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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

"O ser humano se tornou coisa entre coisas"

Basta a leitura de algumas páginas de um jornal de algum canto do mundo, basta visitar um site de notícias, ou entrar redes de relacionamento, buscar informação, ler algumas páginas de um livro de História, pode ser da América, da Europa, da Ásia ou da África - e o que poderemos constatar, ao menos por meio de uma reflexão filosófica?

Que o ser humano se tornou coisa entre coisas, esqueceu do ser. Como assim? O ser humano precisa ocupar-se com as coisas, lidar com elas, transformá-las, utilizá-las do contrário ele perece. Sim, imprescindível a necessidade de sobrevivência, e é isso que se vê o tempo todo, em todo lugar. As necessidades não são satisfeitas pela busca do ser, talvez pela busca por liberdade e um pouco menos pela verdade.

Se a questão é a sobrevivência, qual é o sentido dessa afirmação, de termos esquecido do ser e nos tornarmos coisas?

O trabalho ao mesmo tempo em que sustenta, nos aliena. Um exemplo simples e notório: os entregadores que se multiplicaram com a pandemia e que precisam enfrentar o trânsito, lutar contra o tempo e chegar ao destino para ganhar alguns trocados. Faz sentido afirmar que o entregador esqueceu do ser? Nada mais estranho e absurdo, ele precisaria ser filósofo para não esquecer do ser?

Evidente que não. O entregador com sua moto ou bicicleta pertence ao mundo das coisas, dos negócios, do trabalho, da subsistência, faz parte da engrenagem social e econômica. É assim na modernidade muito mais do que em épocas pré-industriais. Nosso compasso é o da medida, da técnica, do consumo, da ultra especialização, do cálculo. Impossível a vida humana sem máquinas e tecnologia. 

Então, mais uma vez, faz algum sentido afirmar como Heidegger que esquecemos do ser? Qual o sentido da vida, ou, em termos conceituais, qual o sentido do ser? Seria a capacidade de ir além, algo como a busca do eterno no homem, esse eterno seria o ser que em meio às coisas nos desperta para a arte, o poético, o brilho nos olhos que vem da inspiração, da invenção, da abertura que deixa entrar certa luz, quando se é tomado pela sensação de uma presença, algum tipo de epifania, quando parece que tudo se ajusta, que o quebra-cabeças foi resolvido. A abertura para o ser é uma sintonia, uma sinfonia, uma revelação

A cada ser humano é dada a possibilidade de entender e de se fazer entender, como pelo grito de protesto, na tomada de uma difícil decisão, ao expor seu sofrimento, ou na explosão de alegria. 

São várias as maneiras de nos integrarmos ao ser, de comemorarmos a vida, de colocarmos o eterno em nossos corações e sair um pouco das engrenagens. Movimentos difíceis e raros. Os obstáculos são os de sempre: poder e cálculo de poder, mentira, violência, crueldade, falsidade, fanatismo. 

Urge abrir horizontes, essa é a questão do ser para Heidegger, é isso que precisa ser compreendido como uma música que soa ao longe e que apenas nós, seres humanos somos capazes de criar e de usufruir. 



sábado, 4 de abril de 2020

O cuidado de um ponto de vista filosófico

Quando iniciei o blog, o fiz por sugestão de colegas de minha filha, quando ela lecionava em uma escola de inglês.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.

Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria,  doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida. 
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
Cuidar se transformou em isolar

O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir,  e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O QUE DIZ HEIDEGGER: SOBRE "VERDADE"?

