terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que é Iluminismo? O que é Esclarecimento?

 Tomemos para ilustrar o Iluminismo Voltaire (1694-1778) em Cartas Inglesas, texto em que ressalta o pensamento inglês em comparação com o racionalismo francês. 

Até no sorriso é irônico, demolidor.

Desfia uma série de críticas, como a da crença na imortalidade da alma como se houvesse um caminho para o céu, ele defende que a autodeterminação dos homens os conduz pelo caminho que lhes aprouver. Voltaire admira as instituições inglesas, os presbiterianos, os anglicanos, o livre comércio que tornou os cidadãos mais livres e a liberdade que ampliou o comércio, a prática de inoculação da vacina contra a varíola. Ele preza a filosofia experimental de Francis Bacon baseada na arte mecânica, com a valorização das invenções, o progresso.

O contraste entre a metafísica de Descartes, "nascido para descobrir os erros da antiguidade a fim de substituí-los pelos próprios" (p. 21) é evidente. Para Descartes alma é a mesma coisa que o pensamento, provinda do corpo com todas as noções metafísicas mas que ela "esquece ao sair do ventre da mãe" (p. 21). Voltaire defende, ao contrário,  John Locke para quem todas as ideias proveem dos sentidos, "sou corpo e penso", assim resume ele o empirismo, questões filosóficas independem de fé e de revelação. A verve crítica é apontada ainda para o teatro, a poesia, as academias, as dissertações da academia francesa sobre os penteados das romanas, mas que ele aconselha a não confundir com estudos matemáticos, lamenta que grandes cérebros pretendem brilhar tratando de forma nova "matéria já gasta", que nada têm a dizer e que sob "títulos ridículos" escondem "investigações frívolas" (algo parece não ter mudado em certas dissertações e teses da atualidade!).

No Tratado de Metafísica Voltaire defende que os sentidos são fonte das ideias, quando os sentidos nos faltam, nos faltam também as ideias. Questiona Deus criador, pois nem todos os povos têm essa noção. Criar do nada, mas o nada não é, então criou a partir de sua própria divindade? Como pode o mundo ser eterno e ao mesmo tempo criado? Como um ser não material poderia ter criado a matéria? Atribuir qualidade ou propriedades a Deus, como justo ou injusto, é absurdo. Deus devolve a memória a quem a perdeu ou criará novas ideias? Se o homem é livre para agir, como alguns agem ora por impulso ora com tranquilidade? A liberdade para "fazer o que lhe parece ser bom" (p.77), contrasta com a impossibilidade de querer o que não dá prazer. 

***

Passemos ao conceito de Esclarecimento com base no texto Was ist Aufklärung, de Kant (1724-1804), cujo ponto de partida não é a razão pura e sim a condição humana, somos seres racionais que lutam para superar o mal, cidadãos que visam o bem comum, em uma sociedade esclarecida, cosmopolita, com a perspectiva de que a condição humana possa ser aperfeiçoada, que os homens possam sair do estado de minoridade, quer dizer, de subserviência, de dependência, que possam usar sua própria cabeça. 


Kant, o exemplar rigor filosófico.
Infelizmente houve acomodação a esse estado de dependência, mas "se for dada liberdade, o esclarecimento é quase inevitável", afirma Kant, sem tutela, com coragem, com liberdade de crença e religiosa em uma sociedade civil com um público culto, preparado para usar a razão, imprensa livre que estimule essa capacidade de pensar por si, com governantes que facilitem aos governados escolhas livres e responsáveis, sem imposição deste ou daquele credo.

Kant inspirou Foucault em Qu'est-ce que les Lumières (1984), o ousar saber, a filosofia capaz de pensar seu próprio tempo, a coragem para o exercício da liberdade, cabe a todos nós como dever pessoal esse processo de esclarecimento por meio do uso público, livre e universal da razão, dos argumentos,  sair do estado de subserviência sem medo, sem tutela, sem autoritarismo, de modo a preservar a autonomia e a dignidade da pessoa. Tais condições são ao mesmo tempo espirituais e institucionais, éticas e políticas. 

O esclarecimento requer, ao mesmo tempo, argumentação acessível, com liberdade e responsabilidade,  esse é um "problema político", ressalta Foucault, o uso ilegítimo da razão, ao contrário, produz ilusão, dogmatismo e heteronomia, vale tudo, um tipo de salve-se quem puder. Ora é lícito, legítimo e razoável poder determinar o que conhecer e o que se pode esperar. Vivemos em uma época que acolhe e necessita desses esclarecimentos, algo impossível antes da modernidade, justamente o período histórico propício, modernidade entendida como período de usufruir o real ao mesmo tempo exercitar a liberdade, segundo entendimento de Foucault. É "a permanente criação de nós mesmos em nossa autonomia" (p. 573). 

