Antes de opinar sobre o filme, gostaria de agradecer os que leem as postagens, que nesta data chegaram a 500 mil visualizações, desde que iniciei o blog em 2019. Algumas postagens atingem número considerável de leitores, como a campeã, "Entre Ser e Existir", com 16033 acessos.
Quanto ao filme candidato a Oscar 2026, ressalto a ótima reconstituição de época, 1977, algumas cenas me remeteram aos meus 17 anos, às situações vividas à época da ditadura, a participação em protestos, passeatas, reuniões, a sensação de claustrofobia e de medo que a ditadura nos impunha.
Pois bem, o filme retrata a ditadura com foco em um professor universitário. Há cadáveres largados, pernas de cadáveres, cadáveres lançados ao mar, é fevereiro, carnaval em Recife, a polícia comanda execuções, Armando/Marcelo chega de fusca, ele é um dos fichados e perseguidos, deverá ser executado. Ele fora chefe de Departamento, responsável por pesquisas que contrariavam, e mesmo que representavam uma afronta ao establishment, à ideologia dos militares.
De São Paulo saem dois executores regiamente pagos, que acabam por contratar um matador, mais violência.
Há referências a filmes da época, como Tubarão, a intenção seria associar a um tubarão em cujo estômago é encontrada perna de um dos cadáveres lançados ao mar, perna esta que foi retirada do IML para não servir como prova, e é descartada.
Além das várias referências às perseguições, censura e execuções, há críticas à diferença de classe, grã-fina contraposta à empregada doméstica, ao feminicídio, à relação nordeste que precisa "de um banho de indústria" em oposição ao sul/sudeste. É enaltecida a relação entre pai e filho, bem como os encontros clandestinos dos que protegem os perseguidos pelo regime.
Mereceria prêmio como atriz coadjuvante.
Há atuações espontâneas, como a de Dona Sebastiana, ótima em seu papel de senhorinha com mais de 70 anos. Que dizer da atuação de Wagner Moura? Marcelo dirige seu fusca com um semblante entre sério, triste, temeroso, hospedado e acobertado em apartamento de Dona Sebastiana, é empregado num suposto instituto de identificação onde faz buscas num fichário; ao conduzir seu filho de carro, faz muitas caras, bocas, troca de olhares com o menino, sorrisos, expressões faciais nas quais a câmera se detém. Seriam estes os recursos do artista que o fizeram merecedor do Globo de Ouro?
Cena final, um salto para a época atual, o menino, agora adulto, interpretado também por Wagner Moura como médico de um hemocentro, com mais olhares e expressões a evocar o passado.
Em resumo, um professor universitário perseguido e morto por suas ideias e projetos que representavam conceitos, como os de cultura local e ecologia. Os insultos dirigidos pela esposa de Marcelo ao Dr. Ghirotti, representante do governo e de sua ideologia industrial, foram os motivos mais fortes para suas execuções, é o que o filme deixa entrever.
A cultura brasileira tem muito a mostrar, as referências à ditadura militar importam, mas não são reportáveis ao presente. Há casos de coragem não de personagem e sim de artista em carne e osso, me refiro a Rita Lee. Em documentário sobre a vida e a carreira da atriz, ela se mostra autêntica, livre, espontânea. Rita Lee foi fichada pela mesma ditadura, motivo? As letras "escandalosas, indecentes", por isso foi presa, estava grávida. No fichário do Dops o marido e os filhos mostram que as razões da censura foram seus gritos de liberdade, lançar perfume, amar, sentir prazer.
A arte produz controvérsias, ou não seria arte. "O Agente Secreto" abre mais uma vez caminho para o cinema brasileiro. Por sinal, "Ainda Estou Aqui", na minha opinião, é melhor.
O cinema enquanto arte tem que despertar emoções, falar à mente e ao coração, brilhar, estimular a razão e os sentimentos, ressoar, vivificar, mais do que protestar ou denunciar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário