O proclamado como um dos melhores escritores e poetas da França na atualidade em "Serotonina" reafirma conceitos e ideias de sempre, insiste em ser o novo "enfant terrible" da literatura talvez mundial.
Há trechos no início que beiram a pornografia, o personagem não se dá bem com ao menos três mulheres, uma delas o serve como se fosse concubina (uma japonesa), o amor por uma moça linda e bem mais jovem que ele, é uma paixão doce e forte mas apesar de amá-la acaba por trai-la e o relacionamento acaba. Um terceiro amor também é frustrado.
O personagem é empregado da Monsanto, o que dá à narrativa aquele tom caro ao autor de politicamente incorreto, e mencionar poetas malditos, expressar seu desprezo por eles vai na mesma direção.
Basicamente o personagem que passou dos 40 é depressivo e o medicamento o deixa impotente. Resta a solidão auto-infligida, o cigarro, a visita a um amigo no interior da Normandia que revela a condição difícil do agricultor diante da abertura ao comércio da União Europeia.
Enfim, o autor aborda temas contemporâneos, até mesmo pornografia infantil, a possibilidade de comprar armas, algumas situações é um binóculo super potente que revela, o tudo isso me parece forçado, artificial, como se Houellebecq passasse em revista temas polêmicos e os inserisse na narrativa.
Quando em extrema solidão após ter se desvencilhado da amante japonesa e de todos os demais laços com sua vida, vai morar em um hotel (é preciso que o hotel aceite fumantes, algo bem raro e alvo de mais uma de suas críticas) do qual mal sai, apenas para comer. Munido de antidepressivos, passa a ler "A Montanha Mágica" de T. Mann e Marcel Proust. Logo se aborrece com ambos, acha que o longo romance do autor alemão apenas repete, nada acrescenta a "Morte em Veneza", e considera Proust pelo ângulo da sexualidade.
Evitar a unanimidade e o lugar comum parece ser uma das intenções não só do personagem mas do próprio autor. Chama a atenção, provoca polêmica, induz às críticas e ao debate.
Evidente que isso atrai leitores mais "descolados" como se diz e igualmente certa rejeição...
O ponto alto da obra é retratar o sofrimento dos depressivos, a tendência suicida, a terrível e irremediável paixão frustrada. Continuar com os antidepressivos e permanecer impotente, ou matar-se?
A redenção e a razão pela qual o autor que se qualifica para pertencer aos melhores fica por conta das páginas finais, reflexivas, profundas e poéticas.
Vale ler? Sim.
domingo, 28 de junho de 2020
quinta-feira, 18 de junho de 2020
O filósofo enquanto educador
Impossível separar filosofia de educação e educação de filosofia.
Não é necessário aprender os conceitos filosóficos mais elaborados, importa isso sim, o modo como aprofundamos as questões, como abordamos os problemas, como vamos às raízes das dificuldades e, ao mesmo tempo, sabemos o que esperar no processo educacional.
As perguntas: o que é mais importante, com quem lidamos, quais são os objetivos, o que significa aprender, como alcançar patamares de qualidade e superar dificuldades? Em todas essa abordagens o educador trabalha com princípios e metas, com valores e resultados, com conteúdos e com avaliações, com processos de formação/qualificação e com integração social.
As escolas, os professores, os formadores e os alunos são vidas, são pessoas, são entes sociais que se qualificam para todo o conjunto das atividades de uma sociedade.
Qualidade de currículo é incompatível com treinamento cego, com ideologização, com doutrinação, com militância.
No dia de hoje, 18 de junho, o governo decide finalmente substituir o Ministro da Educação (enquanto escrevo ainda não ocorreu...) infelizmente não pelas razões mais profundas, isto é, de princípios, justamente de acordo com a relação que deveria haver entre filosofia e educação.
Quero me referir à proclamação feita por Weintraub na reunião de 22 de abril, a de que ele é um militante. Aprendeu com Olavo de Carvalho que precisava introduzir um novo mote, o da escola sem partido. Ora, não só não atingiu o objetivo de peneirar o ensino da ideologia igualmente deletéria dos marxistas que se instalaram nas faculdades de educação, como falhou em inúmeros aspectos.
