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sábado, 4 de novembro de 2023

"Investigações Filosóficas", 70 anos de sua publicação (parte I)

 A linguagem cotidiana é empregada para mostrar que é a própria linguagem cotidiana a base de sua filosofia. E nisso reside o caráter revolucionário de Investigações Filosóficas, que, após 70 anos de sua publicação, permanece importante e influente.

Há seminários e encontros que comemoram a data, grande parte comentários baseados em filósofos da área, especialmente na área da filosofia analítica.

Mas que tal reler e extrair da própria obra  a relevante contribuição de Wittgenstein? Escrita em parágrafos durante 16 anos, ela gira em torno do que ele chamou de "jogos de linguagem", diversos e com inúmeras aplicações. 

A questão das proposições, seu sentido e sua referência, central e crucial no Tractatus, foi revista, e diz ele no prefácio, à luz de Investigações Filosóficas


                  Aniversário de 50 anos de Investigações Filosóficas (alemão/inglês)

As situações por ele imaginadas são as de uso normal, milhares de casos, "imaginar uma linguagem significa imaginar uma forma de vida" (§ 19). Assim é possível desfazer confusões como a de que o nome não tem, como Frege propusera, aplicação lógica. O nome não é o batismo de um objeto, um processo especial chamado "referência". Os nomes são empregados na linguagem cotidiana, assim Wittgenstein rebate seu amigo Russell.

As proposições e sua verdade/falsidade não são o núcleo da linguagem, e as regras indicam direções para o uso, sempre em certas circunstâncias, adequadas para a compreensão. Dúvidas devem fazer sentido, assim como a exatidão, e analisar proposições e sua mágica relação com os fatos, de que deve haver uma ordem a priori no mundo, essas dificuldades apresentadas pelos filósofos devem ser dissolvidas por meio do uso normal. Lançar para fora os óculos da pura representação, e mostrar que usamos comparações. 

O uso de afirmações que apresentam tal ou tal situação serve como um tipo de medida, seu uso prático esclarece mal entendidos, e assim a linguagem não fica girando em falso. A exigência formal de valor de verdade faz sentido quando se usam expressões para saber do que se trata, acerca de quem, do quê, em que circunstâncias...

Aprendemos, seguimos regras, e do uso correto de frases, surge a compreensão, sendo ela própria fonte do uso correto. Aprendemos por meio de diferenças gramaticais em cada ato como entender, saber, ler, ler com atenção. A capacidade de aprendizado pode ser bem sucedida ou não, e a compreensão é igualmente uma  capacidade fonte de uso correto. As diferenças gramaticais são aprendidas, não se trata de puro processo mental. Uma máquina de leitura não é capaz de uma mudança de comportamento que a frase, "já sei ler", por exemplo, implica. Apenas nós o fazemos em circunstâncias normais de aprendizado.

Assim, para Wittgenstein experiências, vivências, familiaridade com processos como ler, adivinhar, resolver quebra-cabeças, em todos há uso de critérios, o domínio de técnicas. E isso implica em total renovação da filosofia, questões como a da identidade do ser, essencial para a metafísica, é tão somente um processo de justificação, acertar com as regularidades que pertencem às nossas formas de vida.

(continua na próxima postagem)


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Wittgenstein: "Se um leão pudesse falar, nós não o compreenderíamos"

A afirmação acima se encontra em "Investigações Filosóficas", cujo tema principal é o sem número de jogos de linguagem por meio dos quais nos servimos para diferentes e diversos usos.
Em parágrafos numerados, Wittgenstein (1889-1951)

