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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Qual o sentido da Filosofia para Heidegger
O texto abaixo é um extrato de meu livro que será publicado em janeiro/fevereiro de 2020.
"A questão primordial da metafísica ainda é a mesma: 'Por que há o ente e não antes o nada?', mas as respostas de Heidegger ao mesmo tempo são novas e remetem aos primórdios da Filosofia. Em O que é Metafísica? o ponto central é a experiência do nada, muito diferente do “não”, o ente se mostra envolto em mistério, o nada vem ao mundo por meio do próprio homem. Na Universidade de Freiburg, em 1935 ele volta àquela questão primordial, que surge “como uma badalada surda” (HEIDEGGER, 1966, p. 37). Não é a primeira questão da metafísica cronologicamente, porém é a mais importante, profunda e original. Ela abrange todo o ente, e se limita pelo nada. Em certo sentido atinge até mesmo o nada, na expressão “é” nada.
Ir ao fundamento e indagar “por que” é uma investigação do próprio homem. Nesse nosso planeta, este grão perdido no espaço, nós insignificantes criaturas não seríamos apenas uma pulsação nesse tempo e espaço? Qual o sentido de perguntar por que? Quer perguntemos ou não, quer obtenhamos respostas ou não, nada disso altera o curso do universo. Mas, ao ser posta como questão fundamental, não há como fugir dela.
Até mesmo para os crentes em Deus e na Bíblia, a fé não impede de questionar sobre a adoção da doutrina. Que a Bíblia mesma responde. Heidegger considera a filosofia cristã um ferro de madeira, não se pode filosofar em matéria de fé, estas estão no domínio da teologia.
A reflexão filosófica é inesgotável, ela se desloca sempre, sem esse deslocar haveria satisfação completa o que acaba com o questionamento, pode virar uma moda, mas não seria verdadeira filosofia. Ao contrário da ciência e da técnica, não há aplicação da Filosofia técnica ou prática para o dia a dia, se bem que o pensar filosófico pode ligar-se à história de um povo. A própria existência histórica do homem inclui a filosofia entre suas necessidades autônomas, criativas. Ao interrogar os fundamentos, o homem também se interroga, orienta seu próprio ser, sem imposições para sua ação. Ao perguntar pela essência um povo é conduzido por caminhos de um saber, o do espírito desse povo. A filosofia pode também ajudar a construir uma cultura, uma visão de mundo, pode levar a ciência a refletir sobre seus pressupostos e assim restituir Ser ao ente, conduzir ao saber e às obras vitais da história de um povo.
Para Heidegger a filosofia não tem uso imediato, não se presta para nos transformar, ela transcende o ordinário. “Filosofar é investigar o extraordinário”, diz ele (1966, p. 50), sem caminho pronto, nem respostas prontas, até o investigar é investigado, um salto para o mistério, para o extraordinário.
Essas exigências de Heidegger o levaram para o nascimento da Filosofia, para os primeiros filósofos, os gregos e sua primordial noção de physis traduzível impropriamente por “natureza”. A palavra significa algo mais forte, o brotar, o manifestar, o vigor dominante, tudo o que se desvela, desde a pedra até os homens e os deuses, é o extrair, o conservar-se e o vir a ser. Algo grandioso esse começo da Filosofia, que Aristóteles mudou para o conceito de substância. Com isso o conceito de physis perdeu sua força originária e passou a se opor a techne que é o saber prático, de produção, e mais tarde ficou restrito ao conceito de ente natural. Assim, a metafísica ganhou o sentido de reflexão para além do ente: meta ta physika. Heidegger não visou um simples retorno ao pensamento grego, mas pensar os gregos em sentido ainda mais radical, no vigor do aparecer, de seu pensar o inédito e o inaudito. A mensagem do homem é tentar desvelar os limites do ilimitado, mas o mistério inevitavelmente persiste."
sábado, 31 de agosto de 2019
A metafísica para Heidegger
Em Ser e Tempo e especialmente em Introdução à Metafísica, Heidegger introduz conceitos que renovam a metafísica. Ele não pertence ao rol dos filósofos pós-metafísicos, quer dizer, pensadores como Foucault, Rorty e Habermas.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
O que é metafísica para Heidegger?
