domingo, 16 de abril de 2023

Madame Bovary e as mulheres

 Em Paris, no dia 12 de abril de 1857, Gustave Flaubert lançou o romance "Madame Bovary". O livro foi dedicado a Louis Bouilhet, poeta e morador de Rouen, região em que se desenrolou o romance e onde o próprio Flaubert nasceu.

A qualidade literária, uma das mais importantes obras da literatura mundial, e o escândalo foram responsáveis pela fama. Não diria em igual medida, pois o romance enleva, arrebata e surpreende. Quanto à personagem, Madame Bovary é dissecada em seus desejos, fantasias, beleza, frustrações em detalhes dramáticos, e sem pudor.

                                     

1821-1880

Flaubert é o narrador que penetra nos personagens, na cidade, na paisagem, nos costumes, nas ambições e valores dos habitantes de Tostes, Yonville e Rouen. Charles Bovary, o marido, consegue com alguma dificuldade ser aprovado nos exames para exercer a medicina, sempre apoiado e protegido por sua mãe. Faltava a ele apenas se casar. O encontro com Emma se deu quando o jovem médico foi chamado para consertar uma perna quebrada. Na saída eles se põem à procura da gravata de Charles, quando este Charles "sentiu seu peito roçar nas costa da jovem". Pronto, e o recado de Flaubert estava dado: pele, sedução, paixão de Charles por Emma, e eles se casam após alguns meses.

 A personagem em uma gravura inspirada. 

Emma com asas, da paixão e da imaginação

A rotina de Emma era embalada por seus sonhos, fantasias e imaginação frutos da leitura de romances, muitos deles aventuras rocambolescas, "quadros do mundo, que passavam diante dela uns após os outros, no silêncio do dormitório", no período em que esteve interna no colégio. O casamento não correspondeu à felicidade com a qual sonhara, "como um grande pássaro de plumas cor de rosa planando no esplendor dos céus poéticos". "Por que, meu Deus, eu fui casar?". "O aborrecimento, aranha silenciosa, tecia seus fios na sombra em todos os cantos de seu coração".

O encantamento pelo jovem Léon, foi contido. Mas o sedutor Rodolphe a leva para um passeio a cavalo, e Emma diz em deleite consigo mesma: "Eu tenho um amante! Um amante!". Este frustrou o plano de fugir para Paris... Mas, um encontro casual com Léon, e os desejos apaixonados de ambos se realizam. E isso dentro de uma carruagem que Leon ordena para não parar, num louco amor. Ela se deixa levar, esbanja futilidades, se endivida e é ameaçada por um agiota. 

Emma ama Léon e mesmo assim "ela não era feliz, nunca o fora. De onde vinha, então, essa insuficiência da vida, essa podridão instantânea das coisas nas quais ela se apoiava?" A impossibilidade de ter "um coração de um poeta sob a forma de anjo (...). Cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, todo prazer seu desgosto, e os melhores beijos deixavam sobre os lábios apenas um irrealizável desejo de uma mais alta voluptuosidade". Flaubert é o poeta da alma!

Emma Bovary, tal como outra personagem, Ana Karenina, pôs fim ao desespero.

***

Século 21, Emmas, Anas, Marias, mulheres ainda são tuteladas, ameaçadas, feridas, perseguidas. Seus desejos são mal vistos, seus projetos adaptados à vida familiar e ao trabalho. Uma minoridade à qual as próprias mulheres por vezes se obrigam para não ter que enfrentar dramas como o de Emma Bovary, uma personagem narrada por um autor que nos faz respirar com ele.

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