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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Qual o sentido da Filosofia?

Recentemente publiquei livro sobre 15 filósofos, os que considero essenciais mesmo sabendo que nem  todos concordarão com a lista.
É uma publicação de Minha Editora, selo da Editora Manole, Barueri, São Paulo, 2020.
Considero que o livro é uma súmula de meus estudos e reflexões, e tudo começou com a conversa com um aluno, Claúdio (PUC PR), sobre por que filósofos não morrem, como eles ainda hoje iluminam nossas vidas e dão a ela sentido.
Na postagem de hoje escolhi trechos sobre a especificidade da Filosofia, cito as páginas 14, 15 e 16:

"A indagação filosófica começou no século VI a.C. e aos poucos foi se distinguindo do mito. O mito é uma narrativa que nasce do imaginário de uma cultura, ao passo que a filosofia nasce da razão, da busca de razões.
Ela se distingue também do senso comum, que é o guia prático da conduta cotidiana, nele estão embutidas certezas e noções aceitas a partir de uma tradição e de costumes. O senso comum atende expectativas de nosso comportamento e auxilia a resolver problemas habituais. Ele funciona como guia prático que raramente precisa de justificação ou explicação. Ao passo que filosofar é esclarecer, justificar, dar razões.
Por vezes, encontra-se a definição de Filosofia como ciência, mas não cabe no campo filosófico realizar testes e experiências. A ciência descreve, explica como se dão fatos e fenômenos, nas áreas das ciências exatas, das ciências naturais e das ciências humanas. Nelas se empregam teorias e experimentos para explicar de modo objetivo algo da realidade, constatar fatos e aplicar os resultados, por exemplo, em tecnologia, em saúde, em soluções ambientais.
A ciência se renova a cada teoria, a visão do cosmo de Aristóteles, por exemplo, foi superada pela de Galileu, mas o que Aristóteles escreveu sobre a causa dos seres, é pura reflexão filosófica, não está ultrapassado. Em Filosofia não há essa evolução e ultrapassagem: é como se todos os filósofos estivessem vivos. 
Outras vezes se confunde Filosofia com ideologia. Mas enquanto as ideologias são representações sociais e políticas, de natureza compromissória, engajadas em um tipo de luta ou de ideário, a Filosofia requer liberdade de pensamento. Por vezes, as ideologias massificam o pensar, exigem que seus partidários obedeçam a um líder, seus princípios são doutrinários, inquestionáveis. Já o filosofar pode ser até mesmo uma crítica às ideologias. Os partidários de ideologias, como o nome indica, seguem um ideário político ou partidário sem contestação. Uma ideologia pode ser inculcada, um modo filosófico de pensar, jamais pode ser inculcado. O ensino de Filosofia não é doutrinação política ou partidária. Se os ensinamentos filosóficos forem rígidos e direcionados, se forem doutrinários, a filosofia morre; se a Filosofia se tornar uma disciplina como as outras, com conteúdo pescado em manuais de baixa qualidade, morre também.
Há também quem considere Filosofia como saber superior, que chega à verdade, e seria capaz de julgar todas as ideologias e afirmar qual é a correta. Isso não é possível, pois o filósofo não detém a verdade última. Seu papel é o de colaborar com todos os saberes. Evita-se assim o dogmatismo, isto é, achar que há uma razão soberana e fundadora, que há formas racionais que se impõem de cima para baixo. Como os conceitos nascem de uma cultura e de uma história, a tarefa filosófica é a de pensar a diversidade das culturas em colaboração com a arte, a moral, o direito, as ciências.
Nesse sentido, a Filosofia é a mediadora entre os saberes. Impor um saber totalizador e único, que sistematize toda a realidade de modo certo e indubitável conduz à intolerância, condena à morte a reflexão filosófica.
Muito se fala hoje de “consciência crítica”. Ora, ensinar e aprender Filosofia vai muito além de proporcionar consciência crítica e cidadã, mesmo porque todas as disciplinas têm essa obrigação. A especificidade da Filosofia vem de um trabalho rigoroso com conceitos, é um mergulho na riqueza e na complexidade do pensamento, alarga e esclarece esses conceitos, reflete sobre seu sentido, enfim, exercita o pensamento. Não basta expor um tema e depois verificar ou avaliar se os alunos aprenderam.  O uso do raciocínio de tipo reflexivo, indagador, questionador, integra e proporciona comunidades de discussão. Desse modo, exerce-se a pedagogia da integração, do diálogo, da autonomia, da liberdade e do rigor do pensamento."


