terça-feira, 8 de outubro de 2013

A importância da Filosofia

Um dos mais interessantes paradoxos da filosofia (tanto em sua longa história quanto como matéria de estudo e reflexão) é que ela não tem nenhuma aplicação imediata, por vezes é incompreendida, descartável e mesmo ridicularizada, e nada disso impede, pelo contrário, estimula, a que filosofar e os filósofos sejam imprescindíveis.
Como interpretar essas duas atitudes antagônicas?
Em sociedades tecnocráticas, de produção e consumo imediato de bens e serviços, sendo inclusive a educação vista como um desses bens, é possível dispensar a Filosofia devido a sua inutilidade. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade produz um efeito inverso: para que servem todos esses bens e produtos? Eles satisfazem e preenchem todos os aspectos e vicissitudes da vida? Basta trabalhar, pesquisar, comprar e vender, cumprir horários e realizar tarefas? E isso quanto à vida cotidiana.
E as outras questões mais profundas e amplas, que não se restringem à economia, à política, que partem para problemas como o da aplicação da justiça e dos direitos humanos, como conciliar as relações entre poder público e vida privada, liberdade e cidadania?
E quando sociedades inteiras se mobilizam por meio da religião e consideram sua crença como única, verdadeira e insubstituível, como ficam as demais doutrinas religiosas? Qual é o valor, afinal, dessas crenças? Se elas respondem pelo sentido do cosmo, pelo sentido da vida, se preenchem os anseios pela busca de um bem supremo, de um ser superior, se suprem as necessidades espirituais, como ainda assim a filosofia permanece viva e atuante?
A necessidade da filosofia é inerente à capacidade racional de compreensão, de indagação, de atenção e cuidado pelo que é básico e fundamental. O que funda, o que fundamenta nossa capacidade de conhecer o que nos cerca e o que somos nós, seres humanos? Como entender que o tempo nos constitui, tanto o tempo de todas as coisas que nascem e morrem, como o tempo sem o qual não há memória, nem apreensão das situações presentes, nem possibilidade de projetar, de planejar, de imaginar o futuro e novas situações?
E quando o tempo se transforma em puro acaso, quando ocorrências díspares confluem e mudam inteiramente o fluxo de nossa existência? O que é causado e pode ser dominado, e o que é fortuito e escapa ao nosso controle? 
Nessas condições, é possível filosofar?! Note que a pergunta instiga a pensar justamente sobre a condição humana!
Se a ciência responde com leis da física sobre moléculas, átomos, teorias sobre o início do universo; se a biologia responde sobre a origem da vida e sua evolução; se a medicina avança e mapeia o cérebro e todo o corpo, previne e controla doenças, prolonga e dá condições para saúde e bem-estar; enfim, se as ciências controlam muitos fenômenos e os explicam, a filosofia ainda assim persiste.
E isso porque ela segue outro caminho. Seu campo de saber é o das avaliações, a pergunta pelo sentido da vida, apreender todos os entes existentes por meio de categorias e conceitos gerais, como: causalidade, totalidade, verdade, teoria, matéria e forma, ideias, mente, tempo, eternidade, finito e infinito. Não se prova e nem se comprova nada nessas digressões, nessas interpretações, nessas valorações. 
Elas insistem e persistem porque ao pensamento não é dado não pensar.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pensamento metafísico: totalidade, ente e ser