expõe vários exemplos de situações corriqueiras, como pedir algo a alguém, explicar, mostrar, ordenar, descrever, saber disso ou daquilo, representar por meio de figuras, interpretar, ver algo como isso ou aquilo, apontar, distinguir mudanças de aspecto e muitos outros usos da linguagem.
O que ele pretende com essas descrições é trazer questões filosóficas do patamar abstrato e superior, para o normal do dia a dia. Os conceitos de consciência, de imagem, de sensações, de vivências, de clareza, de certeza, de verdade, de espírito entre muitos outros, são dissolvidos em sua complexidade por meio do emprego em questão, por meio das situações nos quais ocorrem.
A linguagem descreve uma imagem, o que fazer com essa imagem?
A própria imagem indica um emprego, evocará um sentimento? Um sabor? Uma cor? Um sonho?
Alguém diz "Tenho medo", e isso pode ser entendido como uma confissão, um alerta, que se deve tomar cuidado, enfim, para a compreensão do significado de um jogo de linguagem importa o que se quer dizer, a ocasião, a intenção, o resultado, e tantas outras situações, como enganar alguém, manipular, ou simplesmente esclarecer um sentido.
Por isso mesmo, se um leão pudesse falar não o compreenderíamos, esse exemplo é uma hipótese absurda que serve apenas para ilustrar o que Wittgenstein propõe como objeto de sua análise filosófica, isto é, investigar nossas formas de vida e concluir a partir de aspectos que dão inteligibilidade às nossas ações, entre elas as ações linguísticas. Nossas formas de vida são radicalmente humanas, e não leoninas. Dizemos que o leão ataca, mas isso é na nossa perspectiva...

O refúgio de Wittgenstein em uma cabana nos fiordes da Noruega.
Viver simples, pensar simples

O que construímos, como o fazemos, nossa vida cotidiana, os atos corriqueiros são o objeto de análise do filósofo.
Ao invés de penetrar na reflexão filosófica do que é mesmo a verdade, por exemplo, Wittgenstein vai às situações em que precisamos usar o termo. E o mesmo com os vários conceitos filosóficos.
E com essa virada em direção à linguagem cotidiana, Wittgenstein não estaria "menosprezando" a Filosofia?!
Filósofos como Habermas pensam que sim. Afinal, reduzir verdade, pensamento, justificação às situações em que ocorrem em nossas vidas, seria o mesmo que reduzir a Filosofia ao senso comum.
O que Wittgenstein responderia?
O que interessa é o que podemos fazer com a linguagem. Essa virada pragmática horizontaliza as questões e nos deixaria como que aliviados do peso de ter que investigar a fundo o que são mesmo as coisas, o que é mesmo o homem, o que é mesmo o conhecimento, e assim por diante.
Essa "terapia filosófica" não convenceria outro filósofo da atualidade, Heidegger. O homem, mesmo quando considerados os aspectos mais simples de sua existência, ainda assim é o "pastor do ser".

O importante é que essa troca de ideias dos filósofos nos faz entender que nenhum pensador é completo, nenhuma perspectiva filosófica é única, o diálogo entre saberes permanece como o ensinamento por excelência da História da Filosofia.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Qual a importância de Wittgenstein?

