A verdade é um valor? Sem dúvida, impossível fazer ciência em nome da falsidade. Como ficariam as provas e contraprovas? Resultados pode e devem ser contestados, o método científico exige igualmente que se justifiquem axiomas, leis, teorias de acordo com uma visão mais ampla da ciência em foco, aquilo que se pode chamar de paradigma.
Além disso, o cientista deve ser veraz, isso significa que ele precisa estar aberto às explanações, que ele tem consciência das consequências danosas ou frutíferas que sua pesquisa produz.
Algumas reflexões de Wittgenstein ajudam a ir além do já sabido que acima foi exposto.
Impossível falar a verdade a menos que a pessoa tenha autodomínio, e isso não tem nada a ver com ser incapaz, tem a ver com ser veraz, com ficar à vontade no terreno da verdade. Ao mesmo tempo, que deitar em seus louros, isto é, acomodar-se, corre-se o risco de cair como se fosse um sonâmbulo.
Há coisas evidentes que passam despercebidas, e "para aquele que sabe muito, para este é difícil não mentir". O que Wittgenstein quer dizer?
No começo tudo se resumia a sentenças com ou sem sentido, que, respectivamente poderiam ou não espelhar fatos e serem ditas em linguagem universal da lógica. As ciências naturais empregam sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas, como um tipo de rede lançada pelo pesquisador formando um conjunto entrelaçado de hipóteses confirmadas e a confirmar.
Mais adiante o pensamento do filósofo se debruçou na linguagem ordinária cuja capacidade de dar sentido se multiplica de acordo com o uso, com a situação, com a intenção dos falantes. Foi como se o céu puro da lógica viesse abaixo. Nós nos compreendemos, pensamos, agimos, comunicamos e muito mais pela linguagem aprendida, cujas regras passamos a dominar. "O limite da linguagem se mostra por ser impossível descrever o fatos que corresponde ou que uma sentença traduz, simplesmente pela repetição da sentença" e Wittgenstein acrescenta entre parênteses "(Isso tem a ver com a solução kantiana para o problema da filosofia)". Extraí essa citação de "Cultura e Valor"
Em apenas uma frase, o filósofo foi além de si mesmo e mostrou o interesse que precisamos ter com o pensamento clássico. Qual foi a solução de Kant para o problema da filosofia? Impossível chegar à realidade em si, ao noumenon, podemos aceder com os recursos da razão aos fenômenos! Papel da justificação para o uso de conceitos, algo que muitos filósofos estão longe de alcançar, muitos se consideram donos da verdade...
A filosofia está imersa na cultura, ou melhor, em certas culturas e isso é decisivo para que tenha um papel, ao mesmo tempo em que a história da filosofia, ou seja, os filósofos, devem e podem se debruçar um sobre o outro para apoiar ou para criticar, não importa.
Importa essa abertura, e nisso entra tanto a verdade, como a veracidade e a justificação.
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quinta-feira, 16 de maio de 2019
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
O que é pensamento?
Quais são os sinônimos na língua portuguesa para "pensamento"?
Raciocínio, mente, ideia, abstração, reflexão, inteligência, alma, espírito, e outros que o leitor pode acrescentar.
Interessante observar que termos como "cérebro" não são sinônimos em muitos contextos, como o médico/biológico, por se referirem a algo físico. Pensamento são apreendidos, cérebros nunca...
Outra observação: sem o cérebro não se pode pensar, é claro!
Então surge um problema, como algo físico produz algo mental?!
Essa dificuldade levou a maioria dos filósofos a distinguir radicalmente o corpo físico do pensamento impalpável, abstrato, portanto, incorpóreo. A relação corpo/alma vem de Platão, passa pela filosofia medieval, sofre algum abalo com o empirismo inglês, é reforçada por Descartes, se sofistica com Kant e se transforma com os filósofos que adotaram a hipótese da linguagem como decifração para a oposição material/mental.
Se a linguagem possibilita pensar, o cérebro com suas regiões e suas sinapses é condição necessária.
