Vejamos primeiramente o que não é Filosofia:
Não é ciência, pois ciência natural, formal ou social requer conjuntos de observações, experiências, confronto com a realidade, renovação constante, possibilidade de avanço do conhecimento, teorização, aplicação, enfim, recursos da experiência, recursos formais como cálculos, tabelas, mapeamento, possibilidade de reversão, comparação entre teorias. Comprovação, aplicação, teorização. Exemplos: modelos matemáticos, experiências laboratoriais, aplicação de questionários, enquetes sobre opinião pública.
Não é arte, a arte é pura criação, sensação, gozo, fruição, enlevo, e também provocação. Nas artes plásticas, no teatro e no cinema, na arquitetura, na música e na poesia, na literatura, e nas ramificações dessas atividades o que há de comum é a fruição prazerosa e a estabilidade no tempo. Pode-se admirar uma escultura grega que é tão atual para nossa fruição estética quanto o impacto causado por uma ópera de Wagner ou um quadro de Picasso.
Não é religião, estas se baseiam na crença, na fé, nos dogmas, na aceitação sem contestação dos ensinamentos e artigos de fé que foram escritos e passam de geração para geração. Os ensinamentos podem estar em livros sagrados como a Bíblia e o Corão, e também presentes nos ritos, nas cerimônias, na tradição. O valor supremo é o do sagrado em oposição ao profano.
Então, o que é a Filosofia?
Não basta repisar o conceito de reflexão crítica, pois Filosofia vai além. Em primeiro lugar é possível filosofar a respeito da ciência (Filosofia da Ciência), a respeito da arte (Estética), a respeito da religião (Filosofia da Religião, Axiologia ou Filosofia dos Valores).
O campo de estudo da Filosofia é amplo, pensar filosoficamente exige raciocínio abstrato e capacidade de generalização. O todo, as determinações últimas de tudo o que há para ser vivido e pensado, a análise que vai às primeiras razões e às causas necessárias para que o Ser de tudo o que há "seja", exista; a pergunta pelo nada, pelo absoluto, pelo absurdo ou não da existência, pelas relação entre pensar e ser, entre linguagem e realidade, entre construção do raciocínio e impasses lógicos, esse é o material da maioria dos filósofos.
Diferentemente da ciência, todo pensamento filosófico é atual, a contribuição dos filósofos não se desgasta, não é descartada como são as teorias científicas ultrapassadas. Não há erro em Filosofia, há debate e confronto de conceitos, ideias e escolas de pensamento.
Quanto maior a compreensão de cada um dos mais representativos filósofos, maior a riqueza e destreza da reflexão.
Filosofia é exercício da razão em busca de razões.
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terça-feira, 11 de dezembro de 2018
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Os vinhedos de Frederico II e o quarto de Van Gogh
Entre as mais vívidas impressões de um breve percurso recém feito a alguns países europeus, há duas que são contrastantes e marcantes. Ambas dão a pensar.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.
Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.
Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.
Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.
Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
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É possível usar o fausto para promover a grandeza como fez Frederico II. É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.
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