Que pensamento incrível e certeiro esse de Nietzsche!
E o que ele quis dizer?
Em toda a história da Filosofia, até ele Nietzsche, houve essa marca de vaidade e de considerar-se como único, verdadeiro e insubstituível pensador. Ora, como é possível que cada qual se considere mensageiro da verdade e os outros não? Seriam portadores de mentiras?!
Um olhar para o desfilar dos filósofos mostra que, por um lado, se o pensador não praticasse com seriedade sua doutrina e se não estivesse convencido de contribuir com um pensamento original, teria que calar-se. Por outro lado, se estivesse convencido de que só ele teria razão, deveríamos abandonar a história do pensamento filosófico Ocidental.
Como sair desse dilema?
E mais, o próprio Nietzsche seria uma alternativa para fazer a crítica e não cair na própria armadilha? É o que se chama em filosofia de "aporia", impossível afirmar algo sem destruir ao mesmo tempo o argumento.
O filósofo opina ou diz a verdade?!
Opiniões podem ser aceitas ou rebatidas, já a verdade seria única.
Não é bem assim. Opiniões não criam amarras, não comprometem, e a verdade compromete?
Acho que é por aí, há um compromisso com os argumentos, raciocínios, ideias, conceitos, noções e demais meios de que os filósofos dispõem para apresentar suas contribuições à crítica do pensamento.
Sempre que se tratar de criticar, de expor sem contradições os argumentos, o filósofo faz uso legítimo de suas ideias e conceitos.
Se ele tergiversa, se bloqueia o raciocínio, se cai em contradição e aporias, a missão filosófica perde sentido.
Esse é outro desses conceitos filosóficos que são essenciais, fazer sentido.
Faz sentido a afirmação de Nietzsche de que todos os filósofos são até ele vaidosos, que todos se pretendem verdadeiros. É isso que ele quer dizer, faça filosofia, isto é, seja um filósofo comprometido com a história, amar suas verdades leva a ignorar o quão pouco sabemos.
E isso não tem a ver com atitudes de humildade ao estilo do rebanho, ao rebaixamento, e sim com atitudes de serenidade, de alegria e satisfação de se saber produtor de ideias, renovador, inovador, aquele que abre caminhos sem exigir aplauso ou submissão.
Os ideólogos exigem adesão cega, seguir o chefe, aceitar (ou seria engolir) a doutrina.
A Filosofia permite respirar, inspirar, e ir adiante.
Fazer as perguntas que ampliem a crítica evita aceitar passivamente os instrutores, os ideólogos, os doutrinadores.
Kant dissera que é mais fácil segui-los, como na brincadeira infantil: "Tudo o que seu mestre mandar, faremos todos!".
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
sábado, 31 de agosto de 2019
A metafísica para Heidegger
Em Ser e Tempo e especialmente em Introdução à Metafísica, Heidegger introduz conceitos que renovam a metafísica. Ele não pertence ao rol dos filósofos pós-metafísicos, quer dizer, pensadores como Foucault, Rorty e Habermas.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Wittgenstein: "Se um leão pudesse falar, nós não o compreenderíamos"
A afirmação acima se encontra em "Investigações Filosóficas", cujo tema principal é o sem número de jogos de linguagem por meio dos quais nos servimos para diferentes e diversos usos.
Em parágrafos numerados, Wittgenstein (1889-1951)
expõe vários exemplos de situações corriqueiras, como pedir algo a alguém, explicar, mostrar, ordenar, descrever, saber disso ou daquilo, representar por meio de figuras, interpretar, ver algo como isso ou aquilo, apontar, distinguir mudanças de aspecto e muitos outros usos da linguagem.
O que ele pretende com essas descrições é trazer questões filosóficas do patamar abstrato e superior, para o normal do dia a dia. Os conceitos de consciência, de imagem, de sensações, de vivências, de clareza, de certeza, de verdade, de espírito entre muitos outros, são dissolvidos em sua complexidade por meio do emprego em questão, por meio das situações nos quais ocorrem.
A linguagem descreve uma imagem, o que fazer com essa imagem?
A própria imagem indica um emprego, evocará um sentimento? Um sabor? Uma cor? Um sonho?
Alguém diz "Tenho medo", e isso pode ser entendido como uma confissão, um alerta, que se deve tomar cuidado, enfim, para a compreensão do significado de um jogo de linguagem importa o que se quer dizer, a ocasião, a intenção, o resultado, e tantas outras situações, como enganar alguém, manipular, ou simplesmente esclarecer um sentido.
