Em reflexões contundentes Nietzsche investiga a origem dos valores em Genealogia da Moral. Eles não valem por si mesmos, tiveram uma proveniência, em algum momento foram inventados, e daí a pergunta, como isso se deu?
Em uma escavação demolidora, e isso é justamente a genealogia, para mostrar que os valores são fruto do desenvolvimento da vida. Seriam sinais de degenerescência ou de força e plenitude? Os valores têm a marca humana, importa perguntar para que servem, de onde provieram bem, bom, mal, seu uso beneficiou a quem? A tese do filósofo é a de que o sentido nobre das avaliações aviltou-se e se tornou o modo de valorar de fracos e submissos. Estes se valem dos juízos de valor morais para impor sua fraqueza. É como se os fracos se travestissem em fortes por meio de ameaça.
Como surgiram certos usos, por exemplo de "simples" que evoluiu para o sentido pejorativo de "banal", próprio de plebeus e não de nobres. A noção de falta moral proveio da noção de dívida a ser cobrada com represália. Esses são exemplos de como a má-consciência funciona, ela é como uma doença que traz vantagens, se faz presente em cultos, na distribuição de honrarias, não é contrariada por medo, medo de serem esses fracos alijados, rejeitados, neles prevalece o sentimento de culpa. As qualidades de ser nobre, heroico e o sentimento do divino como que se dissiparam, seus opostos predominaram na terra e foram transportados para o céu em termos de castigo eterno ou prêmio eterno.
Essas considerações, aplicadas à condição humana, representam uma crítica de Nietzsche às construções da moralidade, da religiosidade, do caráter mesquinho e das contradições, especialmente de mandatários. Projetado para nossos dias, é possível acrescentar que esses chefes e chefetes se acham iluminados, com razão em tudo o que fazem, ordenam matanças, se utilizam de eleições, se travestem de bonzinhos, apenas seu lado é o do bem, apenas ele ou eles têm razão!
Não é incrível que, em algum momento da evolução houve um "grão de razão humana e de sentimento de liberdade" transmutados em valores de sofrimento, de dissimulação e negação daquela mesma razão que tornou perigosos o bem-estar, a vontade de saber, a paz. O ideal ascético para o filósofo representa como que um novo céu sem o qual seria impossível ser filósofo, ideal que se tornou hostil à vida, a uma casa simples, a uma visão do alto, valores mais nobres do que o decadente valor de sacrifício.
"Desde tempo muito longínquo a terra é um asilo de loucos" (Nietzsche, Généalogie de la Morale, p. 107).
O que essa interpretação nietzschiana significa? Não há um fundamento original que seja sólido e único o suficiente para dar conta de tudo, e, quando esse "fundamento" inventado pelos fracos é seguido, idolatrado, venerado por muitos e durante muito tempo, passa a ser cultuado como único verdadeiro, ao qual todos devem se submeter. Não passa pela cabeça do rebanho reconhecer que são apenas artimanha, invenção, uma invenção útil, é claro.
Fomos inculcados com falta, pecado, culpa, treinados a repetir, a sermos proletários felizes, a formular "a justiça dos tartufos impotentes" (p. 176) posando de honestos. A ponto de os realmente felizes sentirem vergonha de serem felizes...
Tartufo, personagem de Molière (1622-1673), encarna a hipocrisia, a dissimulação, o devoto enganador.
Chefes do passado e os atuais, são exemplares desse tipo. Saltam aos olhos aqueles que mandam e desmandam em sua supremacia, serve a eles como luva o que diz Nietzsche: "Seres fisiologicamente perturbados (detraqués), caducos, corroídos por vermes, todo um reino oscilando com vingança subterrânea (...) em suas máscaras de vingança" (p. 141).
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