Desde há poucas décadas as discussões em torno a gênero têm se evidenciado. Territórios seriam exclusivamente masculino, exclusivamente feminino? A tendência é diluir a diferença. Sem pretender entrar nessa polêmica, observo que na Filosofia preponderam os homens. São raras as mulheres nesse panteão masculino, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir podem ser elencadas. (Na coleção Os Pensadores há 62 filósofos).
O mesmo não acontece na literatura, na arte, na profissionalização: desde o século 18/19 elas são inúmeras, seu valor incontestável. Muito antes, guerreiras, rainhas, com poder.
A personagem de Coetzee apresentada no post anterior, Magda, especula que devido às mulheres não conseguirem ver o todo, que é a condição para filosofar, o território seria exclusividade masculina.
Acho que não tem a ver com totalidade, isto é, ver apenas o particular não explica serem raras as filósofas. Em que residiria essa disparidade? Precisei filosofar, é claro. Presentes na arte quase ausentes da Filosofia. Nietzsche foi ainda mais longe, mesmo apaixonado por Lou Salomé, desprezou as mulheres, um misógino.
Respirei fundo, criei coragem, pensei em usar o conceito mais abstrato, ir à raiz do filosofar. Essa raiz é a interrogação sobre o ser, como ocorre que tudo é, o ser das coisas difere do simples estar aí presente com suas características acessíveis ao ver, ao tocar, ao interagir.
O ser mesmo das coisas é inteligível para os homens de fora, é-lhes exterior, os filósofos acedem ao Ser despidos de emoção, apenas com a razão, com a especulação, com interrogação, com a dúvida, com a certeza, com a suspeita, com a idealização, com a materialidade, a depender da corrente de pensamento.
Daí me ocorrer a seguinte hipótese, as mulheres sentem, geram, o ser é vivenciado, criado em seu ventre, é parido, nasce, alimentado em seu seio, abrigado, ser que se apresenta, que depende inteiramente de cuidado. As mulheres mães o têm em si, nelas o ser humano floresce. O mundo o acolherá, haverá um processo leve ou duro e sofrido. Mas a origem é a mesma para todos, uma mãe.
Estátua em igreja da Holanda, anônima, facho na mão.
Essa criação do ser não é uma contemplação do ser, uma especulação conceitual. Essa creio ser uma diferença inapelável, homens não gestam o ser vivente. Estar aqui e agora para nós mulheres não é o mesmo que posicionar-se diante do mundo das coisas ao modo do conhecimento. Claro que isso pode e é realizado por todo aquele que a isso se dedicar: refletir, especular, conceituar, abstrair, independe de gênero. O ponto em questão, que levanto correndo risco, é que além dessa possibilidade, para as mulheres há essa, de criação, de nelas brotar vida, em seu útero o ser é gestado. Segue-se um processo de total dependência, mesmo após o nascimento.
Isso posto, a crítica é a de que essa hipótese não passa de reducionismo biológico. Mas, como disse, é uma especulação.
A outra ponta dessa questão, a de que há poucas mulheres no panteão da Filosofia, tem raiz histórica e cultural, mulheres na casa, papel feminino de criar e cuidar, dificuldade de acesso à educação, condições que restringem seu tempo. O que não impediu a profissionalização feminina que corre a passos largos, a competência não é uma questão de gênero.
Ainda assim, cabe a pergunta dessa postagem.
Obs: Nem Hannah Arendt nem Simone de Beauvoir tiveram filhos...