Nas preleções de Heidegger sobre Nietzsche, na Universidade de Freiburg, entre 1936-1940 (Vol. I Nietzsche, editora Forense Universitária, trad. de Marco Antonio Casanova, 2010, 510 páginas) aprende-se muito não só sobre Nietzsche, mas também sobre metafísica, história da filosofia e as próprias teses heideggerianas.
O ponto central é a pergunta da metafísica, feita há muito pelo pensamento grego, "o que é o ente?" Para Heráclito, o ser do ente, isto é, para os entes (ente é tudo o que há, exceto o nada) serem, o que os faz existirem de certo modo, seu ser, é o devir. A causa primeira é o devir. Para Parmênides o ser dos entes vem de sua permanência.
Heidegger mostra que Nietzsche pergunta também sobre a totalidade, mas extrai essa questão da própria história da filosofia; a ele interessam os percursos do pensamento, inclusive o devir e a permanência do ser, que ele absorve. Mas rejeita o platonismo que permeou todo o pensamento ocidental. Para o platonismo, os entes se constituem de ideias, que são ideais como o nome indica, de outro mundo, não do nosso mundo sensível. Assim ficou postulada a existência de um além perfeito e difícil de alcançar e concomitantemente a noção de que o mundo em que nos movemos é falho e imperfeito.
Nietzsche considera que a inversão do platonismo valoriza a vida em um sentido amplo (entes animados e inanimados, orgânicos e inorgânicos), e vida para ser valorizada requer novas perspectivas, novos valores. Onde encontrá-los e como modificá-los?
Na vontade de poder, pela força (não física e nem moral) do devir, do retornar sempre, do encontro entre passado que já não é, e futuro que vem a ser. O ente na totalidade é eterno retorno do mesmo. O encontro de passado e futuro se dá no instante, nele o tempo é como que "agarrado". Daí a força, que nega a conciliação final e resiste na luta permanente, nos eternos elos da corrente do tempo. Todo ente que é, é vontade de poder. Existe por ter lutado, resistido; impulso, paixão, sentimento caracterizam a vida, que por isso é vontade de poder, mais que razão e lógica.
Aquele que pode produzir é o artista, o sentido disso para Nietzsche vai além da produção de obras de arte propriamente ditas. Isso porque o ente se faz, se produz, cria. A arte combate o niilismo entendido como anulação dos valores que promovem vida e renovação. Na história ocidental tem prevalecido o niilismo, a negação da vida, da embriaguez de viver, da plenitude; a doutrina do eterno retorno traz ao ente abertura, audácia, risco e não aceitação passiva de considerar que, como tudo volta, não preciso fazer nada.
Esse lado estético caminha pari passu com a metafísica, esta entendida como a pergunta que o filósofo faz acerca do que determina o ser dos entes. E a metafísica de Nietzsche, sustenta Heidegger, é o eterno retorno do mesmo.
Esse "pensamento pesado" ocorreu a Nietzsche na solidão, na compreensão de que abismo pressupõe altura, que na luz do meio-dia, sem sombras, tudo retorna, as coisas são finitas e voltam eternamente. A força finita reside no instante, se fosse infinita, não teria do que extrair força. Só se extrai força, vida, de coisas finitas nesse devir constante.
Solidão inspiradora  de Nietzsche em Sils Maria - Suíça

Portanto, a pergunta metafísica fundamental pela totalidade dos entes, como eles se perpetuam, seu modo de ser, é o eterno retorno, a totalidade do mundo é caos (nada a ver com teorias científicas). E para haver e terem sentido o tempo, a vida, o instante, é preciso o homem. Este deve ser pensado a partir do mundo e o mundo a partir do homem. É preciso partir de um canto, de um lugar, e não há como perguntar sem a linguagem, que é humana. Desse modo, o que pertence ao homem o leva para além do homem.
É como se Nietzsche tivesse proposto um pensar difícil em lugar de pensar na resposta pronta de um mundo platônico, ou em uma causa inicial ou final para todos os entes. 
Sem causa primeira nem final, tudo vem a ser eternamente. A enigmática doutrina do eterno retorno foi o difícil pensamento que ocorreu a Nietzsche, aceitar e amar a vida, aceitar isso que ocorre basta. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Algumas dicas para trabalho científico - mestrado

Diretrizes para dissertação de mestrado

                                                                   
             Quando lecionava no programa de mestrado da PUCPR, criei este texto, que pode ajudar na elaboração do projeto e na própria dissertação de mestrado.
              A dissertação segue as mesmas exigências de um estudo científico, como um estudo monográfico. Assim como a tese de doutorado, a dissertação versa sobre um tema no qual foi feito um recorte bem delimitado, acerca de um autor (es) e/ou assunto. O importante é a delimitação, o alcance, os objetivos da abordagem ficarem claros, não pode haver superposição e nem cabe abordar o que não diz respeito ao tema/autor(es) propostos. Nela são abordados aspecto(s) relevante(s) sobre dado assunto em uma área do saber científico ou especializado. Trata-se de um trabalho que provém de leituras, experiências, observações feitas pelo profissional ou estudante, trabalho esse que vem contribuir para abordagens teóricas e práticas, com novas visões de um problema, sugestões, críticas, enfim, tudo o que possa contribuir para o avanço do saber. 

