quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vendilhões no templo da Filosofia

 Sem considerar que a Filosofia deva ocupar um pedestal, que seja uma vestal, intocável, há, entretanto, limites. São os limites do pensar, do conceituar, do argumentar, do valorar, como o fazem e fizeram os filósofos, como o fazem professores da disciplina, como fazem debatedores, como fazem os seus divulgadores hoje na mídia. Aos últimos, a certos divulgadores para plateias, para o grande público, que ganham fama e grana, o que dizer? Evidente que não serão expulsos como fez Jesus com os vendilhões no templo. O templo atual é a grande mídia.

Dois desses eminentes propagadores, Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, foram entrevistados recentemente pelo Dr. Kalil em seu programa na CNN a respeito do que é felicidade, como ela contribuiria para o bem-estar e para a saúde em geral. O médico, ladeado pelos dois filósofos, passeia pelo parque. As condições para obter qualidade de vida são conhecidas, diz o médico, o que mais? Segundo Karnal, ao logo da história houve momentos piores, como na Idade Média, Cortella acrescenta que hoje temos ferramentas, com mais conhecimento, mais tecnologia, ainda assim, há o mal-estar (Freud) e angústia (Heidegger), sem dar mais explicações; Karnal concorda, há longevidade, cita exemplos dos centenários, e pergunta o que fazer com essa "vida em excesso"? Em meio à banalidades como essas, outro lugar-comum: ele usa o caso de sua avó ser matrona com 41 anos e ele sarado aos 45. Cortella intervém com citações de Epicuro, (os estoicos estão com tudo...), dilema do porco espinho, desejo de proximidade frustrado, Karnal receita três fatores, genética, amizade e convívio para uma vida feliz. 


Cabem ao filósofo esses "conselhos", tais como a proposta de uma "curadoria da amizade", que "falta o convívio", que "temos que fazer a vida valer a pena"?

Dr. Kalil pergunta se eles têm medo da morte. Karnal: "Quero morrer no dia de minha morte"; Cortella: certeza da morte, "morrer é ser esquecido".

Cabe questionar, o público é esclarecido por meio desses lugares-comuns, dessas platitudes? Creio que não. É missão do filósofo atingir o grande público, em questões como essa, o que é ser feliz, como obter felicidade, o que a filosofia acrescentaria aos cuidados que médicos, terapeutas, agentes de saúde, campanhas de saúde, ampla divulgação de dietas, enfim, ao já sabido?

O grande público se beneficia com as lições desses famosos filósofos? O que eles dizem, agrada, a fama faz o filósofo, ou justamente, impossível obter fama e tudo o que dela decorre, sem as palavras sábias, as lições de vida que seduzem, que encantam?

E mais: a Filosofia precisa desse conhecimento e dessas ideias? Parece que a Filosofia vai à feira das vaidades, há momentos na entrevista em que um quer suplantar o outro com mais e mais sábias citações. Ora, sem facilitar e simplificar para poder divulgar, condições para atingir fama e público, sem serem agradáveis, com resposta pronta para tudo, inclusive, para um deles, onde e com quem investir, sem serem simpáticos, sorrirem, como ficaria a situação de ambos? 

A vaidade é a morte da Filosofia, a vida da Filosofia é a coerência, o esclarecimento, o questionamento, a humildade, o saber, a seriedade. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Oligarcas russos silenciados e o comunismo

As principais "lições" do comunismo são:

- Censura

- Tirania

- Crueldade

- Mistificação

Com o regime comunista na Rússia, uma centena de oligarcas se apossaram de empresas estatais, e se tornaram milionários. Mas essa ascensão teve um preço, se criticassem o regime de Putin, seriam destituídos de sua fortuna. Foi o que aconteceu com Tinkov, banqueiro que afirmou no Instagram ser a guerra de ocupação da Ucrânia um erro estratégico, uma loucura. Como castigo, foi obrigado a dispor de 97% de seu banco para o governo soviético. Há pelo menos vinte anos que essa é a estratégia de Putin, incentivar e, em caso de desobediência, tomar. Berezovsky, outro poderoso oligarca, que ousou por em dúvida o poder do líder, precisou exilar-se na Inglaterra, onde foi encontrado morto em circunstâncias estranhas.

A promiscuidade entre governo federal no Brasil, certos juízes da corte suprema, a proteção de interesses ilícitos, a dificuldade de aplicar regras a bancos que usurpam a clientela, é acobertada por manobras de interesse privado. A ordem é silenciar por meio de regras que são aplicadas conforme quem ou o quê cabe no momento favorecer. Permanecerá o Banco Central como rochedo protetor do setor financeiro, dos investidores e do próprio governo federal? 

