Para Aristóteles:
Dois tipos de virtudes: intelectuais, decorrentes da educação, é preciso cultivar a sabedoria prática e a intelectual, como se vê, para ele a discussão sobre se educar é mais algo técnico ou teórico não faz sentido. É preciso ambas, e a elas se acrescentam as virtudes éticas, levar uma vida com prudência, equilíbrio, adquirir bons hábitos, sendo a regra principal a do justo meio, a temperança ou moderação, e isso não é fácil. Agir com raiva e pelo impulso do momento, e o que hoje se vê: gastar demais, xingar nas redes sociais, exibir suas vaidades e conquistas efêmeras, se comeu isso ou aquilo em qual restaurante, e mandar o tempo todo aqueles conselhos banais só para mostrar serviço. Quanta mensagem vazia e sem sentido...
Para Sto Agostinho, o livre arbítrio e a boa vontade são essenciais. Quer dizer, usar seu próprio discernimento, parar para pensar e decidir conforme sua consciência. Para os cristãos, a partir dos 7 anos a criança se torna capaz de saber o que está fazendo, portanto, deve e pode ser responsabilizada pelos seus atos, e com isso ganhará confiança em si, mais autonomia. E que dizer da boa vontade? Para Agostinho, é o maior dos bens, porque depende apenas da pessoa, não requer riqueza e nem poder, e mesmo se vier a perder cargos e poder, lhe resta esse bem, ninguém pode tirar de ninguém a boa vontade. Mas como obter esse dom? Por meio de ensinamentos, pela prática das virtudes, desejar o bem, saber que dificuldades sempre existirão e que enfrentá-las com boa vontade, quer dizer, com ânimo superior, com iluminação interior, a vida seguirá seu curso.
Para Descartes, esse "olho interior" também importa. O exame de si, de seus atos, de suas possibilidades é que abre caminhos. Mas temos desejos, ambições, competimos, precisamos sobreviver. O que Descarte diria quanto a essa corrida desabalada? Modifique seus desejos e não a ordem do mundo! E ainda com uma dose de dúvida, que desconstrói para reconstruir mais adiante. Examine suas opiniões e crenças, suas preferências e com muito zelo e cuidado, examine suas paixões cegas, estar colado a certo partido, a certo líder, a certo "guia" que tudo sabe, e usar a suspeita, pôr na balança para substituir essas crenças arraigadas por atitudes amparadas pela razão e não pela emoção.
(Nas próximas postagens mais "conselhos filosóficos", que são de graça, como se diz popularmente)
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
domingo, 29 de setembro de 2019
O que é "significado" para Dewey?
No pensamento de Dewey (1859-1952) há uma convergência entre real e ideal, o que mostra ser o pragmatismo uma alternativa entre duas correntes que sempre se opuseram ao longo da História da Filosofia.
Para o idealismo platônico valem as ideias, como protótipos de todos os seres existentes. Para o realismo aristotélico valem as substâncias, quer dizer, os entes com sua essência e suas determinações.
Essas duas correntes influenciaram diversos filósofos, até que Kant mostrou ser impossível atingir a essência mesma sem que sínteses fossem feitas pelo nosso entendimento.
Mas Dewey propõe algo diferente de Kant, não a solução por sínteses a priori que requerem sempre formas puras do entendimento como tempo e espaço para situar o cognoscível, e sim uma aproximação entre o ideal e o real.
Os modelos ideais de Platão se concretizam nos projetos humanos que transformam a natureza, a sociedade e os nós próprios.
O real descolado de nossas ações não faz sentido algum. Assim, o que nos cerca tem um uso, passa por nossas determinações, pela ação inteligente, pelas experimentações. O filtro da realidade não são anteparos conceituais e formais, absolutos e imutáveis e sim a comunicação. A necessidade humana de comunicar faz com que as coisas saiam de seu estado externo que produz estímulos, para situações que requerem respostas, pois são revestidas pelas necessidades e usos. Os acontecimentos se tornam significativos, se tornam meios para a ação.
Não somos dotados de uma mente ao estilo cartesiano, de um cogito, como se o pensamento fosse uma energia espiritual e não algo ligado à realidade experimentada. Pensamentos são experimentações que combinam representações com significado. Para tal se usam signos em sentenças que se articulam por meio de recursos lógicos, como consequências, implicações, coordenações e todos esses recursos funcionam como instruções para a ação.
Pensamento é uso inteligente da experiência, impossível sem a linguagem, e esta impossível sem o aprendizado, sem a interação humana.
É em eventos, em situações e em contextos que objetos e coisas se tornam significantes. A linguagem não somente permite a comunicação e a interação humanas, ela vai além, a linguagem acresce a nossa interação com significados que enriquecem a ação.
O simples observar dos movimentos de um pássaro é sempre acrescido de algum sentido, estético, científico, pedagógico, simples fruição, etc. Tudo o que fazemos corriqueiramente com coisas e situações, são como mensagens que usufruímos e transmitimos, as coisas são "lidas" e não simplesmente percebidas como querem os realistas.
"A linguagem é uma forma de ação", diz Dewey. Sem ela viveríamos colados no mundo das coisas, somente afetados por elas. Com a linguagem julgamos, apreciamos, interpretamos, participamos, conservamos, enfim, nos tornamos seres comunicantes, agimos, experimentamos, transformamos a vida em algo compensador, em "uma sociedade digna de afeição, admiração e lealdade" (Dewey).
Para o idealismo platônico valem as ideias, como protótipos de todos os seres existentes. Para o realismo aristotélico valem as substâncias, quer dizer, os entes com sua essência e suas determinações.
Essas duas correntes influenciaram diversos filósofos, até que Kant mostrou ser impossível atingir a essência mesma sem que sínteses fossem feitas pelo nosso entendimento.
Mas Dewey propõe algo diferente de Kant, não a solução por sínteses a priori que requerem sempre formas puras do entendimento como tempo e espaço para situar o cognoscível, e sim uma aproximação entre o ideal e o real.
Os modelos ideais de Platão se concretizam nos projetos humanos que transformam a natureza, a sociedade e os nós próprios.
O real descolado de nossas ações não faz sentido algum. Assim, o que nos cerca tem um uso, passa por nossas determinações, pela ação inteligente, pelas experimentações. O filtro da realidade não são anteparos conceituais e formais, absolutos e imutáveis e sim a comunicação. A necessidade humana de comunicar faz com que as coisas saiam de seu estado externo que produz estímulos, para situações que requerem respostas, pois são revestidas pelas necessidades e usos. Os acontecimentos se tornam significativos, se tornam meios para a ação.
Não somos dotados de uma mente ao estilo cartesiano, de um cogito, como se o pensamento fosse uma energia espiritual e não algo ligado à realidade experimentada. Pensamentos são experimentações que combinam representações com significado. Para tal se usam signos em sentenças que se articulam por meio de recursos lógicos, como consequências, implicações, coordenações e todos esses recursos funcionam como instruções para a ação.
Pensamento é uso inteligente da experiência, impossível sem a linguagem, e esta impossível sem o aprendizado, sem a interação humana.
É em eventos, em situações e em contextos que objetos e coisas se tornam significantes. A linguagem não somente permite a comunicação e a interação humanas, ela vai além, a linguagem acresce a nossa interação com significados que enriquecem a ação.
O simples observar dos movimentos de um pássaro é sempre acrescido de algum sentido, estético, científico, pedagógico, simples fruição, etc. Tudo o que fazemos corriqueiramente com coisas e situações, são como mensagens que usufruímos e transmitimos, as coisas são "lidas" e não simplesmente percebidas como querem os realistas.
"A linguagem é uma forma de ação", diz Dewey. Sem ela viveríamos colados no mundo das coisas, somente afetados por elas. Com a linguagem julgamos, apreciamos, interpretamos, participamos, conservamos, enfim, nos tornamos seres comunicantes, agimos, experimentamos, transformamos a vida em algo compensador, em "uma sociedade digna de afeição, admiração e lealdade" (Dewey).
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Nietzsche: "Todos os filósofos até agora amaram suas verdades"
Que pensamento incrível e certeiro esse de Nietzsche!
E o que ele quis dizer?
Em toda a história da Filosofia, até ele Nietzsche, houve essa marca de vaidade e de considerar-se como único, verdadeiro e insubstituível pensador. Ora, como é possível que cada qual se considere mensageiro da verdade e os outros não? Seriam portadores de mentiras?!