O que faltou?
Equilíbrio, reflexão, pensar na finalidade do processo educacional, seguir metas de aperfeiçoamento, melhorar a qualidade dos conteúdos e currículos, adotar perspectivas inovadoras, conseguir que os mestres e dirigentes se voltassem para o aluno, sua formação, sua inserção social, derrotar o analfabetismo, melhorar a qualidade do ensino.
Enfim, é um erro acreditar que um lado do perfil de esquerda precisa ser urgentemente confrontado e por quais razões, impor outro perfil de direita.
Ser liberal não é ser escravo do mercado de trabalho como pensam os marxistas. O liberal acolhe abertamente sugestões, esclarece no bom sentido iluminista, até mesmo kantiano, não sufoca, não impõe e trabalha por resultados, melhoria do ensino que no Brasil, ainda mais com escolas fechadas, só piora.
Equilíbrio, olhar o todo, aprofundar, examinar as questões pelos seus diversos ângulos, propor sugestões. Por que isso não é uma prática, em especial no ensino público?!
Não é necessário aprender os conceitos filosóficos mais elaborados, importa isso sim, o modo como aprofundamos as questões, como abordamos os problemas, como vamos às raízes das dificuldades e, ao mesmo tempo, sabemos o que esperar no processo educacional.
As perguntas: o que é mais importante, com quem lidamos, quais são os objetivos, o que significa aprender, como alcançar patamares de qualidade e superar dificuldades? Em todas essa abordagens o educador trabalha com princípios e metas, com valores e resultados, com conteúdos e com avaliações, com processos de formação/qualificação e com integração social.
As escolas, os professores, os formadores e os alunos são vidas, são pessoas, são entes sociais que se qualificam para todo o conjunto das atividades de uma sociedade.
Qualidade de currículo é incompatível com treinamento cego, com ideologização, com doutrinação, com militância.
No dia de hoje, 18 de junho, o governo decide finalmente substituir o Ministro da Educação (enquanto escrevo ainda não ocorreu...) infelizmente não pelas razões mais profundas, isto é, de princípios, justamente de acordo com a relação que deveria haver entre filosofia e educação.
Quero me referir à proclamação feita por Weintraub na reunião de 22 de abril, a de que ele é um militante. Aprendeu com Olavo de Carvalho que precisava introduzir um novo mote, o da escola sem partido. Ora, não só não atingiu o objetivo de peneirar o ensino da ideologia igualmente deletéria dos marxistas que se instalaram nas faculdades de educação, como falhou em inúmeros aspectos.
O que faltou?
Equilíbrio, reflexão, pensar na finalidade do processo educacional, seguir metas de aperfeiçoamento, melhorar a qualidade dos conteúdos e currículos, adotar perspectivas inovadoras, conseguir que os mestres e dirigentes se voltassem para o aluno, sua formação, sua inserção social, derrotar o analfabetismo, melhorar a qualidade do ensino.
Enfim, é um erro acreditar que um lado do perfil de esquerda precisa ser urgentemente confrontado e por quais razões, impor outro perfil de direita.
Ser liberal não é ser escravo do mercado de trabalho como pensam os marxistas. O liberal acolhe abertamente sugestões, esclarece no bom sentido iluminista, até mesmo kantiano, não sufoca, não impõe e trabalha por resultados, melhoria do ensino que no Brasil, ainda mais com escolas fechadas, só piora.
Equilíbrio, olhar o todo, aprofundar, examinar as questões pelos seus diversos ângulos, propor sugestões. Por que isso não é uma prática, em especial no ensino público?!
sábado, 23 de maio de 2020
O que é ideia?
Poderíamos dizer que ideia é a marca, a essência, a característica inerente aos seres humanos.
No filme "Ad Astra", um astronauta obcecado por encontrar vida inteligente em algum ponto do universo, permanece sozinho em uma estação espacial em Saturno. Sua missão falha, e o filho astronauta teria que trazê-lo de volta à Terra, mas não o convence. Ele consola o pai argumentando que afinal nós somos a vida inteligente no universo conhecido.