A atualidade parece mais atada às palavras de ordem e ideologias que impedem justamente, o esclarecimento.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A esquerda que perdeu o rumo e o prumo

 Uma das teses do marxismo, que é a máxima representação da esquerda, está a do materialismo histórico, a história vista em suas contradições.

Outra tese é a da dialética, significa que os movimentos históricos se dão na economia, no trabalho, nas transações, e que as ideologias e crenças são um véu de ignorância, um apanágio do tipo pão e circo para manter as consciências alienadas, obedientes, cegas. A esquerda, para ser minimamente coerente, deveria expor que uma de suas teses a ser sustentada para não inverter nem deturpar o marxismo, é o ATEÍSMO, sim, nada de crença, de mitos, de imagens, de reverência ao sobrenatural. Materialismo dialético implica em superação de contrários, a história sendo progressiva, portanto, o conservadorismo fica de fora. Daí ser gritante a atual contradição representada pela defesa oportunista de crença religiosa, de defesa de santas, de imagens, de símbolos religiosos.

Outro aspecto é o do esclarecimento, o dar razões, o mostrar, o demonstrar e não a adesão oportunista. A história é viva, o passado e o presente representam movimento, não ficam congelados à mercê do primeiro chefete que se proclama iluminado. Daí o desvendamento das ideologias, a denúncia do uso explorador da política.

O que mudou desde o século 19 quando surgiram as teses marxistas até o século 21? Guerras mundiais, economia globalizada, informação contínua e multifacetada, tecnologia avançada, velocidade e instantaneidade da comunicação, confronto e debate de ideias e propostas, esclarecimento, mobilidade social e econômica. Essas mudanças deveriam conduzir o progressismo da esquerda para lutas por justiça social, pela consolidação do Estado de direito, pelas constituições, pela transparência e liberdade de opinião, pelas eleições livres. 

O que se vê?

A religiosidade explorada até o limite da insanidade. Pessoas que se apegam às mensagens ralas, inverídicas, a repetição nauseante de fakes respaldadas pela corte suprema, a defesa de candidatos que expoliam o direito à informação, uma "esquerda" que se recusa interesseiramente em pôr um fim à desinformação.




"Duas vezes o presidente tirou o Brasil do mapa da fome", gritam a plenos pulmões. Se tirou da primeira vez, não o fez adequadamente, pois precisou tirar o Brasil do mapa da fome pela segunda vez! E por aí afora, defesa do indefensável, esquerda sem rumo, sem poder para argumentar contra o conservadorismo. Enquanto isso os conservadores nadam à vontade, o que é lastimável. 

Pensemos na democracia liberal, sem mentiras, sem deturpações, livre para se manifestar com argumentos, à luz do dia e não na obscuridade de uma ideologia ultrapassada.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Os plantadores de batatas e a IA

 Trump e Xi Jinping se encontraram (24/set/2026) na Casa Branca para discutirem sobre o avanço da IA, o que por si só demonstra a preocupação com o futuro da tecnologia e, consequentemente da humanidade.

No interior da Mongólia (ermo e longínquo território chinês) empresas chinesas constroem estruturas gigantes de plataformas (data centers) como a da Huawei, ByteDance, Deepseek, concorrentes das empresas americanas. 

Ao lado dessas construções há os cultivadores de batata, tostados pelo sol, pele enrugada, eles contrastam  com os operários que erguem as plataformas em seus capacetes amarelos. Os agricultores se sentem ameaçados, talvez percam seu emprego, um deles afirma que sequer usa a internet. Outros sabem que é inevitável o governo chinês construir prédios gigantes que abrigarão equipamentos responsáveis pela produção e reprodução de dados para alimentar a IA, imprescindível nas indústrias, na educação, na sociedade e seu futuro. 




