Os estados de coisas, as situações, a história e a cultura, se abrem não de modo único, permanente, estabilizado e sim sob perspectivas, modos de interpretação, reagimos, precisamos nos entender. Isso vale para a concepção hermenêutica.
O relativismo, em contraste, propõe que toda e qualquer percepção, avaliação e conceituação depende de um ponto de vista, ora isso, ora aquilo. Desse modo, não há como sustentar um argumento ou uma causa, pois argumentos requerem decisão, defender causas requer um vai e vem entre oponentes em um discurso que visa entendimento.
Essas dificuldades inexistem para o hermeneuta. A capacidade de avaliar, de conceituar, incide em certo ângulo, em certo tópico da discussão, investiga-se, obstáculos não levam à desistência, problemas permanecem como farol que aponta para a busca, para ir ao âmago de uma questão.
O hermeneuta pergunta, o que se apresenta, como se apresenta, se é um estado de coisa perdurável, mutável, passível de interferência ou se vale mais aguardar. Além disso, ele comunica o resultado de suas avaliações e as submete a seu grupo para discussão. O hermeneuta não exige regra fixa, não demanda clareza total, dispensa chefia, mando, obrigação. Há busca de abertura, de troca de ideias fundamentadas, não exibe performances para ganhar adeptos, "likes", não supõe que suas avaliações sejam definitivas e acima de suspeita, ele expõe criteriosamente, quer dizer, suas posições seguem critérios, do grego krinein, quer dizer, separar, decidir, julgar.
- separar: identificar um problema, um aspecto, uma questão;
- decidir: capacidade de discernir, optar por caminhos e possíveis soluções;
-julgar: difícil e arriscado, pois o erro, a pressa, o despreparo e a arrogância põem tudo a perder.
Gadamer, representante alemão da corrente hermenêutica, diz que o texto, a mensagem, a proposta recebidos, mesmo que inicialmente de difícil compreensão, evidenciam racionalidade fundamentável sob certas pressuposições, por expectativas de sentido provenientes da relação da verdade com o que é dito, que nascem de nosso próprio conhecimento prévio de algo. Se a pressuposição de verdade fracassa, quer dizer que não se conseguiu compreender o que está em jogo. Jogo esse que a pressuposição de falsidade invalida.
Gadamer (1900-2002)
Para Habermas, verdade se deve a uma racionalidade que compreende do que se trata, segundo quais normas, se há autenticidade e veracidade, base para haver entendimento e possibilidade de interpretação em um sistema de referências válido para os agentes capazes de decidir, sob o pano de fundo de uma compreensão ampla do mundo, comum ao autor da comunicação e ao seu ouvinte, ao seu público.
Habermas (1929-2026)
As matrizes de racionalidade devem ser equacionadas, do contrário, como interpretar atitudes e valores de uma cultura com bases inteiramente diversas?
Ao contrário da psicanálise que vai ao inconsciente re-velador, ao contrário da arte com seus múltiplos efeitos fruto de sensibilidade, a hermenêutica se vale de compreensão, interpretação, avaliação e reavaliação, fundamentadas.
Essa é uma das razões pelas quais os julgamentos com base política, ideológica e partidária são tão nefastos. Os fundamentos jurídicos são essenciais ao estado de direito democrático.
Obs.: um exemplo de estudo hermenêutico é o curso de Foucault "Hermenêutica do Sujeito" analisado por mim em "Os Cursos de Foucault no Collège de France, um Guia de Leitura", PUCPRESS, 2025. Na próxima postagem.
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