sexta-feira, 11 de março de 2022

O que é forma de vida para Wittgenstein?

 Linguagem e formas de vida são interligadas para Wittgenstein. A linguagem é aprendida, não é privada, e a mente resulta do aprendizado da linguagem imbricada com nossas formas de vida. 

Importante entender que forma de vida não é um conceito sociológico. Em cada situação concreta da vida humana em todo tempo e lugar, há incontáveis usos da linguagem que são interpretados em conformidade com aquela determinada situação. 

Faz sentido medir a circunferência de um girassol? Depende...Faz sentido medir o comprimento de uma mesa? Quando é o caso de medir algo ou não? Definir uma esfera e utilizar a forma esférica em um desenho são usos muito diferentes. Se não houvesse entendimento a respeito dos inumeráveis usos da linguagem, i. é, os jogos de linguagem, não haveria vida humana, a ação não se desenrolaria tendo em vista acordos ou desacordos, planos para o futuro, intenção, decisões, enfim, as ações humanas são inteiramente permeadas pela linguagem. Pode ser linguagem visual, a de gestos, a leitura de signos e símbolos, o ver uma imagem como pato ou lebre, como uma cunha para prender portas ou traços de um triângulo. 

E aquilo que não faz sentido algum? Seria o não sentido algo como ver, como ler os traços de um Picasso, ou as tintas esparramadas de Pollock? Diferente do sentido e do deleite estético que a plasticidade de formas e cores de um Vermeer produz. 

Outra situação: a compreensão que deve ser exata, sem interpretação de placas de trânsito. Compare com os usos dos atuais emojis. Como diz o poeta, e se faço chover com um ou dois riscos tenho um guarda chuvas.

São construções, invenções, infinitos recursos de nossas formas de vida, são comportamentos aprendidos.

É justamente essa postura filosófica horizontal de Wittgenstein, que Habermas critica. Se pensarmos na herança kantiana, essa redução a formas de vida permeadas e constituídas na e pela linguagem, é  uma redução inaceitável do ponto de vista filosófico de busca pelas razões, pelas causas, pela unidade, pela formas puras, pelo a priori. Habermas considera que a redução ao uso,  às atividades cotidianas representam um tipo de utilitarismo, pensamento e significado não passariam de atividades normais de nossas formas de vida. 

Essa concepção de Wittgenstein de que é impossível pensar sem a linguagem inaugura a virada linguística e igualmente a virada pragmática e encontra ressonâncias em Rorty e no próprio Habermas. A diferença é que para Habermas, mesmo ele sendo adepto do chamado pensamento "pós-metafísico", a linguagem não pode ser destituída de validade intrínseca, quer dizer, há atos de fala compromissórios. Uma promessa difere de uma constatação, a primeira pode ter consequências até mesmo jurídicas, ao passo que uma constatação exige a prova de realidade. 

Para Habermas os problemas e questões filosóficos não podem ser reduzidos às situações e circunstâncias do cotidiano, há a normatividade e a validade que estão num patamar indissolúvel.

Wittgenstein considera que ideal, exatidão, mistério, formas puras a priori são construções que fazem sentido para nós, para nossas formas de vida.

E para você, o que faz sentido?

quarta-feira, 9 de março de 2022

"As mulheres estão praticamente integradas à sociedade" : como assim, Sr. Presidente?

 Além de uma falsa e preconceituosa afirmação do título, é igualmente reveladora da falta de conhecimento sobre a própria história humana. É absurdo considerar que as mulheres estivessem em algum momento da história, fora da sociedade. Para o atual e ignaro presidente, as mulheres não faziam parte da sociedade e só no atual momento começaram a se integrar! E que dizer do advérbio "praticamente"? Será que ele no fundo quer dizer: "ah, vocês mulheres, não reclamem pois estão praticamente integradas" (afinal até votam!!!). Não precisam exagerar e queimar sutiãs, reivindicar direitos proporcionais no trabalho, dividir tarefas domésticas e da educação dos filhos, e muito, muito mais, pois vocês estão praticamente integradas. 

O que fica evidente? Falta de conhecimento social, cegueira histórica, ignorância do que constitui a sociedade. 

Na sociedade sempre houve um lugar e um papel femininos, funções que variaram e variam a favor ou contra a emancipação e o respeito. Basta um olhar mais atento para a história e os acontecimentos históricos. Nas sociedades antigas seu papel era restrito à casa, a submissão nas sociedades patriarcais, até a lenta e difícil conquista de direitos civis, um ganho do mundo ocidental. Apesar disso, ainda hoje as mulheres sofrem muitas restrições na Índia, países árabes e africanos. Essas restrições e proibições são impostas às mulheres como se fosse algo normal, natural ao sexo feminino.

