terça-feira, 10 de junho de 2014

Solidão cósmica

A Terra vista das aeronaves leva a pensar na dimensão infinita, e em um planeta solitário. Nossa perspectiva é terrestre, mas nossos sonhos são estelares.
As metáforas filosóficas e religiosas habituais remetem à caverna humana em contraste com os deuses no Olimpo, no paraíso, no além. Rastejar se opõe a voar, alçar as alturas como bem superior. O que nos leva a sonhar assim, a sondar o universo e pleitear que não estamos sozinhos?
Quem assistiu ao filme Gravidade deve ter sentido que desprender-se da Terra não faz parte de nossa natureza, a volta da personagem principal destaca o solo, o contato com a areia, nossa marca em nosso chão.
Solta no espaço
O retorno feliz
Entretanto, deuses, anjos, seres extraterrestres povoam nosso imaginário. Basta entrar em uma igreja, em um templo, que prêmio eterno ou castigo eterno dão sentido à alma imortal, desde Platão e antes dele, até o cristianismo e outras fés religiosas.
À parte disso, há a hipótese para alguns, cientistas inclusive, de que é impossível não haver vida inteligente em outros planetas e que tais seres possuem artefatos capazes de os trazerem ao nosso planeta! E vão além, certos relatos de abdução, são levados à sério. Curitiba sediou há semanas atrás um encontro em que esses relatos servem para confirmar a existência de ovnis. Um deles é o de uma família abduzida juntamente com o fusca 72! Outra pessoa afirma que após ser abduzida, voltou com um chip implantado em seu dedão do pé direito!
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Evidentemente a imaginação humana vai longe, fica interessante e inteligente em filmes e na literatura de ficção científica: Jornada nas Estrelas, Júlio Verne, Isaac Asimov, H. G. Wells, Ray Bradbury, entre outros.
Mas nenhum deles ultrapassa o que a condição humana enseja, permite, cria: linguagem, sensações de ver, ouvir, criar veículos, tecnologias, mover-se, transportar-se, guerrear, etc, etc.
É possível que em outra ou outras galáxias planetas semelhantes à Terra tenham evoluído em condições semelhantes às nossas, a ponto de construir naves espaciais, comunicar-se, sequestrar pessoas com suas naves? E o que estariam esperando que ainda não invadiram a Terra? Apenas espreitam para dominar o planeta? Por que isso já não ocorreu?
Quando perguntamos o que querem conosco, essa dúvida por ventura não seria uma questão que só nós levantamos?
Por mais estranho que seja o ET, ele terá corpo, ou será uma espécie de ser gelatinoso, uma bolha, de todo modo representa uma ameaça aos seres humanos.
Ora, essas características são simplesmente nossas, elas não passam de projeções da condição humana. Não podemos sair de nosso corpo, de nossa linguagem, de nossos símbolos, de nossa cultura, enfim, de nosso modo de ser.
Buscar provas e evidências, é também uma necessidade humana. Além disso, que podemos saber?
Nada sem os nossos meios.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Nós humanos e a busca por razões

Época de futebol, época de lembrar de episódios de raiva e preconceito racial nos estádios mundo afora.
O gesto de Daniel Alves e o comentário "somos todos macacos", repercutiram em favor do jogador, com velocidade e entusiasmo.

