domingo, 26 de maio de 2013

O que é idealismo?

O sentido habitual em que se emprega o termo "idealismo" remete à busca de condições ótimas para realizar um projeto de vida considerado o melhor possível. Quando se diz que uma pessoa tem um ideal, significa que ela pretende atingir esse objetivo, mesmo que difícil, até mesmo próximo de um sonho impossível.

O sentido filosófico do termo remete a ideia, isto é, o pensável, portanto, oposto a real, a material, a sensível.

Platão foi o primeiro filósofo idealista. Os seres reais, sensíveis e materiais podem ser destruídos, se decompõem e essas mudanças impedem que se chegue à pureza da essência, à permanência, àquilo que nossa alma inteligível, e apenas ela tem acesso. Mas como são as ideias, quer dizer, de que elas são feitas, qual é seu ser, como podem elas existirem se são ideias?
São concebíveis pelo intelecto, em um mundo à parte, o mundo inteligível. Sem ideia de cada coisa seria impossível o saber, a própria filosofia. Sem ideias os seres não passariam de um emaranhado tosco, impossível pensar, conhecer e, portanto, comunicar. O sensível é cópia do inteligível, mas o comum das pessoas se engana, toma aquilo que vê e sente como ser verdadeiro, quando não passa de sombra do mundo das ideias: "os que contemplam a essência imortal das coisas têm conhecimento nítido e não opiniões", escreveu Platão.
Platão celebrou a Verdade, o Bem e o Belo
Do século IV a. C. vamos a Kant (1724-1804), cujo idealismo é transcendental. Enquanto o mundo perfeito platônico é transcendente, acima do sensível, apenas inteligível - para Kant o inteligível depende do sensível. Sem o material da sensibilidade organizado por meio de sua obrigatória inserção no tempo e no espaço, o conhecimento seria vazio. Tempo e espaço formatam o material sensível a fim de poder representá-lo, pois de outro modo seria caótico. As categorias e conceitos do entendimento são o nível seguinte, permitem formular juízos. Todo ser humano é dotado dessa capacidade ou dessas propriedades formais de sua subjetividade e isso não é algo pessoal nem sentimental, não pertence à nossa vida prática, território da moralidade. Pertence ao entendimento puro e a priori, quer dizer, os objetos que se conhece passam por um tipo de regulação para representar todos os fenômenos, dentro dos limites da razão pura. Ao contrário de Platão, é impossível chegar ao ser em si ideal, nossa capacidade de conhecer depende do que é concebível, e o concebível depende de formas, de regras, de leis como o princípio de causalidade. "O pensamento é o conhecimento mediante conceitos", diz Kant, e "transcendental" é o conhecimento que "não se ocupa tanto com objetos, mas de nosso modo de conhecer objetos na medida em que este deve ser possível a priori".
Kant celebrou a razão
O idealismo de Hegel (1770-1831) é objetivo. As ideias não estão no mundo inteligível de Platão, nem no modo como as conhecemos, na pureza da razão kantiana. Elas foram forjadas pela história. Sem as transformações a que estão sujeitas por meio da cultura, do espírito humano em suas obras (arte, filosofia, religião), não haveria ideias nem humanidade, não haveriam os resultados da ação do espírito encarnado em realizações, não haveria sequer sentido (entenda-se por "sentido" tanto as significações da linguagem como caminho, rumo, progressão). O evoluir dialético das ideias culmina no Espírito Absoluto, sua realização nesse itinerário da consciência: a realidade do mundo humano é feita de saber, há lógica e saber em todas as obras humanas, desde a cultura antiga, passando pelo cristianismo até a conciliação do espírito consigo mesmo com a liberdade outorgada a todos nos Estados constitucionais modernos.
Hegel celebrou a cultura
As críticas a esses pensadores idealistas vieram do realismo, do ceticismo, do materialismo e de pragmatismo. Ficam para próximo (s) post (s).

