Martin Heidegger (1889-1976, Freiburg), preferia a cabana, a rusticidade, o isolamento, pensar o Ser-aí, quer dizer a condição humana, a ek-sistência temporal no mundo; foi amante de Hannah Arendt, professor na Universidade de Freiburg e de Heidelberg, cátedra à qual renunciou ao ser acusado em 1934 por sua adesão ao nazismo, sem que ele tivesse compactuado com a perseguição aos judeus, ou com a noção de raça. Quando julgado, Sartre testemunharia a favor de Heidegger, mas não compareceu ao tribunal.
O mundo está aí, já os processos da consciência são intencionais e a existência livre. O pensamento filosófico desestabiliza, confronta, há força vital, a indagação pelo Ser é incontornável. Somos seres no tempo, ser-para-a morte. Em "Ser e Tempo" Heidegger questionou a técnica, o modo de ser do uso, do aproveitar, do palavrório em oposição ao modo de ser do cuidado, da assistência, da vida sem subterfúgios, da autenticidade, da liberdade para realizar o pro-jeto. A mortalidade nos angustia, essa estranheza de sermos aí no mundo como manifestação do nada, condição que carregamos, o dizer não, o indagar que nos ultrapassa. Conceitos que influenciarão Sartre.Heidegger na cabana.
Na segunda fase, passou para o tema da essência do homem em sua relação com o ser, ameaçada pela técnica, pela linguagem vista como comunicação, subjugada à opinião pública, o ente dominado por explicações e fundamentações da ciência e da filosofia. Isso dilui a responsabilidade estética e moral, representa domínio sobre o ente. Ao longo da História da Filosofia, a essência do homem foi concebida como ser racional, como humano oposto ao bárbaro, como homem que trabalha, como existente que precede a essência, como homem livre para se reinventar.
Heidegger considera que Sartre retoma a metafísica tradicional, apenas invertendo-a ao conceber a existência como essência, como questão de humanismo, isso enfraquece a relação do ser com o ser humano. Pensar diz respeito ao ser e à essência do homem situado na abertura do ser, não na relação com seu organismo, nem de ter uma alma imortal, nem de ser pessoa. O homem é ser-aí, exposto pela linguagem à verdade do ser. Que ser é esse? Mais do que fundamento, é abertura, ele é o protetor da casa do ser, sendo a poesia a manifestação máxima. "O pensar trabalha na edificação da casa do ser" (in "Sobre o 'Humanismo'"). Em cada sim, em cada não, o ser se inscreve, a linguagem é a habitação do ser humano.
Observe-se que a história das diferentes adesões ao ser mostra que para Heidegger há uma adesão atual ao ente na forma desenfreada da técnica que subtraiu a essência do ser.
Jean-Paul Sartre (1905-1980, Paris) empunhou o megafone, protestou nas ruas, sempre aberto ao público, escritor prolífero tanto na área da Filosofia ("Ser e Nada", 1943) como na literatura, teatro, contos, romances, além de repercutir inúmeros acontecimentos políticos de seu tempo. Foi companheiro de Simone de Beauvoir, ambos influentes por suas posições críticas, de total não conformismo, militantes, ateus declarados.
Sartre protesta, manifestações da esquerda
O homem é o ser no qual a existência precede a essência, ele é pro-jeto, capaz de escolha, em cada escolha ele escolhe toda a humanidade perante a qual somos responsáveis e inteiramente livres. Não há escolha gratuita, o que justamente torna a vida valiosa, permanente construção. No outro lado dessa escolha livre e responsável, dá-se a má-fé, o disfarce, o engano.
Qual o significado do Nada? O Nada brota da condição humana, na interrogação abre-se uma brecha, ao entrar em um quarto, por exemplo, e não encontrar a pessoa procurada, dá-se o não estar ali.
A liberdade angustia diante dos possíveis, está-se situado, lançado no mundo, comprometido, engajado. Depende apenas de nós realizar o sentido do mundo e de nós mesmos, sem fuga, pois fugir do inevitável é má-fé. O homem, que Sartre intitula como Para-si, é contingente, está aí para nada, supérfluo e nisso se enraíza a liberdade, "somos livres para deixar de ser livres" (O Ser e o Nada, p. 544). Motivos, vontade, o passado, são inevitáveis, mas como reagir e valorar depende de cada um.
Sartre propõe uma psicanálise existencial, diversa da freudiana, sem os conceitos de complexo, libido, "soterrado nas trevas do inconsciente"(p. 701); pelo contrário, disposto e exposto ao que está aí, luminoso, deliberado, podendo ser revogado ao aderir a nova posição diante do passado. A psicanálise existencial é flexível, adaptada a cada sujeito, elucida suas escolhas não nos sonhos, nem nos atos falhos, obsessões ou neuroses. "Essa psicanálise ainda não encontrou seu Freud" (p.703).
Enfim, Heidegger percorre as aberturas para o ser no terreno da metafisica, como a existência se dá, exposta à verdade do ser, que foi encontrada como organismo, como consciência, como pessoa, como trabalho, em todos houve o "esquecimento do ser"; Sartre busca a responsabilidade de um ser aí, instado a decidir, sem desculpas, situado e livre, ao mesmo tempo engajado, pode-se dizer, uma concepção para a qual a existência é sua essência.


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