quarta-feira, 28 de outubro de 2026

"Avistar leões na praia"

 De volta de sua viagem à Europa, recebi dois livros de presente da amiga Nordi Gradowski: Kafka, Das Schloss (O Castelo) e O Velho e o Mar em alemão, como contribuição para meu aprendizado da língua. Nunca pensei que releria Hemingway na língua de Kant, encanta e surpreende. O título dessa postagem se refere ao desejo do velho pescador, ver leões na praia. Tomo essa visão como sendo a de esperança e encantamento.

Isso me fez lembrar de outras passagens que emocionam e inspiram.

Vidas Secas, Graciliano Ramos faz da família de Fabrício o retrato da miséria e de esperanças, e de Baleia, a cachorrinha da família de retirantes nordestinos, personagem vivo, até mesmo pensante. Fabrício: "Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado... A cólera desapareceu, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sore o peito, moles, finos como cambitos"... "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás".


Vidas Secas, filme de Nelson Pereira dos Santos -1963


Crime e Castigo, Dostoiévski. Certo personagem justifica o crime de Raskólhnikov, "esgotado por aquele longo mês de lutas e comoções" matou a velha usurária: "É humilhante para um jovem, com méritos e com incomensurável amor-próprio, saber que, se tivesse três mil rublos, toda sua careira, todo o seu futuro e sua vida inteira tomaria outra direção". O castigo: "Sibéria. Na margem de um rio, ampla e deserta, ergue-se uma cidade ... Na cidade, uma fortaleza, um presídio. Há já dois meses que nele está preso o deportado da segunda classe, para as galeras, Rodion Raskólhnikov. Decorreu já cerca de ano e meio desde o dia do seu crime".

Ana Karênina, Tolstói. Ana sofre por sua paixão adúltera pelo conde Vronski: "Se eu pudesse, procuraria ser para ele uma amiga sensata e não uma amante apaixonada.. Há muito que ele já não me ama e onde o amor acaba principia a saciedade"... "Enquanto rompia a turba para dirigir-se à sala de espera da primeira classe, perpassavam-lhe pelo espírito os pormenores de sua situação, bem como as diferentes soluções que se lhe ofereciam"... "E, subitamente, desvaneceu-se a névoa que a tudo cobria, e a vida exibiu-se lhe por momentos em todas as suas radiosas alegrias. Não apartava, porém, os olhos do vagão que se aproximava. ...Quis retroceder ... mas qualquer coisa enorme, inflexível a apanhou pela cabeça: Senhor meu Deus, perdoa-me tudo!... E a vela, à luz da qual Ana lera o livro da Vida com todas os seus tormentos, ... todas as suas dores, resplandeceu ... depois crepitou, estremeceu e apagou para sempre".

Madame Bovary, Flaubert, mais uma tragédia de amor e traição. "Ela pensava nele, Léon. Ela teria então dado tudo para apenas um desses encontros, que a satisfaziam". Emma tenta o suicídio envenenando-se: "Ela não demorou a vomitar sangue. Seus lábios se travaram... Depois se pôs a gritar, horrivelmente. Amaldiçoava o veneno, o invectivava, suplicava que ele cessasse, empurrava com seus braços, tudo o que Charles, mais agoniado do que ela, se esforçava para lhe dar de beber".

As grandes obras literárias produzem esse efeito, o desejo de "avistar leões na praia", sonhar com a África tal como o velho pescador e o próprio autor, Hemingway. Mergulhar no amor, na dor, no sofrimento para  ser, talvez, resgatado/a.

Em tempo: Ivone Gradowski, de retorno da França, já havia me contemplado com seis, sim seis livros em alemão, Kafka, Nietzsche, H. Arendt, W. Benjamin. 

E la nave va.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Argumentar é preciso.

 Ex-alunos e colegas  têm se pronunciado com veemência e mesmo fervor pela candidatura de Lula, o mesmo líder que há décadas inspira e comanda a esquerda.

Em anos recentes surgiu uma liderança da direita, conservador que confronta o petismo. 

São dois polos que se digladiam, o fato de haver dois polos mostra o quanto os extremos se beneficiam ou melhor, se fazem valer, cresce um deles, o outro cresce na mesma medida. O conservadorismo resulta do esfarelamento da ideologia da esquerda que depende de uma única pessoa. 

Lula há décadas é o representante máximo e único, eleger Lula é estar do lado do bem, da verdade, apenas ele assegura que o país não vá mergulhar no fascismo. 

Esse pêndulo, um existir em função do outro, impediu que outras lideranças surgissem, que outras vozes se apresentassem, que a polarização não chegasse a esses extremos prejudiciais e obscuros.

A devoção ideológica a Lula, amparada por integrantes da corte suprema, leva ex-alunos meus, colegas universitários, professores de Filosofia a repetir que a democracia será destruída, que o caos se instalará, que o país será decretado quintal dos EUA, que a pobreza aumentará, que a Amazônia vai virar um deserto, que as crianças portarão armas, que a saúde pública, o SUS, vai virar poeira.

Para tal é preciso arregimentar, fazer o "L", o "exército", sim, apenas o "exército" aguerrido impedirá o caos.

Não apoio o conservadorismo, busco com coragem na minha trajetória pessoal a coerência, o compromisso com a pesquisa, com publicações, jamais faria parte de um exército que precisa de chefe, de general, no qual pessoas se tornam massa de manobra.

Quando na faculdade, fim dos anos 60, a luta contra a ditadura me engajou, foram anos duros, a democracia retornou. Lula contribuiu? Sim. Só a ala radical? Evidente que não. Os anos de chumbo acabaram. 

Nunca me filiei ao PT, mas isso era dado como pressuposto, como condição para opor-se à opressão, como bandeira de luta. Hoje arregimenta, há 40 anos depende de uma única liderança conduzida por um tipo de Duce, há na academia exigência de que se faça o L, quem não faz não é democrata!

Honestamente, há um outro lado. São todos antidemocráticos, fascistas? 

***

Para quem quiser conferir: Postagem do dia 19 de março de 2016 "Habermas e o Lulopetismo" com 1601 visualizações.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que é Iluminismo? O que é Esclarecimento?

 Tomemos para ilustrar o Iluminismo Voltaire (1694-1778) em Cartas Inglesas, texto em que ressalta o pensamento inglês em comparação com o racionalismo francês. 

Até no sorriso é irônico, demolidor.

Desfia uma série de críticas, como a da crença na imortalidade da alma como se houvesse um caminho para o céu, ele defende que a autodeterminação dos homens os conduz pelo caminho que lhes aprouver. Voltaire admira as instituições inglesas, os presbiterianos, os anglicanos, o livre comércio que tornou os cidadãos mais livres e a liberdade que ampliou o comércio, a prática de inoculação da vacina contra a varíola. Ele preza a filosofia experimental de Francis Bacon baseada na arte mecânica, com a valorização das invenções, o progresso.

