversas (o que é uma contradição), e sim que toda realidade passa a ser compreendida, interpretada e avaliada de formas diferentes, o chamado relacionismo.
Relacionismo quer dizer, todas as coisas, situações, conceitos, práticas se relacionam, são contrapostas, e, como é impossível anular diferenças e chegar a uma visão comum, entra em cena a liberdade, a criatividade, vastos territórios a serem cultivados. Isso em lugar da imposição de um ponto de vista apenas, universal e comum, que serviria de guia e ponto de partida para todos, independentemente de cultura, de época, de sociedade.
O relacionismo, aliado da livre escolha, adepto da pluralidade, não anula a possibilidade de entrar em acordo, de ouvir as diversas vozes, como pleiteia Habermas, e encontrar para elas não um patamar comum e universal, e sim bases sólidas, que estão abertas para novas formas de pensar, por que não, melhores, terreno em que possam eclodir transformações. A pergunta é, como saber o que é melhor se todos os acontecimentos têm inserção histórica, portanto, carregam o peso do que Nietzsche chamou de "humano, demasiado humano"?! 
Por meio das consequências decorrentes das tomadas de posição. Essas escolhas contribuem para o bem estar, para a não violência, para a integridade da pessoa, ou degradam, violentam, cerceiam a capacidade de escolher, ou pior, sonegam às crianças essa capacidade?
Desse modo, evita-se o irracionalismo, rejeitam-se as ideologias que tapam o processo histórico por meio da imposição de um credo único, de uma política ditatorial e discricionária, da visão totalitária de chefetes fascistas e cruéis.
Assim, a historicidade é o conceito principal da Filosofia da História, sempre aberta para a autoavaliação, para as mudanças, um antídoto contra o pensamento único. 
No caso específico do ensino de História, a visão pobre e contraproducente de que há uma classe a ganhar o paraíso, a dos trabalhadores e de que a economia deve ser socializada. Marxismo em versão antipedagógica.

terça-feira, 21 de março de 2017

Criacionismo e evolucionismo

Educadores se vêem diante de dilemas quando de suas aulas de ciência, em especial sobre a evolução do planeta, dos seres vivos, entre eles nós, seres humanos, ao serem confrontados com ensinamentos bíblicos sobre a criação do mundo e de todos os seres por Deus.
Se explicam de acordo com a ciência estariam negando a fé? Se adotam a postura religiosa, cristã, estariam sonegando conhecimento científico aos seus alunos?
Trata-se de um falso dilema, pois a fé sincera brota de crença, de iluminação, de tradições. A ciência nasce de perguntas, questões a serem postas sobre como a vida surgiu, e isso por meio de comprovação, de exposição de suas observações e experiências ao crivo da comunidade de cientistas. Com esses procedimentos, sempre sujeitos a acertos e erros, a cálculos, ao avanço dos instrumentos de teste, à publicidade de resultados, a ciência é imprescindível. E mais, em nossa época a aplicação em benefício da saúde e melhoria da vida (exemplo: vacinas), não permite volta atrás.
Pesquisa científica: conhecer e aplicar
Impossível e condenável deixar as explicações científicas de lado como se fossem desacreditar ensinamentos bíblicos.
Deus criador é tema de fé religiosa, baseada em dogmas, em verdades da tradição, às quais não cabem dúvidas. Os professores e a própria escola devem deixar isso claro. A fé diferencia-se do conhecimento, seu poder quando sincera e aberta é o de dar paz e respostas satisfatórias à alma, ao espírito. 
Ao passo que a ciência, se for ignorada ou banida, produz conflitos desnecessários, leva ao obscurantismo, e como consequência, insufla preconceitos. Além disso, como negar o poder da ciência, as evidências da teoria evolucionista, sem, ao mesmo tempo, fechar as portas para o saber?
No remoto século 13, o filósofo e religioso Duns Scotus entendera que a fé verdadeira pertence a uma dimensão superior à do conhecimento, mas não substitui o conhecimento. 
Hoje diríamos que a fé, aquela que move montanhas, não deveria fanatizar e sim abrir os corações para essa vida de recolhimento, de meditação, de oração, de desprendimento.
A interioridade da fé
E que, de outro lado, a ciência, não anula a fé pois requer pesquisa e comprovação, satisfaz a inteligência, a razão em suas necessidades de indagar e obter resposta. 
De onde viemos? Como surgiu e se transformou a vida? A ciência é exigente e cautelosa, avança com estudo, teses, teorias, sempre suscetíveis de correção e, por isso mesmo, confiável.