O jogo ideal para mandatários corruptos é a submissão da sociedade ao modelo burocrático que serve tanto para censurar como para mandar e manobrar, para comandar do alto a massa, para impor a absoluta vontade do mandatário servindo-se das artimanhas do poder jurídico e da autoridade presidencial. A propaganda, custeada com dinheiro público é a outra ponta desse tipo de poder.

Em grau mais severo, o das ditaduras com seus líderes, são eles autoridades incontestes que se mantêm ao preço de perseguição, censura, silenciamento de opositores. Estão presentes em quase a metade do planeta, desde Putin e Xi Jinping até Maduro, pobre Cuba (até quando os cubanos vão sofrer com a pobreza?), países africanos, a violência de chefetes militares, matança, a opressão de meninas e mulheres, o terrorismo. 

Xi Jinping é esperto, nada de violência explícita contra oponentes, se é que os há. A tática é favorecer o investimento graúdo enquanto milhões se submetem a trabalhar sete dias na semana, mais de quarenta e quatro horas, o máximo que a legislação trabalhista permite, mas não é obedecida, porque há pressa de produzir, de vender mundo afora. O que fazer com o consumo de tantas "blusinhas" feita na China ou em países franqueados? Descartar, mas onde? Em países africanos, cemitérios da "fast fashion", Gana, Quênia, Tanzânia e Nigéria. 


Montanhas de roupa poluem o Quênia

Já no regime de Putin, nenhuma peça de roupa, ou alguém comprou uma calça ou blusa made in Russia? Petróleo, armas, a guerra como trunfo, a expansão territorial custe o que custar, investimento em poder, esse czar do século 21 consegue a aprovação de todo aquele que não quer ver. 

É um mito do comunismo propagar sua oposição ao capitalismo, que o capitalismo é cruel e injusto. Em países capitalistas há liberdade de opinião e de credo, há regras, há legislação, há eleições livres, há democracia. Algumas podem apresentar falhas, como no caso do Brasil atual, sob o tecido institucional, pratica-se censura, legisla-se em causa própria. A diferença é que existem eleições, oposição, constituição. Críticos não são envenenados, nem têm seu avião bombardeado.

Mandar e desmandar, oprimir, manter em prisões insalubres, torturar, nos regimes em que o comunismo se instalou e usurpou poderes, essas condições são por demais de conhecidas. Ainda assim, como reagem os "intelectuais engajados"? Convenientemente se calam, fazem ouvidos moucos, prosseguem sem dor de consciência a usufruir da liberdade de trabalhar, ganhar seu sustento (que sustento!), investir, viajar, serem aplaudidos, o que eles afirmam abominar no capitalismo, é usufruído, a coerência não lhes importa. Há até mesmo quem afirma "odiar a classe média"!



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A moral de rebanho e os políticos

A necessidade de angariar eleitores a torto e a direito, à esquerda e à direita, de norte a sul, de leste a oeste, quer os políticos tenham ou não capacidade, honestidade, compromisso com o país e a sociedade, essas condições e atuais circunstâncias, transformam os políticos em apascentadores de rebanho.

Há que baixar a cabeça, quanto mais seus seguidores e eleitores fiquem ou se sintam à mercê deles, submissos e engajados à horda, tanto melhor. A moral preconizada decorre de ressentimento que é natural a todos aqueles que, sem ter capacidade, se ressentem, ou pior, quando têm poder, disfarçam essa moral baixa em vitória da mediocridade. Tal ressentimento produz reações, mas nunca ação renovadora. Pelo contrário, há vulgaridade, há mesquinhez, palavras de ordem a serem seguidas sem reflexão, adjetivos ofensivos, bandeiras levantadas nas ruas, protestos para mostrar quem atrai mais adeptos. 

Longe desses ressentidos, senhores da razão, há os que criam valores, suas atitudes são nobres, suas visões são as do alto da montanha, não rastejam, são responsáveis pelos seus atos, se mantêm fortes apesar da estupidez, da idiotice dos que os cercam. São livres, sua vontade soberana não se curva ao senso comum servil, são capazes de discernir.

Os que seguem fielmente a tropa, que se vangloriam de pertencer à tropa, essa condição é o máximo para o chefe, pois sua missão é facilitada pela obediência. O chefe do rebanho mantém as ovelhas sob seu jugo por meio da moralização, ele incentiva todos e cada a serem leais, essa lealdade nunca é questionada. Esses fracos, diz Nietzsche, tendem a se agrupar ao passo que os fortes tendem a se distanciar uns dos outros, agem e pensam com autonomia. Para os que têm espírito independente, para os que não se limitam a reagir, vestir camisa de uma ou outra cor, não significa nada, absolutamente nada.