A China forma cinco vezes mais engenheiros do que os EUA, o mais irônico é que parte deles proveio de alguma universidade americana de ponta para atuar nos centros de dados chineses. A concorrência é forte, o encontro em Washington de Trump e Xi não implica em colaboração e sim em explicitação da guerra do mais forte. (Fonte: reportagem de Laura Bircker para a BBC, 22 de setembro, intitulada "Futuro Tecnológico")

Em excelente documentário, a Netflix traça a trajetória dos cérebros responsáveis pela invenção e pela expansão ilimitada da IA, resultado de máquinas que ultra processam dados, a mais alta tecnologia jamais inventada para replicar, instruir e dominar todo tipo de conhecimento, de arte, de comunicação, expandi-los a partir de dados infinitos recolhidos por meio, inicialmente, de escaneamento e digitalização de todos os conteúdos de tudo o que se publicou, conectá-los para alimentar infinitas operações, informar a respeito de tudo o que for suscetível de cálculo, operações, previsões. Capacitar diagnóstico, facilitar a pesquisa, invenções, cura de doenças, armas, coordenação do trânsito, direção de veículos, robótica, controle de pragas na agriculta, etc. etc. Isso tudo e mais o que se puder imaginar, em expansão infinitesimal. O contraste entre plantadores de batata na longínqua Mongólia, temerosos de perder seu sustento e a engenharia das plataformas lá sendo construídas, que, aliás demandam água em abundância retrata nossas atuais condições.


Data centers sendo construídos na Mongólia, China.

No documentário da Netflix, um rapaz preocupado com o futuro de seu filho que vai nascer, entrevista diversos criadores de conteúdo, há os que preveem futuro sombrio e mesmo o fim da humanidade como nós a conhecemos; os que são otimistas, a IA revoluciona e facilita a vida em todos os sentidos; um terceiro grupo dos que consideram que, como toda a invenção, pode ser usada para nosso bem ou nosso mal. 

Estruturas, as mais sofisticadas e seguras, podem colapsar. Entre os desenvolvedores dos programas há os que consideram provável que grande parte da humanidade seja exterminada. 

Mas bebês nascem, o entrevistador dos gênios da IA se mostra um tanto aliviado, criará seu filho, irá educá-lo em uma sociedade "operacional" digamos assim, revolucionária. Isso não exclui as enormes dificuldades ambientais, sociais e econômicas que, certamente IA alguma aliviaria. Urge a responsabilização dos governos, concluem os cientistas.

Entretanto, a criatura pode dominar o criador, cenários de guerra de extermínio por obra e graça da própria IA que agiganta a si própria, ilustram à perfeição nossos dilemas, o que nos aguarda.

Será possível produzir também batatas?

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Digressões

 As pessoas

Em cada pessoa ressoa um mundo, em cada um de nós toda a humanidade: o gênio recolhido em seu quarto; o louco desvairando na praça; o motorista no trânsito das seis horas; o varredor de ruas que pousa a vassoura para um breve descanso; o gari que equilibra o lixo pesado; o enfermeiro que de madrugada verifica o estado do doente; a florista que compõe o buquê; a criança que atravessa a rua sozinha; o alpinista que atingiu o cume; o terrorista que carrega explosivos; o político que vocifera promessas; a professora que usa o quadro negro para expor um teorema; o poeta que perdeu a inspiração; o fotógrafo que enquadrou um lance; o jogador no instante do gol. 

Em cada alma o espelho da condição humana, inescapável. 

Os instantes

O freio que não veio a tempo; o olhar que num segundo diz tudo: raiva, amor, inveja; o ponto de arremate; o ápice do amor; o resgate do salva vidas; o acorde final da orquestra; o salto de paraquedas; o tiro fatal; a palavra que diz tudo; o martelo do leiloeiro; o primeiro beijo; o vagido do bebê; o último suspiro; a página em branco; o bilhete do suicida; o adeus antes das partidas; a mensagem apagada; o ponto final do romance; a fuga inesperada; o it missa est; a mão que impede a queda; o piscar de olhos que sela o entendimento; o frenar do avião na pista. Instantes marcam o sem retorno do tempo.

A natureza

Caminhar na relva; o murmúrio do riacho; as andorinhas no fio de luz; os sabiás nos quintais; a passagem das aves migratórias; o salto do peixe; os vales floridos; os cachos de glicínia; as areias do deserto; as geleiras dos cumes; o abismo oceânico; o ar rarefeito; a tempestade que se anuncia; o sol do meio-dia; o horizonte marinho; a foz do rio; a floresta tropical; a praia deserta; os fósseis; o vento que assobia; a brisa que refresca. E natureza marcada, conspurcada, entremeada por nódoas, avalanches, poeira, lama, fumaça.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A diferença entre a Filosofia da Existência de Heidegger e o Existencialismo de Sartre

Martin Heidegger (1889-1976, Freiburg), preferia a cabana, a rusticidade, o isolamento, pensar o Ser-aí, quer dizer a condição humana, a ek-sistência temporal no mundo; foi amante de Hannah Arendt, professor na Universidade de Freiburg e de Heidelberg, cátedra à qual renunciou ao ser acusado em 1934 por sua adesão ao nazismo, sem que ele tivesse compactuado com a perseguição aos judeus, ou com a noção de raça. Quando julgado, Sartre testemunharia a favor de Heidegger, mas não compareceu ao tribunal.


