sábado, 28 de dezembro de 2024

Exercício de ideias

O corpo exercitado e saudável se tornou lema de grande parte da população que pratica algum tipo de exercício leve ou pesado, com frequência ou esporadicamente.

Que tal experimentar outro tipo de exercício, o exercício de ideias, ideias em movimento, sacudidas, arejadas, confrontadas, postas à prova?

Em geral as noções, os conceitos, o modo de pensar são acomodados na mente em certos lugares dos quais nunca são removidos, nem repensados, prendem as pessoas como se fossem armadilhas. Elas ficam fechadas para o contraditório, ideias e noções adotadas ao longo da existência, são alocadas e empregadas sempre do mesmo modo, acumulam poeira, teias de aranha, ainda assim representam o tipo de pensamento, o modo de entender acontecimentos, são repetidas à exaustão pela pessoa, pelo seu grupo, pelos seus adeptos. Não lhes ocorre experimentar algo novo nem confrontar sua visão de mundo. O outro lado fica sempre oculto, como se não existissem outras perspectivas. Quando sua postura é ameaçada de ser exposta, fecha-se para retornar ao estado de autossatisfação e acomodamento junto às suas certezas absolutas. Certezas que são proclamadas repetidas vezes, metodicamente, se enraízam e se fecham para outras vozes.

Essa dieta unilateral e pobre tem sido o alimento de dois lados opostos no cenário político no Brasil e nos EUA, para citar os casos mais próximos. Os adeptos do atual presidente vestiram a roupagem de salvadores da democracia. Os adeptos do ex-presidente se creem salvadores da moral e da ordem. São duas posturas incomunicáveis, um fosso entre elas é criado pelo radicalismo que barra questionamento, que impede de indagar sobre as bases de seus posicionamentos e assim desmontar ambas as narrativas com argumentos. Esse radicalismo produz uma animosidade que beira o ódio mútuo. Além de serem posturas fechadas, são néscias, tacanhas.

Ora não há um só caminho justo e verdadeiro, é preciso urgentemente considerar uma dieta reflexiva, uma aeróbica de ideias, arejar o modo de pensar e de ser, questionar atitudes e decisões, fundamentar posições e conceitos, interrogar ao invés de engolir palavras de ordem. A acusação tanto de um lado como do outro de que são "narrativas" se autodestrói, narrativas têm que ser criticadas de fora, como disse acima, com argumentos. 

Os dois extremos acabam com a confiança, como confiar se há duas posições opostas que se alimentam reciprocamente? Acrescente-se a isso decisões supremas, questionáveis e que acabam por aguçar o estado atual do radicalismo, cujos frutos são amargos, azedos, indigestos. Por detrás há um culto à personalidade de ambos os chefes, à esquerda e à direita, esquecem que os ídolos têm pés de barro.

Os caminhos nas democracias representativas não são de mão única. E nem há um só caminho que seria o "certo".  Caminhos se bifurcam, ora se aproximam, ora se afastam, mas serão vias confiáveis se conduzirem o país e seus cidadãos à representatividade, à segurança, à abertura de posições. As vozes devem e podem ser múltiplas e diversas, desde que, como apontou Habermas*, recobertas pelo manto da razão, pela unidade da razão. Alguma luz é possível.



A linguagem comunicativa é capaz de coordenar a ação.


*Filósofo alemão, com 95 anos, propõe o diálogo entre os diferentes coordenado por argumentos sujeitos à prova, ao contraditório. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Injuriar e blasfemar no sentido religioso.

A Síria está livre de um ditador sanguinário. Estará livre da ortodoxia religiosa?

Religião significa atar com o mais alto, ligar, religar. Entretanto, há milênios a crença religiosa obriga, impõe, castiga, queima na fogueira, condena ao fogo eterno, estipula o que vestir, o que dizer, o que pensar. Pecados devem ser confessados, e muito mais radical, caluniar, injuriar e blasfemar merecem castigo, punição, prisão para certas seitas e linhas da ortodoxia em países controlados por chefes que governam e impõem crença, a exemplo do Irã e de países árabes. A religião nesses casos de extremismo, sai do círculo de crenças e dogmas, e entra no terreno político. Poder político e poder religioso se mesclam em uma combinação fatal para todos os chamados infiéis. Infiel é todo aquele que não professa o mesmo credo. 

O que é blasfemar? Podem ser apenas comentários veiculados na imprensa, ou mesmo em conversas para que sejam considerados blasfêmias, ofensas graves ao líder espiritual, aos preceitos, às regras, tudo o que pode ir contra a visão daquela crença, daquela seita. Obrigar ao uso do véu para as mulheres, impedir que meninas vão à escola, relegar a mulher a ser pecaminoso, caluniar, injuriar profetas e líderes pode levar a perseguição e condenação. 

Essa rigidez, essa violência, essa violação à liberdade de crença e de pensamento, conduz à barbárie, ao medo, à perseguição, à prisão, à tortura e mesmo à morte. 

Ora, a religião é produto humano, proveio da história dos homens desde o totemismo primitivo, o culto aos deuses e mitos na Grécia antiga, até o radicalismo atual. Ou como entende Schopenhauer, "o espírito humano não contente com as preocupações, ansiedades e cuidados que lhe são impostos pelo mundo real, criou ainda para si um mundo imaginário na figura de milhares de superstições (...). Demônios, deuses e santos são criados pelos homens segundo sua própria imagem e semelhança. A eles são oferecidos incessantemente sacrifícios, preces, decorações de templos, promessas e seu cumprimento, peregrinações, homenagens, adornos, etc." (O mundo como vontade e representação, p. 415). 

Como essa é uma análise filosófica, seu efeito se limita à própria reflexão filosófica, infelizmente. A realidade mostra que há um tipo de poder avassalador que arrebanha e arregimenta milhões de fiéis motivados e inspirados por crença. Para algumas dessas crenças isto se faz com medidas severas, com doutrinação, com obrigações, com castigo e perseguição. Em contrapartida, há outras crenças para as quais a religião representa opção de vida com adesão que não requer doutrinamento e nem punição. Basta-lhes a fé interior, a abertura da alma, a espiritualidade que respira e inspira. Ninguém é castigado por blasfêmia, os cultos e o livro sagrado se abrem para encontros, para caminhos de respeito. São religiões que não obrigam à exteriorização em véus, trajes, perucas, saias, até meias. 

Nas religiões radicais é preciso se submeter a vestes fechadas da cabeça aos pés como no islamismo, a perucas no judaísmo ultra ortodoxo; as crianças são obrigadas a decorar o Corão nas Madrassas, assim chamadas escolas de doutrinação em países como o Paquistão e Afeganistão, este novamente dominado pelo Talibã que proíbe a educação de meninas! 