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Qual o sentido da Filosofia para Heidegger


O texto abaixo é um extrato de meu livro que será publicado em janeiro/fevereiro de 2020.

"A questão primordial da metafísica ainda é a mesma: 'Por que há o ente e não antes o nada?', mas as respostas de Heidegger ao mesmo tempo são novas e remetem aos primórdios da Filosofia. Em O que é Metafísica? o ponto central é a experiência do nada, muito diferente do “não”, o ente se mostra envolto em mistério, o nada vem ao mundo por meio do próprio homem. Na Universidade de Freiburg, em 1935 ele volta àquela questão primordial, que surge “como uma badalada surda” (HEIDEGGER, 1966, p. 37). Não é a primeira questão da metafísica cronologicamente, porém é a mais importante, profunda e original. Ela abrange todo o ente, e se limita pelo nada. Em certo sentido atinge até mesmo o nada, na expressão “é” nada.
 Ir ao fundamento e indagar “por que” é uma investigação do próprio homem. Nesse nosso planeta, este grão perdido no espaço, nós insignificantes criaturas não seríamos apenas uma pulsação nesse tempo e espaço? Qual o sentido de perguntar por que? Quer perguntemos ou não, quer obtenhamos respostas ou não, nada disso altera o curso do universo. Mas, ao ser posta como questão fundamental, não há como fugir dela.
 Até mesmo para os crentes em Deus e na Bíblia, a fé não impede de questionar sobre a adoção da doutrina. Que a Bíblia mesma responde. Heidegger considera a filosofia cristã um ferro de madeira, não se pode filosofar em matéria de fé, estas estão no domínio da teologia.
A reflexão filosófica é inesgotável, ela se desloca sempre, sem esse deslocar haveria satisfação completa o que acaba com o questionamento, pode virar uma moda, mas não seria verdadeira filosofia. Ao contrário da ciência e da técnica, não há aplicação da Filosofia técnica ou prática para o dia a dia, se bem que o pensar filosófico pode ligar-se à história de um povo. A própria existência histórica do homem inclui a filosofia entre suas necessidades autônomas, criativas. Ao interrogar os fundamentos, o homem também se interroga, orienta seu próprio ser, sem imposições para sua ação. Ao perguntar pela essência um povo é conduzido por caminhos de um saber, o do espírito desse povo. A filosofia pode também ajudar a construir uma cultura, uma visão de mundo, pode levar a ciência a refletir sobre seus pressupostos e assim restituir Ser ao ente, conduzir ao saber e às obras vitais da história de um povo. 
Para Heidegger a filosofia não tem uso imediato, não se presta para nos transformar, ela transcende o ordinário. “Filosofar é investigar o extraordinário”, diz ele (1966, p. 50), sem caminho pronto, nem respostas prontas, até o investigar é investigado, um salto para o mistério, para o extraordinário.
Essas exigências de Heidegger o levaram para o nascimento da Filosofia, para os primeiros filósofos, os gregos e sua primordial noção de physis traduzível impropriamente por “natureza”. A palavra significa algo mais forte, o brotar, o manifestar, o vigor dominante, tudo o que se desvela, desde a pedra até os homens e os deuses, é o extrair, o conservar-se e o vir a ser. Algo grandioso esse começo da Filosofia, que Aristóteles mudou para o conceito de substância. Com isso o conceito de physis perdeu sua força originária e passou a se opor a techne que é o saber prático, de produção, e mais tarde ficou restrito ao conceito de ente natural. Assim, a metafísica ganhou o sentido de reflexão para além do ente: meta ta physika. Heidegger não visou um simples retorno ao pensamento grego, mas pensar os gregos em sentido ainda mais radical, no vigor do aparecer, de seu pensar o inédito e o inaudito. A mensagem do homem é tentar desvelar os limites do ilimitado, mas o mistério inevitavelmente persiste."