O que eu quero dizer com isso?

Que muito precisa ser conquistado. O que não significa que as mulheres estivessem fora da sociedade humana. Pelo contrário, serem desprezadas, relegadas, humilhadas, sujeitadas são condições da sociedade desde tempos imemoriais. O respeito necessário às mulheres e a suas conquistas, faz parte das transformações da sociedade, o avanço nessas conquistas é também um avanço social.

                                                   


Bolsonaro sofre de um problema gravíssimo, falta-lhe a perspectiva histórica e da sociedade, falta-lhe conhecimento da situação da mulher na história e na sociedade. Mas isso evidentemente é pedir demais.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A gratuidade do ser

 Dias atrás, num canto da pista de caminhada, deitado à sombra encontrava-se o sujeito. Moreno, jovem, bonito, com seus apetrechos de morador de rua e seu companheiro, um cachorrinho preto. O olhar perdido ao longe, à vontade, em repouso. Com uma das mãos acariciava a orelha do cachorro, o gesto vagaroso e repetido os unia no prazer relaxado e gratuito. Simplesmente ser aí, no tempo sem pressa, sem cobrança, sem que ele devesse absolutamente nada a ninguém.

Para ser aí, para existir no tempo, é preciso que o tempo seja usufruído e, paradoxalmente, o tempo é dominado e como que cessa. Agarrar o tempo, dispor dele se dá num presente. O presente não como soma, como adição de instantes e sim como lapso, como mergulho silencioso e calmo, o lento passar dos dedos na orelha do cachorro. Vale respirar o perfume de uma flor, sentir o vento nos cabelos, o sol nas costas e deter-se no momento, ganhar a completude, e, em raras ocasiões uma epifania, uma revelação, a harmonia.

Nos primeiros lampejos dessa identificação de um todo, de uma totalidade de ser que nasce de uma particularidade de cada ser humano brotam arte, música, poesia, eternidade, infinito, e a certeza do fim.

O não ser, a morte, o fim que se deseja afastar e negar nos pertence, nos limita necessariamente, mas ao mesmo tempo nos conduz àqueles momentos de prazer que passam por nós e se acabam. O efêmero emerge nesta clareira do ser que o homem abre, à qual ele pertence (Heidegger), e isso é mágico, misterioso, indecifrável. Somos e não somos. 

Quais situações da vida, muitas delas banais e corriqueiras são capazes de nos fazer mergulhar no tempo?

Atravessei a rua de casa, dei alguns passos e fui surpreendida pelo abraço de um pequenino ser. A mãe dele sorriu e disse que o menino me confundiu com a avó verdadeira. Uma surpresa neste gesto que faz pensar, e se pudéssemos abraçar mais? E se pararmos para acariciar a orelha de um cão? E se ouvíssemos mais e melhor?

Ah, mas aquele rapaz deitado no gramado do bosque não tinha deveres e nem responsabilidade. Pode ser, mas isso não elimina a magia do momento.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

A diferença entre razão e fé

A Filosofia nasceu quando os primeiros pensadores questionaram a causa de tudo o que há. A busca por uma causa única significa que a curiosidade do saber só é cumprida se houver um princípio unitário, causa matriz de toda a enorme diversidade de todos os seres. Assim, os primeiros elementos, água, fogo, ar, e mesmo o indeterminado, e o puro e abstrato número foram eleitos como princípios geradores.

O que há por detrás desses princípios? A noção de começo, a noção de origem que resulta de uma busca racional. Ao passo que entidades como Zeus ou outros mitos, Deus para os cristãos são venerados, a eles se prestam sacrifícios, neles se crê, se tem fé.

A razão é uma via diferente da fé e das crenças para responder à necessidade de dar sentido ao todo. Mas, e Platão? Sim, Platão carregou seu sistema filosófico com mitos, a cultura grega era imbuída e alimentada pelos mitos, a religião fazia parte da casa, da cidade, dos costumes. Platão refletia usos e costumes, os mitos serviam à reflexão filosófica.  Então, o afirmado acima, que razão e fé diferem se sustenta?

Apelo para Nietzsche e Heidegger:

Nietzsche como que se compõe com Zaratustra, mas, para Nietzsche Zaratustra não é alvo de fé, vale como poesia, como música, como aliado da expansão das raízes filosóficas. A figura de Zaratustra é resgatada para compor a sinfonia filosófica. A dança, a eternidade, o mistério, o abismo: "Eu, Zaratustra, o confirmador da vida, o confirmador da dor, o confirmador do círculo, chamo-o a você, o mais profundo dos meus pensamentos". E aqui se tem filosofia, os últimos elementos, conceitos que são objeto de análise existencial e do tema central de Nietzsche, a vida. O filosofar lança mão da poesia, da literatura, dos seres míticos e os realoca, e dá-lhes sentido, leva à reflexão. 