Um olhar para o desfilar dos filósofos mostra que, por um lado, se o pensador não praticasse com seriedade sua doutrina e se não estivesse convencido de contribuir com um pensamento original, teria que calar-se. Por outro lado, se estivesse convencido de que só ele teria razão, deveríamos abandonar a história do pensamento filosófico Ocidental.
Como sair desse dilema?
E mais, o próprio Nietzsche seria uma alternativa para fazer a crítica e não cair na própria armadilha? É o que se chama em filosofia de "aporia", impossível afirmar algo sem destruir ao mesmo tempo o argumento.
O filósofo opina ou diz a verdade?!
Opiniões podem ser aceitas ou rebatidas, já a verdade seria única.
Não é bem assim. Opiniões não criam amarras, não comprometem, e a verdade compromete?
Acho que é por aí, há um compromisso com os argumentos, raciocínios, ideias, conceitos, noções e demais meios de que os filósofos dispõem para apresentar suas contribuições à crítica do pensamento.
Sempre que se tratar de criticar, de expor sem contradições os argumentos, o filósofo faz uso legítimo de suas ideias e conceitos.
Se ele tergiversa, se bloqueia o raciocínio, se cai em contradição e aporias, a missão filosófica perde sentido.
Esse é outro desses conceitos filosóficos que são essenciais, fazer sentido.
Faz sentido a afirmação de Nietzsche de que todos os filósofos são até ele vaidosos, que todos se pretendem verdadeiros. É isso que ele quer dizer, faça filosofia, isto é, seja um filósofo comprometido com a história, amar suas verdades leva a ignorar o quão pouco sabemos.
E isso não tem a ver com atitudes de humildade ao estilo do rebanho, ao rebaixamento, e sim com atitudes de serenidade, de alegria e satisfação de se saber produtor de ideias, renovador, inovador, aquele que abre caminhos sem exigir aplauso ou submissão.
Os ideólogos exigem adesão cega, seguir o chefe, aceitar (ou seria engolir) a doutrina.
A Filosofia permite respirar, inspirar, e ir adiante.
Fazer as perguntas que ampliem a crítica evita aceitar passivamente os instrutores, os ideólogos, os doutrinadores.
Kant dissera que é mais fácil segui-los, como na brincadeira infantil: "Tudo o que seu mestre mandar, faremos todos!".
E o que ele quis dizer?
Em toda a história da Filosofia, até ele Nietzsche, houve essa marca de vaidade e de considerar-se como único, verdadeiro e insubstituível pensador. Ora, como é possível que cada qual se considere mensageiro da verdade e os outros não? Seriam portadores de mentiras?!
Um olhar para o desfilar dos filósofos mostra que, por um lado, se o pensador não praticasse com seriedade sua doutrina e se não estivesse convencido de contribuir com um pensamento original, teria que calar-se. Por outro lado, se estivesse convencido de que só ele teria razão, deveríamos abandonar a história do pensamento filosófico Ocidental.
Como sair desse dilema?
E mais, o próprio Nietzsche seria uma alternativa para fazer a crítica e não cair na própria armadilha? É o que se chama em filosofia de "aporia", impossível afirmar algo sem destruir ao mesmo tempo o argumento.
O filósofo opina ou diz a verdade?!
Opiniões podem ser aceitas ou rebatidas, já a verdade seria única.
Não é bem assim. Opiniões não criam amarras, não comprometem, e a verdade compromete?
Acho que é por aí, há um compromisso com os argumentos, raciocínios, ideias, conceitos, noções e demais meios de que os filósofos dispõem para apresentar suas contribuições à crítica do pensamento.
Sempre que se tratar de criticar, de expor sem contradições os argumentos, o filósofo faz uso legítimo de suas ideias e conceitos.
Se ele tergiversa, se bloqueia o raciocínio, se cai em contradição e aporias, a missão filosófica perde sentido.
Esse é outro desses conceitos filosóficos que são essenciais, fazer sentido.
Faz sentido a afirmação de Nietzsche de que todos os filósofos são até ele vaidosos, que todos se pretendem verdadeiros. É isso que ele quer dizer, faça filosofia, isto é, seja um filósofo comprometido com a história, amar suas verdades leva a ignorar o quão pouco sabemos.
E isso não tem a ver com atitudes de humildade ao estilo do rebanho, ao rebaixamento, e sim com atitudes de serenidade, de alegria e satisfação de se saber produtor de ideias, renovador, inovador, aquele que abre caminhos sem exigir aplauso ou submissão.
