quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A incansável alma humana

 Desde os primeiros balbucios da fala, o uso de toscos instrumentos, grupamentos em aldeias, houve uma evolução impressionante até a linguagem computacional, a exploração espacial e mísseis teleguiados. Milênios da história humana se passaram. 

Contrastes há até hoje: tecelões e artistas produzem ao lado de fábricas automatizadas, o carrinho de mão serve ao mesmo tempo que automóveis conduzidos por robôs fazem sua estreia. Há vilas e aldeias nas quais casas não precisam de grades e alarme, mas a segurança é cada vez mais reforçada nas cidades, nos prédios, nas ruas vigiadas por câmeras. Há neste instante um salvamento heroico e um covarde ataque a uma escola. O saber é transmitido por meio de livros, das cátedras, um poeta inspira, enquanto um grupo se arrisca em prédios para pichar as paredes com garatujas indecifráveis. O caminhão recolhe o lixo, garis se equilibram na traseira, um deles sorri para um passante, na outra ponta entulhos são despejados em terrenos, da janela de um luxuoso automóvel um papel de embrulho é jogado fora, na praia a família deixa para trás sacos plásticos. Um fiel se ajoelha e reza, faz seus pedidos, no mesmo templo um projétil é lançado porque aquele não é o seu deus. No mesmo globo, a diarreia mata, na outra ponta a ciência busca a cura para o câncer.  Em um campinho meninos se reúnem para uma pelada, no outro lado a disputa pelo Superbowl, com ingressos a 40 mil reais. 



Alçar voos, engrandecer, enveredar por caminhos, subir montanhas, estabelecer contatos, navegar, explorar novos povos e civilizações, a aventura humana não mais tem o privilégio do pioneirismo. Cada pedaço desse planeta já foi ou está sendo mapeado. Isso não resultou em respeito e nem direito de um povo de se autodeterminar e nem de se estabelecer. O mundo é um só, mas sem nenhuma organização forte o suficiente, respeitável, com legítima autoridade, com força e poder para se fazer ouvir e tomar decisões acertadas, equânimes. Pelo contrário, a política internacional segue por caminhos tortos, perigosos, irresponsáveis. Desde primórdios houve guerra de conquista, dominar, invadir, restabelecer fronteiras, conquistar, essa história se prolonga até a atualidade.

Morro carioca dominado pelo tráfico, zumbis no centro de São Paulo, o usuário de cocaína na casa noturna refinada de alguma cidade onde a riqueza e a ostentação são a regra: duas pontas que no fim se unem e que são comandadas pelos produtores e pelos chefes do narcotráfico. A matéria prima do fentanil, por exemplo, droga que alivia a dor mas vicia e mata, é produzida na China, traficada para os Estados Unidos. Produtos que beneficiam, produtos que sabidamente viciam, importa apenas vender, fazer preço, exportar. Dane-se o uso. 

Não vamos aprender nunca?! A estrutura mental oscila entre Eros e Thanatos, entre o prazer e a dor, entre a realização e a destruição, entre a sanidade e a loucura, entre a vida e a morte. Esses são os parâmetros mais gerais e indestrutíveis da alma humana. Em busca de solução e do sábio meio termo, pressionados por ambição, poder e glória, prosseguimos, bilhões de vidas formigando num planeta solitário. Pode ser que a sabedoria um dia seja a prática entre políticos, chefes, mandatários; pode ser que líderes religiosos conduzam crentes por caminhos de mútua compreensão; pode ser que as bases da educação beneficiem crianças e jovens no mundo todo; pode ser que a arte, a música e o lazer sejam compartilhados por muitos; pode ser que o fanatismo seja desmascarado; pode ser que esquerda e direita não sejam a única opção.

Pode ser, a alma humana é incansável. 


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O mito do herói

 As epopeias narram os feitos heroicos, Hércules, Teseu que venceu o Minotauro, Rômulo, Édipo. Há aqueles cujos feitos são históricos, como Moisés abandonado quando bebê em um cesto no Nilo, foi salvo, quando adulto conduziu seu povo para instaurar o monoteísmo.