A cegueira do rebanho


É fácil manter esses fieis sob o domínio do chefe, este se investe de mandatário, um mandatário divino, acima de suspeita, os lados em litígio acreditam piamente que seu chefe, e somente ele pode, deve, e irá governar. 

Uma nuvem escura desce sobre o país, impede a visão, enevoa a crítica, dissemina ódio.

Enquanto isso, os fortes aguardam, sem esmorecer.

"Quase todo político, sob certas circunstâncias, é tão importante mostrar-se um homem honesto, que ele, tal como um lobo faminto entra em um estábulo: não, entretanto, para surpreender um carneiro e devorá-lo, e sim para esconder-se por inteiro em suas costas." (Nietzsche, in: Menschliches, Allzumenschliches. Humano, Demasiado Humano, 1878).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Descartes, o sentido de "Penso, logo existo"

 O centro do pensamento de Descartes (1596-1650) é o "eu", isso nada tem a ver com egoísmo, com egocentrismo. Eu e consciência formam uma unidade, o espírito se contrapõe ao corpo, identificado como uma máquina. Essa conclusão se deveu a um método seguido rigorosamente em sua busca pessoal pela verdade, recolhido em si mesmo, Descartes se propôs a ver claro, a buscar evidências. Para chegar à verdade precisou renunciar ao mundo, a ir por partes, desmontar para depois montar, chegar à rocha sólida em lugar da areia movediça.

Esse racionalismo no sentido mais radical do termo, a distinção entre alma e corpo, segundo o próprio filósofo foi por ele elaborada ao meditar, ao refletir, saiu como que de sua própria cabeça. Viajou, explorou outros povos, nada encontrou que fosse firme, indubitável. Metodicamente foi de dúvida em dúvida até a impossibilidade de duvidar que estivesse duvidando. 

Não seria tudo falso? Para entender que tudo fosse falso seria necessário que ele próprio, Descartes, fosse algo, mas que algo seria esse?

O eu pensante. Poderia duvidar de tudo, inclusive de si próprio, das coisas, do mundo, mas não poderia duvidar que estivesse a duvidar e, portanto, a pensar. A partir dessa constatação, a rocha foi encontrada. Ele foi além: o pensar, pensar na perfeição, essa ideia mesma da perfeição, não viria dele, um ser imperfeito e sim de um ser perfeito. E mais, impossível que a ideia desse ser perfeito não implicasse sua existência. A ideia de um triângulo ou a de uma esfera, mesmo se no mundo não houvesse essas duas figuras, se elas podem ser concebidas de modo claro, distinto e acessível, isso implica em sua realidade ontológica. Descartes conclui da ideia, do conceito, para a existência e possibilidade de certeza para todo conhecimento. 

A cadeia de razões que Descartes iniciou com o estar sentado, sozinho, ao conceber dúvidas, ideias, conceitos e figuras geométricas, e daí deduzir que pensa nisso tudo, evidente que a "substância" que nele pensa é o cogito e não o corpo. 

Penso, logo existo, significa que apenas o racional é a base de tudo, apenas o calculável, o encadeamento de razões, o "se ... então" leva à verdade, e a verdade é baseada em raciocínio matemático, lógico, cuja meta é a certeza. Por sua vez, o fundamento da certeza é a simples possibilidade de pensar o seguinte: "não seria possível que Deus, que é todo perfeito e verídico, as houvesse posto em nós" (Discurso do Método) sem que essas ideias fossem de algo, e de algo que existisse, que fosse verdadeiro. Em última análise, Deus assegura a certeza, a verdade para todo aquele que pensa. Pensar é fundamento de tudo, "impossível que a ideia de Deus que em nós existe não tenha o próprio Deus como causa" (Meditações).


***

O pensar tão diferente do corpo! E se o corpo "pensasse" e não a alma imortal? E se a máquina pensasse e não a razão humana? Os empiristas demonstraram que a realidade fora de nós é matéria para o conhecimento. Os materialistas afirmam que o cérebro é a fonte de conhecimento. 

Descartes, se ele aportasse em pleno século 21, compreenderia que máquinas possam pensar, concluir, criar objetivos, influenciar o comportamento, levar a decisões? Isso tudo sem a interferência de Deus?! Ele diria que estávamos sonhando sob a influência de um deus enganador. Seria a IA esse deus enganador?