Alguns preferiram o "somos todos humanos", esquecem que o sentido da frase referente ao nosso parentesco, que existe sim com os macacos se devia à comparação de negros com macacos. Ofensivo, preconceituoso, mas apanhar a banana e comê-la equivaleu a dizer, e daí? Vocês são macacos também!
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A evolução nos tornou humanos, mas não humanos suficientemente. Quer dizer, de um lado, somos resultado de transformações biológicas, históricas, sociais, culturais, somos "humanos, demasiado humanos". De outro lado, ainda somos bárbaros, comparáveis a feras, aos brutos.
Justificamos crenças como se fossem verdades inamovíveis, e povos inteiros as impõem. É incrível que séculos atrás os gregos buscavam razões, justificavam suas crenças em deuses e mitos como interpretação de atitudes e valores humanos, usavam argumentação, raciocínio, fundaram a lógica e buscaram os princípios de todas as coisas na metafísica, indagaram sobre as causas mais gerais de todos os seres.
Escola peripatética 
Enquanto isso, em outras partes do mundo, tais usos da razão estavam ainda muito longe de serem conquistados, alguns povos jamais os alcançariam.
Entretanto, na modernidade não há mais justificativas para desconhecer que buscar razões, espírito de tolerância, abertura para o outro, o diferente, usar a mesa de negociações e outras tantas práticas que costumamos chamar de "civilizadas", beneficiariam todos. Qual a razão, o que justifica guerras fratricidas, eliminação racial, ódio, desrespeito às mulheres e crianças, ao que fala outra língua, ao que pratica outra religião, que habita outra fronteira?
O ideal de muitos chefes de países ainda é obter pela violência a obediência restrita, melhor é dirigir manadas do que cabeças pensantes. Muitos governantes não passam de chefes de gangues. Quanto mais poderoso é o tirano, mais submisso seu povo, são de fato súditos (submetidos). Se o momento da revolta chega, os encontra despreparados para se autogovernarem.
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O que esperar de nações onde a escola é um meio de doutrinação?! Ou onde não há escola ou onde são destruídas? Onde a educação é desprezada?
Escola na Nigéria destruída por fanáticos
Crianças educadas para não pensar, para fazer parte de uma manada, servirão quando adultos a uma classe, a uma seita, a um poder, endeusarão o estado. Isso aconteceu no século passado, na Alemanha à época do nazismo. E acontece ainda hoje, escolas há que doutrinam, dogmatizam e impedem a busca de razões. Para chefetes e ditadores é perigoso argumentar, é uma ameaça dotar-se de liberdade de espírito, imbuir-se da necessidade de investigar, e não se contentar com regras nem com princípios intelectuais que não passaram pelo crivo da indagação.
As muitas possibilidades na aventura intelectual, na aventura humana, são limitadas somente por nós mesmos!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Religião e ciência