terça-feira, 14 de maio de 2013

As críticas de Habermas ao marxismo

O método dialético de Hegel foi aplicado por Marx à história dos modos de produção, que foram: escravagista, asiático, feudal, mercantilista, até chegar ao capitalismo. Essas transformações ocorreram pelo esgotamento do modelo, as contradições a eles inerentes levariam aos chamados "saltos de qualidade". Para o marxismo, isso significa que o capitalismo, tal como os anteriores, contém nele mesmo contradições que são o germe de sua própria destruição. Marx se referia ao capitalismo que nascera em sua época, o século 19.
As condições do capitalismo e da classe dos trabalhadores eram aviltantes. A solução seria uma revolução, uma classe revolucionária conduziria a mudança para o socialismo, e futuramente o comunismo com a abolição da propriedade privada dos meios de produção. 
Alguns países passaram por essa revolução com alto custo, perda de vidas, de liberdade, de representação social e política. E outras mudanças viriam: crise financeira (1919), duas guerras mundiais, a explosão da bomba atômica, a guerra fria, a descolonização da África; e, na segunda metade Europa e EUA expandiram a indústria com sofisticação crescente da tecnologia. As revoltas operárias e a revolução comunista ficaram para trás, o muro de Berlim caiu, a China ressurgiu como segunda potência mundial. A pobreza, principalmente no hemisfério sul não cedeu, pelo contrário. Esses países passaram a depender do mundo desenvolvido, o qual passa por nova crise financeira. 
O que aconteceu com a revolução dos trabalhadores, com a revolução comunista? Cada vez mais restritas às bandeiras de esquerda em alguns poucos países. E ainda persistente no discurso acadêmico, no Brasil apadrinhada pelo discurso pedagógico, pela cartilha do MST, presente nos livros didáticos de história que insistem em ideologizar. Sintomático que esse discurso tenha desaparecido da CUT e do PT tão logo o partido assumiu o governo. Há uma evidente incompatibilidade entre governar e levar a sério as lições do marxismo. 

"Hoje em dia, escreveu Habermas, certamente o portador de uma transformação, à qual Marx deu tanta ênfase, não é mais a burguesia de 1848, nem determinada classe social que domina o quadro nacional, mas um sistema econômico anônimo que opera em nível mundial e que não está ligado a estruturas de classes identificáveis facilmente" (Diagnósticos do Tempo, p. 137).

Ao se comparar a situação de operários de Manchester na Inglaterra do século 19, a exploração e o sofrimento deles nos primórdios do capitalismo com as condições atuais, notam-se inúmeras transformações. Entre elas a aplicação mais equânime da justiça, condições melhores de trabalho e outros tipos de reivindicação: no lugar de uma revolução socialista, acesso aos bens de consumo, conforto, saúde, escolas de qualidade e gratuitas para os filhos, melhor salário, participação nos lucros das empresas, habitação digna, transporte, e mesmo lazer. É verdade que grande parte da população mundial não tem acesso a esses bens e a condições mínimas de sobrevivência. Expandir a riqueza e ao mesmo tempo distribuí-la cabe a governos e não a banqueiros ou financistas! Isso ficou evidente com a crise desencadeada em 2008 pelo capitalismo financeiro e pela ganância, o lucro alto, imediato e fácil. No lugar de "dissolver" o capitalismo (ele é dissolúvel?!), a questão tem sido até que ponto o Estado e governos devem e podem intervir na economia de um país.

Para refletir: a ideologia marxista, a pregação de uma revolução de classe, a própria noção de classe social, esconde modificações históricas sistematicamente ignoradas. O que é exatamente "ter consciência de classe"? Se as representações sociais fossem influenciadas por essa consciência, como poderia surgir no seio da sociedade de classes, a classe revolucionária? A consciência revolucionária teria que nascer fora da própria sociedade. E mais: os países socialistas foram forjados por uma classe revolucionária? O que aconteceu quando essa classe assumiu o poder na ex-URSS, na China, em Cuba?

A esquerda marxista "tem um conceito estreito de práxis", diz Habermas. Se a prática social se limitasse às relações econômicas de produção, a vida em sociedade seria pautada apenas pelo mercado. Por mais poder que este tenha, há o outro lado, outros tipos de práticas sociais. As sociedades modernas asseguram direitos e deveres de cidadãos, as obrigações valem para todos; o racismo passou a ser crime; surgiram novas representações políticas. As demandas são pelo acesso à educação e à informação, a valorização da produção cultural, das artes; as reivindicações das minorias; a liberdade de credo e culto. Nada disso pode ser reduzido à "consciência de classe".
E mais, os aspectos de realização pessoal, a busca por uma vida satisfatória e plena, a ética em nossas ações. Nada disso lembra ou depende da práxis de uma classe revolucionária.

sábado, 4 de maio de 2013

O que Foucault diria sobre o casamento gay?