Por isso mesmo, se um leão pudesse falar não o compreenderíamos, esse exemplo é uma hipótese absurda que serve apenas para ilustrar o que Wittgenstein propõe como objeto de sua análise filosófica, isto é, investigar nossas formas de vida e concluir a partir de aspectos que dão inteligibilidade às nossas ações, entre elas as ações linguísticas. Nossas formas de vida são radicalmente humanas, e não leoninas. Dizemos que o leão ataca, mas isso é na nossa perspectiva...
O que construímos, como o fazemos, nossa vida cotidiana, os atos corriqueiros são o objeto de análise do filósofo.
Ao invés de penetrar na reflexão filosófica do que é mesmo a verdade, por exemplo, Wittgenstein vai às situações em que precisamos usar o termo. E o mesmo com os vários conceitos filosóficos.
E com essa virada em direção à linguagem cotidiana, Wittgenstein não estaria "menosprezando" a Filosofia?!
Filósofos como Habermas pensam que sim. Afinal, reduzir verdade, pensamento, justificação às situações em que ocorrem em nossas vidas, seria o mesmo que reduzir a Filosofia ao senso comum.
O que Wittgenstein responderia?
O que interessa é o que podemos fazer com a linguagem. Essa virada pragmática horizontaliza as questões e nos deixaria como que aliviados do peso de ter que investigar a fundo o que são mesmo as coisas, o que é mesmo o homem, o que é mesmo o conhecimento, e assim por diante.
Essa "terapia filosófica" não convenceria outro filósofo da atualidade, Heidegger. O homem, mesmo quando considerados os aspectos mais simples de sua existência, ainda assim é o "pastor do ser".
O importante é que essa troca de ideias dos filósofos nos faz entender que nenhum pensador é completo, nenhuma perspectiva filosófica é única, o diálogo entre saberes permanece como o ensinamento por excelência da História da Filosofia.
Em parágrafos numerados, Wittgenstein (1889-1951)
O que ele pretende com essas descrições é trazer questões filosóficas do patamar abstrato e superior, para o normal do dia a dia. Os conceitos de consciência, de imagem, de sensações, de vivências, de clareza, de certeza, de verdade, de espírito entre muitos outros, são dissolvidos em sua complexidade por meio do emprego em questão, por meio das situações nos quais ocorrem.
A linguagem descreve uma imagem, o que fazer com essa imagem?
A própria imagem indica um emprego, evocará um sentimento? Um sabor? Uma cor? Um sonho?
Alguém diz "Tenho medo", e isso pode ser entendido como uma confissão, um alerta, que se deve tomar cuidado, enfim, para a compreensão do significado de um jogo de linguagem importa o que se quer dizer, a ocasião, a intenção, o resultado, e tantas outras situações, como enganar alguém, manipular, ou simplesmente esclarecer um sentido.
Por isso mesmo, se um leão pudesse falar não o compreenderíamos, esse exemplo é uma hipótese absurda que serve apenas para ilustrar o que Wittgenstein propõe como objeto de sua análise filosófica, isto é, investigar nossas formas de vida e concluir a partir de aspectos que dão inteligibilidade às nossas ações, entre elas as ações linguísticas. Nossas formas de vida são radicalmente humanas, e não leoninas. Dizemos que o leão ataca, mas isso é na nossa perspectiva...
O refúgio de Wittgenstein em uma cabana nos fiordes da Noruega.
Viver simples, pensar simples
O que construímos, como o fazemos, nossa vida cotidiana, os atos corriqueiros são o objeto de análise do filósofo.
Ao invés de penetrar na reflexão filosófica do que é mesmo a verdade, por exemplo, Wittgenstein vai às situações em que precisamos usar o termo. E o mesmo com os vários conceitos filosóficos.
E com essa virada em direção à linguagem cotidiana, Wittgenstein não estaria "menosprezando" a Filosofia?!
Filósofos como Habermas pensam que sim. Afinal, reduzir verdade, pensamento, justificação às situações em que ocorrem em nossas vidas, seria o mesmo que reduzir a Filosofia ao senso comum.
O que Wittgenstein responderia?
O que interessa é o que podemos fazer com a linguagem. Essa virada pragmática horizontaliza as questões e nos deixaria como que aliviados do peso de ter que investigar a fundo o que são mesmo as coisas, o que é mesmo o homem, o que é mesmo o conhecimento, e assim por diante.