Mas então o que ou melhor, como pensamos?
Certos animais reagem, aprendem e memorizam. Mas não falam...
Assim, o tipo de pensamento exclusivamente humano vem de algo mais complexo, a capacidade de significação, quer dizer, de usar signos, símbolos, grafismos, imagens, códigos (braile, por exemplo).
"Eu penso" é uma expressão verbal, com significado e com ela alguém quer dizer algo em certo contexto e situação. Ao escrever esta página eu penso, raciocino, uso a memória, meus conhecimentos com o propósito de expor algo a alguém, que eu possa ser compreendida.
Calados pensamos, sonhamos, nos preocupamos, desejamos, criamos, duvidamos, chegamos a conclusões. Todas essas atividades são fruto de cérebro, linguagem, aprendizado, situações pessoais, ambiente, e a miríade de circunstâncias que nos fazem ser alguém.
Comparemos o artista escrevendo sua obra prima com alguém que sofre sob efeito de drogas, álcool, miserabilidade, escravo, dependente, sem possibilidade de reagir.
A que circunstância um e outro respondem?
Comparemos um bebê com suas reações a estímulos e seu rápido aprendizado com a velhice ao ser sugada pelo Alzeimer. Chegaremos à conclusão de que somos constituídos por essas e muitas outras condições. Assim deixaremos de lado a divisão platônica corpo/alma e veremos os seres humanos em sua diversidade e complexidade.
Raciocínio, mente, ideia, abstração, reflexão, inteligência, alma, espírito, e outros que o leitor pode acrescentar.
Interessante observar que termos como "cérebro" não são sinônimos em muitos contextos, como o médico/biológico, por se referirem a algo físico. Pensamento são apreendidos, cérebros nunca...
Outra observação: sem o cérebro não se pode pensar, é claro!
Então surge um problema, como algo físico produz algo mental?!
Essa dificuldade levou a maioria dos filósofos a distinguir radicalmente o corpo físico do pensamento impalpável, abstrato, portanto, incorpóreo. A relação corpo/alma vem de Platão, passa pela filosofia medieval, sofre algum abalo com o empirismo inglês, é reforçada por Descartes, se sofistica com Kant e se transforma com os filósofos que adotaram a hipótese da linguagem como decifração para a oposição material/mental.
Se a linguagem possibilita pensar, o cérebro com suas regiões e suas sinapses é condição necessária.
Mas então o que ou melhor, como pensamos?
Certos animais reagem, aprendem e memorizam. Mas não falam...
Assim, o tipo de pensamento exclusivamente humano vem de algo mais complexo, a capacidade de significação, quer dizer, de usar signos, símbolos, grafismos, imagens, códigos (braile, por exemplo).
"Eu penso" é uma expressão verbal, com significado e com ela alguém quer dizer algo em certo contexto e situação. Ao escrever esta página eu penso, raciocino, uso a memória, meus conhecimentos com o propósito de expor algo a alguém, que eu possa ser compreendida.
Calados pensamos, sonhamos, nos preocupamos, desejamos, criamos, duvidamos, chegamos a conclusões. Todas essas atividades são fruto de cérebro, linguagem, aprendizado, situações pessoais, ambiente, e a miríade de circunstâncias que nos fazem ser alguém.
Comparemos o artista escrevendo sua obra prima com alguém que sofre sob efeito de drogas, álcool, miserabilidade, escravo, dependente, sem possibilidade de reagir.
A que circunstância um e outro respondem?
Comparemos um bebê com suas reações a estímulos e seu rápido aprendizado com a velhice ao ser sugada pelo Alzeimer. Chegaremos à conclusão de que somos constituídos por essas e muitas outras condições. Assim deixaremos de lado a divisão platônica corpo/alma e veremos os seres humanos em sua diversidade e complexidade.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
O ser e a palavra
Não há ser sem a palavra, mas a palavra não tem ser. Se considerarmos os sons ou fonemas emitidos, é somente desse modo que as palavras teriam ser, quer dizer, gravadores podem captar esses sons emitidos, mas gravadores não captam o que se quer dizer...