O filósofo enigmático, difícil de compreender, pertence à escola de pensamento da chamada "Filosofia Analítica". O foco é a lógica, a linguagem, a representação, a relação entre pensamento e realidade.
O aspecto curioso em Wittgenstein, é o de que em sua filosofia haveria uma espécie de divisor de águas entre o início de seu pensamento voltado para as questões lógicas (Tractatus Logico-Philosophicus), e a virada pragmática em direção aos jogos de linguagem em seus usos cotidianos (Investigações Filosóficas).
A questão geral por detrás de ambas as vertentes, é a relação entre pensar e como esse pensar organiza o que há para ser conhecido e dito. Não se espere dele nenhum tipo de engajamento social ou político, Wittgenstein não tem uma filosofia política.
Mas o lógico que nele habita convive com a dúvida com relação ao que é místico, ético, impossível de ser enquadrado sob forma lógica.
Pensar é representar a realidade por meio de formas lógicas, em especial proposições como "Isso está (é) assim", ou "Chove agora", ou "Aqui está uma mão". Para essas proposições serem válidas, é preciso que elas retratem ou espelhem algo objetivável e que esteja de acordo com as regras de uma linguagem.
O que mudou?
Para falar, compreender, fazer sentido, há necessidade de contexto de fala, alguém de fato dizendo isso, e com esse dizer querendo significar algo. Claro que as regras são necessárias, mas não são regras de encadeamento lógico e sim regras da gramática de uma língua, quer dizer, não formas rígidas e sim uma linguagem que foi aprendida, que é usada, cujos significados variam conforme quem diz o que, para quem, em que situação.
Assim, a limpa e rígida proposição lógica seria uma possibilidade, como há possibilidade de, com números, calcular. Os usos da linguagem são inúmeros, não se encerram em regras para construir proposições verdadeiras ou falsas. 
Os jogos de linguagem não têm núcleo, são múltiplos.
"Aqui está uma mão" demanda não só uma frase da língua portuguesa compreensível pelos falantes, mas leva a perguntar pelo que se quer dizer em cada uso específico.
É possível imaginar vários contextos para aquele jogo de linguagem, de tal modo que com Wittgenstein se abre toda uma perspectiva para a Filosofia, a de considerar o comum, o ordinário, o sem mistério de questões como mente e pensamento como pura abstração, como privados. Não há linguagem privada, só a que foi aprendida e com ela pode-se tudo: reclamar, rezar, implorar, afirmar, negar, calcular, sonhar, pensar, filosofar, criar, ensinar, etc., etc.
1889-1951
E nisso reside a importância do filósofo: o banal, o comum, o cotidiano é o que temos, nossos recursos são banais e ao mesmo tempo surpreendentes!

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Filosofia Contemporânea (II)

Como dissemos na postagem anterior, destacam-se ainda na Filosofia Contemporânea o existencialismo e pensadores independentes.
O existencialismo, Sartre: a diferença entre o ser em si que são simplesmente as coisas e a existência humana como escolha, liberdade e ação consciente, saem do próprio nada que vem ao mundo por meio do homem e seus projetos. Isso leva à total responsabilidade, à angústia da plena liberdade da existência, sem Deus, lançada por acaso no mundo. Ignorar a liberdade e o engajamento pessoal diante das escolhas seria delegar ao outro o que cabe a mim somente. Eu que nada sou tenho que realizar o sentido de minha existência, devo decidir e me responsabilizar pelas decisões.
Heidegger: caracterizam o pensamento do filósofo o rigor, a crucial importância dos primeiros filósofos, a existência humana como ser-aí no tempo e tendo que se haver com a sua finitude, o ser-para-a-morte. Num segundo movimento, Heidegger dá uma guinada em direção ao Ser já não mais do homem e sim da força plena que se abre para o homem por meio da linguagem. E ainda o desvelar da verdade. Verdade com a qual teve que se haver devido ao seu comprometimento com o nazismo. Reconheceu que nazismo nada tinha a ver com a força vital do Ser.
Wittgenstein: hoje chamaríamos o filósofo de gênio multitarefas. Inventor, lógico, matemático, metafísico, antimetafísico, destaca-se pela originalidade de suas propostas, que foram como que arrancadas com esforço e exigências autoimpostas. Como solucionar a questão do sentido se precisamos da nossa linguagem para justamente obter sentido? Se precisamos de formas que a linguagem oferece, podemos utilizá-las como escada atirada fora ao final do processo? Ou a alternativa não seria permanecer com os usos diversos da linguagem ("jogos de linguagem") em situações absolutamente ordinárias de nossos modos de vida? Wittgenstein deu a si e à Filosofia essa última tarefa: não quebrar a cabeça com enigmas que nós mesmos colocamos, dissolver problemas filosóficos na vida cotidiana.
Foucault: quais foram e quais são os artifícios inventados por diferentes tipos de saber que resultaram nesse tipo de sujeito submetido a normas sem origem nobre, ontológica ou metafísica? Foram "saberes de pouca glória" e práticas que passam batido pelos filósofos. Para reconhecer seu papel, há que ir para a história, para a produção de recursos não os das grandes causas econômicas ou sociais, mas as invenções como circulação de mercadorias, tipos de penalidades, discursos médicos, asilo psiquiátrico, exame e enquadramento a fim de obter certo tipo de comportamento, efeitos do dizer verdadeiro. Enfim, fazer-nos entender do que somos afinal feitos e refeitos. E assim visualizar brechas de liberdade e de reinvenção de si.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Filosofia como terapia contra as seduções da linguagem

