sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Os plantadores de batatas e a IA

 Trump e Xi Jinping se encontraram (24/set/2026) na Casa Branca para discutirem sobre o avanço da IA, o que por si só demonstra a preocupação com o futuro da tecnologia e, consequentemente da humanidade.

No interior da Mongólia (ermo e longínquo território chinês) empresas chinesas constroem estruturas gigantes de plataformas (data centers) como a da Huawei, ByteDance, Deepseek, concorrentes das empresas americanas. 

Ao lado dessas construções há os cultivadores de batata, tostados pelo sol, pele enrugada, eles contrastam  com os operários que erguem as plataformas em seus capacetes amarelos. Os agricultores se sentem ameaçados, talvez percam seu emprego, um deles afirma que sequer usa a internet. Outros sabem que é inevitável o governo chinês construir prédios gigantes que abrigarão equipamentos responsáveis pela produção e reprodução de dados para alimentar a IA, imprescindível nas indústrias, na educação, na sociedade e seu futuro. 




A China forma cinco vezes mais engenheiros do que os EUA, o mais irônico é que parte deles proveio de alguma universidade americana de ponta para atuar nos centros de dados chineses. A concorrência é forte, o encontro em Washington de Trump e Xi não implica em colaboração e sim em explicitação da guerra do mais forte. (Fonte: reportagem de Laura Bircker para a BBC, 22 de setembro, intitulada "Futuro Tecnológico")

Em excelente documentário, a Netflix traça a trajetória dos cérebros responsáveis pela invenção e pela expansão ilimitada da IA, resultado de máquinas que ultra processam dados, a mais alta tecnologia jamais inventada para replicar, instruir e dominar todo tipo de conhecimento, de arte, de comunicação, expandi-los a partir de dados infinitos recolhidos por meio, inicialmente, de escaneamento e digitalização de todos os conteúdos de tudo o que se publicou, conectá-los para alimentar infinitas operações, informar a respeito de tudo o que for suscetível de cálculo, operações, previsões. Capacitar diagnóstico, facilitar a pesquisa, invenções, cura de doenças, armas, coordenação do trânsito, direção de veículos, robótica, controle de pragas na agriculta, etc. etc. Isso tudo e mais o que se puder imaginar, em expansão infinitesimal. O contraste entre plantadores de batata na longínqua Mongólia, temerosos de perder seu sustento e a engenharia das plataformas lá sendo construídas, que, aliás demandam água em abundância retrata nossas atuais condições.


Data centers sendo construídos na Mongólia, China.

No documentário da Netflix, um rapaz preocupado com o futuro de seu filho que vai nascer, entrevista diversos criadores de conteúdo, há os que preveem futuro sombrio e mesmo o fim da humanidade como nós a conhecemos; os que são otimistas, a IA revoluciona e facilita a vida em todos os sentidos; um terceiro grupo dos que consideram que, como toda a invenção, pode ser usada para nosso bem ou nosso mal. 

Estruturas, as mais sofisticadas e seguras, podem colapsar. Entre os desenvolvedores dos programas há os que consideram provável que grande parte da humanidade seja exterminada. 

Mas bebês nascem, o entrevistador dos gênios da IA se mostra um tanto aliviado, criará seu filho, irá educá-lo em uma sociedade "operacional" digamos assim, revolucionária. Isso não exclui as enormes dificuldades ambientais, sociais e econômicas que, certamente IA alguma aliviaria. Urge a responsabilização dos governos, concluem os cientistas.

Entretanto, a criatura pode dominar o criador, cenários de guerra de extermínio por obra e graça da própria IA que agiganta a si própria, ilustram à perfeição nossos dilemas, o que nos aguarda.

Será possível produzir também batatas?

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Digressões

 As pessoas

Em cada pessoa ressoa um mundo, em cada um de nós toda a humanidade: o gênio recolhido em seu quarto; o louco desvairando na praça; o motorista no trânsito das seis horas; o varredor de ruas que pousa a vassoura para um breve descanso; o gari que equilibra o lixo pesado; o enfermeiro que de madrugada verifica o estado do doente; a florista que compõe o buquê; a criança que atravessa a rua sozinha; o alpinista que atingiu o cume; o terrorista que carrega explosivos; o político que vocifera promessas; a professora que usa o quadro negro para expor um teorema; o poeta que perdeu a inspiração; o fotógrafo que enquadrou um lance; o jogador no instante do gol. 

Em cada alma o espelho da condição humana, inescapável. 

Os instantes

O freio que não veio a tempo; o olhar que num segundo diz tudo: raiva, amor, inveja; o ponto de arremate; o ápice do amor; o resgate do salva vidas; o acorde final da orquestra; o salto de paraquedas; o tiro fatal; a palavra que diz tudo; o martelo do leiloeiro; o primeiro beijo; o vagido do bebê; o último suspiro; a página em branco; o bilhete do suicida; o adeus antes das partidas; a mensagem apagada; o ponto final do romance; a fuga inesperada; o it missa est; a mão que impede a queda; o piscar de olhos que sela o entendimento; o frenar do avião na pista. Instantes marcam o sem retorno do tempo.