É provável que ele seria contra o casamento gay, mas evidentemente que não pelas razões do pastor Feliciano!
O pastor se baseia em um credo pentecostal que condena o homossexualismo. Inclusive, pasmem, a última proposta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é excluir do código dos profissionais de psicologia cláusulas sobre o homossexualismo. Uma dessas cláusulas diz que não se trata de doença, portanto, longe de precisar de cura. Isso foi um grande avanço, significa respeito pela pessoa, justamente o que a Comissão de Direitos joga no lixo.
Deputado da discriminação de minoria na Comissão de Direitos Humanos e de Minorias, mais um subproduto gerado no Congresso Nacional

Voltando a Foucault, o filósofo da história da sexualidade, o filósofo que enfrentou pessoalmente preconceito por ser gay, morreu com aids, a chamada "doença gay" na década de 80; o filósofo que denunciou a violência dos hospitais psiquiátricos e da prisão; o filósofo que destrinchou o poder do saber médico, psiquiátrico, psicológico com seus "tratamentos"; o filósofo que viu nesses discursos, práticas e políticas das quais nasce um tipo de subjetividade passível de correção, de disciplina, de normalização, de punição; o filósofo que viu na sexualidade não uma pulsão reprimida (como em geral a vê a psicanálise), mas sim resultado de dispositivos para encaixar desejos, comportamentos, prazeres, em um esquema de verdade; o filósofo para o qual a verdade não é a descoberta de fatos, a verdade é constituída por discursos, por normas, por práticas do cotidiano; a verdade também se instala mesmo em instituições, como o hospital psiquiátrico, justamente o caso do homossexualismo tratado e tratável por ser doença (física, mental, psíquica!?), e mesmo aberração. Enfim, Foucault foi um dos primeiros e principais pensadores a defender publicamente a causa gay.
Foucault (1926-1984) em seu gabinete de trabalho

Pois bem, poderia então Foucault ser contra o casamento gay, como estamos especulando?
Sim, em nome da liberdade de optar por estilos de vida alternativos, por políticas de afirmação não do sexo, nem da sexualidade, e sim de viver com mais liberdade, estilos de vida em que importam mais o prazer, a amizade, as relações afetivas, do que analisar que tipo de desejo seria esse ou institucionalizar a relação. 

A avaliação moral, médica, jurídica ainda é responsável pelo exame, pelo escrutínio desse "tipo de vida". O homossexual tem sido condenado por credos, e até mesmo por leis, seu comportamento é condenável pela moral burguesa, execrado pelo moralismo de certas religiões, perseguido e exposto à violência de fanáticos. Ele ainda é classificado como se classificam doenças e animais... 

Sendo assim, o casamento gay realmente levaria a superar ou pelo menos enfrentar todos esses problemas? Dificilmente.
Casamento é uma instituição, ele surge com o que Foucault chamou de "dispositivo de aliança". A família moderna ainda sustenta esse dispositivo, que cerca de cuidado seus membros e restringe o sexo ao leito conjugal, à procriação. 
Ou seja, casar implica em institucionalizar uma relação que, segundo Foucault deveria representar, pelo contrário, certa rebeldia, até mesmo beirar certo anarquismo. "Segundo Paul Veyne, nos últimos meses de vida Foucault costumava conversar sobre essas estilizações da vida, esses trabalhos de si para consigo mesmo para constituir um eu fora dos modelos e dos códigos impostos" (ARAÚJO, 2008, p. 179).

Assim, o argumento de que o casamento gay confere direitos como herança, igualdade, reconhecimento social, etc.,  não seria ceder à uma pressão da sociedade? Talvez Foucault respondesse afirmativamente.

domingo, 14 de abril de 2013

Hegel e a dialética

Hegel é considerado um dos filósofos mais "difíceis" de toda a história da filosofia, como disse em postagem anterior. Ele não faz concessões, não há nenhuma tentativa de ser claro (como Descartes preconizava) e nem de dialogar ou de ensinar (como Sócrates e Platão).
Pode-se dizer, inclusive, que Hegel já não é mais o filósofo preferido, como há algumas décadas, para ser o intérprete de toda a história da filosofia. Lia-se Hegel, em especial o jovem Hegel, a fim de melhor compreender Marx. Resultado: não se compreendia nem um nem outro.
Vejamos algumas facetas do pensamento de Hegel, o que vale a pena resgatar para a história da filosofia.

Importância da história: todas as contribuições culturais, como arte, filosofia e religião, são o estofo de que a razão se vale para caminhar e, ao mesmo tempo, superar ideias e conceitos. Desde as experiências com o material sensível, até o mundo inteligível de conceitos cada vez mais precisos, o pensamento se realiza. Para se realizar, ele precisa do discurso, da linguagem, que possibilitam determinações, isto é, dizer o que são as coisas e como elas são. As significações.