A função terapêutica da filosofia pode ser entendida como consolo, solução às dúvidas, esclarecimento, limpeza da mente quando o filósofo nos conduz a um tipo de repouso da alma. Não aquele repouso que as religiões e a meditação alcançam, e sim o da tranquilidade que as reflexões acerca de nós, nossa vida, nosso ser, o sentido de nossa existência abrem novos caminhos, mesmo que não se chegue às respostas.
Se a filosofia sobretudo indaga, as religiões e a meditação transcendental sossegam, pois não devem gerar dúvida nem conflito.
Em compensação, as perguntas de estilo filosófico exigem muito menos da emoção e bastante do intelecto, da inteligência curiosa, do estudo dos mais eminentes filósofos, das próprias questões que muitas vezes postulamos.

Mas, se a filosofia como terapia for entendida no sentido de Wittgenstein, as exigências costumeiras da reflexão filosófica devem, ao contrário do exposto acima, ser elididas e no lugar de refletir sobre o ser em geral (metafísica), sobre nossa existência, sobre o conhecer, o saber, o que é o real, o que é verdade, certeza, Deus, o mundo, a totalidade dos seres, Witgenstein surpreende:
Não temos e nem precisamos desse tipo de problemática, nosso modo de vida, nossas formas de vida aprenderam a linguagem, a lidar com ela e simultaneamente com tudo o que nos cerca em nosso dia a dia. 
O filósofo vienense se debruça sobre o uso normal da linguagem, os jogos de linguagem e desse modo dissolve questões ao invés de resolvê-las.
(1889-1951)
O que é o ser? Faça a seguinte experiência: como você usa no trato da linguagem, que foi aprendida e que só faz sentido nesses usos, o verbo ser, ou o substantivo ser. 
Se você conversa com alguém e pergunta, o que é isso ou aquilo, se você ensina a uma criança a diferença entre seres vivos e seres inanimados, se você adverte que é preciso ser responsável, se você em uma aula de filosofia expõe a natureza do ser para certo filósofo, isso mostra que há diversos e diferentes usos do termo ser.
Desse modo, entendendo que o problemático uma vez contextualizado pelos usos habituais de jogos de linguagem, se dissolve, o que pode parecer inócuo e decepcionante, se transforma com a terapia filosófica de Wittgenstein. Ela pode significar um modo novo e interessante de encarar justamente, sua própria vida, seu destino, o que é inalcançável e que não poderemos nunca compreender (mistério que envolve o começo, as causas, a divindade, o fim de tudo, e muitas questões metafísicas) e dá-se então uma reviravolta no tipo de vida e de vivência: tristeza, alegria, frustrações, realizações, passam a caber em outro molde após a terapia. 
Reduzir as questões filosóficas ao modo cotidiano e mesmo banal de nossas formas de vida, significa aceitar que somos nós mesmos os produtores dos meios que nos levam àquelas questões. Quer dizer, sem a linguagem aprendida, sem os meios culturais nos quais ela se forja, não teríamos como alcançar inclusive a tranquilidade da reflexão filosófica, que mencionamos no início. Mas com uma nova visão, uma nova perspectiva, a nossa, a humana, tudo muda de figura.
"Mesmo o mais poderoso telescópio requer para seu uso a medida do olho humano".
"Um enigma filosófico surge quando se tem uma morfologia limitada dos usos da linguagem"
"Um conceito é uma técnica de uso de uma palavra" 
"Pensamentos que estão em paz, é a isso que a reflexão filosófica almeja"
(Wittgenstein)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"Penso que vai chover, logo existo" (!!!)