Ora, o filme envolve uma ideia, uma dúvida, o pai era possuído por uma única ideia, o filho é incumbido de um projeto, em todo projeto há uma ideia.
Algum extra-terrestre teria ideias? A ideia de buscar vida inteligente? Por quais razões?!
Os primeiros traços de humanidade provavelmente surgiram ao solucionar problemas, e isso não se faz com atos simplesmente. Os atos precisam de ideias.
As grandes ideias da humanidade produziram efeitos decisivos e permanentes.
A ideia de que há um Deus ou deuses levou à noção do além do homem, divindades podem premiar, castigar, requerem sacrifícios, templos, a noção de pecado e redenção. Na implantação de religiões houve paradoxalmente imposição e violência.
Com as ideias de mente, de consciência, de espírito/alma, de cogito, de razão, surgiram grandes nomes da Filosofia Ocidental.
Exemplos: considerar a ideia superior ao corpo, o inefável oposto ao material, ao carnal, que somos feitos de corpo e alma, que o mais interior, nosso cogito, nos assegura sermos alguém que pensa, portanto existe. Que a razão produz ideias, quer dizer, conceitos, formas puras que filtram o pensar, e, consequentemente, o agir.
Jordan Peterson resume a essencial importância da ideia de ideia, com o Logos no qual os cristãos transformaram o "Eu", esse Logos gera a palavra que ordena o Ser, até a noção moderna de consciência e pensamento.
O eu, o si produziu horrores (nazismo, estalinismo), a contrapartida, o bem, é a própria capacidade do Logos de sair de si, decidir, de responder desde os primevos de nossa história, às demandas do que o cerca. Se não o fizer, morre. Produzimos ideias, conferimos essas ideias com as de outros, com o próprio mundo.
O criador de ideias que indicam ação, liberdade, nobreza, este pode prosseguir, ao passo que o erro não pode. Uma dessas ideias de sucesso é a de ter fé, acreditar faz parte do próprio processo de pensar.
Freud e Jung viram isso, o campo de batalha das ideias, elas conduzem, elas visam algo, uma ideia é motivadora. Já os fatos, estão aí simplesmente. As ideias, em contraposição, são condutoras, por elas se luta, e se preciso for, até a morte.
Convido o leitor a fazer a seguinte experiência:
Quais foram e quais são as ideias que me moveram e que me movem?
No filme "Ad Astra", um astronauta obcecado por encontrar vida inteligente em algum ponto do universo, permanece sozinho em uma estação espacial em Saturno. Sua missão falha, e o filho astronauta teria que trazê-lo de volta à Terra, mas não o convence. Ele consola o pai argumentando que afinal nós somos a vida inteligente no universo conhecido.
Ora, o filme envolve uma ideia, uma dúvida, o pai era possuído por uma única ideia, o filho é incumbido de um projeto, em todo projeto há uma ideia.
Algum extra-terrestre teria ideias? A ideia de buscar vida inteligente? Por quais razões?!
A ideia de desvendar mistérios do cosmo e de si mesmo
Os primeiros traços de humanidade provavelmente surgiram ao solucionar problemas, e isso não se faz com atos simplesmente. Os atos precisam de ideias.
As grandes ideias da humanidade produziram efeitos decisivos e permanentes.
A ideia de que há um Deus ou deuses levou à noção do além do homem, divindades podem premiar, castigar, requerem sacrifícios, templos, a noção de pecado e redenção. Na implantação de religiões houve paradoxalmente imposição e violência.
Com as ideias de mente, de consciência, de espírito/alma, de cogito, de razão, surgiram grandes nomes da Filosofia Ocidental.
Exemplos: considerar a ideia superior ao corpo, o inefável oposto ao material, ao carnal, que somos feitos de corpo e alma, que o mais interior, nosso cogito, nos assegura sermos alguém que pensa, portanto existe. Que a razão produz ideias, quer dizer, conceitos, formas puras que filtram o pensar, e, consequentemente, o agir.
Jordan Peterson resume a essencial importância da ideia de ideia, com o Logos no qual os cristãos transformaram o "Eu", esse Logos gera a palavra que ordena o Ser, até a noção moderna de consciência e pensamento.
