Uma das metáforas mais interessantes e esclarecedoras sobre a alma, é a do sopro, sopro vital, respirar, inalar e sentir que o corpo se encheu com algo inefável, essencial, imaterial, invisível.
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
segunda-feira, 13 de abril de 2020
sábado, 4 de abril de 2020
O cuidado de um ponto de vista filosófico
Quando iniciei o blog, o fiz por sugestão de colegas de minha filha, quando ela lecionava em uma escola de inglês.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
Cuidar se transformou em isolar
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
domingo, 22 de março de 2020
Doença, morte, corpo e alma segundo Thomas Mann
Aproveito as muitas horas, dias e provavelmente semanas de reclusão para adiantar a leitura da obra prima de Thomas Mann, Der Zauberberg (A Montanha Mágica).
Já havia lido há tempos em português, depois em inglês. Mas sempre quis lê-la no original. Assim, resolvi voltar a estudar alemão, curso que interrompi no longínquo 1972, no segundo ano.
Mas entre os atuais três anos da língua e ler Thomas Mann, ia uma distância...
Ainda assim me propus à tarefa, são 1005 páginas!
Aos poucos, com dicionário on-line, prazer e paciência, prossigo, mergulho nas experiências de Hans Castorp, 23 anos, em um sanatório para tratamento de tuberculose em Davos, por duas semanas.
Cada hora e cada dia são descritos com minúcia, e nos levam a reflexões sobre a vida, e quem reflete sobre a vida, o faz necessariamente sobre a morte...
E o que leva à morte essencialmente são doenças. O personagem principal, ao chegar à estação e depois ao sanatório, experimenta nele mesmo a doença do seu primo, Joachim, a quem visitava.
Assim Hans Castorp se expressa sobre o mal estar que sente:
Na p. 102: Als ob der Körper seine eigene Wege ginge und keinen Zummenhang mir der Seele mehr hätte. "Como se o corpo tomasse seu próprio caminho e não tivesse mais relação com a alma". E um pouco adiante, o personagem sente que não faz nenhum sentido razoável isso que ele sente, um tipo de desgarramento do corpo, como se o corpo se "comportasse" com vontade própria, a despeito do que sua alma desejaria...
A vida cotidiana escapa de nosso controle, somos ao invés de donos de si meros corpos controlados por um vírus. O invisível tomou conta do mundo todo. Perplexos assistimos a cenas de dor, sofrimento, isolamento e morte.
Mais uma vez a humanidade precisa com urgência da ciência, essa salvação que passa esquecida e desconhecida grande parte do tempo pela maioria das pessoas...
1875-1955 (Prêmio Nobel de Literatura 1929)
Já havia lido há tempos em português, depois em inglês. Mas sempre quis lê-la no original. Assim, resolvi voltar a estudar alemão, curso que interrompi no longínquo 1972, no segundo ano.
Mas entre os atuais três anos da língua e ler Thomas Mann, ia uma distância...
Ainda assim me propus à tarefa, são 1005 páginas!
Aos poucos, com dicionário on-line, prazer e paciência, prossigo, mergulho nas experiências de Hans Castorp, 23 anos, em um sanatório para tratamento de tuberculose em Davos, por duas semanas.
Sanatório em Davos no qual se inspirou T. Mann
Cada hora e cada dia são descritos com minúcia, e nos levam a reflexões sobre a vida, e quem reflete sobre a vida, o faz necessariamente sobre a morte...
E o que leva à morte essencialmente são doenças. O personagem principal, ao chegar à estação e depois ao sanatório, experimenta nele mesmo a doença do seu primo, Joachim, a quem visitava.
Assim Hans Castorp se expressa sobre o mal estar que sente:
Na p. 102: Als ob der Körper seine eigene Wege ginge und keinen Zummenhang mir der Seele mehr hätte. "Como se o corpo tomasse seu próprio caminho e não tivesse mais relação com a alma". E um pouco adiante, o personagem sente que não faz nenhum sentido razoável isso que ele sente, um tipo de desgarramento do corpo, como se o corpo se "comportasse" com vontade própria, a despeito do que sua alma desejaria...