A frase acima foi pronunciada por Wittgenstein em um debate em Oxford em fins dos anos 40. O tema era o cogito de Descartes. Trata-se de usar seu método de mostrar o que faz e o que não faz sentido dizer, conforme o contexto, e mais, sua concepção de que problemas filosóficos podem e devem ser dissolvidos pelo uso da linguagem comum. Isso irritou o debatedor. Afinal, o que é o cogito?, indagou este. Ora, filósofos e seus problemas, como essência, mente, intenção, realidade, verdade, e tantos outros conceitos filosóficos, quando retirados da problematização que se faz em Filosofia, por meio de generalizações e abstrações, nada significam.
Assim, se alguém dissesse: "Penso que vai chover, logo existo", parodiando o famosíssimo e para lá de emblemático, "Penso, logo existo", base da filosofia racionalista, Wittgenstein diz que não se saberia do que tal pessoa estivesse falando.
Dissolução da linguagem privada, e também de mente, pensamento, consciência. São palavras que só significam quando usadas em formas de vida, quer dizer, em certos jogos de linguagem.
Tudo começou com a reflexão sobre lógica quando tinha apenas 19 anos. Como se relacionam linguagem e realidade? O mundo consistiria de fatos, eles constroem . Aos poucos o que faz sentido dizer não está mais inscrito nas proposições lógicas e Wittgenstein põe em dúvida o arcabouço lógico-linguístico do mundo, do dizível, do constatável, e estende sua análise para além da "pureza cristalina da lógica". No dia a dia, o uso normal da linguagem desautoriza o esquema de espelhamento entre proposições e estados de coisa.
Em meio aos problemas filosóficos, outros o atormentavam, como se lê em sua biografia (O dever do gênio, de Ray Monk) mais, muito mais. As dúvidas com relação a sua pessoa, sua integridade moral e emocional, seus dilemas de homossexual, como dominar e dar sentido aos seus atos, a necessidade de examinar as questões filosóficas, em especial a filosofia da matemática, a sensação ambígua de que mesmo com inequívoco interesse pela filosofia, a vida prática parecia-lhe mais convidativa, mas acolhedora e proveitosa.
Filósofos profissionais em sua arrogância e pretensão, eram abominados. A vida reclusa, ensinar crianças em aldeias remotas, cuidar de jardim, serviços militares na I Guerra, e mais tarde serviços em hospital com feridos da II Guerra, lhe era preferível, fazia sentido, ajudava muito mais do que suas aulas em Cambridge.
Russell foi amigo e protetor, o que não impediu de criticá-lo e mostrar-lhe que a teoria dos tipos não dava conta da lógica, que lógica e matemática eram dois terrenos distintos.
A construção da única obra publicada em vida, Tractatus Logico-Philosophicus, foi árdua, retirou-se para a Noruega a fim de dedicar-se à reflexão. A questão da igualdade não pode ser dita, "A" é o mesmo que "A", pode ser mostrada, exposta; "B" ser diferente de "x", "y", "z" pode ser mostrada, a lógica se constitui de conjuntos de signos; entre seus métodos, o das tabelas de verdade. A esfera mística, em que as dúvidas o perturbavam, só pode ser mostrada em ações. Ao mesmo tempo em que necessitava da solidão, necessitava também de amizades sinceras, e mesmo de amor. Riqueza, em especial a de sua família, foram dispensadas, gostava de levar uma vida restrita.
Ironizava tudo que era levado a sério, inclusive sua própria filosofia, e desconfiava da ciência, da cientificização da cultura e de como a sociedade cultuava a ciência e o cientista.
Isso não o impediu de inventar máquinas e instrumentos e isso tendo sempre em vista necessidades práticas.
"A ética, na medida em que brota do desejo de dizer algo sobre o sentido da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser ciência. O que a ciência afirma, nada acrescenta".
Excelente recado aos que pretendem que a ciência explique tudo, até mesmo o sentimento de crença religiosa.
Wittgenstein é desses filósofos revolucionários, não via problema em pisoteiar pilares da Filosofia para continuar respirando.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O que há em comum entre Wittgenstein, Foucault e Habermas?

