quarta-feira, 24 de junho de 2026

Ser e não ser, o imaginário paradoxal de Fernando Pessoa

 Ser ou não ser, esse dualismo é uma das bases da reflexão filosófica desde os pré-socráticos. Mas que dizer sobre ser e não ser? Não se trata de contradição, contraposição, nem de contrários. Seria ilógico algo ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, Aristóteles o demonstrou.

Não para Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935). O que teria a dizer o poeta com sua arte, a literatura, para nossa vida? Para a Filosofia? Passemos por alguns de seus lances mais incríveis, na prosa que, para dizer o mínimo, é poética.

A Filosofia quando imersa na literatura pode surpreender, o paradoxo pode se apresentar: Fernando Pessoa em "O Livro do Desassossego" (fragmentos escritos entre 1913 e 1935) nos conduz por caminhos impossíveis, para a incrível fragilidade de ele próprio sendo não ser. Explico, se é que o caso pode ser explicitado à luz da lógica e da verossimilhança, por meio de abordagem poético-metafísica. 

 
Livro do Desassossego, São Paulo, Editora Todavia, 3a. reimpressão, 2025.

Em "O Livro do Desassossego" Fernando Pessoa se apresenta enigmático, imprevisível, desperta sensações inauditas, experimentamos ao mesmo tempo o caos e a ordem, metáforas reais, a morte, as impressões calam fundo, expõem nossos limites, um deles é poder viver só o real e conceber só o possível, essa última condição é questionada como que em lamúria: "Nunca aprendi a existir" (p. 80), como seria esse aprendizado? É preciso cultivar a imaginação para implementar os sonhos, uma chuva constante trai "o desassossego na gota a gota" (p. 85). Desassossego que dissolve a personalidade, não querer compreender e nem analisar, olhar para nossas impressões como se fossem campo, isso é sabedoria.

O poeta invoca figuras e situações que vibram e inauguram sentidos, estes abrem "portões do meu afastamento" (p. 96), seu espírito em constante devaneio. Onde fica a realidade, a distinção ser e não ser envereda pelos sonhos, os sonhos requerem paisagens reais, neles a ação é sempre completa, perfeita, o que não acontece na vigília, nela há um perpétuo decorrer, possibilidades cercadas de impossibilidades. 

O que ele escreve lhe parece fútil, falhado e incerto, ele luta interiormente para alcançar a beleza da poesia e nunca alcançá-la. Ao mesmo tempo o leitor é alçado ao poético: " o fumo de chaminés de além de árvores adormeceu com baladas de simplicidade o mistério inquieto de minha alma" (p. 111). As flores da casa de campo que só nele existe, tornam o irreal real. O que me leva a perguntar, como seriam as casas de campo em cada um de nós?

Paradoxal, ser e não ser em luta sem final dialético, somos como que prisioneiros em nossos limites. Pessoa inverte Narciso, o espelho nos desnuda: "O criador do espelho envenenou a alma humana" (p. 131); assim, "já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não podermos extrair beleza da vida" (p. 134), o que eu vejo como um lamento que é apaziguamento.

Somos como que lançados na vida, um pouco como pensam os existencialistas. Mas o poeta vai além: "Como todo estoicismo não passa de um epicurismo severo, desejo, tanto quanto possível, fazer que a minha desgraça me divirta" (p. 141). Criar um pedestal eterno,  viver a vida nos extremos indiferente às causas públicas, atraído pelo oculto, a sensibilidade valendo mais que a inteligência. 

Afinal, o que somos nós? Penso que Pessoa nos leva a repousar ser e não ser em um cálice, em uma ânfora, ao abrigo das vagas.

"Porque hás de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?" (p. 166).

Obs.: "Livro do Desassossego" tem 518 páginas, resta para mim mergulhar nas demais 348.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Por que há tão poucas mulheres filósofas?

 Desde há poucas décadas as discussões em torno a gênero têm se evidenciado. Territórios seriam exclusivamente masculino, exclusivamente feminino? A tendência é diluir a diferença. Sem pretender entrar nessa polêmica, observo que na Filosofia preponderam os homens. São raras as mulheres nesse panteão masculino, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir podem ser elencadas. (Na coleção Os Pensadores há 62 filósofos).

O mesmo não acontece na literatura, na arte, na profissionalização: desde o século 18/19 elas são inúmeras, seu valor incontestável. Muito antes, guerreiras, rainhas, com poder.

A personagem de Coetzee apresentada no post anterior, Magda, especula que devido às mulheres não conseguirem ver o todo, que é a condição para filosofar, o território seria exclusividade masculina.

Acho que não tem a ver com totalidade, isto é, ver apenas o particular não explica serem raras as filósofas. Em que residiria essa disparidade? Precisei filosofar, é claro. Presentes na arte quase ausentes da Filosofia. Nietzsche foi ainda mais longe, mesmo apaixonado por Lou Salomé, desprezou as mulheres, um misógino.

Respirei fundo, criei coragem, pensei em usar o conceito mais abstrato, ir à raiz do filosofar. Essa raiz é a interrogação sobre o ser, como ocorre que tudo é, o ser das coisas difere do simples estar aí presente com suas características acessíveis ao ver, ao tocar, ao interagir.

O ser mesmo das coisas é inteligível para os homens de fora, é-lhes exterior, os filósofos acedem ao Ser despidos de emoção, apenas com a razão, com a especulação, com interrogação, com a dúvida, com a certeza, com a suspeita, com a idealização, com a materialidade, a depender da corrente de pensamento.

Daí me ocorrer a seguinte hipótese, as mulheres sentem, geram, o ser é vivenciado, criado em seu ventre, é parido, nasce, alimentado em seu seio, abrigado, ser que se apresenta, que depende inteiramente de cuidado. As mulheres mães o têm em si, nelas o ser humano floresce. O mundo o acolherá, haverá um processo leve ou duro e sofrido. Mas a origem é a mesma para todos, uma mãe. 


Estátua em igreja da Holanda, anônima, facho na mão. 

Essa criação do ser não é uma contemplação do ser, uma especulação conceitual. Essa creio ser uma diferença inapelável, homens não gestam o ser vivente. Estar aqui e agora para nós mulheres não é o mesmo que posicionar-se diante do mundo das coisas ao modo do conhecimento. Claro que isso pode e é realizado por todo aquele que a isso se dedicar: refletir, especular, conceituar, abstrair, independe de gênero. O ponto em questão, que levanto correndo risco, é que além dessa possibilidade, para as mulheres há essa, de criação, de nelas brotar vida, em seu útero o ser é gestado. Segue-se um processo de total dependência, mesmo após o nascimento.

Isso posto, a crítica é a de que essa hipótese não passa de reducionismo biológico. Mas, como disse, é uma especulação.

A outra ponta dessa questão, a de que há poucas mulheres no panteão da Filosofia, tem raiz histórica e cultural, mulheres na casa, papel feminino de criar e cuidar, dificuldade de acesso à educação, condições que restringem seu tempo. O que não impediu a profissionalização feminina que corre a passos largos, a competência não é uma questão de gênero.

Ainda assim, cabe a pergunta dessa postagem. 

Obs: Nem Hannah Arendt nem Simone de Beauvoir tiveram filhos...