E esse questionar os seres tem um limite, nossa própria capacidade de compreensão. Como, com nossos meios, podemos interrogar e saber até onde esse questionamento nos leva. Conhecer nosso próprio modo de conhecer, e por aí entramos noutro terreno que a cultura humana proporcionou desde Tales de Mileto até os pensadores de nossa época: o saber filosófico.
Esse saber filosófico entende que essas distinções, entre fé e ciência permitem que ambas convivam, que uma não substitui a outra, que há um enorme ganho cultural e educacional se vistas sob a perspectiva da reflexão. 
Em tempo: as religiões e os credos são vários e diversos, a ciência é unificada.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Heidegger e o nazismo

O Partido Nacional Socialista (PSN) atraiu Heidegger desde o início dos anos 1930. Em 1933, como reitor da Universidade de Freiburg, bastante reconhecido, e de confiança do partido, em seus discursos enaltece a filosofia que deveria voltar aos inícios gregos e daí saltar para o presente. A vontade de saber dos gregos como que ilumina o pensamento livre de deuses, e essa liberdade deveria servir como inspiração para que grupos revolucionários, na Alemanha e em conjunto com o "espírito alemão", se insurgisse contra os fracos do partido democrático, e ganhasse as forças do ser-aí (dasein), como nova "energeia". Povo que se fortalece, sem desculpas, sem consolos, assim entendeu Heidegger o papel da universidade e dele próprio.
A justificativa que apresentaria mais tarde, diante do comitê que investigou o nazismo e seus crimes, foram a miséria, o desemprego, crise política e econômica, motins acontecendo nas ruas, algo próximo a uma guerra civil.
Hitler seria o salvador, atraia pela força do discurso que inflamava o povo alemão no culto à pátria, ao novo Reich. Nessa época professores judeus foram demitidos, e campos de concentração começam a receber os considerados párias. A noção de raça pura passa orientar a política nazista.
Heidegger, caminhos, montanha, sedução; mais tarde reconhecimento do grande erro.
Heidegger estava, segundo seu amigo Karl Jaspers, fascinado pelo que considerava renovação de forças, o ser mesmo se realizava, e o que Heidegger considerava essencial nessa "política", seria a condução para maior responsabilidade, união, realização histórica. Discordou do que passaria a ser a base ideológica do nazismo, pureza racial, o arianismo. 
Mas, para sua amante e brilhante aluna, Hannah Arendt, isso era condenável, execrável. Os encontros eram programados por Heidegger e absolutamente às escondidas (ele era casado com Hermine, tinha filhos). Nessa época de ascensão do nazismo, ela havia rompido o relacionamento. Criticou acidamente o regime, que integrou a massa inteiramente manobrada com a classe dos ricos. Analisou as raízes do totalitarismo, não se deixou levar pelos apelos emocionais de que seria um novo impulso, uma nova nação, destino do povo alemão.
Hannah Arendt
Como mostra Rüdiger Safanski, quando do fim da II Guerra, Heidegger reconhece seu engano, seu erro, que ele sonhou filosoficamente e que isso é inaceitável em filosofia. O filósofo deve ser o investigador do tempo histórico, deve interpretar filosoficamente os acontecimentos. 
O que o fascinou foi a possibilidade de dissolver o ente, as coisas, no ser, e e esse novo ser viria imbuído de elevação, de autenticidade, heroísmo, ouviria o chamado da pátria, alçaria às montanhas.
Digamos que o filósofo aprendeu a lição.
Transcendência e fanatismo são incompatíveis, democracia e fanatismo são incompatíveis, liberdade e fanatismo são incompatíveis.
***
"A diferença fundamental entre as ditaduras modernas e as tiranias do passado está no uso do terror não como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes, mas como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes" (Hannah Arendt, in Origens do Totalitarismo).

