domingo, 24 de novembro de 2024

Imanente e transcendente

Imanência e transcendência se opõem enquanto conceitos filosóficos. 

O que é imanente? A primeira imagem que ocorre é o de estar à mão, disponível, acessível imediatamente. Um exemplo clássico de filosofia da imanência é a de Schopenhauer (1788-1860). O que se conhece é o mundo efetivo, que é mutável, inesgotável, multifacetado. Esse modo de conceber se opõe às metafísicas do infinito, da busca do que está para além dos sentidos, do que é absolutamente em si mesmo e como que paira acima de tudo, causa de tudo. 

Por isso mesmo as filosofias da imanência rejeitam o historicismo, a concepção de que tudo muda, de que a história e tudo está em vir a ser permanente, de que a roda não para de girar, de que esse movimento é sem fim, como é o caso de Hegel.

Ao contrário, o filósofo imanente não se interessa por questões da origem primeira de todas as coisas, de onde e para onde todo ser veio, e a que se destina, de que o ser é condicionado a um fim. Os filósofos da imanência discordam de que tudo na natureza e no mundo tem uma explicação, que só se pode compreender por meio do conhecimento das causas.

Somos assim, e tudo está assim, como que assentado em seu próprio invólucro, e este se basta, se abre e realiza suas potencialidades, seu ser desse modo e é por meio desse mesmo modo que ele se apresenta. Encontra-se plenitude e satisfação na contemplação e na intuição, na fruição do objeto, na vontade inteiramente imersa nas coisas, no aqui e no agora. É-se enlevado e absorvido, a ponto de o querer, a vontade se deterem no presente. 

Um exemplo: a instantaneidade pode ser captada imediatamente pelo celular, multiplicação de selfies. E isso serve provar que se está ali naquela situação. O problema é que este afã pela autoimagem impede de olhar em volta, perde-se essa imersão no que encanta de uma paisagem. Imanência seria, neste caso, absorção pela luz, pela movimento das águas, pelos ruídos da natureza, o farfalhar das árvores; estar ali em vez de focar em si. O fotógrafo e o artista não indagam a causa, eles captam e contemplam.



Foto FBL por do sol Agudos do Sul

Quanto à transcendência (não confundir com transcendental, que é sempre racional, formal, necessário e a priori), o mundo que se conhece e no qual se vive, não é a verdadeira, suprema e efetiva realidade. O mundo imanente engana, o mundo transcendente vai além do sensível, o que se conhece verdadeiramente é o que não se vê e nem se toca, apenas é intuído por meio de conceitos, de ideias, e são estes que tornam a realidade percebida ser o que ela é mesmo, sua causa e sua finalidade. Nem a causa e nem a finalidade estão presentes no aqui e no agora, mas são elas a verdadeira realidade por detrás desse mundo que nos cerca. 

Como o mundo sensível é mutável, e o que é mutável é incognoscível, quer dizer, ora é ora não é, para conhecê-lo deve haver um meio, algo através do que o mutável se estabiliza, a causa. Por exemplo, as quatro causas de Aristóteles: causa formal (sem ela algo não é identificável), causa material (sem ela nada possuiria substrato), causa final (tudo tem um fim, um uso determinado), causa eficiente (a ação que determina um ser como tal). 

E como tudo veio a ser? Por meio de uma causa poderosa, autossuficiente, que a tudo gera, o criador de tudo. O que transcende a tudo? Deus. 

Deus imanente seria impossível.

domingo, 17 de novembro de 2024

O preço da civilização

 

Para concluir esse passeio pela obra de Freud, "Mal-Estar na Civilização", (Kultur) ou na "Cultura" , como se traduziu para o português, a visão do psicanalista é pessimista. Houve evolução no domínio da natureza, mais belos parques, asseio, ordem, criações do espírito humano. Mas, a justiça e o direito sacrificam os indivíduos em nome do todo. Os instintos e as pulsões são sublimados nas atividades mais elevadas, ciência, arte, ideologia, quer dizer, a civilização cobra o preço da renúncia aos prazeres, reprime, sublima e recalca. 