Proibidas de frequentar escolas, as meninas são obrigadas a decorar o Corão

A quantidade de seitas e ramificações de um mesmo credo que se odeiam, que se perseguem em que uma pretende ser a única aceita, verdadeira, sunitas contra xiitas, mostra o absurdo e a contradição interna que as opõem mutuamente por divergirem em detalhes. Quem profetizou, o que profetizou. Pentecostais apregoam que o fim do mundo está próximo, a raça humana será varrida da face da Terra. Profecias, crença por meio de doutrinação, condenação por calunia e injúria não deveriam prevalecer sobre aquele sentido mais profundo, a fé mais sincera e benfazeja, aquela que pode beneficiar e agregar, aquela em que a ajuda humanitária importa mais do que a obrigação às regras estritas. 

Em lugar de calúnia, caridade; em lugar de blasfêmia, compreensão; em lugar de castigo, perdão; em lugar de pecado, concórdia; em lugar de condenação, redenção.

***

PS: tendo concluído três pesquisas a que me propusera após encerrar a vida acadêmica, o olhar se voltou para a obra de Schopenhauer citada nesta postagem, tradução de Jair Barboza, um legado para a filosofia e seus estudiosos

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

O paradoxo ético

 A famosa frase de Rousseau, "o homem nasce livre, mas em toda parte se encontra a ferros", diz respeito à sociedade, suas regras, suas leis e seu cumprimento, e também à submissão a um poder tirânico, guerras, morticínio. 

Seria interessante levar essa consideração para o terreno da ética. Somos livres, temos livre arbítrio, capacidade de decisão, nos consideramos acima do reino animal justamente devido à capacidade de escolha e autonomia. Ao mesmo tempo somos obrigados a obedecer às regras e princípios éticos. Como entender essa relação entre ser livre e, ao mesmo tempo não ser livre quando se trata de fazer o bem, cumprir obrigações, considerar o outro como seu semelhante? Se não há obrigações e deveres, passa-se por cima dos outros, ironiza-se quem é "bonzinho", como entender esse dilema, esse paradoxo?

O comportamento pessoal e aqui excluo o lado social e político, geralmente é o da indiferença, agir às escondidas ("ninguém está vendo"), ou apenas se e quando há proibição explícita, pelo medo da punição. O medo de ser descoberto, de ser ver ameaçado, esses são em geral os empecilhos, a que podemos chamar de ferros morais, ser instado e agir sob algum tipo de comando. Mas, isso não seria contradizer a ética?

Em outras palavras, como seria a vida ética livre, autônoma, como viver eticamente sem que isso seja uma obrigação?

Cultivar o caráter, caráter implica em ser firme, as decisões são tomadas com responsabilidade, a forte constituição pessoal como fruto da educação e dos próprios esforços. A livre tomada de decisões, a liberdade de escolha, seguir princípios, nunca decorre de obrigação, imposição ou ameaça.

Nesse caminho ético é preciso esforço que não tem como finalidade prêmio, aplauso, porque não é barganhado. Albert Camus deu sua versão para o mito de Sísifo, que desafiou os deuses, e estes o condenaram a erguer uma pedra até o alto da montanha, repetidamente. Tarefa sem sentido, castigo que não cessa. Na versão de Camus, mesmo condenados à tarefa fatigante e sem fim, podemos "enganar" os deuses e nos dedicarmos à labuta, cientes de que somos sujeitos a ela, porém não sujeitados, que a aceitamos sem pesar, que subimos e descemos montanhas com fardos pesados.



No fim, o que importa são os juízos que fazemos sobre nós mesmos. Exigir demais, cansa, sucumbimos; se relaxados e fracos, advém a insatisfação. Melhor o caminho do meio, nem enaltecimento, nem desprezo. O esforço ético, o esforço do caráter não precisa nem de céu para bem aventurados e nem de inferno para condenados.


domingo, 24 de novembro de 2024

Imanente e transcendente

Imanência e transcendência se opõem enquanto conceitos filosóficos. 

O que é imanente? A primeira imagem que ocorre é o de estar à mão, disponível, acessível imediatamente. Um exemplo clássico de filosofia da imanência é a de Schopenhauer (1788-1860). O que se conhece é o mundo efetivo, que é mutável, inesgotável, multifacetado. Esse modo de conceber se opõe às metafísicas do infinito, da busca do que está para além dos sentidos, do que é absolutamente em si mesmo e como que paira acima de tudo, causa de tudo. 

Por isso mesmo as filosofias da imanência rejeitam o historicismo, a concepção de que tudo muda, de que a história e tudo está em vir a ser permanente, de que a roda não para de girar, de que esse movimento é sem fim, como é o caso de Hegel.

Ao contrário, o filósofo imanente não se interessa por questões da origem primeira de todas as coisas, de onde e para onde todo ser veio, e a que se destina, de que o ser é condicionado a um fim. Os filósofos da imanência discordam de que tudo na natureza e no mundo tem uma explicação, que só se pode compreender por meio do conhecimento das causas.

Somos assim, e tudo está assim, como que assentado em seu próprio invólucro, e este se basta, se abre e realiza suas potencialidades, seu ser desse modo e é por meio desse mesmo modo que ele se apresenta. Encontra-se plenitude e satisfação na contemplação e na intuição, na fruição do objeto, na vontade inteiramente imersa nas coisas, no aqui e no agora. É-se enlevado e absorvido, a ponto de o querer, a vontade se deterem no presente. 

Um exemplo: a instantaneidade pode ser captada imediatamente pelo celular, multiplicação de selfies. E isso serve provar que se está ali naquela situação. O problema é que este afã pela autoimagem impede de olhar em volta, perde-se essa imersão no que encanta de uma paisagem. Imanência seria, neste caso, absorção pela luz, pela movimento das águas, pelos ruídos da natureza, o farfalhar das árvores; estar ali em vez de focar em si. O fotógrafo e o artista não indagam a causa, eles captam e contemplam.



Foto FBL por do sol Agudos do Sul

Quanto à transcendência (não confundir com transcendental, que é sempre racional, formal, necessário e a priori), o mundo que se conhece e no qual se vive, não é a verdadeira, suprema e efetiva realidade. O mundo imanente engana, o mundo transcendente vai além do sensível, o que se conhece verdadeiramente é o que não se vê e nem se toca, apenas é intuído por meio de conceitos, de ideias, e são estes que tornam a realidade percebida ser o que ela é mesmo, sua causa e sua finalidade. Nem a causa e nem a finalidade estão presentes no aqui e no agora, mas são elas a verdadeira realidade por detrás desse mundo que nos cerca. 

Como o mundo sensível é mutável, e o que é mutável é incognoscível, quer dizer, ora é ora não é, para conhecê-lo deve haver um meio, algo através do que o mutável se estabiliza, a causa. Por exemplo, as quatro causas de Aristóteles: causa formal (sem ela algo não é identificável), causa material (sem ela nada possuiria substrato), causa final (tudo tem um fim, um uso determinado), causa eficiente (a ação que determina um ser como tal). 

E como tudo veio a ser? Por meio de uma causa poderosa, autossuficiente, que a tudo gera, o criador de tudo. O que transcende a tudo? Deus. 

