Ser ou não ser, esse dualismo é uma das bases da reflexão filosófica desde os pré-socráticos. Mas que dizer sobre ser e não ser? Não se trata de contradição, contraposição, nem de contrários. Seria ilógico algo ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, Aristóteles o demonstrou.
Não para Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935). O que teria a dizer o poeta com sua arte, a literatura, para nossa vida? Para a Filosofia? Passemos por alguns de seus lances mais incríveis, na prosa que, para dizer o mínimo, é poética.
A Filosofia quando imersa na literatura pode surpreender, o paradoxo pode se apresentar: Fernando Pessoa em "O Livro do Desassossego" (fragmentos escritos entre 1913 e 1935) nos conduz por caminhos impossíveis, para a incrível fragilidade de ele próprio sendo não ser. Explico, se é que o caso pode ser explicitado à luz da lógica e da verossimilhança por meio de abordagem poético-metafísica.
Livro do Desassossego, São Paulo, Editora Todavia, 3a. reimpressão, 2025.
Em "O Livro do Desassossego" Fernando Pessoa se apresenta enigmático, imprevisível, desperta sensações inauditas, experimentamos ao mesmo tempo o caos e a ordem, metáforas reais, a morte, as impressões calam fundo, expõem nossos limites, um deles é poder viver só o real e conceber só o possível, essa última condição é questionada como que em lamúria: "Nunca aprendi a existir" (p. 80), como seria esse aprendizado? É preciso cultivar a imaginação para implementar os sonhos, uma chuva constante trai "o desassossego na gota a gota" (p. 85). Desassossego que dissolve a personalidade, não querer compreender e nem analisar, olhar para nossas impressões como se fossem campo, isso é sabedoria.
O poeta invoca figuras e situações que vibram e inauguram sentidos, estes abrem "portões do meu afastamento" (p. 96), seu espírito em constante devaneio. Onde fica a realidade, a distinção ser e não ser envereda pelos sonhos, os sonhos requerem paisagens reais, neles a ação é sempre completa, perfeita, o que não acontece na vigília, nela há um perpétuo decorrer, possibilidades cercadas de impossibilidades.
O que ele escreve lhe parece fútil, falhado e incerto, ele luta interiormente para alcançar a beleza da poesia e nunca alcançá-la. Ao mesmo tempo o leitor é alçado ao poético: " o fumo de chaminés de além de árvores adormeceu com baladas de simplicidade o mistério inquieto de minha alma" (p. 111). As flores da casa de campo que só nele existe, tornam o irreal real. O que me leva a perguntar, como seriam as casas de campo em cada um de nós?
Paradoxal, ser e não ser em luta sem final dialético, somos como que prisioneiros em nossos limites. Pessoa inverte Narciso, o espelho nos desnuda: "O criador do espelho envenenou a alma humana" (p. 131); assim, "já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não podermos extrair beleza da vida" (p. 134), o que eu vejo como um lamento que é apaziguamento.
Somos como que lançados na vida, um pouco como pensam os existencialistas. Mas o poeta vai além: "Como todo estoicismo não passa de um epicurismo severo, desejo, tanto quanto possível, fazer que a minha desgraça me divirta" (p. 141). Criar um pedestal eterno, viver a vida nos extremos indiferente às causas públicas, atraído pelo oculto, a sensibilidade valendo mais que a inteligência.
Afinal, o que somos nós? Penso que Pessoa nos leva a repousar ser e não ser em um cálice, em uma ânfora, ao abrigo das vagas.
"Porque hás de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?" (p. 166).
Obs.: "Livro do Desassossego" tem 518 páginas, resta para mim mergulhar nas demais 348.
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