Os ideólogos exigem adesão cega, seguir o chefe, aceitar (ou seria engolir) a doutrina.
A Filosofia permite respirar, inspirar, e ir adiante.
Fazer as perguntas que ampliem a crítica evita aceitar passivamente os instrutores, os ideólogos, os doutrinadores.
Kant dissera que é mais fácil segui-los, como na brincadeira infantil: "Tudo o que seu mestre mandar, faremos todos!".
sábado, 31 de agosto de 2019
A metafísica para Heidegger
Em Ser e Tempo e especialmente em Introdução à Metafísica, Heidegger introduz conceitos que renovam a metafísica. Ele não pertence ao rol dos filósofos pós-metafísicos, quer dizer, pensadores como Foucault, Rorty e Habermas.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
Para estes não há sentido em perguntar pelo "por que", pelas causas finais ou por algum tipo de fundamento geral ou origem de todas as coisas. Tudo é humano, finito e já começado na História da humanidade. Somos homens e mulheres com determinações sociais, culturais e histórias. Sem linguagem impossível pensar, mudar, compreender.
Heidegger não discordaria, somos seres imersos na história e com uma história, somos seres falantes e doadores de significado. Por quais razões não situá-lo entre os pós-metafísicos?
A metafísica culmina, segundo ele, em Nietzsche, o último metafísico. Se Nietzsche é o último, então Martin Heidegger não seria metafísico. A questão é, em que sentido?
Eterno retorno, vida, transvaloração de valores são o último suspiro da metafísica e ele, Heidegger pensa ser necessário recolocar a metafísica em outro patamar. Ele desce e se instala na História da Filosofia, num percurso que começa com os pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides para retraçar o caminhar do Ser.
Mudança, permanência, ideia, essência, substância, acidente, ato e potência, infinito, cogito, fenômeno e noumenon, razão -, é possível reconhecer a qual sistema filosófico, de qual metafísico se trata.
E o que mostra essa história do Ser?
Para Heidegger nós somos os construtores dessa história, somos aqueles que abriram a clareira para o ente Ser isso ou aquilo, mais recentemente, fenômeno e existência.
O que para certas escolas filosóficas, caso do neopositivismo de Carnap é um palavreado sem sentido, como a frase de Heidegger "o nada nadifica", para o próprio são manifestações de nossa linguagem que abriga o ser, o ente que somos nós, finitos, falantes, determinados pela História e desenvolvedores de sentido.
Qual o sentido que damos em nossa cultura e civilização?
A pergunta seria antes, qual sentido retiramos do Ser em nossa cultura e civilização?
Escondemos o ser no manto da técnica, civilização do esquecimento do ser, com uso amplo da técnica, inclusive para destruir a natureza.
Não que tenhamos que voltar a alguma pureza primitiva, e sim que os entes se tornaram coisas usáveis e nós, os pastores do ser, os doadores de sentido por meio da poesia, chegamos igualmente a esse nível, o da guerra nuclear, o da devastação, e se Heidegger testemunhasse o que acontece hoje, se visse uma cidade com trânsito engarrafado e perigo em cada esquina, diria, para onde foi o cuidado, os homens se comunicam apenas por palavrório, cadê a autenticidade?
A montanha virou obstáculo a ser vencido com túneis, os que nela sobem são os que querem conquistar o topo, pagam para isso.
Nossa metafísica, a da proteção do ser, seria aquela em que nós entes humanos, os seres-para-a-morte, galgassem os cumes para contemplar, para abrigar pela palavra o Ser.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Wittgenstein: "Se um leão pudesse falar, nós não o compreenderíamos"
A afirmação acima se encontra em "Investigações Filosóficas", cujo tema principal é o sem número de jogos de linguagem por meio dos quais nos servimos para diferentes e diversos usos.
Em parágrafos numerados, Wittgenstein (1889-1951)
expõe vários exemplos de situações corriqueiras, como pedir algo a alguém, explicar, mostrar, ordenar, descrever, saber disso ou daquilo, representar por meio de figuras, interpretar, ver algo como isso ou aquilo, apontar, distinguir mudanças de aspecto e muitos outros usos da linguagem.
