Uma das metáforas mais interessantes e esclarecedoras sobre a alma, é a do sopro, sopro vital, respirar, inalar e sentir que o corpo se encheu com algo inefável, essencial, imaterial, invisível.
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
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segunda-feira, 13 de abril de 2020
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
O que é pensamento?
Quais são os sinônimos na língua portuguesa para "pensamento"?
Raciocínio, mente, ideia, abstração, reflexão, inteligência, alma, espírito, e outros que o leitor pode acrescentar.
Interessante observar que termos como "cérebro" não são sinônimos em muitos contextos, como o médico/biológico, por se referirem a algo físico. Pensamento são apreendidos, cérebros nunca...
Outra observação: sem o cérebro não se pode pensar, é claro!
Então surge um problema, como algo físico produz algo mental?!
Essa dificuldade levou a maioria dos filósofos a distinguir radicalmente o corpo físico do pensamento impalpável, abstrato, portanto, incorpóreo. A relação corpo/alma vem de Platão, passa pela filosofia medieval, sofre algum abalo com o empirismo inglês, é reforçada por Descartes, se sofistica com Kant e se transforma com os filósofos que adotaram a hipótese da linguagem como decifração para a oposição material/mental.
Se a linguagem possibilita pensar, o cérebro com suas regiões e suas sinapses é condição necessária.
Mas então o que ou melhor, como pensamos?
Certos animais reagem, aprendem e memorizam. Mas não falam...
Assim, o tipo de pensamento exclusivamente humano vem de algo mais complexo, a capacidade de significação, quer dizer, de usar signos, símbolos, grafismos, imagens, códigos (braile, por exemplo).
"Eu penso" é uma expressão verbal, com significado e com ela alguém quer dizer algo em certo contexto e situação. Ao escrever esta página eu penso, raciocino, uso a memória, meus conhecimentos com o propósito de expor algo a alguém, que eu possa ser compreendida.
Calados pensamos, sonhamos, nos preocupamos, desejamos, criamos, duvidamos, chegamos a conclusões. Todas essas atividades são fruto de cérebro, linguagem, aprendizado, situações pessoais, ambiente, e a miríade de circunstâncias que nos fazem ser alguém.
Comparemos o artista escrevendo sua obra prima com alguém que sofre sob efeito de drogas, álcool, miserabilidade, escravo, dependente, sem possibilidade de reagir.
A que circunstância um e outro respondem?
Comparemos um bebê com suas reações a estímulos e seu rápido aprendizado com a velhice ao ser sugada pelo Alzeimer. Chegaremos à conclusão de que somos constituídos por essas e muitas outras condições. Assim deixaremos de lado a divisão platônica corpo/alma e veremos os seres humanos em sua diversidade e complexidade.
Raciocínio, mente, ideia, abstração, reflexão, inteligência, alma, espírito, e outros que o leitor pode acrescentar.
Interessante observar que termos como "cérebro" não são sinônimos em muitos contextos, como o médico/biológico, por se referirem a algo físico. Pensamento são apreendidos, cérebros nunca...
Outra observação: sem o cérebro não se pode pensar, é claro!
Então surge um problema, como algo físico produz algo mental?!
Essa dificuldade levou a maioria dos filósofos a distinguir radicalmente o corpo físico do pensamento impalpável, abstrato, portanto, incorpóreo. A relação corpo/alma vem de Platão, passa pela filosofia medieval, sofre algum abalo com o empirismo inglês, é reforçada por Descartes, se sofistica com Kant e se transforma com os filósofos que adotaram a hipótese da linguagem como decifração para a oposição material/mental.
Se a linguagem possibilita pensar, o cérebro com suas regiões e suas sinapses é condição necessária.
Mas então o que ou melhor, como pensamos?
Certos animais reagem, aprendem e memorizam. Mas não falam...
Assim, o tipo de pensamento exclusivamente humano vem de algo mais complexo, a capacidade de significação, quer dizer, de usar signos, símbolos, grafismos, imagens, códigos (braile, por exemplo).