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O êxtase

Sentir a vida, o ser palpitando no corpo, nas sensações e na percepção do infinito, do zênite, tentar alcançar o inalcançável, saber que é inalcançável e mesmo buscá-lo, esse é nosso feitio, procuramos decifrar, inventamos meios incríveis para nossa adaptação, subitamente nos deparamos conosco, feitos de carne, osso, de mente e de ação, fracos, frágeis, ao mesmo tempo fortes, imbatíveis. 

A perfeita sintonia com uma crença profunda que não requer resposta, que se basta, encontrar a beleza no voo de um beija-flor, nos primeiros passos da criança, arrepiar-se com o badalar de sinos, por vezes, raras vezes, somos capazes de experimentar o êxtase, um estado em que corpo e mente se confundem, se harmonizam, se conjugam. 

No êxtase místico a ênfase é na religiosidade, na espiritualidade, trazer para si o divino. Um dos exemplos mais notórios é o de Santa Teresa d'Ávila (século 16), seus escritos "O Castelo interior", "O Caminho da Perfeição" narram as experiências de êxtase místico, profunda união com Deus. Santa Teresa fundou várias ordens mendicantes, em suas orações sentia-se levitar.


O êxtase de Santa Teresa , obra de Bernini, século 17

No êxtase estético a ênfase é na harmonia encontrada em obras de arte, a estátua de mármore que parece palpitar como se de carne fosse; a música vibrante de uma orquestra no momento em que entra a soprano; o nenúfar no lago de Monet; o pairar no ar de um pas de deux ; o ângulo de um arquiteto que recria um ambiente.

O êxtase produzido pela natureza, como o vislumbre de uma brecha que descortina a paisagem; o dia que surge, a escuridão que cede à claridade; o som da queda d'água que aos poucos se torna nítido, mais alguns passos ei-la; o horizonte marinho, encontro de céu e mar.

Recepcionar isso tudo: o tempo vivido, tempo no qual o mundo se abre, o mistério de tudo simplesmente existir, a diversidade, como nossa compreensão precisa de recursos, linguagem, corpo, presença, decifração, criações. O eterno apresenta-se no momento único em que nos sabemos mortais, momento este de uma epifania, de uma revelação, de um apaziguamento. 

Despertos de sonhos nos perguntamos, como pareceu tão real? Se sonho, então irreal? Em que sentido? Impossível sua não existência, afinal, o sonho foi lembrado. Sonhar acordado... 

A condição humana intriga, vai desde o mais comezinho sentimento de raiva, de ódio, até o mais sublime sentimento de graça, leveza. Esse bípede que evoluiu neste planeta por obra do acaso, em certas circunstâncias, aos tropeços, vingou como ser pensante, que subiu a um morro e decretou dez mandamentos, que escreveu epopeias, que guerreou e ergueu a bandeira da vitória, é o mesmo ser pensante que criou fronteiras, barreiras, incompreensão, discriminação.

Ser que não para nunca de buscar, de dominar o acaso, prevenir, corrigir, produzir, destruir, abrigar-se, vencer. Ser que, em raros momentos se vê diante de si mesmo, e, no espelho de si próprio descobre-se mortal. Essa revelação extasia.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Sêneca e a Louis Vuitton

 Segunda-feira, dia 17 de novembro de 2025, à 1:30 da manhã, a loja/depósito da Louis Vuitton foi roubada. Na rua lateral à Via del Condotti, um carro foi arremessado à porta, a preciosa mercadoria foi levada sem deixar vestígios. 




Sêneca (47? a. C. - 65 d. C.) nasceu em Córdoba, foi educado em Roma desde cedo, se tornou advogado e membro do senado romano. Despertou a inveja do imperador Calígula, só não foi morto porque Calígula considerou que a frágil saúde de Sêneca o levaria, e o poupou. Ironia, Calígula morreu antes de Sêneca. Este incomodava outro imperador, Cláudio, que o desterrou para a Córsega, onde passou nove anos sofrendo privações. Foi escolhido para educar Nero, que acabou por também perseguir Sêneca, condenando-o ao suicídio induzido.

Essas agruras não o impediram, pelo contrário, talvez até mesmo o tenham estimulado a uma vida austera, bem como à filosofia estoica, especialmente a ética das virtudes.

