segunda-feira, 12 de junho de 2023

A abertura para o Ser

 Um dos conceitos mais abstratos e difíceis de compreender em Filosofia, é o de Ser. Ao mesmo tempo empregamos o verbo "ser" o tempo todo e nas mais diversas situações. É o primeiro verbo que se aprende em uma língua estrangeira e isso porque é impossível entender os estados de coisa, as situações, fazer sentido, compreender e comunicar-se sem o verbo ser.

Saindo um pouco do cotidiano, o Ser é entendido de modo diferente por cada filósofo, cada escola de pensamento. Assim, por exemplo, para Platão, Ser é ideal, é ideia, tudo o que é inteligível. No sentido mais sublime e necessário, o ser é a Ideia de Bem. Demiurgo, o Deus fazedor de tudo, usou os modelos ideais para formatar tudo o que existe.

Se dermos um salto para o século 19, para Nietzsche, sem Deus, prevalecem a vida, os valores, o dar sentido, renovar e extrair de si força dionisíaca. Para renovar, para ganhar força de leão, ser seu próprio legislador, é preciso desconfiar daquilo que se inventou para si a fim de justificar a fraqueza humana, inclusive os conceitos abstratos da Filosofia. Portanto, desconfiar do Ser.

Heidegger (1889-1976) vê o Ser de outro modo, num primeiro momento é o ser humano mortal, ser aí enraizado no mundo, imerso na banalidade do dia a dia. Em um segundo momento o homem é aquele que possibilita a abertura para o Ser neste palco que é o mundo. E como o mundo recepciona? Atualmente com a velocidade, com o tempo controlado, com a conquista do espaço, cada canto do planeta utilizado, cada instrumento e cada técnica são disponibilizados, tudo ficou ao nosso alcance, nos serve. E mais, tudo passa por planejamento, por disciplina, por organização, por controle. O ser foi parar neste nosso mundo de coisas, do ter que fazer isso ou aquilo, dominados por modos de pensar e de ser uniformizados. 

Assim, cultivar e cuidar do Ser, pastorear, encontra essas séries de empecilhos. 

A busca do Ser, digamos, se complicou. E isso por nossas próprias ações, projetos, produções, guerras.

Onde reencontrar o Ser? Os caminhos para a autenticidade, para uma nova relação com o Ser viriam da linguagem, da poesia, da arte, da reflexão filosófica. Aberturas para o Ser se mostram num templo grego, em um quadro renascentista; olhar a natureza e usufruir dela diretamente, conduz ao Ser; o mergulho na poesia que renova o olhar, o sentir, remete ao Ser.


 

Templo testemunha do tempo


Portanto, a questão não é o que somos e sim quem somos, os cuidadores do Ser. 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Narrativa, o termo político do momento

No dicionário da língua portuguesa "narrativa" significa: "Exposição de fatos; conto; história"; no Aurélio (alguém ainda usa?):"1. narração. 2. forma literária na qual se expõe uma série de fatos reais ou imaginários; conto, história."

Ultimamente o sentido de "narrativa" se tornou político e ideológico, serve para marcar o adversário, e somente o adversário, como sendo falso, fantasioso, mentiroso. Que narrativa se refere a algo imaginário, saído de um conto de fadas.

E não só isso, trata-se de um daqueles termos ou conceitos que tornam o seu usuário um sabichão, alguém por dentro do vocabulário da vez e capaz de lançar no ar,  como um balão de ensaio, com glamour, a frase mágica: "é apenas uma narrativa", algo inventado, que engana trouxas.

Ora, narrar algo é descrever, mostrar, contar uma história ou fatos. Assim, narrativa diz respeito a algo possível, que poderia acontecer, mas que precisa ser inteligível para o ouvinte, para o interlocutor. Precisa fazer sentido, e mesmo sendo literário, diz algo, afirma algo, descreve algo.



maio de 2023

No sentido empregado por nosso presidente ao se referir à ditadura venezuelana como uma "narrativa", reforça o uso atual político e ideológico, passa por cima de fatos que foram sim narrados pela imprensa, por testemunhas, por imigrantes famintos, por reportagens idôneas.

A própria narrativa dos opositores da ditadura de Maduro, daqueles que foram ameaçados e presos, dos que vivem sob um regime autoritário, trata (ou narra) de acontecimentos  conhecidos, constatados e não de falsidade.

Quer dizer, uma narrativa tanto pode ser um estilo de descrição como constatação de fatos.

Assim, Lula errou duas vezes; primeiro, ao encobrir acontecimentos publicamente constatáveis; segundo, ao usar o termo em um só sentido, no de mentira. 