sábado, 6 de julho de 2019

O pensamento mágico

Quem não gostaria de ter seus problemas resolvidos em um passe de mágica?
No século 16 acreditava-se que realidade e magia eram inseparáveis. As coisas se comunicavam umas com as outras ao que chamavam de simpatia ou se repeliam, era a antipatia. Sem distinguir entre as diversidade dos seres, sem classificá-los, todos se enredavam uns nos outros.
Foi nessa época que despontou Francis Bacon, nascido na Inglaterra em 1561, onde morreu em 1626. A crença em espíritos voláteis, no fantástico, nas fábulas, lendas e na alquimia, conviviam com a necessidade de expansão do comércio e defesa da marinha inglesa. O que levou aos estudos da astronomia (não astrologia) em prol dos estudos mecânicos. Havia necessidade de orientar os navegadores e aprimorar a navegação. Ao mesmo tempo surgiam as primeiras máquinas usadas na manufatura de produtos. Assim, técnica e ciência uma impulsionou a outra.
Bacon, o pai da ciência moderna, aconselhava o método da indução, quer dizer, experiências diretas com a natureza para verificar o que se conservava e o que mudava, e controlar essas modificações anotando-as em tabelas. Em resumo, Bacon preconizou o uso de método, inaugurou assim um novo tipo de mentalidade. Se desde Platão, Aristóteles e todo o medievo as técnicas eram subalternas, ligadas ao trabalho útil mas menos valorizado, menos nobre, para Bacon as técnicas eram primordiais.
Quando há necessidade de uma longa série de razões, a maior parte dos homens desvia-se do caminho e erra por falta de um método correto, dizia ele.
Manufatura de tecidos
E na modernidade? Prevalece o caminho da razão, da justificação, enfim, são adotados métodos e procedimentos racionais, ou não teríamos chegado ao estágio de desenvolvimento a que chegamos. Para fins por vezes antagônicos, como para preservar e favorecer a vida, ou para destruí-la. Isso é bem sabido, notório.
A pergunta é:
Por que o pensamento mágico e supersticioso perdura?!
A imaginação, os desejos, o inconsciente, a fragilidade e a capacidade de crer no impossível talvez expliquem porque o pensamento mágico e fantástico têm lugar no mundo moderno. Se ficassem restritos à arte que cultiva a imaginação fantástica, isso seria interessante e serviria para expandir os horizontes da criatividade.
Mas não, o pensamento mágico se aloja no dia a dia, seja nas seitas que orientam pessoas e se deixarem picar por cobras, seja nos rincões com cultos animistas, seja expulsão de demônios e "espíritos do mal" por pastores aos quais se concede poder mágico, seja pela crença em exorcismo ou em videntes. E nem foram mencionadas várias outras modalidades de "passe mágico".

Ora, o lado espiritual da vida pode ser sustentado pela paz interior,  pela iluminação que a fé proporciona. Nesse caso, a realidade não é anulada, pelo contrário, ela se reveste com as cores da luz interior. 

Esse lado benéfico contraste com o lado em que espírito se torna algo ininteligível, é quando esse "espiritual" se reveste de superstição, pode ser estímulo para a fraqueza, para o uso espúrio do sofrimento humano por uma autoridade, por alguém que se investe do poder mágico de solucionar aquele sofrimento. Nesse caso, a razão, os argumentos, o olhar para a realidade é substituído pela submissão ao detentor dos segredos e dos ritos. 

O inexorável método racional, da técnica, da ciência, da tecnologia abriu seu caminho, segue até nossos dias. Com sucesso e com falhas. Na maior parte das vezes o êxito tem sido superior aos fracassos. E assim prossegue a marcha humana, esse formigueiro de gente que habita o planeta azul.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O que é Filosofia, afinal?