Se hoje mencionamos feitos de um herói, salvo situações de salvamento, de luta em guerras de defesa, o que sobressai é muito mais o mito do que o heroísmo. Ao redor do mundo há dezenas de dirigentes que pretendem se perpetuar como mitos, quer dizer, fabulosos, capazes de se manter décadas no poder por meios tornados por eles próprios legítimos, no mais das vezes à revelia dos governados. Kim Jong-un recentemente mandou 11 mil soldados para ajudar o outro ditador, Vladimir Putin na guerra contra a Ucrânia, 4 mil morreram ou ficaram feridos; Lukashenko que se perpetua no poder na Bielo Rússia "silenciando" opositores; dezenas de mandantes que oprimem populações na África; eleições são fraudadas na Venezuela pelo chefete Maduro. Enfim, parece que as condições atuais na política mundial estão e permanecerão trágicas.



11 mil soldados norte-coreanos obrigados a lutar na guerra de Putin contra a Ucrânia.

Acresce que esses mandatários se consideram mitos, acima da lei, poderosos, oprimir seu povo não os abala. Mas, e se alguém renomear tal tipo de poder, renomear uma guerra de conquista como "ridícula"?

"Pare com esta guerra ridícula", a condenação feita por Trump a Putin reduziu toda e qualquer chance de considerar expansão de território da mãe pátria Rússia, saudosa da União Soviética, como conquista,  foi qualificada como teatro, circo, com a dimensão da piada. Ninguém ainda tinha pensado nisso, Putin como palhaço, ridículo, o oposto do herói mítico. Mas perigoso. Cômico se não fosse trágico, como se costuma dizer. Ditadores sanguinários se atribuem o poder de praticar injustiça e crueldade, expandir seu território sem considerar a soberania de um povo, a legitimidade do poder, opositores são envenenados. Seria "mito" no sentido de mistificador e não no sentido heroico.

Pior,  esses mandatários recebem apoio, tapinhas nas costas; sem levar em conta a situação histórica, prevalece o véu do autoengano, atêm-se a certo partido, a certa ideologia, o seu lado é sempre o do bem, o único verdadeiro. Resultados: divisão profunda, recusa de raciocinar, de acolher a realidade e suas implicações, indagar razões, apoiar-se em argumentos, trabalhar à luz dos fatos. 

Dirigentes ao redor do mundo perderam o passo, há atraso, insistência nos erros, censura, cegueira para os acontecimentos, seus juízos saem de sua própria cabeça, sem base alguma em análises, ocultam, prejulgam, seu olhar é sempre enviesado, torto. 

Sem deuses e heróis, sem epopeias para narrar, restam poucas conquistas, e sobram sofrimento, perseguição, aposta na desinformação conscientemente praticada,  mortandade em nome de um profeta, ilusão, acusações mútuas, ressentimento, ódio.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Nietzsche e o sentido de "Deus está morto"

 Uma das frases mais famosas  da História da Filosofia é a de Nietzsche em seu anúncio da morte de Deus. O que isso significa, por que escandaliza e faz dele um autor "perigoso"?

Há que compreender as razões, o filósofo se considera o "primeiro imoralista", que dizer, destruidor de ídolos a marteladas, como o deus Dionísio, deus do devir, das transformações, inspirador da arte. A recusa de um ideal e pôr em seu lugar o real, livrar-se do sufoco da fé que cega, caminhar por si, com suas próprias forças, superar as dificuldades por meio de sua vontade, esses são os meios para a vida, uma luta em que se conta com as condições terrenas, com a capacidade de reagir. Isso Nietzsche experimentou com o sofrimento por doença, dores de cabeça terríveis, mas ele reagiu e assim se tornou mais forte. 

Fraqueza seria renunciar ao que podemos contar aqui, com as condições que se nos apresentam, as condições da terra, o que terreno fortalece, ele põe a vida em lugar do mundo espiritualizado, da cultura banalizada.