Para chegarmos às coisas e situações de qualquer natureza, precisamos emitir sons, ou significar o sentido que queremos dar às coisas. Confunde-se o nome com a coisa nomeada, e isso devido à adesão entre o nome "rosa", por exemplo, e à flor no jardim. Esse nome ou significante, nasceu da cultura, da língua herdada e convencional que falantes do português, ou de qualquer outra língua, aprenderam.
Se apontarmos para uma rosa e dissermos, "inseto", nosso interlocutor procuraria, para evitar a hipótese de o falante não saber o que diz, uma razão para apontar à rosa e dizer "inseto". Uma abelha pousou na rosa, digamos.
Isso mostra que aprender uma língua é relacionar sons, palavras, frases à realidade, aos objetos, às coisas como se apresentam e mesmo como poderiam se apresentar. E mais. É compreender nossa situação no mundo, como lidamos, como nos havemos uns com os outros e com nossas circunstâncias.
Tudo o que existe, nós humanos inclusive, poderia subsistir sem a presença humana, sem a linguagem. Problema: não há como saber que mundo seria esse. Para significar essa própria possibilidade, precisamos da linguagem. A palavra tem poder, mas ela não cria, não produz seres, coisas, artefatos. Entretanto, a palavra produz efeitos, como dissuadir, convencer, mentir, elogiar, ordenar, intimidar, e muitos outros jogos de linguagem, como explicou Wittgenstein. Inclusive o silêncio pode ser mais significativo do que expressar o pensamento.
Atenção, "expressar o pensamento" não deve ser entendido como se tivéssemos tudo pronto em nossa mente, e as palavras apenas servissem para expressá-lo. Só podemos pensar (o que inclui, analisar, entender, supor, argumentar, etc., etc.) por meio da linguagem.
Deu para entender porque "a palavra não tem ser, mas não há ser sem a palavra"?
domingo, 28 de fevereiro de 2016
"Ex-machina, instinto artificial", um filme filosófico
O filme do diretor Alex Garland, "Ex-machina, instinto artificial" (2015) é um desses filmes que o professor de Filosofia pode usar para debater questões como, inteligência artificial, diálogo homem/máquina, o poder da inteligência humana, a relação entre linguagem, mente, sentimentos, sexualidade, como nosso cérebro funciona, entre outras. Acrescente-se, um ótimo entretenimento, prende o espectador do começo ao fim.
Sendo ficção científica, mas sem a parafernália de seres de outro planeta, guerras interplanetárias, espaço sideral, poderosos veículos espaciais -, o filme é um convite à reflexão.
Cenário, uma casa comandada por computador, onde um cientista estilo Steve Jobs se isola para criar robôs femininas, que deveriam poder interagir com humanos, sob todos os aspectos, sensibilidade, inclusive a sexual, com vontade própria, compreensão inteligente da linguagem a ponto de dialogar e mesmo contestar o funcionário de sua poderosa indústria de programação inteligente, que é convidado (e obrigado) a testar a robô. O modelo a seguir seria o teste de Turing, quer dizer, seria a máquina tão ou mais inteligente do que o homem?
Como foi possível criar o cérebro de uma robô, cuja máscara é a de uma linda jovem? Até onde o incrível número de dados armazenados em seu cérebro seria capaz de reagir inclusive a emoções, planejamento, ter desejos, compreender o outro e suas intenções?
E o que intriga, como nós mesmos, nosso cérebro, nossas mentes funcionam? Como a linguagem se origina, e seu papel fundamental para todas as nossas ações, que, em sua maioria são atos de fala? Ao mesmo tempo, como criamos sensibilidade para arte, para as sensações? Qual a importância da liberdade de ir e vir, deixar de ser um autômato, e se transformar em um ser autônomo, capaz de agir de acordo exclusivamente com sua própria determinação?
E ainda, discutir o poder e o alcance da tecnologia, se um dia seremos suplantados por robôs, que, no entanto, são criação humana? Criador X Criatura, quem vence?