O contraste entre a metafísica de Descartes, "nascido para descobrir os erros da antiguidade a fim de substituí-los pelos próprios" (p. 21) é evidente. Para Descartes alma é a mesma coisa que o pensamento, provinda do corpo com todas as noções metafísicas mas que ela "esquece ao sair do ventre da mãe" (p. 21). Voltaire defende, ao contrário,  John Locke para quem todas as ideias proveem dos sentidos, "sou corpo e penso", assim resume ele o empirismo, questões filosóficas independem de fé e de revelação. A verve crítica é apontada ainda para o teatro, a poesia, as academias, as dissertações da academia francesa sobre os penteados das romanas, mas que ele aconselha a não confundir com estudos matemáticos, lamenta que grandes cérebros pretendem brilhar tratando de forma nova "matéria já gasta", que nada têm a dizer e que sob "títulos ridículos" escondem "investigações frívolas" (algo parece não ter mudado em certas dissertações e teses da atualidade!).

No Tratado de Metafísica Voltaire defende que os sentidos são fonte das ideias, quando os sentidos nos faltam, nos faltam também as ideias. Questiona Deus criador, pois nem todos os povos têm essa noção. Criar do nada, mas o nada não é, então criou a partir de sua própria divindade? Como pode o mundo ser eterno e ao mesmo tempo criado? Como um ser não material poderia ter criado a matéria? Atribuir qualidade ou propriedades a Deus, como justo ou injusto, é absurdo. Deus devolve a memória a quem a perdeu ou criará novas ideias? Se o homem é livre para agir, como alguns agem ora por impulso ora com tranquilidade? A liberdade para "fazer o que lhe parece ser bom" (p.77), contrasta com a impossibilidade de querer o que não dá prazer. 

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Passemos ao conceito de Esclarecimento com base no texto Was ist Aufklärung, de Kant (1724-1804), cujo ponto de partida não é a razão pura e sim a condição humana, somos seres racionais que lutam para superar o mal, cidadãos que visam o bem comum, em uma sociedade esclarecida, cosmopolita, com a perspectiva de que a condição humana possa ser aperfeiçoada, que os homens possam sair do estado de minoridade, quer dizer, de subserviência, de dependência, que possam usar sua própria cabeça. 


Kant, o exemplar rigor filosófico.
Infelizmente houve acomodação a esse estado de dependência, mas "se for dada liberdade, o esclarecimento é quase inevitável", afirma Kant, sem tutela, com coragem, com liberdade de crença e religiosa em uma sociedade civil com um público culto, preparado para usar a razão, imprensa livre que estimule essa capacidade de pensar por si, com governantes que facilitem aos governados escolhas livres e responsáveis, sem imposição deste ou daquele credo.

Kant inspirou Foucault em Qu'est-ce que les Lumières (1984), o ousar saber, a filosofia capaz de pensar seu próprio tempo, a coragem para o exercício da liberdade, cabe a todos nós como dever pessoal esse processo de esclarecimento por meio do uso público, livre e universal da razão, dos argumentos,  sair do estado de subserviência sem medo, sem tutela, sem autoritarismo, de modo a preservar a autonomia e a dignidade da pessoa. Tais condições são ao mesmo tempo espirituais e institucionais, éticas e políticas. 

O esclarecimento requer, ao mesmo tempo, argumentação acessível, com liberdade e responsabilidade,  esse é um "problema político", ressalta Foucault, o uso ilegítimo da razão, ao contrário, produz ilusão, dogmatismo e heteronomia, vale tudo, um tipo de salve-se quem puder. Ora é lícito, legítimo e razoável poder determinar o que conhecer e o que se pode esperar. Vivemos em uma época que acolhe e necessita desses esclarecimentos, algo impossível antes da modernidade, justamente o período histórico propício, modernidade entendida como período de usufruir o real ao mesmo tempo exercitar a liberdade, segundo entendimento de Foucault. É "a permanente criação de nós mesmos em nossa autonomia" (p. 573). 

A atualidade parece mais atada às palavras de ordem e ideologias que impedem justamente, o esclarecimento.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A esquerda que perdeu o rumo e o prumo

 Uma das teses do marxismo, que é a máxima representação da esquerda, está a do materialismo histórico, a história vista em suas contradições.

Outra tese é a da dialética, significa que os movimentos históricos se dão na economia, no trabalho, nas transações, e que as ideologias e crenças são um véu de ignorância, um apanágio do tipo pão e circo para manter as consciências alienadas, obedientes, cegas. A esquerda, para ser minimamente coerente, deveria expor que uma de suas teses a ser sustentada para não inverter nem deturpar o marxismo, é o ATEÍSMO, sim, nada de crença, de mitos, de imagens, de reverência ao sobrenatural. Materialismo dialético implica em superação de contrários, a história sendo progressiva, portanto, o conservadorismo fica de fora. Daí ser gritante a atual contradição representada pela defesa oportunista de crença religiosa, de defesa de santas, de imagens, de símbolos religiosos.

Outro aspecto é o do esclarecimento, o dar razões, o mostrar, o demonstrar e não a adesão oportunista. A história é viva, o passado e o presente representam movimento, não ficam congelados à mercê do primeiro chefete que se proclama iluminado. Daí o desvendamento das ideologias, a denúncia do uso explorador da política.

O que mudou desde o século 19 quando surgiram as teses marxistas até o século 21? Guerras mundiais, economia globalizada, informação contínua e multifacetada, tecnologia avançada, velocidade e instantaneidade da comunicação, confronto e debate de ideias e propostas, esclarecimento, mobilidade social e econômica. Essas mudanças deveriam conduzir o progressismo da esquerda para lutas por justiça social, pela consolidação do Estado de direito, pelas constituições, pela transparência e liberdade de opinião, pelas eleições livres. 

O que se vê?

A religiosidade explorada até o limite da insanidade. Pessoas que se apegam às mensagens ralas, inverídicas, a repetição nauseante de fakes respaldadas pela corte suprema, a defesa de candidatos que expoliam o direito à informação, uma "esquerda" que se recusa interesseiramente em pôr um fim à desinformação.




"Duas vezes o presidente tirou o Brasil do mapa da fome", gritam a plenos pulmões. Se tirou da primeira vez, não o fez adequadamente, pois precisou tirar o Brasil do mapa da fome pela segunda vez! E por aí afora, defesa do indefensável, esquerda sem rumo, sem poder para argumentar contra o conservadorismo. Enquanto isso os conservadores nadam à vontade, o que é lastimável. 

Pensemos na democracia liberal, sem mentiras, sem deturpações, livre para se manifestar com argumentos, à luz do dia e não na obscuridade de uma ideologia ultrapassada.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Os plantadores de batatas e a IA

 Trump e Xi Jinping se encontraram (24/set/2026) na Casa Branca para discutirem sobre o avanço da IA, o que por si só demonstra a preocupação com o futuro da tecnologia e, consequentemente da humanidade.