Evoluímos desde as sociedades primitivas, cabe ao homem o trabalho, à mulher cuidar das crianças, a satisfação com o amor genital, que se tornou central, levou a uma concepção ética de amor universal e sendo universal é injusto por não permitir escolha e, além disso nem todos os seres humanos são dignos de serem amados. A família conjugal restringe o amor e a vida sexual, e cada vez mais a esfera cultural se impõe com tabus, leis e costumes. Restrições impostas pela civilização que legitimam o amor heterossexual em prejuízo do prazer. Amor ao próximo? O próximo muitas vezes não é digno de amor, mas de hostilidade, sem o mínimo de afeição e consideração. O instinto de agressividade leva a "infligir sofrimento ao outro, martirizar e matar". No ano em que Freud afirmou isso, o mundo já conhecera o morticínio da 1a. Guerra Mundial. O postulado comunista de que a fonte de todo mal reside na propriedade privada, e de que o trabalho seria plenamente satisfatório, parece a ele "uma ilusão sem nenhuma consistência".


A grande fome na URSS (Holodomor)

E mais, intolerância, antissemitismo, a realização do sonho germânico de supremacia mundial, o comunismo soviético e seu pressuposto de eliminar a burguesia, todos esses pesados sacrifícios mostram que a civilização não nos torna melhores nem mais felizes. Quanto às sociedades de massa, elas nos beneficiam ou ameaçam?

O princípio de prazer conserva o eu que vence com alto custo, o da luta do narcisismo contra a libido dirigida ao objeto. A pulsão agressiva pode se voltar contra o eu, masoquismo, ou sadismo que é a destruição do outro. Bondade divina juntamente com a ameaça do mal.

O entrave mais poderoso da civilização é o instinto primitivo de agressividade. Eros reuniu indivíduos, tribos, nações, a própria humanidade, "mas a pulsão agressiva natural aos homens, a hostilidade de um contra todos e de todos contra um, se opõem a este programa da civilização".

As exigências morais, a angústia, a autopunição, essa espécie de autoridade interior da consciência leva ao sentimento de culpa. O Eu infantil submetido à agressão do Pai, a criança se vinga dessa agressividade, nascem a consciência e forma-se o Super Ego. 

Quanto mais civilização, maior o sentimento de culpa e a perda da felicidade. O indivíduo busca realizações, mas a sociedade o restringe. O Super Ego individual, se defronta com o Super Ego da civilização com seus ideais e obrigações, essas exigências resultam em neuroses. Revolucionários ou conformistas, ambos pretendem sustentar suas ilusões. 

Freud afirma que não é profeta e nem consolador. Se ele pretendesse a um ou a outro desses papéis, estaria se contradizendo. Do ponto de vista psicanalítico, não há escapatória: Eros imortal em luta contra seu adversário, também ele imortal.

***

Nessa luta de gigantes, vamos nos "virando", por assim dizer. 

PS: outros gênios da arte, da ciência, da filosofia interpretam nossa trajetória de forma diferente. Há que dar lugar em nossa "estante" para eles também...

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A felicidade segundo Freud

Na postagem anterior a felicidade se mostrou impossível. Apesar disso, ela é almejada como se lê em Freud, O Mal Estar na Civilização (1929). Freud não pretende provar nada e sim apontar para aspectos psicanalíticos, é claro. O sentimento do Eu tem limites precisos, se prolonga no Si, quer dizer, o Eu se altera com relação ao mundo ao sair do seio materno e pela primeira vez entrar no mundo, princípio de realidade, do qual é preciso se defender; para tal o Eu exclui o exterior. Esses elementos da vida psíquica se conservam.


Sigmund Freud,1856-1930, médico neurologista, pai da psicanálise

Os sentimentos religiosos são necessidades poderosas, remetem à nostalgia do pai, sua proteção, sentimento infantil de dependência. A vida é pesada e dura, cheia de obrigações, daí a busca por sedativos que são a diversão, satisfação com drogas e outros meios que nos tornam insensíveis. Qual a finalidade da vida? Acima de tudo a finalidade é buscar a felicidade, as fontes de prazer, o que Freud chamou de "Princípio de Prazer", evitar a dor, obter satisfação plena. A religião é uma dessas fontes. 

Porém, a infelicidade vem do que é inevitável, a decadência do corpo, a pressão de forças externas e as relações com os outros. Com que meios reagir? Mergulha-se no prazer, foge-se da realidade, usa-se alguma droga. Para evitar as preocupações, o fardo da realidade, busca-se refúgio num mundo à parte que possa dar melhores condições para a sensibilidade, usar defesas como praticar ioga, sublimar os instintos, por meio da arte, resolver um problema científico, descobrir verdade, e o mais eficiente, trabalhar. O trabalho funciona na "economia da libido", é também uma questão obviamente de sobrevivência que agrada a uns e que para muitos não passa de obrigação.