E como entender Heidegger em suas buscas de elementos para filosofar nos pré-socráticos e na tragédia grega? Heidegger possibilita uma via para solucionar o impasse, filosofia é questão de razão, religião é questão de fé. Em "A delimitação do Ser" as distinções entre ser e vir a ser, entre ser e aparência "impregnam todo saber, dizer e fazer do Ocidente mesmo quando não se exprimem especificamente  ou nessas palavras", e se configuraram no início da filosofia grega, sendo distinções e conceitos primordiais são também as mais usadas, reflete Heidegger. A delimitação entre ser e pensar iniciou-se com Platão e Aristóteles e foi desenvolvida na época moderna, e a distinção entre ser e dever é própria da época moderna apenas.

Nietzsche e Heidegger ajudam a entender a distinção entre razão e fé, racional e místico em seu apelo, o primeiro, à tudo o que diz respeito à vida, e religiões, literatura, poesia, música fazem parte da vida.

E o segundo, Heidegger, soluciona o impasse ao situar a questão na história do pensamento, na história da filosofia. Devemos aos primeiros filósofos as distinções e conceitos fundamentais da filosofia. O fato histórico de a cultura grega imbuir-se de narrativas míticas não impediu a filosofia de nascer, pelo contrário, a cultura grega foi seu berço.

A fé não é um substituto da razão, a razão não é um substituto da fé.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Qual é a mais importante questão da Ética?

  A questão fundamental da Ética é a do BEM. Como avaliar o bem, como distingui-lo, como saber se é do bem que se trata e não de um prazer ou de uma satisfação interior?    

É preciso avaliar a importância, a duração, a extensão, as consequências do ato, da situação, das pessoas envolvidas e da intenção, ou, para usar um conceito de Santo Agostinho, a boa vontade.

Um problema: será que há risco de relativismo se formos levar em conta a situação e a intenção? Ser relativo ou absoluto não são critérios adequados para entendermos o que é o Bem, por isso mesmo não representa risco algum afirmar que o bem vale absolutamente ou que depende disto ou daquilo. Em geral esses critérios servem de desculpa para escapar da dificuldade de entender a noção de bem e o que ela representa. Quer dizer, é uma saída pela tangente, uma discussão inócua.

Não percamos tempo, portanto com a questão de se o seu valor se é absoluto ou se é relativo. 

Será que o bem é uma sensação semelhante à do prazer? Para um filósofo epicurista, faz sentido. Entretanto, se formos considerar os efeitos do prazer, caímos novamente na questão da relatividade e da fugacidade dos prazeres. 

Talvez uma experiência ou casos concretos possam ajudar. Preservar, ajudar, amar, importar-se, saber e poder avaliar as consequências, responsabilizar-se, ser honesto, sincero, aberto, essas atitudes e valores são indício de bem.

Assim nos aproximamos dos caminhos que levam ao BEM. São atitudes, elas podem ser resumidas no verbo, portanto, em uma ação, a do cuidar e a do considerar. Cuidar de si, dos que nos são próximos, do que nos cerca, sermos íntegros e levarmos em conta o outro. Age de tal modo que sua ação possa servir de exemplo, de critério; a justa medida, o equilíbrio; as escolhas responsáveis. 

Assim o BEM desce do mundo platônico das ideias para alojar-se em nossas mãos.

 

  


 


domingo, 16 de janeiro de 2022

Raízes do pensamento filosófico

 Para analisar as raízes do pensamento filosófico há dois caminhos: o de retorno aos primórdios da Filosofia; e o de responder à questão dos princípios, conceitos e limites desse tipo de pensamento.

Os primeiros filósofos se preocuparam com a origem de tudo o que há, qual é o fundamento, a base de tudo? O mundo, o cosmo, a vastidão e, ao mesmo tempo os limites do mundo. Mas, como pode a imensa diversidade de seres limitar-se a um único princípio? Deve haver uma causa única, do contrário nada existiria... Os quatro elementos, as partículas fundamentais, e, muito intrigante, o indeterminado. Se não é possível determinar qual é a causa de tudo, então é porque tudo o que existe certamente teve sua origem e, como as coisas no espaço/tempo são múltiplas, essa origem não pode ser rastreada. 

Por detrás da necessidade de investigar a causa há nos primeiros filósofos a necessidade de saber, de encaminhar seu pensamento para a interrogação com o uso do raciocínio. Mas antes, primitivamente e, eu diria até nossos dias, há o outro lado, o mais primitivo, o lado do místico, intuitivo, em que as forças da natureza e a morte impressionam, atemorizam, levam aos cultos, aos sacrifícios, a adoração de deuses, às narrativas míticas. Evidentemente, não é esse o caminho da Filosofia.