O mínimo que se pode dizer sobre a concepção de Heidegger de verdade, é que ela é original. 
Em primeiro lugar porque ele dispensa critérios como o do empirismo, de que verdade depende de contato das sensações com o mundo; discorda dos conceitos científicos de verdade, como o de comprovação por testes e cálculos; discorda de que a verdade seja algo inefável, divino, inalcançável para nós, humanos; discorda do conceito aristotélico/tomista, de que verdade é o acordo entre o intelecto e a realidade dos fatos; discorda do conceito estético, verdade é a da arte, o que nos deleita. 
Evidentemente discorda do conceito transcendental, aquele em que a verdade passa pelos filtros dos recursos puros da razão.
1889-1976
O que é então a verdade? Qual é a sua essência?
Tal como os filósofos analíticos, a  verdade requer a linguagem, mas diferentemente deles, a linguagem não é formal ou lógica, não forma uma quadro da realidade suscetível de ser formalizado.
A linguagem para Heidegger enuncia algo, e a isso reagimos, damos uma resposta, abrimos caminho para certo ente, para certo modo como algo se apresenta para nós, naquele dizer, e isso denota liberdade.
Como assim? Então verdade e liberdade se condicionam mutuamente?
Sim, é que liberdade para Heidegger não significa ser solto, independente, e sim estar aberto para a recepção do mundo, para as situações da existência cujo sentido exige verdade como liberdade. O avesso da verdade como desvelar é o encobrir, o pôr um véu, e fazemos isso o tempo todo...
E qual é o limite desse livre apresentar do ente a nós?
O limite não é o impensado, o limite é não podermos sair de nossa condição humana e transcender a totalidade do mundo, dos entes, de tudo o que há. Estamos sempre imersos em nossas situações, nossos objetivos e projetos nos lançam para o aí no mundo.
O mistério do ente em sua totalidade acaba por ser ignorado, pois somos atraídos por nossos problemas, pelo dia a dia, pelas circunstâncias cotidianas.
Nosso modo de ser hoje em dia passa pelos instrumentos, pela tecnologia, pelas máquinas, pelos meios de transporte.
Estamos longe e esquecidos dessa verdade como liberdade, a essência nos foge. Não porque seja inacessível e sim porque nossa lida nos amarra, e a busca pela essência acaba por se confundir com misticismo, exercícios da mente, fé e apego a crenças e mitos.
Difícil retirar essas camadas que impedem chegar à essência, o nosso modo de ser aberto pela linguagem e o acesso à verdade.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Qual o sentido da Filosofia para Heidegger


O texto abaixo é um extrato de meu livro que será publicado em janeiro/fevereiro de 2020.

"A questão primordial da metafísica ainda é a mesma: 'Por que há o ente e não antes o nada?', mas as respostas de Heidegger ao mesmo tempo são novas e remetem aos primórdios da Filosofia. Em O que é Metafísica? o ponto central é a experiência do nada, muito diferente do “não”, o ente se mostra envolto em mistério, o nada vem ao mundo por meio do próprio homem. Na Universidade de Freiburg, em 1935 ele volta àquela questão primordial, que surge “como uma badalada surda” (HEIDEGGER, 1966, p. 37). Não é a primeira questão da metafísica cronologicamente, porém é a mais importante, profunda e original. Ela abrange todo o ente, e se limita pelo nada. Em certo sentido atinge até mesmo o nada, na expressão “é” nada.
 Ir ao fundamento e indagar “por que” é uma investigação do próprio homem. Nesse nosso planeta, este grão perdido no espaço, nós insignificantes criaturas não seríamos apenas uma pulsação nesse tempo e espaço? Qual o sentido de perguntar por que? Quer perguntemos ou não, quer obtenhamos respostas ou não, nada disso altera o curso do universo. Mas, ao ser posta como questão fundamental, não há como fugir dela.
 Até mesmo para os crentes em Deus e na Bíblia, a fé não impede de questionar sobre a adoção da doutrina. Que a Bíblia mesma responde. Heidegger considera a filosofia cristã um ferro de madeira, não se pode filosofar em matéria de fé, estas estão no domínio da teologia.
A reflexão filosófica é inesgotável, ela se desloca sempre, sem esse deslocar haveria satisfação completa o que acaba com o questionamento, pode virar uma moda, mas não seria verdadeira filosofia. Ao contrário da ciência e da técnica, não há aplicação da Filosofia técnica ou prática para o dia a dia, se bem que o pensar filosófico pode ligar-se à história de um povo. A própria existência histórica do homem inclui a filosofia entre suas necessidades autônomas, criativas. Ao interrogar os fundamentos, o homem também se interroga, orienta seu próprio ser, sem imposições para sua ação. Ao perguntar pela essência um povo é conduzido por caminhos de um saber, o do espírito desse povo. A filosofia pode também ajudar a construir uma cultura, uma visão de mundo, pode levar a ciência a refletir sobre seus pressupostos e assim restituir Ser ao ente, conduzir ao saber e às obras vitais da história de um povo. 
Para Heidegger a filosofia não tem uso imediato, não se presta para nos transformar, ela transcende o ordinário. “Filosofar é investigar o extraordinário”, diz ele (1966, p. 50), sem caminho pronto, nem respostas prontas, até o investigar é investigado, um salto para o mistério, para o extraordinário.
Essas exigências de Heidegger o levaram para o nascimento da Filosofia, para os primeiros filósofos, os gregos e sua primordial noção de physis traduzível impropriamente por “natureza”. A palavra significa algo mais forte, o brotar, o manifestar, o vigor dominante, tudo o que se desvela, desde a pedra até os homens e os deuses, é o extrair, o conservar-se e o vir a ser. Algo grandioso esse começo da Filosofia, que Aristóteles mudou para o conceito de substância. Com isso o conceito de physis perdeu sua força originária e passou a se opor a techne que é o saber prático, de produção, e mais tarde ficou restrito ao conceito de ente natural. Assim, a metafísica ganhou o sentido de reflexão para além do ente: meta ta physika. Heidegger não visou um simples retorno ao pensamento grego, mas pensar os gregos em sentido ainda mais radical, no vigor do aparecer, de seu pensar o inédito e o inaudito. A mensagem do homem é tentar desvelar os limites do ilimitado, mas o mistério inevitavelmente persiste."

