sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Deserto de ideias

Jornais, streams,  postagens, comunicação instantânea, vídeos curtos, jogos, solução para dúvidas, informação em escala planetária, pergunte e o robô responde, dados e mais dados, a impressão que se tem é a de que não há mais dúvidas, tudo pode ser esclarecido pela IA, que resume, pesquisa, traduz textos, livros, notícias, não sei até que ponto literatura e poesia. Enfim, uma quantidade avassaladora de informação, de dados, de estatísticas, de resolução de problemas, a sonhada Enciclopédia dos Iluministas agora na palma da mão e com acesso praticamente universal.

Mas, cadê as ideias?!

Nas histórias em quadrinhos, quando um personagem tinha alguma ideia isso era (ainda é?) representado por uma lâmpada acesa acima da cabeça, fez-se luz.


Até Donald é capaz


Ter ideia é algo que não pode ser buscado nos milhões de dados, de informação e de comunicação. Ter ideia requer pensar, resultado de estudos, leitura, interesse pelo mundo, pela condição humana, pelas situações banais ou espetaculares, pelas tentativas bem-sucedidas ou não de solucionar problemas, de criar, de insistir, de visão de mundo, de uma total e completa abertura para o ser mesmo de tudo.

Transformar no lugar de apenas reformar, ter ideia como sendo capacidade de questionar com base, com fundamento, com lucidez, com fidedignidade, com sabedoria, com a possibilidade de inovar, de evidenciar o que está acobertado, de ver o simples no complexo e de ver o complexo no simples. 

É raro ocorrer às pessoas que elas podem e devem entender o sem limites de sua capacidade de pensar por si próprias, e que essa capacidade se anula ao aderir a este(a) ou àquele(a) liderança ou mandatário sem pestanejar, abaixar a cabeça e seguir. Decadência, idolatria, imitação, culto à personalidade, anulação de si mesmo, de seus gostos, de suas predileções, que, talvez a pessoa nem saiba quais são tal o nível do conformismo.

Sem pensador algum digno do nome, nenhuma liderança com ideias próprias, renovadoras, há apenas salvadores, ditadores, pastores inflamados, chefes arbitrários, oligárquicos, condutores de massas, líderes apocalípticos, propagadores de ideologias, usurpadores de direitos, manipuladores.

É do interesses desses lidar com multidões, arrebanhar seguidores, cooptar fidelidade, mascarar seus erros em legalismos, erigir supremacias. Seguir o chefe, como na brincadeira infantil, pois seguir é tão cômodo!

Para quê pensar se eu posso simplesmente usufruir?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O que é genealogia para Nietzsche?

Em reflexões contundentes Nietzsche investiga a origem dos valores em Genealogia da Moral. Eles não valem por si mesmos, tiveram uma proveniência, em algum momento foram inventados, e daí a pergunta, como isso se deu? 

Em uma escavação demolidora, e isso é justamente a genealogia, para mostrar que os valores são fruto do desenvolvimento da vida. Seriam sinais de degenerescência ou de força e plenitude? Os valores têm a marca humana, importa perguntar para que servem, de onde provieram bem, bom, mal, seu uso beneficiou a quem? A tese do filósofo é a de que o sentido nobre das avaliações aviltou-se e se tornou o modo de valorar de fracos e submissos. Estes se valem dos juízos de valor morais para impor sua fraqueza. É como se os fracos se travestissem em fortes por meio de ameaça.

Como surgiram certos usos, por exemplo de "simples" que evoluiu para o sentido pejorativo de "banal", próprio de plebeus e não de nobres. A noção de falta moral proveio da noção de dívida a ser cobrada com represália. Esses são exemplos de como a má-consciência funciona, ela é como uma doença que traz vantagens, se faz presente em cultos, na distribuição de honrarias, não é contrariada por medo, medo de serem esses fracos alijados, rejeitados, neles prevalece o sentimento de culpa. As qualidades de ser nobre, heroico e o sentimento do divino como que se dissiparam, seus opostos predominaram na terra e foram transportados para o céu em termos de castigo eterno ou prêmio eterno. 