Deus imanente seria impossível.

domingo, 17 de novembro de 2024

O preço da civilização

 

Para concluir esse passeio pela obra de Freud, "Mal-Estar na Civilização", (Kultur) ou na "Cultura" , como se traduziu para o português, a visão do psicanalista é pessimista. Houve evolução no domínio da natureza, mais belos parques, asseio, ordem, criações do espírito humano. Mas, a justiça e o direito sacrificam os indivíduos em nome do todo. Os instintos e as pulsões são sublimados nas atividades mais elevadas, ciência, arte, ideologia, quer dizer, a civilização cobra o preço da renúncia aos prazeres, reprime, sublima e recalca. 

Evoluímos desde as sociedades primitivas, cabe ao homem o trabalho, à mulher cuidar das crianças, a satisfação com o amor genital, que se tornou central, levou a uma concepção ética de amor universal e sendo universal é injusto por não permitir escolha e, além disso nem todos os seres humanos são dignos de serem amados. A família conjugal restringe o amor e a vida sexual, e cada vez mais a esfera cultural se impõe com tabus, leis e costumes. Restrições impostas pela civilização que legitimam o amor heterossexual em prejuízo do prazer. Amor ao próximo? O próximo muitas vezes não é digno de amor, mas de hostilidade, sem o mínimo de afeição e consideração. O instinto de agressividade leva a "infligir sofrimento ao outro, martirizar e matar". No ano em que Freud afirmou isso, o mundo já conhecera o morticínio da 1a. Guerra Mundial. O postulado comunista de que a fonte de todo mal reside na propriedade privada, e de que o trabalho seria plenamente satisfatório, parece a ele "uma ilusão sem nenhuma consistência".


A grande fome na URSS (Holodomor)

E mais, intolerância, antissemitismo, a realização do sonho germânico de supremacia mundial, o comunismo soviético e seu pressuposto de eliminar a burguesia, todos esses pesados sacrifícios mostram que a civilização não nos torna melhores nem mais felizes. Quanto às sociedades de massa, elas nos beneficiam ou ameaçam?

O princípio de prazer conserva o eu que vence com alto custo, o da luta do narcisismo contra a libido dirigida ao objeto. A pulsão agressiva pode se voltar contra o eu, masoquismo, ou sadismo que é a destruição do outro. Bondade divina juntamente com a ameaça do mal.

O entrave mais poderoso da civilização é o instinto primitivo de agressividade. Eros reuniu indivíduos, tribos, nações, a própria humanidade, "mas a pulsão agressiva natural aos homens, a hostilidade de um contra todos e de todos contra um, se opõem a este programa da civilização".

As exigências morais, a angústia, a autopunição, essa espécie de autoridade interior da consciência leva ao sentimento de culpa. O Eu infantil submetido à agressão do Pai, a criança se vinga dessa agressividade, nascem a consciência e forma-se o Super Ego. 

Quanto mais civilização, maior o sentimento de culpa e a perda da felicidade. O indivíduo busca realizações, mas a sociedade o restringe. O Super Ego individual, se defronta com o Super Ego da civilização com seus ideais e obrigações, essas exigências resultam em neuroses. Revolucionários ou conformistas, ambos pretendem sustentar suas ilusões. 

Freud afirma que não é profeta e nem consolador. Se ele pretendesse a um ou a outro desses papéis, estaria se contradizendo. Do ponto de vista psicanalítico, não há escapatória: Eros imortal em luta contra seu adversário, também ele imortal.

***

Nessa luta de gigantes, vamos nos "virando", por assim dizer. 

PS: outros gênios da arte, da ciência, da filosofia interpretam nossa trajetória de forma diferente. Há que dar lugar em nossa "estante" para eles também...

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A felicidade segundo Freud

Na postagem anterior a felicidade se mostrou impossível. Apesar disso, ela é almejada como se lê em Freud, O Mal Estar na Civilização (1929). Freud não pretende provar nada e sim apontar para aspectos psicanalíticos, é claro. O sentimento do Eu tem limites precisos, se prolonga no Si, quer dizer, o Eu se altera com relação ao mundo ao sair do seio materno e pela primeira vez entrar no mundo, princípio de realidade, do qual é preciso se defender; para tal o Eu exclui o exterior. Esses elementos da vida psíquica se conservam.


Sigmund Freud,1856-1930, médico neurologista, pai da psicanálise

Os sentimentos religiosos são necessidades poderosas, remetem à nostalgia do pai, sua proteção, sentimento infantil de dependência. A vida é pesada e dura, cheia de obrigações, daí a busca por sedativos que são a diversão, satisfação com drogas e outros meios que nos tornam insensíveis. Qual a finalidade da vida? Acima de tudo a finalidade é buscar a felicidade, as fontes de prazer, o que Freud chamou de "Princípio de Prazer", evitar a dor, obter satisfação plena. A religião é uma dessas fontes. 

Porém, a infelicidade vem do que é inevitável, a decadência do corpo, a pressão de forças externas e as relações com os outros. Com que meios reagir? Mergulha-se no prazer, foge-se da realidade, usa-se alguma droga. Para evitar as preocupações, o fardo da realidade, busca-se refúgio num mundo à parte que possa dar melhores condições para a sensibilidade, usar defesas como praticar ioga, sublimar os instintos, por meio da arte, resolver um problema científico, descobrir verdade, e o mais eficiente, trabalhar. O trabalho funciona na "economia da libido", é também uma questão obviamente de sobrevivência que agrada a uns e que para muitos não passa de obrigação.

No esforço para obter felicidade e fugir da infelicidade, em outro contexto, o amor, amar e ser amado, retorno ao prazer infantil. O problema são as decepções. Outra via é a beleza, mas a satisfação pela arte é passageira. Freud entende que a psicanálise pouco tem a dizer sobre a beleza. 

Restam quatro tipos de inclinação, ou melhor, sublimação dos instintos: o erótico, o narcisista, o homem de ação e a fuga pela neurose ou psicose. Já deformar a realidade como se fosse um sonho, papel da religiões, deformação quimérica da realidade, é um delírio, menos para os que creem. Em todas aquelas inclinações, a religião interfere ao impor um só caminho, o da imunidade ao sofrimento, a submissão às exigências da crença que serve como último e único consolo e alegria.

E a civilização? As instituições que poderiam nos trazer proteção e realização, não trazem e pior, foram nós mesmos que as instituímos. A civilização está na origem das neuroses. Os domínios técnico e científico como fontes de prazer ou satisfação, não nos tornam mais felizes.

Por quais razões? Fica para a próxima postagem.

sábado, 2 de novembro de 2024

"A felicidade não se compra" - ditado popular.

O ditado acima pode também ser interpretado como, "o dinheiro não traz felicidade". Ambos os ditados saíram de moda. 