Os espíritos livres são doadores de sentido, isso torna compreensível o slogan "Deus está morto", que implica na recusa de desejar alguém que mande, "um Deus, um príncipe, uma classe, um médico, um confessor, um dogma, uma consciência partidária", afirmou Nietzsche. É um adoecimento da vontade esse "tu deves", o fanatismo que hipnotiza os fracos e inseguros, o sentimento de culpa, o medo, o temor da condenação da alma. Essas são convicções, não ocorre às pessoas livrar-se desses sacrifícios para resgatar sua liberdade e autoconfiança. Quanto menor for a vida vibrante e atual, maior a necessidade de Deus salvador, das promessas da vida eterna. 

Para ele, a morte de Deus representa o maior dos acontecimentos, a morte das crenças e da moral europeia, essa morte seria uma nova aurora, caminhos abertos para navegar e enfrentar todo perigo, sem a tortura do mal e do pecado, quando o que se tem é a natureza humana, em que há sofrimento. A não aceitação do sofrimento produz o desejo de redenção, de salvação, resultados do orgulho humano, de o próprio homem se considerar um Deus.

Como seria então para Nietzsche uma vida vibrante e "terrestre"? 

A busca do autocontrole, do silêncio e solidão, como ele próprio gostava, caminhar, contemplar do alto de montanhas . O mesmo acontece com o homem comum quando busca a paz de espírito, a nobreza da aceitação, do "é assim mesmo", a necessidade da elevação de si, a compreensão de que suportar o mundo real não é uma condenação que precisaria da redenção à vida eterna para a alma imortal. Importam as condições do mundo real. 

 Nietzsche apreciava caminhar no silêncio e solidão de Sils Maria, pequena cidade Suíça. 


Para quem pensa é mesmo indelicado supor Deus, um obstáculo para todos aqueles que não veem sentido algum na salvação; faz sentido alimentar a vida, dançar, alegrar-se, dar valor ao corpo, aos desejos, livrar-se do sentimento de culpa, os desejos não são impuros.

***

Ser "espírito livre", deixar o rebanho, parece cada vez mais complicado. Em nossos dias vemos hordas e mais hordas a gritar e a ameaçar, pessoas que veneram não só ídolos, mas o ideólogo do momento, o partido do momento, o retorno ao poder, o guru da moda. O grande perigo, afirmou Nietzsche, e isso vale inclusive para a atualidade, é quando a religião não opera para educar, disciplinar e passa às mãos obcecadas de tiranos que consideram sua crença como superior, única e suprema verdade. E, em nome de sua crença, perseguem, castigam, oprimem e matam.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Reflexão filosófica: características principais

 Há características comuns às várias escolas filosóficas, tais como: apartidarismo; universalismo; análise conceitual; busca do que é essencial; pertencimento a uma escola de pensamento; fundamentação lógica, metafísica ou ontológica; razões para a existência humana; perspectiva ética; relação sujeito/objeto; bases do conhecimento.

A cada época, antiga, medieval, moderna e contemporânea, um ou outro desses temas é privilegiado. Assim a metafísica para os antigos e para os medievais, a teoria do conhecimento para os modernos, a condição da existência e a historicidade para as escolas mais recentes. O que não implica que um filósofo contemporâneo aborde temas metafísicos e ontológicos, nem que um filósofo na antiguidade não tivesse abordado questões políticas, como Platão, por exemplo. A diferença está na base, nos pressupostos. 

Os pressupostos dos filósofos gregos são o cosmo e sua origem, a busca da essência de tudo o que há, o pensamento racional e conceitual, a metafísica do ser, das causas e princípios. A esses temas, a filosofia cristã sobrepôs Deus.

O homem que pensa e conhece, seus limites e fundamentos, é tema dos modernos, como Descartes e Kant. 

A historicidade e finitude são questões contemporâneas, o ser humano em sua concretude e limites, o que há para esperar, ou confrontar; a ação política; a linguagem; a sociedade.

Na relação entre essência e existência, a filosofia clássica privilegia a essência, os mais modernos privilegiam a existência. Essência é o imprescindível, aquilo sem o que algo não é nem vem a ser. O vir a ser, as mudanças se devem ao que a essência contém em si, potencialmente. Não havia noção darwiniana de  transformação na cadeia evolutiva, pois cada ente atualiza apenas sua potencialidade. A capacidade de vir a ser está contida integralmente no próprio ser. A natureza faz brotar o que está em germe, pois do nada, nada pode provir. Os seres são o que são em sua essência, prontos, acabados, e, para os medievais, obras perfeitas do criador.