No esforço para obter felicidade e fugir da infelicidade, em outro contexto, o amor, amar e ser amado, retorno ao prazer infantil. O problema são as decepções. Outra via é a beleza, mas a satisfação pela arte é passageira. Freud entende que a psicanálise pouco tem a dizer sobre a beleza. 

Restam quatro tipos de inclinação, ou melhor, sublimação dos instintos: o erótico, o narcisista, o homem de ação e a fuga pela neurose ou psicose. Já deformar a realidade como se fosse um sonho, papel da religiões, deformação quimérica da realidade, é um delírio, menos para os que creem. Em todas aquelas inclinações, a religião interfere ao impor um só caminho, o da imunidade ao sofrimento, a submissão às exigências da crença que serve como último e único consolo e alegria.

E a civilização? As instituições que poderiam nos trazer proteção e realização, não trazem e pior, foram nós mesmos que as instituímos. A civilização está na origem das neuroses. Os domínios técnico e científico como fontes de prazer ou satisfação, não nos tornam mais felizes.

Por quais razões? Fica para a próxima postagem.

sábado, 2 de novembro de 2024

"A felicidade não se compra" - ditado popular.

O ditado acima pode também ser interpretado como, "o dinheiro não traz felicidade". Ambos os ditados saíram de moda. 

No mundo corporativo pode-se entender felicidade como algo que pode ser posto no balcão de negócios. Há até mesmo congresso de felicidade, com palestrantes de amplo alcance, benzedeira/rezadeira; curandeiro; comunicadores; psicanalistas; professor de música; profissionais de clínica mental. Impressiona o leque de especialistas capazes de aconselhar e atender a expectativa do vasto público presente. A intenção evidente é obter resultados, resultados que contrariam o ditado popular de que dinheiro não traz felicidade. Não que a falta dele de algum modo tivesse o efeito contrário. Pobreza não é infelicidade, pobreza é sofrimento, desgraça. 

Felicidade no mundo dos negócios é felicidade corporativa. Essa felicidade é vista como impulsionadora de cultura e de resultados, como se lê no chamamento de palestrante financiado pela Heineken do Brasil. 

Que tipo de felicidade, então, o dinheiro, ou melhor, os investimentos produtivos impulsionam? Os negócios. Mesmo porque, sem patrocínio, seria inviável convidar tantos palestrantes.

Isto posto, sem pretender de forma alguma que iniciativas como esta, de um congresso de felicidade, não devam ou não precisem ser patrocinadas. Uma coisa leva à outra. Não se está aqui criticando o capitalismo como selvagem, ceifador, destruidor, malévolo. Em termos de economia, emprego, bem-estar, ao mesmo tempo, luta por trabalho digno e sobrevivência, age o mercado que segue demandas e, é até certo ponto controlável por governos sérios e responsáveis.

Tudo muda quando se olha por outro prisma, simplesmente a vida das pessoas, seus valores e sentimentos, projetos e necessidades.  

Quem sai para trabalhar ainda de madrugada, de ônibus, muitas vezes lotados, trabalha oito horas e volta cansado/a, dinheiro é apenas questão de sobrevivência.

Para a maioria dos filósofos, a busca da felicidade é uma farsa, um engano, uma ilusão. A vida não conduz à supressão dos desejos, e nem permite suprimir os impulsos, impossível anular os anseios e a vontade, vontade disso ou daquilo. O não ter algo, o não ser algo que se quis, que se quer ou que se desejaria ser ou ter. Impulsos nos movem, os motivos ficam trancafiados em caixas, por vezes são tantos e tão díspares que é preciso um container. Nossos sótãos e porões se enchem com dúvidas, incertezas, surpresas, realizações e frustrações que são acomodadas nos espaços apertados desses sótãos e porões.

Para trazer tudo isso à tona, para evidenciar que não poderia ser de outro modo, que é preciso aceitar isso ou aquilo, sofre-se verdadeiros abalos emocionais. Paixões, medos, desejos nos curvam. Sucumbir ou superar, negar ou aceitar, absorver e saber lidar, são percursos que aliviam. Mas não trazem felicidade.

Como entender que alguém levante e se arrume para o serviço, tome um ônibus, cochile ao lado do colega de trabalho, no caminho seja atingido por um tiro na cabeça?

Os filósofos que pensam a existência humana como luta e sofrimento, chamados de pessimistas, olhariam para o crime organizado, para Gaza, para a Ucrânia, para ruas com carros amontoados em meio a um lamaçal, diriam ironicamente, cadê a tal felicidade?