No interior da Mongólia (ermo e longínquo território chinês) empresas chinesas constroem estruturas gigantes de plataformas (data centers) como a da Huawei, ByteDance, Deepseek, concorrentes das empresas americanas. 

Ao lado dessas construções há os cultivadores de batata, tostados pelo sol, pele enrugada, eles contrastam  com os operários que erguem as plataformas em seus capacetes amarelos. Os agricultores se sentem ameaçados, talvez percam seu emprego, um deles afirma que sequer usa a internet. Outros sabem que é inevitável o governo chinês construir prédios gigantes que abrigarão equipamentos responsáveis pela produção e reprodução de dados para alimentar a IA, imprescindível nas indústrias, na educação, na sociedade e seu futuro. 




A China forma cinco vezes mais engenheiros do que os EUA, o mais irônico é que parte deles proveio de alguma universidade americana de ponta para atuar nos centros de dados chineses. A concorrência é forte, o encontro em Washington de Trump e Xi não implica em colaboração e sim em explicitação da guerra do mais forte. (Fonte: reportagem de Laura Bircker para a BBC, 22 de setembro, intitulada "Futuro Tecnológico")

Em excelente documentário, a Netflix traça a trajetória dos cérebros responsáveis pela invenção e pela expansão ilimitada da IA, resultado de máquinas que ultra processam dados, a mais alta tecnologia jamais inventada para replicar, instruir e dominar todo tipo de conhecimento, de arte, de comunicação, expandi-los a partir de dados infinitos recolhidos por meio, inicialmente, de escaneamento e digitalização de todos os conteúdos de tudo o que se publicou, conectá-los para alimentar infinitas operações, informar a respeito de tudo o que for suscetível de cálculo, operações, previsões. Capacitar diagnóstico, facilitar a pesquisa, invenções, cura de doenças, armas, coordenação do trânsito, direção de veículos, robótica, controle de pragas na agriculta, etc. etc. Isso tudo e mais o que se puder imaginar, em expansão infinitesimal. O contraste entre plantadores de batata na longínqua Mongólia, temerosos de perder seu sustento e a engenharia das plataformas lá sendo construídas, que, aliás demandam água em abundância retrata nossas atuais condições.


Data centers sendo construídos na Mongólia, China.

No documentário da Netflix, um rapaz preocupado com o futuro de seu filho que vai nascer, entrevista diversos criadores de conteúdo, há os que preveem futuro sombrio e mesmo o fim da humanidade como nós a conhecemos; os que são otimistas, a IA revoluciona e facilita a vida em todos os sentidos; um terceiro grupo dos que consideram que, como toda a invenção, pode ser usada para nosso bem ou nosso mal. 

Estruturas, as mais sofisticadas e seguras, podem colapsar. Entre os desenvolvedores dos programas há os que consideram provável que grande parte da humanidade seja exterminada. 

Mas bebês nascem, o entrevistador dos gênios da IA se mostra um tanto aliviado, criará seu filho, irá educá-lo em uma sociedade "operacional" digamos assim, revolucionária. Isso não exclui as enormes dificuldades ambientais, sociais e econômicas que, certamente IA alguma aliviaria. Urge a responsabilização dos governos, concluem os cientistas.

Entretanto, a criatura pode dominar o criador, cenários de guerra de extermínio por obra e graça da própria IA que agiganta a si própria, ilustram à perfeição nossos dilemas, o que nos aguarda.

Será possível produzir também batatas?

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Digressões

 As pessoas

Em cada pessoa ressoa um mundo, em cada um de nós toda a humanidade: o gênio recolhido em seu quarto; o louco desvairando na praça; o motorista no trânsito das seis horas; o varredor de ruas que pousa a vassoura para um breve descanso; o gari que equilibra o lixo pesado; o enfermeiro que de madrugada verifica o estado do doente; a florista que compõe o buquê; a criança que atravessa a rua sozinha; o alpinista que atingiu o cume; o terrorista que carrega explosivos; o político que vocifera promessas; a professora que usa o quadro negro para expor um teorema; o poeta que perdeu a inspiração; o fotógrafo que enquadrou um lance; o jogador no instante do gol. 

Em cada alma o espelho da condição humana, inescapável. 

Os instantes

O freio que não veio a tempo; o olhar que num segundo diz tudo: raiva, amor, inveja; o ponto de arremate; o ápice do amor; o resgate do salva vidas; o acorde final da orquestra; o salto de paraquedas; o tiro fatal; a palavra que diz tudo; o martelo do leiloeiro; o primeiro beijo; o vagido do bebê; o último suspiro; a página em branco; o bilhete do suicida; o adeus antes das partidas; a mensagem apagada; o ponto final do romance; a fuga inesperada; o it missa est; a mão que impede a queda; o piscar de olhos que sela o entendimento; o frenar do avião na pista. Instantes marcam o sem retorno do tempo.

A natureza

Caminhar na relva; o murmúrio do riacho; as andorinhas no fio de luz; os sabiás nos quintais; a passagem das aves migratórias; o salto do peixe; os vales floridos; os cachos de glicínia; as areias do deserto; as geleiras dos cumes; o abismo oceânico; o ar rarefeito; a tempestade que se anuncia; o sol do meio-dia; o horizonte marinho; a foz do rio; a floresta tropical; a praia deserta; os fósseis; o vento que assobia; a brisa que refresca. E natureza marcada, conspurcada, entremeada por nódoas, avalanches, poeira, lama, fumaça.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A diferença entre a Filosofia da Existência de Heidegger e o Existencialismo de Sartre

Martin Heidegger (1889-1976, Freiburg), preferia a cabana, a rusticidade, o isolamento, pensar o Ser-aí, quer dizer a condição humana, a ek-sistência temporal no mundo; foi amante de Hannah Arendt, professor na Universidade de Freiburg e de Heidelberg, cátedra à qual renunciou ao ser acusado em 1934 por sua adesão ao nazismo, sem que ele tivesse compactuado com a perseguição aos judeus, ou com a noção de raça. Quando julgado, Sartre testemunharia a favor de Heidegger, mas não compareceu ao tribunal.


Heidegger na cabana.
O mundo está aí, já os processos da consciência são intencionais e a existência livre. O pensamento filosófico desestabiliza, confronta, há força vital, a indagação pelo Ser é incontornável. Somos seres no tempo, ser-para-a morte. Em "Ser e Tempo" Heidegger questionou a técnica, o modo de ser do uso, do aproveitar, do palavrório em oposição ao modo de ser do cuidado, da assistência, da vida sem subterfúgios, da autenticidade, da liberdade para realizar o pro-jeto. A mortalidade nos angustia, essa estranheza de sermos aí no mundo como manifestação do nada, condição que carregamos, o dizer não, o indagar que nos ultrapassa. Conceitos que influenciarão Sartre.