"Pensador" na versão de Mikhail Nesterov.

A Filosofia não morre enquanto houver um único ser pensante na face da Terra.

Na relação entre essência e existência, a filosofia moderna realça o ser humano pensante, sua existência concreta tem como essência o pensar, o cogito, a razão. Existir é deduzido do pensar, o homem em carne e osso ainda não tinha nascido, como observou Foucault em As Palavras e as Coisas. Ele ainda era sujeito de uma razão pura, sem os esquemas a priori ele não pode aceder às coisas e nem a si mesmo, pois que para tal depende de conceitos, como o de espaço e tempo. O transcendental kantiano pressupõe uma rede para ser e conhecer, e para a ação reta, para a moralidade, o pressuposto são princípios absolutos e necessários, como a noção de dever.

O homem contemporâneo nasceu quando Nietzsche anunciou a morte de Deus, quer dizer, o homem está só, e tem que se haver com sua fraqueza, seus valores inventados, seus limites, e esse foi um caminho que existencialistas e Heidegger seguiram. No outro lado estão as filosofias da historicidade, a concretude se deve às leis de mudança histórica, a base material do homem pode ser igualmente a melhor chance para sua redenção, uma vez que as condições históricas, sendo pelo próprio homem criadas, podem sem igualmente por ele mesmo modificadas, como pensara Marx.

Mas esse homem foi divinizado, essa materialidade virou seu destino, o da revolução salvadora. Há que chamá-lo de volta à terra. Terra de seus condicionantes, a sociedade, a linguagem, a produção, os anseios políticos, ao planeta em crise. Ainda assim a filosofia sobrevive, e la nave va.



sábado, 28 de dezembro de 2024

Exercício de ideias

O corpo exercitado e saudável se tornou lema de grande parte da população que pratica algum tipo de exercício leve ou pesado, com frequência ou esporadicamente.

Que tal experimentar outro tipo de exercício, o exercício de ideias, ideias em movimento, sacudidas, arejadas, confrontadas, postas à prova?

Em geral as noções, os conceitos, o modo de pensar são acomodados na mente em certos lugares dos quais nunca são removidos, nem repensados, prendem as pessoas como se fossem armadilhas. Elas ficam fechadas para o contraditório, ideias e noções adotadas ao longo da existência, são alocadas e empregadas sempre do mesmo modo, acumulam poeira, teias de aranha, ainda assim representam o tipo de pensamento, o modo de entender acontecimentos, são repetidas à exaustão pela pessoa, pelo seu grupo, pelos seus adeptos. Não lhes ocorre experimentar algo novo nem confrontar sua visão de mundo. O outro lado fica sempre oculto, como se não existissem outras perspectivas. Quando sua postura é ameaçada de ser exposta, fecha-se para retornar ao estado de autossatisfação e acomodamento junto às suas certezas absolutas. Certezas que são proclamadas repetidas vezes, metodicamente, se enraízam e se fecham para outras vozes.

Essa dieta unilateral e pobre tem sido o alimento de dois lados opostos no cenário político no Brasil e nos EUA, para citar os casos mais próximos. Os adeptos do atual presidente vestiram a roupagem de salvadores da democracia. Os adeptos do ex-presidente se creem salvadores da moral e da ordem. São duas posturas incomunicáveis, um fosso entre elas é criado pelo radicalismo que barra questionamento, que impede de indagar sobre as bases de seus posicionamentos e assim desmontar ambas as narrativas com argumentos. Esse radicalismo produz uma animosidade que beira o ódio mútuo. Além de serem posturas fechadas, são néscias, tacanhas.

Ora não há um só caminho justo e verdadeiro, é preciso urgentemente considerar uma dieta reflexiva, uma aeróbica de ideias, arejar o modo de pensar e de ser, questionar atitudes e decisões, fundamentar posições e conceitos, interrogar ao invés de engolir palavras de ordem. A acusação tanto de um lado como do outro de que são "narrativas" se autodestrói, narrativas têm que ser criticadas de fora, como disse acima, com argumentos. 