***
Nossas atividades normais e banais são repentinamente interrompidas, o corpo passa como que a ter vontade própria, não dominamos mais nossas sensações de bem-estar a respeito das quais normalmente nem atentaríamos. E ficamos à mercê da doença, procurando a cura, um hospital, um sanatório (caso de Hans), um remédio, por vezes um milagre.A vida cotidiana escapa de nosso controle, somos ao invés de donos de si meros corpos controlados por um vírus. O invisível tomou conta do mundo todo. Perplexos assistimos a cenas de dor, sofrimento, isolamento e morte.
Mais uma vez a humanidade precisa com urgência da ciência, essa salvação que passa esquecida e desconhecida grande parte do tempo pela maioria das pessoas...
segunda-feira, 9 de março de 2020
O QUE DIZ HEIDEGGER: SOBRE "VERDADE"?
O mínimo que se pode dizer sobre a concepção de Heidegger de verdade, é que ela é original.
Em primeiro lugar porque ele dispensa critérios como o do empirismo, de que verdade depende de contato das sensações com o mundo; discorda dos conceitos científicos de verdade, como o de comprovação por testes e cálculos; discorda de que a verdade seja algo inefável, divino, inalcançável para nós, humanos; discorda do conceito aristotélico/tomista, de que verdade é o acordo entre o intelecto e a realidade dos fatos; discorda do conceito estético, verdade é a da arte, o que nos deleita.
Evidentemente discorda do conceito transcendental, aquele em que a verdade passa pelos filtros dos recursos puros da razão.
1889-1976
O que é então a verdade? Qual é a sua essência?
Tal como os filósofos analíticos, a verdade requer a linguagem, mas diferentemente deles, a linguagem não é formal ou lógica, não forma uma quadro da realidade suscetível de ser formalizado.
A linguagem para Heidegger enuncia algo, e a isso reagimos, damos uma resposta, abrimos caminho para certo ente, para certo modo como algo se apresenta para nós, naquele dizer, e isso denota liberdade.
Como assim? Então verdade e liberdade se condicionam mutuamente?
Sim, é que liberdade para Heidegger não significa ser solto, independente, e sim estar aberto para a recepção do mundo, para as situações da existência cujo sentido exige verdade como liberdade. O avesso da verdade como desvelar é o encobrir, o pôr um véu, e fazemos isso o tempo todo...
E qual é o limite desse livre apresentar do ente a nós?
O limite não é o impensado, o limite é não podermos sair de nossa condição humana e transcender a totalidade do mundo, dos entes, de tudo o que há. Estamos sempre imersos em nossas situações, nossos objetivos e projetos nos lançam para o aí no mundo.
O mistério do ente em sua totalidade acaba por ser ignorado, pois somos atraídos por nossos problemas, pelo dia a dia, pelas circunstâncias cotidianas.
Nosso modo de ser hoje em dia passa pelos instrumentos, pela tecnologia, pelas máquinas, pelos meios de transporte.
Estamos longe e esquecidos dessa verdade como liberdade, a essência nos foge. Não porque seja inacessível e sim porque nossa lida nos amarra, e a busca pela essência acaba por se confundir com misticismo, exercícios da mente, fé e apego a crenças e mitos.
Difícil retirar essas camadas que impedem chegar à essência, o nosso modo de ser aberto pela linguagem e o acesso à verdade.
domingo, 1 de março de 2020
O que é o cogito para Descartes?
Descartes (1596-1650) apreciava viajar, não só pela Europa, mas também e, principalmente, para dentro de si mesmo.
O si próprio, o seu interior, o seu eu foi a fonte para sua metafísica, base para o racionalismo. Isso quer dizer que para buscar os fundamentos do saber, para chegar à verdade, bastaria encontrar um porto seguro, algo sobre o que não restasse dúvida alguma.