Na segunda fase, passou para o tema da essência do homem em sua relação com o ser, ameaçada pela técnica, pela linguagem vista como comunicação, subjugada à opinião pública, o ente dominado por explicações e fundamentações da ciência e da filosofia. Isso dilui a responsabilidade estética e moral, representa domínio sobre o ente. Ao longo da História da Filosofia, a essência do homem foi concebida como ser racional, como humano oposto ao bárbaro, como homem que trabalha, como existente que precede a essência, como homem livre para se reinventar.   

Heidegger considera que Sartre retoma a metafísica tradicional, apenas invertendo-a ao conceber a existência como essência, como questão de humanismo, isso enfraquece a relação do ser com o ser humano. Pensar diz respeito ao ser e à essência do homem situado na abertura do ser, não na relação com seu organismo, nem de ter uma alma imortal, nem de ser pessoa. O homem é ser-aí, exposto pela linguagem à verdade do ser. Que ser é esse? Mais do que fundamento, é abertura, ele é o protetor da casa do ser, sendo a poesia a manifestação máxima. "O pensar trabalha na edificação da casa do ser" (in "Sobre o 'Humanismo'"). Em cada sim, em cada não, o ser se inscreve, a linguagem é a habitação do ser humano. 

Observe-se que a história das diferentes adesões ao ser mostra que para Heidegger há uma adesão atual ao ente na forma desenfreada da técnica que subtraiu a essência do ser. 

Jean-Paul Sartre (1905-1980, Paris) empunhou o megafone, protestou nas ruas, sempre aberto ao público, escritor prolífero tanto na área da Filosofia ("Ser e Nada", 1943) como na literatura, teatro, contos, romances, além de repercutir inúmeros acontecimentos políticos de seu tempo. Foi companheiro de Simone de Beauvoir, ambos influentes por suas posições críticas, de total não conformismo, militantes, ateus declarados.


Sartre protesta, manifestações da esquerda

O homem é o ser no qual a existência precede a essência, ele é pro-jeto, capaz de escolha, em cada escolha ele escolhe toda a humanidade perante a qual somos responsáveis e inteiramente livres. Não há escolha gratuita, o que justamente torna a vida valiosa, permanente construção. No outro lado dessa escolha livre e responsável, dá-se a má-fé, o disfarce, o engano. 

Qual o significado do Nada? O Nada brota da condição humana, na interrogação abre-se uma brecha, ao entrar em um quarto, por exemplo, e não encontrar a pessoa procurada, dá-se o não estar ali.

A liberdade angustia diante dos possíveis, está-se situado, lançado no mundo, comprometido, engajado. Depende apenas de nós realizar o sentido do mundo e de nós mesmos, sem fuga, pois fugir do inevitável é má-fé. O homem, que Sartre intitula como Para-si, é contingente, está aí para nada, supérfluo e nisso se enraíza a liberdade, "somos livres para deixar de ser livres" (O Ser e o Nada, p. 544). Motivos, vontade, o passado, são inevitáveis, mas como reagir e valorar depende de cada um.

Sartre propõe uma psicanálise existencial, diversa da freudiana, sem os conceitos de complexo, libido, "soterrado nas trevas do inconsciente"(p. 701); pelo contrário, disposto e exposto ao que está aí, luminoso, deliberado, podendo ser revogado ao aderir a nova posição diante do passado. A psicanálise existencial é flexível, adaptada a cada sujeito, elucida suas escolhas não nos sonhos, nem nos atos falhos, obsessões ou neuroses. "Essa psicanálise ainda não encontrou seu Freud" (p.703).

Enfim, Heidegger percorre as aberturas para o ser no terreno da metafisica, como a existência se dá, exposta à verdade do ser, que foi encontrada como organismo, como consciência, como pessoa, como trabalho, em todos houve o "esquecimento do ser"; Sartre busca a responsabilidade de um ser aí, instado a decidir, sem desculpas, situado e livre, ao mesmo tempo engajado, pode-se dizer, uma concepção para a qual a existência é sua essência.

domingo, 16 de agosto de 2026

O injustificável, A. Camus em "L'Étranger"

Em romance curto, denso, Camus narra a história de Mersault, em primeira pessoa, num curto espaço de tempo iniciado com a morte da mãe e que termina com sua condenação à morte por homicídio.

O local, Argélia na década de 30 colônia francesa. Na cidade à beira-mar o calor, a paisagem, céu e praia, são onipresentes. A mãe vivia em um asilo, ao qual se habituara, "como em tudo na vida". Ter que participar do velório, a noite toda com os colegas dela um tanto adormecidos, ele se cansa, o funcionário oferece café com leite, ambos fumam. Enterro no dia seguinte, sol, sinos, caixão, calor que perturba a vista e as ideias. Alívio chegar em Alger, com direito a dois dias de folga aos quais se acrescentou o fim de semana. Encontra ex-colega, Marie, "semblante de flor", namoram vão à praia, nadam juntos, depois vão ao cinema, filme de Fernandel (ator cômico famoso à época).

Dois vizinhos, o velho que bate no cachorro mas dele não se separa e Raymond que namora a irmã de um árabe, bate nela, diz que pode porque a sustenta. Domingo, na praia, avistam um grupo, entre os quais o irmão da amante de Raymond, que quer vingança. Mersault retorna à praia, com a arma do amigo esquecida no bolso, calor extremo, avista o rochedo com sombra e fonte de água, onde o árabe estava deitado, este levanta, aponta faca como "espada fervente", Mersault o alveja com tiro mortal, dispara mais quatro vezes. Compreendeu que "havia destruído o equilíbrio do dia" (p. 54), "o silêncio de uma praia onde eu tinha sido feliz" (injustificável).


Filme de F. Ozon, 2025

Segunda parte do livro, prisão e julgamento. No interrogatório o destaque é a insensibilidade com a morte da mãe, o advogado pergunta se preferia que ela não tivesse morrido, ele responde que pessoas sãs haviam desejado a morte de pessoas que elas amam. O advogado pede que ele não diga isso no dia do julgamento (injustificável).

O juiz pede que ele relate todo aquele episódio, Mersault pensa consigo que nunca falou tanto, por que os quatro tiros? Você não acredita em Deus, pergunta o juiz com um crucifixo na mão? Não sou cristão, responde Mersault tomado por aborrecimento (injustificável).

Na prisão tenta dominar seu dia a dia preenchendo com lembranças, passou a dormir muito, recorda que a mãe dizia que a gente se acostuma com tudo. Um ano se passa, enfim o julgamento de um crime que atraiu a atenção até de jornalista de Paris. Por que internou sua mãe? Falta de dinheiro (injustificável). Por que fumou, tomou café com leite e não chorou durante o velório? (injustificável). Mersault sentiu que o odeiam. "Eu o acuso de haver enterrado uma mãe com o coração de um criminoso" (injustificável). Promotor: você premeditou, é inteligente, desalmado, insensível, monstruoso (injustificável). Por que matou? Devido ao calor, resposta que provoca risos (injustificável). Calor, luz solar, abafamento são circunstâncias onipresentes no livro.