Essa "terapia filosófica" não convenceria outro filósofo da atualidade, Heidegger. O homem, mesmo quando considerados os aspectos mais simples de sua existência, ainda assim é o "pastor do ser".
O importante é que essa troca de ideias dos filósofos nos faz entender que nenhum pensador é completo, nenhuma perspectiva filosófica é única, o diálogo entre saberes permanece como o ensinamento por excelência da História da Filosofia.
terça-feira, 16 de julho de 2019
Nietzsche: "Quem não é ave não deve voar sobre abismos"
A frase acima significa que os fortes, apenas eles, ousam voar tal como aves sobre abismos.
Muitas metáforas de Nietzsche servem para que vejamos a condição humana assemelhada à dos nobres animais (leão, ave de rapina), e quase sempre na "paisagem" predileta do filósofo: as alturas, os abismos, o alegre meio-dia, a luz, a dança.
Se levarmos em conta a vida de Nietzsche de muito sofrimento físico, dores de cabeça alucinantes, paixões não correspondidas, ficamos até mesmo perplexos perante sua vasta produção intelectual e a mensagem original, única, que inverte valores aos quais a tradição filosófica nos habituou.
Vontade de poder nada tem a ver com ambição, moral dos fortes nada tem a ver com luta pela sobrevivência, eterno retorno nada tem a ver com transmigração das almas, o ateísmo nada tem a ver com descrença.
A força da vida, desde seus elementos mais simples até nós, os humanos demasiadamente humanos, o não servilismo, a reinvenção de valores no sentido de evitar sentimentos como o de culpa, de pertença à massa, ao rebanho, ao pobrezinho humilde, trata-se, repito, de uma reinvenção que exige de si ir à luta.
E, novamente, não a das espadas, não a da busca do conforto material, não a dos bens. A luta é interior.
Que interior seria esse?
O interior socrático do conhece-te a ti mesmo, a iluminação da alma imortal, o interior do penso, logo existo de Descartes, ou trazendo mais para a atualidade, o inconsciente psicanalítico?
Não, nada desse tipo introspectivo e sim da força vital.
Cada qual se torna criador de seu ideal, revê seus valores, prescinde de guias espirituais, de gurus, prescinde do Estado diante do qual multidões se ajoelham, prescinde do poder econômico.
Entretanto, essas atitudes não excluem a visão do terrível, do absurdo.
A abundância da vida fortalece, imbuídos dessa vontade de poder, não há porque recorrer a um salvador, a um criador de todos os seres. Nós seríamos nossos próprios criadores!
Mensagem de difícil compreensão e de mais difícil ainda realização.
Estamos cada vez mais imersos na multidão, somos usados pelo obscurecimento de religiões de massa, de líderes políticos mistificadores, somos a curva dos gráficos, ingerimos por vezes o mais abjeto dos pratos. O que vem pronto, aquele no qual tivemos zero de participação.
A moral dos senhores seria algo próximo ao sentido dado à própria existência, ou melhor, à vida. Substancial, serena, criadora.
Muitas metáforas de Nietzsche servem para que vejamos a condição humana assemelhada à dos nobres animais (leão, ave de rapina), e quase sempre na "paisagem" predileta do filósofo: as alturas, os abismos, o alegre meio-dia, a luz, a dança.
Se levarmos em conta a vida de Nietzsche de muito sofrimento físico, dores de cabeça alucinantes, paixões não correspondidas, ficamos até mesmo perplexos perante sua vasta produção intelectual e a mensagem original, única, que inverte valores aos quais a tradição filosófica nos habituou.
Quarto de Nietzsche em Sils-Maria (Suíça)
Vontade de poder nada tem a ver com ambição, moral dos fortes nada tem a ver com luta pela sobrevivência, eterno retorno nada tem a ver com transmigração das almas, o ateísmo nada tem a ver com descrença.
A força da vida, desde seus elementos mais simples até nós, os humanos demasiadamente humanos, o não servilismo, a reinvenção de valores no sentido de evitar sentimentos como o de culpa, de pertença à massa, ao rebanho, ao pobrezinho humilde, trata-se, repito, de uma reinvenção que exige de si ir à luta.
E, novamente, não a das espadas, não a da busca do conforto material, não a dos bens. A luta é interior.
Que interior seria esse?