sábado, 31 de agosto de 2019

A metafísica para Heidegger

Em Ser e Tempo e especialmente em Introdução à Metafísica, Heidegger introduz conceitos que renovam a metafísica. Ele não pertence ao rol dos filósofos pós-metafísicos, quer dizer, pensadores como Foucault, Rorty e Habermas. 
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender. 
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido. 
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser. 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Filosofia Contemporânea (II)

Como dissemos na postagem anterior, destacam-se ainda na Filosofia Contemporânea o existencialismo e pensadores independentes.
O existencialismo, Sartre: a diferença entre o ser em si que são simplesmente as coisas e a existência humana como escolha, liberdade e ação consciente, saem do próprio nada que vem ao mundo por meio do homem e seus projetos. Isso leva à total responsabilidade, à angústia da plena liberdade da existência, sem Deus, lançada por acaso no mundo. Ignorar a liberdade e o engajamento pessoal diante das escolhas seria delegar ao outro o que cabe a mim somente. Eu que nada sou tenho que realizar o sentido de minha existência, devo decidir e me responsabilizar pelas decisões.
Heidegger: caracterizam o pensamento do filósofo o rigor, a crucial importância dos primeiros filósofos, a existência humana como ser-aí no tempo e tendo que se haver com a sua finitude, o ser-para-a-morte. Num segundo movimento, Heidegger dá uma guinada em direção ao Ser já não mais do homem e sim da força plena que se abre para o homem por meio da linguagem. E ainda o desvelar da verdade. Verdade com a qual teve que se haver devido ao seu comprometimento com o nazismo. Reconheceu que nazismo nada tinha a ver com a força vital do Ser.
Wittgenstein: hoje chamaríamos o filósofo de gênio multitarefas. Inventor, lógico, matemático, metafísico, antimetafísico, destaca-se pela originalidade de suas propostas, que foram como que arrancadas com esforço e exigências autoimpostas. Como solucionar a questão do sentido se precisamos da nossa linguagem para justamente obter sentido? Se precisamos de formas que a linguagem oferece, podemos utilizá-las como escada atirada fora ao final do processo? Ou a alternativa não seria permanecer com os usos diversos da linguagem ("jogos de linguagem") em situações absolutamente ordinárias de nossos modos de vida? Wittgenstein deu a si e à Filosofia essa última tarefa: não quebrar a cabeça com enigmas que nós mesmos colocamos, dissolver problemas filosóficos na vida cotidiana.
Foucault: quais foram e quais são os artifícios inventados por diferentes tipos de saber que resultaram nesse tipo de sujeito submetido a normas sem origem nobre, ontológica ou metafísica? Foram "saberes de pouca glória" e práticas que passam batido pelos filósofos. Para reconhecer seu papel, há que ir para a história, para a produção de recursos não os das grandes causas econômicas ou sociais, mas as invenções como circulação de mercadorias, tipos de penalidades, discursos médicos, asilo psiquiátrico, exame e enquadramento a fim de obter certo tipo de comportamento, efeitos do dizer verdadeiro. Enfim, fazer-nos entender do que somos afinal feitos e refeitos. E assim visualizar brechas de liberdade e de reinvenção de si.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Heidegger e o nazismo