Heidegger na cabana.
O mundo está aí, já os processos da consciência são intencionais e a existência livre. O pensamento filosófico desestabiliza, confronta, há força vital, a indagação pelo Ser é incontornável. Somos seres no tempo, ser-para-a morte. Em "Ser e Tempo" Heidegger questionou a técnica, o modo de ser do uso, do aproveitar, do palavrório em oposição ao modo de ser do cuidado, da assistência, da vida sem subterfúgios, da autenticidade, da liberdade para realizar o pro-jeto. A mortalidade nos angustia, essa estranheza de sermos aí no mundo como manifestação do nada, condição que carregamos, o dizer não, o indagar que nos ultrapassa. Conceitos que influenciarão Sartre.

Na segunda fase, passou para o tema da essência do homem em sua relação com o ser, ameaçada pela técnica, pela linguagem vista como comunicação, subjugada à opinião pública, o ente dominado por explicações e fundamentações da ciência e da filosofia. Isso dilui a responsabilidade estética e moral, representa domínio sobre o ente. Ao longo da História da Filosofia, a essência do homem foi concebida como ser racional, como humano oposto ao bárbaro, como homem que trabalha, como existente que precede a essência, como homem livre para se reinventar.   

Heidegger considera que Sartre retoma a metafísica tradicional, apenas invertendo-a ao conceber a existência como essência, como questão de humanismo, isso enfraquece a relação do ser com o ser humano. Pensar diz respeito ao ser e à essência do homem situado na abertura do ser, não na relação com seu organismo, nem de ter uma alma imortal, nem de ser pessoa. O homem é ser-aí, exposto pela linguagem à verdade do ser. Que ser é esse? Mais do que fundamento, é abertura, ele é o protetor da casa do ser, sendo a poesia a manifestação máxima. "O pensar trabalha na edificação da casa do ser" (in "Sobre o 'Humanismo'"). Em cada sim, em cada não, o ser se inscreve, a linguagem é a habitação do ser humano. 

Observe-se que a história das diferentes adesões ao ser mostra que para Heidegger há uma adesão atual ao ente na forma desenfreada da técnica que subtraiu a essência do ser. 

Jean-Paul Sartre (1905-1980, Paris) empunhou o megafone, protestou nas ruas, sempre aberto ao público, escritor prolífero tanto na área da Filosofia ("Ser e Nada", 1943) como na literatura, teatro, contos, romances, além de repercutir inúmeros acontecimentos políticos de seu tempo. Foi companheiro de Simone de Beauvoir, ambos influentes por suas posições críticas, de total não conformismo, militantes, ateus declarados.


Sartre protesta, manifestações da esquerda

O homem é o ser no qual a existência precede a essência, ele é pro-jeto, capaz de escolha, em cada escolha ele escolhe toda a humanidade perante a qual somos responsáveis e inteiramente livres. Não há escolha gratuita, o que justamente torna a vida valiosa, permanente construção. No outro lado dessa escolha livre e responsável, dá-se a má-fé, o disfarce, o engano. 

Qual o significado do Nada? O Nada brota da condição humana, na interrogação abre-se uma brecha, ao entrar em um quarto, por exemplo, e não encontrar a pessoa procurada, dá-se o não estar ali.

A liberdade angustia diante dos possíveis, está-se situado, lançado no mundo, comprometido, engajado. Depende apenas de nós realizar o sentido do mundo e de nós mesmos, sem fuga, pois fugir do inevitável é má-fé. O homem, que Sartre intitula como Para-si, é contingente, está aí para nada, supérfluo e nisso se enraíza a liberdade, "somos livres para deixar de ser livres" (O Ser e o Nada, p. 544). Motivos, vontade, o passado, são inevitáveis, mas como reagir e valorar depende de cada um.