Essas considerações, aplicadas à condição humana, representam uma crítica de Nietzsche às construções da moralidade, da religiosidade, do caráter mesquinho e das contradições, especialmente de mandatários. Projetado para nossos dias, é possível acrescentar que esses chefes e chefetes se acham iluminados, com razão em tudo o que fazem, ordenam matanças, se utilizam de eleições, se travestem de bonzinhos, apenas seu lado é o do bem, apenas ele ou eles têm razão! 

Não é incrível que, em algum momento da evolução houve um "grão de razão humana e de sentimento de liberdade" transmutados em valores de sofrimento, de dissimulação e negação daquela mesma razão que tornou perigosos o bem-estar, a vontade de saber, a paz. O ideal ascético para o filósofo representa como que um novo céu sem o qual seria impossível ser filósofo, ideal que se tornou hostil à vida, a uma casa simples, a uma visão do alto, valores mais nobres do que o decadente valor de sacrifício. 

"Desde tempo muito longínquo a terra é um asilo de loucos" (Nietzsche, Généalogie de la Morale, p. 107).

O que essa interpretação nietzschiana significa? Não há um fundamento original que seja sólido e único o suficiente para dar conta de tudo, e, quando esse "fundamento" inventado pelos fracos é seguido, idolatrado, venerado por muitos e durante muito tempo, passa a ser cultuado como único verdadeiro, ao qual todos devem se submeter. Não passa pela cabeça do rebanho reconhecer que são apenas artimanha, invenção, uma invenção útil, é claro.

Fomos inculcados com falta, pecado, culpa, treinados a repetir, a sermos proletários felizes, a formular "a justiça dos tartufos impotentes" (p. 176) posando de honestos. A ponto de os realmente felizes sentirem vergonha de serem felizes...


Tartufo, personagem de Molière (1622-1673), encarna a hipocrisia, a dissimulação, o devoto enganador.

Chefes do passado e os atuais, são exemplares desse tipo. Saltam aos olhos aqueles que mandam e desmandam em sua supremacia, serve a eles como luva o que diz Nietzsche: "Seres fisiologicamente perturbados (detraqués), caducos, corroídos por vermes, todo um reino oscilando com vingança subterrânea (...) em suas máscaras de vingança" (p. 141). 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Arte X Engajamento

 Quando do fim da URSS estátuas gigantescas foram derrubadas, o realismo veio abaixo com elas. Trata-se de um caso extremo de arte engajada, zero de valor estético, que não se prestava para simbolizar, apenas enaltecer um regime. Ora, a arte requer simbolismo, interpretação, fruição, impacto, transformação. Retirar o objeto de seu uso cotidiano, por exemplo, e reposicioná-lo como obra, como conceito, tem efeito estético, rompe com estruturas, como "Fonte" (1917), de Marcel Duchamp, um reles mictório que acabou como ícone estético. Quando esses gestos são repetidos por artistas esforçados, mas medíocres, esvai-se tanto o conteúdo como a forma,  farão parte da cultura de massa.

A criação estética engajada se torna fácil de consumir, sua mensagem se explicita, o que pode comprometer o valor estético. Nesse sentido, vale visitar a 36a. Bienal de São Paulo para conferir justamente o valor artístico do que ali está exposto, em que se privilegiou a onda "woke", o discurso da etnia, da ecologia, da terra, de certos países de certo continente, a África. Implícita está determinada ideologia, a pregação de conceitos, um lado é o "correto" politicamente, aquele que escancara como dever de ofício referências às opções sexuais, pertencimento aos povos da floresta, o dever do engajamento. O espectador sente que falta algo, o quê? Falta o referido efeito de fruição, de deslumbre, de surpresa, transmissor de prazer, mas também de sofrimento, morte, tortura, guerra.