O interior socrático do conhece-te a ti mesmo, a iluminação da alma imortal, o interior do penso, logo existo de Descartes, ou trazendo mais para a atualidade, o inconsciente psicanalítico?
Não, nada desse tipo introspectivo e sim da força vital.
Cada qual se torna criador de seu ideal, revê seus valores, prescinde de guias espirituais, de gurus, prescinde do Estado diante do qual multidões se ajoelham, prescinde do poder econômico.
Entretanto, essas atitudes não excluem a visão do terrível, do absurdo.
A abundância da vida fortalece, imbuídos dessa vontade de poder, não há porque recorrer a um salvador, a um criador de todos os seres. Nós seríamos nossos próprios criadores!
Mensagem de difícil compreensão e de mais difícil ainda realização.
Estamos cada vez mais imersos na multidão, somos usados pelo obscurecimento de religiões de massa, de líderes políticos mistificadores, somos a curva dos gráficos, ingerimos por vezes o mais abjeto dos pratos. O que vem pronto, aquele no qual tivemos zero de participação.
A moral dos senhores seria algo próximo ao sentido dado à própria existência, ou melhor, à vida. Substancial, serena, criadora.
sábado, 6 de julho de 2019
O pensamento mágico
Quem não gostaria de ter seus problemas resolvidos em um passe de mágica?
No século 16 acreditava-se que realidade e magia eram inseparáveis. As coisas se comunicavam umas com as outras ao que chamavam de simpatia ou se repeliam, era a antipatia. Sem distinguir entre as diversidade dos seres, sem classificá-los, todos se enredavam uns nos outros.
Foi nessa época que despontou Francis Bacon, nascido na Inglaterra em 1561, onde morreu em 1626. A crença em espíritos voláteis, no fantástico, nas fábulas, lendas e na alquimia, conviviam com a necessidade de expansão do comércio e defesa da marinha inglesa. O que levou aos estudos da astronomia (não astrologia) em prol dos estudos mecânicos. Havia necessidade de orientar os navegadores e aprimorar a navegação. Ao mesmo tempo surgiam as primeiras máquinas usadas na manufatura de produtos. Assim, técnica e ciência uma impulsionou a outra.
Bacon, o pai da ciência moderna, aconselhava o método da indução, quer dizer, experiências diretas com a natureza para verificar o que se conservava e o que mudava, e controlar essas modificações anotando-as em tabelas. Em resumo, Bacon preconizou o uso de método, inaugurou assim um novo tipo de mentalidade. Se desde Platão, Aristóteles e todo o medievo as técnicas eram subalternas, ligadas ao trabalho útil mas menos valorizado, menos nobre, para Bacon as técnicas eram primordiais.
Quando há necessidade de uma longa série de razões, a maior parte dos homens desvia-se do caminho e erra por falta de um método correto, dizia ele.
A pergunta é:
Por que o pensamento mágico e supersticioso perdura?!
A imaginação, os desejos, o inconsciente, a fragilidade e a capacidade de crer no impossível talvez expliquem porque o pensamento mágico e fantástico têm lugar no mundo moderno. Se ficassem restritos à arte que cultiva a imaginação fantástica, isso seria interessante e serviria para expandir os horizontes da criatividade.
Mas não, o pensamento mágico se aloja no dia a dia, seja nas seitas que orientam pessoas e se deixarem picar por cobras, seja nos rincões com cultos animistas, seja expulsão de demônios e "espíritos do mal" por pastores aos quais se concede poder mágico, seja pela crença em exorcismo ou em videntes. E nem foram mencionadas várias outras modalidades de "passe mágico".
Ora, o lado espiritual da vida pode ser sustentado pela paz interior, pela iluminação que a fé proporciona. Nesse caso, a realidade não é anulada, pelo contrário, ela se reveste com as cores da luz interior.
Esse lado benéfico contraste com o lado em que espírito se torna algo ininteligível, é quando esse "espiritual" se reveste de superstição, pode ser estímulo para a fraqueza, para o uso espúrio do sofrimento humano por uma autoridade, por alguém que se investe do poder mágico de solucionar aquele sofrimento. Nesse caso, a razão, os argumentos, o olhar para a realidade é substituído pela submissão ao detentor dos segredos e dos ritos.
O inexorável método racional, da técnica, da ciência, da tecnologia abriu seu caminho, segue até nossos dias. Com sucesso e com falhas. Na maior parte das vezes o êxito tem sido superior aos fracassos. E assim prossegue a marcha humana, esse formigueiro de gente que habita o planeta azul.