Uma nova ontologia: como e o que as coisas são? Impossível determiná-las sem, ao mesmo tempo, determinar o que elas não são. Ser e não ser se determinam reciprocamente. O senso comum não percebe que todo ser é o que é, por não ser outro. É assim que todos os seres se transformam, assim se modificam as ideias e os projetos. Essas passagens ou mudanças constituem o vir a ser, o devir. Esse movimento de conservação do ser, de negação e de ultrapassagem é o que Hegel chama de dialética.
A natureza, os seres e a história vivem desse movimento. Esse movimento é direcional, progressivo, tem em vista um fim (teleológico). As realizações das obras humanas aprimoram certas ideias, certos ideais. O mais precioso é o ideal da liberdade, da conciliação da ideia de sociedade com a plena realização do racional.Um otimismo, portanto. Para Hegel, há luz no fim do túnel e essa luz é plena, é o absoluto, é a conciliação final de todas as dificuldades, de todas as contradições.

O idealismo objetivo: ideias e conceitos não são abstração vazia. Eles se concretizam em autores, livros, no variado discurso humano. Mas não de forma solta, há uma lógica interna, uma lógica com três momentos, todos eles necessários (afirmação, negação e síntese). Entre pensamento e ser não há um abismo. Ser externo ao pensamento e ser pensado se conciliam. Quando alguém emite um juízo, afirma que algo é assim, mas pode também corrigir, confrontar ideia e realidade. Por isso o idealismo é objetivo. É com relação à realidade objetiva (desaparece a dificuldade que Kant tinha com o ser em si, para ele inatingível) que ideias, conceitos e o pensamento se formam. Não há um vazio entre a representação e o representado.
***
Perguntas e dúvidas surgem. Ao mesmo tempo em que Hegel enfatizou a história, ele a fechou em um movimento ascendente, com etapas obrigatórias e com um fim/finalidade. O que garante que haverá essa progressão em termos de liberdade e de realização?
Apenas a força ou fraqueza humana, as quais, aliás, nada garantem.
A lógica do devir precisa do jogo entre ser e nada. E se desse jogo nada surgir? Ou se ele surpreender?
Em nome da liberdade e do ideal a história tem sido, pelo contrário, de luta, transgressão, anomias.
Se a lógica dialética fosse inevitável, bastaria embarcar nela e nos deixar levar. Ora, isso anularia a propalada liberdade. Logo, a concepção de dialética hegeliana.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que é relativismo?

Em filosofia há diferentes concepções sobre a possibilidade da verdade. O relativismo é uma delas. Protágoras (480-410 a. C.) considerava que o conhecimento do que nos cerca vem dos sentidos. As percepções variam de pessoa a pessoa, e também conforme o tempo e o lugar. Se duas pessoas discordam a respeito do que estão observando, é provável que ambas estejam corretas (ou não...).
Historiadores, sociólogos, e, claro, filósofos, defendem a tese de que conforme o contexto histórico, cultural ou de acordo com o nível de educação, de informação e da situação em que se encontram grupos e pessoas, o juízo que fazem a respeito de fatos ou de acontecimentos, de valores ou de avaliações, de opiniões ou de posições, tudo isso varia, quer dizer, é relativo. Não há verdade absoluta, acima da situação social, acima do contexto cultural e histórico.

Contra essa postura relativista, se erguem diversas vozes. Platão dizia ser absurdo duas opiniões a respeito do mesmo fato, seriam juízos contraditórios. 
Recentemente o papa emérito, Bento XVI (Joseph Ratzinger), proclamou a inconsistência do relativismo, inclusive em debates com filósofos, um deles, J. Habermas. Foi em Munique, em 2004, um ano antes de J. Ratzinger se tornar papa. A pergunta era sobre adoção de uma religião em um mundo plural: a verdade autoproclamada de certa religião de um lado, e uma cultura globalizada, na qual convivem várias crenças e religiões em sociedades democráticas, de outro lado.



A verdade, dizem os que se opõem ao relativismo, pode e deve ser comprovada e seguida por todos da mesma forma, pois há meios independentes de sustentar juízos, posições e valores. Por exemplo, por meio de provas, ou por meio de acordo a respeito da realidade, ou por meio de crenças em artigos de fé. Se a verdade se dilui com variações, justamente, fica impossível estabelecer a verdade. Verdade não pode variar, ou vale incondicionalmente, ou não é verdade. Se houver contradição (afirmar A e não A ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto),  se houver inconsistência (acho que é A, mas não tenho certeza, pode ser B...), fica impossível estabelecer o que vale e não vale, o que é correto ou incorreto. O relativismo é por isso, indefensável.