Finalmente, o que é "ser humano"?
Notem que Wittgenstein é citado, há referência à obra de artistas como Pollock, a questão de se nascemos com competência para falar ou se desenvolvemos tal capacidade com o meio e a educação (sem que o diretor mencione, trata-se de Chomsky e sua tese do inatismo, em contraposição à tese de que o cérebro nada executa sem o meio em que somos criados).
E o professor que vir o filme com seus alunos poderá levantar outras questões, sem precisar se preocupar com "cenas fortes", proibidas para menores, pois não as há.
Sendo ficção científica, mas sem a parafernália de seres de outro planeta, guerras interplanetárias, espaço sideral, poderosos veículos espaciais -, o filme é um convite à reflexão.
Cenário, uma casa comandada por computador, onde um cientista estilo Steve Jobs se isola para criar robôs femininas, que deveriam poder interagir com humanos, sob todos os aspectos, sensibilidade, inclusive a sexual, com vontade própria, compreensão inteligente da linguagem a ponto de dialogar e mesmo contestar o funcionário de sua poderosa indústria de programação inteligente, que é convidado (e obrigado) a testar a robô. O modelo a seguir seria o teste de Turing, quer dizer, seria a máquina tão ou mais inteligente do que o homem?
Como foi possível criar o cérebro de uma robô, cuja máscara é a de uma linda jovem? Até onde o incrível número de dados armazenados em seu cérebro seria capaz de reagir inclusive a emoções, planejamento, ter desejos, compreender o outro e suas intenções?
E ainda, discutir o poder e o alcance da tecnologia, se um dia seremos suplantados por robôs, que, no entanto, são criação humana? Criador X Criatura, quem vence?
Finalmente, o que é "ser humano"?
Notem que Wittgenstein é citado, há referência à obra de artistas como Pollock, a questão de se nascemos com competência para falar ou se desenvolvemos tal capacidade com o meio e a educação (sem que o diretor mencione, trata-se de Chomsky e sua tese do inatismo, em contraposição à tese de que o cérebro nada executa sem o meio em que somos criados).
E o professor que vir o filme com seus alunos poderá levantar outras questões, sem precisar se preocupar com "cenas fortes", proibidas para menores, pois não as há.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
O que é estruturalismo?
Surgiu na França, décadas de 50/60, com o objetivo de facilitar e inovar a pesquisa nas ciências humanas, com ênfase na Etnologia, Psicanálise, Linguística e mesmo na Psicologia. Pode-se dizer que não se constitui em uma escola filosófica, foi antes um esforço para repensar a Filosofia com base nas ciências acima listadas.
Fatores imprescindíveis para o estruturalismo são: haver linguagem; capacidade de localizar um elemento no todo e encontrar o todo no elemento (pense-se nas trocas linguísticas, em que para uma sentença ser formulada seguem-se regras de combinação de fonemas, palavras, e sua significação); oposição; diferenciação; símbolos.
Estruturas são formas significantes, descontínuas, o sujeito é constituído, não há necessidade de uma visão da história em termos de origem e finalidade (como na dialética hegeliana e também na marxista), importam os cortes, a descontinuidade, dispensa-se toda e qualquer transcendência, bastam as imanências, quer dizer, o que surge em função de disposições dos elementos que são detectados por meio da atividade de compor e decompor o real.
Invariantes culturais universais, como relações de parentesco, mitos, o modo como o psiquismo se estrutura como se fosse linguagem, formas da arte e da literatura, tudo isso pode ser captado de modo estrutural.
Sem linguagem não há pensamento, formulou Saussure há cem anos!
O que isso tem de tão revolucionário?
A Linguística nasceu quando se iniciaram estudos a respeito da organização das diversas línguas e esses estudos evidenciaram que todas têm flexões, frases que precisam de regras, signos, e que a Filologia (estudo da evolução das línguas), não dá conta de como se usa a linguagem.