No século 16 acreditava-se que realidade e magia eram inseparáveis. As coisas se comunicavam umas com as outras ao que chamavam de simpatia ou se repeliam, era a antipatia. Sem distinguir entre as diversidade dos seres, sem classificá-los, todos se enredavam uns nos outros.
Foi nessa época que despontou Francis Bacon, nascido na Inglaterra em 1561, onde morreu em 1626. A crença em espíritos voláteis, no fantástico, nas fábulas, lendas e na alquimia, conviviam com a necessidade de expansão do comércio e defesa da marinha inglesa. O que levou aos estudos da astronomia (não astrologia) em prol dos estudos mecânicos. Havia necessidade de orientar os navegadores e aprimorar a navegação. Ao mesmo tempo surgiam as primeiras máquinas usadas na manufatura de produtos. Assim, técnica e ciência uma impulsionou a outra.
Bacon, o pai da ciência moderna, aconselhava o método da indução, quer dizer, experiências diretas com a natureza para verificar o que se conservava e o que mudava, e controlar essas modificações anotando-as em tabelas. Em resumo, Bacon preconizou o uso de método, inaugurou assim um novo tipo de mentalidade. Se desde Platão, Aristóteles e todo o medievo as técnicas eram subalternas, ligadas ao trabalho útil mas menos valorizado, menos nobre, para Bacon as técnicas eram primordiais.
Quando há necessidade de uma longa série de razões, a maior parte dos homens desvia-se do caminho e erra por falta de um método correto, dizia ele.
Manufatura de tecidos
E na modernidade? Prevalece o caminho da razão, da justificação, enfim, são adotados métodos e procedimentos racionais, ou não teríamos chegado ao estágio de desenvolvimento a que chegamos. Para fins por vezes antagônicos, como para preservar e favorecer a vida, ou para destruí-la. Isso é bem sabido, notório.A pergunta é:
Por que o pensamento mágico e supersticioso perdura?!
A imaginação, os desejos, o inconsciente, a fragilidade e a capacidade de crer no impossível talvez expliquem porque o pensamento mágico e fantástico têm lugar no mundo moderno. Se ficassem restritos à arte que cultiva a imaginação fantástica, isso seria interessante e serviria para expandir os horizontes da criatividade.
Mas não, o pensamento mágico se aloja no dia a dia, seja nas seitas que orientam pessoas e se deixarem picar por cobras, seja nos rincões com cultos animistas, seja expulsão de demônios e "espíritos do mal" por pastores aos quais se concede poder mágico, seja pela crença em exorcismo ou em videntes. E nem foram mencionadas várias outras modalidades de "passe mágico".
Ora, o lado espiritual da vida pode ser sustentado pela paz interior, pela iluminação que a fé proporciona. Nesse caso, a realidade não é anulada, pelo contrário, ela se reveste com as cores da luz interior.
Esse lado benéfico contraste com o lado em que espírito se torna algo ininteligível, é quando esse "espiritual" se reveste de superstição, pode ser estímulo para a fraqueza, para o uso espúrio do sofrimento humano por uma autoridade, por alguém que se investe do poder mágico de solucionar aquele sofrimento. Nesse caso, a razão, os argumentos, o olhar para a realidade é substituído pela submissão ao detentor dos segredos e dos ritos.
O inexorável método racional, da técnica, da ciência, da tecnologia abriu seu caminho, segue até nossos dias. Com sucesso e com falhas. Na maior parte das vezes o êxito tem sido superior aos fracassos. E assim prossegue a marcha humana, esse formigueiro de gente que habita o planeta azul.
sexta-feira, 31 de maio de 2019
Qual o sentido dos Cursos de Filosofia?
No longínquo ano de 1967, quando ainda aluna do antigo Clássico no Colégio Estadual do Paraná, que veio a ser 2o. Grau e atualmente Ensino Médio, o curso era direcionado para áreas da universidade: Ciências Humanas e Sociais, Ciências Biológicas, Ciências Matemáticas.
Essas escolhas inexistem atualmente, pois o Ensino Médio passou a ser generalizado, sem opção por áreas.
Escolhi o Clássico porque vinha de colégio de freiras, o ensino de ciências exatas e biológicas não era reforçado o suficiente e, além disso, sempre tive maior afinidade com as línguas estrangeiras, história, geografia, português.