Os três pensadores são considerados filósofos pós-metafísicos (ver postagem anterior). Quer dizer, no lugar de instâncias permanentes e transcendentes, de um ser superior, de fundamentos absolutos, eles se voltam para a história e a cultura humanas. Sob que aspectos, sob que condições? Aquelas mesmas produzidas por nós: linguagem, símbolos, significação, interações, trocas, o contato permanente e criador com a natureza (eventualmente destruidor), enfim, seres humanos em suas relações.
A ação humana nos modifica e cria constantemente produtos e valores, ao construir situações necessárias à vida cotidiana. Há dois mundos constituídos pela ação: o das trocas de produtos, bens e valores por meio de instituições econômicas, sociais, políticas, culturais, grosso modo o mundo dos negócios; e o das relações humanas voltadas à comunicação, à criação cultural, aos cuidados com a saúde, instituições jurídicas, educacionais, segurança pública. Além disso, há setores que interligam os dois "mundos": informação, ecologia, engenharia, arquitetura, biologia.
Os filósofos mencionados no título, Wittgenstein, Foucault e Habermas, se voltam para a investigação filosófica do "segundo mundo", importa considerar os jogos de linguagem (Wittgenstein), os enunciados do discurso (Foucault) e os atos de fala comunicativos (Habermas).
Em comum, a linguagem considerada como ação. Sim, pois enunciados ditos por alguém, para alguém em situações comuns da vida não servem apenas para significar, isto é, sons de uma língua emitidos de um locutor a outro, com significado, valem segundo Wittgenstein (Investigações Filosóficas) como afirmações a respeito disso ou daquilo, narração de um acontecimento, um questionamento, uma anedota, um aviso, uma cantiga de roda, uma piada, uma confissão. São todos jogos de linguagem, que dependem do contexto, da intenção, da situação dos interlocutores, do meio de comunicação, da capacidade de interpretação. Se alguém ouve ou lê "Hoje é dia de festa", compreende que é uma frase significativa e bem formada da língua portuguesa, mas precisa de um contexto de enunciação para saber a que se refere, o que se quer dizer com a frase.

Wittgenstein (1889-1951) "Nosso erro é buscar por uma explicação quando o que deveríamos olhar é para o que ocorre como um 'proto-fenômeno'. Isto é, onde deveríamos ter dito: este jogo de linguagem é jogado".

Foucault analisa em As Palavras e as Coisas e em Arqueologia do Saber enunciados do discurso, outro nível da linguagem, diverso da significação das frases, diverso dos jogos de linguagem e dos atos de fala (que veremos logo abaixo), porque têm a peculiaridade de criar certo poder, justamente o poder do discurso. Este não é um poder político, nem poder de mando ou comando, autoritário, mas um poder que nasceu com a instituição social de certos saberes, em nossos dias muitos deles próprios para readequar o comportamento humano. O saber de uma época forma um desenho, o das práticas discursivas com seu peso, uma materialidade institucional, uma utilidade. Por exemplo, o uso da norma como fiel da balança para avaliar, diagnosticar no discurso psiquiátrico. O sujeito desse discurso é o médico e a sociedade atribui e distribui o uso desses discursos, dessas práticas a certas instituições e saberes, no caso, o hospital psiquiátrico e a psiquiatria. 

Foucault (1926-1984) "Esses princípios de exclusão e de escolha, cuja presença é múltipla, cuja eficácia toma corpo em práticas ... não remetem a um sujeito de conhecimento (histórico ou transcendental) ...; elas designam antes uma vontade de saber, anônima e polimorfa..."

Quanto a Habermas, herdeiro de Kant e Hegel, a linguagem serve para atos de comunicação ou atos estratégicos. Os atos de fala (explico melhor em próxima postagem) serviriam para comunicação em contextos da sociedade, da cultura e das pessoas em sua individualidade. Produzem consenso (eventualmente dissenso), laços de solidariedade e socializam pessoas. Os atos estratégicos, ao contrário, serviriam para influenciar, seu poder decorre do Estado e das relações econômicas, compra-se e vende-se tudo, na modernidade as relações pessoais são em grande parte filtradas por interesses, pelo poder do estado e pelo poder econômico, inclusive a ordem jurídica.


Habermas (1929-) "Devemos nos compreender ainda como seres normativos de maneira geral, ou até como seres que esperam uns dos outros uma responsabilidade solidária e que têm igual respeito uns pelos outros?"


Interessante notar que os três pensadores não se excluem, que pensar a lógica da vida cotidiana (Wittgenstein), o poder do discurso (Foucault) e a capacidade de entendimento cerceada pelas estratégias sociais (Habermas), são análises que se complementam, intersubjetividade no lugar do sujeito/pensamento. Ou como se expressou Nietzsche: "Pensamentos são ações".

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Porque Wittgenstein é considerado um gênio da filosofia

Considerar alguém como gênio pode parecer exagêro ou muita pretensão, além do que pode sugerir uma avaliação métrica da inteligência.
Consideremos gênio, então, aquele que inova, que revoluciona, que transforma nossa maneira de ver, de pensar e de agir. Nesse sentido, Wittgenstein, é senão gênio, pelo menos genial!   mansão da família
Nascido em Viena (1889-1951)), de família riquísssima, seu pai era industrial e foi dos poucos que não perderam a fortuna no período de guerra. Música, artes plásticas, educação refinada, a casa frequentada por artistas e intelectuais, dois irmãos excelentes músicos, mas havia o outro lado: todos sofriam a pressão do pai para seguir carreira na engenharia e o sucederem na sua indústria.
Ludwigg frequentou a escola técnica, mas em seu íntimo não cessava de indagar, o que se é, o dever de ser verdadeiro, como se tornar um excelente ser humano. Mais tarde abriu mão de sua herança, e passou a vida de forma quase ascética.
O caminho em direção à filosofia seria o mais apropriado para realizar objetivos estritos do pensar e do agir, manifestados na lógica e na ética.
Como expressar o pensamento e como chegar à justeza da ética? O primeiro, pela linguagem. Ela estrutura todas as possibilidades de dizer com sentido, com propriedade, podendo projetar tudo o que pode ocorrer no mundo e pode ser dito. Ele chega assim, ao limite do pensável. Ser ético é algo inteiramente diverso, depende apenas de sua força interior, pois valores éticos não podem ser verificados, eles são vivenciados.
E Ludwigg Wittgenstein foi além: o que faço quando falo? Não expresso estados de coisa do mundo, nem dou nome às coisas, nem apenas me refiro a algo. Eu ajo. Sim, falar é ação e não expressão do pensamento.
Em nossas formas de vida, ao longo de todo o aprimoramento social, vital, cultural, crianças aprendem a dar nomes às coisas, a chamar alguém, a entender histórias, a distinguir cores, a usar a tabuada, a calcular, a distinguir o que é correto dizer em que circunstâncias, a empregar critérios, a decifrar signos e sinais, a perceber tal coisa como reta ou curva, que algo pode ocorrer em dado instante, que coisas podem se suceder uma após outra, que há o ver aspectos, ler para si, ler em voz alta, etc. etc. Não há "o" mental, mas operações diversas, atividades, comportamentos que requerem linguagem. Os jogos de linguagem.
Ao mesmo tempo nos são dadas certas imagens, certas concepções nas quais acreditamos, nas quais confiamos ou não, que servem de marcas, de parâmetros.
Procurar um fundamento? Só quando for o caso.
Trazer a filosofia para o cotidiano, retirá-la do mundo platônico, pôr nossas dúvidas e buscas no solo áspero do dia a dia. E o que se revela? Paisagens humanas, tudo o que se construiu, aspectos diversos.
Sua sede de infinito cessou. Nem Deus, diz ele, se precisasse calcular, poderia chegar ao infinito. Uma ação sem fim é impossível, assim como uma proposição sem sentido. Como dizer o sem sentido?
Cabana que servia de refúgio nos fiordes da Noruega
É impossível. O mundo faz sentido para nós e isso é terapêutico.

