Prossigo com "O Livro do Desassossego ", reflexões de Bernardo Soares, personagem fictício encarnado por Fernando Pessoa, "ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa". Dele o autor emprestou o estilo, mas as ideias, sentimentos, modos de ver e de compreender são suas, pois "na prosa é mais difícil de se outrar" (quer dizer, capacidade de ser outra pessoa). Seus temas são a temporalidade, a vida, o sentido dela e de todas as coisas, o tédio, a contemplação dos dias, e isso a partir de seu quarto ou quando imerso na situação que basicamente é o escritório na rua dos Douradores. A segunda parte da obra começa em 1931 e vai até 1934.
Nas calçadas de Lisboa
Os conceitos pelos quais se luta são abstratos, sem figura, como Liberdade, Humanidade, Felicidade, Futuro da Humanidade, Ciência Social; lutar em guerra é sacrifício estúpido, tanto pobres diabos sem literatura, como os heróis, sedutores, sonhadores e vencedores são todos gente. Fernando Pessoa esmiúça a banalidade que é seu trabalho burocrático de guarda-livros, e como ele, todos têm um chefe, mergulhado nesse ordinário ele aprofunda em direção ao metafísico-existencial e deste retorna ao cotidiano, usual; há os explorados até mesmo por Deus, como os profetas e santos "na vacuidade do mundo" (p. 230). Ele põe em xeque a ideia de inferno que só poderia ter sido inventada por uma alma satânica (p.244).
Pessoa (ou Bernardo Soares) escreve como quem pinta quadros, como na descrição do vaso na janela da vizinha, dos vendedores na quitanda com suas caixas, na mercearia que expõe bananas de um amarelo que reluz. O ordinário se transforma em extraordinário. Como somos vistos de fora? Não há espelho que nos tire de nós mesmos, ao acordar precisa de tempo na "preparação para existir", demora a sensação de estar vivo. Em contraste com filósofos que abordam a existência genericamente, Pessoa se põe a existir, o ambiente vive, como "alma das coisas", ao mesmo tempo em que se distancia, precisa parar para ver claro, analisar é ser estrangeiro, os objetos não são algo à parte, são desestabilizados, inclusive a gramática: "Sou-me, terei dito uma filosofia em duas pequenas palavras" (p. 292).
A metafísica, uma loucura, se conhecêssemos a vida, ela estaria ali. O universo pode ser contemplado sem sair de sua aldeia, ao mesmo tempo é incompreensível, cada coisa a cada momento pode ser considerada de um ou outro modo. Se a vida é um estado mental, só depende de nós darmos valor a ela. Nenhum filósofo soube responder "quem sabe o que é para si mesmo?" (p. 301).
Fernando Pessoa cultivava a literatura, a poesia, a ciência, a filosofia, escreveu poesia em francês e inglês. Não me surpreendi quando ele citou Hegel: o não-ser e o ser não se fundem, se excluem.
O escritor especula se há um plano em tudo, uma razão para tudo, seria ela Deus, no "decurso majestoso de seu ritmo metafísico" (p. 313). O mal existe, o que não implica aceitar a maldade de haver o mal.
Manufaturamos realidades, como a de uma mesa de pinho, mas não é ao pinho que nos sentamos...
Comparações e metáforas surpreendem, imerso em sua rua, em seu escritório, ao ritmo da chuva, "tudo é rua na vida"(p. 325), a noite se fecha como alçapão, a música tem hálito, as palavras abrem os olhos de seu ser, filósofo e poeta a escrevinhar num livro-caixa, o banal lhe basta, a invenção do dia; "para que serve viajar? Qualquer poente é poente; não é mister vê-lo em Constantinopla" ( p.346).
Sim, é possível filosofar na língua portuguesa...
(Na postagem seguinte encerro as observações sobre o poeta-filósofo lisboeta).

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