domingo, 16 de agosto de 2026

O injustificável, A. Camus em "L'Étranger"

Em romance curto, denso, Camus narra a história de Mersault, em primeira pessoa, num curto espaço de tempo iniciado com a morte da mãe e que termina com sua condenação à morte por homicídio.

O local, Argélia na década de 30 colônia francesa. Na cidade à beira-mar o calor, a paisagem, céu e praia, são onipresentes. A mãe vivia em um asilo, ao qual se habituara, "como em tudo na vida". Ter que participar do velório, a noite toda com os colegas dela um tanto adormecidos, ele se cansa, o funcionário oferece café com leite, ambos fumam. Enterro no dia seguinte, sol, sinos, caixão, calor que perturba a vista e as ideias. Alívio chegar em Alger, com direito a dois dias de folga aos quais se acrescentou o fim de semana. Encontra ex-colega, Marie, "semblante de flor", namoram vão à praia, nadam juntos, depois vão ao cinema, filme de Fernandel (ator cômico famoso à época).

Dois vizinhos, o velho que bate no cachorro mas dele não se separa e Raymond que namora a irmã de um árabe, bate nela, diz que pode porque a sustenta. Domingo, na praia, avistam um grupo, entre os quais o irmão da amante de Raymond, que quer vingança. Mersault retorna à praia, com a arma do amigo esquecida no bolso, calor extremo, avista o rochedo com sombra e fonte de água, onde o árabe estava deitado, este levanta, aponta faca como "espada fervente", Mersault o alveja com tiro mortal, dispara mais quatro vezes. Compreendeu que "havia destruído o equilíbrio do dia" (p. 54), "o silêncio de uma praia onde eu tinha sido feliz" (injustificável).


Filme de F. Ozon, 2025

Segunda parte do livro, prisão e julgamento. No interrogatório o destaque é a insensibilidade com a morte da mãe, o advogado pergunta se preferia que ela não tivesse morrido, ele responde que pessoas sãs haviam desejado a morte de pessoas que elas amam. O advogado pede que ele não diga isso no dia do julgamento (injustificável).

O juiz pede que ele relate todo aquele episódio, Mersault pensa consigo que nunca falou tanto, por que os quatro tiros? Você não acredita em Deus, pergunta o juiz com um crucifixo na mão? Não sou cristão, responde Mersault tomado por aborrecimento (injustificável).

Na prisão tenta dominar seu dia a dia preenchendo com lembranças, passou a dormir muito, recorda que a mãe dizia que a gente se acostuma com tudo. Um ano se passa, enfim o julgamento de um crime que atraiu a atenção até de jornalista de Paris. Por que internou sua mãe? Falta de dinheiro (injustificável). Por que fumou, tomou café com leite e não chorou durante o velório? (injustificável). Mersault sentiu que o odeiam. "Eu o acuso de haver enterrado uma mãe com o coração de um criminoso" (injustificável). Promotor: você premeditou, é inteligente, desalmado, insensível, monstruoso (injustificável). Por que matou? Devido ao calor, resposta que provoca risos (injustificável). Calor, luz solar, abafamento são circunstâncias onipresentes no livro.

À espera do dia da execução, sem que ele solicitasse, recebe a visita do capelão que não entende como alguém não crê na vida após a morte (injustificável), tenho certeza, diz o capelão, que lhe ocorreu desejar outra vida, Mersault se irrita, acusado porque não chorou no enterro da mãe, porque é ateu, que importância têm os fatos, as pessoas e suas escolhas? 

Camus abre uma fresta para a justificação, filosófica a meu ver: "Eu me abri para a terna indiferença do mundo" (p. 101).

Conclusão: a existência pesa, Mersault/Camus mostram que não há necessidade de se justificar perante expectativas da sociedade, da moral e do direito. É possível defender sua própria moral, seu próprio modo de ser.

Obs: Há centenas de estudos sobre Camus nas redes sociais, filme de Luchino Visconti de 1967 sobre "O Estrangeiro"; Mersault é visto como "apático", qualificativo do qual discordo. A minha primeira leitura de "L'Étranger" foi para o exame de Nancy, Aliança Francesa, décadas atrás, 1967!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que é justificação para Wittgenstein? O que é justificação para Habermas?