Tudo o que nos cerca pode tanto ser, como deixar de ser. Então por aí não se chega à verdade. De início Descartes pressupôs que nem mesmo operações matemáticas estão a salvo, pois pode-se supor um Deus enganador.
Foi então que o filósofo decidiu que o melhor caminho, ou seja, o método seguro, seria duvidar de tudo. Exceto de que ele próprio estivesse duvidando. Impossível duvidar de que se esteja praticando o ato de duvidar e tal ato implica necessariamente pensar. A atividade do pensamento é o porto seguro da metafísica, a base para todas as ciências e conhecimentos.
Cético algum pode abalar a certeza dessa verdade: "Penso, logo existo".
Descartes foi além, essa certeza permite deduzir outras evidências, a de que era impossível que ele nada fosse, e do que ele consistiria?
"De uma substância cuja essência ou natureza era apenas a de pensar e que para existir não tem necessidade de lugar algum e não depende de nada material".
Esse racionalismo, a distinção radical entre corpo=matéria / alma=espírito não serviu para o filósofo resolver questões religiosas, místicas, e sim racionais, a busca da evidência, que é própria do ter ideias e culmina na certeza, que é um estado psicológico de satisfação interior.
O caminho para a metafísica vem das evidências, das ideias claras e distintas, que abrem caminho o método das demonstrações seguras, ou seja, a matemática.
E é por essa via que ele chega à certeza de que há um Deus não enganador, espírito, que existe, uma natureza a mais perfeita de todas, portanto, dotada da mais alta perfeição que é a da existência.
Tudo se conecta em Descartes com as noções de mente, ideia, certeza, verdade, de um lado, e do lado oposto, a matéria sensível, descartável, e tudo que for fruto da imaginação.
A reta razão só pode buscar fundamentos para a verdade, nunca a vontade nem os sentimentos.
Portanto, racionalismo, o pensamento, o cogito, o eu pensante.
Essa concepção nasceu juntamente com o mecanicismo, a doutrina de que a matéria se movimenta como um mecanismo com leis próprias. E, como o espírito ou cogito não segue leis mecânicas, entende-se como foi possível conceber o espírito independente do corpo.
Em contraste, pela concepção atual de evolução, de matéria como energia, a separação corpo/espírito está ausente da metafísica desde Hegel, Nietzsche, e tantos outros filósofos do século XX.
O si próprio, o seu interior, o seu eu foi a fonte para sua metafísica, base para o racionalismo. Isso quer dizer que para buscar os fundamentos do saber, para chegar à verdade, bastaria encontrar um porto seguro, algo sobre o que não restasse dúvida alguma.
Tudo o que nos cerca pode tanto ser, como deixar de ser. Então por aí não se chega à verdade. De início Descartes pressupôs que nem mesmo operações matemáticas estão a salvo, pois pode-se supor um Deus enganador.
Cético algum pode abalar a certeza dessa verdade: "Penso, logo existo".
Descartes foi além, essa certeza permite deduzir outras evidências, a de que era impossível que ele nada fosse, e do que ele consistiria?
"De uma substância cuja essência ou natureza era apenas a de pensar e que para existir não tem necessidade de lugar algum e não depende de nada material".
Esse racionalismo, a distinção radical entre corpo=matéria / alma=espírito não serviu para o filósofo resolver questões religiosas, místicas, e sim racionais, a busca da evidência, que é própria do ter ideias e culmina na certeza, que é um estado psicológico de satisfação interior.
O caminho para a metafísica vem das evidências, das ideias claras e distintas, que abrem caminho o método das demonstrações seguras, ou seja, a matemática.
E é por essa via que ele chega à certeza de que há um Deus não enganador, espírito, que existe, uma natureza a mais perfeita de todas, portanto, dotada da mais alta perfeição que é a da existência.
Tudo se conecta em Descartes com as noções de mente, ideia, certeza, verdade, de um lado, e do lado oposto, a matéria sensível, descartável, e tudo que for fruto da imaginação.