Vejamos primeiramente o que não é Filosofia:
Não é ciência, pois ciência natural, formal ou social requer conjuntos de observações, experiências, confronto com a realidade, renovação constante, possibilidade de avanço do conhecimento, teorização, aplicação, enfim, recursos da experiência, recursos formais como cálculos, tabelas, mapeamento, possibilidade de reversão, comparação entre teorias. Comprovação, aplicação, teorização. Exemplos: modelos matemáticos, experiências laboratoriais, aplicação de questionários, enquetes sobre opinião pública. 
Não é arte, a arte é pura criação, sensação, gozo, fruição, enlevo, e também provocação. Nas artes plásticas, no teatro e no cinema, na arquitetura, na música e na poesia, na literatura, e nas ramificações dessas atividades o que há de comum é a fruição prazerosa e a estabilidade no tempo. Pode-se admirar uma escultura grega que é tão atual para nossa fruição estética quanto o impacto causado por uma ópera de Wagner ou um quadro de Picasso.
Não é religião, estas se baseiam na crença, na fé, nos dogmas, na aceitação sem contestação dos ensinamentos e artigos de fé que foram escritos e passam de geração para geração. Os ensinamentos podem estar em livros sagrados como a Bíblia e o Corão, e também presentes nos ritos, nas cerimônias, na tradição. O valor supremo é o do sagrado em oposição ao profano.
Então, o que é a Filosofia?
Não basta repisar o conceito de reflexão crítica, pois Filosofia vai além. Em primeiro lugar é possível filosofar a respeito da ciência (Filosofia da Ciência), a respeito da arte (Estética), a respeito da religião (Filosofia da Religião, Axiologia ou Filosofia dos Valores).
O campo de estudo da Filosofia é amplo, pensar filosoficamente exige raciocínio abstrato e capacidade de generalização. O todo, as determinações últimas de tudo o que há para ser vivido e pensado, a análise que vai às primeiras razões e às causas necessárias para que o Ser de tudo o que há "seja", exista; a pergunta pelo nada, pelo absoluto, pelo absurdo ou não da existência, pelas relação entre pensar e ser, entre linguagem e realidade, entre construção do raciocínio e impasses lógicos, esse é o material da maioria dos filósofos.
Diferentemente da ciência, todo pensamento filosófico é atual, a contribuição dos filósofos não se desgasta, não é descartada como são as teorias científicas ultrapassadas. Não há erro em Filosofia, há debate e confronto de conceitos, ideias e escolas de pensamento.
Quanto maior a compreensão de cada um dos mais representativos filósofos, maior a riqueza e destreza da reflexão.
Filosofia é exercício da razão em busca de razões.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A primeira aula de Filosofia

Como em geral se inicia um curso de Filosofia, seja para alunos do Ensino Médio, seja para universitários?
Com a definição do termo, "amigo da sabedoria" (philos = amigo; sophos = sabedoria), os primeiros filósofos (desde Tales até Sócrates, Platão e Aristóteles); em seguida entram os temas ou a divisão da filosofia em suas sub-especialidades:
- o Ser = Metafísica, Ontologia, Teodiceia
- o Conhecer = Teoria do Conhecimento, Epistemologia (ou Filosofia da Ciência), Lógica, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social, Filosofia da História
- o Valor (ou o Agir) = Ética, Estética, Teoria dos Valores

Alguns professores iniciam com a História da Filosofia antiga, mas como levar os alunos a compreender noções básicas como a de "ideia" para Platão? E que dizer, mais adiante, de filósofos complexos como Kant? ou Hegel? 
A tentação é ir logo para a chamada filosofia prática, engajada, para plantar na cabeça dos alunos uma linha, a da dialética, a da luta social, a do poder à classe oprimida, aos camponeses, aos pobres em geral. Insufla-se a ideia de que a injustiça social é um problema básico do capitalismo, que este é basicamente o mal social maior. Visa o lucro. 
Ora, é fácil e perigoso instilar esse tipo de ideologia, evidentemente não se trata de Filosofia... Trata-se de desonestidade intelectual, pura e simples.

Por outro lado, o ensino tradicional requer o uso de muitos conceitos abstratos, aos quais os alunos não estão habituados. E, nessa altura, com tanta nomenclatura, o interesse dos alunos se esvazia...
Como contornar o problema didático (ensinar temas e conteúdos, e também História da Filosofia) e despertar o interesse, levar os alunos à compreensão do que seja Filosofia e filosofar?!

Sugestão: sem deixar de lado o compromisso didático com os temas e conteúdos, a cada vez que se introduzir um tema (por exemplo, em Metafísica, o tema do ser, da existência, das causas), entraria um filósofo para ilustrar o conceito em questão, e, importantíssimo,o professor começa a levantar dúvidas, a fazer perguntas. O meio para atingir o interesse é estimular a curiosidade,  levar a reflexão à experiência pessoal, à vida, aos interesses, ao modo de agir e de pensar dos adolescentes e dos jovens.