O Partido Nacional Socialista (PSN) atraiu Heidegger desde o início dos anos 1930. Em 1933, como reitor da Universidade de Freiburg, bastante reconhecido, e de confiança do partido, em seus discursos enaltece a filosofia que deveria voltar aos inícios gregos e daí saltar para o presente. A vontade de saber dos gregos como que ilumina o pensamento livre de deuses, e essa liberdade deveria servir como inspiração para que grupos revolucionários, na Alemanha e em conjunto com o "espírito alemão", se insurgisse contra os fracos do partido democrático, e ganhasse as forças do ser-aí (dasein), como nova "energeia". Povo que se fortalece, sem desculpas, sem consolos, assim entendeu Heidegger o papel da universidade e dele próprio.
A justificativa que apresentaria mais tarde, diante do comitê que investigou o nazismo e seus crimes, foram a miséria, o desemprego, crise política e econômica, motins acontecendo nas ruas, algo próximo a uma guerra civil.
Hitler seria o salvador, atraia pela força do discurso que inflamava o povo alemão no culto à pátria, ao novo Reich. Nessa época professores judeus foram demitidos, e campos de concentração começam a receber os considerados párias. A noção de raça pura passa orientar a política nazista.
Heidegger, caminhos, montanha, sedução; mais tarde reconhecimento do grande erro.
Heidegger estava, segundo seu amigo Karl Jaspers, fascinado pelo que considerava renovação de forças, o ser mesmo se realizava, e o que Heidegger considerava essencial nessa "política", seria a condução para maior responsabilidade, união, realização histórica. Discordou do que passaria a ser a base ideológica do nazismo, pureza racial, o arianismo. 
Mas, para sua amante e brilhante aluna, Hannah Arendt, isso era condenável, execrável. Os encontros eram programados por Heidegger e absolutamente às escondidas (ele era casado com Hermine, tinha filhos). Nessa época de ascensão do nazismo, ela havia rompido o relacionamento. Criticou acidamente o regime, que integrou a massa inteiramente manobrada com a classe dos ricos. Analisou as raízes do totalitarismo, não se deixou levar pelos apelos emocionais de que seria um novo impulso, uma nova nação, destino do povo alemão.
Hannah Arendt
Como mostra Rüdiger Safanski, quando do fim da II Guerra, Heidegger reconhece seu engano, seu erro, que ele sonhou filosoficamente e que isso é inaceitável em filosofia. O filósofo deve ser o investigador do tempo histórico, deve interpretar filosoficamente os acontecimentos. 
O que o fascinou foi a possibilidade de dissolver o ente, as coisas, no ser, e e esse novo ser viria imbuído de elevação, de autenticidade, heroísmo, ouviria o chamado da pátria, alçaria às montanhas.
Digamos que o filósofo aprendeu a lição.
Transcendência e fanatismo são incompatíveis, democracia e fanatismo são incompatíveis, liberdade e fanatismo são incompatíveis.
***
"A diferença fundamental entre as ditaduras modernas e as tiranias do passado está no uso do terror não como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes, mas como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes" (Hannah Arendt, in Origens do Totalitarismo).