No mundo corporativo pode-se entender felicidade como algo que pode ser posto no balcão de negócios. Há até mesmo congresso de felicidade, com palestrantes de amplo alcance, benzedeira/rezadeira; curandeiro; comunicadores; psicanalistas; professor de música; profissionais de clínica mental. Impressiona o leque de especialistas capazes de aconselhar e atender a expectativa do vasto público presente. A intenção evidente é obter resultados, resultados que contrariam o ditado popular de que dinheiro não traz felicidade. Não que a falta dele de algum modo tivesse o efeito contrário. Pobreza não é infelicidade, pobreza é sofrimento, desgraça. 

Felicidade no mundo dos negócios é felicidade corporativa. Essa felicidade é vista como impulsionadora de cultura e de resultados, como se lê no chamamento de palestrante financiado pela Heineken do Brasil. 

Que tipo de felicidade, então, o dinheiro, ou melhor, os investimentos produtivos impulsionam? Os negócios. Mesmo porque, sem patrocínio, seria inviável convidar tantos palestrantes.

Isto posto, sem pretender de forma alguma que iniciativas como esta, de um congresso de felicidade, não devam ou não precisem ser patrocinadas. Uma coisa leva à outra. Não se está aqui criticando o capitalismo como selvagem, ceifador, destruidor, malévolo. Em termos de economia, emprego, bem-estar, ao mesmo tempo, luta por trabalho digno e sobrevivência, age o mercado que segue demandas e, é até certo ponto controlável por governos sérios e responsáveis.

Tudo muda quando se olha por outro prisma, simplesmente a vida das pessoas, seus valores e sentimentos, projetos e necessidades.  

Quem sai para trabalhar ainda de madrugada, de ônibus, muitas vezes lotados, trabalha oito horas e volta cansado/a, dinheiro é apenas questão de sobrevivência.

Para a maioria dos filósofos, a busca da felicidade é uma farsa, um engano, uma ilusão. A vida não conduz à supressão dos desejos, e nem permite suprimir os impulsos, impossível anular os anseios e a vontade, vontade disso ou daquilo. O não ter algo, o não ser algo que se quis, que se quer ou que se desejaria ser ou ter. Impulsos nos movem, os motivos ficam trancafiados em caixas, por vezes são tantos e tão díspares que é preciso um container. Nossos sótãos e porões se enchem com dúvidas, incertezas, surpresas, realizações e frustrações que são acomodadas nos espaços apertados desses sótãos e porões.

Para trazer tudo isso à tona, para evidenciar que não poderia ser de outro modo, que é preciso aceitar isso ou aquilo, sofre-se verdadeiros abalos emocionais. Paixões, medos, desejos nos curvam. Sucumbir ou superar, negar ou aceitar, absorver e saber lidar, são percursos que aliviam. Mas não trazem felicidade.

Como entender que alguém levante e se arrume para o serviço, tome um ônibus, cochile ao lado do colega de trabalho, no caminho seja atingido por um tiro na cabeça?

Os filósofos que pensam a existência humana como luta e sofrimento, chamados de pessimistas, olhariam para o crime organizado, para Gaza, para a Ucrânia, para ruas com carros amontoados em meio a um lamaçal, diriam ironicamente, cadê a tal felicidade? 


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Os perigos do conservadorismo

 Está em alta pessoas e personalidades dizerem alto e bom som: "sou conservador", "sou conservadora".

Ao enaltecerem esse conceito, que é tanto político, como moral e ideológico, dão demonstração de que elas, e apenas elas, estão do lado certo, do que é direito e do que deve ser seguido, cegamente.

Esse é o problema principal desta postura, considerar que não há verdade, nem bem, nem consideração pelo que outras posições preconizam. Há um só e verdadeiro lado, este que eu vos anuncio. E entram aí temas e questões sociais, pessoais, de credo religioso, de partido político, tais como ser favorável à vida, educar para saber empreender, como se essas bandeiras fossem sagradas, ou melhor sacramentadas. Alguém é favorável à morte?!

A falta de visão do todo de uma sociedade, de seus recursos, de seu funcionamento político e jurídico, tem a intenção nunca confessada, de arrebanhar, quer dizer, de colocar as pessoas dentro de um círculo mágico de redenção de todos os pecados, como se discursassem de um púlpito e estivessem trazendo a boa nova.

Esse modo de driblar as consciências, de influenciar, precisa dispor todos como que em bando, pois apenas quando em bando as pessoas seguem seu líder. Algo próximo à doutrinação, se um lado for o detentor da verdade iluminada, isso coloca todos outros como sujeitos ao gueto, à sarjeta, o que fica evidente no tom de bravata com que anunciam as suas "verdades". Isso é o conservadorismo.

O conservadorismo, portanto, é muito diferente, por exemplo, de um partido político atuante no parlamento inglês, em que liberais e conservadores se defrontam e se sucedem no poder, sem precisar colocar o seu adversário no lado "errado". Ora, é isso o que o conservadorismo precisa para se impor, entender que os outros são sempre falhos.

Em sociedades multifacetadas, a representação é igualmente multifacetada. Há um nome para isso, democracia, ouvir todas as vozes o que só é possível em regimes democráticos, cuja constituição elaborada por parlamentares é o guia, o farol que os próprios responsáveis não podem e nem deveriam poder ofuscar.

Posar de santo ou santa, considerar que pautas de um conservadorismo tacanho, ainda assim perigoso, pode prevalecer, ou melhor, segundo esses conservadores, deve prevalecer, é o mesmo que entronizar nas democracias o fanatismo. O tom profético fala por si, o sorriso benfazejo disfarça o fim doutrinador.

Isso é exagero? Lições da história mostram que não: nazismo, fascismo, comunismo, terrorismo, e, muitas vezes sem a violência explícita, por meio de doutrinação. Venha de que lado vier, a doutrinação prepara o futuro ideólogo e perpetrador.



Menino soldado

domingo, 13 de outubro de 2024

O que é cinismo?

O termo "cinismo" tem origem grega, se refere à forma adjetiva de cão  (Kynismus), comportar-se como cão não significava algo ruim, pejorativo e sim vida simples, desprendimento de poder e de riqueza. No sentido usado comumente e que é pejorativo, "cinismo" significa pessoa despudorada, que ofende a moral, com falta de vergonha, alguém descarado. Enfim, nada nobre, nada enaltecedor. Como os cínicos desprezavam a seriedade e a responsabilidade, foram essas características as responsáveis pelo sentido negativo do termo.

Muito ao contrário,  no sentido antigo da escola filosófica, o cinismo do século 4o. a.C. era um modo de vida. O cinismo não legou escritos, seu modo de ser e de pensar foi enaltecido principalmente pelos filósofos estoicos. O representante principal da escola cínica foi Diógenes, que vivia totalmente desprendido de riqueza, de honra, de aparência, nada de bens materiais, uma vida mendicante, até mesmo a nudez era uma maneira de manifestar seu modo de vida anticonvencional. O comportamento deveria mostrar por si só o que ele pregava e como agia de acordo com o que pensava.


Diógenes nu em seu barril, com a lamparina à procura de um homem honesto.

