sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fernando Pessoa: "Não querer é poder" (última parte)

 Como entender o título acima? "A renúncia é libertação. Não querer é poder". Entendo que Pessoa expressa certo estoicismo, renunciar a um prazer ou a algo que se almeja, fortalece. O que é universal? Para toda alma humana, há o vasto céu, rios que correm, mares, montanhas, campos, as estações, casas, caras, gestos, trajes, amor, guerra, deuses finitos e infinitos, a linguagem comum. Quanto ao particular, Fernando Pessoa exemplifica com a Catedral de Reims é o edifício, do que ele é feito, já o universal são os edifícios dedicados à profundeza da alma humana, à diversidade e variedade dos povos. 

Na afirmação "o universo não é meu: sou eu" (p. 348), o conceito filosófico seria solipsismo, quer dizer, tudo o que existe reduz-se à própria consciência. Mas no caso de Fernando Pessoa, rótulos dificilmente se aplicam. Inclusive porque, ao mesmo tempo que imerso no eu, ele se acha envolvido pelo seu ambiente, sua cidade, suas impressões tanto as sensoriais como as oníricas. 

Depois de algum tempo sem escrever, o ano é 1931, ao questionar sobre a verdade, considera que é preciso recuperar a sensibilidade morta, pois ninguém escapa da "lei fatal de ser como é" (p. 360), mas sem realismo, pois para o realismo o mundo é como uma nação independente mas para o poeta não, estamos imersos no mundo. O mistério do universo é transmutado pela palavra, minha "pátria é a língua portuguesa" (p. 383). Sua moral e sua metafísica são restritas, "não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada" (p. 387). 

Sócrates afirmava que nada sabe, Pessoa retruca "nem saber que nada sabe", registro "consciente da inconsciência em nossas consciências, a metafísica das sombras" (p. 394).

Descrê de intrigas, de política, de diplomacia, de ocultismo. Várias vezes evoca a infância, a perda prematura da mãe, "a vida é o que fazemos dela (...) o que vemos não é o que vemos, senão o que somos" (p. 427). Filósofos como que percorrem as páginas do "Livro do Desassossego". Nos escritos de 1932, surge a pergunta essencial de Descartes e das filosofias da mente, sem mencioná-los: qual a relação entre a massa cinzenta e esta coisa que vê, que pensa, que imagina céus que não existem? 

E que dizer da passagem kafkiana sobre a mosca que pousou em seu tinteiro? Quando ela desapareceu, surgiu o escritório novamente sem filosofia, "ceticismo do inteligível", que mal distingue entre a realidade que existe e o sonho, que é realidade que não existe. Ainda sobre a realidade: o único problema é o da realidade, mas é problema insolúvel. Não sabemos o que somos, sonhamos encolhidos numa região espacial do ser, vale tanto o conforto de um calor como uma verdade eterna: "nada é, tudo coexiste" (p. 482).

Depressivo, ele, entretanto se diz tomado pelo tédio. Tédio, que é o aprisionamento em uma grande cela, nada vale a pena, futilidade da vida, "alma triste até no corpo". 

Os escritos de 1933 e 1934 se tornaram cada vez mais opressivos, pressentimento de sua morte? Ao saber da morte de um atendente na mercearia de sua rua, Pessoa assim se expressa: em torno douram paisagens que ele nunca verá, "amanhã eu também serei o que deixou da passar nestas ruas" (p. 498).

Sim, como todos nós um dia...

Túmulo de Fernando Pessoa 

Entronizado no Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa, nele se lê: "Para ser grande, sê inteiro/ Nada teu exagera ou exclui/Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes/Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive".

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