segunda-feira, 30 de março de 2026

Os efeitos nocivos das ideologias, do autoritarismo e do extremismo.

 As ideologias que sustentam partidos políticos, governantes, modos de pensar e de ver a realidade, posicionamentos, interesses de empresas, são como que filtros para ver, pensar, decidir. Por meio desses filtros, sempre favoráveis aos seus pontos de vista, a intenção é convencer, iludir, buscar adeptos. Nunca, jamais mostrar os lados em questão, jamais argumentar, jamais evidenciar as bases do que está em jogo

Mas, dirão, não há neutralidade! Certo reitor (28 março) afirmou isso mesmo, não há neutralidade, é urgente, necessário mostrar o lado em que se está, e esse lado é o da esquerda, na educação os ícones são Paulo Freire, Bertold Brecht e Rubem Alves, "educação é ato político", disse ele em discurso de formatura, é preciso que essas pessoas que vivem num mundo de mentiras ouçam e conheçam as verdades, afirmou ainda tal reitor. 

Esse é o desgastado "argumento" dos ideólogos da educação, sempre posicionar-se, e qual posição, essa, de que há um lado verdadeiro e esse lado tem como base o idolatrado Paulo Freire. Como se um\a professor, pedagogo, agrônomo, engenheiro, médico, biólogo, historiador, filósofo, sociólogo, psicólogo, publicitário, programador devessem passar por esse crivo, aderir a essa posição verdadeira. Todas as outras vozes e vertentes, então, seriam falsas!

Achei surpreendente o reitor não ter mencionado Marx, Engels, a Escola de Frankfurt, Antonio Gramsci. Talvez esses conteúdos fossem mais sérios, mais difíceis de penetrar. Ler e entender "O Capital" não é para qualquer um...

O autoritarismo se acha implícito nas ideologias. Para impor um regime ditatorial, com um mandante pronto a estender sua mão de ferro para oprimir, executar, eliminar os que não são "fiéis", os que não aderem à sua seita, os que se recusam a formar linha com seu exército, esses chefes permanecem no poder à custa de censura, denúncia, perseguição, prisão e morte de eventuais opositores. O poder total exige fidelidade total. Armar-se com exército de conquista, são inúmeros os exemplos na história e na atualidade. Invadir um país autônomo como fez Putin, executar seus inimigos como fazem chefes tribais sanguinários, armar até mesmo crianças, atrelar a religião ao regime como fazem aiatolás. 


Estado Islâmico, grupo regiamente sustentado.  

O extremismo não requer disfarce algum, eliminar, exterminar, implodir o inimigo. Nos atos de terror vale tudo, avançar sobre pedestres, explodir edifícios, aviões, igrejas, alvejar autoridades, metralhar escolares, bombardear toda e qualquer organização, partido, governo para instalar o caos. Esses extremistas foram doutrinados em certa ideologia, por uma seita, por um regime, por um grupo, sejam eles clandestinos ou não, estão prontos para atacar, para surpreender, para oprimir, para eliminar.

O círculo se fecha: a imposição autoritária de ideologias com o objetivo de vencer o inimigo. Ponto.

***

PS: alfabetizar para conscientizar (aprender palavras como tijolo, enxada, e não por meio de cartilhas "neutras") não traz resultado esperado que é capacidade de ler textos, entender os mais diversos contextos, ampliar seu horizonte ao invés de repetir a condição de cada um, mostrar que a leitura e a escrita não são armas ideológicas, são instrumentos essenciais na escolarização para exprimir-se, para compreender, por exemplo, a informação de um cartaz oferecendo emprego, de um anúncio, de uma bula de remédio, de um panfleto. Seja em que situação social e econômica o aluno se encontre. Afinal a educação é compreensiva, aberta, universal!

segunda-feira, 9 de março de 2026

Impressões sobre "O Agente Secreto" (antes do Oscar)

 Antes de opinar sobre o filme, gostaria de agradecer os que leem as postagens, que nesta data chegaram a 500 mil visualizações, desde que iniciei o blog em 2009. Algumas postagens atingem número considerável de leitores, como a campeã, "Entre Ser e Existir", com 16033 acessos.

