sábado, 28 de dezembro de 2013

Reflexões sobre a morte

A morte prematura de um ex-aluno meu, motivou esta postagem. A dor e o vazio da perda são pessoais, intransferíveis, causam perplexidade, espantam pelo fato de alguém estar aqui e subitamente, inevitavelmente e eternamente se ausentarem.

A morte, se isso serve de consolo, para Sócrates não é temível e nem  terrível: 
"Morrer é uma dessas duas coisas, diz ele: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa alguma, ou então, como se costuma dizer, trata-se de uma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono (...), que maravilhosa vantagem seria a morte!" E se houver o encontro com os que já se foram, prossegue Sócrates, "que maior bem haveria que esse?"

Somos finitos? O que há em nós de infinito ou imortal?
"Em que disposições de corpo e de alma devemos aguardar que a morte nos surpreenda; a brevidade da vida, a imensidade do tempo antes de nós e depois de nós, a debilidade de toda matéria" (Marco Aurélio).
Pascal, mesmo sendo cético, acha que essa é uma questão inescapável: "não há neste mundo verdadeira e sólida satisfação, nossos prazeres são puras vaidades, nossos males infinitos e a morte nos ameaça a cada instante (...) Eis o fim que espera a mais bela vida do mundo. Que se medite nisso: se não é indubitável que não há outro bem nesta vida senão o da esperança em outra vida".

Nada há em nós de infinito ou imortal para os filósofos da existência. Esta acaba, e fim. Para Heidegger há os que "esquecem" disso, vivem como se fossem eternos, e os que aceitam o fato de morrer e mais, vivem sabendo que vão morrer; "da-sein", ser aí, neste nosso mundo, mortais, ser-para-a-morte. O que não significa passividade nem negação, mas afirmação do valor da vida, por paradoxal que isso possa parecer.
O ser humano não só vive no tempo, ele vive também temporalmente, o tempo o constitui. 
Temporalidade implica começo, meio e fim.


Filosofar pode consolar.

O tempo se torna fator decisivo nas mortes acidentais, como a que levou João Paulo. Um segundo de desatenção e os fabulosos engenhos da humanidade matam. Uma arma, um meio de transporte, uma falha mecânica, e tantos outros fatores... 
Difícil aceitar, difícil acreditar... 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Teísmo e ateísmo na filosofia

Uma das principais questões filosóficas, senão a mais crucial pelo menos aquela que mais intriga os filósofos,  se refere a Deus.
Mesmo antes da religiões monoteístas, filósofos indagaram sobre o princípio de todas as coisas, sobre a causa primeira do universo. Demiurgo, para Platão, plasmou, isto é, deu forma às ideias que são a essência de tudo o que há. Aristóteles buscou a causa primeira no motor imóvel, que dá início à cadeia de causas. Sendo primeiro, não deve seu movimento a nenhum outro. Interessante que Aristóteles rejeita o nada, o vazio que precederia esse vir a ser geral. 

Foi a filosofia cristã que possibilitou pensar o nada. Deus criou o mundo a partir do nada. Santo Agostinho que pertencia à escola dos Padres da Igreja (nasceu em 354, morreu em 430), pensou Deus não por meio do raciocínio de causa/efeito e sim por meio da iluminação interior. Em Confissões ele perguntou onde Deus reside em sua memória, a que ele deve a honra de a memória acolher Deus, seria pelos "afetos da alma", pela recordação de imagens, pelo espírito do próprio Agostinho? Não pois tudo isso muda, e Deus não muda, mas sem dúvida Deus habita sua memória, "porque me lembro de Vós, desde que Vos conheci e encontro-Vos lá dentro, sempre que de Vós me lembro", escreveu Agostinho em Confissões.
Ainda na filosofia cristã, na Idade Média, São Tomás de Aquino seguiu a via das causas para chegar à existência de um criador. Há movimento, logo todo ser é movido por outro, como não se pode ir ao infinito, é preciso o primeiro motor, Deus (prova em tudo semelhante à de Aristóteles); há causas eficientes que produzem os efeitos em tudo o que existe, se não houvesse Deus, não haveria efeito algum; para haver geração e morte, é preciso um ser que não tenha sido gerado, o único necessário para gerar todos os seres; na natureza há graus de perfeição, o que requer o mais perfeito de todos, Deus; o universo segue uma ordem inteligente, não seguiria se não houvesse o ordenador maior.
De algum modo os filósofos teístas seguem um ou mais argumentos semelhantes, como Descartes que da ideia de perfeição concluiu pela existência do ser absolutamente perfeito.

E os filósofos ateus?
Há os que consideram impossível que a razão humana possa conhecer algo que a transcende, como Kant (que não pode ser considerado ateu), há os que sequer se preocupam com a questão e os que se declaram ateus. 
Entre os últimos se destaca Nietzsche (1844-1900). A afirmação "Deus está morto" foi tão chocante quanto incompreendida pelos que divulgam e ensinam filosofia. Para Nietzsche tudo não passa de elucubração, de invenção humana, até mesmo compreensível se pensarmos na fraqueza e fragilidade do ser humano. A razão quando filosofa levanta a crucial questão da causa, do começo e do fim, de como a totalidade do universo veio a ser. Para Nietzsche não há nada fora do todo, e pensar assim, que não há necessidade de um espírito superior, liberta. Afirmar o mundo, afirmar a condição humana, pronunciar-se como um imoralista, quer dizer, para além dos gastos valores de bem e mal inventados para justificar a fraqueza humana, requer força, coragem, novos valores para a vida, nova vida com arte, criatividade, mais uso da intuição e menos daquele tipo de razão apegada à pergunta pela causa. Quem pergunta, o que responde, quais são os conceitos para responder? Valores humanos, linguagem humana, cultura humana. 

Outro ateu não menos famoso, Jean-Paul Sartre (1905-1980), parte da existência humana, da apreensão de si pelo reconhecimento do outro, da liberdade que exige total responsabilidade por tudo o que somos, pelas escolhas que nos engajam. Delas só se foge por má fé. Assim, se as pessoas responsabilizarem Deus pela sua situação, fogem de sua própria escolha, de seus valores e até mesmo da dignidade humana. Ao assumir a sua condição de existir em meio a outros e sempre em situação, rejeita a moral dos códigos prontos e se volta para a humanidade, não como um bloco abstrato, mas enquanto existências concretas.
O que concluir?
Usar a razão, argumentar e demonstrar são recursos da filosofia que podem levar a um ou a outro caminho. Seja qual for o caminho, o que encontra Deus ou o que encontra o homem em sua solidão cósmica, importa o uso que se faz tanto da reflexão como das crenças. Se para impor, explorar, escravizar, violentar pessoas ou se para libertar, abrir perspectivas, inspirar, respeitar pessoas.

sábado, 30 de novembro de 2013

O homem enquanto sujeito

Há algo em comum entre o "homem como medida de todas as coisas", famosa afirmação de Protágoras, o homem racional, cujo cogito (pensamento) é fonte de certeza e o além-do-homem de Nietzsche?
Todos os filósofos abordam o tema do homem, porém de diferentes modos e com diferentes propósitos.
Em meio aos entes, às coisas todas que nos cercam, há um ente cujo ser desvela todos os demais, condiciona o aparecer e as mudanças de tudo: é o homem medida das coisas que são e das que não são, das qualidades, das sensações.Tudo o que se conhece depende de o homem perceber e entender. Tudo é relativo às sensações, às percepções, enfim, ao modo de ser humano.

Mas, para Protágoras nem de longe há um sujeito de conhecimento, fonte de certeza, um sujeito que se sabe ser aquele por meio do qual há representação das coisas e que para isso se serve de algo que apensas ele possui: sua racionalidade, ou melhor, sua alma racional. Pensar, o cogito ergo sum, penso, logo existo de Descartes é em tudo diverso do homem medida de Protágoras. Distancia-os não apenas aproximadamente 20 séculos, mas uma nova visão de ser humano. Protágoras nem poderia entender a subjetividade do sujeito como pessoal, como doadora de certeza, inclusive a certeza da própria existência.

Com Descartes nasce o sujeito moderno, fonte de conhecimento e de liberdade, ele medita e conclui que se ele, Descartes, pensa necessariamente existe. E não simplesmente em meio às coisas do mundo. A metafísica cartesiana pressupõe inclusive que Deus depende do pensamento humano. Pensar em um ser supremo o mais perfeito de todos, sem que, ao mesmo tempo, este ser não exista, é destituí-lo da perfeição da existência. Conceber a perfeição inclui, pressupõe, exige a existência. De sua cadeira, em seu gabinete de trabalho, o filósofo reflete, medita, sabe que é ele o "dono" de si, de seus pensamentos, de sua existência. Não precisa saber do mundo, nem fazer experiências para concluir que a consciência de si basta. Essa autossuficiência é o ponto de partida para o reconhecimento da subjetividade, desse eu interior que tanta importância terá para a filosofia, para a psicologia, para a futura psicanálise, para fundamentar conceitos jurídicos como imputação de culpa ou dolo, para reconhecimento de autoria de obras de arte, etc.