Uma das mais fundamentais e remotas necessidades da humanidade foi o culto aos deuses, às forças naturais, às manifestações misteriosas. Aos poucos os sacrifícios prestados a tais elementos a fim de restaurar o equilíbrio e apaziguar inimigos, foi sendo alçado a um nível superior, o de um só ser, absoluto, transcendente,todo-poderoso, numa palavra, Deus.
O monoteísmo prevalece na maioria das religiões, e, por sua vez, as religiões se mantêm firmes e influentes, mesmo nas atuais culturas e sociedades. Podem levar a barbarismos como certo "islamismo" radical, caso do grupo terrorista que sequestrou meninas na  Nigéria, o Boko Haram, sob o pretexto absurdo de que meninas não podem ir à escola!!!, a guerras, espalhar morte e ódio.
São exceções, pois religiões podem e devem cumprir outras funções, levar à paz, espalhar solidariedade, ajuda humanitária, conforto interior. E esse é o papel esperado das diversas crenças religiosas, fiéis seguem seus preceitos, oram, encontram nos textos sagrados a verdade revelada e por isso mesmo, incontestável. A fé é uma das dimensões da vida humana, outros produtos culturais não a substituem pois apenas religiões levam ao encontro com o sagrado e o divino, além do humano. Não é preciso provar nada, e sim vivenciar a crença.
Fé e revelação
Por isso mesmo, não faz sentido algum obrigar alguém a crer e nem impor uma religião. Infelizmente, há muita manipulação e forte indução em certas seitas, mas sempre cabe à pessoa aceitar ou não esse tipo de pressão.
Por todas essas razões, a ciência não pode ser posta no lugar da crença em entes superiores e divinos, muito menos o inverso, crer em vez de conhecer.
Revelação e prova científica são antípodas, inteiramente diversas, uma não pode substituir a outra.
A ciência requer um tipo de conhecimento que, inclusive, não é uniforme, há tipos de ciência, a biológica (Biologia, Medicina), a natural (Física, Química), as ciências humanas e sociais (História, Sociologia), as da comunicação, as da informação, as matemáticas, a Economia. É preciso haver pesquisa, resultados, métodos, verificação, publicidade nos resultados, uma linguagem tradutível por meio de cálculos, símbolos, estatísticas, provas laboratoriais. As ciências progridem e estão em constante mudança. Podem também produzir guerra, morticínio, devastações, como a bomba nuclear, experimentos com vacinas e medicamentos (nazistas com os judeus e laboratórios nos EUA com negros). 
A teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein, as concepções de que somos feitos de células, organismos que evoluíram, que somos dotados de um psiquismo, neurônios, sinapses, enfim, que há um universo em expansão e que nosso organismo e nosso cérebro são objeto de pesquisa e que há muito, muito mesmo ainda desconhecido - tudo isso é matéria de ensino, ciência, pesquisa.
Explicações são objeto de ciências
Não há impedimento algum e nem incompatibilidade com religião alguma, ensinar princípios, métodos e resultados das ciências, em níveis que acompanham os graus de compreensão dos alunos.
É possível e condizente com a educação, os alunos ficarem cientes de que há tipos de questionamento. Um questionamento sobre nossa origem pode ser respondido por meio de verdade revelada (o professor expõe para a criança ou para o jovem certo tipo de fé ou de religião), e por meio de ciência em constante mudança com novas teorias, com novos instrumentos e novas necessidades sociais e econômicas.
Educar é alargar horizontes, esclarecer, instruir, informar e, principalmente, formar pessoas responsáveis, abertas, livres para pensar e decidir.
Nietzsche em Humano, demasiado humano escreve: 
Aforismo 128: Promessas da ciência
"A ciência moderna pretende diminuir a dor tanto quanto possível, uma vida tão longa quanto possível, isto é, um tipo de felicidade eterna, muito modesta, é fato, em comparação com as promessas da religião".
Essa reflexão, extremamente crítica, infelizmente não é feita nem nem na escola, nem pelas religiões.

sábado, 26 de abril de 2014

O valor da ironia

Para o senso comum, ironizar equivale a caçoar, a gozar de algo ou de alguém, a conotação do termo é negativa.
Para a filosofia, a ironia tem outro alcance e outra conotação. Toda situação pode ser reelaborada pelo ângulo da ironia, de modo a assumir certa distância que um olhar perquiridor e atento, que permite a reflexão e o questionamento, abalam o que já sabia, o que se tinha como certo e seguro.O ironista pergunta, será assim mesmo? Você não conseguiria ver de um modo novo, diferente? Aquilo que você considera assentado, por acaso não poderia ser abalado, modificado, reinventado?
E a resposta do filósofo irônico será sempre SIM! 


A ironia de Sócrates parte da introspecção, da descoberta de seu eu, atingir pelo olho interior o que há de divino dentro de si, a sua sabedoria. Aquele que crê saber, nada sabe, pois acha que já conhece tudo. Aquele que diz nada saber é realmente sábio, pois este não crê saber o que ainda ignora. Ou seja, não se trata de um jogo de palavras e sim de um ponto de partida: para chegar à sabedoria, é preciso reconhecer a ignorância, livrar o espírito dos erros e prosseguir no caminho da verdade. A ironia leva ao

Sócrates


desmonte das ideias prontas, a ironia tira o chão dos que se creem superiores. Sócrates conduz a argumentação fazendo com que a pessoa se confronte consigo e com tudo o que considera como correto e verdadeiro sem exame prévio, a ponto de essa pessoa se irritar; o próximo efeito é a pessoa se libertar das opiniões e abrir-se para novos ensinamentos.Como Sócrates tinha muitas dúvidas, ele instigava dúvidas nos outros, e, pelo diálogo ia modificando as noções antes aceitas; desse modo o próprio filósofo ia construindo o conhecimento, ele como que pavimentava o caminho para a vida reta e virtuosa, que é a finalidade da sabedoria.