Se Platão recorre ao mito tanto para exemplificar seu pensamento, e mesmo como paralelo de sua filosofia, em Aristóteles reina soberana a razão, a busca racional dos princípios e das causas, e eles resultam de sínteses, da lógica, da ciência primeira, que é a metafísica, da especulação acerca do fundamento de tudo o que existe, que são: causa eficiente, causa material, causa formal e causa final. A metafísica aristotélica, de tão completa e profunda foi usada pelo tomismo, foi transformada e readequada por Kant, deu trabalho para Hegel que procurou um caminho divergente, levou Nietzsche a inclui-la no rol dos idealismos e voltar-se para o que é humano, isto é, fraco, nós os inventores de valores inclusive da ideia de bem e mal.

Esse caminho, o da História da Filosofia, é imprescindível para tentarmos responder à questão dos próprios conceitos filosóficos e de seus limites.

O conceito mais abstrato, mais geral e fundamental é o de ser. Para pensar de modo mais elementar é necessário pensar o conceito de ser que se apresenta na questão de "tudo o que é tem uma causa", mais especificamente no verbo "é". Vejamos: ele prevalece nas ontologias existenciais, no logos que pensa e, portanto, é; na descida da metafísica do céu platônico para o ser do homem, ser-para-a-morte; e na virada filosófica contemporânea para linguagem, finalmente o "ser" não se opõe a "nada", o ser se aliena, se aninha na linguagem. E na linguagem não há privilégio, nem mesmo o do ser da linguagem. A linguagem é múltipla, vive no e com o seu uso, para sair da linguagem ainda usamos a linguagem, e mais, é por meio dela que indagamos sobre o ... ser!

Esse é o enigma atual da Filosofia, seus caminhos bifurcados pela exigência de nos voltarmos para a ação permeada de linguagem, e poder perguntar, finalmente, há o ser da linguagem ou é a linguagem que nos traz e nos revela o ser? 




quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O ser humano como doador de sentido

O cérebro humano nos capacita para atividades da memória, organização, inteligência, visualização e muitas outras que não menciono mesmo porque não tenho suficiente conhecimento técnico.

Isto posto, vejamos o lado da ação, da interação, da relação do aparato cerebral e de todo o ser humano, desde o nascimento (alguns asseguram que isso se dá na gestação) até o gradual desenvolvimento das capacidades humanas. Sem lesões importantes, o uso da inteligência, das sensações, da memória se dá sempre como resposta a sinais, signos, certa linguagem que são os estímulos que podem ser lidos. Um ruído, uma forma, um imagem, a luminosidade, a presença especial da mãe, de pessoas, impressões táteis, sensações de calor e frio, enfim, há todo um conjunto de estímulos e situações que vão formar a ação humana e suas respostas inteligentes. E não se trata daquela inteligência intelectual, e sim de tudo o que faz sentido.

Para que as coisas e situações façam sentido é essencial o uso de sinais, signos e percepção usados para as distinções e que são fundamentais para que a ação ocorra.  

Em nossa vida tudo passa a ter sentido. Objetos familiares, as ações diárias, as tomadas de decisão, todas as nossas ações são permeadas por tudo o que faz sentido. Até no sono, no sonho, mas são as atividades do dia a dia que mais exigem essa percepção de sentido. Com a arte podemos ter uma noção de como seria inverter ou subverter o sentido normal e cotidiano. A fim de conseguir sentido para um Picasso, usamos nossas alternativas, o impacto da transformação, das formas que deformam, do inusitado, do surpreendente tem por efeito nos acordar e buscar um formato mais próximo ao que sabemos ou podemos distinguir e assim, as coisas mais uma vez, passam a fazer sentido...

E quando dizemos, "isso não faz nenhum sentido!", justamente porque estamos sempre em busca ou encontrando o que faz sentido. Não confundir com o real, que, ironicamente precisa da "intervenção" das significações para ser real. Um desenho animado é real? Não faz sentido, essa pergunta não cabe. Um acidente de carro é real, um acontecimento, mas que só faz sentido porque sabemos detectar a situação, quer dizer, a situação forma um quadro coerente, que "lemos" como acidente. 

E assim, o tempo todo. O próprio escoar do tempo, das horas, sabermos que é manhã, tarde ou noite, se estamos adiantados, atrasados, o "quando" e o "onde" são doadores essenciais de sentido. 

Os sentidos e as significações são renováveis, combináveis, traduzíveis, transmissíveis. São nossas redes configuradas e configuráveis. 

Trata-se de um processo exclusivamente humano, banal e essencial ao mesmo tempo. Como isso que acabei de escrever.

Somos eternos poetas e nem sabemos disso...