Mal nasce o sujeito moderno, ele se vê, com Nietzsche transformado em vontade vital de superar, de sobreviver, de esforçar-se para obter mais e mais poder, a capacidade de satisfazer impulsos da vontade. Vontade de que? de poder, não no sentido de poder político ou econômico, nem de longe! Poder no sentido de potência vital, todos os entes são dotados desse poder, a vontade não é a de uma pessoa livre, um sujeito que pensa e de quem depende a verdade e a certeza. Esse sujeito cartesiano, metódico, que representa e que tem consciência de representar as coisas, cede lugar à vida, à sobrevivência por meio de luta, de força. Força vital caracteriza o homem, se ele se detiver nos valores de outro mundo, de Deus, do que transcende, é fraco, submete-se ao que ele próprio concebera como valor supremo, "ingenuidade hiperbólica", pois foram valores inventados pelo homem! Não percebe que ele criou o mundo de estilo platônico ao qual se submete. Atender à força vital implica negar os valores inventados para justificar sua fraqueza, e criar novos valores, dessa vez, terrenos. Ir além do homem, quer dizer, a busca de arte, criação, e não de verdade e nem de certeza, leva a potencializar o que é próprio à vontade de poder. Vontade e impulsos no lugar da consciência de si e da representação do sujeito.
Resposta à questão proposta no início, de se há algo em comum entre as três concepções de homem. Sim, há pelo menos nossa ignorância, nossa vontade de saber, os projetos e realizações ao longo da história, a defesa da liberdade de pensamento e da própria filosofia. A filosofia não está morta...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A morte da filosofia (cont.): dogmatismo e ideologização

Dogmatismo deriva de dogma, termo grego que significa o que aparenta, uma opinião ou crença. Para os gregos, em especial para a tradição filosófica que remonta a Platão, a aparência é enganadora. Somente o que está por detrás, o permanente, o essencial é que pode ser concebido como fonte de verdade, ou mesmo como o verdadeiro ser das coisas.
No sentido atual, dogma diz respeito às doutrinas e crenças de uma religião, de uma seita, de uma ideologia, e sempre vem relacionado com um conjunto explícito de regras e normas que devem ser respeitadas e seguidas estritamente, portanto, sem questionamento.
Ora, em que pesem a importância e a necessidade de doutrina e dogmas para as religiões, crenças e seitas, no território filosófico todo e qualquer tipo de dogma é inaceitável, impraticável e incompatível com a filosofia. O filósofo precisa de liberdade de pensamento para refletir, deduzir, expor conceitos, ideias, visões de mundo. 
Mas, a filosofia não busca a verdade?!
Ao considerar a própria questão da verdade surgem diferentes modos de pensar e de conceber a verdade. Isso indica que não há a verdade, justamente reivindicar para si ou para sua corrente filosófica a posse da verdade leva a outro questionamento: se uma escola filosófica ou um filósofo chegou à verdade com seu sistema, ou bem ele é o único verdadeiro (e como ficam os demais?) ou todos são legítimos filósofos e também têm cada qual a sua verdade. Logo, a  verdade é a de cada qual, o que implica negar o conceito mesmo de verdade!
Então, filosofia e verdade são incompatíveis?
Filosofia e verdade como posse, como dogma é que são incompatíveis. O dogmático se vê como o único a chegar ao sistema conceitual verdadeiro e isso é a morte da filosofia.
Realistas, idealistas, céticos, empiristas, analíticos, racionalistas, enfim, cada uma das várias correntes filosóficas investiga, pesquisa, analisa, conceitua e tem sim, concepções diferentes de como a verdade é possível de se atingir, ou mesmo de que não é possível verdade, como os céticos.
Assim, se verdade for considerada a ideia permanente, ou a experiência com dados dos sentidos, ou o que a linguagem estrutura, ou o que o pensamento capacita, isso não significa multiplicar a verdade (o que é absurdo). Isso significa que o trabalho do filósofo é comparável ao cultivo de plantas ou de um jardim, cada espécie vegetal requer um terreno, um tipo de cultivo, uma época de colheita, etc. Um jardim difere de outro, entrar num deles e usufruir de sua sombra ou beleza, não impede apreciar outro(s).
***
A ideologia não tem nada a ver com verdade. Justamente, é um modo de julgar e de avaliar que passa por um conjunto de propostas de ordem social, política, jurídica, que influencia e é influenciado tanto pela sociedade na qual nascem e da qual fazem parte, como pela época histórica da qual são também parte integrante. Abolir ideologias, nas atuais sociedades de Estado, com organização política, partidária, com tipos de governos e poderes legítimos, levaria automaticamente à imposição de uma única ideologia. Exemplos recentes: URSS stalinista, China de Mao, "república" dos aiatolás e, infelizmente, outros mais, houve ou há a imposição da ideologia única.
Ideologizar ocorre quando uma ideologia é importada da sociedade política e penetra com disfarces na filosofia e no seu ensino, nas pseudo narrativas históricas, nas concepções pedagógicas, e sempre que certo modo de ver e de pensar se propõe como salvador, como promissor da redenção de todos os males, da desigualdade social ao fim do lucro e da exploração.
Esse tipo de ideologização penetrou fundo no sistema "educacional" brasileiro há algumas décadas e "fez a cabeça", como se diz, de um sem número de professores, autores de livros didáticos, pedagogos, e de propostas para a educação. 
Ideologização e dogmatismo se dão as mãos no projeto educacional brasileiro, gerações adotam o pensamento único e a verdade universal de que a visão marxista da história como luta de classes é a verdade.
Morre a filosofia e também a educação...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A morte da filosofia: incoerência, inconsistência, contradição

As condições basilares da escritura filosófica são a coerência, a consistência e a intenção de evitar contradições. Daí o título indicar que a filosofia (e demais textos teóricos, científicos, jornalísticos) são feridos de morte quando há neles incoerências, inconsistências e contradições.
A incoerência decorre muitas vezes do despreparo do autor, muitas vezes como que perdido em meio às ideias e conceitos do filósofo abordado, do tema estudado ou de ambos.
A coerência reside em indicar os propósitos e objetivos do texto ou do estudo, ir fundo neles, explicitá-los para o leitor ou estudioso do assunto e/ou do filósofo. Se o objeto de estudo for um filósofo, por exemplo, Platão, especificar o modo como será abordado, quais diálogos, com que objetivo. Ser coerente implica em formação intelectual, honestidade consigo e com o leitor, segurança, completude nos raciocínios e argumentação. Ou seja, evita-se a repetição, a vagueza, as frases longas e complicadas, os conceitos mal delineados. 
Wittgenstein teria sido incoerente com seus princípios e conceitos na passagem da lógica do Tractatus para a linguagem cotidiana de Investigações Filosóficas? Não! Ele permaneceu coerente com seu objetivo ao fazer filosofia: a busca da base, da ponte, do que permite pensar, falar, compreender, verificar a verdade ou não de enunciados, enfim como entender o funcionamento da relação entre linguagem e realidade. Se fosse incoerente, não seria filósofo!

Quase nunca se discute a necessidade da consistência, tanto a dos textos a serem elaborados por alunos e pesquisadores na área da filosofia, como o que representa a consistência no pensamento e nas doutrinas dos filósofos. O texto se firma em pé ou desmorona a cada parágrafo? Contribui para o exercício do raciocínio, da reflexão, há nele alguma argúcia, ou se perde em minúcias inúteis ou generalidades vazias? O texto tem o que dizer, renova pelo menos algum modo de ver, de interpretar? Traduz um tema ou autor de modo interessante e instigante? Ou é morno, raso, terminada a leitura nada fica, nada se modifica em nossas visões? É enriquecedor ou pobre? Diz a que veio ou se arrasta cansativamente?
Mesmo difíceis, os filósofos todos produzem reflexões consistentes, por vezes pesadas. A superficialidade e os artifícios ficam longe da filosofia. O famoso ditado de Sócrates "Só sei que nada sei" é a um só tempo revelação, renúncia, absolutamente consistente com sua meta, a de aprender sempre e de ensinar, a "douta ignorância" que permite ao filósofo reiniciar, sempre.

Contradizer-se é ainda mais grave: afirmar algo e em seguida negar, basear-se no conceito X e mais adiante considerar esse mesmo conceito como inválido. Por vezes, na mesma sentença declara-se que, por exemplo, é possível obter verdade, mas que a verdade é impossível! 
Quanto à contradição há um problema extra: os dialéticos a têm como fundamental. Ser e não ser na transformação e evolução histórica, assim como ontologicamente, se determinam mutuamente, um depende do outro para haver mudança, devir ou vir a ser. Mas não é disso que se trata quando se diz que o filósofo e a filosofia não podem ser contraditórios. O que fazer diante de duas afirmações contraditórias? Contradizer-se impede a argumentação, defender ideias e ideais, chegar a conclusões, "fechar" um raciocínio. Impossível defender a tese de que o cogito, o "eu penso" é fundamental e negar o poder do pensamento individual. Se Descartes assim o tivesse feito, não seria filósofo.
Isso não significa ser possível e desejável olhar e interpretar as várias facetas do que está sendo investigado. Se A, então... tal. Se B, então...tal. Isso não é contraditório, amplia as razões para se refletir e fazer filosofia.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A importância da Filosofia