A constituição ou estrutura de toda e qualquer língua requer um conjunto de regras socialmente praticado, que ninguém inventou, que está aí quando as crianças aprendem, e que são faladas por alguém. Portanto, regras e seu uso importam, já saber como evoluíram não importa para o uso individual. Indivíduos trocam signos, com dupla face: imagens acústicas (significantes) que são algo mais que o som, vêm juntamente com os significados, isto é, o que se entende, se compreende. Essas realizações da estrutura linguística só se dão num sistema que congrega elementos de tal forma que a intencionalidade do sujeito entra no que ele quer comunicar, mas não no veículo que serve para comunicar.
Assim, estruturas detectadas nas culturas são invariantes e universais, suscetíveis de transformações possibilitadas pelas regras que regem o todo. Desse modo, o etnólogo chega à sintaxe das transformações, ou seja, as regras que tornam o real inteligível e possibilitam a construção de modelos para estudo e compreensão da realidade social.
O inconsciente, as relações de troca, a linguagem, a arte, as narrativas, o simbolismo estruturam o sujeito, sua fala, sua cultura.
Assim, o concreto, a realidade social evidencia-se nessas possibilidades combinatórias sem apelar para origem e finalidade última. Dispõem-se de elementos e regras combinatórias que não se esgotam. Tal como em um jogo de xadrez, o jogo segue regras e as jogadas são ilimitadas.
Formas, cores e sua disposição = estrutura.
Fatores imprescindíveis para o estruturalismo são: haver linguagem; capacidade de localizar um elemento no todo e encontrar o todo no elemento (pense-se nas trocas linguísticas, em que para uma sentença ser formulada seguem-se regras de combinação de fonemas, palavras, e sua significação); oposição; diferenciação; símbolos.
Estruturas são formas significantes, descontínuas, o sujeito é constituído, não há necessidade de uma visão da história em termos de origem e finalidade (como na dialética hegeliana e também na marxista), importam os cortes, a descontinuidade, dispensa-se toda e qualquer transcendência, bastam as imanências, quer dizer, o que surge em função de disposições dos elementos que são detectados por meio da atividade de compor e decompor o real.
Invariantes culturais universais, como relações de parentesco, mitos, o modo como o psiquismo se estrutura como se fosse linguagem, formas da arte e da literatura, tudo isso pode ser captado de modo estrutural.
Sem linguagem não há pensamento, formulou Saussure há cem anos!
O que isso tem de tão revolucionário?
A Linguística nasceu quando se iniciaram estudos a respeito da organização das diversas línguas e esses estudos evidenciaram que todas têm flexões, frases que precisam de regras, signos, e que a Filologia (estudo da evolução das línguas), não dá conta de como se usa a linguagem.
A constituição ou estrutura de toda e qualquer língua requer um conjunto de regras socialmente praticado, que ninguém inventou, que está aí quando as crianças aprendem, e que são faladas por alguém. Portanto, regras e seu uso importam, já saber como evoluíram não importa para o uso individual. Indivíduos trocam signos, com dupla face: imagens acústicas (significantes) que são algo mais que o som, vêm juntamente com os significados, isto é, o que se entende, se compreende. Essas realizações da estrutura linguística só se dão num sistema que congrega elementos de tal forma que a intencionalidade do sujeito entra no que ele quer comunicar, mas não no veículo que serve para comunicar.
Assim, estruturas detectadas nas culturas são invariantes e universais, suscetíveis de transformações possibilitadas pelas regras que regem o todo. Desse modo, o etnólogo chega à sintaxe das transformações, ou seja, as regras que tornam o real inteligível e possibilitam a construção de modelos para estudo e compreensão da realidade social.
O inconsciente, as relações de troca, a linguagem, a arte, as narrativas, o simbolismo estruturam o sujeito, sua fala, sua cultura.
Assim, o concreto, a realidade social evidencia-se nessas possibilidades combinatórias sem apelar para origem e finalidade última. Dispõem-se de elementos e regras combinatórias que não se esgotam. Tal como em um jogo de xadrez, o jogo segue regras e as jogadas são ilimitadas.