Os dois extremos acabam com a confiança, como confiar se há duas posições opostas que se alimentam reciprocamente? Acrescente-se a isso decisões supremas, questionáveis e que acabam por aguçar o estado atual do radicalismo, cujos frutos são amargos, azedos, indigestos. Por detrás há um culto à personalidade de ambos os chefes, à esquerda e à direita, esquecem que os ídolos têm pés de barro.

Os caminhos nas democracias representativas não são de mão única. E nem há um só caminho que seria o "certo".  Caminhos se bifurcam, ora se aproximam, ora se afastam, mas serão vias confiáveis se conduzirem o país e seus cidadãos à representatividade, à segurança, à abertura de posições. As vozes devem e podem ser múltiplas e diversas, desde que, como apontou Habermas*, recobertas pelo manto da razão, pela unidade da razão. Alguma luz é possível.



A linguagem comunicativa é capaz de coordenar a ação.


*Filósofo alemão, com 95 anos, propõe o diálogo entre os diferentes coordenado por argumentos sujeitos à prova, ao contraditório. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Injuriar e blasfemar no sentido religioso.

A Síria está livre de um ditador sanguinário. Estará livre da ortodoxia religiosa?

Religião significa atar com o mais alto, ligar, religar. Entretanto, há milênios a crença religiosa obriga, impõe, castiga, queima na fogueira, condena ao fogo eterno, estipula o que vestir, o que dizer, o que pensar. Pecados devem ser confessados, e muito mais radical, caluniar, injuriar e blasfemar merecem castigo, punição, prisão para certas seitas e linhas da ortodoxia em países controlados por chefes que governam e impõem crença, a exemplo do Irã e de países árabes. A religião nesses casos de extremismo, sai do círculo de crenças e dogmas, e entra no terreno político. Poder político e poder religioso se mesclam em uma combinação fatal para todos os chamados infiéis. Infiel é todo aquele que não professa o mesmo credo. 

O que é blasfemar? Podem ser apenas comentários veiculados na imprensa, ou mesmo em conversas para que sejam considerados blasfêmias, ofensas graves ao líder espiritual, aos preceitos, às regras, tudo o que pode ir contra a visão daquela crença, daquela seita. Obrigar ao uso do véu para as mulheres, impedir que meninas vão à escola, relegar a mulher a ser pecaminoso, caluniar, injuriar profetas e líderes pode levar a perseguição e condenação. 

Essa rigidez, essa violência, essa violação à liberdade de crença e de pensamento, conduz à barbárie, ao medo, à perseguição, à prisão, à tortura e mesmo à morte. 

Ora, a religião é produto humano, proveio da história dos homens desde o totemismo primitivo, o culto aos deuses e mitos na Grécia antiga, até o radicalismo atual. Ou como entende Schopenhauer, "o espírito humano não contente com as preocupações, ansiedades e cuidados que lhe são impostos pelo mundo real, criou ainda para si um mundo imaginário na figura de milhares de superstições (...). Demônios, deuses e santos são criados pelos homens segundo sua própria imagem e semelhança. A eles são oferecidos incessantemente sacrifícios, preces, decorações de templos, promessas e seu cumprimento, peregrinações, homenagens, adornos, etc." (O mundo como vontade e representação, p. 415). 

Como essa é uma análise filosófica, seu efeito se limita à própria reflexão filosófica, infelizmente. A realidade mostra que há um tipo de poder avassalador que arrebanha e arregimenta milhões de fiéis motivados e inspirados por crença. Para algumas dessas crenças isto se faz com medidas severas, com doutrinação, com obrigações, com castigo e perseguição. Em contrapartida, há outras crenças para as quais a religião representa opção de vida com adesão que não requer doutrinamento e nem punição. Basta-lhes a fé interior, a abertura da alma, a espiritualidade que respira e inspira. Ninguém é castigado por blasfêmia, os cultos e o livro sagrado se abrem para encontros, para caminhos de respeito. São religiões que não obrigam à exteriorização em véus, trajes, perucas, saias, até meias. 