À espera do dia da execução, sem que ele solicitasse, recebe a visita do capelão que não entende como alguém não crê na vida após a morte (injustificável), tenho certeza, diz o capelão, que lhe ocorreu desejar outra vida, Mersault se irrita, acusado porque não chorou no enterro da mãe, porque é ateu, que importância têm os fatos, as pessoas e suas escolhas? 

Camus abre uma fresta para a justificação, filosófica a meu ver: "Eu me abri para a terna indiferença do mundo" (p. 101).

Conclusão: a existência pesa, Mersault/Camus mostram que não há necessidade de se justificar perante expectativas da sociedade, da moral e do direito. É possível defender sua própria moral, seu próprio modo de ser.

Obs: Há centenas de estudos sobre Camus nas redes sociais, filme de Luchino Visconti de 1967 sobre "O Estrangeiro"; Mersault é visto como "apático", qualificativo do qual discordo. A minha primeira leitura de "L'Étranger" foi para o exame de Nancy, Aliança Francesa, décadas atrás, 1967!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que é justificação para Wittgenstein? O que é justificação para Habermas?

 A justificação é um recurso de atos de fala, de certo jogo de linguagem que se caracteriza por chegar a um fim, a um resultado, do contrário não se sustenta, segundo Wittgenstein. Quando se trata de uma ordem, de um pedido, a justificação requer que se atenda o pedido, ou que se recuse o pedido, mas, atentar para a satisfação desse pedido não é uma justificação. O apropriado seria justificar por meio de uma experiência e chegar a um termo, como por exemplo ser bem sucedido. 

A melhor justificação, melhor do que a certeza, é o fato de dar certo, confiar no resultado, por exemplo, que fogo queima. E essa questão para Wittgenstein, à diferença do racionalismo e do empirismo, não é a do raciocínio indutivo e sim algo que diz respeito às nossas formas de vida, àquilo que aceitamos como uma justificação. Outro exemplo: para projetar as dimensões de uma ponte, há certas razões que justificam imaginar tais ou tais dimensões, mas não quanto às escolhas das dimensões imaginadas. Estas escolhas precisam ser postas em prática, algo para além da justificação. O papel do contexto é crucial, decisivo para Wittgenstein em Investigações Filosóficas.

Seguir uma regra justifica-se, justificações podem ser requeridas até o ponto em que se esgotam e se atinge, então, o solo firme. Não vale como justificação o caso seguinte: alguém pergunta, você sabe dirigir? A pessoa afirma que sabe, mas quando posta à prova, mostra-se inepta, fica evidente que não sabe. A resposta de que sabia não vale como justificação. É preciso certas circunstâncias para justificar que se sabe qual é o caso, que houve compreensão do que está em jogo. Outro exemplo: alguém ser guiado em uma caminhada, as circunstâncias podem variar, é porque não sabe o caminho, é cego, está sendo puxado pela mão. Ao justificar o uso de uma palavra, isso quer dizer que houve ressonância, que o outro entendeu.

§ 486 "Como a palavra 'justificação' é usada? Descreva jogos de linguagem. A partir disso você será capaz de ver a importância de ser justificado" (in Investigações Filosóficas).

Em contraste, Habermas leva a justificação para outro patamar, o da validade dos atos de fala, o valor ilocucionário de comprometimento, de dar razões, de ser arguido e ser capaz de responder com veracidade, de acordo com as normas sociais e com sinceridade. 



Teoria da Ação Comunicativa

Para explicar algo, precisamos ir à realidade providos de regras de significado próprias a um enunciado verdadeiro, com explicações e práticas de justificação guiadas por critérios: coerência, convicções compartilhadas em usos  da linguagem juntamente com nossas ações. A linguagem é usada juntamente com as ações, ação comunicativa é o conceito base para Habermas, nos entendemos e por detrás desse entendimento há um mundo objetivo. 

Nosso modo de vida, com os conceitos de saber e verdade, fornece referências que transcendem a justificação, estas podem falhar. Daí a conexão entre verdade e justificação, com lugar para aquilo que se tem por verdadeiro na prática em realizações bem-sucedidas. O questionamento da verdade, da veracidade e da normatividade deve poder ser justificado por discursos que fornecem certificação para a ação. 

Para Habermas a justificação de um enunciado e a verdade de um enunciado dependem do uso respectivo, enunciados bem justificados podem ser falsificados, por isso a prática da justificação não pode dispensar a verdade, é preciso usar de razões para corrigir, para explicar normas justificáveis.

Assim é possível distinguir entre convencer e persuadir, entre a escolha por meio de razões e usar de influência, entre aprender e ser alvo de doutrinação.

Ao que parece, nos meios de comunicação atuais prevalecem persuasão, influenciação e doutrinação.

Para Wittgenstein bastam os jogos de linguagem, os múltiplos usos sem um critério acima desses usos, prevalecente. Para Habermas há critérios que validam ou não as ações comunicativas, estas diferem das ações estratégicas que visam apenas sucesso.

Que dizer de atos sem nenhuma justificação? Na próxima postagem Camus em "O Estrangeiro" responde.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Wittgenstein's Pragmatic Turn

 

Author: Ines Lacerda Araujo



Wittgenstein’s pragmatic turn

Abstract

The focus on ordinary language represents a new direction in philosophical problems, in the way they are conceived, in the way they transform philosophical perspectives. There are some aspects to be considered that completely changed our perspective of some important philosophical issues, which take a new, a revolutionary direction. We may considerer for instance the criticism of private language, of mind as a hidden process, of reference as central function of propositions. In this paper we will show that new conceptions of knowledge, language and mind that Wittgenstein developed mostly in Philosophical Investigations (Part I and Part II), are responsible for the pragmatic turn. This pragmatic turn transforms the way tradition views the philosophical problem of the subject and consequently of mind, knowledge and reality. No more a Cartesian subject isolated and source of certainty, nor a Kantian subject, transcendental, formal, a priori and universal, but men in their multiple activities. Many central philosophical concepts such as mind, spirit, being, God, the claims for a unique criterion for knowledge and truth – none of these issues is sustainable or make sense if they are supposed to be out of the ordinary life-forms and without the normal use of language-games always in context.



The pragmatic turn has some important characteristics. It assumes that ordinary language has a central if not unique role in knowledge. This very category “knowledge” is dissolved for the mind, the thought or the ideas are not any more considered as the core processes of a core concept, the one of knowledge. This changes the role of the subject and the classic relation between subject/object. As thought is not an abstraction, it depends on language and as logic and its formal operations make sense in normal and daily activities, then there is no knowledge in itself as a general, unique and necessary condition for the so many activities of human praxis. Instead of considering transcendental forms to give access to reality, the attention goes to language-games, used normally to accomplish tasks, that is, an anthropologic conception is preferable to an ontological one.