Um dos mais interessantes paradoxos da filosofia (tanto em sua longa história quanto como matéria de estudo e reflexão) é que ela não tem nenhuma aplicação imediata, por vezes é incompreendida, descartável e mesmo ridicularizada, e nada disso impede, pelo contrário, estimula, a que filosofar e os filósofos sejam imprescindíveis.
Como interpretar essas duas atitudes antagônicas?
Em sociedades tecnocráticas, de produção e consumo imediato de bens e serviços, sendo inclusive a educação vista como um desses bens, é possível dispensar a Filosofia devido a sua inutilidade. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade produz um efeito inverso: para que servem todos esses bens e produtos? Eles satisfazem e preenchem todos os aspectos e vicissitudes da vida? Basta trabalhar, pesquisar, comprar e vender, cumprir horários e realizar tarefas? E isso quanto à vida cotidiana.
E as outras questões mais profundas e amplas, que não se restringem à economia, à política, que partem para problemas como o da aplicação da justiça e dos direitos humanos, como conciliar as relações entre poder público e vida privada, liberdade e cidadania?
E quando sociedades inteiras se mobilizam por meio da religião e consideram sua crença como única, verdadeira e insubstituível, como ficam as demais doutrinas religiosas? Qual é o valor, afinal, dessas crenças? Se elas respondem pelo sentido do cosmo, pelo sentido da vida, se preenchem os anseios pela busca de um bem supremo, de um ser superior, se suprem as necessidades espirituais, como ainda assim a filosofia permanece viva e atuante?
A necessidade da filosofia é inerente à capacidade racional de compreensão, de indagação, de atenção e cuidado pelo que é básico e fundamental. O que funda, o que fundamenta nossa capacidade de conhecer o que nos cerca e o que somos nós, seres humanos? Como entender que o tempo nos constitui, tanto o tempo de todas as coisas que nascem e morrem, como o tempo sem o qual não há memória, nem apreensão das situações presentes, nem possibilidade de projetar, de planejar, de imaginar o futuro e novas situações?
E quando o tempo se transforma em puro acaso, quando ocorrências díspares confluem e mudam inteiramente o fluxo de nossa existência? O que é causado e pode ser dominado, e o que é fortuito e escapa ao nosso controle? 
Nessas condições, é possível filosofar?! Note que a pergunta instiga a pensar justamente sobre a condição humana!
Se a ciência responde com leis da física sobre moléculas, átomos, teorias sobre o início do universo; se a biologia responde sobre a origem da vida e sua evolução; se a medicina avança e mapeia o cérebro e todo o corpo, previne e controla doenças, prolonga e dá condições para saúde e bem-estar; enfim, se as ciências controlam muitos fenômenos e os explicam, a filosofia ainda assim persiste.
E isso porque ela segue outro caminho. Seu campo de saber é o das avaliações, a pergunta pelo sentido da vida, apreender todos os entes existentes por meio de categorias e conceitos gerais, como: causalidade, totalidade, verdade, teoria, matéria e forma, ideias, mente, tempo, eternidade, finito e infinito. Não se prova e nem se comprova nada nessas digressões, nessas interpretações, nessas valorações. 
Elas insistem e persistem porque ao pensamento não é dado não pensar.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pensamento metafísico: totalidade, ente e ser

Nas preleções de Heidegger sobre Nietzsche, na Universidade de Freiburg, entre 1936-1940 (Vol. I Nietzsche, editora Forense Universitária, trad. de Marco Antonio Casanova, 2010, 510 páginas) aprende-se muito não só sobre Nietzsche, mas também sobre metafísica, história da filosofia e as próprias teses heideggerianas.
O ponto central é a pergunta da metafísica, feita há muito pelo pensamento grego, "o que é o ente?" Para Heráclito, o ser do ente, isto é, para os entes (ente é tudo o que há, exceto o nada) serem, o que os faz existirem de certo modo, seu ser, é o devir. A causa primeira é o devir. Para Parmênides o ser dos entes vem de sua permanência.
Heidegger mostra que Nietzsche pergunta também sobre a totalidade, mas extrai essa questão da própria história da filosofia; a ele interessam os percursos do pensamento, inclusive o devir e a permanência do ser, que ele absorve. Mas rejeita o platonismo que permeou todo o pensamento ocidental. Para o platonismo, os entes se constituem de ideias, que são ideais como o nome indica, de outro mundo, não do nosso mundo sensível. Assim ficou postulada a existência de um além perfeito e difícil de alcançar e concomitantemente a noção de que o mundo em que nos movemos é falho e imperfeito.
Nietzsche considera que a inversão do platonismo valoriza a vida em um sentido amplo (entes animados e inanimados, orgânicos e inorgânicos), e vida para ser valorizada requer novas perspectivas, novos valores. Onde encontrá-los e como modificá-los?
Na vontade de poder, pela força (não física e nem moral) do devir, do retornar sempre, do encontro entre passado que já não é, e futuro que vem a ser. O ente na totalidade é eterno retorno do mesmo. O encontro de passado e futuro se dá no instante, nele o tempo é como que "agarrado". Daí a força, que nega a conciliação final e resiste na luta permanente, nos eternos elos da corrente do tempo. Todo ente que é, é vontade de poder. Existe por ter lutado, resistido; impulso, paixão, sentimento caracterizam a vida, que por isso é vontade de poder, mais que razão e lógica.
Aquele que pode produzir é o artista, o sentido disso para Nietzsche vai além da produção de obras de arte propriamente ditas. Isso porque o ente se faz, se produz, cria. A arte combate o niilismo entendido como anulação dos valores que promovem vida e renovação. Na história ocidental tem prevalecido o niilismo, a negação da vida, da embriaguez de viver, da plenitude; a doutrina do eterno retorno traz ao ente abertura, audácia, risco e não aceitação passiva de considerar que, como tudo volta, não preciso fazer nada.
Esse lado estético caminha pari passu com a metafísica, esta entendida como a pergunta que o filósofo faz acerca do que determina o ser dos entes. E a metafísica de Nietzsche, sustenta Heidegger, é o eterno retorno do mesmo.
Esse "pensamento pesado" ocorreu a Nietzsche na solidão, na compreensão de que abismo pressupõe altura, que na luz do meio-dia, sem sombras, tudo retorna, as coisas são finitas e voltam eternamente. A força finita reside no instante, se fosse infinita, não teria do que extrair força. Só se extrai força, vida, de coisas finitas nesse devir constante.
Solidão inspiradora  de Nietzsche em Sils Maria - Suíça

Portanto, a pergunta metafísica fundamental pela totalidade dos entes, como eles se perpetuam, seu modo de ser, é o eterno retorno, a totalidade do mundo é caos (nada a ver com teorias científicas). E para haver e terem sentido o tempo, a vida, o instante, é preciso o homem. Este deve ser pensado a partir do mundo e o mundo a partir do homem. É preciso partir de um canto, de um lugar, e não há como perguntar sem a linguagem, que é humana. Desse modo, o que pertence ao homem o leva para além do homem.
É como se Nietzsche tivesse proposto um pensar difícil em lugar de pensar na resposta pronta de um mundo platônico, ou em uma causa inicial ou final para todos os entes. 
Sem causa primeira nem final, tudo vem a ser eternamente. A enigmática doutrina do eterno retorno foi o difícil pensamento que ocorreu a Nietzsche, aceitar e amar a vida, aceitar isso que ocorre basta. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Algumas dicas para trabalho científico - mestrado

Diretrizes para dissertação de mestrado

                                                                   
             Quando lecionava no programa de mestrado da PUCPR, criei este texto, que pode ajudar na elaboração do projeto e na própria dissertação de mestrado.
              A dissertação segue as mesmas exigências de um estudo científico, como um estudo monográfico. Assim como a tese de doutorado, a dissertação versa sobre um tema no qual foi feito um recorte bem delimitado, acerca de um autor (es) e/ou assunto. O importante é a delimitação, o alcance, os objetivos da abordagem ficarem claros, não pode haver superposição e nem cabe abordar o que não diz respeito ao tema/autor(es) propostos. Nela são abordados aspecto(s) relevante(s) sobre dado assunto em uma área do saber científico ou especializado. Trata-se de um trabalho que provém de leituras, experiências, observações feitas pelo profissional ou estudante, trabalho esse que vem contribuir para abordagens teóricas e práticas, com novas visões de um problema, sugestões, críticas, enfim, tudo o que possa contribuir para o avanço do saber. 

O projeto bem elaborado é o passo inicial. É preciso:
1.    Determinação do tema/problema a ser abordado: deve ser relevante, deve evidenciar a formação em uma especialidade, aprofundando um aspecto da área estudada ou das experiências do profissional, mostrando que sua proposta é séria e produtiva. O tema deve ser interessante, o problema deve ser bem formulado e bem analisado. Para que surja a problematização, o pesquisador deve ter feito leituras, questionamentos, vale sua experiência profissional, alta dose de criatividade, curiosidade intelectual e, principalmente, ideias inteligentes. Se o problema for bem colocado, começam a surgir hipóteses de trabalho que serão desenvolvidas a partir de uma ideia central e dos objetivos a serem atingidos.
2.    Levantamento das hipóteses: as hipóteses são questionamentos como: Por que não?  Como isso se dá? Qual a origem ou fonte do problema levantado? Como solucionar certas questões? Quais são os resultados possíveis de certas abordagens? O que fazer diante de um suposto diagnóstico do problema levantado? O problema levantado tem em vista quais novas perspectivas? A causa provável de tal anomalia ou as causas prováveis quais seriam? Por que justamente essas causas ou essa problemática é mais atuante e mais importante do que outras? Sem essas hipóteses o trabalho resulta em banalidades ou repetições, sem problematização a pesquisa fica sem rumo, sem objetivo, fora de propósito.
3.   Levantamento de bibliografia: pesquisa em bibliotecas e institutos, pesquisa na internet, sugestões do professor orientador, enriquecimento de fontes a partir de livros básicos. 
4.  Cronograma detalhando as etapas da pesquisa.