Sartre propõe uma psicanálise existencial, diversa da freudiana, sem os conceitos de complexo, libido, "soterrado nas trevas do inconsciente"(p. 701); pelo contrário, disposto e exposto ao que está aí, luminoso, deliberado, podendo ser revogado ao aderir a nova posição diante do passado. A psicanálise existencial é flexível, adaptada a cada sujeito, elucida suas escolhas não nos sonhos, nem nos atos falhos, obsessões ou neuroses. "Essa psicanálise ainda não encontrou seu Freud" (p.703).

Enfim, Heidegger percorre as aberturas para o ser no terreno da metafisica, como a existência se dá, exposta à verdade do ser, que foi encontrada como organismo, como consciência, como pessoa, como trabalho, em todos houve o "esquecimento do ser"; Sartre busca a responsabilidade de um ser aí, instado a decidir, sem desculpas, situado e livre, ao mesmo tempo engajado, pode-se dizer, uma concepção para a qual a existência é sua essência.

domingo, 16 de agosto de 2026

O injustificável, A. Camus em "L'Étranger"

Em romance curto, denso, Camus narra a história de Mersault, em primeira pessoa, num curto espaço de tempo iniciado com a morte da mãe e que termina com sua condenação à morte por homicídio.

O local, Argélia na década de 30 colônia francesa. Na cidade à beira-mar o calor, a paisagem, céu e praia, são onipresentes. A mãe vivia em um asilo, ao qual se habituara, "como em tudo na vida". Ter que participar do velório, a noite toda com os colegas dela um tanto adormecidos, ele se cansa, o funcionário oferece café com leite, ambos fumam. Enterro no dia seguinte, sol, sinos, caixão, calor que perturba a vista e as ideias. Alívio chegar em Alger, com direito a dois dias de folga aos quais se acrescentou o fim de semana. Encontra ex-colega, Marie, "semblante de flor", namoram vão à praia, nadam juntos, depois vão ao cinema, filme de Fernandel (ator cômico famoso à época).

Dois vizinhos, o velho que bate no cachorro mas dele não se separa e Raymond que namora a irmã de um árabe, bate nela, diz que pode porque a sustenta. Domingo, na praia, avistam um grupo, entre os quais o irmão da amante de Raymond, que quer vingança. Mersault retorna à praia, com a arma do amigo esquecida no bolso, calor extremo, avista o rochedo com sombra e fonte de água, onde o árabe estava deitado, este levanta, aponta faca como "espada fervente", Mersault o alveja com tiro mortal, dispara mais quatro vezes. Compreendeu que "havia destruído o equilíbrio do dia" (p. 54), "o silêncio de uma praia onde eu tinha sido feliz" (injustificável).


Filme de F. Ozon, 2025

Segunda parte do livro, prisão e julgamento. No interrogatório o destaque é a insensibilidade com a morte da mãe, o advogado pergunta se preferia que ela não tivesse morrido, ele responde que pessoas sãs haviam desejado a morte de pessoas que elas amam. O advogado pede que ele não diga isso no dia do julgamento (injustificável).

O juiz pede que ele relate todo aquele episódio, Mersault pensa consigo que nunca falou tanto, por que os quatro tiros? Você não acredita em Deus, pergunta o juiz com um crucifixo na mão? Não sou cristão, responde Mersault tomado por aborrecimento (injustificável).

Na prisão tenta dominar seu dia a dia preenchendo com lembranças, passou a dormir muito, recorda que a mãe dizia que a gente se acostuma com tudo. Um ano se passa, enfim o julgamento de um crime que atraiu a atenção até de jornalista de Paris. Por que internou sua mãe? Falta de dinheiro (injustificável). Por que fumou, tomou café com leite e não chorou durante o velório? (injustificável). Mersault sentiu que o odeiam. "Eu o acuso de haver enterrado uma mãe com o coração de um criminoso" (injustificável). Promotor: você premeditou, é inteligente, desalmado, insensível, monstruoso (injustificável). Por que matou? Devido ao calor, resposta que provoca risos (injustificável). Calor, luz solar, abafamento são circunstâncias onipresentes no livro.

À espera do dia da execução, sem que ele solicitasse, recebe a visita do capelão que não entende como alguém não crê na vida após a morte (injustificável), tenho certeza, diz o capelão, que lhe ocorreu desejar outra vida, Mersault se irrita, acusado porque não chorou no enterro da mãe, porque é ateu, que importância têm os fatos, as pessoas e suas escolhas? 

Camus abre uma fresta para a justificação, filosófica a meu ver: "Eu me abri para a terna indiferença do mundo" (p. 101).

Conclusão: a existência pesa, Mersault/Camus mostram que não há necessidade de se justificar perante expectativas da sociedade, da moral e do direito. É possível defender sua própria moral, seu próprio modo de ser.