Other concepts that are modified in Wittgenstein’s new perspective are: reference is not prominent, it is one way among others to describe, to give attention to, to point or distinguish something to someone; reference is not a privileged function of language. Philosophy does not have to solve problems such as what is truth, what is knowledge, what is the final cause of the universe: it has only to dissolve these problems. These considerations point to a post-metaphysical position, philosophy has not a mission, such as having to arrive at the foundation of knowledge nor getting at the final causes of being. Our grammar permits us to think, to talk, to see, to tell stories, to count, to match colors, and so on in multiple activities that follow rules in the language-games. And language is learned, it is a public device that gives condition to the many ways by means of which we live, we have a culture, we have values, we learn, we communicate ideas, intentions, etc., and ultimately, how we make sense of the world.

How things work? This question makes sense. There must be conditions, for sure. With rules for behaving, in our daily use of language, all this being part of our learned and variable praxis, things do not have form/matter fixed; for us, human beings things work as if they were instruments that we take from a toolbox.

But is not thinking a hidden process? How is it possible that we have ideas, thoughts, that we create images just for us? How is it possible that we can calculate in our mind? Are all these processes interior, do they belong to the subject alone?

Wittgenstein’s answer is that we need language that is a kind of behavior. Language is learned in connection with the activities that belong to our life-forms. We use language-games, he explains that “the term ‘language-game’ is meant to bring into prominence the fact that the speaking of language is part of an activity, or of a life-form” (2001, § 23).

Instead of focusing language in the sentence that states facts, whose function is to name an object and describe state of affairs – Wittgenstein specifies different uses of naming and describing things. It is necessary a language-game to use naming as a preparation for a description. The supposition of the metaphysic tradition is that only if we can attribute being or non-being to an element, we can refer to it, we can name it. An element must exist otherwise it would make any sense naming it. Meaning depends upon being that could be a substance, an idea, a form, an essence. These are no more issues to Wittgenstein. He made a turn, a pragmatic turn toward the use of language, meaning is a matter of use. In the case of naming, we have to see the normal uses in normal situations of speech. It is in these situations that it makes sense calling something by a name or referring to something to clarify a doubt, or distinguish an element of another, and so on. There are situations that require naming or referring, for instance to point to a color and name it as “yellow”. “This is yellow”, the teacher says to a child that is in the process of learning the name of colors. If the teacher asks “give the yellow one” so that a child brings him/her a piece of yellow chalk, this is another language-game, another use of the colors. “Our language-game has various possibilities; there is a variety of cases in which we should say that a sign in the game was the name of a square of such-and-such color” (WITTGENSTEIN, 2001, § 53).

That is to say, Wittgenstein leaves behind the epistemology that presupposes things with their permanent essence and identity in one side, and in the other the idea, the name, the concept to which the things correspond. The gaps between reality and mind, between being and essence, between name and object, between thought and signs, between ideas and the manifold things of reality that are said, referred to, designated, etc, all these gaps disappear. So, epistemology needs no more to be the solution to a puzzle: how do we think? How ideas can be in our mind and at the same time be ideas of something out of our mind?

When someone gives an order or makes a request, these are language-games and not sentences that denote a state of affairs; it makes no sense to look for a state of affairs to which the order or the request corresponds to. They have functions within ordinary language uses.

Even a general form for the proposition that he had searched for language (Tractatus Logico-Philosophicus), obtained by means of uniform and universal rules, the key proposition that summarized language and thought – in Philosophical Investigations, Wittgenstein shows that there is no unique phenomenon to call language. The phenomena of language are related in multiple aspects, there is nothing in the bottom that is common to all language-games. There are similarities and differences, in “a complicated network of similarities overlapping and criss-crossing” (2001, § 66), like “family resemblances”. For instance: the uses of knowing and saying, the circumstances that suggest one or the other; the grammar of seeing, describing what one sees is different from see something as we interpret it (the duck/rabbit figure); to see aspects and see something all of a sudden, are different processes.

More complicated is the case of thinking that we suppose to be something mysterious. It is not, when we intend to do something, and the intention is not accomplished, is it different when we accomplish it? To play chess and to learn its rules are different language-games, the same with give an order, make a description; they have meaning for us, in our activities, we have to follow rules, we have to behave in such or such way. There is no private language, we understand a foreign language by means of behavior, gestures; but “there is no regular connection between what they say, the sounds they make, and their actions” (WITTGENSTEIN, 2001, § 207), that is, languages depend on rules of a syntax. But people that speak a foreign language, do they give orders like we do in our own language? How do they give colors a name? How they differentiate them?

Signs have a function, in their use there is a justification, others must understand and respond to signs; whatever we do, or thing, or imagine, these are not interior processes of a hidden mind. They are public, they belong to human behavior. A sensation is identified as such or such, by education we have learned to drive the attention to a feeling. A “soul” can be expressed by a look (pain, distress, joy…). “You learned the concept ‘pain’ when you learned a language”, says Wittgenstein (2001, § 384).

So, thinking, certainty, truth, mind/reality relation, all these concepts that are discussed in metaphysics, in ontology and in epistemology, they have to make sense and this is possible only in our uses of language-games, that is, using the learned rules of ordinary language. We do not need a universe of ideas, pure essences, a priori forms, not even the parallelism between proposition and state of affairs to make sense. All we need is language, ordinary language.

Thought is not a mysterious process that accompanies words, as if the words could not be spoken without being thought. The pragmatic turn points in another direction: if you conceive that thinking is wordless, how can you communicate what you are thinking? “Our criterion for someone’s saying something to himself is what he tells us and the rest of his behavior; and we only say that someone speaks to himself if, in the ordinary sense of the words, he can speak. And we do not say of a parrot; nor of a gramophone” (WITTGENSTEIN, 2001, § 344). What matters is the use of a word and what we can deduce of it.

What do you mean? This question makes sense. How can you calculate? You have learned. The distance between consciousness and brain-process is a problem just in some contexts, like an epistemological difficulty. Look into your mind and into your inner consciousness! This makes sense in a context where someone is asking you to give attention to your purposes, for instance.

To sum up, the pragmatic turn is a new and rich way for philosophy, for it considers action and ordinary language responsible for the way human beings behave, give things a meaning, think, learn, not a subject with a mind, not a knower. Philosophical problems that were supposed to be found a solution for are dissolved. Epistemology is put upside down. Language-games, action, behavior and life-forms are the elements to be taken into consideration.

REFERENCE

WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical Investigations. Translation of G. E. M. Anscombe. Oxford: Blackwell Publishing, 2001.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fernando Pessoa: "Não querer é poder" (última parte)

 Como entender o título acima? "A renúncia é libertação. Não querer é poder". Entendo que Pessoa expressa certo estoicismo, renunciar a um prazer ou a algo que se almeja, fortalece. O que é universal? Para toda alma humana, há o vasto céu, rios que correm, mares, montanhas, campos, as estações, casas, caras, gestos, trajes, amor, guerra, deuses finitos e infinitos, a linguagem comum. Quanto ao particular, Fernando Pessoa exemplifica com a Catedral de Reims é o edifício, do que ele é feito, já o universal são os edifícios dedicados à profundeza da alma humana, à diversidade e variedade dos povos. 