A dissertação:
1.   Após a seleção e leitura de capítulos, itens, artigos, é proveitoso fichá-los na forma de resumo, esquema ou resenha. É do estudo desta bibliografia e dos assuntos selecionados nos esquemas ou resumos, que sairá o trabalho final. Essa coleta bibliográfica não deve ser apenas cópia, mas sim uma análise dos pontos essenciais e dos argumentos desenvolvidos nos textos. Isso possibilitará a redação final da dissertação. 
2.   Estrutura da dissertação: o trabalho se compõe de uma introdução (tema, objetivos, justificativa), itens desenvolvidos: hipóteses abordadas, desenvolvimento dos objetivos, em que entram: análises, modo de desenvolver os aspectos principais do tema, resultados alcançados e isso tudo de forma lógica, argumentando e mostrando a situação do problema, o modo como a questão pode ser abordada; conclusões com um relato resumido dos objetivos alcançados.
3.      Pesquisa propriamente dita: há várias metodologias de pesquisa, que variam conforme a natureza do tema e do problema; elas podem vir isoladas ou combinadas:
      a) Pesquisa bibliográfica: já mencionada acima; b) pesquisa laboratorial e/ou de campo: requer recursos experimentais como resultado de observação participante, investigação de um campo de estudo, em que ideias ou problemas possam ser examinados, selecionados, organizados, manipulados, demonstrados. Eles são fruto de observação inteligente, de experiências dirigidas por uma ideia ou hipótese, análise dos resultados obtidos, intervenção para corrigir desvios, investigação do modo como certos casos se desenvolvem, se modificam, enfim, é preciso um local (laboratório ou campo pesquisado), um objeto/problema/caso a ser investigado e meios disponíveis para a verificação de cada etapa da pesquisa e de seus resultados; c) estudos a partir de documentos: ir às fontes documentais, recorrer a dados estatísticos, estudos de institutos especializados. Em algumas áreas esse estudo é complementado com entrevistas, questionários, estudo de casos, registros documentados de uma série de observações que representam o resultado de uma atividade acadêmica (relatórios de pesquisa ou de estágio) ou profissional, inventários de acompanhamento da evolução de um ou mais casos (com tratamento estatístico), as intervenções realizadas e os resultados obtidos.


Todo estudo bem feito tem resultados que fazem avançar o estado da arte, a situação da área investigada, apontando perspectivas novas, soluções criativas, mostrando onde há erros, desvios, o que pode ser aperfeiçoado, enfim, resultados em termos de avanço científico, ou aprofundamento de um tema, desenvolvimento de um novo produto ou artefato, de uma tecnologia ou de um método de trabalho mais produtivo. E isto só se dá com estudo sério, projetos úteis e interessantes, uma grande dose de ousadia e curiosidade, gosto especial pela sua área de atuação, e um preparo profissional adequado e estimulante.
Há que se evitar a mera repetição, temas desgastados, e a "inútil erudição".

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Impossível ser filósofo sem ser justo


Diógenes de Laércio relata a seguinte passagem: “Conta-se ter dito Heráclito a estranhos que o queriam visitar e espantam-se ao vê-lo aquecer-se junto ao fogão: podeis entrar, aqui também moram deuses”. Filosofia e vida cotidiana, essa união de real e ideal é o alimento da filosofia: há duas esferas, aquela em que projetamos como ideal filosófico a sabedoria, o logos; e a esfera prática com a necessidade de pensar, avaliar e lidar com as condições históricas herdadas e as experimentadas. 
A filosofia e seus objetos de análise mudam com o passar do tempo histórico e o surgimento de novos temas e problemas.  Permanece a necessidade de pensar, raciocinar, ampliar o limiar da razão reflexionante, mas sem ultrapassar esses limites, pois não há como usar a razão e, ao mesmo tempo inventar procedimentos que fogem às regras do pensar. Quer dizer, estamos sempre imersos na lógica do possível, nos signos aprendidos, nas formas significantes.  

***
A filosofia circunscreve quatro dimensões: a da atividade filosófica na cultura; a do rigor da reflexão, ou seja, o uso de conceitos próprios ao pensar de tipo filosófico; a dimensão da vida prática e as possíveis transformações; e aquilo a que a filosofia pode almejar e permite alcançar.
Como exemplo da primeira dimensão, Dewey (1859-1952) mostrou que a filosofia não pode se restringir às puras Formas, ao Ser, às Ideias como entidades em si mesmas, sublimes e superiores. Assim ela se fecha, se torna missão de experts e como tal inacessível como bem cultural e imprestável para a tarefa educacional. Pelo contrário, as noções, as ideias, os conceitos, os propósitos da filosofia devem e podem ser abertos para um público mais amplo. O uso do vocabulário hermético, a pseudo erudição e a superespecialização, nada mais são do que refúgio de intelectuais afetados e pouco ou nada afeitos à difícil tarefa de levar a reflexão para iniciantes, para a escola, para a discussão pública de ideias. 

O segundo ponto, o rigor da análise e da reflexão, a tarefa intelectual de busca da exatidão, do conceito apropriado, da noção iluminadora, podem ser ilustrados por Wittgenstein (1889-1951), com a atitude prático-teórica do uso habitual de conceitos, sempre relacional, com papel específico em nossas formas de vida. A filosofia tem a função terapêutica de reconduzir os conceitos ao seu uso normal, cotidiano.  Se alguém tem dificuldade em compreender o conceito de "essência", por exemplo, veja como este signo é empregado nos jogos de linguagem cotidianos. Exercita-se a análise e mergulha-se nas indagações, sem precisar de inúteis erudições.

O terceiro aspecto, o que a filosofia permite realizar, sua missão pedagógica, reside em capacitar à reflexão, à abstração, à apreensão da realidade, em três áreas afins: a da ética e da política; a da crítica cultural; e a dimensão do sujeito, isto é, a análise das formas pelas quais experimentamos nossa subjetividade, nossa individualidade.
Para Aristóteles (385-322 a C.), a ética e a política são co-dependentes. A sociedade política é um bem para todos, o homem é um animal social com noção do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião para o viver bem, possibilitar uma vida feliz e virtuosa; justo é o governante que busca a felicidade geral. 
Quanto à cultura, Nietzsche (1844-1900) critica a adesão a valores gastos, é preciso reinventá-los, como faz o poeta solitário. A cultura, diz ele, foi arrancada da simplicidade e da contemplatividade, há pressa, as águas da religião fluem e refluem, deixando para trás pântanos e poças; as nações se separam e querem esquartejar-se; nessa mundanização, as classes eruditas não são mais o farol, impera a barbárie, inclusive na arte e na ciência (cf. Considerações Extemporâneas).
E o sujeito? Foucault (1926-1984), analisa a história das práticas humanas que constituíram o sujeito moderno, o que desmistifica a pretensa essência, universalidade e unidade do homem. 

E a última característica, o que se pode almejar com a filosofia? R. Rorty (1931- 2007) diz que ela não nos impele e nem obriga a um dever acima da reflexão e da crítica nem à defesa cega de uma ideologia; a filosofia não serve para solucionar problemas, para tal há governos e diversas ciências que podem oferecer soluções e novas práticas para problemas sociais, políticos e econômicos. Mas ela é indispensável para nossos projetos de vida, para transformar e apontar direções, para alcançar mais solidariedade, respeito à diferença, liberdade de crítica. A liberdade é imprescindível, sociedades com liberdade plena para refletir e agir, para valorar e criar, evitam o medo, a intolerância, o sectarismo, a cegueira ideológica. 

