domingo, 15 de fevereiro de 2026

Identidade e diferença

A fim de acessar o que nos cerca, usamos o entendimento, que requer conceitos, chamados por Kant de categorias. Elas como que "ajeitam" tudo o que se possa conhecer com sentido e a priori. Por exemplo, enumerar, negar, limitar, as propriedades de causa-efeito, possibilidade-impossibilidade, existência-inexistência, necessidade-contingência. Esses conceitos possibilitam a experiência sem que dependam dela.

A capacidade de representar requer que o sujeito reconheça como suas as representações, a unidade da consciência torna o objeto, objeto para mim. 

Para Kant o par identidade/diversidade (ele não usa o termo "diferença") pertence ao estado da mente assim como externo/interno, concordância/oposição. Kant não prioriza a relação "identidade/diferença".

Busquemos, então, em Heidegger essa relação. "A é A" significa mesmidade do objeto, sem a qual sequer poderia haver ciência. Essa identidade antecede ao ser, ao qual o homem pertence, ele está aberto ao ser. Como o ser se apresenta a nós? Em nossa era, como técnica, planificação calculadora, automatização.

Seremos escravos ou senhores desse plano técnico? Somos interpelados à planificação, à calculabilidade, mesmo o ser é instado a manifestar o ente sob instância da calculabilidade. Por isso o ser das coisas (entes) deixa de ser manifestação da presença, os entes passam a se manifestar por meio de arrazoado, Heidegger usa o termo "arrazoadamento" (p. 184), que é algo vago, usado em construção possibilitada pela linguagem. A identidade é uma propriedade do acontecimento-apropriação na relação entre homem e ser, nessa relação houve um salto para o ser do universo moderno da técnica, da natureza e da história. Esse universo da técnica é constituído de tal modo que não podemos, de forma alguma, dele nos libertar. 

Diz Heidegger: " Um computador calcula hoje num segundo milhares de relações. Apesar de sua utilidade para a técnica, não tem conteúdo" (p. 187, in: Identidade e Diferença, 1957, Col. Os pensadores). Atentem para a data, 1957!


    Heidegger, um visionário.

Passando pelas categorias kantianas, identidade e permanência, pelo "arrazoadamento" de Heidegger, surge a pergunta, como na era tecnológica e da IA interpretaríamos aquela relação?

Penso que a relação identidade/ diferença se deslocou da metafísica e da ontologia, e passou a fazer novo sentido em julgamentos de tipo moral, ético, estético, étnico, político-ideológico. Assim é que "Eu sou (identidade) igual aos meus iguais"; "Eu sou diferente dos que não pertencem ao meu grupo, nação, religião, posição política". Essa diferença marca as relações sociais e políticas atualmente, mais do que nunca, facilitada e expandida pelos meios tecnológicos! Heidegger sorriria...

Da esfera ontológica e metafísica os conceitos de identidade e diferença se deslocaram para a esfera das representações políticas, até mesmo estéticas, têm uso semelhante ao das categorias kantianas, antecedem os julgamentos, as avaliações, bloqueiam as considerações pelo outro, que afinal, é o diferente, não idêntico a mim. Esses podem e devem ser combatidos, desprezados, eliminados.

Com quem me identifico, produz outro juízo, que não é a priori, referente a todos aqueles dos quais me difiro, me diferencio. No mundo dos negócios, "fazer a diferença", isto é, sobressair-se; no mundo político-ideológico significa "eu não penso como você, meu lado é o certo, único e deve prevalecer". Avaliar, argumentar, propor, enxergar o outro lado, é desprezível, inútil.

Dessa forma, a identidade muda de sentido, pois a diferença se anula, a atualidade não só é absolutamente tecnológica, como a categoria da diferença perdeu o sentido.

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