Quanto ao filme candidato a Oscar 2026, ressalto a ótima reconstituição de época, 1977, algumas cenas me remeteram aos meus 27 anos, às situações vividas à época da ditadura, a participação em protestos, passeatas, reuniões, a sensação de claustrofobia e de medo que a ditadura nos impunha.

Pois bem, o filme retrata a ditadura com foco em um professor universitário. Há cadáveres largados, pernas de cadáveres, cadáveres lançados ao mar, é fevereiro, carnaval em Recife, a polícia comanda execuções, Armando/Marcelo chega de fusca, ele é um dos fichados e perseguidos, deverá ser executado. Ele fora chefe de Departamento, responsável por pesquisas que contrariavam, e mesmo que representavam uma afronta ao establishment, à ideologia dos militares. 

De São Paulo saem dois executores regiamente pagos, que acabam por contratar um matador, mais violência.

Há referências a filmes da época, como Tubarão, a intenção seria associar a um tubarão em cujo estômago é encontrada perna de um dos cadáveres lançados ao mar, perna esta que foi retirada do IML para não servir como prova, e é descartada.

Além das várias referências às perseguições, censura e execuções, há críticas à diferença de classe, grã-fina contraposta à empregada doméstica, ao feminicídio, à relação nordeste que precisa "de um banho de indústria" em oposição ao sul/sudeste. É enaltecida a relação entre pai e filho, bem como os encontros clandestinos dos que protegem os perseguidos pelo regime.


Mereceria prêmio como atriz coadjuvante.


Há atuações espontâneas, como a de Dona Sebastiana, ótima em seu papel de senhorinha com mais de 70 anos. Que dizer da atuação de Wagner Moura? Marcelo dirige seu fusca com um semblante entre sério, triste, temeroso, hospedado e acobertado em apartamento de Dona Sebastiana, é empregado num suposto instituto de identificação onde faz buscas num fichário; ao conduzir seu filho de carro, faz muitas caras, bocas, troca de olhares com o menino, sorrisos, expressões faciais nas quais a câmera se detém. Seriam estes os recursos do artista que o fizeram merecedor do Globo de Ouro?

Cena final, um salto para a época atual, o menino, agora adulto, interpretado também por Wagner Moura como médico de um hemocentro, com mais olhares e expressões a evocar o passado. 

Em resumo, um professor universitário perseguido e morto por suas ideias e projetos que representavam conceitos, como os de cultura local e ecologia. Os insultos dirigidos pela esposa de Marcelo ao Dr. Ghirotti, representante do governo e de sua ideologia industrial, foram os motivos mais fortes para suas execuções, é o que o filme deixa entrever. 

A cultura brasileira tem muito a mostrar, as referências à ditadura militar importam, mas não são reportáveis ao presente. Há casos de coragem não de personagem e sim de artista em carne e osso, me refiro a Rita Lee. Em documentário sobre a vida e a carreira da atriz, ela se mostra autêntica, livre, espontânea. Rita Lee foi fichada pela mesma ditadura, motivo? As letras "escandalosas, indecentes", por isso foi presa, estava grávida. No fichário do Dops o marido e os filhos mostram que as razões da censura foram seus gritos de liberdade, lançar perfume, amar, sentir prazer. 

A arte produz controvérsias, ou não seria arte. "O Agente Secreto" abre mais uma vez caminho para o cinema brasileiro. Por sinal, "Ainda Estou Aqui", na minha opinião, é melhor. 

O cinema enquanto arte tem que despertar emoções, falar à mente e ao coração, brilhar, estimular a razão e os sentimentos, ressoar, vivificar, mais do que protestar ou denunciar.