O tema central de seu pensamento, a tranquilidade da alma, a vida doméstica, a possibilidade de "a alma caminhar numa conduta sempre igual e firme (...) sem se afastar de sua calma, sem se exaltar nem se deprimir", sem precisar lamentar o estado de repouso, nem lamentar-se por não ter nada para fazer, tampouco "invejar furiosamente todos os sucessos do próximo". O remédio: tornar-se útil, consagrar-se aos estudos, praticar ações virtuosas, avaliar a si próprio, "habituar-se a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não de sua sedução exterior (...), aprendamos a cultivar em nós a sobriedade (...), a reprimir nossa vaidade" (in Da Tranquilidade da Alma).

Imaginemos Sêneca despertado de seu sono eterno, a passear e meditar pelas ruas de Roma. Ao se deparar com o movimento na famosa avenida, policiais e um grupo de curiosos, pergunta em uma mistura inteligível de latim e italiano, o que acontecera.

- Levaram toda a mercadoria da loja, responde um transeunte.

- Qual era essa mercadoria? indaga o filósofo.

- Bolsas de luxo, feitas manualmente em couro, com inscrição em letras douradas LV.

- Por que são tão preciosas a ponto de serem roubadas?

- São artigos caríssimos, que apenas mulheres muito ricas e vaidosas exibem onde quer que vão.

- Não entendo, como é possível um artefato em couro despertar tanta cobiça!

- A marca conta muito.

Sem compreender o sentido de "marca", objeto de desejo e luxo despertado por um artefato de couro, o filósofo segue em silêncio seu caminho de volta para o repouso eterno. Em seus pés, apenas sandálias.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A hipocrisia, a má-fé, a boa-fé.

A má-fé e a boa-fé se distinguem da hipocrisia.

A má-fé é intencional, aquele que assim age o faz de propósito para prejudicar alguém, o engano produzido pode levar a consequências desastrosas, por exemplo, perda de emprego de um colega, constranger alguém nas redes sociais, dar falso testemunho. São atos com sérias consequência, mas que podem ser revertidos.

A ação de boa-fé, às vezes confundida com uma ação ingênua, revela, ao contrário, firmeza de caráter, correção, atenção, cuidado.

Pois bem, o hipócrita não age nem com má-fé, nem com boa-fé. O hipócrita é o rei do disfarce, leva os outros a  crerem em seus princípios morais, religiosos, éticos, políticos, que ele é um excelente cidadão, que sua pessoa está sempre aberta para ouvir e acolher a todos, sem distinção. Ele ostenta os louros do bom caráter, ele nunca mente, nunca engana, que seu caminho é o do bem, que os outros é que não o compreendem, que sua fé é legitima, que a fé alheia precisa de comprovação. 

Ao ser contestado, o hipócrita lança mão de subterfúgios, ignora argumentos ou a ação daqueles que expõem suas atitudes e valores à luz dos fatos, da razão, da moral. Ao recobrir mau carácter com um manto de santidade ele convence os incautos ou aqueles que comungam de seus pontos de vista. De frente se mostra cordato, simpático, pronto para angariar a confiança, ganhar votos, distribuir favores. Por trás ele sabe perfeitamente que engana, que ludibria, que seu discurso é lustroso, facilmente enganador, consegue com sucesso explorar os de boa-fé.

O hipócrita convence e engana pessoas que costumam agir de má-fé? Sim, pois seu discurso é de tal modo venenoso,  astucioso, ele se disfarça em pele de cordeiro tão bem que mesmo pessoas mal intencionadas caem na armadilha de suas palavras doces, impregnadas de cunho moralizante, discursos que o hipócrita muda conforme as circunstâncias, de acordo com as conveniências.




A hipocrisia resulta em desconfiança nas instituições, a sociabilidade fica comprometida. O hipócrita, matreiro, assim raciocina: o momento político pede que tipo de ideia, quais atitudes, que decisões convém tomar? Feitos esses questionamentos, ele se pronuncia, expõe, sem pudor suas decisões, ganha publicidade. Seus adeptos o aplaudem. Os de boa-fé são ludibriados.

Dá prestígio mudar discursos, apoiar causas nobres, isto é, aquelas que dão poder, evidência, publicidade, seguidores em redes sociais. Para que comprovar, de que servem compromissos se representar papéis dá resultado? Se o momento pede engajamento em causas ecológicas, e se é possível ignorar os reais prejuízos ao meio-ambiente, por que não aproveitar a chance de erguer essa bandeira? Se ganhar como garoto propaganda de banco prejudica a imagem, que tal aderir à causa religiosa? Usar termos fortes, acusadores, impactantes, é mais fácil e rápido do que analisar situações e apresentar soluções. Simular faz milagres.

Será que um dia a casa cai?