A interrogação metafísica se dá pela pergunta sobre os fundamentos de todos os entes.A questão foi abordada por Heidegger na conferência de 1929 “Que é Metafísica?” e envolve a totalidade do problema e até aquele que questiona, quer dizer, o homem em sua situação existencial. Por exemplo, a própria situação de Heidegger como professor, e junto dele outros
pesquisadores nas diversas áreas da ciência. Nessas condições, o que surge são os entes, quer dizer, aquilo que é pesquisado. Nunca surge o nada. Justamente, se o nada não aparece, é porque de certa forma precisou ser
considerado.
O que leva à consideração metafísica do nada que conduz à experiência com a negação. Quando nos angustiamos, sentimos algo parecido com nada. Angústia de que? Do nada... “A angústia manifesta o nada”, diz Heidegger na obra mencionada acima. Quando passa a angústia, parece que foi por nada. Esse assédio do nada
na angústia, permite compreender a famosa afirmação, o nada “nadifica”, quer dizer, só podemos
captar os entes em si por meio do nada, isto é, do que eles não são.
O homem, ser-aí no mundo, existe como que suspenso no nada, e essa suspensão dentro do nada permite transcender tudo o que há, o ente em sua totalidade. Assim, pode-se abarcar esse todo, os limites, negar, e nesse dizer não, ser livre. Ser livre é dizer não, e isso difere da mera proibição. O nada nos conduz como que a um abismo, o de nossa radical finitude.
Em tempo de pensamento pós--metafísico, Heidegger retorna à Metafísica e lhe dá outro sentido: “Metafísica é o perguntar além do
ente para recuperá-lo enquanto tal, em sua totalidade, para a compreensão”
(1979, p. 43). Difere de outras metafísicas, como a da filosofia cristã, a criação do mundo a
partir do nada. Ora, Deus eterno e absoluto exclui totalmente o nada, quer dizer, o absoluto é incompatível com o nada. Esse impasse é superado por Heidegger com a pergunta, de onde vem a negação? Da essência mesma do homem, seus questionamentos o põem em contato com o
ente, suspenso no nada.
Nossa própria essência, enquanto ser-aí em situação, é indagar, e indagar é fazer metafísica. Existir é
já estar posto dentro da metafísica, de onde brota a mais essencial das questões: “Por que há o ente e não antes o nada?"
Cada um de nós pode ensaiar sua resposta...
quinta-feira, 25 de maio de 2017
O que é ontologia?
A Filosofia se divide em três grandes campos de estudo: o do ser (Metafísica, Ontologia, Teodiceia), o campo da ação (Ética, Estética, e demais abordagens da prática), e o campo do conhecimento (Teoria do Conhecimento, Epistemologia, Lógica). Outros ramos de estudo incluem as Filosofias da Linguagem, do Direito, Social, da História, da Ciência.
Qual a diferença entre a Metafísica e a Ontologia?
Elas abordam a questão mais abstrata, mais transcendente, mais abrangente da Filosofia, que é a questão do ser, de modo diferente.
Como assim, o "ser"? Trata-se de um verbo auxiliar? Ou de seres, i. e, indivíduos particulares?
A questão do ser vai além, há simplesmente o ser, em seu mais amplo e geral sentido, há o ser e não o nada.
Sim, claro, responderiam, isso é óbvio!
Mas qual é a natureza do ser?
A resposta da Metafísica vai às causas mais gerais de tudo o que há: o universo, o cosmo, nosso mundo, os objetos, os indivíduos, enfim, como tudo veio a ser? A totalidade dos entes repousa sobre quais princípios e fundamentos?