Voltaire ironizou por meio do recurso ao absurdo, ao non sense e à contradição: dizer o contrário do que se quer comunicar, mesmo correndo o risco de não ser compreendido. Aliás, quem não compreende o significado de um dito irônico, falta-lhe informação, leitura, cultura. E talvez com pessoas muito ingênuas ou pouco informadas, o esforço de ironizar não compense.

E ironizar compensa? Não será uma ironia que a própria ironia desloque a si mesma?

O riso silencioso do filósofo, a que se referia Foucault, é irônico. Apontá-lo como estruturalista ou como filósofo da vanguarda, ou como um guru que tem resposta para todas as questões, a isso tudo a resposta vem num tom irônico. Se me consideram positivista, disse ele, sou um "positivista feliz".

Há todo um jogo de significações com ida e volta a contextos para que a ironia seja interpretada corretamente. Ironia: mas como assim, "corretamente"? E o que dizer, ironicamente, do que se considera como correto? A quem ou a que atribuir correção, sem tropeçar na ironia?
E a ironia das ironias? Viver para morrer...


sábado, 12 de abril de 2014

As diretrizes do Plano Nacional de Educação e a questão da igualdade

Em recente debate acerca das diretrizes do PNE sobre a promoção da igualdade via educação, Toni Reis (Gazeta do Povo) defende o plano original, o de que esse objetivo seria alcançado pela "promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual".
Problema: como ser igual se é preciso respeitar as diferenças entre gêneros, se a própria orientação sexual deve ser vista como permitindo que sejam seguidas sem discriminação, se ser mulher é algo de que nos devemos orgulhar, como, repito, esse justo realce nas diferenças pode ser compatibilizado com igualdade?
A igualdade jurídica e política pertence à esfera legal, constitucional. Já está assegurada.
Mas não é possível haver igualdade nas expressões de si, de seus gostos, desejos, orientações. Nesta esfera, o que deve e precisa ser respeitado e compreendido, são os estilos de vida diversificados.

Na outra ponta, e contrário a esses propósitos na educação, Paulo Vasconcelos Jacobina acusa Foucault, Freud e Lacan, de serem os inspiradores dessa política que vê o lado da opressão e não o da educação para a ciência, para a cidadania, e que cultua aqueles pensadores os quais, segundo ele, se prestam apenas para denunciar toda sorte de opressão e investem em "educação de 'vanguarda' sexual".
Errado também.
Se pedagogos fazem uso inadequado e mesmo errôneo de noções e conceitos de Foucault, Freud e Lacan, é porque desconhecem suas ideias. 


Tomemos o caso de Foucault. A desculpa para o desconhecimento e mau uso de seus escritos, aparece invariavelmente sob o manto acusatório de ser "pensador da moda".
Que moda duradoura é essa!
Em nenhuma obra, entrevista, curso Foucault defende a igualdade, nem que é dever educacional promover a igualdade de orientação sexual.
Entre outros objetivos, Foucault é um analista, um historiador do presente, isto é, de como práticas diversas instituídas e/ou inventadas em épocas históricas determinadas, constituíram esse homem, esse sujeito, esse indivíduo moderno. Ele inventariou as mudanças históricas que resultaram, por exemplo, no indivíduo político, produtor, que precisa ser vigiado e punido para que governos usufruam do trabalho, produção, produtividade como se exige tanto hoje em dia; desse modo, é possível governar com menos aparatos, policiais inclusive. População governável, depois do século 18, saudável, mantida em mínimas condições vitais de saúde; ditaduras de direita como de esquerda precisam dela, tanto quanto democracias.
Foucault investigou como resultamos em indivíduos encaixáveis, submissos, mas não tem um discurso político pronto para que nos libertemos da opressão, seja ela qual for.
Até mesmo a sexualidade moderna resulta de práticas, discursos, aparatos médicos, psicológicos, psiquiátricos que moldaram a relação com o sexo e deram novo sentido às práticas sexuais. Não mais o foco nos prazeres, na fruição e sim na relação de si com o desejo, com o desejo posto sob exame, confessar sua intimidade, colocá-la voluntariamente sob o escrutínio de algum ouvido sábio...
E esse indivíduo moderno está aí, policiado, tutelado, examinado, investigado por questionários e enquetes, que cada vez mais confessa seus desejos sob o crivo da ciência especializada.
Voluntariamente se orna com aparelhos que medem tudo o que ele faz. Se corre, quer saber das batidas do coração, não para prevenir alguma doença cardíaca (que também está sob vigilância) e sim para aumentar sua performance. Sofisticados rastreadores de atividade esportiva acoplados ao corpo operam uma "verdade" utilizável.
Como diz Foucault, esse domínio cada vez mais fechado sobre o corpo, sobre a sexualidade, permite ao Estado funcionar otimamente, com menos rebeliões.

