sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Digressões

 As pessoas

Em cada pessoa ressoa um mundo, em cada um de nós toda a humanidade: o gênio recolhido em seu quarto; o louco desvairando na praça; o motorista no trânsito das seis horas; o varredor de ruas que pousa a vassoura para um breve descanso; o gari que equilibra o lixo pesado; o enfermeiro que de madrugada verifica o estado do doente; a florista que compõe o buquê; a criança que atravessa a rua sozinha; o alpinista que atingiu o cume; o terrorista que carrega explosivos; o político que vocifera promessas; a professora que usa o quadro negro para expor um teorema; o poeta que perdeu a inspiração; o fotógrafo que enquadrou um lance; o jogador no instante do gol. 

Em cada alma o espelho da condição humana, inescapável. 

Os instantes

O freio que não veio a tempo; o olhar que num segundo diz tudo: raiva, amor, inveja; o ponto de arremate; o ápice do amor; o resgate do salva vidas; o acorde final da orquestra; o salto de paraquedas; o tiro fatal; a palavra que diz tudo; o martelo do leiloeiro; o primeiro beijo; o vagido do bebê; o último suspiro; a página em branco; o bilhete do suicida; o adeus antes das partidas; a mensagem apagada; o ponto final do romance; a fuga inesperada; o it missa est; a mão que impede a queda; o piscar de olhos que sela o entendimento; o frenar do avião na pista. Instantes marcam o sem retorno do tempo.

A natureza

Caminhar na relva; o murmúrio do riacho; as andorinhas no fio de luz; os sabiás nos quintais; a passagem das aves migratórias; o salto do peixe; os vales floridos; os cachos de glicínia; as areias do deserto; as geleiras dos cumes; o abismo oceânico; o ar rarefeito; a tempestade que se anuncia; o sol do meio-dia; o horizonte marinho; a foz do rio; a floresta tropical; a praia deserta; os fósseis; o vento que assobia; a brisa que refresca. E natureza marcada, conspurcada, entremeada por nódoas, avalanches, poeira, lama, fumaça.


Nenhum comentário:

Postar um comentário