A natureza

Caminhar na relva; o murmúrio do riacho; as andorinhas no fio de luz; os sabiás nos quintais; a passagem das aves migratórias; o salto do peixe; os vales floridos; os cachos de glicínia; as areias do deserto; as geleiras dos cumes; o abismo oceânico; o ar rarefeito; a tempestade que se anuncia; o sol do meio-dia; o horizonte marinho; a foz do rio; a floresta tropical; a praia deserta; os fósseis; o vento que assobia; a brisa que refresca. E natureza marcada, conspurcada, entremeada por nódoas, avalanches, poeira, lama, fumaça.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A diferença entre a Filosofia da Existência de Heidegger e o Existencialismo de Sartre

Martin Heidegger (1889-1976, Freiburg), preferia a cabana, a rusticidade, o isolamento, pensar o Ser-aí, quer dizer a condição humana, a ek-sistência temporal no mundo; foi amante de Hannah Arendt, professor na Universidade de Freiburg e de Heidelberg, cátedra à qual renunciou ao ser acusado em 1934 por sua adesão ao nazismo, sem que ele tivesse compactuado com a perseguição aos judeus, ou com a noção de raça. Quando julgado, Sartre testemunharia a favor de Heidegger, mas não compareceu ao tribunal.


Heidegger na cabana.
O mundo está aí, já os processos da consciência são intencionais e a existência livre. O pensamento filosófico desestabiliza, confronta, há força vital, a indagação pelo Ser é incontornável. Somos seres no tempo, ser-para-a morte. Em "Ser e Tempo" Heidegger questionou a técnica, o modo de ser do uso, do aproveitar, do palavrório em oposição ao modo de ser do cuidado, da assistência, da vida sem subterfúgios, da autenticidade, da liberdade para realizar o pro-jeto. A mortalidade nos angustia, essa estranheza de sermos aí no mundo como manifestação do nada, condição que carregamos, o dizer não, o indagar que nos ultrapassa. Conceitos que influenciarão Sartre.

Na segunda fase, passou para o tema da essência do homem em sua relação com o ser, ameaçada pela técnica, pela linguagem vista como comunicação, subjugada à opinião pública, o ente dominado por explicações e fundamentações da ciência e da filosofia. Isso dilui a responsabilidade estética e moral, representa domínio sobre o ente. Ao longo da História da Filosofia, a essência do homem foi concebida como ser racional, como humano oposto ao bárbaro, como homem que trabalha, como existente que precede a essência, como homem livre para se reinventar.   

Heidegger considera que Sartre retoma a metafísica tradicional, apenas invertendo-a ao conceber a existência como essência, como questão de humanismo, isso enfraquece a relação do ser com o ser humano. Pensar diz respeito ao ser e à essência do homem situado na abertura do ser, não na relação com seu organismo, nem de ter uma alma imortal, nem de ser pessoa. O homem é ser-aí, exposto pela linguagem à verdade do ser. Que ser é esse? Mais do que fundamento, é abertura, ele é o protetor da casa do ser, sendo a poesia a manifestação máxima. "O pensar trabalha na edificação da casa do ser" (in "Sobre o 'Humanismo'"). Em cada sim, em cada não, o ser se inscreve, a linguagem é a habitação do ser humano. 

Observe-se que a história das diferentes adesões ao ser mostra que para Heidegger há uma adesão atual ao ente na forma desenfreada da técnica que subtraiu a essência do ser. 

Jean-Paul Sartre (1905-1980, Paris) empunhou o megafone, protestou nas ruas, sempre aberto ao público, escritor prolífero tanto na área da Filosofia ("Ser e Nada", 1943) como na literatura, teatro, contos, romances, além de repercutir inúmeros acontecimentos políticos de seu tempo. Foi companheiro de Simone de Beauvoir, ambos influentes por suas posições críticas, de total não conformismo, militantes, ateus declarados.


Sartre protesta, manifestações da esquerda

O homem é o ser no qual a existência precede a essência, ele é pro-jeto, capaz de escolha, em cada escolha ele escolhe toda a humanidade perante a qual somos responsáveis e inteiramente livres. Não há escolha gratuita, o que justamente torna a vida valiosa, permanente construção. No outro lado dessa escolha livre e responsável, dá-se a má-fé, o disfarce, o engano. 

Qual o significado do Nada? O Nada brota da condição humana, na interrogação abre-se uma brecha, ao entrar em um quarto, por exemplo, e não encontrar a pessoa procurada, dá-se o não estar ali.

A liberdade angustia diante dos possíveis, está-se situado, lançado no mundo, comprometido, engajado. Depende apenas de nós realizar o sentido do mundo e de nós mesmos, sem fuga, pois fugir do inevitável é má-fé. O homem, que Sartre intitula como Para-si, é contingente, está aí para nada, supérfluo e nisso se enraíza a liberdade, "somos livres para deixar de ser livres" (O Ser e o Nada, p. 544). Motivos, vontade, o passado, são inevitáveis, mas como reagir e valorar depende de cada um.

Sartre propõe uma psicanálise existencial, diversa da freudiana, sem os conceitos de complexo, libido, "soterrado nas trevas do inconsciente"(p. 701); pelo contrário, disposto e exposto ao que está aí, luminoso, deliberado, podendo ser revogado ao aderir a nova posição diante do passado. A psicanálise existencial é flexível, adaptada a cada sujeito, elucida suas escolhas não nos sonhos, nem nos atos falhos, obsessões ou neuroses. "Essa psicanálise ainda não encontrou seu Freud" (p.703).

Enfim, Heidegger percorre as aberturas para o ser no terreno da metafisica, como a existência se dá, exposta à verdade do ser, que foi encontrada como organismo, como consciência, como pessoa, como trabalho, em todos houve o "esquecimento do ser"; Sartre busca a responsabilidade de um ser aí, instado a decidir, sem desculpas, situado e livre, ao mesmo tempo engajado, pode-se dizer, uma concepção para a qual a existência é sua essência.