quarta-feira, 1 de março de 2017

Existência, cuidado, morte: temas essenciais para Heidegger

Debaixo do céu há o mundo, os seres humanos e a lida desses com as coisas, em total dependência com relação ao tempo, ao desdobrar da existência. 
Quando Heidegger abandona o catolicismo e seu projeto de seguir a vocação eclesiástica, foi movido pela fenomenologia, como vimos na postagem anterior, e pela nova visão de que o mundo que está aí à disposição dos homens, é disso que se trata. Não basta reconhecer a realidade das coisas que fazemos, a vida em sua evolução. Sem deuses e sem religião, o filósofo se volta para a existência, o ser aí, no mundo, sem que algo divino ou superior dê sentido ou justifique essas existências. O que as sustenta? Nada a não ser o tempo. Tempo não o do calendário, nem os tempos que virão, não a promessa de imortalidade. Tempo não da alma ou do espírito, tempo não do corpo, tempo da minha vida, ou melhor, da minha existência.
O jovem Matin Heidegger
Como lidar com esse ter que agir e enfrentar a cada instante o que está por vir?
Impossível prever o futuro, mas possível e próprio ao ser no tempo é preocupar-se em tecer o que está por vir, cuidar, lidar com as coisas, atividades que se desdobram no tempo.
A experiência de ter que lidar, enfrentar, faz com que esqueçamos de nós, de nossa vida, e súbito caímos. A essa queda Heidegger chama de "ruína", aquele incrível insight de que somos algo fadado ao nada, à morte.
A sensação de queda, de estranhamento, de nada, ao invés de levar a um tipo de renúncia ou de derrota, impulsiona o ser para sua existência própria, aí, no meio às coisas, diante de um futuro inteiramente aberto, e aberto para que? Para o fim. Saber-se vivente, existente que vai morrer, não desestimula e nem assusta, pelo contrário, dá sentido à vida.
Um paradoxo?  
Não, se pensarmos que paradoxal implica em raciocínio lógico, e não é de lógica que se trata e sim desse abandono do ser a si mesmo, quando se percebe mortal e precisa viver essa mortalidade. 
Acontece que é mais fácil esquecer disso, divertir-se, escamotear a fragilidade, pretender-se incólume ao tempo, remendar aqui e ali, seu corpo, seu rosto, seu dia a dia. Com deuses, profetas, milagreiros, passatempos, diversões, com as receitas de ajuda e de consolo. Pular, pular, pular... Como macacos, não como existências atentas ao seu poder ser: "coragem para a angústia".

O que move a Filosofia? Desde seus primórdios a questão do ser, como ocorre que tudo seja, que entes tenham vindo a existir, começo, causa, fim, busca de sentido.
Heidegger põe essas questões em novo trilho, o de nossa existência. Em lugar da fuga em direção a um transcendente, a abertura, ser livre e escolher a si mesmo, ver o mundo como disponível, habitável, que a condição humana é feita de escolhas no tempo que nos move, que somos absolutamente contingentes, e que angustiar-se com isso, é próprio de nossa existência.

P. S.: E pensar que Heidegger abraçou o nazismo durante certo período, e pensar que foi amante de Hannah Arendt... Fica para outra postagem.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O que é fenomenologia?

Ao reler a biografia "Heidegger, um mestre da Alemanha entre o bem e o mal", de Rüdiger Safranski, pode-se melhor compreender a relação de Heidegger com a fenomenologia. Os primeiros estudos de Heidegger estavam enraizados na tradição católica, especialmente no tomismo. Seu encontro com as ideias de Husserl a respeito de um  recomeço para a Filosofia, a fim de baseá-la em sólidos e novos fundamentos, foi o ponto de partida para a filosofia existencial de Heidegger.
O novo modelo era a fenomenologia. Ir às coisas mesmas, deixar o real se mostrar, sendo esse real o fenômeno, e isso por meio da consciência.
A consciência passa a ter função primordial,  há que observar seu interior por meio da introspecção. Tudo é dado a ela que percebe o exterior de diversos modos, a distinção clássica da teoria do conhecimento entre essência da coisa e sua aparência, não faz mais sentido. O que se percebe não é a essência das coisas e nem sua aparência enganosa para o sujeito e sim os fenômenos que a consciência capta como isso ou aquilo, como objeto, como visível, invisível, sensível, onírico, ou seja, há muitos modos de se relacionar com o que nos cerca. Nossa consciência não é um quadro em branco, um receptáculo passivo das impressões. Ela vai às coisas, se relaciona com os objetos, "a consciência é sempre de algo", afirma Husserl, não está apartada das coisas, pois isso exigiria um elo, uma ponte. Não, ela está junto às coisas de que é consciência, explica Safranski.
Valorizar a consciência é o mesmo que valorizar o fenômeno, isto é, o que é dado a ela. Daí a necessidade de prestar atenção aos modos pelos quais os fenômenos se apresentam. Uma árvore que vejo assume o status de real, pode-se recordar da árvore, posso representá-la como uma que dá frutos, ou que se tornará madeira, a que abriga animais, a que será plantada, a que já morreu.
Por isso não faz sentido supor a árvore em si, os fenômenos se apresentam a mim, à minha vivência, valem a minha vida e as minhas experiências, não há consciência de nada, mas é sempre de algo, intencional. 
Husserl se deu conta de que essa passagem obrigatória das coisas tornadas fenômenos pela consciência, as torna móveis, mutáveis, variam a cada momento das vivências e com cada um de nós, e assim tornar a Filosofia rigorosa, tanto quanto a ciência, seria inviável. Seria preciso um eu transcendental, aquele que tudo abarca e compreende. Essa conclusão, a da necessidade do "ego transcendental", não foi seguida por Heidegger e nem por Sartre.
Heidegger entendeu a impossibilidade de um tal eu, daí a sua noção de tempo, de fluxo das vivências, da existência nossa aí, da autenticidade (saber-se mortal) ou inautenticidade (deixar-se levar).
Sartre apropriou-se do importante conceito da fenomenologia de intencionalidade. O modo como o objeto é acolhido, temido, querido, rejeitado, compreendido e de muitas outras maneiras, se deve à intencionalidade.
Saber-se aí no mundo para Sartre provoca a náusea, a sensação de que nada preenche o homem completamente, estamos jogados no mundo, daí a angústia.
Claro que Husserl não concordaria com essa reflexão existencialista.
Interessante notar que a fenomenologia é ponto de partida para Heidegger e Sartre, mas não ponto de chegada...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O que é humanismo?

