sexta-feira, 17 de abril de 2015

"Penso que vai chover, logo existo" (!!!)

A frase acima foi pronunciada por Wittgenstein em um debate em Oxford em fins dos anos 40. O tema era o cogito de Descartes. Trata-se de usar seu método de mostrar o que faz e o que não faz sentido dizer, conforme o contexto, e mais, sua concepção de que problemas filosóficos podem e devem ser dissolvidos pelo uso da linguagem comum. Isso irritou o debatedor. Afinal, o que é o cogito?, indagou este. Ora, filósofos e seus problemas, como essência, mente, intenção, realidade, verdade, e tantos outros conceitos filosóficos, quando retirados da problematização que se faz em Filosofia, por meio de generalizações e abstrações, nada significam.
Assim, se alguém dissesse: "Penso que vai chover, logo existo", parodiando o famosíssimo e para lá de emblemático, "Penso, logo existo", base da filosofia racionalista, Wittgenstein diz que não se saberia do que tal pessoa estivesse falando.
Dissolução da linguagem privada, e também de mente, pensamento, consciência. São palavras que só significam quando usadas em formas de vida, quer dizer, em certos jogos de linguagem.
Tudo começou com a reflexão sobre lógica quando tinha apenas 19 anos. Como se relacionam linguagem e realidade? O mundo consistiria de fatos, eles constroem . Aos poucos o que faz sentido dizer não está mais inscrito nas proposições lógicas e Wittgenstein põe em dúvida o arcabouço lógico-linguístico do mundo, do dizível, do constatável, e estende sua análise para além da "pureza cristalina da lógica". No dia a dia, o uso normal da linguagem desautoriza o esquema de espelhamento entre proposições e estados de coisa.
Em meio aos problemas filosóficos, outros o atormentavam, como se lê em sua biografia (O dever do gênio, de Ray Monk) mais, muito mais. As dúvidas com relação a sua pessoa, sua integridade moral e emocional, seus dilemas de homossexual, como dominar e dar sentido aos seus atos, a necessidade de examinar as questões filosóficas, em especial a filosofia da matemática, a sensação ambígua de que mesmo com inequívoco interesse pela filosofia, a vida prática parecia-lhe mais convidativa, mas acolhedora e proveitosa.
Filósofos profissionais em sua arrogância e pretensão, eram abominados. A vida reclusa, ensinar crianças em aldeias remotas, cuidar de jardim, serviços militares na I Guerra, e mais tarde serviços em hospital com feridos da II Guerra, lhe era preferível, fazia sentido, ajudava muito mais do que suas aulas em Cambridge.
Russell foi amigo e protetor, o que não impediu de criticá-lo e mostrar-lhe que a teoria dos tipos não dava conta da lógica, que lógica e matemática eram dois terrenos distintos.
A construção da única obra publicada em vida, Tractatus Logico-Philosophicus, foi árdua, retirou-se para a Noruega a fim de dedicar-se à reflexão. A questão da igualdade não pode ser dita, "A" é o mesmo que "A", pode ser mostrada, exposta; "B" ser diferente de "x", "y", "z" pode ser mostrada, a lógica se constitui de conjuntos de signos; entre seus métodos, o das tabelas de verdade. A esfera mística, em que as dúvidas o perturbavam, só pode ser mostrada em ações. Ao mesmo tempo em que necessitava da solidão, necessitava também de amizades sinceras, e mesmo de amor. Riqueza, em especial a de sua família, foram dispensadas, gostava de levar uma vida restrita.
Ironizava tudo que era levado a sério, inclusive sua própria filosofia, e desconfiava da ciência, da cientificização da cultura e de como a sociedade cultuava a ciência e o cientista.
Isso não o impediu de inventar máquinas e instrumentos e isso tendo sempre em vista necessidades práticas.
"A ética, na medida em que brota do desejo de dizer algo sobre o sentido da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser ciência. O que a ciência afirma, nada acrescenta".
Excelente recado aos que pretendem que a ciência explique tudo, até mesmo o sentimento de crença religiosa.
Wittgenstein é desses filósofos revolucionários, não via problema em pisoteiar pilares da Filosofia para continuar respirando.

3 comentários:

  1. Até que enfim um respiro de ares wittgensteinianos, puros. Obrigado professora Inês. Parabéns pelo blog.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Sim, Wittgenstein é o ar livre em filosofia

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