Tomando o exemplo da questão do ser (que é das mais abstratas), o professor pode indagar sobre tudo o que existe, como existe, e que todos os seres vivos fatalmente acabarão, morrerão. Se alguém teve a dolorosa experiência da morte de alguém próximo, que é "fim", "não ser mais", pedir que o aluno tente expor como é não ser mais, a ausência, a sensação de nada, de vazio. Na medida do possível, o professor deve usar vocabulário do dia a dia para facilitar a reflexão. 
***
Moore, um filósofo contemporâneo, intrigado com a experiência de que seria pai, perguntou a sua esposa:
"Como é carregar em você um ser que não é o seu ser?" E indagações como essa podem levar a insights filosóficos. O professor pode pedir para que seus alunos escrevam respostas a esses questionamentos do cotidiano. 
Quando o mestre menos esperar, seus alunos estarão se iniciando no caminho filosófico.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Importância da Filosofia na vida pessoal

Em geral a Filosofia, tanto como disciplina acadêmica e como parte essencial da cultura e da história da humanidade, fica distante da vida pessoal. Mesmo quem tem um grau apurado de informação e educação formal, não consegue atinar com os conceitos, os termos, o tipo de pensamento abstrato próprios da Filosofia. 
Entretanto, a reflexão filosófica cumpre uma função educacional, pedagógica e criativa na vida humana. 
Como conciliar a dificuldade inerente ao pensamento filosófico com sua necessidade e importância?

A narrativa filosófica se aproxima da arte e da ciência, mas delas se distingue por não ser fantasiosa, não apelar para a pura imaginação ficcional dos artistas que representam um mundo de cores, sons, performances, e mesmo entretenimento. Distingue-se da ciência por prescindir de testes, experimentos, leis, generalizações e obtenção de resultados práticos como os da tecnologia. 
Ao mesmo tempo a Filosofia depende de uma mente aberta e criativa de um lado, e da busca da verdade o que também pauta a ciência, de outro lado.

Se você é professor de Filosofia, ou se é alguém com vontade de aprender com os mestres do pensamento, pode começar com perguntas a seus alunos no primeiro caso, ou com reflexões pessoais no segundo caso: indagações que partem de situações banais do cotidiano, das vivências pessoais para em seguida generalizar com questões mais abrangentes e fundamentais. 
Quem sou eu? O que faço de relevante em minha vida? Quais são os valores nos quais me baseio para decidir e julgar minhas ações e o mundo ao meu redor?
Aproveite o conceito de "mundo", por exemplo, para raciocinar, para abstrair. Como os primeiros filósofos, pergunte sobre esse "mundo". O cosmo, o universo? E vá além: como veio a ser tudo o que há? O homem em sua caminhada na face da Terra, o que isso representa para a humanidade? E o sofrimento, a dor, a humilhação, são absurdas, fazem sentido, como interpretar a morte, a morte de inocentes especialmente?
Ao atingir esse grau de abstração, eis aí o filosofar despontando. É preciso despertar a curiosidade, com filósofos que atinjam a mente e o coração.
***
Pessoas há que andam em círculos, o caminhar contínuo desgasta o percurso, não saem do próprio ninho construído, aliás, por elas mesmas. São prisioneiras de seus preconceitos e ignorância.
Outras há que ziguezagueiam, parecem chegar a um resultado gratificante, mas voltam atrás, sua perplexidade as impede de seguir em frente.
E outras há que cumprem metas, se transformam, modificam seu modo de pensar em busca de melhoria, de novos valores, de indagações que alargam e iluminam seu reto caminhar.

O papel da Filosofia seria trazer para este último caminhar um número maior de pessoas cada vez mais livres, mais reflexivas, que ponderam e abrem seu pensamento. Isso impede que ideologias, credos, partidos ceguem e fechem cabeças e corações. Que elas não precisem de um comando, de um chefe, de alguém que diga o que devem fazer, o que pensar, como viver.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os vinhedos de Frederico II e o quarto de Van Gogh

Entre as mais vívidas impressões de um breve percurso recém feito a alguns países europeus, há duas que são contrastantes e marcantes. Ambas dão a pensar.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.


Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.


Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
***
É possível usar o fausto para promover a grandeza como fez Frederico II.
É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O que a filosofia permite realizar?