"Eu penso" é uma expressão verbal, com significado e com ela alguém quer dizer algo em certo contexto e situação. Ao escrever esta página eu penso, raciocino, uso a memória, meus conhecimentos com o propósito de expor algo a alguém, que eu possa ser compreendida.
Calados pensamos, sonhamos, nos preocupamos, desejamos, criamos, duvidamos, chegamos a conclusões. Todas essas atividades são fruto de cérebro, linguagem, aprendizado, situações pessoais, ambiente, e a miríade de circunstâncias que nos fazem ser alguém.
Comparemos o artista escrevendo sua obra prima com alguém que sofre sob efeito de drogas, álcool, miserabilidade, escravo, dependente, sem possibilidade de reagir.
A que circunstância um e outro respondem?
Comparemos um bebê com suas reações a estímulos e seu rápido aprendizado com a velhice ao ser sugada pelo Alzeimer. Chegaremos à conclusão de que somos constituídos por essas e muitas outras condições. Assim deixaremos de lado a divisão platônica corpo/alma e veremos os seres humanos em sua diversidade e complexidade.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Em que sentido espírito e/ou alma existem?
Quem leu a postagem anterior, talvez tenha concluído que seria impossível falar de alma e espírito, se eles não existissem. Faz sentido atribuir qualidades como imortalidade, espiritualidade, invisibilidade, capacidade de pensar, de isolar-se no íntimo de seu eu, sem que haja tais entes, quer dizer, algo em si ao qual podem ser atribuídas a existência, a subsistência, a temporalidade, e outras categorias?
É preciso levar em conta duas possibilidades:
A primeira possibilidade, considerar que a resposta à pergunta "o que existe?" é: entidades com a capacidade ontológica de ser, de existir ou de subsistir são uma resposta evidente e imediata a essa pergunta. Espírito/alma existem, mas não do mesmo modo que uma mesa existe, que corpos de um modo geral existem. A natureza dessa existência seria a espiritual, incorpórea. Prova disso: somos seres pensantes, nosso espírito subsiste nas ideias, imaginação, vida interior, pensamento. Difere do corpo, portanto, também difere do cérebro e de suas complexas engrenagens. Descartes defendeu essa visão dualista do homem.
A segunda possibilidade: o sentido ontológico de alma/espírito é atribuível a facetas, a características da cultura humana, às ações, às situações desde as mais corriqueiras, até os ritos mais secretos, às celebrações mais solenes. Exemplos de atos de fala com emprego contextual compreensível e que não levantam problemas ontológicos, isto é, perguntas sobre se se trata de espírito "mesmo" e como é sua natureza, imaterial, pessoal, imortal, etc.
"Pedro é uma pessoa boa, tem um espírito conciliador"
"O Espírito dos povos evolui e se aperfeiçoa"
"Pobres almas inocentes dessas crianças que morreram nos bombardeios da Síria"
"Um raio de luz me transpassa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros!" (Nietzsche).
"Espíritos elevados constroem um mundo melhor".
E inúmeros empregos dos termos, como "parece uma alma penada" sobre o aspecto lúgubre de alguém; "espírito de corpo", para corporativismo, e "espírito de porco" em um xingamento; e tantas outras de nosso uso diário, por vezes na poesia, na literatura, nos ditos populares.
Assim, há os que creem na alma como uma entidade pelo menos subsistente cuja natureza difere radicalmente da corpórea, e aqueles que partem de outro pressuposto, o da vida humana inserida em uma cultura, com seus signos, linguagem, atos de fala, jogos de linguagem, símbolos. Estes últimos não precisam elucubrar, apenas ver o que e como ocorrem as situações em que faz perfeitamente sentido se expressar com termos que se referem às capacidades de pensar, refletir, falar, dar sentido ao mundo, comunicar, decifrar, inventar, imaginar, e tantas outras.