Formas, cores e sua disposição = estrutura.
Alfredo Volpi e suas bandeirinhas ilustram o jogo estrutural.
domingo, 29 de junho de 2014
Filósofos metafísicos e filósofos pós-metafísicos
A filosofia nasceu com filósofos metafísicos, como os gregos clássicos. A busca desses filósofos, principalmente Platão e Aristóteles, se dirigiu aos princípios primeiros de todas as coisas, às causas iniciais e às causas finais, quer dizer, a que se destinam os seres, quais são suas características essenciais, as propriedades principais que conduzem tudo o que existe a certo fim. Assim, o ser humano para Aristóteles, por exemplo, dirige sua conduta por valores éticos e políticos de realização plena. Como? Por meio do equilíbrio, da justa medida em termos éticos, individuais, e como cidadão na polis.
Até Kant, a filosofia com raras exceções, entre elas os filósofos céticos (Hume é um deles), pautou-se pela indagação "o que é o ser em geral?" e deu a essa indagação uma resposta com pretensão a ser a verdade final. Tomemos Descartes: o ser é o cognoscível, Deus inclusive, é nossa inteligência que conclui sobre a existência de um ser perfeito, e, sendo perfeito, logicamente deve existir. A razão passou a comandar a metafísica.
Kant desbancou a metafísica desse altar da razão, não há como saber se nosso conhecimento chega até os seres neles mesmos, isto é, independentemente do conhecedor. Nosso conhecimento depende de processos e procedimentos (as categorias), sem eles impossível saber algo do mundo que nos cerca.
Os ideais Deus, destino final da alma, e a razão de ser do mundo, questões essencialmente metafísicas, recebem resposta moral. No recôndito da alma humana há uma relação do homem consigo mesmo permeada pela consciência do dever moral. Kant eleva o homem à dignidade máxima, à liberdade máxima que permite decidir desapegadamente, a única e nobre finalidade é a realização de ações que refletem o que é bom para todos igualmente.
Pois bem, os filósofos pós-metafísicos vão em outra direção.
Nietzsche desmonta o edifício moral kantiano, o imperativo categórico manda que se obedeça a sistemas morais, o que não passa de uma tirania; não há sequer porque considerar o ser em si, pressuposto dos metafísicos. "O que chamamos de mundo é o resultado de uma multidão de erros", e "a coisa em si digna de um riso homérico, ... vazia, vazia de sentido". Isso porque noções como as de ser, causa final, bem supremo, noções morais, estéticas, religiosas são todas obra do intelecto humano, da ação humana, e cabe ao filósofo fazer a história da proveniência desses valores, todos eles humanos.
No século passado a filosofia se viu diante de novas questões, como a lógica da ciência para o positivismo lógico, questões sociais e políticas, a pergunta sobre a liberdade e sobre a existência que se "historicizou", por assim dizer. As perguntas que mais interessam à filosofia dizem respeito à compreensão do que fazemos, de nossa história, das transformações que sofremos, e do que podemos almejar com as condições criadas por nós. Antes, no século 19, Marx considerou que essas condições são as da produção material, transformações econômicas respondem à questão "o que somos, de onde viemos e para onde vamos?".
Ainda na vertente da filosofia alemã, a escola de Frankfurt atualizou o pensamento da esquerda e foi além da proposta de uma revolução que devolvesse os meios de produção ao trabalho e não ao capital.
Habermas reafirmou seu pertencimento à filosofia pós-metafísica. Para ele, sem a linguagem, sem a comunicação não há ordem social, o pensamento depende da linguagem, e a crise com a questão do ser em si (qual é a essência fundamental de todas as coisas), é recolocada: trata-se de um jogo de linguagem. Ou, mais precisamente, um ato de fala, uma pergunta feita por filósofos interessados na origem de tudo.
Então, tudo se enraíza na linguagem? Sim, mas evidentemente o mundo não é feito de linguagem e sim de coisas e suas interações. E como pensaríamos a respeito disso tudo sem a linguagem? Impossível para a filosofia pós-metafísica.