Quando se fala em filosofia, logo vem à mente algo complexo, abstrato e inútil. Coisa da cabeça, dizem. Nada prática.
Na última postagem publiquei a estátua do Semeador para ilustrar a filosofia como ação, como atividade, semear ideias, conceitos, novas visões, modos de nos compreendermos, de avaliar situações e lidar com elas de forma mais investigadora e instigadora.
A filosofia se volta para ela mesma, para a sua história, e repensa seu papel, leva-nos a aprender com a realidade e a apreendê-la, isto é, pensar o real e transformar algo nas pessoas, a semente da pergunta, da indagação.
Ela proporciona conceitos para uma melhor compreensão de três áreas:
1. A ética e a política. O filósofo emblemático é Aristóteles para entender porque ética e política estão relacionadas. A sociedade política é um bem de e para todos, o homem como animal social, tem o senso do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião de pessoas para promover o bem viver; é preciso que o Estado proporcione uma vida feliz e virtuosa, que seja conduzido por um piloto que entenda de navegação. Diz Aristóteles em A Política:
Quando o monarca, a minoria ou a maioria, não buscam senão a felicidade geral, o governo é justo. Mas se visa ao interesse particular do príncipe ou dos outros chefes, há um desvio (p. 93). É impossível um Estado feliz se dele a honestidade for banida (p. 49).
2. A cultura. Vejamos o que diz Nietzsche: é preciso coragem para romper com valores gastos e estabelecidos. Reinventar valores cabe ao poeta solitário, capaz de dispensar a moeda gasta, de associar conceitos às necessidades e atribulações. A cultura sofre, foi banalizada, tudo está a serviço da barbárie, até mesmo a arte e a ciência (cf Considerações Contemporâneas, p. 74). Há que fugir do conformismo, do é assim mesmo, e penetrar nos difíceis caminhos do "eu assim o quis" (moral do forte).
3. As práticas humanas. Nasceram na história, e têm uma história, muita vezes cruel. Foucault mostra que o modo como o sujeito humano moderno se constitui, depende de práticas como as da prisão, hospitais, invenção da psiquiatria, das ciências humanas, que servem para conhecer o homem, e, ao mesmo tempo domesticá-lo. Em Vigiar e Punir Foucault analisa como o saber produz poder instalado em práticas como o castigo para o escolar, a prisão como forma generalizada para punir, o surgimento de instituições que dependem de vigilância. Esse é tema para próxima postagem.
Pensar não é pouca coisa...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O que é ceticismo?

Diante de tanta violência, corrupção, defesa de seus próprios interesses, egoísmo, é natural certo ceticismo. Ceticismo em filosofia significa descrer, duvidar, considerar que a verdade é uma moeda gasta.
Assim, a atitude do cético é a de se prevenir contra todo tipo de intolerância, todo tipo de dogmatismo (= considerar que apenas há uma verdade, a sua, a da sua religião, a da sua política, a de seu partido, e de seu modo de ser e de pensar).
Filósofos céticos não duvidam de questões e situações banais, das quais duvidar seria completo sem sentido, por exemplo, não é preciso duvidar de que temos um corpo, de que estamos nos comunicando, de que existe um planeta Terra, de que isso que vc acabou de ler não é uma ilusão.
O cético duvida, e com razão, de que o homem pode conhecer tudo, resolver tudo, saber com absoluta certeza o que acontecerá no minuto seguinte. Mesmo no campo da ciência. É que a ciência evolui, muda, o que hoje é confiável, amanhã pode não ser mais.
Hume (1711-1776), filósofo escocês, defendia o cetismo em questão relativas a nossa experiência. "Tudo o que é pode não ser", dizia ele.
Pensar assim é um bom remédio contra o preconceito e a intolerância, que geram violência.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Por que a nova palavra de ordem é "desafio"?

Vocês já repararam na quantidade de vezes que o termo "desafio" é usado na TV, nos jormais, nas empresas, nas escolas, no dia a dia das pessoas, pelos políticos, nas cúpulas mundiais? Desafios da reportagem, desafios do milênio, desafios do mudança climática, desfios da economia, etc., etc.
Já parou para pensar por que essa palavra está na ordem do dia?
Ela foi importada dos manuais para empresários norte-americanos ("challenge"), se espalhou no meio empresarial como busca de cumprimento de metas, e hoje é usada dando o sentido psicológico de obrigação de chegar lá. Assim, quem não chega lá (seja lá onde for, nos esportes, passar de ano, vencer etapas) é visto como perdedor.
Até mesmo em certas escolas voltadas para "os desafios do futuro", há no currículo uma matéria chamada de "empreendedorismo", que nada mais é do que treinar seu filho, sua filha para ser um futuro empresário, que vence desafios, um vitorioso.
Mas e o resto? Não dá para, na educação, olhar o mundo só por uma fresta de janela. Há outras, como a criatividade, a camaradagem, cultivar valores, um estilo de ser e de pensar mais livre. O vida não é feita só de profissões, nem só de desafios, nem só de treinamento.
Seu filho, sua filha não deve ver só uma árvore, quando há a floresta para ser percorrida, contemplada, explorada.