A Filosofia Antiga responde que o cosmo se fundamenta em causas, como a do primeiro motor aristotélico; a Filosofia Cristã responde que Deus é a causa de tudo o que existe, o mundo foi criado por Deus a partir do nada; os filósofos modernos, como Descartes também são metafísicos, pois um ser inteligente e perfeito deu origem a tudo, se temos ideia de perfeição, tal ideia só poderia vir de um ser mais perfeito do que nós, humanos, e esse ser perfeito necessariamente existe, do contrário não seria perfeito.
Note-se que a Metafísica pergunta e responde pelo ser, pelas causas, pelas essências, pelos fundamentos.
Ao passo que a perspectiva da Ontologia é outra: especula-se, reflete-se, pergunta-se pela natureza do ser, mas não em vista de obter resposta causais, e sim pela indagação envolta em mistério e perplexidade.
Qual é o sentido do ser? Teriam os seres uma essência comum? Todos eles existem? Em que sentido? A ameba existe do mesmo modo que seres humanos existem? Uma porta é um ente, ou um ser?
Qual a diferença entre entes e seres?
Ontologicamente humanos, objetos, animais, a imensa variedade biológica, a Terra com suas riquezas e diversidade, cada individualidade tem seu modo de ser, cada entidade ou ente, tem seu modo de ser. É sobre esses modos de ser que a Ontologia reflete.
Ontos se origina do grego, "ser", há uma natureza de ser que é ontológica, e uma natureza "ôntica", aquela à qual não se deu ainda um destino, uma função, um desdobrar-se no tempo, um uso.
Exemplos: a madeira serrada o que será? porta, mesa, cadeira, lápis. O lápis tem qual função ontológica? Qual ser se desprende desse ente?
O tempo cronológico é ôntico, viver no tempo finito, é algo ontológico. A totalidade dos entes no mundo é de natureza ôntica, o modo como o mundo é visto e se reveste de sentido, é ontológico.
Qual a natureza ontológica de nós, seres humanos?
Existimos, temos uma vida temporal, morreremos e mais, sabemos disso.
Em suma, a Ontologia tem em vista o ser dos entes, seu sentido, seus usos, suas modificações, no caso do ser humano, sua existência.
Qual a diferença entre a Metafísica e a Ontologia?
Elas abordam a questão mais abstrata, mais transcendente, mais abrangente da Filosofia, que é a questão do ser, de modo diferente.
Como assim, o "ser"? Trata-se de um verbo auxiliar? Ou de seres, i. e, indivíduos particulares?
A questão do ser vai além, há simplesmente o ser, em seu mais amplo e geral sentido, há o ser e não o nada.
Sim, claro, responderiam, isso é óbvio!
Mas qual é a natureza do ser?
A resposta da Metafísica vai às causas mais gerais de tudo o que há: o universo, o cosmo, nosso mundo, os objetos, os indivíduos, enfim, como tudo veio a ser? A totalidade dos entes repousa sobre quais princípios e fundamentos?
A Filosofia Antiga responde que o cosmo se fundamenta em causas, como a do primeiro motor aristotélico; a Filosofia Cristã responde que Deus é a causa de tudo o que existe, o mundo foi criado por Deus a partir do nada; os filósofos modernos, como Descartes também são metafísicos, pois um ser inteligente e perfeito deu origem a tudo, se temos ideia de perfeição, tal ideia só poderia vir de um ser mais perfeito do que nós, humanos, e esse ser perfeito necessariamente existe, do contrário não seria perfeito.
Note-se que a Metafísica pergunta e responde pelo ser, pelas causas, pelas essências, pelos fundamentos.
Ao passo que a perspectiva da Ontologia é outra: especula-se, reflete-se, pergunta-se pela natureza do ser, mas não em vista de obter resposta causais, e sim pela indagação envolta em mistério e perplexidade.
Qual é o sentido do ser? Teriam os seres uma essência comum? Todos eles existem? Em que sentido? A ameba existe do mesmo modo que seres humanos existem? Uma porta é um ente, ou um ser?
Qual a diferença entre entes e seres?