A escola perdurou até o século 3o. a. C., perdeu força e se reavivou no início de nossa era, apesar de em Roma ser considerada pouco adequada. O representante principal no século 1o. foi Demétrio e no século 3o. Peregrino. O cinismo influenciou o estoicismo e foi exemplo para o modo de vida monástico, totalmente desprendido, com renúncia à riqueza e bens materiais. O objetivo do cinismo era pedagógico, servir como modelo para educar os jovens. Na política defendiam 
a igualdade social, o retorno à natureza e o cosmopolitismo, quer dizer, o mundo é um só para todos que nele habitam. 

Mais do que uma escola filosófica, o cinismo era uma atitude de vida, vida desprendida, com desprezo pelas convenções sociais. As atitudes firmes seriam benéficas em épocas de crise para conseguir se manter em meio às adversidades, não desesperar-se. O que poderia ser alcançado tanto por uma vida ascética como por uma vida de prazeres, hedonista, aproveitar o aqui e o agora, pura e simplesmente. Essas atitudes poderiam servir de exemplo para enfrentar crises, em um sentido moral.

Como assim, moral? Vida crua, exibindo-se nu, passando frio, vivendo de esmolas como Diógenes?

Que moral seria essa? Alguns podem pensar ser justamente um comportamento imoral. Ora, atentem para os termos "comportamento" e "imoral". Não havia essa noção de comportar-se, seguir as regras da sociedade, muito menos imoral, um adjetivo que antecipa juízos para se referir a algo supostamente condenável. O cinismo visava a crítica dos que cuidavam da aparência, mas que no fundo são hipócritas. Desnudar-se era simbólico, ao mesmo tempo que exibir o total despojamento levaria a refletir sobre os valores que nos movem. Hoje, perguntar quais valores nos movem sem uma referência como a de Diógenes nu em seu barril, não passa de pura especulação. 

O cinismo, então, levaria a uma reflexão, o que nos move? A aparência, no caso de Diógenes, exporia a essência de uma forma de vida, exemplar. Na situação atual a essência é muitas vezes o que mostramos, como aparecemos para os outros, isso é o que mais importa.

domingo, 6 de outubro de 2024

Filosofia e Inteligência Artificial

 A inteligência artificial modificou nosso modo de comunicar, interagir, pesquisar, produzir, diagnosticar e prevenir doenças. Verdadeira revolução possibilitada pelo uso de bilhões de dados combinados entre si com resultados extraordinários, assustadores e sem volta atrás. 


Programada para calcular, pode resolver todo tipo de questões?

Algumas dúvidas e questionamentos são inevitáveis: a IA vai substituir pessoas? Em quais setores e atividades? Nosso modo de pensar, de raciocinar será conduzido pelas máquinas inteligentes? Quem tomará decisões e em quais setores? Haverá meios de evitar que valores humanos sejam relegados a segundo plano e que nos deixemos guiar por soluções algorítmicas?

Na hipótese de uma máquina alimentada com as ideias de filósofos clássicos, o resultado será uma nova vertente, um novo "filósofo"? Se isso for possível, qual a importância e o crédito que essa doutrina receberia? Essa nova corrente permitiria inferir reflexões plausíveis a ponto de serem publicadas e supostamente transmitidas? Neste ponto tem-se que parar e concluir pelo absurdo dessas suposições.

Arte, filosofia, literatura, poesia, mesmo com suficientes e acertadas informações, resultariam em algum tipo de pensamento filosófico, um romance com enredo arrebatador, poesia com fluxo estético? Creio que não.

Aos pedidos para um robô desses super inteligentes para elaborar um poema sobre a tristeza ou sobre a alegria, sobre a beleza, sobre o carinho materno, sobre o coração iluminado por uma súbita revelação, teríamos algo satisfatório? Aos programadores da IA esse tipo de questionamento poderia ser considerado e resultaria em algo interessante, mas seria perda de tempo, pois não são esses os objetivos visados por eles. Programar visa buscar soluções, resolver problemas. 

Imaginação, criatividade, reflexão, criação de ideias, questionamento de valores, são características de nossa humanidade, quer dizer, próprias da condição humana que não se resume em soluções inteligentes. Até mesmo para planejar e construir, inclusive as próprias máquinas com seus bilhões de dados, são necessárias a experiência, a formação e a engenhosidade. Um arquiteto é insubstituível. A mão do homem, sua inteligência e criatividade permanecem com seus múltiplos usos, significados, gestos, apelos. 

Essas são reflexões filosóficas, sim pois filosofar une pontos dispersos, mostra caminhos, permite visualizar o todo, entender o sentido da vida (ou não), as peculiaridades históricas e culturais, lançar um olhar sobre o burburinho de bilhões de pessoas em sua fantástica diversidade. Um polo de alta tecnologia de um lado, um povoado isolado numa floresta, de outro; conflitos, divergências, violência, guerras absurdas e ao mesmo tempo inevitáveis de um lado, de outro os meios para obter tranquilidade e segurança. Permeando tudo isso, o poder em seus vários espectros.

O quadro multifacetado da existência até pode servir para alimentar a IA. Mas nunca para compreender, avaliar, dar sentido a essa existência.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

"Décadence sans Élégance"

 A expressão do título deveria ser decadência com elegância, é usada para se referir à decoração que apresenta estilo fora de moda, mas que atrai o olhar. É também conhecida a canção de Lobão sobre pessoas fúteis, em declínio moral, e que ainda assim, conservam certo charme.  Como seria sem elegância? 

A mais famosa filósofa brasileira, Marilena Chauí, em recente entrevista produziu celeuma, aplauso de uns, indignação de outros. Afirmou que para seu livro sobre o nascimento da Filosofia Cristã, proclamado por ela mesma como livro anticristão, não consultou nenhum autor cristão, pois eles fazem apologia do cristianismo. Seguindo essa "lógica ", nenhum marxista deveria pesquisar sobre Marx.

Em recente palestra (13 de agosto), Chauí afirmou que sente agonia quando um motorista do Uber lhe diz, "fica com Deus", e se desespera com a "irradiação" do cristianismo na sociedade. 

A teoria do Big Bang, a que ela se referiu como única explicação, e espero que não intencionalmente, como Bang Bang, excluiria e condenaria o que diz a crença religiosa cristã, de que Deus é o criador.


A grande explosão, uma teoria.

Ora, essa é uma lamentável confusão ideológica, histórica, cultural e filosófica. A ciência comprova por meio de verificação, hipóteses e teorias. Ptolomeu, Copérnico, Galileu, Heisenberg, Einstein expuseram e comprovaram suas teses,  paradigmas foram rejeitados e o atual paradigma está aberto para verificação ou falseamento.

Ao passo que religiões são questão de crença e não de comprovação. O cristianismo surgiu como movimento cultural ali pelo século 2/3 de nossa era, justamente, era cristã. A doutrina, os dogmas, ensinamentos, obrigações e deveres foram transmitidos pelos padres da igreja, por conventos, instituições doutrinais, movimentos católicos, protestantes, criação de universidades.