Em oposição, os relativistas sustentam que é possível ajuizar "isso é verdade", desde que sejam dadas as condições apropriadas. Para Habermas somos sujeitos falíveis, podemos mudar e aprender sempre, em todas as circunstâncias. Ao afirmar algo a respeito de um acontecimento, precisamos de informação, de um saber acerca do mundo, acerca de situações, é impossível transcender a realidade e a linguagem e alçar à totalidade. Um juízo a respeito de uma situação requer a compreensão de outros, a possibilidade de contestação, o conhecimento das condições apropriadas para garantir a validade, mas nunca a verdade. Há três fatores interligados: apresentar ou expor o acontecimento; comunicar por meio de atos de fala que visam acordo, entendimento ou desacordo e dissenso; a um público que repercute o que foi dito.
Trata-se de, digamos, um "relativismo responsável". Isso porque o "tudo vale" em qualquer circunstância, levaria ao descrédito ou ao conformismo. Se tudo vale, por que eu me importaria?!

Por isso, para Habermas, opor-se ao relativismo e sustentar que a verdade independe do sujeito e de seus posicionamentos implica que outras posturas, crenças, culturas e valores, estão do lado do erro, da inverdade, do desconhecimento - isso é perigoso, gera intolerância.

Ao contrário, a capacidade de esclarecer e de dar razões, de olhar e tentar compreender o outro, o diálogo entre povos e culturas, aponta em direção a esse tipo de relativismo responsável. Pergunte sempre: o que isso quer dizer nessas condições e circunstâncias? E não: só eu, só minhas crenças, só minha visão é a correta.
A verdade é possível e desejável apenas quando ninguém se proclama seu dono. E nisso não há contradição alguma.

terça-feira, 19 de março de 2013

Sobre o tempo passado e futuro

Costuma-se declarar com alto grau de convicção algo óbvio: que o passado já era, não volta, é como um cadáver sepultado; e que o futuro ainda não é, portanto, incerto, misterioso e fora do alcance de nossas decisões.
Sim, o passado ficou para trás. Mas não morto! Sem nosso passado não teríamos nossa história de vida, o que fizemos, o que deixamos de fazer, realizações satisfeitas, sonhos impossíveis, acontecimentos banais do cotidiano, acontecimentos marcantes - isso tudo é descarregado em nosso presente, o passado constitui, pode-se dizer, nosso presente.
É impossível modificar o que deixou de existir?
Contra o senso comum, pode-se afirmar o inverso. Acontecimentos não voltam, mas podem ser vistos, avaliados, perscrutados e compreendidos de outros modos, por outras perspectivas. A cada fase de nossas vidas, na medida em que nossas experiências ganham mais consistência, a maturidade e a velhice levam a novas e surpreendentes interpretações do que somos hoje em função do modo como lembramos e vivenciamos fatos passados.
Um acontecimento que a psicanálise chama de traumático, pode ser revisto, pode ser compreendido de outros modos, subitamente se desperta para situações que envolveram ou ocasionaram este ou aquele episódio. O passado tanto pode assombrar como renovar o que hoje somos.
É nesse sentido que a análise psicológica ou psicanalítica conduz a pessoa a mudanças, a revisões, e mesmo a um aperfeiçoamento de si. É assim também que a vasta e rica literatura de memórias enriquece pessoas e culturas.
Isso sem mencionar a história de povos, de nações, a história natural, a evolução da vida no planeta.
Assim, as incursões no passado mostram o quanto ele está vivo!

E o futuro? A Deus pertence, como se diz?
Por mais incerto e imprevisível, o futuro de certo modo, a nós pertence.
Do contrário não planejaríamos, não pouparíamos, deixaríamos tudo ao encargo da providência divina. Mas não é isso que acontece. O tempo todo nosso presente nos lança para frente, precisamos administrar nosso tempo, e projetar o que faremos, como decidiremos, como enfrentaremos tal ou tal problema (uma doença, ou uma reviravolta financeira), como comemoraremos tal ou tal data, e as expectativas com relação a uma viagem, a uma proposta.