Daí o título desta postagem: o filósofo ao refletir, avaliar, ser criterioso, ponderar, só pode e deve ser justo. 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Impressões do Congresso Mundial de Filosofia - Atenas 2013

Pelo número de participantes, contei aproximadamente 2600 congressistas, a filosofia continua bem viva. Atenas acolheu no campus da Universidade, escola de Filosofia, esta multidão, de forma bem organizada, com bastante informação e oportunidade de pessoas do mundo todo se encontrarem e trocarem ideias.
Poucos brasileiros, muitos norte-americanos, chineses e japoneses. A maioria das palestras e comunicações em inglês; filósofos e áreas da filosofia, acho que todos foram contemplados.
Quanto à qualidade, apesar de ter assistido a poucas palestras e comunicações, não seguiu a quantidade. Nota-se que nos EUA filósofos europeus são apreciados e estudados, mais do que os próprios filósofos americanos; que no Japão há uma grande preocupação com a reflexão sobre meio ambiente, as catástrofes sofridas (bomba atômica, vazamento nuclear de Fukushima) são lembradas como resultado infeliz da aliança entre ciência e tecnologia; minha curiosidade com relação ao que chineses produzem em matéria de filosofia não foi satisfeita pelo obstáculo da língua, as reuniões da sociedade chinesa foram realizadas em chinês, é óbvio.
Uma impressão marcante foi a deixada por jovens filósofos, apaixonados, estudiosos e dedicados. Entretanto, ao ouvir um rapaz esloveno, em excelente inglês, discorrer sobre Descartes, ainda que enfático, em nada mais resultou do que repetição do que escreveu o filosofo em Meditações e no Discurso do Método. Isso produziu uma dúvida cética (cartesiana?) sobre o sentido de se conhecer, citar e repetir, sem mover nada, sem modificar nada de nossa situação, sem propor nada.
Creio que os estudos em filosofia e o conhecimento de história da filosofia precisam ultrapassar a erudição, o pleno saber acerca das ideias e conceitos filosóficos, e atingir o patamar seguinte que é o do uso para educar, para abrir a cabeça dos jovens e dos alunos para questões essenciais e também para as questões banais, do cotidiano. A filosofia deve ser inspiradora e não apenas repetição e erudição, não apenas citação ou copia e cola, não reduzida às extensas pesquisas bibliográficas para impressionar bancas examinadoras.
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E Atenas, a cidade, os monumentos, os museus? E Delfos com as deslumbrantes ruínas no Monte Parnasso? E o templo de Zeus, o Parthenon? 
Maravilhas destruídas por imperadores romanos, pelo avanço do cristianismo, pela civilização bizantina. Milhares de estátuas destruídas por representarem o mundo pagão!!!
Imperadores e exércitos, entretanto, não destruíram o legado civilizatório e cultural do mundo grego. Arte, arquitetura, teatro, poesia, literatura, matemática, filosofia permanecem vivos nos conceitos, na linguagem, no imaginário, na base daquilo que a civilização ocidental se tornou. Eternos.
Oráculo de Delfos

domingo, 28 de julho de 2013

Tirem as máscaras!

É lamentável que os protestos venham degenerando em bagunça, violência, ataques ao patrimônio público e privado.
Como seria a vida em sociedade sem bancos funcionando, sem sinais de trânsito, com lojas depredadas?
Por que até agora a polícia não prendeu os que merecem, interrogou-os para saber qual é a intenção dos vândalos, de onde eles vêm, quem são esses mascarados covardes, por que não pagam pelos seus crimes?
Será que não perceberam (ou perceberam e são de alguma forma instigados por algum tipo de autoridade) que infiltrados nos movimentos legítimos provocam resultado oposto, isto é, a perda de apoio da população?
É urgente criar um movimento que os denuncie, arrancar a máscara, inclusive a do famoso sorriso, que já cansou, e mostrar a cara.
Mostre a sua cara ou caia fora, essa deveria ser a palavra de ordem!
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E que dizer dos protestos durante e em meio a visita do papa Francisco?
Falta de respeito pelo outro, pelas posturas e crenças de cada religião, por movimentos que engajam multidões e têm tradição internacional. 
Quando há discordância, ela pode e deve ficar explícita por meios que possibilitem responder, argumentar e não forçar a barra!
A "Marcha das Vadias" tem hora e lugar próprios para surtir o efeito desejado, que é o protesto das minorias sexuais, a denúncia da violência contra as mulheres, o direito de se vestir conforme seu gosto e não segundo normas sociais padronizadas.
Até aqui, tudo bem.
Mas promover a destruição pública de estátuas choca, revolta, pois é em ambientes de fé que elas são expostas. Isso lembra fanáticos de certos cultos que invadem igrejas para quebrar imagens.
Ridículos!
Qual é o efeito? Nunca o de crítica social, moral e ética, e sim o efeito deletério da falta de respeito pelo outro, sua crença, sua religião, seus valores.
Protesto justo é aquele em que se defende um direito, um valor, um modo de vida quando atacado.
Protesto justo é aquele em que se denuncia governantes relapsos, corruptos, acomodados no conforto do poder.
Protesto justo é aquele em que se luta por representação, por direitos legítimos que a maioria, habitualmente silenciosa, reivindica. A voz da sociedade precisa e deve ser ouvida.
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Denunciem os covardes baderneiros, pois, aparentemente, a polícia "protege" o protesto pacífico e só aparece após o fim do vandalismo. Esquisito, não? 

sábado, 13 de julho de 2013

Deixem Nietzsche em paz!

Há uma exploração indevida e inapropriada da filosofia de Nietzsche. Em especial a literatura de autoajuda considera que o filósofo da transvaloração dos valores pode ajudar a eliminar o stress!!!
As propostas de Nietzsche jamais poderiam ser usadas para aliviar o cotidiano de trabalho e de incômodos próprios a nossa sociedade. Trata-se de péssima literatura, que distorce noções básicas do filósofo apenas em proveito de um mercado que se expande a olhos vistos.
Eis algumas das relevantes contribuições de Nietzsche para pensarmos a filosofia, a vida, os valores e o destino humano.
As concepções filosóficas tradicionais inventaram categorias que se opõem entre si, como o devir dialético da história, vir a ser e nada, progresso e bem-estar. Essas "múmias conceptuais" impõem sentido a tudo, como a noção de causalidade, quando não passam de pressupostos metafísicos da linguagem.
Nietzsche admirava os "espíritos livres", abominava o espírito gregário, de rebanho, dos que se deixam conduzir, pois é fácil aceitar guias prontos (como os manuais de autoajuda....). Coragem, força, sem instinto gregário, auto-criação de tipos renovadores, inspiradores, que conseguem encontrar alegria como a do riso infantil, que possam contemplar do alto a paisagem, que criem seus valores sem necessidade de código moral. E isso sem pressão externa, sem modelos prontos, com autonomia.
Não há um estado final das coisas, nem prêmio nem castigo, há o jogo da vida como uma dança à beira do abismo.
Nietzsche enfrentou até mesmo o niilismo. O niilismo budista, passivo e pacífico, e outros niilismos (apesar de admirar escritores russos como Dostoiévski) podem ser confrontados pelo espírito livre de um Zaratustra ou de um deus mitológico dionisíaco. 
O filósofo fala ao corpo, aos ritmos da música, à dança. Ao mesmo tempo exige de si o máximo de força e coragem contra o ideal de felicidade do homem medíocre.
Vontade de poder resume seu pensamento, ela alimenta o jogo, a luta, percorrer novamente os desvãos da história para mostrar a emergência, entre outras determinações, da consciência moral e do ressentimento. Impedidos de alçar ao topo e ver com seus próprios olhos, os líderes da fé inventaram a consciência moral, são ressentidos, quer dizer, preferem a culpa à grandiosidade, consideram meritoso o que baixa a cabeça e diz amém a tudo.

"O homem que se tornou livre, e ainda mais o espírito que se tornou livre, calca sob os pés a desprezível espécie de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é um guerreiro. Segundo o que se mede a liberdade em indivíduos como em povos? Segundo a resistência que tem que ser superada, segundo o esforço que custa permanecer acima (...) É preciso ter necessidade de ser forte, liberdade, algo que se tem e não se tem, que se quer e que se conquista" (Crepúsculo dos Ídolos).
Difícil e complexo filósofo! Atenção mulheres, inclusive com aspectos hoje inaceitáveis, como a misoginia. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Clamor da ruas no Brasil

Não poderia deixar de apoiar as corajosas manifestações de rua destas últimas semanas. Junho de 2013 é um marco. Muito já se disse e com propriedade por jornalistas e pelo público em geral. Chegou a vez dos governantes. 

Mas o pacote de Dilma não passa de engodo, de tentativa de defesa ao se ver acuada, sua popularidade descendo, o risco de não se reeleger.
Manifestantes voltarão para suas casas, seus locais de estudo ou trabalho, e não deixarão de se conectar, de prestar atenção aos próximos acontecimentos e de responder com novas manifestações.

A pergunta que não quer calar:
Se a presidente tem maioria ampla no Congresso, por que as necessárias reformas não saem nunca?
Porque o próprio governo criou um esquema do toma lá, dá cá. Interesses eleitoreiros se sobrepõem às necessidades do povo brasileiro.

Por medo do clamor, um pequeno grupo de estrategistas do governo se reuniu em busca de uma fórmula, mais uma, de enganar, de ganhar tempo e de apostar no arrefecimento dos ânimos. A fórmula, mais uma vez, é um pacote de intenções que silencia sobre o modo como serão aplicadas e se de fato significam melhoria para as condições de vida dos brasileiros.
Exemplo: aplicar royalties da exploração do petróleo para a educação. A qualidade do ensino não melhora automaticamente com mais verba. É preciso saber como e no que aplicar. A formação de professores comprometidos com a educação não é algo que se mede com mais computadores, construção de salas de aula, laboratórios, bibliotecas, transporte escolar entre outras medidas com visibilidade.
Formar professores e tornar a escola proveitosa e interessante leva tempo e requer compromisso, disposição, mudança. O aluno no ensino médio se desinteressa por conteúdos com fórmulas e mais fórmulas! Elas servem para que? 
Não há professores suficientes para atuar nas disciplinas de Física, Química e Matemática. Sem uma revisão crítica na qual se deve dar atenção ao sentido e ao papel dessas disciplinas tanto na vida escolar como no futuro profissional dos jovens, o abandono da sala de aula só aumentará. E esse é só um dos problemas da escola e da educação no Brasil.
E o mesmo acontece com cada uma das medidas do pacote anunciado ontem, dia 24 de junho. 
A governante fez vista grossa, Lula foi participante do esquema do mensalão e agora os mesmos vêm a público com cara de inocentes!