O projeto bem elaborado é o passo inicial. É preciso:
1.    Determinação do tema/problema a ser abordado: deve ser relevante, deve evidenciar a formação em uma especialidade, aprofundando um aspecto da área estudada ou das experiências do profissional, mostrando que sua proposta é séria e produtiva. O tema deve ser interessante, o problema deve ser bem formulado e bem analisado. Para que surja a problematização, o pesquisador deve ter feito leituras, questionamentos, vale sua experiência profissional, alta dose de criatividade, curiosidade intelectual e, principalmente, ideias inteligentes. Se o problema for bem colocado, começam a surgir hipóteses de trabalho que serão desenvolvidas a partir de uma ideia central e dos objetivos a serem atingidos.
2.    Levantamento das hipóteses: as hipóteses são questionamentos como: Por que não?  Como isso se dá? Qual a origem ou fonte do problema levantado? Como solucionar certas questões? Quais são os resultados possíveis de certas abordagens? O que fazer diante de um suposto diagnóstico do problema levantado? O problema levantado tem em vista quais novas perspectivas? A causa provável de tal anomalia ou as causas prováveis quais seriam? Por que justamente essas causas ou essa problemática é mais atuante e mais importante do que outras? Sem essas hipóteses o trabalho resulta em banalidades ou repetições, sem problematização a pesquisa fica sem rumo, sem objetivo, fora de propósito.
3.   Levantamento de bibliografia: pesquisa em bibliotecas e institutos, pesquisa na internet, sugestões do professor orientador, enriquecimento de fontes a partir de livros básicos. 
4.  Cronograma detalhando as etapas da pesquisa.

A dissertação:
1.   Após a seleção e leitura de capítulos, itens, artigos, é proveitoso fichá-los na forma de resumo, esquema ou resenha. É do estudo desta bibliografia e dos assuntos selecionados nos esquemas ou resumos, que sairá o trabalho final. Essa coleta bibliográfica não deve ser apenas cópia, mas sim uma análise dos pontos essenciais e dos argumentos desenvolvidos nos textos. Isso possibilitará a redação final da dissertação. 
2.   Estrutura da dissertação: o trabalho se compõe de uma introdução (tema, objetivos, justificativa), itens desenvolvidos: hipóteses abordadas, desenvolvimento dos objetivos, em que entram: análises, modo de desenvolver os aspectos principais do tema, resultados alcançados e isso tudo de forma lógica, argumentando e mostrando a situação do problema, o modo como a questão pode ser abordada; conclusões com um relato resumido dos objetivos alcançados.
3.      Pesquisa propriamente dita: há várias metodologias de pesquisa, que variam conforme a natureza do tema e do problema; elas podem vir isoladas ou combinadas:
      a) Pesquisa bibliográfica: já mencionada acima; b) pesquisa laboratorial e/ou de campo: requer recursos experimentais como resultado de observação participante, investigação de um campo de estudo, em que ideias ou problemas possam ser examinados, selecionados, organizados, manipulados, demonstrados. Eles são fruto de observação inteligente, de experiências dirigidas por uma ideia ou hipótese, análise dos resultados obtidos, intervenção para corrigir desvios, investigação do modo como certos casos se desenvolvem, se modificam, enfim, é preciso um local (laboratório ou campo pesquisado), um objeto/problema/caso a ser investigado e meios disponíveis para a verificação de cada etapa da pesquisa e de seus resultados; c) estudos a partir de documentos: ir às fontes documentais, recorrer a dados estatísticos, estudos de institutos especializados. Em algumas áreas esse estudo é complementado com entrevistas, questionários, estudo de casos, registros documentados de uma série de observações que representam o resultado de uma atividade acadêmica (relatórios de pesquisa ou de estágio) ou profissional, inventários de acompanhamento da evolução de um ou mais casos (com tratamento estatístico), as intervenções realizadas e os resultados obtidos.


Todo estudo bem feito tem resultados que fazem avançar o estado da arte, a situação da área investigada, apontando perspectivas novas, soluções criativas, mostrando onde há erros, desvios, o que pode ser aperfeiçoado, enfim, resultados em termos de avanço científico, ou aprofundamento de um tema, desenvolvimento de um novo produto ou artefato, de uma tecnologia ou de um método de trabalho mais produtivo. E isto só se dá com estudo sério, projetos úteis e interessantes, uma grande dose de ousadia e curiosidade, gosto especial pela sua área de atuação, e um preparo profissional adequado e estimulante.
Há que se evitar a mera repetição, temas desgastados, e a "inútil erudição".