Somos responsáveis pelo nosso futuro, em que pesem as surpresas e o acaso. Somos nossa liberdade, nosso projeto, como afirmou Sartre. Somos nossa própria possibilidade de ser. Um obstáculo, uma adversidade não é argumento contra nossa liberdade, "por que é por nós, ou seja, pelo posicionamento prévio de um fim, que surge o coeficiente de adversidade" (Sartre, "O Ser e o Nada"). O que faço com o inevitável? Como enfrento   os obstáculos? Que atitude tomar diante de uma adversidade? São atos livres.

Somos ser-no-tempo, Dasein, ser aí, para Heidegger. Diante das possibilidades de ser isso ou aquilo, surge a angústia, e esta revela que o modo de ser do homem é o cuidado. Importar-se, marcar presença, saber e poder decidir, saber-se existente, portanto mortal.

Passado, presente e futuro formam um todo.

terça-feira, 5 de março de 2013

A covardia moral: Habermas e Yoani Sánchez

Há covardes que se rendem às dificuldades e obstáculos; tudo temem, são medrosos, "maricas" como se dizia. Não confundir com pessoas cautelosas.
Mas os piores covardes são os que praticam a covardia moral. O caso mais recente e notório foram as ofensas com que foi recebida a blogueira Yoani Sánchez no Brasil. 



Uma visita de cortesia e agradecimento que se tornou um caso de humilhação e de impedimento de livre comunicação. Um movimento orquestrado pela embaixada de Cuba arregimentou grupos de intolerantes que tentaram impedir que uma moça simples, corajosa, sincera e muito bem intencionada fosse ouvida e respondesse a questionamentos.
Evidentemente não era "agente da CIA" (como que até agora não foi presa?!). Mora em Cuba, ama seu país, denuncia a falta de perspectiva, de liberdade, teve que insistir muito para conseguir visto de saída. Seu país é uma ditadura, o povo permanece oprimido, e, se educação e saúde contam pontos, há pobreza exceto pelo setor turístico.
O embargo dos EUA prejudica? Que tal comercializar apenas com os países "comunistas"? A antiga URSS abandonou Cuba a sua própria sorte, não tinha mais como subsidiar a importação de açúcar. Toda a população sofreu.
E quanto às perseguições de dissidentes? Ser poeta e gay, por exemplo, pode significar prisão e tortura!
Por favor, senhores pseudo militantes a mando da embaixada de Cuba com assentimento do PT: antes de vociferar contra a blogueira, cuja coragem moral ficou evidente em suas declarações sobre a necessidade de diálogo, isto é, tolerância e compreensão, direito de resposta, esclarecimento das denúncias de violência, seria proveitoso que o bando de paus mandados soubesse do seguinte, pelo menos:
- que em Cuba não há lugar para a oposição;
- que progredir por meio de trabalho e empreender por meio da livre iniciativa é difícil, o governo apenas recentemente tem permitido ser proprietário de uns poucos meios de produção (solo para cultivo de hortaliças, por exemplo);
- que eles precisariam contrabandear os tênis de marca que certamente estavam usando quando de sua gritaria, seus celulares, e como ficariam os seus sonhos de consumo?
- provavelmente não usariam luxos como aparelhos nos dentes (aliás, faltam dentes na boca de Yoani);
- seria excelente uma temporada em Cuba para sentir in loco como vive a maior parte da população
- que liberdade de expressão não pode ser confundida com manifestação agressiva pois esta tolhe o direito de resposta.


Por que Habermas nesta postagem?
Em sua teoria da ação comunicativa, Habermas considera que a razão progrediu, que o terreno favorável são as democracias. Nas ditaduras, como a de Cuba, há sempre apenas um lado, imposto autoritariamente. O diálogo entre pessoas e grupos inexiste, a livre comunicação é bloqueada. Ora, a ação estratégica cabe exclusivamente nas esferas política e econômica, onde prevalece a disputa de interesses.
Em contraste, na ação comunicativa deve haver reconhecimento recíproco de direitos e deveres, de respeito, por meio dela pessoas dialogam com informação, com intenção sincera, seguindo diretrizes sociais que alçam todos à condição de cidadãos. Em simples palavras, a ação comunicativa permite o entendimento entre as partes, o que é essencial às democracias modernas. Esclarecer, ouvir o outro, suas razões, expor as suas próprias razões, enfim, argumentar. Na argumentação ficam de fora todo tipo de autoritarismo, intolerância, imposição.

Esperemos que a lição tenha sido aprendida, que o PT, que estava por detrás das manifestações contra Yoani, retorne a pelo menos alguns de seus princípios éticos. Se não for pedir demais!
Em tempo: assistam ao filme de Julian Schnabel, sobre a perseguição ao poeta cubano gay Reinaldo Arenas.