O eu, o si produziu horrores (nazismo, estalinismo), a contrapartida, o bem, é a própria capacidade do Logos de sair de si, decidir, de responder desde os primevos de nossa história, às demandas do que o cerca. Se não o fizer, morre. Produzimos ideias, conferimos essas ideias com as de outros, com o próprio mundo.
O criador de ideias que indicam ação, liberdade, nobreza, este pode prosseguir, ao passo que o erro não pode. Uma dessas ideias de sucesso é a de ter fé, acreditar faz parte do próprio processo de pensar.
Freud e Jung viram isso, o campo de batalha das ideias, elas conduzem, elas visam algo, uma ideia é motivadora. Já os fatos, estão aí simplesmente. As ideias, em contraposição, são condutoras, por elas se luta, e se preciso for, até a morte.
Convido o leitor a fazer a seguinte experiência:
Quais foram e quais são as ideias que me moveram e que me movem?
segunda-feira, 11 de maio de 2020
O que é a atitude filosófica?
Trata-se de atitude perante a vida, e, por consequência, perante a morte.
A atitude filosófica não diz respeito a estilos de vida semelhantes aos da lista abaixo:
- Conformistas: baixam a cabeça e preferem seguir normas e regras prontas, sem discussão; o chefe, o pastor, o líder político são obedecidos, basta pertencer a um rebanho e com ele marchar, de preferência repetindo palavras de ordem.
- Interesseiros: seu lema é aproveitar ao máximo, sugar seja o que for, seja de quem for. Vale bajular, vale postar sua imagem, de sua família e amigos, todos prontos em atender requisitos de sobrevivência social e econômica. Fingir, ocultar, escamotear sempre que isso for útil a sua sobrevivência.
- Revolucionários: se revestem com a crença de que sua bandeira, seu lema, seu líder político, seu partido devem não só vencer como dominar os inimigos, ou seja, todos os adeptos de outras vertentes ideológicas ou doutrinárias. A tática é a do convencimento.
- Gênios iluminados: trazem a ciência e a especialização como único caminho, verdade é a prova científica, os laboratórios são como que templos, fora deles reina a ignorância. Eles teriam sempre razão, gráficos, tabelas, demonstrações filtram todo tipo de ação e pensamento.
Esses são estilos de vida que centram seus valores em atitudes unilaterais. Ora, não há um único modo de ver e enfrentar questões e problemas.
A atitude filosófica requer abertura, amplos horizontes, uma visão do todo, questionar. O que não significa ficar o tempo todo com dúvidas e com um pé atrás, nem cético e nem dogmático.
E isso se consegue com conteúdo, com leitura, com informação de fontes fidedignas, com a firmeza de caráter, de que não há resposta para tudo, mas que, ainda assim, vale perguntar. Mas perguntar com embasamento, e para isso não é preciso ter estudado um ou mais filósofos.
A atitude filosófica é calma, sábia sem ostentação, ouve argumentos, usa argumentos e mostra conclusões possíveis.
A forma dessa argumentação é o diálogo, o estranhamento diante do mistério, entender que não sabemos tudo, que a arrogância do que diz tudo saber deve ser combatida com a humildade do que é possível e devido saber.
Subimos escadas do conhecimento, da ética, dos valores, sem a pretensão de que essas escaladas terão um fim. A não ser o fim de cada um de nós, a morte em nosso horizonte.
A atitude filosófica não diz respeito a estilos de vida semelhantes aos da lista abaixo:
- Conformistas: baixam a cabeça e preferem seguir normas e regras prontas, sem discussão; o chefe, o pastor, o líder político são obedecidos, basta pertencer a um rebanho e com ele marchar, de preferência repetindo palavras de ordem.
- Interesseiros: seu lema é aproveitar ao máximo, sugar seja o que for, seja de quem for. Vale bajular, vale postar sua imagem, de sua família e amigos, todos prontos em atender requisitos de sobrevivência social e econômica. Fingir, ocultar, escamotear sempre que isso for útil a sua sobrevivência.
- Revolucionários: se revestem com a crença de que sua bandeira, seu lema, seu líder político, seu partido devem não só vencer como dominar os inimigos, ou seja, todos os adeptos de outras vertentes ideológicas ou doutrinárias. A tática é a do convencimento.