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Impossível ser filósofo sem ser justo


Diógenes de Laércio relata a seguinte passagem: “Conta-se ter dito Heráclito a estranhos que o queriam visitar e espantam-se ao vê-lo aquecer-se junto ao fogão: podeis entrar, aqui também moram deuses”. Filosofia e vida cotidiana, essa união de real e ideal é o alimento da filosofia: há duas esferas, aquela em que projetamos como ideal filosófico a sabedoria, o logos; e a esfera prática com a necessidade de pensar, avaliar e lidar com as condições históricas herdadas e as experimentadas. 
A filosofia e seus objetos de análise mudam com o passar do tempo histórico e o surgimento de novos temas e problemas.  Permanece a necessidade de pensar, raciocinar, ampliar o limiar da razão reflexionante, mas sem ultrapassar esses limites, pois não há como usar a razão e, ao mesmo tempo inventar procedimentos que fogem às regras do pensar. Quer dizer, estamos sempre imersos na lógica do possível, nos signos aprendidos, nas formas significantes.  

***
A filosofia circunscreve quatro dimensões: a da atividade filosófica na cultura; a do rigor da reflexão, ou seja, o uso de conceitos próprios ao pensar de tipo filosófico; a dimensão da vida prática e as possíveis transformações; e aquilo a que a filosofia pode almejar e permite alcançar.
Como exemplo da primeira dimensão, Dewey (1859-1952) mostrou que a filosofia não pode se restringir às puras Formas, ao Ser, às Ideias como entidades em si mesmas, sublimes e superiores. Assim ela se fecha, se torna missão de experts e como tal inacessível como bem cultural e imprestável para a tarefa educacional. Pelo contrário, as noções, as ideias, os conceitos, os propósitos da filosofia devem e podem ser abertos para um público mais amplo. O uso do vocabulário hermético, a pseudo erudição e a superespecialização, nada mais são do que refúgio de intelectuais afetados e pouco ou nada afeitos à difícil tarefa de levar a reflexão para iniciantes, para a escola, para a discussão pública de ideias. 

O segundo ponto, o rigor da análise e da reflexão, a tarefa intelectual de busca da exatidão, do conceito apropriado, da noção iluminadora, podem ser ilustrados por Wittgenstein (1889-1951), com a atitude prático-teórica do uso habitual de conceitos, sempre relacional, com papel específico em nossas formas de vida. A filosofia tem a função terapêutica de reconduzir os conceitos ao seu uso normal, cotidiano.  Se alguém tem dificuldade em compreender o conceito de "essência", por exemplo, veja como este signo é empregado nos jogos de linguagem cotidianos. Exercita-se a análise e mergulha-se nas indagações, sem precisar de inúteis erudições.

O terceiro aspecto, o que a filosofia permite realizar, sua missão pedagógica, reside em capacitar à reflexão, à abstração, à apreensão da realidade, em três áreas afins: a da ética e da política; a da crítica cultural; e a dimensão do sujeito, isto é, a análise das formas pelas quais experimentamos nossa subjetividade, nossa individualidade.
Para Aristóteles (385-322 a C.), a ética e a política são co-dependentes. A sociedade política é um bem para todos, o homem é um animal social com noção do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião para o viver bem, possibilitar uma vida feliz e virtuosa; justo é o governante que busca a felicidade geral. 
Quanto à cultura, Nietzsche (1844-1900) critica a adesão a valores gastos, é preciso reinventá-los, como faz o poeta solitário. A cultura, diz ele, foi arrancada da simplicidade e da contemplatividade, há pressa, as águas da religião fluem e refluem, deixando para trás pântanos e poças; as nações se separam e querem esquartejar-se; nessa mundanização, as classes eruditas não são mais o farol, impera a barbárie, inclusive na arte e na ciência (cf. Considerações Extemporâneas).
E o sujeito? Foucault (1926-1984), analisa a história das práticas humanas que constituíram o sujeito moderno, o que desmistifica a pretensa essência, universalidade e unidade do homem. 

E a última característica, o que se pode almejar com a filosofia? R. Rorty (1931- 2007) diz que ela não nos impele e nem obriga a um dever acima da reflexão e da crítica nem à defesa cega de uma ideologia; a filosofia não serve para solucionar problemas, para tal há governos e diversas ciências que podem oferecer soluções e novas práticas para problemas sociais, políticos e econômicos. Mas ela é indispensável para nossos projetos de vida, para transformar e apontar direções, para alcançar mais solidariedade, respeito à diferença, liberdade de crítica. A liberdade é imprescindível, sociedades com liberdade plena para refletir e agir, para valorar e criar, evitam o medo, a intolerância, o sectarismo, a cegueira ideológica. 