A reta razão só pode buscar fundamentos para a verdade, nunca a vontade nem os sentimentos.
Portanto, racionalismo, o pensamento, o cogito, o eu pensante.
Essa concepção nasceu juntamente com o mecanicismo, a doutrina de que a matéria se movimenta como um mecanismo com leis próprias. E, como o espírito ou cogito não segue leis mecânicas, entende-se como foi possível conceber o espírito independente do corpo.
Em contraste, pela concepção atual de evolução, de matéria como energia, a separação corpo/espírito está ausente da metafísica desde Hegel, Nietzsche, e tantos outros filósofos do século XX.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
O que ser ético?
O que se entende por princípios éticos?
Pelo lado sociológico, entram em cena os costumes e tradições de um povo, de uma cultura e de uma sociedade.
Pelo lado moral, entram em cena a educação recebida da família, da escola, dos credos religiosos, dos ensinamentos e exemplos de vida.
Pelo lado filosófico, entram em cena as bases de atos éticos diferentemente de ações e práticas que visam resultados imediatos. Ninguém faz perguntas sobre a ética de uma receita de bolo, mas pode e deve questionar sobre as intenções do confeiteiro ou da dona de casa (casos extremos como envenenar alguém, até os mais corriqueiros, como bajular o chefe de departamento...). Pode-se igualmente questionar eticamente o modo como os ingredientes foram produzidos (mais uma vez um caso extremo como o de trabalho escravo), transportados, embalados, comercializados (por exemplo, vender produtos com prazo de validade vencido).
Essas são questões éticas que envolvem a sociedade como um todo em especial a ética na política. Raros são os personagens íntegros, política e politicagem se confundem. Do lado da ética ambiental estão envolvidas desde a mudança climática até as pesquisas científicas, desde movimentos que se valem de financiamento e de repercussão na mídia, até a conscientização em escolas sobre o problema do lixo.
Por que pessoas que sabem perfeitamente do custo ambiental que é deixar lixo na praia, ainda assim desprezam o descarte correto?
Essa é uma questão ética, orientar suas ações pelo que é válido segundo um princípio da universalidade: vale para todos e eu, minha pessoa individualmente, faço parte dessa universalidade.
O antiético seria usar subterfúgios como "só hoje não", "por que vou fazer se outros não fazem?", "Eu jogo papel na rua e fico tranquilo pois sei que nem todos fazem", e assim por diante.
Não há desculpa possível pelo não conhecimento, pela não educação, pode-se dizer que toda a sociedade é esclarecida, alertada, ignorar não é mais desculpa hoje em dia. E isso sem mencionar as infrações de trânsito! Sinalizar é obrigatório, mas é relegado por muitos.
O outro lado da moeda são os princípios éticos desprezados pelo poder público, e os exemplos são múltiplos, escandalosos, notórios e, ainda assim, justificados ou mesmo negados.
Negar, ignorar, justificar, ou na linguagem popular, enrolar é fácil e uma das razões mais fortes é a das consequências desses atos antiéticos passar pela peneira da indiferença, e, claro, da impunidade. Alerta-se para essa última, mas passa-se por cima de algo impossível de punir e de avaliar. A indiferença, o dar de ombros, a falta de princípios éticos, ou seja, um grau de consciência do que é o bem geral e para cada indivíduo.
Vaidade e fama falam muito mais alto do que integridade e correção.
Uma ressalva, quando escrevi acima "esclarecida", não foi no sentido kantiano de plena autonomia e responsabilidade, agir como se cada ato pudesse se tornar exemplo para todos.
A falta de "esclarecimento" (Erklärung) parece ser estado permanente de nossa sociedade, mais grave em sociedades não democráticas.
Pelo lado sociológico, entram em cena os costumes e tradições de um povo, de uma cultura e de uma sociedade.
Pelo lado moral, entram em cena a educação recebida da família, da escola, dos credos religiosos, dos ensinamentos e exemplos de vida.