Ontologicamente humanos, objetos, animais, a imensa variedade biológica, a Terra com suas riquezas e diversidade, cada individualidade tem seu modo de ser, cada entidade ou ente, tem seu modo de ser. É sobre esses modos de ser que a Ontologia reflete.
Ontos se origina do grego, "ser", há uma natureza de ser que é ontológica, e uma natureza "ôntica", aquela à qual não se deu ainda um destino, uma função, um desdobrar-se no tempo, um uso.
Exemplos: a madeira serrada o que será? porta, mesa, cadeira, lápis. O lápis tem qual função ontológica? Qual ser se desprende desse ente?
O tempo cronológico é ôntico, viver no tempo finito, é algo ontológico. A totalidade dos entes no mundo é de natureza ôntica, o modo como o mundo é visto e se reveste de sentido, é ontológico.
Qual a natureza ontológica de nós, seres humanos?
Existimos, temos uma vida temporal, morreremos e mais, sabemos disso.
Em suma, a Ontologia tem em vista o ser dos entes, seu sentido, seus usos, suas modificações, no caso do ser humano, sua existência.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
O que é humanismo?
Amar a humanidade, valorizar o humano, entender que acima de tudo estão os homens, parece algo canhestro e fora de moda. Humanismo, mais um "ismo" vazio de significado?
A doutrina do cristianismo se baseia no humanismo, sem o qual Deus não faria sentido.
Ora, há filósofos ateus que também pleiteiam o humanismo, como o existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o faz, justamente, para defender o existencialismo das críticas de pensadores católicos, que entenderam ser o ateísmo incompatível com o humanismo.
Antes de prosseguir, o que seria, afinal, "humanismo"?
Valorizar os homens como um todo, ou cada um em particular? (Refiro-me por "homens", nestes tempos em que gênero parece ser mais importante, a pertencermos ao que os filósofos chamam de "ser humano" e não animal ou coisa).
"(...) humanismo, diz Heidegger (1889-1976), é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora de sua essência."
Voltando a Heidegger, para ele pensar exige a linguagem e uma casa, uma morada para a linguagem, a dos seres humanos. Estes existem sob o modo do cuidado.
Como todo humanismo precisa determinar o que seria a essência do homem, todo humanismo se baseia numa metafísica, quer dizer, numa visão geral que explica tudo, tanto as determinações, como as particularidades dos seres. Essa visão geral, metafísica, seria a de que o homem é um animal que se distingue de todos por poder pensar?
Não, a essência do homem, responde Heidegger, vem de sua existência no sentido de permanecer nela, de estar presente ao ser, de estar-aí, no tempo, e saber-se vivo no tempo e com o tempo.
E mais, é preciso que, no distender do tempo, de sua vida (e de sua morte) ele possa transformar o genérico humanismo, em um existir específico, que vê no homem o portador, o defensor do ser, da verdade do ser que a linguagem permite, exige e desdobra. A essência do homem é morar na linguagem, não como dono, mas como o cuidador da linguagem.
Neste sentido, nada de humanismo, refúgio fácil para abstrações, para justificar o pacifismo, o igualitarismo e outros "ismos" convenientes para os defensores do nacionalismo, do populismo, das generalizações.
Importa, isto sim, o inverso, especificar o ser que cada um constrói por meio de sua ação, sejam europeus, americanos, africanos, asiáticos, crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, gays, pobres, ricos, entre tantas outras especificidades. Importa pleitear a autenticidade, fazer valer o seu caminho, estar aberto às determinações, responsabilizar-se pelas consequências de suas deliberações.
Abertura e não fechamento!
A doutrina do cristianismo se baseia no humanismo, sem o qual Deus não faria sentido.
Ora, há filósofos ateus que também pleiteiam o humanismo, como o existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o faz, justamente, para defender o existencialismo das críticas de pensadores católicos, que entenderam ser o ateísmo incompatível com o humanismo.
Antes de prosseguir, o que seria, afinal, "humanismo"?
Valorizar os homens como um todo, ou cada um em particular? (Refiro-me por "homens", nestes tempos em que gênero parece ser mais importante, a pertencermos ao que os filósofos chamam de "ser humano" e não animal ou coisa).