Regimes autoritários perseguiram e perseguem religiões. Não é o caso do Brasil nem de país algum onde há liberdade de culto. Liberdade de culto e pesquisa científica não são excludentes. Um cientista pode pesquisar, avançar em seus estudos, sem precisar abrir mão de suas crenças. 

Há autores cristãos como Étienne Gilson, com importantes estudos sobre Santo Agostinho,  Santo Tomás, São Boaventura, para citar alguns expoentes da filosofia cristã. 

Impossível negar a importância do cristianismo em toda a cultura Ocidental. Michel Foucault, um ateu, diagnosticou a herança profunda de noções que formam nosso ethos, como alma, pecado, confissão, queda, redenção, salvação, em obra publicada postumamente Confissões da Carne.                 

"Decadência sem Elegância" de uma filósofa que menospreza toda uma cultura. O ateísmo é uma postura filosófica, coerente. Mas o anticristianismo é uma postura ideológica, decadente, obscura, sem charme. 

O motorista do Uber que desejou "Fique com Deus" demonstrou respeito, educação e benevolência.


domingo, 15 de setembro de 2024

Governar com sabedoria

É possível comunicar certa ideia, certa noção, certa mensagem com o mesmo teor, mas com diferentes palavras?

Sim, essa é a magia da linguagem. É o que tentarei nesta postagem, a mensagem é exatamente a mesma da postagem anterior, mas com diferente nomenclatura, para evitar que seja "removida".

***

Vivemos em um momento de nossa história marcado  por divisão, criminalizou-se a opinião, foram criados centros que integram o combate à desinformação, a todo conteúdo que possa representar ameaça à democracia. Cuspir no chão ameaça a democracia?!

Nas democracias, a circulação livre de ideias e a tomada de posição, são sustentáculos. Em regimes autenticamente democráticos é assegurado o direito de divulgar fatos ou ações com a garantia constitucional de que possam ser analisados e abertos para a crítica e o contraditório, divulgados, seja pela imprensa, seja por redes sociais. Esse é o modo justo, sempre poder criticar, debater e conferir. Nunca banir, nem ameaçar com censura, ou censurar de fato, exigir pagamento de multa, ser banido e proibido de atuar, retirado de circulação, proibido de divulgar mensagens. O legítimo é sempre conferir, julgar com isenção, com abertura para o contraditório, ouvir as vozes de todos os envolvidos. Ora, um dos "critérios" usados nos procedimentos dos órgãos superiores é o da "gravidade", se o delito é grave ou não, a "gravidade" fica a critério do julgador. 

Essa situação faz lembrar de "O Grande Irmão", personagem icônico de George Orwell na obra de ficção "1984" publicada no longínquo ano de 1949, e que permanece atual. Para quem prefere filme à livro, "1984" está disponível no Prime, mostra o Grande Irmão em constante vigilância, nas telas aparece a mensagem/ameaça: "O Grande Irmão está te observando". Ele tem poder de banir e censurar.




Mas a censura local não prejudicou certo projeto de certo mentor, aquele trilionário, sabem qual? Não fez nem cócegas em seus projetos e recursos de alta tecnologia. Isso ficou demonstrado pelo acontecimento impressionante que se deu nesta semana (10- 14 de setembro de 2024), o retorno da SpaceX da Polaris Dawn depois de 5 dias em órbita, em missão histórica com dois tripulantes leigos em um primeiro passeio espacial particular, comercial. A Nasa disse que essa missão representou "um gigantesco salto adiante para a indústria espacial comercial" (cf. BBC). Não é segredo quem está por detrás deste empreendimento, que satélites são usados para a comunicação, qual plataforma divulgou, etc. etc.

À guisa de consolo e até mesmo de alívio, a reflexão filosófica: como governar com sabedoria e coragem e não com estultícia e covardia. O imperador Marco Aurélio, imperador romano, nasceu no ano de 121, morreu no ano de 180. Ele preconizava governar com franqueza, com abertura, descartar os que apenas lisonjeiam (na expressão popular, "puxa-sacos"), e os que lançam palavras ao vento, com efeito retórico (na expressão popular, "exibidos"). A verdade, a transparência, a simplicidade, a autenticidade, a reflexão, são valores que deveriam nortear políticos, juízes, mandatários, legisladores, valores que se acham à míngua. 

Em países ditatoriais, que censuram, perseguem e retiram o direito à palavra livre, os valores acima mencionados ficam à sombra. As caraterísticas éticas, políticas, jurídicas, próprias de regimes democráticos de direito, são violadas. Dizer a verdade, corajosamente, aos que exercem o poder seria um último e legítimo recurso. Com um obstáculo, é inviável falar para aqueles que se recusam a ouvir.

Resultado: desunião entre pessoas, famílias, e no espaço público. Desconstrução de valores, de liberdade e de representatividade.

domingo, 1 de setembro de 2024

Tudo em nome da segurança: quando o judiciário legisla e comanda

 STASI: Serviço de Segurança do Estado, espionagem da polícia secreta comunista. Alemanha Oriental até a queda do muro de Berlim.

KGB: Comitê de Segurança do Estado, antiga URSS durante a Guerra Fria, perseguiu, prendeu e matou milhões de opositores.

TSE: Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, criada em 22 de março de 2022, Brasil.

Em comum o poder de perseguir e denunciar, condenar e enviar informações, sem que as pessoas alvo de acusação pudessem ou possam, no caso de nosso país, recorrer a um foro superior. Isso porque o próprio foro superior, quer dizer, o STF é o destinatário dessas informações, que resultam em detenção, multa, perda de cidadania, de mandato, apreensão de passaporte, exposição pública à censura.

Como noticiado fartamente pela imprensa, o solicitante, membro da corte superior, assim o demandava àquela assessoria. Seus funcionários eram (são ainda?) obrigados a extrair informação e repassar ao chefe, Alexandre de Morais, em segredo. 



O poder da toga

Atenção à nomenclatura, regimes de exceção usam de termos genéricos, ameaçadores, como se fosse uma rede de pescar. Caiu na rede, é suspeito, deve ser investigado e ter sua conta nas redes, desta vez,  sociais, censurada. Quais são esses termos? 

"Assessoria", portanto sem especificar local, quem faz parte, basta ser funcionário do TSE. Que instituição requereu sua criação, teria sido o mandatário do Supremo?

"Especial", instituída com propósito que extrapola as funções criadas com finalidade cuja necessidade é clara e legítima.

"Enfrentamento", enfrentar quer dizer não ficar parado, procura por infratores, e mais opor-se a eles, busca ativa de nomes suspeitos, onde quer que eles atuem.

"Desinformação", e nesse termo mora o perigo, o desconhecido, a terra de ninguém em que um deslize semântico, ou uma acusação comprovadamente cabível e suscetível de investigação, se confundem, se embaraçam. Desse modo, cabe atingir o inimigo da vez, declarações em jornal ou em redes sociais, com o objetivo de atingir um partido, um político proeminente, um membro da corte, são suficientes para entrar no saco de gatos da "desinformação". 