Pelo lado filosófico, entram em cena as bases de atos éticos diferentemente de ações e práticas que visam resultados imediatos. Ninguém faz perguntas sobre a ética de uma receita de bolo, mas pode e deve questionar sobre as intenções do confeiteiro ou da dona de casa (casos extremos como envenenar alguém, até os mais corriqueiros, como bajular o chefe de departamento...). Pode-se igualmente questionar eticamente o modo como os ingredientes foram produzidos (mais uma vez um caso extremo como o de trabalho escravo), transportados, embalados, comercializados (por exemplo, vender produtos com prazo de validade vencido).
Essas são questões éticas que envolvem a sociedade como um todo em especial a ética na política. Raros são os personagens íntegros, política e politicagem se confundem. Do lado da ética ambiental estão envolvidas desde a mudança climática até as pesquisas científicas, desde movimentos que se valem de financiamento e de repercussão na mídia, até a conscientização em escolas sobre o problema do lixo.
Por que pessoas que sabem perfeitamente do custo ambiental que é deixar lixo na praia, ainda assim desprezam o descarte correto?
Essa é uma questão ética, orientar suas ações pelo que é válido segundo um princípio da universalidade: vale para todos e eu, minha pessoa individualmente, faço parte dessa universalidade.
O antiético seria usar subterfúgios como "só hoje não", "por que vou fazer se outros não fazem?", "Eu jogo papel na rua e fico tranquilo pois sei que nem todos fazem", e assim por diante.
Não há desculpa possível pelo não conhecimento, pela não educação, pode-se dizer que toda a sociedade é esclarecida, alertada, ignorar não é mais desculpa hoje em dia. E isso sem mencionar as infrações de trânsito! Sinalizar é obrigatório, mas é relegado por muitos.
O outro lado da moeda são os princípios éticos desprezados pelo poder público, e os exemplos são múltiplos, escandalosos, notórios e, ainda assim, justificados ou mesmo negados.
Negar, ignorar, justificar, ou na linguagem popular, enrolar é fácil e uma das razões mais fortes é a das consequências desses atos antiéticos passar pela peneira da indiferença, e, claro, da impunidade. Alerta-se para essa última, mas passa-se por cima de algo impossível de punir e de avaliar. A indiferença, o dar de ombros, a falta de princípios éticos, ou seja, um grau de consciência do que é o bem geral e para cada indivíduo.
Vaidade e fama falam muito mais alto do que integridade e correção.
Uma ressalva, quando escrevi acima "esclarecida", não foi no sentido kantiano de plena autonomia e responsabilidade, agir como se cada ato pudesse se tornar exemplo para todos.
A falta de "esclarecimento" (Erklärung) parece ser estado permanente de nossa sociedade, mais grave em sociedades não democráticas.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Qual o sentido da Filosofia?
Recentemente publiquei livro sobre 15 filósofos, os que considero essenciais mesmo sabendo que nem todos concordarão com a lista.
É uma publicação de Minha Editora, selo da Editora Manole, Barueri, São Paulo, 2020.
Considero que o livro é uma súmula de meus estudos e reflexões, e tudo começou com a conversa com um aluno, Claúdio (PUC PR), sobre por que filósofos não morrem, como eles ainda hoje iluminam nossas vidas e dão a ela sentido.
Na postagem de hoje escolhi trechos sobre a especificidade da Filosofia, cito as páginas 14, 15 e 16:
É uma publicação de Minha Editora, selo da Editora Manole, Barueri, São Paulo, 2020.
Considero que o livro é uma súmula de meus estudos e reflexões, e tudo começou com a conversa com um aluno, Claúdio (PUC PR), sobre por que filósofos não morrem, como eles ainda hoje iluminam nossas vidas e dão a ela sentido.
Na postagem de hoje escolhi trechos sobre a especificidade da Filosofia, cito as páginas 14, 15 e 16:
"A indagação filosófica começou no século VI a.C. e aos poucos foi se
distinguindo do mito. O mito é uma narrativa que nasce do imaginário de uma
cultura, ao passo que a filosofia nasce da razão, da busca de razões.