Como resolver a seguinte questão, para os adeptos da primeira possibilidade. Sentir prazer ou dor é corporal ou espiritual? A dor física e a dor moral, a dor de uma perda, em que diferem? Valores morais pertencem ao corpo ou ao espírito?
Ou essa outra, para os adeptos da segunda possibilidade: depressão (doença inventada/diagnosticada pela psiquiatria) é física, cerebral, mental, espiritual, cultural, genética, inclassificável em um só gênero?
E mais essa: por que faz muito mais sentido dizer "força de vontade" do que "força de espírito"?
Quero dizer uma coisa aos que menosprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem sua estima. Quem criou a estima e o desprezo, o valor e a vontade? O próprio ser criador criou sua estima e seu desprezo, criou sua alegria e sua dor. O corpo criador criou para si mesmo o espírito como procedência de sua vontade (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).
É preciso levar em conta duas possibilidades:
A primeira possibilidade, considerar que a resposta à pergunta "o que existe?" é: entidades com a capacidade ontológica de ser, de existir ou de subsistir são uma resposta evidente e imediata a essa pergunta. Espírito/alma existem, mas não do mesmo modo que uma mesa existe, que corpos de um modo geral existem. A natureza dessa existência seria a espiritual, incorpórea. Prova disso: somos seres pensantes, nosso espírito subsiste nas ideias, imaginação, vida interior, pensamento. Difere do corpo, portanto, também difere do cérebro e de suas complexas engrenagens. Descartes defendeu essa visão dualista do homem.
A segunda possibilidade: o sentido ontológico de alma/espírito é atribuível a facetas, a características da cultura humana, às ações, às situações desde as mais corriqueiras, até os ritos mais secretos, às celebrações mais solenes. Exemplos de atos de fala com emprego contextual compreensível e que não levantam problemas ontológicos, isto é, perguntas sobre se se trata de espírito "mesmo" e como é sua natureza, imaterial, pessoal, imortal, etc.
"Pedro é uma pessoa boa, tem um espírito conciliador"
"O Espírito dos povos evolui e se aperfeiçoa"
"Pobres almas inocentes dessas crianças que morreram nos bombardeios da Síria"
"Um raio de luz me transpassa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros!" (Nietzsche).
"Espíritos elevados constroem um mundo melhor".
E inúmeros empregos dos termos, como "parece uma alma penada" sobre o aspecto lúgubre de alguém; "espírito de corpo", para corporativismo, e "espírito de porco" em um xingamento; e tantas outras de nosso uso diário, por vezes na poesia, na literatura, nos ditos populares.
Assim, há os que creem na alma como uma entidade pelo menos subsistente cuja natureza difere radicalmente da corpórea, e aqueles que partem de outro pressuposto, o da vida humana inserida em uma cultura, com seus signos, linguagem, atos de fala, jogos de linguagem, símbolos. Estes últimos não precisam elucubrar, apenas ver o que e como ocorrem as situações em que faz perfeitamente sentido se expressar com termos que se referem às capacidades de pensar, refletir, falar, dar sentido ao mundo, comunicar, decifrar, inventar, imaginar, e tantas outras.
Como resolver a seguinte questão, para os adeptos da primeira possibilidade. Sentir prazer ou dor é corporal ou espiritual? A dor física e a dor moral, a dor de uma perda, em que diferem? Valores morais pertencem ao corpo ou ao espírito?
Ou essa outra, para os adeptos da segunda possibilidade: depressão (doença inventada/diagnosticada pela psiquiatria) é física, cerebral, mental, espiritual, cultural, genética, inclassificável em um só gênero?
E mais essa: por que faz muito mais sentido dizer "força de vontade" do que "força de espírito"?
Quero dizer uma coisa aos que menosprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem sua estima. Quem criou a estima e o desprezo, o valor e a vontade? O próprio ser criador criou sua estima e seu desprezo, criou sua alegria e sua dor. O corpo criador criou para si mesmo o espírito como procedência de sua vontade (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).
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