O que ele pretende com essas descrições é trazer questões filosóficas do patamar abstrato e superior, para o normal do dia a dia. Os conceitos de consciência, de imagem, de sensações, de vivências, de clareza, de certeza, de verdade, de espírito entre muitos outros, são dissolvidos em sua complexidade por meio do emprego em questão, por meio das situações nos quais ocorrem.
A linguagem descreve uma imagem, o que fazer com essa imagem?
A própria imagem indica um emprego, evocará um sentimento? Um sabor? Uma cor? Um sonho?
Alguém diz "Tenho medo", e isso pode ser entendido como uma confissão, um alerta, que se deve tomar cuidado, enfim, para a compreensão do significado de um jogo de linguagem importa o que se quer dizer, a ocasião, a intenção, o resultado, e tantas outras situações, como enganar alguém, manipular, ou simplesmente esclarecer um sentido.
Por isso mesmo, se um leão pudesse falar não o compreenderíamos, esse exemplo é uma hipótese absurda que serve apenas para ilustrar o que Wittgenstein propõe como objeto de sua análise filosófica, isto é, investigar nossas formas de vida e concluir a partir de aspectos que dão inteligibilidade às nossas ações, entre elas as ações linguísticas. Nossas formas de vida são radicalmente humanas, e não leoninas. Dizemos que o leão ataca, mas isso é na nossa perspectiva...
O que construímos, como o fazemos, nossa vida cotidiana, os atos corriqueiros são o objeto de análise do filósofo.
Ao invés de penetrar na reflexão filosófica do que é mesmo a verdade, por exemplo, Wittgenstein vai às situações em que precisamos usar o termo. E o mesmo com os vários conceitos filosóficos.
E com essa virada em direção à linguagem cotidiana, Wittgenstein não estaria "menosprezando" a Filosofia?!
Filósofos como Habermas pensam que sim. Afinal, reduzir verdade, pensamento, justificação às situações em que ocorrem em nossas vidas, seria o mesmo que reduzir a Filosofia ao senso comum.
O que Wittgenstein responderia?
O que interessa é o que podemos fazer com a linguagem. Essa virada pragmática horizontaliza as questões e nos deixaria como que aliviados do peso de ter que investigar a fundo o que são mesmo as coisas, o que é mesmo o homem, o que é mesmo o conhecimento, e assim por diante.
Essa "terapia filosófica" não convenceria outro filósofo da atualidade, Heidegger. O homem, mesmo quando considerados os aspectos mais simples de sua existência, ainda assim é o "pastor do ser".
O importante é que essa troca de ideias dos filósofos nos faz entender que nenhum pensador é completo, nenhuma perspectiva filosófica é única, o diálogo entre saberes permanece como o ensinamento por excelência da História da Filosofia.
Em parágrafos numerados, Wittgenstein (1889-1951)
O que ele pretende com essas descrições é trazer questões filosóficas do patamar abstrato e superior, para o normal do dia a dia. Os conceitos de consciência, de imagem, de sensações, de vivências, de clareza, de certeza, de verdade, de espírito entre muitos outros, são dissolvidos em sua complexidade por meio do emprego em questão, por meio das situações nos quais ocorrem.
A linguagem descreve uma imagem, o que fazer com essa imagem?
A própria imagem indica um emprego, evocará um sentimento? Um sabor? Uma cor? Um sonho?
Alguém diz "Tenho medo", e isso pode ser entendido como uma confissão, um alerta, que se deve tomar cuidado, enfim, para a compreensão do significado de um jogo de linguagem importa o que se quer dizer, a ocasião, a intenção, o resultado, e tantas outras situações, como enganar alguém, manipular, ou simplesmente esclarecer um sentido.
Por isso mesmo, se um leão pudesse falar não o compreenderíamos, esse exemplo é uma hipótese absurda que serve apenas para ilustrar o que Wittgenstein propõe como objeto de sua análise filosófica, isto é, investigar nossas formas de vida e concluir a partir de aspectos que dão inteligibilidade às nossas ações, entre elas as ações linguísticas. Nossas formas de vida são radicalmente humanas, e não leoninas. Dizemos que o leão ataca, mas isso é na nossa perspectiva...
O refúgio de Wittgenstein em uma cabana nos fiordes da Noruega.
Viver simples, pensar simples
O que construímos, como o fazemos, nossa vida cotidiana, os atos corriqueiros são o objeto de análise do filósofo.