Até Kant, a filosofia com raras exceções, entre elas os filósofos céticos (Hume é um deles), pautou-se pela indagação "o que é o ser em geral?" e deu a essa indagação uma resposta com pretensão a ser a verdade final. Tomemos Descartes: o ser é o cognoscível, Deus inclusive, é nossa inteligência que conclui sobre a existência de um ser perfeito, e, sendo perfeito, logicamente deve existir. A razão passou a comandar a metafísica.
Kant desbancou a metafísica desse altar da razão, não há como saber se nosso conhecimento chega até os seres neles mesmos, isto é, independentemente do conhecedor. Nosso conhecimento depende de processos e procedimentos (as categorias), sem eles impossível saber algo do mundo que nos cerca.
Os ideais Deus, destino final da alma, e a razão de ser do mundo, questões essencialmente metafísicas, recebem resposta moral. No recôndito da alma humana há uma relação do homem consigo mesmo permeada pela consciência do dever moral. Kant eleva o homem à dignidade máxima, à liberdade máxima que permite decidir desapegadamente, a única e nobre finalidade é a realização de ações que refletem o que é bom para todos igualmente.
Pois bem, os filósofos pós-metafísicos vão em outra direção.
Nietzsche desmonta o edifício moral kantiano, o imperativo categórico manda que se obedeça a sistemas morais, o que não passa de uma tirania; não há sequer porque considerar o ser em si, pressuposto dos metafísicos. "O que chamamos de mundo é o resultado de uma multidão de erros", e "a coisa em si digna de um riso homérico, ... vazia, vazia de sentido". Isso porque noções como as de ser, causa final, bem supremo, noções morais, estéticas, religiosas são todas obra do intelecto humano, da ação humana, e cabe ao filósofo fazer a história da proveniência desses valores, todos eles humanos.
No século passado a filosofia se viu diante de novas questões, como a lógica da ciência para o positivismo lógico, questões sociais e políticas, a pergunta sobre a liberdade e sobre a existência que se "historicizou", por assim dizer. As perguntas que mais interessam à filosofia dizem respeito à compreensão do que fazemos, de nossa história, das transformações que sofremos, e do que podemos almejar com as condições criadas por nós. Antes, no século 19, Marx considerou que essas condições são as da produção material, transformações econômicas respondem à questão "o que somos, de onde viemos e para onde vamos?".
Ainda na vertente da filosofia alemã, a escola de Frankfurt atualizou o pensamento da esquerda e foi além da proposta de uma revolução que devolvesse os meios de produção ao trabalho e não ao capital.
Habermas reafirmou seu pertencimento à filosofia pós-metafísica. Para ele, sem a linguagem, sem a comunicação não há ordem social, o pensamento depende da linguagem, e a crise com a questão do ser em si (qual é a essência fundamental de todas as coisas), é recolocada: trata-se de um jogo de linguagem. Ou, mais precisamente, um ato de fala, uma pergunta feita por filósofos interessados na origem de tudo.
Então, tudo se enraíza na linguagem? Sim, mas evidentemente o mundo não é feito de linguagem e sim de coisas e suas interações. E como pensaríamos a respeito disso tudo sem a linguagem? Impossível para a filosofia pós-metafísica.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O homem como inventor de signos
É bem provável que na evolução da humanidade, a tomada de consciência de si tenha surgido juntamente com a linguagem. Sons com significado para alertar perigos, para indicar onde havia alimento, para encontrar abrigo, e demais necessidades em comum com os animais a princípio, e que foram se modificando na e com a espécie humana.
Ações se tornam conscientes e assim podem ser comunicadas, para comunicar é preciso sinais e esses sinais devem ser compreensíveis pelo bando.
Assim, nossa consciência não é espírito, ou alma, ou mente entendida como propriedade intangível, imaterial e absolutamente pessoal.
Nossa consciência é, antes, resultado de operações necessárias à vida em grupo. Desse modo ela funciona, tem utilidade, no momento em que desaparece ou se atenua, isso se deve ao sono, a alguma droga, ou mesmo doença que afeta de algum modo nosso cérebro.