Inclusive no sentido literário, acontecimentos são narrados, descritos, enumerados, não faz sentido considerá-los como mentiras. E no sentido habitual alguém pergunta, por exemplo, "como foi sua viagem?" O interlocutor responde narrando as impressões e acontecimentos. Faz sentido você duvidar? A menos que o viajante seja um mentiroso contumaz, o que é fácil de descobrir, você acredita...

Conclusão: Lula é um desses mentirosos? Ou ele próprio recusa a realidade por ele recoberta pelo véu da ideologia?

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Quem sou eu? Identidade e diferença

 Unidade ou multiplicidade? Identidade ou pluralidade? Interior ou exterior? Nascimento ou renascimento? Nacionalismo ou cosmopolitismo? Saudável ou doente? Rico ou pobre? 

Poderíamos prosseguir com esses contrastes e até mesmo dispensar a alternativa "ou" pois há nuances, gradações, sentido costumeiro e sentido metafórico. Assim, doente de espírito, com corpo são, consciência de si, ao mesmo tempo pertencente a diferentes grupos, classes, nacionalidades. Cada um é o que é, e mais o que os outros acham, o modo como se transforma a vida, a cada mudança, a cada situação, a cada obstáculo vencido.

Se você é mexicano, nos EUA será chicano; se você tem a pele escura sua imagem mudará a cada lugar em que você for, seu bairro, em um super mercado, em um shopping de luxo. Se você for bonito será mais fácil encontrar o primeiro emprego com o mesmo nível de preparo que a pessoa feia. Problema, o que caracteriza o bonito ou o feio?! 

Se você nasce mulher seu caminho será fácil ou difícil, depende do país, da cultura, da educação, da própria família.

Enquanto criança o mundo à sua volta gira colorido e devagar, mas não para a criança que nasce na tenda de refugiados.

O que nos define? Exteriormente o físico, os pertences, o automóvel na garagem, o relógio de luxo, a marca da bolsa, o sapato, o penteado, e detalhes sem fim. Mas e os outros, quem são os considerados "outros"? Os andrajosos, dentes podres, o olhar entre louco e perdido, o vício, a decadência, o sem sentido. Sem sentido também para o depressivo, não há como agarrar-se a algo que importe. O mundo se torna abismo.

O trabalho, o lazer, a rotina, o empenho, a desilusão, o reconhecimento, a mediocridade. Entre um e outro, o sustento, a luta diária, a busca de realização e estabilidade.

As mãos que salvam, as mãos que apedrejam. Os pés que correm, os pés que se arrastam. O sorriso que encanta, as lágrimas que comovem. A gentileza do gesto, o soco na cara. A palavra que consola, a palavra que agride.

Subitamente, a grande e definitiva interrupção, o inesperado, o fim que a todos aguarda. 

E seguimos iguais e diversos nessa superfície de um planeta, no espaço infinito, no mistério do ser e do tempo.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

Deltan Dallagnol, um cidadão com princípios

 Dizer a verdade, seguir princípios, buscar e praticar a justiça, essas são qualidades do discurso verdadeiro, aquele que empenha o sujeito a se pronunciar publicamente por meio de suas ideias, com o compromisso e o exercício da cidadania.

Nada disso foi levado em conta, apenas a letra da lei buscada e esmiuçada para punir quem ousou se insurgir contra a corrupção. Basta ler os comentários raivosos do triunfo contra as operações da Lava Jato, a vingança notória do PT e de membros da corte judiciária.

Deltan incomoda, põe o dedo na ferida, demonstrou com provas e argumentos, precisou enfrentar o poder constituído, com determinação, sem esmorecer e por essas qualidades foi eleito deputado federal. 



Mas agora, com Lula no poder, nada disso importa, apenas a vingança contra quem tem a coragem da verdade. Esse é um tema antigo, surgiu na Grécia e se refere à transparência da verdade, o empenho em dizer a verdade nas tribunas, e isso não para convencer, não pelo uso da retórica, do argumento de autoridade, e sim pela sinceridade, honestidade e uma vida exemplar e de princípios.

Sim, princípios éticos, justamente na cena política onde a ética inexiste, onde os princípios de justiça, honestidade moral, intelectual e consciência pública são o tempo todo ignorados. 

As pautas são em geral seguir primeiro o que é de seu interesse, o seu reduto eleitoral, o seu bolso, o seu cargo, e o voto que pode e que provavelmente vai ser barganhado.

Os questionamentos éticos e os princípios de justiça, honestidade, valores morais e intelectuais, nada disso importa. 

Dizer a verdade, denunciar a corrupção, seguir valores e ideais, isso é próprio de pessoas comprometidas com o exercício da legítima cidadania.