Ao invés de penetrar na reflexão filosófica do que é mesmo a verdade, por exemplo, Wittgenstein vai às situações em que precisamos usar o termo. E o mesmo com os vários conceitos filosóficos.
E com essa virada em direção à linguagem cotidiana, Wittgenstein não estaria "menosprezando" a Filosofia?!
Filósofos como Habermas pensam que sim. Afinal, reduzir verdade, pensamento, justificação às situações em que ocorrem em nossas vidas, seria o mesmo que reduzir a Filosofia ao senso comum.
O que Wittgenstein responderia?
O que interessa é o que podemos fazer com a linguagem. Essa virada pragmática horizontaliza as questões e nos deixaria como que aliviados do peso de ter que investigar a fundo o que são mesmo as coisas, o que é mesmo o homem, o que é mesmo o conhecimento, e assim por diante.
Essa "terapia filosófica" não convenceria outro filósofo da atualidade, Heidegger. O homem, mesmo quando considerados os aspectos mais simples de sua existência, ainda assim é o "pastor do ser".
O importante é que essa troca de ideias dos filósofos nos faz entender que nenhum pensador é completo, nenhuma perspectiva filosófica é única, o diálogo entre saberes permanece como o ensinamento por excelência da História da Filosofia.
terça-feira, 16 de julho de 2019
Nietzsche: "Quem não é ave não deve voar sobre abismos"
A frase acima significa que os fortes, apenas eles, ousam voar tal como aves sobre abismos.
Muitas metáforas de Nietzsche servem para que vejamos a condição humana assemelhada à dos nobres animais (leão, ave de rapina), e quase sempre na "paisagem" predileta do filósofo: as alturas, os abismos, o alegre meio-dia, a luz, a dança.
Se levarmos em conta a vida de Nietzsche de muito sofrimento físico, dores de cabeça alucinantes, paixões não correspondidas, ficamos até mesmo perplexos perante sua vasta produção intelectual e a mensagem original, única, que inverte valores aos quais a tradição filosófica nos habituou.
Vontade de poder nada tem a ver com ambição, moral dos fortes nada tem a ver com luta pela sobrevivência, eterno retorno nada tem a ver com transmigração das almas, o ateísmo nada tem a ver com descrença.
A força da vida, desde seus elementos mais simples até nós, os humanos demasiadamente humanos, o não servilismo, a reinvenção de valores no sentido de evitar sentimentos como o de culpa, de pertença à massa, ao rebanho, ao pobrezinho humilde, trata-se, repito, de uma reinvenção que exige de si ir à luta.
E, novamente, não a das espadas, não a da busca do conforto material, não a dos bens. A luta é interior.
Que interior seria esse?
O interior socrático do conhece-te a ti mesmo, a iluminação da alma imortal, o interior do penso, logo existo de Descartes, ou trazendo mais para a atualidade, o inconsciente psicanalítico?
Não, nada desse tipo introspectivo e sim da força vital.
Cada qual se torna criador de seu ideal, revê seus valores, prescinde de guias espirituais, de gurus, prescinde do Estado diante do qual multidões se ajoelham, prescinde do poder econômico.
Entretanto, essas atitudes não excluem a visão do terrível, do absurdo.
A abundância da vida fortalece, imbuídos dessa vontade de poder, não há porque recorrer a um salvador, a um criador de todos os seres. Nós seríamos nossos próprios criadores!
Mensagem de difícil compreensão e de mais difícil ainda realização.
Estamos cada vez mais imersos na multidão, somos usados pelo obscurecimento de religiões de massa, de líderes políticos mistificadores, somos a curva dos gráficos, ingerimos por vezes o mais abjeto dos pratos. O que vem pronto, aquele no qual tivemos zero de participação.
A moral dos senhores seria algo próximo ao sentido dado à própria existência, ou melhor, à vida. Substancial, serena, criadora.
Muitas metáforas de Nietzsche servem para que vejamos a condição humana assemelhada à dos nobres animais (leão, ave de rapina), e quase sempre na "paisagem" predileta do filósofo: as alturas, os abismos, o alegre meio-dia, a luz, a dança.
Se levarmos em conta a vida de Nietzsche de muito sofrimento físico, dores de cabeça alucinantes, paixões não correspondidas, ficamos até mesmo perplexos perante sua vasta produção intelectual e a mensagem original, única, que inverte valores aos quais a tradição filosófica nos habituou.
