terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que é Iluminismo? O que é Esclarecimento?

 Tomemos para ilustrar o Iluminismo Voltaire (1694-1778) em Cartas Inglesas, texto em que ressalta o pensamento inglês em comparação com o racionalismo francês. 

Até no sorriso é irônico, demolidor.

Desfia uma série de críticas, como a da crença na imortalidade da alma como se houvesse um caminho para o céu, ele defende que a autodeterminação dos homens os conduz pelo caminho que lhes aprouver. Voltaire admira as instituições inglesas, os presbiterianos, os anglicanos, o livre comércio que tornou os cidadãos mais livres e a liberdade que ampliou o comércio, a prática de inoculação da vacina contra a varíola. Ele preza a filosofia experimental de Francis Bacon baseada na arte mecânica, com a valorização das invenções, o progresso.

O contraste entre a metafísica de Descartes, "nascido para descobrir os erros da antiguidade a fim de substituí-los pelos próprios" (p. 21) é evidente. Para Descartes alma é a mesma coisa que o pensamento, provinda do corpo com todas as noções metafísicas mas que ela "esquece ao sair do ventre da mãe" (p. 21). Voltaire defende, ao contrário,  John Locke para quem todas as ideias proveem dos sentidos, "sou corpo e penso", assim resume ele o empirismo, questões filosóficas independem de fé e de revelação.A verve crítica é apontada ainda para o teatro, a poesia, as academias, as dissertações da academia francesa sobre os penteados das romanas, mas que ele aconselha a não confundir com estudos matemáticos, lamenta que grandes cérebros pretendem brilhar tratando de forma nova "matéria já gasta", que nada têm a dizer e que sob "títulos ridículos" escondem "investigações frívolas" (algo parece não ter mudado em certas dissertações e teses da atualidade!).

No Tratado de Metafísica Voltaire defende que os sentidos são fonte das ideias, quando os sentidos nos faltam, nos faltam também as ideias. Questiona Deus criador, pois nem todos os povos têm essa noção. Criar do nada, mas o nada não é, então criou a partir de sua própria divindade? Como pode o mundo ser eterno e ao mesmo tempo criado? Como um ser não material poderia ter criado a matéria? Atribuir qualidade ou propriedades a Deus, como justo ou injusto, é absurdo. Deus devolve a memória a quem a perdeu ou criará novas ideias? Se o homem é livre para agir, como alguns agem ora por impulso ora com tranquilidade? A liberdade para "fazer o que lhe parece ser bom" (p.77), contrasta com a impossibilidade de querer o que não dá prazer. 

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Passemos ao conceito de Esclarecimento com base no texto Was ist Aufklärung, de Kant (1724-1804), cujo ponto de partida não é a razão pura e sim a condição humana, somos seres racionais que lutam para superar o mal, cidadãos que visam o bem comum, em uma sociedade esclarecida, cosmopolita, com a perspectiva de que a condição humana possa ser aperfeiçoada, que os homens possam sair do estado de minoridade, quer dizer, de subserviência, de dependência, que possam usar sua própria cabeça. 


Kant, o exemplar rigor filosófico.
Infelizmente houve acomodação a esse estado de dependência, mas "se for dada liberdade, o esclarecimento é quase inevitável", afirma Kant, sem tutela, com coragem, com liberdade de crença e religiosa em uma sociedade civil com um público culto, preparado para usar a razão, imprensa livre que estimule essa capacidade de pensar por si, com governantes que facilitem aos governados escolhas livres e responsáveis, sem imposição deste ou daquele credo.

Kant inspirou Foucault em Qu'est-ce que les Lumières (1984), o ousar saber, a filosofia capaz de pensar seu próprio tempo, a coragem para o exercício da liberdade, cabe a todos nós como dever pessoal esse processo de esclarecimento por meio do uso público, livre e universal da razão, dos argumentos,  sair do estado de subserviência sem medo, sem tutela, sem autoritarismo, de modo a preservar a autonomia e a dignidade da pessoa. Tais condições são ao mesmo tempo espirituais e institucionais, éticas e políticas. 

O esclarecimento requer, ao mesmo tempo, argumentação acessível, com liberdade e responsabilidade,  esse é um "problema político", ressalta Foucault, o uso ilegítimo da razão, ao contrário, produz ilusão, dogmatismo e heteronomia, vale tudo, um tipo de salve-se quem puder. Ora é lícito, legítimo e razoável poder determinar o que conhecer e o que se pode esperar. Vivemos em uma época que acolhe e necessita desses esclarecimentos, algo impossível antes da modernidade, justamente o período histórico propício, modernidade entendida como período de usufruir o real ao mesmo tempo exercitar a liberdade, segundo entendimento de Foucault. É "a permanente criação de nós mesmos em nossa autonomia" (p. 573). 

A atualidade parece mais atada às palavras de ordem e ideologias que impedem justamente, o esclarecimento.


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