sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O filósofo cego

Tobias Litterst, nasceu em 1987, mora atualmente em Hamburg, é um jovem professor de Filosofia, seguem trechos de sua entrevista ao podcast Sternstunden sobre seu livro Blind sein: Ein Philosophisher Erfahrungsbericht (Ser Cego: Relato da Experiência de um Filósofo). O entrevistador pergunta como ele descreveria o voo de uma águia ou o céu estrelado, sendo cego de nascença. Ele diz que usa analogias, a experiência de tatear um pássaro, um brinquedo com forma de pássaro, associa as estrelas com uma peça de cristal, forma quadros. Para cores ele usa a descrição de uma qualidade, como a cor vermelha associada a cheiro, agrupada pelas experiências com vinho, tomate. Para ele, o entrevistador é uma voz. 

Felizmente os pais e amigos lhe mostraram o mundo das coisas, altura, peso, contornos. Como seria o escuro? Ele responde que não sabe, pois não sabe o que é a claridade. Para o cego o mundo ou está muito perto ou muito longe, com limites, dá trabalho tatear contornos, superfícies e pontas. Pela audição sente o espaço, lá vem uma bicicleta ou um carro. Dançar não foi uma boa experiência, ao contrário de um concerto que é uma viagem num mundo, termo, aliás, que Tobias usa com frequência para designar sua condição, o que o limita, sua realidade. A música faz parte de sua vida, ele é instrumentista.


Tobias Litterst mora em Hamburg, seus livros estão disponíveis pela Amazon.

Como seriam os sonhos de alguém que nunca viu? Há a imaginação, no sonho os cenários vêm das impressões táteis, o cérebro constrói um mundo de sonhos, como se fossem quadros.

Por que o interesse pela Filosofia? O que é o mundo, como as pessoas nele realmente estão, o que podemos formular no mundo, foi Camus quem "abriu seus olhos", o inspirou com a noção de absurdo, os limites da razão ao experimentar o mundo, a falta de sentido do universo. À pergunta da Teoria do Conhecimento, o que podemos conhecer, como funciona o conhecimento, Tobias afirmou que não quis escrever uma autobiografia e sim investigar o seu mundo da percepção, da sensação e esclarecê-lo.

Quando criança, no jardim de infância, percebeu o mundo como instável e perigoso, precisou da ajuda das pessoas . Se esbarro em uma cadeira no meu caminho tenho que mudar inteiramente meu plano, sei que minha relação com o mundo é realmente diferente. Desde criança, o irmão mais velho e a mãe descreviam as coisas para ele, por exemplo, por a mão em cima da dele para mostrar onde está e o que é uma torneira. A descrição espacial emoldurou o mundo, tornando-o confiável. Para ele, mas certamente não para outras pessoas, tudo o que é externo a ele, é instável, os avós o faziam contornar os brinquedos. Quanto aos mortos, por exemplo, ele tinha medo, pois não podia contornar; ou algo simples como apalpar dentro de uma sacola, o que iria encontrar? 

Estudou Adorno, enalteceu as facilidades que a informática lhe trouxe, para estudos e leitura, bem como a ajuda das pessoas. Se a metáfora do olho aberto para o mundo, da luz, do esclarecimento inspira grande parte dos filósofos, para ele a entrada para a Filosofia se dá pela noção de distância, de contorno e de ligação, o papel da audição é fundamental para fixar e objetivar, assim como seu próprio corpo.

Para ele as políticas de inclusão não são bem-vindas. No final da entrevista, feita no estúdio às escuras, Tobias ganhou uma estatueta com forma de fantasma, como lembrete de suas experiências na infância com brinquedos.

(Podcast disponível no Spotify, 27/12/2025)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Identidade e diferença

A fim de acessar o que nos cerca, usamos o entendimento, que requer conceitos, chamados por Kant de categorias. Elas como que "ajeitam" tudo o que se possa conhecer com sentido e a priori. Por exemplo, enumerar, negar, limitar, as propriedades de causa-efeito, possibilidade-impossibilidade, existência-inexistência, necessidade-contingência. Esses conceitos possibilitam a experiência sem que dependam dela.

A capacidade de representar requer que o sujeito reconheça como suas as representações, a unidade da consciência torna o objeto, objeto para mim. 

Para Kant o par identidade/diversidade (ele não usa o termo "diferença") pertence ao estado da mente assim como externo/interno, concordância/oposição. Kant não prioriza a relação "identidade/diferença".

Busquemos, então, em Heidegger essa relação. "A é A" significa mesmidade do objeto, sem a qual sequer poderia haver ciência. Essa identidade antecede ao ser, ao qual o homem pertence, ele está aberto ao ser. Como o ser se apresenta a nós? Em nossa era, como técnica, planificação calculadora, automatização.