"(...) humanismo, diz Heidegger (1889-1976), é isto: meditar e cuidar para que o homem seja humano e não des-humano, inumano, isto é, situado fora de sua essência."
Humanismo?!
E a essência do homem para os antigos reside em ser animal racional; para os cristãos reside em sua alma imortal, a salvação e o julgamento dela por Deus; para Marx a essência requer o processo social com os requisitos da alimentação, procriação, produção; para Sartre não há humanismo algum em cultuar a humanidade, como se fosse uma deusa, caso do positivismo de A. Comte. Sartre recusa o humanismo abstrato e genérico, e defende "o universo da subjetividade humana", estamos em constante processo de transcender, de ir além, de superar a nós mesmos, na medida em que nossa subjetividade é absolutamente livre para decisões, os homens estão por assim dizer presos à sua própria liberdade, só fogem dela os covardes.Voltando a Heidegger, para ele pensar exige a linguagem e uma casa, uma morada para a linguagem, a dos seres humanos. Estes existem sob o modo do cuidado.
Como todo humanismo precisa determinar o que seria a essência do homem, todo humanismo se baseia numa metafísica, quer dizer, numa visão geral que explica tudo, tanto as determinações, como as particularidades dos seres. Essa visão geral, metafísica, seria a de que o homem é um animal que se distingue de todos por poder pensar?
Não, a essência do homem, responde Heidegger, vem de sua existência no sentido de permanecer nela, de estar presente ao ser, de estar-aí, no tempo, e saber-se vivo no tempo e com o tempo.
E mais, é preciso que, no distender do tempo, de sua vida (e de sua morte) ele possa transformar o genérico humanismo, em um existir específico, que vê no homem o portador, o defensor do ser, da verdade do ser que a linguagem permite, exige e desdobra. A essência do homem é morar na linguagem, não como dono, mas como o cuidador da linguagem.
Neste sentido, nada de humanismo, refúgio fácil para abstrações, para justificar o pacifismo, o igualitarismo e outros "ismos" convenientes para os defensores do nacionalismo, do populismo, das generalizações.
Importa, isto sim, o inverso, especificar o ser que cada um constrói por meio de sua ação, sejam europeus, americanos, africanos, asiáticos, crianças, jovens, velhos, homens, mulheres, gays, pobres, ricos, entre tantas outras especificidades. Importa pleitear a autenticidade, fazer valer o seu caminho, estar aberto às determinações, responsabilizar-se pelas consequências de suas deliberações.
Abertura e não fechamento!
terça-feira, 28 de julho de 2015
O (in)dispensável ser
Se algum escritor ou pensador se aventurasse a dispensar o verbo ser, conseguiria que seu leitor o compreendesse? Alguém poderia ousar eliminar "ser"?
Impossível, por inúmeras razões. "Ser", "être", "to be", e certamente nas diferentes línguas, algo semelhante à função de "ser" deve ocorrer.
Sequer questionamos, nem poderíamos, que conjugar tal verbo seja imprescindível (acabei de escrever "seja"...). Simplesmente porque nomear, é (novo uso do verbo ser) distinguir algo para que nós ou para que os outros nos compreendam. Identificar, classificar, opor, destacar, apontar, e muitas outras ações linguísticas requerem por detrás a pressuposição de que coisas, pessoas, lugares, temporalidades, situações, sejam, no sentido de existirem, de estarem aí à nossa disposição.
Desde que a Filosofia nasceu, a pergunta é pelo ser e pelo não ser. A mais essencial de todas as questões, como apontou Heidegger é essa: por que existe o ser e não antes o nada?
Mesmo no uso banal, e, talvez mais importante nesse mesmo uso cotidiano, "é", "era", "sou", "não é", "não sou", se apresentam o tempo todo. "Ele é", invoca quem, o que, como. "Isto é", acarreta indagar o que, como, e também, duvidar, afirmar, pressupor.