domingo, 23 de maio de 2010

Freud explica!?

Não, acho que Freud não explica, na medida em que não há o que explicar sobre o comportamento, os desejos, angústias, temores, valores nossos, dos seres humanos. Toda teoria científica com pretensão de explicar, converter, elucidar e pôr um ponto final em nossas interrogações e conflitos, é falha.
Freud contribui com algumas análises interessantes, como a de que o inconsciente move nossas intenções, que ele é inacessível, que não podemos apreendê-lo. Se conseguíssemos atingir os mecanismos psíquicos do inconsciente, é claro que tais mecanismos passariam a ser conscientes. Então temos apenas pistas do que acontece no mais fundo do nosso psiquismo.
Porém, não foi apenas Freud que supôs que algo desconhecido nos move. Hobbes, no século 17 já falava em forças impossíveis de controlar, como o instinto de conservação. Naturalmente egoísta, o homem luta por mais e mais poder, os fracos sucumbem e os fortes sobrevivem.
O que Freud apresentou como novidade foi a teoria da sexualidade. Somos movidos pela pulsão sexual, a repressão da sexualidade explica, inclusive, haver civilização. O inconsciente é movido pela pulsão sexual , esse impulso é inelutável, está presente em todos nós, da mesma forma e desde sempre, tanto na espécie humana, como em cada indivíduo. Mas o tempo todo ele é reprimido pelo nosso eu e pela sociedade.
Há quem conteste. Wittgenstein não aceitou essas ideias. Freud afirma que sonhos são realizações de nossos desejos. Sonhos, diz Wittgenstein, tanto podem proteger nosso sono, como perturbar, podem tanto preencher um desejo, quanto impedir um desejo. Quantos sonhos são terríveis ou prazerosos! Não há uma teoria dinâmica dos sonhos, a psicanálise não é uma ciência: uma teoria científica precisa ser verdadeira ou falsa. As explicações de Freud para as doenças mentais, para a loucura, em nada ajudaram. Pelo contrário. A busca da causa do sofrimento psíquico na vida sexual da criança, além de não se justificar (todas as crianças teriam um mesmo complexo, todas odiariam ou amariam seu pai ou sua mãe - mas isso é estranho, não?), nada explica sobre doença mental, o sofrimento psicológico. Além disso, diz Wittgenstein, qualquer idiota apela para essas pseudo-explicações, e eu acrescentaria, com o ar de quem entende, decifra e aposta que anos no divã podem reconciliar a pessoa com seus problemas!
Foucault também critica Freud, não por afirmar que desejos nunca são supridos, nem pela teoria do inconsciente, mas pela teoria da repressão sexual. Para Foucault a sexualidade é um dispositivo histórico, cultural e não biológico, instintivo. Foi inventado! Experimente dizer a um budista ou a um muçulmano ou a um cristão que sua vida se reduz à pulsão sexual. Não faz sentido para nenhum deles, e todos vivem muito bem, obrigado. Ou não, mas isso não tem nada a ver com a sexualidade.