Restam instrumentos da democracia para derrotar governos corruptos, incompetentes e exploradores da boa vontade dos brasileiros.
As eleições de 2014 se aproximam, é preciso escolher bem!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As críticas do ceticismo e do pragmatismo ao idealismo

Quantos "ismos"! Em filosofia é assim mesmo, as oposições teóricas decorrem de princípios, de fundamentos e de conceitos.
Tanto o ceticismo antigo, moderado ou radical, como o ceticismo moderno partem do princípio de que as dúvidas do sujeito e as aparências e instabilidade dos objetos impossibilitam certificar-se de que o conhecimento leve à verdade e que a realidade assegure tal verdade e certeza. A realidade pode confundir, as situações mudam constantemente, e nossa compreensão e acesso ao que nos cerca varia de pessoa a pessoa, de lugar a lugar e, hoje diríamos, de cultura a cultura.
O fundamento do cético é o de que não há fundamento algum, e esse paradoxo não pode ser resolvido, pois seria preciso sair do estado de dúvida e assim estabelecer um fundamento e isso é impossível. O ceticismo quanto a ideias puras e conceitos a priori decorre da própria experiência que mostra sempre novas facetas, que crenças antigas são reveladas falsas, que há mudanças e evolução na ciência, nos valores, nas representações sociais. "Por experiência, diz Montaigne, se sabe que a multiplicidade de interpretações dissipa e quebra a verdade", nunca se julgará a mesma coisa de modo análogo e não há duas opiniões semelhantes sequer na mesma pessoa, completa esse pensador cético em Ensaios (1571). 
Michel de Montaigne (1533-1592)
O conceito de conjectura e o de dúvida permeiam o pensamento cético, podemos conjecturar, mas nunca saber nada com certeza. Esse enunciado faz sentido: se tivéssemos tanta certeza por meio de sensações e de ideias, veríamos o mundo como os primeiros cosmólogos o viram e o interpretaram...

O ponto de partida do pragmatismo, escola norte-americana que tem em W. James e J. Dewey seus principais representantes (século XX), é a ação humana transformadora. A verdade precisa ter serventia, uma utilidade, um uso. O princípio de causalidade que para Kant é uma das bases do conhecimento, para o pragmatismo não passa de um modo de lidar com as coisas, de experimentar e de poder empregar nosso conhecimento. Ideal e real não são categorias puras, são recursos inteligentes para transformar a natureza, para construir não mundos platônicos ideais e superiores, que transcendem e são inalcançáveis. Construções ideais são projetos que podem melhorar a vida, mas que precisam ser factíveis. Que os homens possam nelas habitar. 
Os conceitos do pragmatismo são os de ação e reconstrução. A possibilidade de reconstruir, de refazer fica em aberto dando a chance permanente para a mudança. Esta não segue a direção da história idealizada por Hegel, por exemplo, pois os caminhos se multiplicam e podem ser mudados de acordo com as necessidades de um povo, de um país. Como? pode ser por meio de uma constituição, da eleição de bons governantes, mas o meio principal para Dewey é a educação em aliança com a democracia.
John Dewey (1859-1952)
Finalmente, a crítica do materialismo ao idealismo. Princípio: não há espírito nem divino e nem de um povo, há matéria produzida pelo trabalho humano. Conceito principal: conhecimento se baseia em dados coletados  pelas ciências (história, antropologia, física, economia). O fundamento teórico é de que teoria e prática se completam. Conhecer para transformar é seu moto, ele parece com o do pragmatismo, mas seu viés é político e ideológico. A meta é a revolução do proletariado, a conquista do trabalhador do produto de seu trabalho, a propriedade dos meios de produção distribuída entre todos de modo igualitário. Esse materialismo marxista, se revela no fundo um projeto de revolução social e econômica; um materialismo baseado, paradoxalmente, em ideias de luta social, na pressuposição de que na sociedade ideal as classes sociais desapareceriam.
Karl Marx (1818-1883)

Algumas conclusões: convém duvidar quando for o caso, pesquisar sempre, buscar as mudanças e transformações que sirvam para a melhoria da situação humana. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

O que é realismo? O que é empirismo?

O realismo toma por base, como o nome indica, a realidade das coisas tais como elas se apresentam, os objetos como origem de todo conhecimento, aquilo com que nos defrontamos é aquilo que conhecemos, impossível iludir-se ou enganar-se quanto a isso. A realidade não é uma construção do sujeito.
Por essas razões, os realistas criticam o idealismo filosófico. Para que multiplicar entidades em um mundo platônico ideal, pergunta Aristóteles. A essência dos seres reside em sua individualidade, em sua especificidade. Todo ser possui uma essência que o caracteriza e o distingue, e acidentes, isto é, o modo como se apresentam, seu estado, seu lugar, seu tempo. 
O realismo vem até a filosofia atual. Moore é um dos principais representantes. Ele argumenta ser impossível  negar que "Isso é uma mão" se refere realmente à mão da pessoa; essa constatação é também a base para um juízo verdadeiro sobre a realidade.

A corrente do empirismo é inglesa, surge no século XVII. John Locke era médico, e a ciência o ensinou que a experiência é o ponto de partida e a finalidade de toda atividade do pensamento, que as ideias provêm todas das sensações por meio das quais nossa capacidade intelectual surge e se desenvolve. A mente é vazia até o contato com o mundo, depois vêm as ideias, a imaginação, a memória, há o papel da linguagem na transmissão e conservação do pensamento. Todos os princípios e máximas morais são produto da cultura e não inerentes ou inatos. Podemos aprender sempre, é pelo uso da razão que crianças aprendem, mas esse uso depende inicialmente das sensações, e estas levam à reflexão. Nada há a priori na mente, nenhuma forma, nenhum princípio transcendental. Digamos que tudo está por fazer, tudo depende da capacidade humana de experimentar, de explorar. As ideias e a consciência delas são operações produzidas pelo próprio indivíduo. 
Como saber que o pão alimenta ou que a água afoga quem não sabe nadar? Sabemos disso pela experiência, responde Hume (empirista inglês, século XVIII). 
Esses argumentos pretendem "derrotar" todo tipo de idealismo, e também o racionalismo francês de Descartes. 

Um parêntese: interessante que hoje há um retorno às concepções de estilo cartesiano, a bagagem inata prepondera sobre a adquirida, o cérebro/mente carrega grande parte de nossas capacidades, o código genético coordena nossa vida física e mental, decretam filósofos como Pinker.

Críticos do realismo, o consideram ingênuo. O que se vê, o chamado real, requer contato, descrição, interação, objetivos. As coisas não estão ali, pura e simplesmente. Situações reais e corriqueiras, quando transpostas para a literatura, para o cinema, por exemplo, assumem outro tipo de realidade, a ficcional. O objeto visto pela lente de um fotógrafo se transforma. Se torna outro tipo de objeto. E que dizer de sonhos, ilusões, desejos, o inconsciente?
Wittgenstein considera que as situações de nossas formas de vida são tão diversas e variadas, que ver a mão, como no exemplo de Moore, e com base nessa constatação achar que o real produz certeza, são aspectos, possibilidades. Que sentido faz dizer "Isso é uma mão" ? Pode ser, por exemplo, a resposta de um paciente a um médico que avalia seu estado de consciência, ou alguém mostrando a uma criança o desenho de uma mão. Depende das circunstâncias. Achar-se diante de uma árvore e constatá-la não assegura que todo conhecimento assim começa; "isso é uma árvore" pode ser a avaliação de um botânico. Em nossa lida com o mundo, observações desse tipo fazem sentido dependendo do contexto de uso. Como saber se não é resposta a uma objeção? Ser real ou não é o que menos importa. Importam aspectos relevantes para aquela situação. Falantes trocam ideias, informações, levam em conta os propósitos de um e outro, entre muitas outras possibilidades.  

Críticos do empirismo, em geral kantianos, acham que sem aparatos racionais para ordenar as experiências, estas só nos confundiriam. Sem princípios universais e atemporais para avaliar e validar as experiências, estas se multiplicariam em vão.

E o que diz o senso comum? Que pão é pão, que pedra é pedra... Filósofos justamente discutem isso.
Pergunte você também: o que é real?

domingo, 26 de maio de 2013

O que é idealismo?

O sentido habitual em que se emprega o termo "idealismo" remete à busca de condições ótimas para realizar um projeto de vida considerado o melhor possível. Quando se diz que uma pessoa tem um ideal, significa que ela pretende atingir esse objetivo, mesmo que difícil, até mesmo próximo de um sonho impossível.

O sentido filosófico do termo remete a ideia, isto é, o pensável, portanto, oposto a real, a material, a sensível.