Como no mesmo processo de sobrevivência alguns se destacam, a ele são atribuídas qualidades que o grupo não possui.
A concepção de Platão de que os homens possuem almas hierarquizadas, é paradigmática. As almas correspondem respectivamente a inferior, às sensações; a que está no peito à coragem, à fortaleza; a superior, corresponde à razão, ao discernimento. Escravos precisam da alma sensitiva, guerreiros da coragem, governantes, da razão.
Para o cristianismo há uma só alma e ela é universal, todos a possuem, imortal e sujeita ao pecado e às tentações do corpo. Cabe à alma dominar o corpo. Algo semelhante à noção platônica de que o corpo é a prisão da alma. Liberta deste, a alma encontra tudo o que a ela ontologicamente corresponde, o imortal, o nobre, qualidades em comum com a pura ideia.
Essa radical separação corpo/espírito (alma) está entranhada na cultura humana, tanto a ocidental como a oriental.
Os assim chamados materialistas, seriam apenas um punhado de pessoas descrentes e que não teriam, nem com a mais refinada ciência, como explicar a mente, a consciência de si, a capacidade de pensar.
Se filósofos como Wittgenstein ou como Dewey, para citar apenas dois entre muitos pensadores, entendem que mente, pensamento, raciocínio, reflexão, subjetividade, introspecção são atividades aprendidas e não puro espírito pensante, o argumento que contra eles se levanta é:
Como então são possíveis os pensamentos abstratos, pessoais e indevassáveis?
Talvez aqueles filósofos replicassem:
Como você sabe disso, pratica isso e comunica isso, ainda que seja a si mesmo em uma ilha deserta?
A resposta talvez esteja no título desta postagem...
Ações se tornam conscientes e assim podem ser comunicadas, para comunicar é preciso sinais e esses sinais devem ser compreensíveis pelo bando.
Assim, nossa consciência não é espírito, ou alma, ou mente entendida como propriedade intangível, imaterial e absolutamente pessoal.
Nossa consciência é, antes, resultado de operações necessárias à vida em grupo. Desse modo ela funciona, tem utilidade, no momento em que desaparece ou se atenua, isso se deve ao sono, a alguma droga, ou mesmo doença que afeta de algum modo nosso cérebro.
Como no mesmo processo de sobrevivência alguns se destacam, a ele são atribuídas qualidades que o grupo não possui.
A concepção de Platão de que os homens possuem almas hierarquizadas, é paradigmática. As almas correspondem respectivamente a inferior, às sensações; a que está no peito à coragem, à fortaleza; a superior, corresponde à razão, ao discernimento. Escravos precisam da alma sensitiva, guerreiros da coragem, governantes, da razão.
Para o cristianismo há uma só alma e ela é universal, todos a possuem, imortal e sujeita ao pecado e às tentações do corpo. Cabe à alma dominar o corpo. Algo semelhante à noção platônica de que o corpo é a prisão da alma. Liberta deste, a alma encontra tudo o que a ela ontologicamente corresponde, o imortal, o nobre, qualidades em comum com a pura ideia.
Essa radical separação corpo/espírito (alma) está entranhada na cultura humana, tanto a ocidental como a oriental.
Os assim chamados materialistas, seriam apenas um punhado de pessoas descrentes e que não teriam, nem com a mais refinada ciência, como explicar a mente, a consciência de si, a capacidade de pensar.
Se filósofos como Wittgenstein ou como Dewey, para citar apenas dois entre muitos pensadores, entendem que mente, pensamento, raciocínio, reflexão, subjetividade, introspecção são atividades aprendidas e não puro espírito pensante, o argumento que contra eles se levanta é:
Como então são possíveis os pensamentos abstratos, pessoais e indevassáveis?
Talvez aqueles filósofos replicassem:
Como você sabe disso, pratica isso e comunica isso, ainda que seja a si mesmo em uma ilha deserta?
A resposta talvez esteja no título desta postagem...
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