quarta-feira, 1 de março de 2017

Existência, cuidado, morte: temas essenciais para Heidegger

Debaixo do céu há o mundo, os seres humanos e a lida desses com as coisas, em total dependência com relação ao tempo, ao desdobrar da existência. 
Quando Heidegger abandona o catolicismo e seu projeto de seguir a vocação eclesiástica, foi movido pela fenomenologia, como vimos na postagem anterior, e pela nova visão de que o mundo que está aí à disposição dos homens, é disso que se trata. Não basta reconhecer a realidade das coisas que fazemos, a vida em sua evolução. Sem deuses e sem religião, o filósofo se volta para a existência, o ser aí, no mundo, sem que algo divino ou superior dê sentido ou justifique essas existências. O que as sustenta? Nada a não ser o tempo. Tempo não o do calendário, nem os tempos que virão, não a promessa de imortalidade. Tempo não da alma ou do espírito, tempo não do corpo, tempo da minha vida, ou melhor, da minha existência.
O jovem Matin Heidegger
Como lidar com esse ter que agir e enfrentar a cada instante o que está por vir?
Impossível prever o futuro, mas possível e próprio ao ser no tempo é preocupar-se em tecer o que está por vir, cuidar, lidar com as coisas, atividades que se desdobram no tempo.
A experiência de ter que lidar, enfrentar, faz com que esqueçamos de nós, de nossa vida, e súbito caímos. A essa queda Heidegger chama de "ruína", aquele incrível insight de que somos algo fadado ao nada, à morte.
A sensação de queda, de estranhamento, de nada, ao invés de levar a um tipo de renúncia ou de derrota, impulsiona o ser para sua existência própria, aí, no meio às coisas, diante de um futuro inteiramente aberto, e aberto para que? Para o fim. Saber-se vivente, existente que vai morrer, não desestimula e nem assusta, pelo contrário, dá sentido à vida.
Um paradoxo?  
Não, se pensarmos que paradoxal implica em raciocínio lógico, e não é de lógica que se trata e sim desse abandono do ser a si mesmo, quando se percebe mortal e precisa viver essa mortalidade. 
Acontece que é mais fácil esquecer disso, divertir-se, escamotear a fragilidade, pretender-se incólume ao tempo, remendar aqui e ali, seu corpo, seu rosto, seu dia a dia. Com deuses, profetas, milagreiros, passatempos, diversões, com as receitas de ajuda e de consolo. Pular, pular, pular... Como macacos, não como existências atentas ao seu poder ser: "coragem para a angústia".

O que move a Filosofia? Desde seus primórdios a questão do ser, como ocorre que tudo seja, que entes tenham vindo a existir, começo, causa, fim, busca de sentido.
Heidegger põe essas questões em novo trilho, o de nossa existência. Em lugar da fuga em direção a um transcendente, a abertura, ser livre e escolher a si mesmo, ver o mundo como disponível, habitável, que a condição humana é feita de escolhas no tempo que nos move, que somos absolutamente contingentes, e que angustiar-se com isso, é próprio de nossa existência.

P. S.: E pensar que Heidegger abraçou o nazismo durante certo período, e pensar que foi amante de Hannah Arendt... Fica para outra postagem.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O que é fenomenologia?