Daí o título desta postagem: o filósofo ao refletir, avaliar, ser criterioso, ponderar, só pode e deve ser justo. 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Impressões do Congresso Mundial de Filosofia - Atenas 2013

Pelo número de participantes, contei aproximadamente 2600 congressistas, a filosofia continua bem viva. Atenas acolheu no campus da Universidade, escola de Filosofia, esta multidão, de forma bem organizada, com bastante informação e oportunidade de pessoas do mundo todo se encontrarem e trocarem ideias.
Poucos brasileiros, muitos norte-americanos, chineses e japoneses. A maioria das palestras e comunicações em inglês; filósofos e áreas da filosofia, acho que todos foram contemplados.
Quanto à qualidade, apesar de ter assistido a poucas palestras e comunicações, não seguiu a quantidade. Nota-se que nos EUA filósofos europeus são apreciados e estudados, mais do que os próprios filósofos americanos; que no Japão há uma grande preocupação com a reflexão sobre meio ambiente, as catástrofes sofridas (bomba atômica, vazamento nuclear de Fukushima) são lembradas como resultado infeliz da aliança entre ciência e tecnologia; minha curiosidade com relação ao que chineses produzem em matéria de filosofia não foi satisfeita pelo obstáculo da língua, as reuniões da sociedade chinesa foram realizadas em chinês, é óbvio.
Uma impressão marcante foi a deixada por jovens filósofos, apaixonados, estudiosos e dedicados. Entretanto, ao ouvir um rapaz esloveno, em excelente inglês, discorrer sobre Descartes, ainda que enfático, em nada mais resultou do que repetição do que escreveu o filosofo em Meditações e no Discurso do Método. Isso produziu uma dúvida cética (cartesiana?) sobre o sentido de se conhecer, citar e repetir, sem mover nada, sem modificar nada de nossa situação, sem propor nada.
Creio que os estudos em filosofia e o conhecimento de história da filosofia precisam ultrapassar a erudição, o pleno saber acerca das ideias e conceitos filosóficos, e atingir o patamar seguinte que é o do uso para educar, para abrir a cabeça dos jovens e dos alunos para questões essenciais e também para as questões banais, do cotidiano. A filosofia deve ser inspiradora e não apenas repetição e erudição, não apenas citação ou copia e cola, não reduzida às extensas pesquisas bibliográficas para impressionar bancas examinadoras.
***
E Atenas, a cidade, os monumentos, os museus? E Delfos com as deslumbrantes ruínas no Monte Parnasso? E o templo de Zeus, o Parthenon? 
Maravilhas destruídas por imperadores romanos, pelo avanço do cristianismo, pela civilização bizantina. Milhares de estátuas destruídas por representarem o mundo pagão!!!
Imperadores e exércitos, entretanto, não destruíram o legado civilizatório e cultural do mundo grego. Arte, arquitetura, teatro, poesia, literatura, matemática, filosofia permanecem vivos nos conceitos, na linguagem, no imaginário, na base daquilo que a civilização ocidental se tornou. Eternos.
Oráculo de Delfos

domingo, 28 de julho de 2013

Tirem as máscaras!