Fiz a escolha certa, as matérias de Filosofia, Sociologia, Psicologia me fascinaram, abracei a Filosofia, havia a curiosidade pelo saber, primeira exigência do primeiro mestre, o sábio Sócrates.
Entrei para o Curso de Filosofia da Universidade Federal do Paraná em 1968. Época da ditadura militar, havia o medo de sermos denunciados e isso devido aos estudos em paralelo de autores censurados, Marx, Mao Tsé, Engels, Lênine dos quais líamos em grupo trechos de seus estudos.
No curso propriamente, com exceção de professores leigos, havia os padres que ensinavam filosofia pelo viés do tomismo. Padre Dreher era um deles, filosofar era aprender o pensamento católico juntamente com o de Aristóteles. Já Frei Raimundo Vier, professor de História da Filosofia, mesmo sendo adepto de Duns Scotto, nos brindava com aulas inteligentes, que levavam a questionamentos.
Mas como se pode ver, havia um conflito entre duas posturas extremas, ambas de cunho doutrinário, quer dizer, aprender marxismo acabou por se tornar um contrapeso, tanto ao pensamento católico de direita, como à ideologia militarista. Com a chamada abertura democrática, quando eu já era professora da mesma instituição, ingressaram professores marxistas, gramscianos e aos poucos os padres foram se aposentando.
Havia a linha dos independentes, mas também os reacionários, além da turma dos que se consideravam portadores da verdade social, política, ideológica e pedagógica.
Até hoje essa última tendência se faz presente. São poucos, espero que cada vez menos professores insistam neste tipo de abordagem de cunho salvífico. Não estão salvando ninguém, pelo contrário, isso instiga o confronto, leva à uniformização do pensar.
Essa linha doutrinária de esquerda perdura em alguns alunos que se formam e que serão futuros professores, ou no Ensino Médio, ou em universidades, e que se consideram destinados a "fazer a cabeça" dos jovens.
Em contrapartida, e essa é a coluna mestra e a razão de ser dos cursos de Filosofia, há um expressivo grupo de professores nesses que sustentam postura aberta, com diálogo permanente com o saber, adeptos da reflexão crítica. Ao ensinar disciplinas como Teoria do Conhecimento, Ontologia, Ética, Filosofia Política, apresentam os filósofos mais expressivos, e assim exercem sua missão de realmente ensinar, dialogar, aprofundar o conhecimento.
Induzir alunos ao tomismo é página virada há muito tempo.
A esperança é que induzir alunos ao marxismo, à "luta revolucionária", à "tomada de poder da classe trabalhadora" -, em dias próximos seja também página virada.
Nem Marx, nem Engels, nem Lênin, nem Gramsci foram filósofos, sua linha é política e sociológica.
A Escola de Frankfurt representa o que há de mais articulado em matéria de filosofia de linha esquerda/hegeliana. Sem esquecer, entretanto, que é uma entre outras escolas de pensamento.
A História da Filosofia é rica e precisa ser levada em conta sempre.
Nesse sentido, os Cursos de Filosofia, em universidades públicas ou particulares são fundamentais para as sociedades democráticas.
Contra qualquer tipo de sectarismo é que, justamente, a Filosofia se torna essencial. A legitimidade da Filosofia se ampara no leque de pensadores geniais, na insistência de mestres comprometidos com o pensar apoiado nessa longínqua e imortal história de filósofos, que com suas ideias e conceitos, inspiram o livre pensar.
Essas escolhas inexistem atualmente, pois o Ensino Médio passou a ser generalizado, sem opção por áreas.
Escolhi o Clássico porque vinha de colégio de freiras, o ensino de ciências exatas e biológicas não era reforçado o suficiente e, além disso, sempre tive maior afinidade com as línguas estrangeiras, história, geografia, português.
Fiz a escolha certa, as matérias de Filosofia, Sociologia, Psicologia me fascinaram, abracei a Filosofia, havia a curiosidade pelo saber, primeira exigência do primeiro mestre, o sábio Sócrates.
Entrei para o Curso de Filosofia da Universidade Federal do Paraná em 1968. Época da ditadura militar, havia o medo de sermos denunciados e isso devido aos estudos em paralelo de autores censurados, Marx, Mao Tsé, Engels, Lênine dos quais líamos em grupo trechos de seus estudos.