Ao reler a biografia "Heidegger, um mestre da Alemanha entre o bem e o mal", de Rüdiger Safranski, pode-se melhor compreender a relação de Heidegger com a fenomenologia. Os primeiros estudos de Heidegger estavam enraizados na tradição católica, especialmente no tomismo. Seu encontro com as ideias de Husserl a respeito de um  recomeço para a Filosofia, a fim de baseá-la em sólidos e novos fundamentos, foi o ponto de partida para a filosofia existencial de Heidegger.
O novo modelo era a fenomenologia. Ir às coisas mesmas, deixar o real se mostrar, sendo esse real o fenômeno, e isso por meio da consciência.
A consciência passa a ter função primordial,  há que observar seu interior por meio da introspecção. Tudo é dado a ela que percebe o exterior de diversos modos, a distinção clássica da teoria do conhecimento entre essência da coisa e sua aparência, não faz mais sentido. O que se percebe não é a essência das coisas e nem sua aparência enganosa para o sujeito e sim os fenômenos que a consciência capta como isso ou aquilo, como objeto, como visível, invisível, sensível, onírico, ou seja, há muitos modos de se relacionar com o que nos cerca. Nossa consciência não é um quadro em branco, um receptáculo passivo das impressões. Ela vai às coisas, se relaciona com os objetos, "a consciência é sempre de algo", afirma Husserl, não está apartada das coisas, pois isso exigiria um elo, uma ponte. Não, ela está junto às coisas de que é consciência, explica Safranski.
Valorizar a consciência é o mesmo que valorizar o fenômeno, isto é, o que é dado a ela. Daí a necessidade de prestar atenção aos modos pelos quais os fenômenos se apresentam. Uma árvore que vejo assume o status de real, pode-se recordar da árvore, posso representá-la como uma que dá frutos, ou que se tornará madeira, a que abriga animais, a que será plantada, a que já morreu.
Por isso não faz sentido supor a árvore em si, os fenômenos se apresentam a mim, à minha vivência, valem a minha vida e as minhas experiências, não há consciência de nada, mas é sempre de algo, intencional. 
Husserl se deu conta de que essa passagem obrigatória das coisas tornadas fenômenos pela consciência, as torna móveis, mutáveis, variam a cada momento das vivências e com cada um de nós, e assim tornar a Filosofia rigorosa, tanto quanto a ciência, seria inviável. Seria preciso um eu transcendental, aquele que tudo abarca e compreende. Essa conclusão, a da necessidade do "ego transcendental", não foi seguida por Heidegger e nem por Sartre.
Heidegger entendeu a impossibilidade de um tal eu, daí a sua noção de tempo, de fluxo das vivências, da existência nossa aí, da autenticidade (saber-se mortal) ou inautenticidade (deixar-se levar).
Sartre apropriou-se do importante conceito da fenomenologia de intencionalidade. O modo como o objeto é acolhido, temido, querido, rejeitado, compreendido e de muitas outras maneiras, se deve à intencionalidade.
Saber-se aí no mundo para Sartre provoca a náusea, a sensação de que nada preenche o homem completamente, estamos jogados no mundo, daí a angústia.
Claro que Husserl não concordaria com essa reflexão existencialista.
Interessante notar que a fenomenologia é ponto de partida para Heidegger e Sartre, mas não ponto de chegada...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O que é humanismo?

Amar a humanidade, valorizar o humano, entender que acima de tudo estão os homens, parece algo canhestro e fora de moda. Humanismo, mais um "ismo" vazio de significado?
A doutrina do cristianismo se baseia no humanismo, sem o qual Deus não faria sentido.
Ora, há filósofos ateus que também pleiteiam o humanismo, como o existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o faz, justamente, para defender o existencialismo das críticas de pensadores católicos, que entenderam ser o ateísmo incompatível com o humanismo.
Antes de prosseguir, o que seria, afinal, "humanismo"?

Valorizar os homens como um todo, ou cada um em particular? (Refiro-me por "homens", nestes tempos em que gênero parece ser mais importante, a pertencermos ao que os filósofos chamam de "ser humano" e não animal ou coisa).
 "(...) humanismo, diz Heidegger (1889-1976), é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora de sua essência." 
Humanismo?! 
E a essência do homem para os antigos reside em ser animal racional; para os cristãos reside em sua alma imortal, a salvação e o julgamento dela por Deus; para Marx a essência requer o processo social com os requisitos da alimentação, procriação, produção; para Sartre não há humanismo algum em cultuar a humanidade, como se fosse uma deusa,  caso do positivismo de A. Comte. Sartre recusa o humanismo abstrato e genérico, e defende "o universo da subjetividade humana", estamos em constante processo de transcender, de ir além, de superar a nós mesmos, na medida em que nossa subjetividade é absolutamente livre para decisões, os homens estão por assim dizer presos à sua própria liberdade, só fogem dela os covardes.

