O curso de Foucault no Collège de France, "Hermenêutica do Sujeito" (1982) indica a possibilidade de aplicação do conceito que definimos no post anterior.
O ponto de partida é a diferença entre conhecer a si mesmo e cuidar de si mesmo, sendo que o primeiro tipo prevaleceu na cultura ocidental.
Cuidar de si remonta a Sócrates e, especialmente aos estoicos. Conhecer a si mesmo remonta a Platão, se torna crucial na tradição do cristianismo, chega ao racionalismo de Descartes, a Kant e, com exceções à contemporaneidade.
No curso Foucault ressalta a meditação, o olhar para dentro de si, o cuidado com os regimes, a importância do preparo de Alcebíades instruído por Platão para ser um bom governante, com o controle de sua alma que conduz à sabedoria, a agir com justiça, a distinguir o bem do mal. Aos ensinamentos práticos de Platão, se alinham a teoria do mundo das ideias e da reminiscência, conhecer, conceituar.
Cuidar do corpo e da alma, a vida toda, como se fosse uma arte de viver sem imposição, sem obrigação e sim por meio da prática de virtudes, como a coragem, a resistência, o fortalecimento da vontade, pressupõe, ou melhor, exige falar com franqueza, não obediência a regras. A relação sincera consigo e com os outros capacita para a prática da justiça.
Essa história da subjetividade ocidental de Foucault, essa hermenêutica do sujeito, dos modos de ser de nossa subjetividade, resgata o modo do cuidado, indica que a tradição estoica foi como que amordaçada pela obrigação de revelar sua alma, seus desejos e impulsos na confissão, salvar a alma do pecado, a noção de punição e castigo do cristianismo.
Ponderar, ser simples, justo, cuidar de si para bem cuidar dos outros, difere da renúncia de si, da vigilância permanente de seus atos e pensamentos, do exame de consciência, decifrar sua alma, livrá-la das tentações, características do modelo cristão. Modelo que remonta a Platão, no qual como que se bifurcaram as duas tendências, com o prevalecimento do conhecer a si mesmo, herdada pelo modo de ser da cultura ocidental.
Os estoicos privilegiam o modo de ser livre, que somos capazes de dar razões, que a vida virtuosa não objetiva prêmio e nem castigo eterno, que as coisas são efêmeras, que há guias para a ação, para conduzir-se com coerência, que o prêmio é a própria vida.
O pressuposto dessa hermenêutica do sujeito é o de que ser sujeito significava ser sujeito de ação reta, gratificante, a verdade exercida, ser sujeito ético dessa verdade, o modelo sendo o estoicismo. Que não há sujeito universal, imutável, que nossa tradição é muito mais a de escarafunchar e classificar do que viver em harmonia, com coragem e coerência.
Creio que a mensagem seja a de que não só o modo de ser sujeito se modificou, tanto para o si mesmo como para os outros, mas que o retorno para o cuidar, para o livre falar, pode ser alcançado por meio de uma ética, a dos atos de liberdade, inteiramente diversa da obrigação de conhecer, de que há lei e que a ela estamos presos, que precisamos da palavra verdadeira do outro.
Mais detalhes, no curso de Foucault. Arrisco indicar espero que sem cabotinismo, a publicação abaixo, p. 193-216.
Ps.: recado à amiga Dayse: p. 231-232 em "Hermenêutica do Sujeito", Foucault se refere a Lacan. Vale conferir a relação entre sujeito e verdade.