Amar a humanidade, valorizar o humano, entender que acima de tudo estão os homens, parece algo canhestro e fora de moda. Humanismo, mais um "ismo" vazio de significado?
A doutrina do cristianismo se baseia no humanismo, sem o qual Deus não faria sentido.
Ora, há filósofos ateus que também pleiteiam o humanismo, como o existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o faz, justamente, para defender o existencialismo das críticas de pensadores católicos, que entenderam ser o ateísmo incompatível com o humanismo.
Antes de prosseguir, o que seria, afinal, "humanismo"?

Valorizar os homens como um todo, ou cada um em particular? (Refiro-me por "homens", nestes tempos em que gênero parece ser mais importante, a pertencermos ao que os filósofos chamam de "ser humano" e não animal ou coisa).
 "(...) humanismo, diz Heidegger (1889-1976), é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora de sua essência." 
Humanismo?! 
E a essência do homem para os antigos reside em ser animal racional; para os cristãos reside em sua alma imortal, a salvação e o julgamento dela por Deus; para Marx a essência requer o processo social com os requisitos da alimentação, procriação, produção; para Sartre não há humanismo algum em cultuar a humanidade, como se fosse uma deusa,  caso do positivismo de A. Comte. Sartre recusa o humanismo abstrato e genérico, e defende "o universo da subjetividade humana", estamos em constante processo de transcender, de ir além, de superar a nós mesmos, na medida em que nossa subjetividade é absolutamente livre para decisões, os homens estão por assim dizer presos à sua própria liberdade, só fogem dela os covardes.

Voltando a Heidegger, para ele pensar exige a linguagem e uma casa, uma morada para a linguagem, a dos seres humanos. Estes existem sob o modo do cuidado.
Como todo humanismo precisa determinar o que seria a essência do homem, todo humanismo se baseia numa metafísica, quer dizer, numa visão geral que explica tudo, tanto as determinações, como as particularidades dos seres. Essa visão geral, metafísica, seria a de que o homem é um animal que se distingue de todos por poder pensar?
Não, a essência do homem, responde Heidegger, vem de sua existência no sentido de permanecer nela, de estar presente ao ser, de estar-aí, no tempo, e saber-se vivo no tempo e com o tempo.
E mais, é preciso que, no distender do tempo, de sua vida (e de sua morte) ele possa transformar o genérico humanismo, em um existir específico, que vê no homem o portador, o defensor do ser, da verdade do ser que a linguagem permite, exige e desdobra. A essência do homem é morar na linguagem, não como dono, mas como o cuidador da linguagem.

Neste sentido, nada de humanismo, refúgio fácil para abstrações, para justificar o pacifismo, o igualitarismo e outros "ismos" convenientes para os defensores do nacionalismo, do populismo, das generalizações.
Importa, isto sim, o inverso, especificar o ser que cada um constrói por meio de sua ação, sejam europeus, americanos, africanos, asiáticos, crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, gays, pobres, ricos, entre tantas outras especificidades. Importa pleitear a autenticidade, fazer valer o seu caminho, estar aberto às determinações, responsabilizar-se pelas consequências de suas deliberações.
Abertura e não fechamento!