Que enorme diferença entre o mural "Guernica" de Picasso e os protestos ecológicos com milhares de tampinhas de plástico em forma de túnel; o público que visita essa Bienal pode se sentir desorientado face às tendas armadas, às performances de abraços, às esculturas e engenhocas sem saber o que representam. Certo, o exemplo de Picasso não é o mais apropriado para contrastar com o que as instalações da Bienal. Os críticos dirão que a arte deve inovar, romper com estruturas, transgredir. Que a proposta de uma Bienal difere inteiramente daquela com artistas consagrados. Mas, "Guernica" expõe, denuncia, interpela, a morte ganha vida, cada detalhe estarrece, o painel se oferece à leitura, o expectador interage. "Guernica" é arte. Ao topar com um monte de terra tal como exposto na Bienal, isso quer dizer o quê? Qual será o destino das tendas, das instalações, do ajuntamento de artefatos?


Bienal SP 2025
Até que ponto essa quase obrigação de engajar produz os efeitos desejados de protesto, de denúncia, causam impacto? O intelectual engajado discursa o que dele se espera, como o premiado Wagner Moura, ótimo ator, isso não se discute. Ao receber o Globo de Ouro ele dispara contra o fascismo do ex-presidente, que a ditadura militar que se encerrou em 1985 representa ainda uma ameaça. Ele diz isso mesmo com 10 eleições presidenciais diretas desde 1989, anistia geral, um país que anseia por pacificação, ao passo que os engajados não cessam de insuflar. Isso é desconhecer a história.  É dever levantar a bandeira dos oprimidos e discursar para os embevecidos, e desse modo serem eles os representantes do engajamento político partidário válido? Esse coroamento, afinal, não teria sido regado com verbas públicas? O outro lado, por sua vez, se presta a responder na base de adjetivos. Um dos mais frequentes, "lixo"...

Ora, olhar para a realidade, denunciar, pode e deve ser feito, há meios  legítimos, a informação por jornais, debates, mídia. 

Já lançar o olhar estético sobre a realidade, é ir além, transfigurar, embevecer, maravilhar. A arte como reserva da humanidade para representar essa mesma humanidade.

PS: Como não sou expert em arte, recorri à artista plástica Ivone Gradowski para avaliar as considerações acima sobre a Bienal SP 2025. Ela escreveu, e isso resume bem a intenção desta postagem: "Houve um deslocamento do foco da experiência estética para uma leitura predominantemente identitária". 



 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vendilhões no templo da Filosofia

 Sem considerar que a Filosofia deva ocupar um pedestal, que seja uma vestal, intocável, há, entretanto, limites. São os limites do pensar, do conceituar, do argumentar, do valorar, como o fazem e fizeram os filósofos, como o fazem professores da disciplina, como fazem debatedores, como fazem os seus divulgadores hoje na mídia. Aos últimos, a certos divulgadores para plateias, para o grande público, que ganham fama e grana, o que dizer? Evidente que não serão expulsos como fez Jesus com os vendilhões no templo. O templo atual é a grande mídia.

Dois desses eminentes propagadores, Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, foram entrevistados recentemente pelo Dr. Kalil em seu programa na CNN a respeito do que é felicidade, como ela contribuiria para o bem-estar e para a saúde em geral. O médico, ladeado pelos dois filósofos, passeia pelo parque. As condições para obter qualidade de vida são conhecidas, diz o médico, o que mais? Segundo Karnal, ao logo da história houve momentos piores, como na Idade Média, Cortella acrescenta que hoje temos ferramentas, com mais conhecimento, mais tecnologia, ainda assim, há o mal-estar (Freud) e angústia (Heidegger), sem dar mais explicações; Karnal concorda, há longevidade, cita exemplos dos centenários, e pergunta o que fazer com essa "vida em excesso"? Em meio à banalidades como essas, outro lugar-comum: ele usa o caso de sua avó ser matrona com 41 anos e ele sarado aos 45. Cortella intervém com citações de Epicuro, (os estoicos estão com tudo...), dilema do porco espinho, desejo de proximidade frustrado, Karnal receita três fatores, genética, amizade e convívio para uma vida feliz. 


