Quando do fim da URSS estátuas gigantescas foram derrubadas, o realismo veio abaixo com elas. Trata-se de um caso extremo de arte engajada, zero de valor estético, que não se prestava para simbolizar, apenas enaltecer um regime. Ora, a arte requer simbolismo, interpretação, fruição, impacto, transformação. Retirar o objeto de seu uso cotidiano, por exemplo, e reposicioná-lo como obra, como conceito, tem efeito estético, rompe com estruturas, como "Fonte" (1917), de Marcel Duchamp, um reles mictório que acabou como ícone estético. Quando esses gestos são repetidos por artistas esforçados, mas medíocres, esvai-se tanto o conteúdo como a forma, farão parte da cultura de massa.
A criação estética engajada se torna fácil de consumir, sua mensagem se explicita, o que pode comprometer o valor estético. Nesse sentido, vale visitar a
36a. Bienal de São Paulo para conferir justamente o valor artístico do que ali
está exposto, em que se privilegiou a onda "woke", o discurso da
etnia, da ecologia, da terra, de certos países de certo continente, a África.
Implícita está determinada ideologia, a pregação de conceitos, um lado é o
"correto" politicamente, aquele que escancara como dever de ofício
referências às opções sexuais, pertencimento aos povos da floresta, o dever do engajamento. O espectador sente que falta algo, o quê? Falta o referido efeito de fruição, de deslumbre,
de surpresa, transmissor de prazer, mas também de sofrimento, morte, tortura,
guerra.
Que enorme diferença entre o mural "Guernica" de Picasso e os protestos ecológicos com milhares de tampinhas de plástico em forma de túnel; o público que visita essa Bienal pode se sentir desorientado face às tendas armadas, às performances de abraços, às esculturas e engenhocas sem saber o que representam. Certo, o exemplo de Picasso não é o mais apropriado para contrastar com o que as instalações da Bienal. Os críticos dirão que a arte deve inovar, romper com estruturas, transgredir. Que a proposta de uma Bienal difere inteiramente daquela com artistas consagrados. Mas, "Guernica" expõe, denuncia, interpela, a morte ganha vida, cada detalhe estarrece, o painel se oferece à leitura, o expectador interage. "Guernica" é arte. Ao topar com um monte de terra tal como exposto na Bienal, isso quer dizer o quê? Qual será o destino das tendas, das instalações, do ajuntamento de artefatos?
Até que ponto essa quase obrigação de engajar produz os efeitos desejados de protesto, de denúncia, causam impacto? O intelectual engajado discursa o que dele se espera, como o premiado Wagner Moura, ótimo ator, isso não se discute. Ao receber o Globo de Ouro ele dispara contra o fascismo do ex-presidente, que a ditadura militar que se encerrou em 1985 representa ainda uma ameaça. Ele diz isso mesmo com 10 eleições presidenciais diretas desde 1989, anistia geral, um país que anseia por pacificação, ao passo que os engajados não cessam de insuflar. Isso é desconhecer a história. É dever levantar a bandeira dos oprimidos e discursar para os embevecidos, e desse modo serem eles os representantes do engajamento político partidário válido? Esse coroamento, afinal, não teria sido regado com verbas públicas? O outro lado, por sua vez, se presta a responder na base de adjetivos. Um dos mais frequentes, "lixo"...Bienal SP 2025
Ora, olhar para a realidade, denunciar, pode e deve ser feito, há meios legítimos, a informação por jornais, debates, mídia.
Já lançar o olhar estético sobre a realidade, é ir além, transfigurar, embevecer, maravilhar. A arte como reserva da humanidade para representar essa mesma humanidade.
PS: Como não sou expert em arte, recorri à artista plástica Ivone Gradowski para avaliar as considerações acima sobre a Bienal SP 2025. Ela escreveu, e isso resume bem a intenção desta postagem: "Houve um deslocamento do foco da experiência estética para uma leitura predominantemente identitária".
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