Então Foucault não tem nenhuma mensagem aos jovens educandos?
Abram os olhos!
PS: desconheço lições de rebeldia contra a "opressão" por parte de Freud e Lacan...

domingo, 16 de março de 2014

A ética da coragem e a ética da responsabilidade

A virtude da coragem deixou de ser modelo ético em nossos dias. A coragem é considerada um atributo da força física, ou uma qualidade atlética, no sentido de enfrentar e vencer perigo. Ser corajoso significa destemor, não ter medo de obstáculos, caso dos desportistas em geral. Nada contra...
Mas, a coragem ética é de outra natureza. Não requer treinamento, exercício ou superação. Requer uma aguda consciência de viver conforme seus projetos, saber-se só nos momentos cruciais de decisão, encarar a vida do ponto de vista de nossa mortalidade. Assim, subir em uma montanha não seria desafiar os perigos, e sim poder contemplar, alargar horizontes e perspectivas. Olhar lá de cima o precipício, entender que essa altura e essa contemplação são a metáfora por excelência para a coragem ética, é raro encontrar quem assim reflita. E por que? 
Não interessa às pessoas enfrentarem a si mesmas, se ocuparem consigo, perceberem a si próprias como um ponto frágil e ao mesmo tempo forte. Frágil porque mortais, embora fortes o suficiente para abastecer seu dia a dia com a confiança dos que usufruem e sorvem da passagem do tempo, que procuram compreender, ouvir, tolerar, que abominam hipocrisia e fingimento. Que prezam a autenticidade.
E por que essa virtude é tão importante?
A importância dessa virtude, a coragem moral, decorre de suas consequências: desprendimento, solicitude, grandeza , abertura para o outro, para o diferente, a aceitação e compreensão dos limites do humano.

Quanto à ética da responsabilidade, essa é bem conhecida, inculcada, e dela só se eximem os que agem de má-fé.

Fomos educados para o estudo, para o trabalho, para a responsabilidade com deveres e com compromissos. Não temos desculpa para atrasos, para faltas, somos cobrados o tempo todo no trabalho, pelo Estado, pela família, nas transações de compra e venda, somos afogados por impostos, somos responsabilizados por todo tipo de atitude, as que devem ser tomadas e as que não devem ser tomadas. Crianças não escapam, idosos não escapam. A impressão é de que apenas prisioneiros estão dispensados de tarefas, responsabilidade e deveres! 

Que contraste entre os dois estilos de vida, o do solitário no alto da montanha, e o do cidadão responsável! Seguir regras, ter direitos e deveres, sentir-se e saber-se responsável pelos que nos são próximos e também pela própria humanidade, como queria Kant (a ética do dever), isso tudo pesa e muito. Parece incompatível com certa leveza que há no modo de viver do corajoso, como o leão ou, melhor, a águia de Nietzsche.


Muito difícil, senão impossível viver como um ermitão. Não há sequer espaço para a solidão!