Ela se distingue também do senso comum, que é o guia prático da conduta cotidiana,
nele estão embutidas certezas e noções aceitas a partir de uma tradição e de
costumes. O senso comum atende expectativas de nosso comportamento e auxilia a
resolver problemas habituais. Ele funciona como guia prático que raramente
precisa de justificação ou explicação. Ao passo que filosofar é esclarecer,
justificar, dar razões.
Por vezes, encontra-se a definição de Filosofia como ciência, mas não cabe
no campo filosófico realizar testes e experiências. A ciência descreve, explica
como se dão fatos e fenômenos, nas áreas das ciências exatas, das ciências naturais
e das ciências humanas. Nelas se empregam teorias e experimentos para explicar
de modo objetivo algo da realidade, constatar fatos e aplicar os resultados,
por exemplo, em tecnologia, em saúde, em soluções ambientais.
A ciência se renova a cada teoria, a visão do cosmo de Aristóteles, por
exemplo, foi superada pela de Galileu, mas o que Aristóteles escreveu sobre a
causa dos seres, é pura reflexão filosófica, não está ultrapassado. Em Filosofia
não há essa evolução e ultrapassagem: é como se todos os filósofos estivessem vivos.
Outras vezes se confunde Filosofia com ideologia. Mas enquanto as ideologias são representações sociais e
políticas, de natureza compromissória, engajadas em um tipo de luta ou de
ideário, a Filosofia requer liberdade de pensamento. Por vezes, as ideologias
massificam o pensar, exigem que seus partidários obedeçam a um líder, seus
princípios são doutrinários, inquestionáveis. Já o filosofar pode ser até mesmo
uma crítica às ideologias. Os partidários de ideologias, como o nome indica,
seguem um ideário político ou partidário sem contestação. Uma ideologia pode
ser inculcada, um modo filosófico de pensar, jamais pode ser inculcado. O ensino de Filosofia não é doutrinação
política ou partidária. Se os ensinamentos filosóficos forem rígidos e
direcionados, se forem doutrinários, a filosofia morre; se a Filosofia se
tornar uma disciplina como as outras, com conteúdo pescado em manuais de baixa
qualidade, morre também.
Há
também quem considere Filosofia como saber superior, que chega à verdade, e
seria capaz de julgar todas as ideologias e afirmar qual é a correta. Isso não
é possível, pois o filósofo não detém a verdade última. Seu papel é o de
colaborar com todos os saberes. Evita-se assim o dogmatismo, isto é, achar que há uma razão soberana e fundadora,
que há formas racionais que se impõem de cima para baixo. Como os conceitos
nascem de uma cultura e de uma história, a tarefa filosófica é a de pensar a
diversidade das culturas em colaboração com a arte, a moral, o direito, as
ciências.
Nesse
sentido, a Filosofia é a mediadora entre os saberes. Impor um saber totalizador
e único, que sistematize toda a realidade de modo certo e indubitável conduz à
intolerância, condena à morte a reflexão filosófica.
Muito
se fala hoje de “consciência crítica”. Ora, ensinar e aprender Filosofia vai
muito além de proporcionar consciência crítica e cidadã, mesmo porque todas as
disciplinas têm essa obrigação. A especificidade da Filosofia vem de um trabalho
rigoroso com conceitos, é um mergulho na riqueza e na complexidade do
pensamento, alarga e esclarece esses conceitos, reflete sobre seu sentido,
enfim, exercita o pensamento. Não basta expor um tema e depois verificar ou
avaliar se os alunos aprenderam. O uso
do raciocínio de tipo reflexivo, indagador, questionador, integra e proporciona
comunidades de discussão. Desse modo, exerce-se a pedagogia da integração, do
diálogo, da autonomia, da liberdade e do rigor do pensamento."
Assinar:
Postagens (Atom)