Cabem ao filósofo esses "conselhos", tais como a proposta de uma "curadoria da amizade", que "falta o convívio", que "temos que fazer a vida valer a pena"?

Dr. Kalil pergunta se eles têm medo da morte. Karnal: "Quero morrer no dia de minha morte"; Cortella: certeza da morte, "morrer é ser esquecido".

Cabe questionar, o público é esclarecido por meio desses lugares-comuns, dessas platitudes? Creio que não. É missão do filósofo atingir o grande público, em questões como essa, o que é ser feliz, como obter felicidade, o que a filosofia acrescentaria aos cuidados que médicos, terapeutas, agentes de saúde, campanhas de saúde, ampla divulgação de dietas, enfim, ao já sabido?

O grande público se beneficia com as lições desses famosos filósofos? O que eles dizem, agrada, a fama faz o filósofo, ou justamente, impossível obter fama e tudo o que dela decorre, sem as palavras sábias, as lições de vida que seduzem, que encantam?

E mais: a Filosofia precisa desse conhecimento e dessas ideias? Parece que a Filosofia vai à feira das vaidades, há momentos na entrevista em que um quer suplantar o outro com mais e mais sábias citações. Ora, sem facilitar e simplificar para poder divulgar, condições para atingir fama e público, sem serem agradáveis, com resposta pronta para tudo, inclusive, para um deles, onde e com quem investir, sem serem simpáticos, sorrirem, como ficaria a situação de ambos? 

A vaidade é a morte da Filosofia, a vida da Filosofia é a coerência, o esclarecimento, o questionamento, a humildade, o saber, a seriedade. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Oligarcas russos silenciados e o comunismo

As principais "lições" do comunismo são:

- Censura

- Tirania

- Crueldade

- Mistificação

Com o regime comunista na Rússia, uma centena de oligarcas se apossaram de empresas estatais, e se tornaram milionários. Mas essa ascensão teve um preço, se criticassem o regime de Putin, seriam destituídos de sua fortuna. Foi o que aconteceu com Tinkov, banqueiro que afirmou no Instagram ser a guerra de ocupação da Ucrânia um erro estratégico, uma loucura. Como castigo, foi obrigado a dispor de 97% de seu banco para o governo soviético. Há pelo menos vinte anos que essa é a estratégia de Putin, incentivar e, em caso de desobediência, tomar. Berezovsky, outro poderoso oligarca, que ousou por em dúvida o poder do líder, precisou exilar-se na Inglaterra, onde foi encontrado morto em circunstâncias estranhas.

A promiscuidade entre governo federal no Brasil, certos juízes da corte suprema, a proteção de interesses ilícitos, a dificuldade de aplicar regras a bancos que usurpam a clientela, é acobertada por manobras de interesse privado. A ordem é silenciar por meio de regras que são aplicadas conforme quem ou o quê cabe no momento favorecer. Permanecerá o Banco Central como rochedo protetor do setor financeiro, dos investidores e do próprio governo federal? 

O jogo ideal para mandatários corruptos é a submissão da sociedade ao modelo burocrático que serve tanto para censurar como para mandar e manobrar, para comandar do alto a massa, para impor a absoluta vontade do mandatário servindo-se das artimanhas do poder jurídico e da autoridade presidencial. A propaganda, custeada com dinheiro público é a outra ponta desse tipo de poder.

Em grau mais severo, o das ditaduras com seus líderes, são eles autoridades incontestes que se mantêm ao preço de perseguição, censura, silenciamento de opositores. Estão presentes em quase a metade do planeta, desde Putin e Xi Jinping até Maduro, pobre Cuba (até quando os cubanos vão sofrer com a pobreza?), países africanos, a violência de chefetes militares, matança, a opressão de meninas e mulheres, o terrorismo. 