Sujeito, predicado e objeto: "Algo ou alguém é tal". Essa proposição, o núcleo da lógica e da gramática durante séculos, foi analisada como resumindo todo tipo de pensamento.
No sentido tradicional, o ser pertence à realidade entendida no sentido metafísico, quer dizer, como inerente a tudo. Ser ideal, ser substancial, ser como consciência de si, ser como ideia se autoproduzindo na história, ser aí no tempo, ser como existência humana, assim a filosofia rondou em torno ao SER.
Não mais. A Filosofia da Linguagem mais recente deslocou a questão para a diversidade dos usos do verbo ser na medida em que não identifica o verbo empregado na linguagem usual com o ser na acepção de que tudo é, tudo tem uma essência, de que todos os entes existem ou subsistem no ser.
Hoje a Filosofia retira do ser esse caráter absoluto e essencial, as coisas se dispõem para nós, para nosso uso e nosso conhecimento.
Indispensável no uso normal da linguagem, e dispensável ou como disse Wittgenstein, dissolvido enquanto eixo fundamental da metafísica. Assim é "ser", ou "o ser".
Faça o teste, pergunte para si mesmo "o que eu sou?"
Impossível, por inúmeras razões. "Ser", "être", "to be", e certamente nas diferentes línguas, algo semelhante à função de "ser" deve ocorrer.
Sequer questionamos, nem poderíamos, que conjugar tal verbo seja imprescindível (acabei de escrever "seja"...). Simplesmente porque nomear, é (novo uso do verbo ser) distinguir algo para que nós ou para que os outros nos compreendam. Identificar, classificar, opor, destacar, apontar, e muitas outras ações linguísticas requerem por detrás a pressuposição de que coisas, pessoas, lugares, temporalidades, situações, sejam, no sentido de existirem, de estarem aí à nossa disposição.
Desde que a Filosofia nasceu, a pergunta é pelo ser e pelo não ser. A mais essencial de todas as questões, como apontou Heidegger é essa: por que existe o ser e não antes o nada?
Mesmo no uso banal, e, talvez mais importante nesse mesmo uso cotidiano, "é", "era", "sou", "não é", "não sou", se apresentam o tempo todo. "Ele é", invoca quem, o que, como. "Isto é", acarreta indagar o que, como, e também, duvidar, afirmar, pressupor.
Sujeito, predicado e objeto: "Algo ou alguém é tal". Essa proposição, o núcleo da lógica e da gramática durante séculos, foi analisada como resumindo todo tipo de pensamento.
No sentido tradicional, o ser pertence à realidade entendida no sentido metafísico, quer dizer, como inerente a tudo. Ser ideal, ser substancial, ser como consciência de si, ser como ideia se autoproduzindo na história, ser aí no tempo, ser como existência humana, assim a filosofia rondou em torno ao SER.
Não mais. A Filosofia da Linguagem mais recente deslocou a questão para a diversidade dos usos do verbo ser na medida em que não identifica o verbo empregado na linguagem usual com o ser na acepção de que tudo é, tudo tem uma essência, de que todos os entes existem ou subsistem no ser.
Hoje a Filosofia retira do ser esse caráter absoluto e essencial, as coisas se dispõem para nós, para nosso uso e nosso conhecimento.
No centro de todo ser, um ser que questiona
A afirmação "algo é isso", passou a ter um uso entre inúmeros outros. Para Wittgenstein, após quebrar a cabeça com a proposição geral que resumiria tudo o que é o caso, tudo o que ocorre, concluiu que é na e pela linguagem de todo o dia que faz sentido afirmar que algo é. E mais em um sem número de usos. Pense na comunicação entre falantes e como passa despercebido o verbo ser, e falar acerca do ser em si fica restrito ao linguajar do filósofo. Indispensável no uso normal da linguagem, e dispensável ou como disse Wittgenstein, dissolvido enquanto eixo fundamental da metafísica. Assim é "ser", ou "o ser".
Faça o teste, pergunte para si mesmo "o que eu sou?"
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