Na afirmação "o universo não é meu: sou eu" (p. 348), o conceito filosófico seria solipsismo, quer dizer, tudo o que existe reduz-se à própria consciência. Mas no caso de Fernando Pessoa, rótulos dificilmente se aplicam. Inclusive porque, ao mesmo tempo que imerso no eu, ele se acha envolvido pelo seu ambiente, sua cidade, suas impressões tanto as sensoriais como as oníricas. 

Depois de algum tempo sem escrever, o ano é 1931, ao questionar sobre a verdade, considera que é preciso recuperar a sensibilidade morta, pois ninguém escapa da "lei fatal de ser como é" (p. 360), mas sem realismo, pois para o realismo o mundo é como uma nação independente mas para o poeta não, estamos imersos no mundo. O mistério do universo é transmutado pela palavra, minha "pátria é a língua portuguesa" (p. 383). Sua moral e sua metafísica são restritas, "não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada" (p. 387). 

Sócrates afirmava que nada sabe, Pessoa retruca "nem saber que nada sabe", registro "consciente da inconsciência em nossas consciências, a metafísica das sombras" (p. 394).

Descrê de intrigas, de política, de diplomacia, de ocultismo. Várias vezes evoca a infância, a perda prematura da mãe, "a vida é o que fazemos dela (...) o que vemos não é o que vemos, senão o que somos" (p. 427). Filósofos como que percorrem as páginas do "Livro do Desassossego". Nos escritos de 1932, surge a pergunta essencial de Descartes e das filosofias da mente, sem mencioná-los: qual a relação entre a massa cinzenta e esta coisa que vê, que pensa, que imagina céus que não existem? 

E que dizer da passagem kafkiana sobre a mosca que pousou em seu tinteiro? Quando ela desapareceu, surgiu o escritório novamente sem filosofia, "ceticismo do inteligível", que mal distingue entre a realidade que existe e o sonho, que é realidade que não existe. Ainda sobre a realidade: o único problema é o da realidade, mas é problema insolúvel. Não sabemos o que somos, sonhamos encolhidos numa região espacial do ser, vale tanto o conforto de um calor como uma verdade eterna: "nada é, tudo coexiste" (p. 482).

Depressivo, ele, entretanto se diz tomado pelo tédio. Tédio, que é o aprisionamento em uma grande cela, nada vale a pena, futilidade da vida, "alma triste até no corpo". 

Os escritos de 1933 e 1934 se tornaram cada vez mais opressivos, pressentimento de sua morte? Ao saber da morte de um atendente na mercearia de sua rua, Pessoa assim se expressa: em torno douram paisagens que ele nunca verá, "amanhã eu também serei o que deixou da passar nestas ruas" (p. 498).

Sim, como todos nós um dia...

Túmulo de Fernando Pessoa 

Entronizado no Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa, nele se lê: "Para ser grande, sê inteiro/ Nada teu exagera ou exclui/Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes/Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive".

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Fernando Pessoa, o ceticismo poético.

 Prossigo com "O Livro do Desassossego ", reflexões de Bernardo Soares, personagem fictício encarnado por Fernando Pessoa, "ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa". Dele o autor emprestou o estilo, mas as ideias, sentimentos, modos de ver e de compreender são suas, pois "na prosa é mais difícil de se outrar" (quer dizer, capacidade de ser outra pessoa). Seus temas são a temporalidade, a vida, o sentido dela e de todas as coisas, o tédio, a contemplação dos dias, e isso a partir de seu quarto ou quando imerso na situação que basicamente é o escritório na rua dos Douradores. A segunda parte da obra começa em 1931 e vai até 1934.



Nas calçadas de Lisboa

Os conceitos pelos quais se luta são abstratos, sem figura, como Liberdade, Humanidade, Felicidade, Futuro da Humanidade, Ciência Social; lutar em guerra é sacrifício estúpido, tanto pobres diabos sem literatura, como os heróis, sedutores, sonhadores e vencedores são todos gente. Fernando Pessoa esmiúça a banalidade que é seu trabalho burocrático de guarda-livros, e como ele, todos têm um chefe, mergulhado nesse ordinário ele aprofunda em direção ao metafísico-existencial e deste retorna ao cotidiano, usual; há os explorados até mesmo por Deus, como os profetas e santos "na vacuidade do mundo" (p. 230). Ele põe em xeque a ideia de inferno que só poderia ter sido inventada por uma alma satânica (p.244).

Pessoa (ou Bernardo Soares) escreve como quem pinta quadros, como na descrição do vaso na janela da vizinha, dos vendedores na quitanda com suas caixas, na mercearia que expõe bananas de um amarelo que reluz. O ordinário se transforma em extraordinário. Como somos vistos de fora? Não há espelho que nos tire de nós mesmos, ao acordar precisa de tempo na "preparação para existir", demora a sensação de estar vivo. Em contraste com filósofos que abordam a existência genericamente, Pessoa se põe a existir, o ambiente vive, como "alma das coisas", ao mesmo tempo em que se distancia, precisa parar para ver claro, analisar é ser estrangeiro, os objetos não são algo à parte, são desestabilizados, inclusive a gramática: "Sou-me, terei dito uma filosofia em duas pequenas palavras" (p. 292).

A metafísica, uma loucura, se conhecêssemos a vida, ela estaria ali. O universo pode ser contemplado sem sair de sua aldeia, ao mesmo tempo é incompreensível, cada coisa a cada momento pode ser considerada de um ou outro modo. Se a vida é um estado mental, só depende de nós darmos valor a ela. Nenhum filósofo soube responder "quem sabe o que é para si mesmo?" (p. 301).

Fernando Pessoa cultivava a literatura, a poesia, a ciência, a filosofia, escreveu poesia em francês e inglês. Não me surpreendi quando ele citou Hegel: o não-ser e o ser não se fundem, se excluem.

O escritor especula se há um plano em tudo, uma razão para tudo, seria ela Deus, no "decurso majestoso de seu ritmo metafísico" (p. 313). O mal existe, o que não implica aceitar a maldade de haver o mal.

Manufaturamos realidades, como a de uma mesa de pinho, mas não é ao pinho que nos sentamos...

Comparações e metáforas surpreendem, imerso em sua rua, em seu escritório, ao ritmo da chuva, "tudo é rua na vida"(p. 325), a noite se fecha como alçapão, a música tem hálito, as palavras abrem os olhos de seu ser, filósofo e poeta a escrevinhar num livro-caixa, o banal lhe basta, a invenção do dia; "para que serve viajar? Qualquer poente é poente; não é mister vê-lo em Constantinopla" ( p.346).

Sim, é possível filosofar na língua portuguesa...

(Na postagem seguinte encerro as observações sobre o poeta-filósofo lisboeta).

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Ser e não ser, o imaginário paradoxal de Fernando Pessoa

 Ser ou não ser, esse dualismo é uma das bases da reflexão filosófica desde os pré-socráticos. Mas que dizer sobre ser e não ser? Não se trata de contradição, contraposição, nem de contrários. Seria ilógico algo ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, Aristóteles o demonstrou.