Xi Jinping é esperto, nada de violência explícita contra oponentes, se é que os há. A tática é favorecer o investimento graúdo enquanto milhões se submetem a trabalhar sete dias na semana, mais de quarenta e quatro horas, o máximo que a legislação trabalhista permite, mas não é obedecida, porque há pressa de produzir, de vender mundo afora. O que fazer com o consumo de tantas "blusinhas" feita na China ou em países franqueados? Descartar, mas onde? Em países africanos, cemitérios da "fast fashion", Gana, Quênia, Tanzânia e Nigéria. 


Montanhas de roupa poluem o Quênia

Já no regime de Putin, nenhuma peça de roupa, ou alguém comprou uma calça ou blusa made in Russia? Petróleo, armas, a guerra como trunfo, a expansão territorial custe o que custar, investimento em poder, esse czar do século 21 consegue a aprovação de todo aquele que não quer ver. 

É um mito do comunismo propagar sua oposição ao capitalismo, que o capitalismo é cruel e injusto. Em países capitalistas há liberdade de opinião e de credo, há regras, há legislação, há eleições livres, há democracia. Algumas podem apresentar falhas, como no caso do Brasil atual, sob o tecido institucional, pratica-se censura, legisla-se em causa própria. A diferença é que existem eleições, oposição, constituição. Críticos não são envenenados, nem têm seu avião bombardeado.

Mandar e desmandar, oprimir, manter em prisões insalubres, torturar, nos regimes em que o comunismo se instalou e usurpou poderes, essas condições são por demais de conhecidas. Ainda assim, como reagem os "intelectuais engajados"? Convenientemente se calam, fazem ouvidos moucos, prosseguem sem dor de consciência a usufruir da liberdade de trabalhar, ganhar seu sustento (que sustento!), investir, viajar, serem aplaudidos, o que eles afirmam abominar no capitalismo, é usufruído, a coerência não lhes importa. Há até mesmo quem afirma "odiar a classe média"!



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A moral de rebanho e os políticos

A necessidade de angariar eleitores a torto e a direito, à esquerda e à direita, de norte a sul, de leste a oeste, quer os políticos tenham ou não capacidade, honestidade, compromisso com o país e a sociedade, essas condições e atuais circunstâncias, transformam os políticos em apascentadores de rebanho.

Há que baixar a cabeça, quanto mais seus seguidores e eleitores fiquem ou se sintam à mercê deles, submissos e engajados à horda, tanto melhor. A moral preconizada decorre de ressentimento que é natural a todos aqueles que, sem ter capacidade, se ressentem, ou pior, quando têm poder, disfarçam essa moral baixa em vitória da mediocridade. Tal ressentimento produz reações, mas nunca ação renovadora. Pelo contrário, há vulgaridade, há mesquinhez, palavras de ordem a serem seguidas sem reflexão, adjetivos ofensivos, bandeiras levantadas nas ruas, protestos para mostrar quem atrai mais adeptos. 

Longe desses ressentidos, senhores da razão, há os que criam valores, suas atitudes são nobres, suas visões são as do alto da montanha, não rastejam, são responsáveis pelos seus atos, se mantêm fortes apesar da estupidez, da idiotice dos que os cercam. São livres, sua vontade soberana não se curva ao senso comum servil, são capazes de discernir.

Os que seguem fielmente a tropa, que se vangloriam de pertencer à tropa, essa condição é o máximo para o chefe, pois sua missão é facilitada pela obediência. O chefe do rebanho mantém as ovelhas sob seu jugo por meio da moralização, ele incentiva todos e cada a serem leais, essa lealdade nunca é questionada. Esses fracos, diz Nietzsche, tendem a se agrupar ao passo que os fortes tendem a se distanciar uns dos outros, agem e pensam com autonomia. Para os que têm espírito independente, para os que não se limitam a reagir, vestir camisa de uma ou outra cor, não significa nada, absolutamente nada.


A cegueira do rebanho


É fácil manter esses fieis sob o domínio do chefe, este se investe de mandatário, um mandatário divino, acima de suspeita, os lados em litígio acreditam piamente que seu chefe, e somente ele pode, deve, e irá governar. 

Uma nuvem escura desce sobre o país, impede a visão, enevoa a crítica, dissemina ódio.