No curso propriamente, com exceção de professores leigos, havia os padres que ensinavam filosofia pelo viés do tomismo. Padre Dreher era um deles, filosofar era aprender o pensamento católico juntamente com o de Aristóteles. Já Frei Raimundo Vier, professor de História da Filosofia, mesmo sendo adepto de Duns Scotto, nos brindava com aulas inteligentes, que levavam a questionamentos.
Mas como se pode ver, havia um conflito entre duas posturas extremas, ambas de cunho doutrinário, quer dizer, aprender marxismo acabou por se tornar um contrapeso, tanto ao pensamento católico de direita, como à ideologia militarista. Com a chamada abertura democrática, quando eu já era professora da mesma instituição, ingressaram professores marxistas, gramscianos e aos poucos os padres foram se aposentando.
Havia a linha dos independentes, mas também os reacionários, além da turma dos que se consideravam portadores da verdade social, política, ideológica e pedagógica.
Até hoje essa última tendência se faz presente. São poucos, espero que cada vez menos professores insistam neste tipo de abordagem de cunho salvífico. Não estão salvando ninguém, pelo contrário, isso instiga o confronto, leva à uniformização do pensar.
Essa linha doutrinária de esquerda perdura em alguns alunos que se formam e que serão futuros professores, ou no Ensino Médio, ou em universidades, e que se consideram destinados a "fazer a cabeça" dos jovens.
Em contrapartida, e essa é a coluna mestra e a razão de ser dos cursos de Filosofia, há um expressivo grupo de professores nesses que sustentam postura aberta, com diálogo permanente com o saber, adeptos da reflexão crítica. Ao ensinar disciplinas como Teoria do Conhecimento, Ontologia, Ética, Filosofia Política, apresentam os filósofos mais expressivos, e assim exercem sua missão de realmente ensinar, dialogar, aprofundar o conhecimento.
Induzir alunos ao tomismo é página virada há muito tempo.
A esperança é que induzir alunos ao marxismo, à "luta revolucionária", à "tomada de poder da classe trabalhadora" -, em dias próximos seja também página virada.
Nem Marx, nem Engels, nem Lênin, nem Gramsci foram filósofos, sua linha é política e sociológica.
A Escola de Frankfurt representa o que há de mais articulado em matéria de filosofia de linha esquerda/hegeliana. Sem esquecer, entretanto, que é uma entre outras escolas de pensamento.
A História da Filosofia é rica e precisa ser levada em conta sempre.
Coleção os Pensadores
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Para resumir, a missão dos cursos de Filosofia é essa: ensinar Filosofia, raciocinar com e por meio dos filósofos, eles sim abrem cabeças, mostram caminhos.Nesse sentido, os Cursos de Filosofia, em universidades públicas ou particulares são fundamentais para as sociedades democráticas.
Contra qualquer tipo de sectarismo é que, justamente, a Filosofia se torna essencial. A legitimidade da Filosofia se ampara no leque de pensadores geniais, na insistência de mestres comprometidos com o pensar apoiado nessa longínqua e imortal história de filósofos, que com suas ideias e conceitos, inspiram o livre pensar.
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Eu não seria o que sou, não publicaria, não escreveria esse blog, se não tivesse cursado Filosofia. Não me habilitei para investir em negócios, mas sei que negócios, e sociedade criativa e pensante, podem e devem coabitar.
quinta-feira, 16 de maio de 2019
Verdade, veracidade e justificação na perspectiva de Wittgenstein
A verdade é um valor? Sem dúvida, impossível fazer ciência em nome da falsidade. Como ficariam as provas e contraprovas? Resultados pode e devem ser contestados, o método científico exige igualmente que se justifiquem axiomas, leis, teorias de acordo com uma visão mais ampla da ciência em foco, aquilo que se pode chamar de paradigma.
Além disso, o cientista deve ser veraz, isso significa que ele precisa estar aberto às explanações, que ele tem consciência das consequências danosas ou frutíferas que sua pesquisa produz.
Algumas reflexões de Wittgenstein ajudam a ir além do já sabido que acima foi exposto.
Impossível falar a verdade a menos que a pessoa tenha autodomínio, e isso não tem nada a ver com ser incapaz, tem a ver com ser veraz, com ficar à vontade no terreno da verdade. Ao mesmo tempo, que deitar em seus louros, isto é, acomodar-se, corre-se o risco de cair como se fosse um sonâmbulo.
Há coisas evidentes que passam despercebidas, e "para aquele que sabe muito, para este é difícil não mentir". O que Wittgenstein quer dizer?