"Urnas eleitorais podem ser fraudadas" é um exemplo de desinformação? Quais seriam as medidas a serem tomadas?! Em democracias, seria verificar, expor, estar aberto ao contraditório, usar os canais públicos e legítimos de apurar o que a "desinformação" informa, afinal, o que é tachado como "desinformação" informa algo, e isso deve ser investigado seriamente, se a acusação procede. Não é necessário montar um gabinete investigatório, com dinheiro público.

***

Vivemos em um país dividido, acusações mútuas são lançadas e provocam ódio de lado a lado. As instituições públicas são usadas para insuflar ou acobertar. Houve golpe? Bastou que se interpretasse "tentativa" como fato. Fatos não interessam. Julgamento isento não interessa. 

No momento, agosto/ setembro de 2024, dois touros se enfrentam, Elon Musk e Alexandre de Morais. Suas chifradas causaram prejuízo a mais de vinte milhões de usuários do X.

As democracias são ameaçadas quando o que realmente importa, não importa mais. E podem colapsar...

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Os espíritos livres

 Os espíritos livres alçam voo sem perder a noção de chão, de realidade, pois é a realidade das situações vividas que os move.

Os espíritos suscetíveis a condicionantes, ao contrário, seguem os impulsos, as idiossincrasias, os preconceitos. Ficam presos ao chão supostamente seguro, e desse chão não se libertam, isso porque a sensação de segurança, proporcionada pelo hábito, pelo já visto e já pensado, lhes basta. Ficam satisfeitos com certa crença, credo, doutrina, líder. Importam-se mais com as opiniões e revelações de um(a) influenciador(a) do que olhar para dentro de si. Assim, seu modo de ser e de pensar se define, se solidifica.

Qual é o problema? Afinal não seria esse um modo tranquilo de viver, sem precisar de compromissos?!

Essa sensação de acomodamento, de que tudo flui e sempre para o melhor, é falsa, em geral temporária. Por isso mesmo, quando acaba a segurança do já visto e do já dito, a busca frenética por um novo território de opiniões estabelecidas e de fácil digestão é buscado e facilmente encontrado. E ali se instalam, confortavelmente.

Para os espíritos livres não há permanência, a luta é perpétua, o final é um recomeço, a coragem de enfrentar e de expandir seu horizonte, de percorrer caminhos inéditos, de empreender a mais longa e arriscada jornada não esmorece sua vontade. É que sua vontade é livre de condicionamento, de convenções e de ordens superiores. Não se deixa levar por ídolos, sejam eles midiáticos, doutrinários ou ideológicos.


A determinação solitária da sherpa que escalou o Everest (documentário na Netflix)


Sua marca é a busca da criatividade, tal como se ele fosse seu próprio artesão, o construtor de seus valores, de suas metas, de seus ideais. A autodeterminação os move, as escolhas são deliberadas, e isso não os impede de respeitar e procurar entender aqueles que seguem lideranças e convenções cegamente. Deles se afasta com cuidado, pois sabe que contra a cegueira, a escravidão e o aprisionamento às receitas e a insegurança que a necessidade de afirmação produz, de nada valem os argumentos.

Há os que se arrogam serem livres, mas estes "gostariam de perseguir com todas as suas forças é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança, ausência de periculosidade, comodidade, facilitação da vida para todos; (...) os que abrem o olho perguntam como a planta "homem" cresceu mais vigorosamente, foi sob condições adversas (...) em nossa mais profunda solidão, tal espécie de homens somos nós, os espíritos livres" (Nietzsche).




domingo, 4 de agosto de 2024

A intolerância religiosa

Famoso escritor de origem indiana, educado e estabelecido em Londres, com 76 anos, sofreu um ataque quase mortal a facadas, no estado de Nova York, em 12 de agosto de 2022.

Trata-se de Salman Rushdie. Autor de 17 romances, entre eles aquele que provocou o ataque, Versos Satânicos, com paródias que levaram a sua condenação pelo líder iraniano, Khomeini, por injúria e difamação ao islamismo. Durante anos ele precisou se proteger. Mudou-se para Nova York, casou-se com a poetisa Eliza Griffiths, passou a levar vida tranquila. Aceitou o convite para uma palestra em Chautauqua (estado de NY). Mal começou seu discurso quando avistou alguém correndo em sua direção, recebeu 17 facadas, tentou se defender, levou facada na mão (que ficou comprometida) e uma delas perfurou sua vista direita.




Foi salvo como que por milagre, disseram os cirurgiões. Muitos meses de recuperação, com a presença constante e o cuidado extremo de sua mulher, passou a escrever Knife, Meditations After an Attempted Murder (Faca, Meditações após uma Tentativa de Assassinato), publicado neste ano, 2024, com tradução por editora portuguesa.

Além da detalhada descrição de seu sofrimento e lenta recuperação, mostrou como é ficar diante de alguém que te esfaqueia até a morte, ver a morte de bem perto. E perguntar-se, como é possível que um jovem criado nos EUA, decide décadas depois de sua condenação (absurda, diga-se), armar-se e desferir um golpe após o outro?

O jovem recusou-se a encontrar-se na prisão com o escritor. Salman então imaginou um diálogo com o rapaz, e esse diálogo gira em torno ao absurdo de uma religião, de uma crença, condenar à morte alguém que escreve romances, isto é, literatura, e literatura faz pensar, faz imaginar! A ficção lança na realidade como que uma luz, que leva a novos caminhos, nova compreensão do que nos sujeita, da condição humana, de nossos desejos e do sentido de nossas vidas.

Salman Rushdie é ateu, o que à primeira vista choca, causa incompreensão e indignação. "Não preciso de fé religiosa para me ajudar a compreender e lidar com o mundo" (p. 182), escreveu ele. A meu ver, o ateísmo pertence ao âmbito filosófico, e não, como é comum se pensar, uma questão antirreligiosa. Por isso mesmo, não se trata de um ateísmo combatente, e sim de um ateísmo resultado de muita reflexão em torno à crença de que um ser é o responsável por tudo o que há, e que Deus é tudo, tudo sabe, e está em tudo o que existe, (p. 148) como pensaria o seu agressor. Que responde ser o Deus muçulmano diferente de Deus do judaísmo, de Deus cristão criador do homem a sua imagem e semelhança. Os muçulmanos não consideram assim Deus. Como Deus, então, se comunicou no livro sagrado do islamismo, indaga o escritor no diálogo imaginário com seu quase assassino.

Na segunda parte desse diálogo improvável, o escritor considera se os dois anos de doutrinação no Líbano produziram na cabeça do jovem dar-se por missão assassinar o autor "maldito", e ser merecedor do gozo eterno...

***

A ausência de razão, o obscurantismo, o fanatismo, a doutrinação, conduziram o perpetrador, um jovem que poderia ter um futuro, e que hoje é prisioneiro no cárcere e prisioneiro na mente, na crença, na obstinação.