- Gênios iluminados: trazem a ciência e a especialização como único caminho, verdade é a prova científica, os laboratórios são como que templos, fora deles reina a ignorância. Eles teriam sempre razão, gráficos, tabelas, demonstrações filtram todo tipo de ação e pensamento.
Esses são estilos de vida que centram seus valores em atitudes unilaterais. Ora, não há um único modo de ver e enfrentar questões e problemas.
A atitude filosófica requer abertura, amplos horizontes, uma visão do todo, questionar. O que não significa ficar o tempo todo com dúvidas e com um pé atrás, nem cético e nem dogmático.
E isso se consegue com conteúdo, com leitura, com informação de fontes fidedignas, com a firmeza de caráter, de que não há resposta para tudo, mas que, ainda assim, vale perguntar. Mas perguntar com embasamento, e para isso não é preciso ter estudado um ou mais filósofos.
A atitude filosófica é calma, sábia sem ostentação, ouve argumentos, usa argumentos e mostra conclusões possíveis.
A forma dessa argumentação é o diálogo, o estranhamento diante do mistério, entender que não sabemos tudo, que a arrogância do que diz tudo saber deve ser combatida com a humildade do que é possível e devido saber.
Subimos escadas do conhecimento, da ética, dos valores, sem a pretensão de que essas escaladas terão um fim. A não ser o fim de cada um de nós, a morte em nosso horizonte.
segunda-feira, 20 de abril de 2020
O que são valores?
Em nosso cotidiano, comunicações, atividades, decisões, somos instados a fazer escolhas. Impossível o imobilismo, talvez com exceção de certas doenças graves ou quando inteiramente subjugados.
Ao escolhermos nos pautamos por valores, como bom, mau; bem, mal; certo, errado; saudável, doentio; útil, inútil; proveitoso, prejudicial; inofensivo, perigoso... Valores se apresentam como polos opostos e em hierarquia, do mais alto e nobre ao menos valorado.
Não faltam adjetivos para qualificar nossos atos.
Valores são impalpáveis, a situação é real, mas o modo como a consideramos é pessoal, cultural, político, social.
Entram em jogo a consciência moral, a formação pessoal, pelo menos é o que se espera de adultos responsáveis.
Quando Habermas se refere a consciência moral no agir comunicativo, adota a linha de Piaget, ao mostrar que a forma de vida social surgiu com o uso da linguagem para comunicação que se dá em um espaço lógico no qual se formam estruturas responsáveis pelas várias formas de acesso à realidade e à interação, com o progressivo domínio de símbolos.
Ainda segundo Habermas, que adota a classificação de Kohlberg para a evolução dos níveis de consciência moral, há três níveis:
- o pré-convencional, com obediência a um poder superior, que confere responsabilidade objetiva à ação;
- o convencional, que corresponde ao nível de responsabilidade da faixa jovem, cumpre-se o que a lei ou a autoridade estabelecem;
- o pós-convencional, em que o padrão é a ordem institucional, as leis, os direitos, e os valores que podem ser julgados e apreciados pelos sujeitos cujos direitos individuais, liberdade e igualdade são os guias. A orientação ética da ação segue princípios universais, acolhidos de forma autônoma, compreensíveis e criticáveis. Forma-se a dignidade do indivíduo.
Creio que esse último nível em raras sociedades e em poucos indivíduos é atingido.
Mas é nesse nível de responsabilidade que as escolhas de valores deveriam ser feitas.
Então vem a pergunta, como se dá que uma ação siga normas, entre elas a do dever?
Quando a escolha de valores é guiada por valores! E isso não é um jogo de palavras...
Dignidade, respeito, autonomia entram em cena.
Como escolher entre valores, o que nos motiva?
Se for o lado da moeda do orgulho, da mistificação, da covardia, prevalece o polo negativo, o que caracterizaria sociedades hobbesianas, o homem lobo do homem.
Na sociedade de integração, com nível moral pós convencional, a autonomia e a formação ético/moral fazem pender para o lado do bem social, da liberdade, da saúde, do bom uso de valores, cujo critério é a consideração pelo outro.