Platão foi o primeiro filósofo idealista. Os seres reais, sensíveis e materiais podem ser destruídos, se decompõem e essas mudanças impedem que se chegue à pureza da essência, à permanência, àquilo que nossa alma inteligível, e apenas ela tem acesso. Mas como são as ideias, quer dizer, de que elas são feitas, qual é seu ser, como podem elas existirem se são ideias?
São concebíveis pelo intelecto, em um mundo à parte, o mundo inteligível. Sem ideia de cada coisa seria impossível o saber, a própria filosofia. Sem ideias os seres não passariam de um emaranhado tosco, impossível pensar, conhecer e, portanto, comunicar. O sensível é cópia do inteligível, mas o comum das pessoas se engana, toma aquilo que vê e sente como ser verdadeiro, quando não passa de sombra do mundo das ideias: "os que contemplam a essência imortal das coisas têm conhecimento nítido e não opiniões", escreveu Platão.
Platão celebrou a Verdade, o Bem e o Belo
Do século IV a. C. vamos a Kant (1724-1804), cujo idealismo é transcendental. Enquanto o mundo perfeito platônico é transcendente, acima do sensível, apenas inteligível - para Kant o inteligível depende do sensível. Sem o material da sensibilidade organizado por meio de sua obrigatória inserção no tempo e no espaço, o conhecimento seria vazio. Tempo e espaço formatam o material sensível a fim de poder representá-lo, pois de outro modo seria caótico. As categorias e conceitos do entendimento são o nível seguinte, permitem formular juízos. Todo ser humano é dotado dessa capacidade ou dessas propriedades formais de sua subjetividade e isso não é algo pessoal nem sentimental, não pertence à nossa vida prática, território da moralidade. Pertence ao entendimento puro e a priori, quer dizer, os objetos que se conhece passam por um tipo de regulação para representar todos os fenômenos, dentro dos limites da razão pura. Ao contrário de Platão, é impossível chegar ao ser em si ideal, nossa capacidade de conhecer depende do que é concebível, e o concebível depende de formas, de regras, de leis como o princípio de causalidade. "O pensamento é o conhecimento mediante conceitos", diz Kant, e "transcendental" é o conhecimento que "não se ocupa tanto com objetos, mas de nosso modo de conhecer objetos na medida em que este deve ser possível a priori".
Kant celebrou a razão
O idealismo de Hegel (1770-1831) é objetivo. As ideias não estão no mundo inteligível de Platão, nem no modo como as conhecemos, na pureza da razão kantiana. Elas foram forjadas pela história. Sem as transformações a que estão sujeitas por meio da cultura, do espírito humano em suas obras (arte, filosofia, religião), não haveria ideias nem humanidade, não haveriam os resultados da ação do espírito encarnado em realizações, não haveria sequer sentido (entenda-se por "sentido" tanto as significações da linguagem como caminho, rumo, progressão). O evoluir dialético das ideias culmina no Espírito Absoluto, sua realização nesse itinerário da consciência: a realidade do mundo humano é feita de saber, há lógica e saber em todas as obras humanas, desde a cultura antiga, passando pelo cristianismo até a conciliação do espírito consigo mesmo com a liberdade outorgada a todos nos Estados constitucionais modernos.
Hegel celebrou a cultura
As críticas a esses pensadores idealistas vieram do realismo, do ceticismo, do materialismo e de pragmatismo. Ficam para próximo (s) post (s).

terça-feira, 14 de maio de 2013

As críticas de Habermas ao marxismo

O método dialético de Hegel foi aplicado por Marx à história dos modos de produção, que foram: escravagista, asiático, feudal, mercantilista, até chegar ao capitalismo. Essas transformações ocorreram pelo esgotamento do modelo, as contradições a eles inerentes levariam aos chamados "saltos de qualidade". Para o marxismo, isso significa que o capitalismo, tal como os anteriores, contém nele mesmo contradições que são o germe de sua própria destruição. Marx se referia ao capitalismo que nascera em sua época, o século 19.
As condições do capitalismo e da classe dos trabalhadores eram aviltantes. A solução seria uma revolução, uma classe revolucionária conduziria a mudança para o socialismo, e futuramente o comunismo com a abolição da propriedade privada dos meios de produção. 
Alguns países passaram por essa revolução com alto custo, perda de vidas, de liberdade, de representação social e política. E outras mudanças viriam: crise financeira (1919), duas guerras mundiais, a explosão da bomba atômica, a guerra fria, a descolonização da África; e, na segunda metade Europa e EUA expandiram a indústria com sofisticação crescente da tecnologia. As revoltas operárias e a revolução comunista ficaram para trás, o muro de Berlim caiu, a China ressurgiu como segunda potência mundial. A pobreza, principalmente no hemisfério sul não cedeu, pelo contrário. Esses países passaram a depender do mundo desenvolvido, o qual passa por nova crise financeira. 
O que aconteceu com a revolução dos trabalhadores, com a revolução comunista? Cada vez mais restritas às bandeiras de esquerda em alguns poucos países. E ainda persistente no discurso acadêmico, no Brasil apadrinhada pelo discurso pedagógico, pela cartilha do MST, presente nos livros didáticos de história que insistem em ideologizar. Sintomático que esse discurso tenha desaparecido da CUT e do PT tão logo o partido assumiu o governo. Há uma evidente incompatibilidade entre governar e levar a sério as lições do marxismo. 

"Hoje em dia, escreveu Habermas, certamente o portador de uma transformação, à qual Marx deu tanta ênfase, não é mais a burguesia de 1848, nem determinada classe social que domina o quadro nacional, mas um sistema econômico anônimo que opera em nível mundial e que não está ligado a estruturas de classes identificáveis facilmente" (Diagnósticos do Tempo, p. 137).

Ao se comparar a situação de operários de Manchester na Inglaterra do século 19, a exploração e o sofrimento deles nos primórdios do capitalismo com as condições atuais, notam-se inúmeras transformações. Entre elas a aplicação mais equânime da justiça, condições melhores de trabalho e outros tipos de reivindicação: no lugar de uma revolução socialista, acesso aos bens de consumo, conforto, saúde, escolas de qualidade e gratuitas para os filhos, melhor salário, participação nos lucros das empresas, habitação digna, transporte, e mesmo lazer. É verdade que grande parte da população mundial não tem acesso a esses bens e a condições mínimas de sobrevivência. Expandir a riqueza e ao mesmo tempo distribuí-la cabe a governos e não a banqueiros ou financistas! Isso ficou evidente com a crise desencadeada em 2008 pelo capitalismo financeiro e pela ganância, o lucro alto, imediato e fácil. No lugar de "dissolver" o capitalismo (ele é dissolúvel?!), a questão tem sido até que ponto o Estado e governos devem e podem intervir na economia de um país.

Para refletir: a ideologia marxista, a pregação de uma revolução de classe, a própria noção de classe social, esconde modificações históricas sistematicamente ignoradas. O que é exatamente "ter consciência de classe"? Se as representações sociais fossem influenciadas por essa consciência, como poderia surgir no seio da sociedade de classes, a classe revolucionária? A consciência revolucionária teria que nascer fora da própria sociedade. E mais: os países socialistas foram forjados por uma classe revolucionária? O que aconteceu quando essa classe assumiu o poder na ex-URSS, na China, em Cuba?

A esquerda marxista "tem um conceito estreito de práxis", diz Habermas. Se a prática social se limitasse às relações econômicas de produção, a vida em sociedade seria pautada apenas pelo mercado. Por mais poder que este tenha, há o outro lado, outros tipos de práticas sociais. As sociedades modernas asseguram direitos e deveres de cidadãos, as obrigações valem para todos; o racismo passou a ser crime; surgiram novas representações políticas. As demandas são pelo acesso à educação e à informação, a valorização da produção cultural, das artes; as reivindicações das minorias; a liberdade de credo e culto. Nada disso pode ser reduzido à "consciência de classe".
E mais, os aspectos de realização pessoal, a busca por uma vida satisfatória e plena, a ética em nossas ações. Nada disso lembra ou depende da práxis de uma classe revolucionária.

sábado, 4 de maio de 2013

O que Foucault diria sobre o casamento gay?

É provável que ele seria contra o casamento gay, mas evidentemente que não pelas razões do pastor Feliciano!
O pastor se baseia em um credo pentecostal que condena o homossexualismo. Inclusive, pasmem, a última proposta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é excluir do código dos profissionais de psicologia cláusulas sobre o homossexualismo. Uma dessas cláusulas diz que não se trata de doença, portanto, longe de precisar de cura. Isso foi um grande avanço, significa respeito pela pessoa, justamente o que a Comissão de Direitos joga no lixo.
Deputado da discriminação de minoria na Comissão de Direitos Humanos e de Minorias, mais um subproduto gerado no Congresso Nacional

Voltando a Foucault, o filósofo da história da sexualidade, o filósofo que enfrentou pessoalmente preconceito por ser gay, morreu com aids, a chamada "doença gay" na década de 80; o filósofo que denunciou a violência dos hospitais psiquiátricos e da prisão; o filósofo que destrinchou o poder do saber médico, psiquiátrico, psicológico com seus "tratamentos"; o filósofo que viu nesses discursos, práticas e políticas das quais nasce um tipo de subjetividade passível de correção, de disciplina, de normalização, de punição; o filósofo que viu na sexualidade não uma pulsão reprimida (como em geral a vê a psicanálise), mas sim resultado de dispositivos para encaixar desejos, comportamentos, prazeres, em um esquema de verdade; o filósofo para o qual a verdade não é a descoberta de fatos, a verdade é constituída por discursos, por normas, por práticas do cotidiano; a verdade também se instala mesmo em instituições, como o hospital psiquiátrico, justamente o caso do homossexualismo tratado e tratável por ser doença (física, mental, psíquica!?), e mesmo aberração. Enfim, Foucault foi um dos primeiros e principais pensadores a defender publicamente a causa gay.
Foucault (1926-1984) em seu gabinete de trabalho

Pois bem, poderia então Foucault ser contra o casamento gay, como estamos especulando?
Sim, em nome da liberdade de optar por estilos de vida alternativos, por políticas de afirmação não do sexo, nem da sexualidade, e sim de viver com mais liberdade, estilos de vida em que importam mais o prazer, a amizade, as relações afetivas, do que analisar que tipo de desejo seria esse ou institucionalizar a relação

A avaliação moral, médica, jurídica ainda é responsável pelo exame, pelo escrutínio desse "tipo de vida". O homossexual tem sido condenado por credos, e até mesmo por leis, seu comportamento é condenável pela moral burguesa, execrado pelo moralismo de certas religiões, perseguido e exposto à violência de fanáticos. Ele ainda é classificado como se classificam doenças e animais... 