Não para Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935). O que teria a dizer o poeta com sua arte, a literatura, para nossa vida? Para a Filosofia? Passemos por alguns de seus lances mais incríveis, na prosa que, para dizer o mínimo, é poética.

A Filosofia quando imersa na literatura pode surpreender, o paradoxo pode se apresentar: Fernando Pessoa em "O Livro do Desassossego" (fragmentos escritos entre 1913 e 1935) nos conduz por caminhos impossíveis, para a incrível fragilidade de ele próprio sendo não ser. Explico, se é que o caso pode ser explicitado à luz da lógica e da verossimilhança, por meio de abordagem poético-metafísica. 

 
Livro do Desassossego, São Paulo, Editora Todavia, 3a. reimpressão, 2025.

Em "O Livro do Desassossego" Fernando Pessoa se apresenta enigmático, imprevisível, desperta sensações inauditas, experimentamos ao mesmo tempo o caos e a ordem, metáforas reais, a morte, as impressões calam fundo, expõem nossos limites, um deles é poder viver só o real e conceber só o possível, essa última condição é questionada como que em lamúria: "Nunca aprendi a existir" (p. 80), como seria esse aprendizado? É preciso cultivar a imaginação para implementar os sonhos, uma chuva constante trai "o desassossego na gota a gota" (p. 85). Desassossego que dissolve a personalidade, não querer compreender e nem analisar, olhar para nossas impressões como se fossem campo, isso é sabedoria.

O poeta invoca figuras e situações que vibram e inauguram sentidos, estes abrem "portões do meu afastamento" (p. 96), seu espírito em constante devaneio. Onde fica a realidade, a distinção ser e não ser envereda pelos sonhos, os sonhos requerem paisagens reais, neles a ação é sempre completa, perfeita, o que não acontece na vigília, nela há um perpétuo decorrer, possibilidades cercadas de impossibilidades. 

O que ele escreve lhe parece fútil, falhado e incerto, ele luta interiormente para alcançar a beleza da poesia e nunca alcançá-la. Ao mesmo tempo o leitor é alçado ao poético: " o fumo de chaminés de além de árvores adormeceu com baladas de simplicidade o mistério inquieto de minha alma" (p. 111). As flores da casa de campo que só nele existe, tornam o irreal real. O que me leva a perguntar, como seriam as casas de campo em cada um de nós?

Paradoxal, ser e não ser em luta sem final dialético, somos como que prisioneiros em nossos limites. Pessoa inverte Narciso, o espelho nos desnuda: "O criador do espelho envenenou a alma humana" (p. 131); assim, "já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não podermos extrair beleza da vida" (p. 134), o que eu vejo como um lamento que é apaziguamento.

Somos como que lançados na vida, um pouco como pensam os existencialistas. Mas o poeta vai além: "Como todo estoicismo não passa de um epicurismo severo, desejo, tanto quanto possível, fazer que a minha desgraça me divirta" (p. 141). Criar um pedestal eterno,  viver a vida nos extremos indiferente às causas públicas, atraído pelo oculto, a sensibilidade valendo mais que a inteligência. 

Afinal, o que somos nós? Penso que Pessoa nos leva a repousar ser e não ser em um cálice, em uma ânfora, ao abrigo das vagas.

"Porque hás de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?" (p. 166).

Obs.: "Livro do Desassossego" tem 518 páginas, resta para mim mergulhar nas demais 348.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Por que há tão poucas mulheres filósofas?

 Desde há poucas décadas as discussões em torno a gênero têm se evidenciado. Territórios seriam exclusivamente masculino, exclusivamente feminino? A tendência é diluir a diferença. Sem pretender entrar nessa polêmica, observo que na Filosofia preponderam os homens. São raras as mulheres nesse panteão masculino, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir podem ser elencadas. (Na coleção Os Pensadores há 62 filósofos).

O mesmo não acontece na literatura, na arte, na profissionalização: desde o século 18/19 elas são inúmeras, seu valor incontestável. Muito antes, guerreiras, rainhas, com poder.

A personagem de Coetzee apresentada no post anterior, Magda, especula que devido às mulheres não conseguirem ver o todo, que é a condição para filosofar, o território seria exclusividade masculina.

Acho que não tem a ver com totalidade, isto é, ver apenas o particular não explica serem raras as filósofas. Em que residiria essa disparidade? Precisei filosofar, é claro. Presentes na arte quase ausentes da Filosofia. Nietzsche foi ainda mais longe, mesmo apaixonado por Lou Salomé, desprezou as mulheres, um misógino.

Respirei fundo, criei coragem, pensei em usar o conceito mais abstrato, ir à raiz do filosofar. Essa raiz é a interrogação sobre o ser, como ocorre que tudo é, o ser das coisas difere do simples estar aí presente com suas características acessíveis ao ver, ao tocar, ao interagir.

O ser mesmo das coisas é inteligível para os homens de fora, é-lhes exterior, os filósofos acedem ao Ser despidos de emoção, apenas com a razão, com a especulação, com interrogação, com a dúvida, com a certeza, com a suspeita, com a idealização, com a materialidade, a depender da corrente de pensamento.

Daí me ocorrer a seguinte hipótese, as mulheres sentem, geram, o ser é vivenciado, criado em seu ventre, é parido, nasce, alimentado em seu seio, abrigado, ser que se apresenta, que depende inteiramente de cuidado. As mulheres mães o têm em si, nelas o ser humano floresce. O mundo o acolherá, haverá um processo leve ou duro e sofrido. Mas a origem é a mesma para todos, uma mãe. 


Estátua em igreja da Holanda, anônima, facho na mão. 

Essa criação do ser não é uma contemplação do ser, uma especulação conceitual. Essa creio ser uma diferença inapelável, homens não gestam o ser vivente. Estar aqui e agora para nós mulheres não é o mesmo que posicionar-se diante do mundo das coisas ao modo do conhecimento. Claro que isso pode e é realizado por todo aquele que a isso se dedicar: refletir, especular, conceituar, abstrair, independe de gênero. O ponto em questão, que levanto correndo risco, é que além dessa possibilidade, para as mulheres há essa, de criação, de nelas brotar vida, em seu útero o ser é gestado. Segue-se um processo de total dependência, mesmo após o nascimento.

Isso posto, a crítica é a de que essa hipótese não passa de reducionismo biológico. Mas, como disse, é uma especulação.

A outra ponta dessa questão, a de que há poucas mulheres no panteão da Filosofia, tem raiz histórica e cultural, mulheres na casa, papel feminino de criar e cuidar, dificuldade de acesso à educação, condições que restringem seu tempo. O que não impediu a profissionalização feminina que corre a passos largos, a competência não é uma questão de gênero.

Ainda assim, cabe a pergunta dessa postagem. 

Obs: Nem Hannah Arendt nem Simone de Beauvoir tiveram filhos...