Nas religiões radicais é preciso se submeter a vestes fechadas da cabeça aos pés como no islamismo, a perucas no judaísmo ultra ortodoxo; as crianças são obrigadas a decorar o Corão nas Madrassas, assim chamadas escolas de doutrinação em países como o Paquistão e Afeganistão, este novamente dominado pelo Talibã que proíbe a educação de meninas! 



Proibidas de frequentar escolas, as meninas são obrigadas a decorar o Corão

A quantidade de seitas e ramificações de um mesmo credo que se odeiam, que se perseguem em que uma pretende ser a única aceita, verdadeira, sunitas contra xiitas, mostra o absurdo e a contradição interna que as opõem mutuamente por divergirem em detalhes. Quem profetizou, o que profetizou. Pentecostais apregoam que o fim do mundo está próximo, a raça humana será varrida da face da Terra. Profecias, crença por meio de doutrinação, condenação por calunia e injúria não deveriam prevalecer sobre aquele sentido mais profundo, a fé mais sincera e benfazeja, aquela que pode beneficiar e agregar, aquela em que a ajuda humanitária importa mais do que a obrigação às regras estritas. 

Em lugar de calúnia, caridade; em lugar de blasfêmia, compreensão; em lugar de castigo, perdão; em lugar de pecado, concórdia; em lugar de condenação, redenção.

***

PS: tendo concluído três pesquisas a que me propusera após encerrar a vida acadêmica, o olhar se voltou para a obra de Schopenhauer citada nesta postagem, tradução de Jair Barboza, um legado para a filosofia e seus estudiosos. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

O paradoxo ético

 A famosa frase de Rousseau, "o homem nasce livre, mas em toda parte se encontra a ferros", diz respeito à sociedade, suas regras, suas leis e seu cumprimento, e também à submissão a um poder tirânico, guerras, morticínio. 

Seria interessante levar essa consideração para o terreno da ética. Somos livres, temos livre arbítrio, capacidade de decisão, nos consideramos acima do reino animal justamente devido à capacidade de escolha e autonomia. Ao mesmo tempo somos obrigados a obedecer às regras e princípios éticos. Como entender essa relação entre ser livre e, ao mesmo tempo não ser livre quando se trata de fazer o bem, cumprir obrigações, considerar o outro como seu semelhante? Se não há obrigações e deveres, passa-se por cima dos outros, ironiza-se quem é "bonzinho", como entender esse dilema, esse paradoxo?

O comportamento pessoal e aqui excluo o lado social e político, geralmente é o da indiferença, agir às escondidas ("ninguém está vendo"), ou apenas se e quando há proibição explícita, pelo medo da punição. O medo de ser descoberto, de ser ver ameaçado, esses são em geral os empecilhos, a que podemos chamar de ferros morais, ser instado e agir sob algum tipo de comando. Mas, isso não seria contradizer a ética?

Em outras palavras, como seria a vida ética livre, autônoma, como viver eticamente sem que isso seja uma obrigação?

Cultivar o caráter, caráter implica em ser firme, as decisões são tomadas com responsabilidade, a forte constituição pessoal como fruto da educação e dos próprios esforços. A livre tomada de decisões, a liberdade de escolha, seguir princípios, nunca decorre de obrigação, imposição ou ameaça.

Nesse caminho ético é preciso esforço que não tem como finalidade prêmio, aplauso, porque não é barganhado. Albert Camus deu sua versão para o mito de Sísifo, que desafiou os deuses, e estes o condenaram a erguer uma pedra até o alto da montanha, repetidamente. Tarefa sem sentido, castigo que não cessa. Na versão de Camus, mesmo condenados à tarefa fatigante e sem fim, podemos "enganar" os deuses e nos dedicarmos à labuta, cientes de que somos sujeitos a ela, porém não sujeitados, que a aceitamos sem pesar, que subimos e descemos montanhas com fardos pesados.



No fim, o que importa são os juízos que fazemos sobre nós mesmos. Exigir demais, cansa, sucumbimos; se relaxados e fracos, advém a insatisfação. Melhor o caminho do meio, nem enaltecimento, nem desprezo. O esforço ético, o esforço do caráter não precisa nem de céu para bem aventurados e nem de inferno para condenados.