Sócrates foi condenado quando Atenas era uma democracia, cidadãos exerciam seu papel nas assembleias, votavam leis, decidiam. Ora foi este regime que o condenou pelo motivo de ser corruptor dos jovens. A razão de fato, é que Sócrates incomodava, tal como Deltan, punido sem ter cometido nenhuma falta, nenhum deslize, a não ser este, dizer publicamente a verdade. 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O fundamentalismo: "fé cega, faca amolada"

 O tema do fundamentalismo me foi sugerido pela amiga Ivone Gradowski. Presente na política e nas ideologias, o fundamentalismo religioso se sobressai. Sempre polêmico e até mesmo cruel, é um fenômeno social e cultural, enraizado em seitas e preceitos obrigatórios recebidos com plena e cega adesão.

Os fundamentalismos religiosos se baseiam em livro sagrado, profecia, ritos, firme adesão, aprendizado da doutrina e, quase sempre, um prêmio de vida eterna benfazeja ou o castigo eterno.

No caso do fundamentalismo islâmico, xiitas e sunitas seguem um ou outro dos descendentes do profeta.  A queda do Xá do Irã em 1971 e o retorno de Khomeini do exílio levaram à criação de um estado islâmico xiita, que baniu tudo o que representava a cultura de tipo ocidental para livrar-se da opressão do Xá e iniciar uma nova era, com, por exemplo, o planejamento de cidades islâmicas (ver "Entre os Fiéis" de V. S. Naipaul), ritos severos e usos obrigatórios como o do véu pelas mulheres, que resultou em protestos recentemente no Irã, logo abafados.

Na Arábia Saudita foi comemorada pelas mulheres a permissão para dirigir seus carros (!). Na África o fundamentalismo aprisionou meninas, e o Afeganistão voltou para as mãos tirânicas da República Islâmica, com multidões em fuga do regime Talibã.

O cristianismo radical no passado caçou "bruxas" e dizimou índios. O judaísmo ortodoxo pode ser constatado em certos bairros da progressista Nova York, mulheres não precisam de véu e sim de peruca, com os ensinamentos da Torá obrigatório para os meninos e a rigidez de normas de conduta.




O que pensar disso e de muitos outros exemplos de fundamentalismo religioso?

Prender-se à sequência de ritos, ao aprendizado da doutrina no livro sagrado, à crença no guia espiritual e nas profecias, isso representa radicalismo, extremismo? Ou significa cumprir rituais que preenchem a vida de significado, trazem paz de espírito e conforto espiritual? 

É possível conciliar a adesão a uma crença que se pretende verdadeira e única com os ideais libertários de sociedades tolerantes, igualitárias, abertas, em que a liberdade de crença, de valores e de aceitação do outro, da convivência de credos foi conquistada na maior parte dos países? 

Uns são fiéis e outros são infiéis? Isso é paradoxal, absurdo. 

Salman Rushdie foi perseguido, recentemente esfaqueado por suas ideias; mesquitas são depredadas; jornais libertários incendiados; torres gêmeas atacadas; pastores se enriquecem às custas de palavras de ordem bíblicas e promessa de cura para todos os males. Uma lista sem fim...

Se certa religião fundamenta sua doutrina como única, e doutrinas são incontestáveis, o fundamentalismo representa o avesso da razão, da liberdade e da crença livremente assumida.






domingo, 16 de abril de 2023

Madame Bovary e as mulheres

 Em Paris, no dia 12 de abril de 1857, Gustave Flaubert lançou o romance "Madame Bovary". O livro foi dedicado a Louis Bouilhet, poeta e morador de Rouen, região em que se desenrolou o romance e onde o próprio Flaubert nasceu.

A qualidade literária, uma das mais importantes obras da literatura mundial, e o escândalo foram responsáveis pela fama. Não diria em igual medida, pois o romance enleva, arrebata e surpreende. Quanto à personagem, Madame Bovary é dissecada em seus desejos, fantasias, beleza, frustrações em detalhes dramáticos, e sem pudor.

                                     

1821-1880

Flaubert é o narrador que penetra nos personagens, na cidade, na paisagem, nos costumes, nas ambições e valores dos habitantes de Tostes, Yonville e Rouen. Charles Bovary, o marido, consegue com alguma dificuldade ser aprovado nos exames para exercer a medicina, sempre apoiado e protegido por sua mãe. Faltava a ele apenas se casar. O encontro com Emma se deu quando o jovem médico foi chamado para consertar uma perna quebrada. Na saída eles se põem à procura da gravata de Charles, quando este Charles "sentiu seu peito roçar nas costa da jovem". Pronto, e o recado de Flaubert estava dado: pele, sedução, paixão de Charles por Emma, e eles se casam após alguns meses.

 A personagem em uma gravura inspirada. 