 A justificação é um recurso de atos de fala, de certo jogo de linguagem que se caracteriza por chegar a um fim, a um resultado, do contrário não se sustenta, segundo Wittgenstein. Quando se trata de uma ordem, de um pedido, a justificação requer que se atenda o pedido, ou que se recuse o pedido, mas, atentar para a satisfação desse pedido não é uma justificação. O apropriado seria justificar por meio de uma experiência e chegar a um termo, como por exemplo ser bem sucedido. 

A melhor justificação, melhor do que a certeza, é o fato de dar certo, confiar no resultado, por exemplo, que fogo queima. E essa questão para Wittgenstein, à diferença do racionalismo e do empirismo, não é a do raciocínio indutivo e sim algo que diz respeito às nossas formas de vida, àquilo que aceitamos como uma justificação. Outro exemplo: para projetar as dimensões de uma ponte, há certas razões que justificam imaginar tais ou tais dimensões, mas não quanto às escolhas das dimensões imaginadas. Estas escolhas precisam ser postas em prática, algo para além da justificação. O papel do contexto é crucial, decisivo para Wittgenstein em Investigações Filosóficas.

Seguir uma regra justifica-se, justificações podem ser requeridas até o ponto em que se esgotam e se atinge, então, o solo firme. Não vale como justificação o caso seguinte: alguém pergunta, você sabe dirigir? A pessoa afirma que sabe, mas quando posta à prova, mostra-se inepta, fica evidente que não sabe. A resposta de que sabia não vale como justificação. É preciso certas circunstâncias para justificar que se sabe qual é o caso, que houve compreensão do que está em jogo. Outro exemplo: alguém ser guiado em uma caminhada, as circunstâncias podem variar, é porque não sabe o caminho, é cego, está sendo puxado pela mão. Ao justificar o uso de uma palavra, isso quer dizer que houve ressonância, que o outro entendeu.

§ 486 "Como a palavra 'justificação' é usada? Descreva jogos de linguagem. A partir disso você será capaz de ver a importância de ser justificado" (in Investigações Filosóficas).

Em contraste, Habermas leva a justificação para outro patamar, o da validade dos atos de fala, o valor ilocucionário de comprometimento, de dar razões, de ser arguido e ser capaz de responder com veracidade, de acordo com as normas sociais e com sinceridade. 



Teoria da Ação Comunicativa

Para explicar algo, precisamos ir à realidade providos de regras de significado próprias a um enunciado verdadeiro, com explicações e práticas de justificação guiadas por critérios: coerência, convicções compartilhadas em usos  da linguagem juntamente com nossas ações. A linguagem é usada juntamente com as ações, ação comunicativa é o conceito base para Habermas, nos entendemos e por detrás desse entendimento há um mundo objetivo. 

Nosso modo de vida, com os conceitos de saber e verdade, fornece referências que transcendem a justificação, estas podem falhar. Daí a conexão entre verdade e justificação, com lugar para aquilo que se tem por verdadeiro na prática em realizações bem-sucedidas. O questionamento da verdade, da veracidade e da normatividade deve poder ser justificado por discursos que fornecem certificação para a ação. 

Para Habermas a justificação de um enunciado e a verdade de um enunciado dependem do uso respectivo, enunciados bem justificados podem ser falsificados, por isso a prática da justificação não pode dispensar a verdade, é preciso usar de razões para corrigir, para explicar normas justificáveis.

Assim é possível distinguir entre convencer e persuadir, entre a escolha por meio de razões e usar de influência, entre aprender e ser alvo de doutrinação.

Ao que parece, nos meios de comunicação atuais prevalecem persuasão, influenciação e doutrinação.

Para Wittgenstein bastam os jogos de linguagem, os múltiplos usos sem um critério acima desses usos, prevalecente. Para Habermas há critérios que validam ou não as ações comunicativas, estas diferem das ações estratégicas que visam apenas sucesso.

Que dizer de atos sem nenhuma justificação? Na próxima postagem Camus em "O Estrangeiro" responde.