Voltando a Heidegger, para ele pensar exige a linguagem e uma casa, uma morada para a linguagem, a dos seres humanos. Estes existem sob o modo do cuidado.
Como todo humanismo precisa determinar o que seria a essência do homem, todo humanismo se baseia numa metafísica, quer dizer, numa visão geral que explica tudo, tanto as determinações, como as particularidades dos seres. Essa visão geral, metafísica, seria a de que o homem é um animal que se distingue de todos por poder pensar?
Não, a essência do homem, responde Heidegger, vem de sua existência no sentido de permanecer nela, de estar presente ao ser, de estar-aí, no tempo, e saber-se vivo no tempo e com o tempo.
E mais, é preciso que, no distender do tempo, de sua vida (e de sua morte) ele possa transformar o genérico humanismo, em um existir específico, que vê no homem o portador, o defensor do ser, da verdade do ser que a linguagem permite, exige e desdobra. A essência do homem é morar na linguagem, não como dono, mas como o cuidador da linguagem.

Neste sentido, nada de humanismo, refúgio fácil para abstrações, para justificar o pacifismo, o igualitarismo e outros "ismos" convenientes para os defensores do nacionalismo, do populismo, das generalizações.
Importa, isto sim, o inverso, especificar o ser que cada um constrói por meio de sua ação, sejam europeus, americanos, africanos, asiáticos, crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, gays, pobres, ricos, entre tantas outras especificidades. Importa pleitear a autenticidade, fazer valer o seu caminho, estar aberto às determinações, responsabilizar-se pelas consequências de suas deliberações.
Abertura e não fechamento!

sábado, 5 de março de 2016

"Alétheia" e Lula

Muito feliz, muito apropriada a designação da 24a. fase da operação Lava Jato. "... traduzirmos a palavra alétheia por 'desvelamento' no lugar de 'verdade'", é segundo Heidegger mais adequado, representa a noção de que o ser desvelado permite que o ente (tudo o que "existe", por assim dizer) se manifeste, se abra e revele nosso comportamento, nossa existência, nossa liberdade. É um deixar que aquilo que é, seja o que é.

***
E na manhã do dia 04 de março de 2016, finalmente o cerco chegou ao chefe, um ex-presidente. Tão logo se soube que Lula deveria depor, a militância lulista/petista foi convocada. E se apresentou para defender o indefensável, para encobrir com palavras de ordem e uma indignação que revela o grau de dependência ideológica ao discurso de que o salvador da pátria está acima de julgamento.
Vociferar diante de uma plateia arrebatada por um líder que os enganou, é fácil, e também perigoso. Lula diante do ter que revelar-se, escondeu-se para iludir, enganar, aproveitar-se de grupos e movimentos sectários que apenas esperam palavras de ordem e rejeitam todo e qualquer tipo de julgamento baseado em razões, em evidências, no desvelamento do que ele e as super empresas fizeram, de como uma empresa sólida foi dilapidada em benefício de poder, de barganha, de sujeição das instituições democráticas ao desejo imperioso de Lula de permanência no comando de todo um país, de toda uma nação!
Aos poucos o castelo foi ruindo. Uma pessoa medíocre foi imposta por Lula em uma eleição eivada de mentira e propaganda terrorista, obra do mago João Santana, a presidenta Dilma, que foi leniente com a roubalheira. Deve cair juntamente com seu chefe. 

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Assim, verdade, no sentido de alétheia, leva a desvelar, enfrentar, deixar que a liberdade de ser ressurja e tome efeito:
"Porque a verdade é a liberdade em sua essência, o homem historial pode também, deixando que o ente seja, não deixá-lo ser naquilo que ele é, e assim como ele é", diz Hiedegger em Sobre a essência da verdade
Traduzindo, os homens, ao longo da história, podem tornar o ente, a manifestação do ser de todas as coisas, em algo fútil, meramente utilizável, que se esconde, inautêntico, nivelado, simplista, dissimulado.
Em um país no qual há instituições sólidas, democracia, estado de direito, uma república com cidadãos de bem, que pagam seus impostos, mesmo deles pouco usufruindo -, as mentiras, as barganhas, a propina, a compra de parlamentares, a compra do silêncio, a desqualificação sumária de pessoas que denunciam a corrupção, tudo isso precisa ser evidenciado, trazido à luz, revelado. 

Alétheia, gritemos todos nós!