É lamentável que os protestos venham degenerando em bagunça, violência, ataques ao patrimônio público e privado.
Como seria a vida em sociedade sem bancos funcionando, sem sinais de trânsito, com lojas depredadas?
Por que até agora a polícia não prendeu os que merecem, interrogou-os para saber qual é a intenção dos vândalos, de onde eles vêm, quem são esses mascarados covardes, por que não pagam pelos seus crimes?
Será que não perceberam (ou perceberam e são de alguma forma instigados por algum tipo de autoridade) que infiltrados nos movimentos legítimos provocam resultado oposto, isto é, a perda de apoio da população?
É urgente criar um movimento que os denuncie, arrancar a máscara, inclusive a do famoso sorriso, que já cansou, e mostrar a cara.
Mostre a sua cara ou caia fora, essa deveria ser a palavra de ordem!
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E que dizer dos protestos durante e em meio a visita do papa Francisco?
Falta de respeito pelo outro, pelas posturas e crenças de cada religião, por movimentos que engajam multidões e têm tradição internacional. 
Quando há discordância, ela pode e deve ficar explícita por meios que possibilitem responder, argumentar e não forçar a barra!
A "Marcha das Vadias" tem hora e lugar próprios para surtir o efeito desejado, que é o protesto das minorias sexuais, a denúncia da violência contra as mulheres, o direito de se vestir conforme seu gosto e não segundo normas sociais padronizadas.
Até aqui, tudo bem.
Mas promover a destruição pública de estátuas choca, revolta, pois é em ambientes de fé que elas são expostas. Isso lembra fanáticos de certos cultos que invadem igrejas para quebrar imagens.
Ridículos!
Qual é o efeito? Nunca o de crítica social, moral e ética, e sim o efeito deletério da falta de respeito pelo outro, sua crença, sua religião, seus valores.
Protesto justo é aquele em que se defende um direito, um valor, um modo de vida quando atacado.
Protesto justo é aquele em que se denuncia governantes relapsos, corruptos, acomodados no conforto do poder.
Protesto justo é aquele em que se luta por representação, por direitos legítimos que a maioria, habitualmente silenciosa, reivindica. A voz da sociedade precisa e deve ser ouvida.
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Denunciem os covardes baderneiros, pois, aparentemente, a polícia "protege" o protesto pacífico e só aparece após o fim do vandalismo. Esquisito, não? 

sábado, 13 de julho de 2013

Deixem Nietzsche em paz!

Há uma exploração indevida e inapropriada da filosofia de Nietzsche. Em especial a literatura de autoajuda considera que o filósofo da transvaloração dos valores pode ajudar a eliminar o stress!!!
As propostas de Nietzsche jamais poderiam ser usadas para aliviar o cotidiano de trabalho e de incômodos próprios a nossa sociedade. Trata-se de péssima literatura, que distorce noções básicas do filósofo apenas em proveito de um mercado que se expande a olhos vistos.
Eis algumas das relevantes contribuições de Nietzsche para pensarmos a filosofia, a vida, os valores e o destino humano.
As concepções filosóficas tradicionais inventaram categorias que se opõem entre si, como o devir dialético da história, vir a ser e nada, progresso e bem-estar. Essas "múmias conceptuais" impõem sentido a tudo, como a noção de causalidade, quando não passam de pressupostos metafísicos da linguagem.
Nietzsche admirava os "espíritos livres", abominava o espírito gregário, de rebanho, dos que se deixam conduzir, pois é fácil aceitar guias prontos (como os manuais de autoajuda....). Coragem, força, sem instinto gregário, auto-criação de tipos renovadores, inspiradores, que conseguem encontrar alegria como a do riso infantil, que possam contemplar do alto a paisagem, que criem seus valores sem necessidade de código moral. E isso sem pressão externa, sem modelos prontos, com autonomia.
Não há um estado final das coisas, nem prêmio nem castigo, há o jogo da vida como uma dança à beira do abismo.
Nietzsche enfrentou até mesmo o niilismo. O niilismo budista, passivo e pacífico, e outros niilismos (apesar de admirar escritores russos como Dostoiévski) podem ser confrontados pelo espírito livre de um Zaratustra ou de um deus mitológico dionisíaco. 
O filósofo fala ao corpo, aos ritmos da música, à dança. Ao mesmo tempo exige de si o máximo de força e coragem contra o ideal de felicidade do homem medíocre.
Vontade de poder resume seu pensamento, ela alimenta o jogo, a luta, percorrer novamente os desvãos da história para mostrar a emergência, entre outras determinações, da consciência moral e do ressentimento. Impedidos de alçar ao topo e ver com seus próprios olhos, os líderes da fé inventaram a consciência moral, são ressentidos, quer dizer, preferem a culpa à grandiosidade, consideram meritoso o que baixa a cabeça e diz amém a tudo.

"O homem que se tornou livre, e ainda mais o espírito que se tornou livre, calca sob os pés a desprezível espécie de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é um guerreiro. Segundo o que se mede a liberdade em indivíduos como em povos? Segundo a resistência que tem que ser superada, segundo o esforço que custa permanecer acima (...) É preciso ter necessidade de ser forte, liberdade, algo que se tem e não se tem, que se quer e que se conquista" (Crepúsculo dos Ídolos).
Difícil e complexo filósofo! Atenção mulheres, inclusive com aspectos hoje inaceitáveis, como a misoginia.