Seremos escravos ou senhores desse plano técnico? Somos interpelados à planificação, à calculabilidade, mesmo o ser é instado a manifestar o ente sob instância da calculabilidade. Por isso o ser das coisas (entes) deixa de ser manifestação da presença, os entes passam a se manifestar por meio de arrazoado, Heidegger usa o termo "arrazoadamento" (p. 184), que é algo vago, usado em construção possibilitada pela linguagem. A identidade é uma propriedade do acontecimento-apropriação na relação entre homem e ser, nessa relação houve um salto para o ser do universo moderno da técnica, da natureza e da história. Esse universo da técnica é constituído de tal modo que não podemos, de forma alguma, dele nos libertar. 

Diz Heidegger: " Um computador calcula hoje num segundo milhares de relações. Apesar de sua utilidade para a técnica, não tem conteúdo" (p. 187, in: Identidade e Diferença, 1957, Col. Os pensadores). Atentem para a data, 1957!


    Heidegger, um visionário.

Passando pelas categorias kantianas, identidade e permanência, pelo "arrazoadamento" de Heidegger, surge a pergunta, como na era tecnológica e da IA interpretaríamos aquela relação?

Penso que a relação identidade/ diferença se deslocou da metafísica e da ontologia, e passou a fazer novo sentido em julgamentos de tipo moral, ético, estético, étnico, político-ideológico. Assim é que "Eu sou (identidade) igual aos meus iguais"; "Eu sou diferente dos que não pertencem ao meu grupo, nação, religião, posição política". Essa diferença marca as relações sociais e políticas atualmente, mais do que nunca, facilitada e expandida pelos meios tecnológicos! Heidegger sorriria...

Da esfera ontológica e metafísica os conceitos de identidade e diferença se deslocaram para a esfera das representações políticas, até mesmo estéticas, têm uso semelhante ao das categorias kantianas, antecedem os julgamentos, as avaliações, bloqueiam as considerações pelo outro, que afinal, é o diferente, não idêntico a mim. Esses podem e devem ser combatidos, desprezados, eliminados. Mas, ao excuir o outro, a diferença se esvai, e, sem ela não há identidade. 

Com quem me identifico, produz outro juízo, que não é a priori, referente a todos aqueles dos quais me difiro, me diferencio. No mundo dos negócios, "fazer a diferença", isto é, sobressair-se; no mundo político-ideológico significa "eu não penso como você, meu lado é o certo, único e deve prevalecer". Avaliar, argumentar, propor, enxergar o outro lado, é desprezível, inútil.

Dessa forma, a identidade muda de sentido, pois a diferença se anula, a atualidade não só é absolutamente tecnológica, como a categoria da diferença perdeu o sentido.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Deserto de ideias

Jornais, streams,  postagens, comunicação instantânea, vídeos curtos, jogos, solução para dúvidas, informação em escala planetária, pergunte e o robô responde, dados e mais dados, a impressão que se tem é a de que não há mais dúvidas, tudo pode ser esclarecido pela IA, que resume, pesquisa, traduz textos, livros, notícias, não sei até que ponto literatura e poesia. Enfim, uma quantidade avassaladora de informação, de dados, de estatísticas, de resolução de problemas, a sonhada Enciclopédia dos Iluministas agora na palma da mão e com acesso praticamente universal.

Mas, cadê as ideias?!

Nas histórias em quadrinhos, quando um personagem tinha alguma ideia isso era (ainda é?) representado por uma lâmpada acesa acima da cabeça, fez-se luz.


Até Donald é capaz


Ter ideia é algo que não pode ser buscado nos milhões de dados, de informação e de comunicação. Ter ideia requer pensar, resultado de estudos, leitura, interesse pelo mundo, pela condição humana, pelas situações banais ou espetaculares, pelas tentativas bem-sucedidas ou não de solucionar problemas, de criar, de insistir, de visão de mundo, de uma total e completa abertura para o ser mesmo de tudo.

Transformar no lugar de apenas reformar, ter ideia como sendo capacidade de questionar com base, com fundamento, com lucidez, com fidedignidade, com sabedoria, com a possibilidade de inovar, de evidenciar o que está acobertado, de ver o simples no complexo e de ver o complexo no simples. 

É raro ocorrer às pessoas que elas podem e devem entender o sem limites de sua capacidade de pensar por si próprias, e que essa capacidade se anula ao aderir a este(a) ou àquele(a) liderança ou mandatário sem pestanejar, abaixar a cabeça e seguir. Decadência, idolatria, imitação, culto à personalidade, anulação de si mesmo, de seus gostos, de suas predileções, que, talvez a pessoa nem saiba quais são tal o nível do conformismo.

Sem pensador algum digno do nome, nenhuma liderança com ideias próprias, renovadoras, há apenas salvadores, ditadores, pastores inflamados, chefes arbitrários, oligárquicos, condutores de massas, líderes apocalípticos, propagadores de ideologias, usurpadores de direitos, manipuladores.

É do interesse desses lidar com multidões, arrebanhar seguidores, cooptar fidelidade, mascarar seus erros em legalismos, erigir supremacias. Seguir o chefe, como na brincadeira infantil, pois seguir é tão cômodo!

Para que pensar se eu posso simplesmente usufruir?