No começo tudo se resumia a sentenças com ou sem sentido, que, respectivamente poderiam ou não espelhar fatos e serem ditas em linguagem universal da lógica. As ciências naturais empregam sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas, como um tipo de rede lançada pelo pesquisador formando um conjunto entrelaçado de hipóteses confirmadas e a confirmar.
Mais adiante o pensamento do filósofo se debruçou na linguagem ordinária cuja capacidade de dar sentido se multiplica de acordo com o uso, com a situação, com a intenção dos falantes. Foi como se o céu puro da lógica viesse abaixo. Nós nos compreendemos, pensamos, agimos, comunicamos e muito mais pela linguagem aprendida, cujas regras passamos a dominar. "O limite da linguagem se mostra por ser impossível descrever o fatos que corresponde ou que uma sentença traduz, simplesmente pela repetição da sentença" e Wittgenstein acrescenta entre parênteses "(Isso tem a ver com a solução kantiana para o problema da filosofia)". Extraí essa citação de "Cultura e Valor"
Em apenas uma frase, o filósofo foi além de si mesmo e mostrou o interesse que precisamos ter com o pensamento clássico. Qual foi a solução de Kant para o problema da filosofia? Impossível chegar à realidade em si, ao noumenon, podemos aceder com os recursos da razão aos fenômenos! Papel da justificação para o uso de conceitos, algo que muitos filósofos estão longe de alcançar, muitos se consideram donos da verdade...
A filosofia está imersa na cultura, ou melhor, em certas culturas e isso é decisivo para que tenha um papel, ao mesmo tempo em que a história da filosofia, ou seja, os filósofos, devem e podem se debruçar um sobre o outro para apoiar ou para criticar, não importa.
Importa essa abertura, e nisso entra tanto a verdade, como a veracidade e a justificação.
Além disso, o cientista deve ser veraz, isso significa que ele precisa estar aberto às explanações, que ele tem consciência das consequências danosas ou frutíferas que sua pesquisa produz.
Algumas reflexões de Wittgenstein ajudam a ir além do já sabido que acima foi exposto.
Impossível falar a verdade a menos que a pessoa tenha autodomínio, e isso não tem nada a ver com ser incapaz, tem a ver com ser veraz, com ficar à vontade no terreno da verdade. Ao mesmo tempo, que deitar em seus louros, isto é, acomodar-se, corre-se o risco de cair como se fosse um sonâmbulo.
Há coisas evidentes que passam despercebidas, e "para aquele que sabe muito, para este é difícil não mentir". O que Wittgenstein quer dizer?
No começo tudo se resumia a sentenças com ou sem sentido, que, respectivamente poderiam ou não espelhar fatos e serem ditas em linguagem universal da lógica. As ciências naturais empregam sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas, como um tipo de rede lançada pelo pesquisador formando um conjunto entrelaçado de hipóteses confirmadas e a confirmar.
Mais adiante o pensamento do filósofo se debruçou na linguagem ordinária cuja capacidade de dar sentido se multiplica de acordo com o uso, com a situação, com a intenção dos falantes. Foi como se o céu puro da lógica viesse abaixo. Nós nos compreendemos, pensamos, agimos, comunicamos e muito mais pela linguagem aprendida, cujas regras passamos a dominar. "O limite da linguagem se mostra por ser impossível descrever o fatos que corresponde ou que uma sentença traduz, simplesmente pela repetição da sentença" e Wittgenstein acrescenta entre parênteses "(Isso tem a ver com a solução kantiana para o problema da filosofia)". Extraí essa citação de "Cultura e Valor"
Em apenas uma frase, o filósofo foi além de si mesmo e mostrou o interesse que precisamos ter com o pensamento clássico. Qual foi a solução de Kant para o problema da filosofia? Impossível chegar à realidade em si, ao noumenon, podemos aceder com os recursos da razão aos fenômenos! Papel da justificação para o uso de conceitos, algo que muitos filósofos estão longe de alcançar, muitos se consideram donos da verdade...
A filosofia está imersa na cultura, ou melhor, em certas culturas e isso é decisivo para que tenha um papel, ao mesmo tempo em que a história da filosofia, ou seja, os filósofos, devem e podem se debruçar um sobre o outro para apoiar ou para criticar, não importa.
Importa essa abertura, e nisso entra tanto a verdade, como a veracidade e a justificação.
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