Sendo assim, o casamento gay realmente levaria a superar ou pelo menos enfrentar todos esses problemas? Dificilmente.
Casamento é uma instituição, ele surge com o que Foucault chamou de "dispositivo de aliança". A família moderna ainda sustenta esse dispositivo, que cerca de cuidado seus membros e restringe o sexo ao leito conjugal, à procriação. 
Ou seja, casar implica em institucionalizar uma relação que, segundo Foucault deveria representar, pelo contrário, certa rebeldia, até mesmo beirar certo anarquismo. "Segundo Paul Veyne, nos últimos meses de vida Foucault costumava conversar sobre essas estilizações da vida, esses trabalhos de si para consigo mesmo para constituir um eu fora dos modelos e dos códigos impostos" (ARAÚJO, 2008, p. 179).

Assim, o argumento de que o casamento gay confere direitos como herança, igualdade, reconhecimento social, etc.,  não seria ceder à uma pressão da sociedade? Talvez Foucault respondesse afirmativamente.

domingo, 14 de abril de 2013

Hegel e a dialética

Hegel é considerado um dos filósofos mais "difíceis" de toda a história da filosofia, como disse em postagem anterior. Ele não faz concessões, não há nenhuma tentativa de ser claro (como Descartes preconizava) e nem de dialogar ou de ensinar (como Sócrates e Platão).
Pode-se dizer, inclusive, que Hegel já não é mais o filósofo preferido, como há algumas décadas, para ser o intérprete de toda a história da filosofia. Lia-se Hegel, em especial o jovem Hegel, a fim de melhor compreender Marx. Resultado: não se compreendia nem um nem outro.
Vejamos algumas facetas do pensamento de Hegel, o que vale a pena resgatar para a história da filosofia.

Importância da história: todas as contribuições culturais, como arte, filosofia e religião, são o estofo de que a razão se vale para caminhar e, ao mesmo tempo, superar ideias e conceitos. Desde as experiências com o material sensível, até o mundo inteligível de conceitos cada vez mais precisos, o pensamento se realiza. Para se realizar, ele precisa do discurso, da linguagem, que possibilitam determinações, isto é, dizer o que são as coisas e como elas são. As significações.

Uma nova ontologia: como e o que as coisas são? Impossível determiná-las sem, ao mesmo tempo, determinar o que elas não são. Ser e não ser se determinam reciprocamente. O senso comum não percebe que todo ser é o que é, por não ser outro. É assim que todos os seres se transformam, assim se modificam as ideias e os projetos. Essas passagens ou mudanças constituem o vir a ser, o devir. Esse movimento de conservação do ser, de negação e de ultrapassagem é o que Hegel chama de dialética.
A natureza, os seres e a história vivem desse movimento. Esse movimento é direcional, progressivo, tem em vista um fim (teleológico). As realizações das obras humanas aprimoram certas ideias, certos ideais. O mais precioso é o ideal da liberdade, da conciliação da ideia de sociedade com a plena realização do racional.Um otimismo, portanto. Para Hegel, há luz no fim do túnel e essa luz é plena, é o absoluto, é a conciliação final de todas as dificuldades, de todas as contradições.

O idealismo objetivo: ideias e conceitos não são abstração vazia. Eles se concretizam em autores, livros, no variado discurso humano. Mas não de forma solta, há uma lógica interna, uma lógica com três momentos, todos eles necessários (afirmação, negação e síntese). Entre pensamento e ser não há um abismo. Ser externo ao pensamento e ser pensado se conciliam. Quando alguém emite um juízo, afirma que algo é assim, mas pode também corrigir, confrontar ideia e realidade. Por isso o idealismo é objetivo. É com relação à realidade objetiva (desaparece a dificuldade que Kant tinha com o ser em si, para ele inatingível) que ideias, conceitos e o pensamento se formam. Não há um vazio entre a representação e o representado.
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Perguntas e dúvidas surgem. Ao mesmo tempo em que Hegel enfatizou a história, ele a fechou em um movimento ascendente, com etapas obrigatórias e com um fim/finalidade. O que garante que haverá essa progressão em termos de liberdade e de realização?
Apenas a força ou fraqueza humana, as quais, aliás, nada garantem.
A lógica do devir precisa do jogo entre ser e nada. E se desse jogo nada surgir? Ou se ele surpreender?
Em nome da liberdade e do ideal a história tem sido, pelo contrário, de luta, transgressão, anomias.
Se a lógica dialética fosse inevitável, bastaria embarcar nela e nos deixar levar. Ora, isso anularia a propalada liberdade. Logo, a concepção de dialética hegeliana.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que é relativismo?

Em filosofia há diferentes concepções sobre a possibilidade da verdade. O relativismo é uma delas. Protágoras (480-410 a. C.) considerava que o conhecimento do que nos cerca vem dos sentidos. As percepções variam de pessoa a pessoa, e também conforme o tempo e o lugar. Se duas pessoas discordam a respeito do que estão observando, é provável que ambas estejam corretas (ou não...).
Historiadores, sociólogos, e, claro, filósofos, defendem a tese de que conforme o contexto histórico, cultural ou de acordo com o nível de educação, de informação e da situação em que se encontram grupos e pessoas, o juízo que fazem a respeito de fatos ou de acontecimentos, de valores ou de avaliações, de opiniões ou de posições, tudo isso varia, quer dizer, é relativo. Não há verdade absoluta, acima da situação social, acima do contexto cultural e histórico.

Contra essa postura relativista, se erguem diversas vozes. Platão dizia ser absurdo duas opiniões a respeito do mesmo fato, seriam juízos contraditórios. 
Recentemente o papa emérito, Bento XVI (Joseph Ratzinger), proclamou a inconsistência do relativismo, inclusive em debates com filósofos, um deles, J. Habermas. Foi em Munique, em 2004, um ano antes de J. Ratzinger se tornar papa. A pergunta era sobre adoção de uma religião em um mundo plural: a verdade autoproclamada de certa religião de um lado, e uma cultura globalizada, na qual convivem várias crenças e religiões em sociedades democráticas, de outro lado.



A verdade, dizem os que se opõem ao relativismo, pode e deve ser comprovada e seguida por todos da mesma forma, pois há meios independentes de sustentar juízos, posições e valores. Por exemplo, por meio de provas, ou por meio de acordo a respeito da realidade, ou por meio de crenças em artigos de fé. Se a verdade se dilui com variações, justamente, fica impossível estabelecer a verdade. Verdade não pode variar, ou vale incondicionalmente, ou não é verdade. Se houver contradição (afirmar A e não A ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto),  se houver inconsistência (acho que é A, mas não tenho certeza, pode ser B...), fica impossível estabelecer o que vale e não vale, o que é correto ou incorreto. O relativismo é por isso, indefensável.

Em oposição, os relativistas sustentam que é possível ajuizar "isso é verdade", desde que sejam dadas as condições apropriadas. Para Habermas somos sujeitos falíveis, podemos mudar e aprender sempre, em todas as circunstâncias. Ao afirmar algo a respeito de um acontecimento, precisamos de informação, de um saber acerca do mundo, acerca de situações, é impossível transcender a realidade e a linguagem e alçar à totalidade. Um juízo a respeito de uma situação requer a compreensão de outros, a possibilidade de contestação, o conhecimento das condições apropriadas para garantir a validade, mas nunca a verdade. Há três fatores interligados: apresentar ou expor o acontecimento; comunicar por meio de atos de fala que visam acordo, entendimento ou desacordo e dissenso; a um público que repercute o que foi dito.
Trata-se de, digamos, um "relativismo responsável". Isso porque o "tudo vale" em qualquer circunstância, levaria ao descrédito ou ao conformismo. Se tudo vale, por que eu me importaria?!

Por isso, para Habermas, opor-se ao relativismo e sustentar que a verdade independe do sujeito e de seus posicionamentos implica que outras posturas, crenças, culturas e valores, estão do lado do erro, da inverdade, do desconhecimento - isso é perigoso, gera intolerância.

Ao contrário, a capacidade de esclarecer e de dar razões, de olhar e tentar compreender o outro, o diálogo entre povos e culturas, aponta em direção a esse tipo de relativismo responsável. Pergunte sempre: o que isso quer dizer nessas condições e circunstâncias? E não: só eu, só minhas crenças, só minha visão é a correta.
A verdade é possível e desejável apenas quando ninguém se proclama seu dono. E nisso não há contradição alguma.