Enquanto isso, os fortes aguardam, sem esmorecer.

"Quase todo político, sob certas circunstâncias, é tão importante mostrar-se um homem honesto, que ele, tal como um lobo faminto entra em um estábulo: não, entretanto, para surpreender um carneiro e devorá-lo, e sim para esconder-se por inteiro em suas costas." (Nietzsche, in: Menschliches, Allzumenschliches. Humano, Demasiado Humano, 1878).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Descartes, o sentido de "Penso, logo existo"

 O centro do pensamento de Descartes (1596-1650) é o "eu", isso nada tem a ver com egoísmo, com egocentrismo. Eu e consciência formam uma unidade, o espírito se contrapõe ao corpo, identificado como uma máquina. Essa conclusão se deveu a um método seguido rigorosamente em sua busca pessoal pela verdade, recolhido em si mesmo, Descartes se propôs a ver claro, a buscar evidências. Para chegar à verdade precisou renunciar ao mundo, a ir por partes, desmontar para depois montar, chegar à rocha sólida em lugar da areia movediça.

Esse racionalismo no sentido mais radical do termo, a distinção entre alma e corpo, segundo o próprio filósofo foi por ele elaborada ao meditar, ao refletir, saiu como que de sua própria cabeça. Viajou, explorou outros povos, nada encontrou que fosse firme, indubitável. Metodicamente foi de dúvida em dúvida até a impossibilidade de duvidar que estivesse duvidando. 

Não seria tudo falso? Para entender que tudo fosse falso seria necessário que ele próprio, Descartes, fosse algo, mas que algo seria esse?

O eu pensante. Poderia duvidar de tudo, inclusive de si próprio, das coisas, do mundo, mas não poderia duvidar que estivesse a duvidar e, portanto, a pensar. A partir dessa constatação, a rocha foi encontrada. Ele foi além: o pensar, pensar na perfeição, essa ideia mesma da perfeição, não viria dele, um ser imperfeito e sim de um ser perfeito. E mais, impossível que a ideia desse ser perfeito não implicasse sua existência. A ideia de um triângulo ou a de uma esfera, mesmo se no mundo não houvesse essas duas figuras, se elas podem ser concebidas de modo claro, distinto e acessível, isso implica em sua realidade ontológica. Descartes conclui da ideia, do conceito, para a existência e possibilidade de certeza para todo conhecimento. 

A cadeia de razões que Descartes iniciou com o estar sentado, sozinho, ao conceber dúvidas, ideias, conceitos e figuras geométricas, e daí deduzir que pensa nisso tudo, evidente que a "substância" que nele pensa é o cogito e não o corpo. 

Penso, logo existo, significa que apenas o racional é a base de tudo, apenas o calculável, o encadeamento de razões, o "se ... então" leva à verdade, e a verdade é baseada em raciocínio matemático, lógico, cuja meta é a certeza. Por sua vez, o fundamento da certeza é a simples possibilidade de pensar o seguinte: "não seria possível que Deus, que é todo perfeito e verídico, as houvesse posto em nós" (Discurso do Método) sem que essas ideias fossem de algo, e de algo que existisse, que fosse verdadeiro. Em última análise, Deus assegura a certeza, a verdade para todo aquele que pensa. Pensar é fundamento de tudo, "impossível que a ideia de Deus que em nós existe não tenha o próprio Deus como causa" (Meditações).


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O pensar tão diferente do corpo! E se o corpo "pensasse" e não a alma imortal? E se a máquina pensasse e não a razão humana? Os empiristas demonstraram que a realidade fora de nós é matéria para o conhecimento. Os materialistas afirmam que o cérebro é a fonte de conhecimento. 

Descartes, se ele aportasse em pleno século 21, compreenderia que máquinas possam pensar, concluir, criar objetivos, influenciar o comportamento, levar a decisões? Isso tudo sem a interferência de Deus?! Ele diria que estávamos sonhando sob a influência de um deus enganador. Seria a IA esse deus enganador?