Obs: Há centenas de estudos sobre Camus nas redes sociais, filme de Luchino Visconti de 1967 sobre "O Estrangeiro"; Mersault é visto como "apático", qualificativo do qual discordo. A minha primeira leitura de "L'Étranger" foi para o exame de Nancy, Aliança Francesa, décadas atrás, 1967!

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que é justificação para Wittgenstein? O que é justificação para Habermas?

 A justificação é um recurso de atos de fala, de certo jogo de linguagem que se caracteriza por chegar a um fim, a um resultado, do contrário não se sustenta, segundo Wittgenstein. Quando se trata de uma ordem, de um pedido, a justificação requer que se atenda o pedido, ou que se recuse o pedido, mas, atentar para a satisfação desse pedido não é uma justificação. O apropriado seria justificar por meio de uma experiência e chegar a um termo, como por exemplo ser bem sucedido. 

A melhor justificação, melhor do que a certeza, é o fato de dar certo, confiar no resultado, por exemplo, que fogo queima. E essa questão para Wittgenstein, à diferença do racionalismo e do empirismo, não é a do raciocínio indutivo e sim algo que diz respeito às nossas formas de vida, àquilo que aceitamos como uma justificação. Outro exemplo: para projetar as dimensões de uma ponte, há certas razões que justificam imaginar tais ou tais dimensões, mas não quanto às escolhas das dimensões imaginadas. Estas escolhas precisam ser postas em prática, algo para além da justificação. O papel do contexto é crucial, decisivo para Wittgenstein em Investigações Filosóficas.

Seguir uma regra justifica-se, justificações podem ser requeridas até o ponto em que se esgotam e se atinge, então, o solo firme. Não vale como justificação o caso seguinte: alguém pergunta, você sabe dirigir? A pessoa afirma que sabe, mas quando posta à prova, mostra-se inepta, fica evidente que não sabe. A resposta de que sabia não vale como justificação. É preciso certas circunstâncias para justificar que se sabe qual é o caso, que houve compreensão do que está em jogo. Outro exemplo: alguém ser guiado em uma caminhada, as circunstâncias podem variar, é porque não sabe o caminho, é cego, está sendo puxado pela mão. Ao justificar o uso de uma palavra, isso quer dizer que houve ressonância, que o outro entendeu.

§ 486 "Como a palavra 'justificação' é usada? Descreva jogos de linguagem. A partir disso você será capaz de ver a importância de ser justificado" (in Investigações Filosóficas).

Em contraste, Habermas leva a justificação para outro patamar, o da validade dos atos de fala, o valor ilocucionário de comprometimento, de dar razões, de ser arguido e ser capaz de responder com veracidade, de acordo com as normas sociais e com sinceridade. 



Teoria da Ação Comunicativa

Para explicar algo, precisamos ir à realidade providos de regras de significado próprias a um enunciado verdadeiro, com explicações e práticas de justificação guiadas por critérios: coerência, convicções compartilhadas em usos  da linguagem juntamente com nossas ações. A linguagem é usada juntamente com as ações, ação comunicativa é o conceito base para Habermas, nos entendemos e por detrás desse entendimento há um mundo objetivo. 

Nosso modo de vida, com os conceitos de saber e verdade, fornece referências que transcendem a justificação, estas podem falhar. Daí a conexão entre verdade e justificação, com lugar para aquilo que se tem por verdadeiro na prática em realizações bem-sucedidas. O questionamento da verdade, da veracidade e da normatividade deve poder ser justificado por discursos que fornecem certificação para a ação. 

Para Habermas a justificação de um enunciado e a verdade de um enunciado dependem do uso respectivo, enunciados bem justificados podem ser falsificados, por isso a prática da justificação não pode dispensar a verdade, é preciso usar de razões para corrigir, para explicar normas justificáveis.

Assim é possível distinguir entre convencer e persuadir, entre a escolha por meio de razões e usar de influência, entre aprender e ser alvo de doutrinação.

Ao que parece, nos meios de comunicação atuais prevalecem persuasão, influenciação e doutrinação.

Para Wittgenstein bastam os jogos de linguagem, os múltiplos usos sem um critério acima desses usos, prevalecente. Para Habermas há critérios que validam ou não as ações comunicativas, estas diferem das ações estratégicas que visam apenas sucesso.

Que dizer de atos sem nenhuma justificação? Na próxima postagem Camus em "O Estrangeiro" responde.