Emma com asas, da paixão e da imaginação

A rotina de Emma era embalada por seus sonhos, fantasias e imaginação frutos da leitura de romances, muitos deles aventuras rocambolescas, "quadros do mundo, que passavam diante dela uns após os outros, no silêncio do dormitório", no período em que esteve interna no colégio. O casamento não correspondeu à felicidade com a qual sonhara, "como um grande pássaro de plumas cor de rosa planando no esplendor dos céus poéticos". "Por que, meu Deus, eu fui casar?". "O aborrecimento, aranha silenciosa, tecia seus fios na sombra em todos os cantos de seu coração".

O encantamento pelo jovem Léon, foi contido. Mas o sedutor Rodolphe a leva para um passeio a cavalo, e Emma diz em deleite consigo mesma: "Eu tenho um amante! Um amante!". Este frustrou o plano de fugir para Paris... Mas, um encontro casual com Léon, e os desejos apaixonados de ambos se realizam. E isso dentro de uma carruagem que Leon ordena para não parar, num louco amor. Ela se deixa levar, esbanja futilidades, se endivida e é ameaçada por um agiota. 

Emma ama Léon e mesmo assim "ela não era feliz, nunca o fora. De onde vinha, então, essa insuficiência da vida, essa podridão instantânea das coisas nas quais ela se apoiava?" A impossibilidade de ter "um coração de um poeta sob a forma de anjo (...). Cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, todo prazer seu desgosto, e os melhores beijos deixavam sobre os lábios apenas um irrealizável desejo de uma mais alta voluptuosidade". Flaubert é o poeta da alma!

Emma Bovary, tal como outra personagem, Ana Karenina, pôs fim ao desespero.

***

Século 21, Emmas, Anas, Marias, mulheres ainda são tuteladas, ameaçadas, feridas, perseguidas. Seus desejos são mal vistos, seus projetos adaptados à vida familiar e ao trabalho. Uma minoridade à qual as próprias mulheres por vezes se obrigam para não ter que enfrentar dramas como o de Emma Bovary, uma personagem narrada por um autor que nos faz respirar com ele.

sábado, 8 de abril de 2023

Ser íntegro

As pessoas podem ser consideradas quanto ao seu temperamento, caráter e personalidade. Os conselhos médicos na antiguidade clássica, e me refiro à cultura grega, visavam o temperamento, os chamados "humores". Haveria quatro fluidos corporais: o sangue, a fleuma, a bile amarela e a bile negra, com seus respectivos temperamentos, o sanguíneo, o fleumático,  o colérico e o melancólico. Quando se diz que a pessoa é tímida, nervosa, irritadiça, estourada, extrovertida, introvertida, em geral estamos nos referindo ao temperamento. 

Quanto ao caráter, as qualidades ou defeitos são morais e não físicos. Trata-se de virtudes que são praticadas na vida diária, formadas pela educação, pelos bons hábitos, os bons exemplos. O caráter, portanto, é moldado, guiado pelas virtudes, quer dizer, capacidades que se adquire. Uma das mais importantes virtudes é a da moderação, pois os extremos são prejudiciais. E ainda a virtude da sinceridade, do autodomínio e a disposição de caráter para cultivar as amizades, que nada mais é, segundo Aristóteles do que desejar o bem em uma relação entre iguais.

Quanto à personalidade, este é um conceito psicológico mais recente. O curioso é que o termo remonta ao teatro antigo, à máscara usada para atuar, a "persona". Dizemos: "Fulano tem personalidade" e com isso indicamos algumas capacidades, como capacidade de influir, intransigência, segurança, estabilidade. E o inverso, é um "Maria vai com as outras", indeciso/a, influenciável, manobrável, até mesmo fraco/a.

Feitos esses preâmbulos, vamos ao tema: ser íntegro. A integridade é uma característica do caráter, não do temperamento, nem da personalidade.

Integridade significa inteireza, completude, ausência de brechas, firmeza, confiabilidade, dignidade. E mais, a pessoa íntegra é respeitável e respeita o que for justo, e o que contribui para a convivência e a harmonia entre as pessoas. Seguir regras não é algo automático, mecânico e sim algo acordado, e a aceitação ou não é sempre pensada, refletida. 

Outras duas características da pessoa íntegra são a coerência e a consistência. A coerência no modo de agir e de pensar, levam à confiança em um círculo virtuoso. Os princípios de seu caráter íntegro não significam intransigência e sim capacidade de ver o todo, de distinguir, de analisar.

Quanto à consistência no modo de agir e de pensar, significa que há base, que há fundamento, que a pessoa pode dar as razões de suas atitudes, e que não há problema algum em rever seus pontos de vista e suas opiniões. 

Ser íntegro, sem camuflagem, é aquele que se pode olhar nos olhos e ele não desvia o olhar.