Mas, se a responsabilidade for tomada em sentido mais amplo, se, além de cumprir deveres ela incluir a mais completa e total solidão das tomadas de decisão, como quer Sartre? Quer dizer, não haveria um atributo ou uma propriedade humana, para além das virtudes acima? Sim, a liberdade, ela é inerente aos seres humanos, um bem inalienável, não se destitui ninguém de sua liberdade. Mesmo alguém escravizado pode assumir-se como livre do ônus de quem escraviza. 
É na condição de seres livres que a coragem e a responsabilidade se complementam e se compatibilizam.


domingo, 9 de março de 2014

A democracia e suas vozes, segundo Habermas

A legitimidade e os efeitos políticos dos protestos na Venezuela e na Ucrânia, estão na ordem do dia.
O sucessor de Chaves, Nicolás Maduro perde  o controle de seu governo a cada dia que passa. Argumenta-se que a Venezuela bolivariana é um obstáculo à influência dos EUA, que o governo norte-americano apoia os protestos em razão do petróleo abundante no país latino. Já a parte da população que protesta, quer liberdade de voz e voto, fim da censura, melhoria na produção de itens básicos, controle da inflação, enfim, um governo mais responsável e menos ideológico. Ajudar Cuba enquanto há desabastecimento é, no mínimo, injusto. Mas Maduro foi eleito, a democracia venezuelana, apesar de um sistema judiciário arbitrário, vige no país.

A Ucrânia também elegeu um presidente. Este, após protestos que já duram meses e causaram inúmeras mortes, se refugiou não se sabe onde. A Rússia, com Putin, quer manter a influência sobre a Ucrânia e a Crimeia, região anexada pela Ucrânia nos anos 50, estratégica para a Rússia devido ao porto de Sebastopol no Mar Negro. Para o gás russo chegar à União Europeia, passa pela Ucrânia. Esta não pode boicotar os gasodutos, pois tem interesse em se unir à UE.
Como se vê, a situação em ambos os países tem variáveis difíceis de equacionar.
A democracia tem e precisa ter várias vozes, e essas vozes devem ser representadas por presidente e deputados eleitos por meio de leis e regras estabelecidas em comum acordo, discutidas e votadas em um sistema aberto, que funciona bem.
A mesa de negociações deveria ser o local de plena vigência dos regimes democráticos, nela deveriam ser ouvidos governo, parlamentares, representantes do povo, do poder judiciário de tal modo que as reivindicações sejam ouvidas, discutidas e comunicadas. Imprensa livre é fundamental como canal de acesso às informações.
Ora, nos países em foco essas vozes múltiplas não têm sido ouvidas, pelo contrário.
Quais seriam os requisitos para que sejam ouvidas e atendidas?
Em toda sociedade, diz Habermas, há três colunas mestras: a da sociedade propriamente dita, a da cultura e a da personalidade. Normas, valores e educação pautam cada uma delas, respectivamente.
Sociedades devem ser constituídas de modo a haver convívio entre as diferentes e diversas camadas da população, devem ser atendidas as necessidades básicas de seus cidadãos, leis devem ser obedecidas, regras de convivência respeitadas. Alguns chamam a isso de civilização.
A cultura diz respeito aos aspectos simbólicos como literatura, arte, ciência, e todo o saber que circula no que Habermas chamou de "mundo da vida".
A personalidade é formada por pessoas, sua integridade, o modo como foram educadas e como respeitam umas às outras.
Quanto mais fortalecidas essas bases, melhores são as condições para que a produção econômica e as estratégias do poder político (o sistema) se estabeleçam sem colonizar o mundo da vida, isto é, sem que normas, educação, valores sejam pautados pelo dinheiro e pelo poder.
Entrar no debate democrático requer, portanto, o bom funcionamento das instituições, nível cultural e educacional cada vez mais aprimorados, e pessoas íntegras. Em outras palavras, reivindicações justas e legítimas, pleiteadas publicamente por pessoas honestas e preparadas para o debate.
Faltam todas essas condições tanto à Venezuela como à Ucrânia.
E no Brasil? Falta justiça social, melhoria urgente na educação, melhores condições de vida, principalmente nas grandes cidades. Isso, por enquanto, tem sido compensado pelo funcionamento das instituições públicas, da constituição, da imprensa livre. Não desejamos nem um presidente fantoche e nem ingerência externa em assuntos internos.