Religiões são questão de fé, de apaziguamento, de tranquilidade do espírito, de irmandade. É absurdo que uma crença leve à brutalidade, matar alguém por suas ideias, seus valores, é condenar os homens ao inferno na terra.

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PS.: quanto ao mérito literário de Rushdie, li apenas "Victory City", seu último romance. Não está entre os meus preferidos... Mas esta é outra questão.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Foucault no sufoco

Em reportagem da Gazeta do Povo, 06/06/2024, James B. Meigs critica os rumos da revista "Scientific American", por descuidar e desprezar a ciência e a pesquisa científica, devido às tendências do politicamente correto, e um dos fatores seria a influência de Foucault, que "argumentou que a objetividade científica é uma ilusão produzida e moldada pelos 'sistemas de poder' da sociedade".

Foucault mal sobrevive espremido entre essa avaliação deturpada da direita e o enaltecimento da esquerda como revolucionário, de que é preciso fazer o "desmonte" das prisões e do Estado. Ora, nem um nem outro. Foucault estudou os discursos que são práticas com efeitos nos sistemas de saber e de poder, mas a ciência comprova, verifica seus enunciados. Ele jamais afirmou que não há objetividade científica e nem que prisões devem ser eliminadas. 

Quanto às prisões, resultaram de um novo modo de punir por meio de um tipo de poder e de saber que, desde o século 18, disciplina, reparte, isola, vigia. Há uma interdependência entre a polícia, os delinquentes e todo um maquinário médico e jurídico, mecanismos e estratégias do sistema prisional.


1926-1984
Foucault marxista, pensador de esquerda?!

Marx seduz pelo seu discurso profético, promessa redentora para os explorados. Foucault é um conhecedor do marxismo, o Marx que o partido comunista diz que deve ser usado, esse tipo de exigência é ideológico, a noção de poder fica fechada em uma teoria política. Ao passo que para Foucault, houve uma mudança no modo como o poder é exercido, por exemplo, sobre os corpos com efeitos sobre saúde, surgimento de academias, produção de beleza, preocupação com a saúde infantil. Ao mesmo tempo, esse corpo saudável e consumidor se liberta contra normas morais da sexualidade. Difere da análise marxista do corpo atado à fábrica, poder repressor que a revolução comunista libertará. 

Foucault vê outro lado, a constituição de regras, normas, discursos, separação entre normal e anormal.

 Quanto à ciência, ela é produzida em e por sociedades cujos mecanismos de poder mudam, por exemplo, a relação entre a biologia e a agricultura. Mas isso não significa que comprovação e cálculos, que retificações e experimentos, sejam diretamente dependentes e sujeitados aos mecanismos de poder, sejam eles do Estado ou da sociedade disciplinar, como afirmou sem nenhum fundamento James Meigs.

O filósofo não é pedagogo, não é profeta, não é legislador. Ele elucida, mostra estratégias de resistência ao tipo de poder que normaliza, não se o poder é legítimo ou ilegítimo, se a questão é moral ou de direito. 

O que é essencial em nosso cotidiano? Lidar com a morte, a doença, a penalidade, a prisão, o crime, tudo o que toca a afetividade, a vida e nos angustia. O que podemos mudar, como resistir, e isso não é questão de tomada de poder, nem de revolução.

Pense: por que razões a prisão, tão criticada prevalece? Então você terá um retrato de nosso tipo de sociedade. Outra pergunta: como nos tornamos indivíduos que são instados a dizer o seu íntimo, por quais mecanismos de saúde e de educação nossa subjetividade se constituiu?

Para finalizar, Foucault foi um crítico do partido comunista, monolítico e burocrático, nas palavras dele (cf. p. 614, vol. III, Dits et Écrits). Para não dizer violento, com líderes capazes de envenenar opositores...

O título de uma de suas numerosas entrevistas fala por si (p. 595, vol. III de Dits et Écrits): "Metodologia para o conhecimento do mundo: como se livrar do marxismo".

Conclusão: sejamos inconformistas!














domingo, 23 de junho de 2024

Corpo+alma+automóvel

 Refletir sobre o automóvel?! Sim, pois de certa forma, carros se tornaram parte integrante da vida e das necessidades das pessoas. Passei algumas semanas em casa de minha filha, em Columbus (Ohio, EUA), e o que vi supera em larga medida a extensão do uso do carro para todas as atividades. As distâncias são grandes, de modo geral o trânsito flui, os estacionamentos são enormes, alguns a perder de vista. É o caso do Jardim Zoológico, vi um único ônibus, nenhum de turismo, o acesso, portanto, depende exclusivamente de a pessoa possuir seu carro. Mais de um em geral. Parece que os seres humanos se compõem de corpo, alma e automóvel...

 A peculiaridade é ver-se pouca gente nas ruas caminhando, com exceção dos parques que são muitos, novamente, com acesso apenas por meio do automóvel. Na biblioteca é possível devolver livros sem sair do carro. Foram os americanos que instituíram o drive-thru,  come-se dentro de seu veículo, sem tocar os pés no chão. Com as quantidades gigantes de comida, os atacadões, a consequência desses hábitos de consumo e de locomoção, cresce a olhos vistos o sobrepeso das pessoas. Triste de ver... Tendência essa que existe mesmo aqui no Brasil, infelizmente.

Claro que isso muda na costa leste, Nova York, e, evidentemente nas grandes cidades servidas por metrô.

Pois bem, isso é tudo? Não, é apenas um lado do modo americano de viver. Que dizer do outro lado?

Antes, uma ressalva importante: há que se distanciar do culto ao "american way of life", o americanismo, digamos assim, e distanciar-se igualmente do antiamericanismo produzido pela ideologia desgastada e esquelética que a esquerda ignorantemente impõe. E isso para enxergar e avaliar o outro lado, e esse lado brilha, chega a ofuscar o que acima descrevemos.

Desde o século 19, universidades e centros de pesquisa produzem conhecimento técnico e científico. Ciência, ciência aplicada, alto nível de educação, excelência em ensino superior, inúmeros cientistas laureados com prêmio Nobel de Física e Química. A ilustração acima é do COSI, museu de Columbus que reúne ciência, indústria, experiências, e, ao mesmo tempo interação e divertimento.

E mais, o avanço em tecnologia. E isso em uma das mais importantes e influentes democracias, com incomparável apreço pela liberdade e pela autodeterminação, pelos direitos humanos. Há uma luta  que não cessa e expõe as feridas sem tergiversar de um anacrônico preconceito racial.

E além disso, literatura, música, entretenimento, cinema. Há décadas a indústria cinematográfica produz o que há de melhor em filmes, mas, claro, muita mediocridade. Não há censura e nem medo de sofrer crítica. Jazz, rock, e mesmo música clássica, inspiram e divertem gerações. 

Goste ou não, mas sempre com um olhar crítico, com erros e acertos, os Estados Unidos são o país mais influente do mundo. Ainda...