Sem considerar que a Filosofia deva ocupar um pedestal, que seja uma vestal, intocável, há, entretanto, limites. São os limites do pensar, do conceituar, do argumentar, do valorar, como o fazem e fizeram os filósofos, como o fazem professores da disciplina, como fazem debatedores, como fazem os seus divulgadores hoje na mídia. Aos últimos, a certos divulgadores para plateias, para o grande público, que ganham fama e grana, o que dizer? Evidente que não serão expulsos como fez Jesus com os vendilhões no templo. O templo atual é a grande mídia.
Dois desses eminentes propagadores, Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, foram entrevistados recentemente pelo Dr. Kalil em seu programa na CNN a respeito do que é felicidade, como ela contribuiria para o bem-estar e para a saúde em geral. O médico, ladeado pelos dois filósofos, passeia pelo parque. As condições para obter qualidade de vida são conhecidas, diz o médico, o que mais? Segundo Karnal, ao logo da história houve momentos piores, como na Idade Média, Cortella acrescenta que hoje temos ferramentas, com mais conhecimento, mais tecnologia, ainda assim, há o mal-estar (Freud) e angústia (Heidegger), sem dar mais explicações; Karnal concorda, há longevidade, cita exemplos dos centenários, e pergunta o que fazer com essa "vida em excesso"? Em meio à banalidades como essas, outro lugar-comum: ele usa o caso de sua avó ser matrona com 41 anos e ele sarado aos 45. Cortella intervém com citações de Epicuro, (os estoicos estão com tudo...), dilema do porco espinho, desejo de proximidade frustrado, Karnal receita três fatores, genética, amizade e convívio para uma vida feliz.
Cabem ao filósofo esses "conselhos", tais como a proposta de uma "curadoria da amizade", que "falta o convívio", que "temos que fazer a vida valer a pena"?
Dr. Kalil pergunta se eles têm medo da morte. Karnal: "Quero morrer no dia de minha morte"; Cortella: certeza da morte, "morrer é ser esquecido".
Cabe questionar, o público é esclarecido por meio desses lugares-comuns, dessas platitudes? Creio que não. É missão do filósofo atingir o grande público, em questões como essa, o que é ser feliz, como obter felicidade, o que a filosofia acrescentaria aos cuidados que médicos, terapeutas, agentes de saúde, campanhas de saúde, ampla divulgação de dietas, enfim, ao já sabido?
O grande público se beneficia com as lições desses famosos filósofos? O que eles dizem, agrada, a fama faz o filósofo, ou justamente, impossível obter fama e tudo o que dela decorre, sem as palavras sábias, as lições de vida que seduzem, que encantam?
E mais: a Filosofia precisa desse conhecimento e dessas ideias? Parece que a Filosofia vai à feira das vaidades, há momentos na entrevista em que um quer suplantar o outro com mais e mais sábias citações. Ora, sem facilitar e simplificar para poder divulgar, condições para atingir fama e público, sem serem agradáveis, com resposta pronta para tudo, inclusive, para um deles, onde e com quem investir, sem serem simpáticos, sorrirem, como ficaria a situação de ambos?
A vaidade é a morte da Filosofia, a vida da Filosofia é a coerência, o esclarecimento, o questionamento, a humildade, o saber, a seriedade.
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