Na hierarquia de valores em geral considera-se o valor moral/espiritual superior aos valores da arte (belo, prazeroso) saúde (cuidados com o corpo e a mente), da utilidade (produção e consumo de bens).
Essa hierarquia pode mudar conforme a situação pessoal e/ou social.
No momento atual (abril de 2020) importa a vida individual e coletiva, sua preservação, a valorização das ciências de ponta, as estatísticas, as projeções, em última análise, o local, o nacional e o universal estão em total co-dependência.
Como sairemos dessa nova e surpreendente condição?!
Que valores nos guiarão?!
Ao escolhermos nos pautamos por valores, como bom, mau; bem, mal; certo, errado; saudável, doentio; útil, inútil; proveitoso, prejudicial; inofensivo, perigoso... Valores se apresentam como polos opostos e em hierarquia, do mais alto e nobre ao menos valorado.
Não faltam adjetivos para qualificar nossos atos.
Valores são impalpáveis, a situação é real, mas o modo como a consideramos é pessoal, cultural, político, social.
Entram em jogo a consciência moral, a formação pessoal, pelo menos é o que se espera de adultos responsáveis.
Quando Habermas se refere a consciência moral no agir comunicativo, adota a linha de Piaget, ao mostrar que a forma de vida social surgiu com o uso da linguagem para comunicação que se dá em um espaço lógico no qual se formam estruturas responsáveis pelas várias formas de acesso à realidade e à interação, com o progressivo domínio de símbolos.
Ainda segundo Habermas, que adota a classificação de Kohlberg para a evolução dos níveis de consciência moral, há três níveis:
- o pré-convencional, com obediência a um poder superior, que confere responsabilidade objetiva à ação;
- o convencional, que corresponde ao nível de responsabilidade da faixa jovem, cumpre-se o que a lei ou a autoridade estabelecem;
- o pós-convencional, em que o padrão é a ordem institucional, as leis, os direitos, e os valores que podem ser julgados e apreciados pelos sujeitos cujos direitos individuais, liberdade e igualdade são os guias. A orientação ética da ação segue princípios universais, acolhidos de forma autônoma, compreensíveis e criticáveis. Forma-se a dignidade do indivíduo.
Creio que esse último nível em raras sociedades e em poucos indivíduos é atingido.
Mas é nesse nível de responsabilidade que as escolhas de valores deveriam ser feitas.
Então vem a pergunta, como se dá que uma ação siga normas, entre elas a do dever?
Quando a escolha de valores é guiada por valores! E isso não é um jogo de palavras...
Dignidade, respeito, autonomia entram em cena.
Como escolher entre valores, o que nos motiva?
Se for o lado da moeda do orgulho, da mistificação, da covardia, prevalece o polo negativo, o que caracterizaria sociedades hobbesianas, o homem lobo do homem.
Na sociedade de integração, com nível moral pós convencional, a autonomia e a formação ético/moral fazem pender para o lado do bem social, da liberdade, da saúde, do bom uso de valores, cujo critério é a consideração pelo outro.
Na hierarquia de valores em geral considera-se o valor moral/espiritual superior aos valores da arte (belo, prazeroso) saúde (cuidados com o corpo e a mente), da utilidade (produção e consumo de bens).
Essa hierarquia pode mudar conforme a situação pessoal e/ou social.
No momento atual (abril de 2020) importa a vida individual e coletiva, sua preservação, a valorização das ciências de ponta, as estatísticas, as projeções, em última análise, o local, o nacional e o universal estão em total co-dependência.
Como sairemos dessa nova e surpreendente condição?!
Que valores nos guiarão?!
segunda-feira, 13 de abril de 2020
O que é a alma de um ponto de vista filosófico
Uma das metáforas mais interessantes e esclarecedoras sobre a alma, é a do sopro, sopro vital, respirar, inalar e sentir que o corpo se encheu com algo inefável, essencial, imaterial, invisível.
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
sábado, 4 de abril de 2020
O cuidado de um ponto de vista filosófico
Quando iniciei o blog, o fiz por sugestão de colegas de minha filha, quando ela lecionava em uma escola de inglês.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
Cuidar se transformou em isolar
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
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