Quarto de Nietzsche em Sils-Maria (Suíça)
Vontade de poder nada tem a ver com ambição, moral dos fortes nada tem a ver com luta pela sobrevivência, eterno retorno nada tem a ver com transmigração das almas, o ateísmo nada tem a ver com descrença.
A força da vida, desde seus elementos mais simples até nós, os humanos demasiadamente humanos, o não servilismo, a reinvenção de valores no sentido de evitar sentimentos como o de culpa, de pertença à massa, ao rebanho, ao pobrezinho humilde, trata-se, repito, de uma reinvenção que exige de si ir à luta.
E, novamente, não a das espadas, não a da busca do conforto material, não a dos bens. A luta é interior.
Que interior seria esse?
O interior socrático do conhece-te a ti mesmo, a iluminação da alma imortal, o interior do penso, logo existo de Descartes, ou trazendo mais para a atualidade, o inconsciente psicanalítico?
Não, nada desse tipo introspectivo e sim da força vital.
Cada qual se torna criador de seu ideal, revê seus valores, prescinde de guias espirituais, de gurus, prescinde do Estado diante do qual multidões se ajoelham, prescinde do poder econômico.
Entretanto, essas atitudes não excluem a visão do terrível, do absurdo.
A abundância da vida fortalece, imbuídos dessa vontade de poder, não há porque recorrer a um salvador, a um criador de todos os seres. Nós seríamos nossos próprios criadores!
Mensagem de difícil compreensão e de mais difícil ainda realização.
Estamos cada vez mais imersos na multidão, somos usados pelo obscurecimento de religiões de massa, de líderes políticos mistificadores, somos a curva dos gráficos, ingerimos por vezes o mais abjeto dos pratos. O que vem pronto, aquele no qual tivemos zero de participação.
A moral dos senhores seria algo próximo ao sentido dado à própria existência, ou melhor, à vida. Substancial, serena, criadora.
sábado, 6 de julho de 2019
O pensamento mágico
Quem não gostaria de ter seus problemas resolvidos em um passe de mágica?
No século 16 acreditava-se que realidade e magia eram inseparáveis. As coisas se comunicavam umas com as outras ao que chamavam de simpatia ou se repeliam, era a antipatia. Sem distinguir entre as diversidade dos seres, sem classificá-los, todos se enredavam uns nos outros.
Foi nessa época que despontou Francis Bacon, nascido na Inglaterra em 1561, onde morreu em 1626. A crença em espíritos voláteis, no fantástico, nas fábulas, lendas e na alquimia, conviviam com a necessidade de expansão do comércio e defesa da marinha inglesa. O que levou aos estudos da astronomia (não astrologia) em prol dos estudos mecânicos. Havia necessidade de orientar os navegadores e aprimorar a navegação. Ao mesmo tempo surgiam as primeiras máquinas usadas na manufatura de produtos. Assim, técnica e ciência uma impulsionou a outra.
Bacon, o pai da ciência moderna, aconselhava o método da indução, quer dizer, experiências diretas com a natureza para verificar o que se conservava e o que mudava, e controlar essas modificações anotando-as em tabelas. Em resumo, Bacon preconizou o uso de método, inaugurou assim um novo tipo de mentalidade. Se desde Platão, Aristóteles e todo o medievo as técnicas eram subalternas, ligadas ao trabalho útil mas menos valorizado, menos nobre, para Bacon as técnicas eram primordiais.
Quando há necessidade de uma longa série de razões, a maior parte dos homens desvia-se do caminho e erra por falta de um método correto, dizia ele.
A pergunta é:
Por que o pensamento mágico e supersticioso perdura?!
A imaginação, os desejos, o inconsciente, a fragilidade e a capacidade de crer no impossível talvez expliquem porque o pensamento mágico e fantástico têm lugar no mundo moderno. Se ficassem restritos à arte que cultiva a imaginação fantástica, isso seria interessante e serviria para expandir os horizontes da criatividade.
Mas não, o pensamento mágico se aloja no dia a dia, seja nas seitas que orientam pessoas e se deixarem picar por cobras, seja nos rincões com cultos animistas, seja expulsão de demônios e "espíritos do mal" por pastores aos quais se concede poder mágico, seja pela crença em exorcismo ou em videntes. E nem foram mencionadas várias outras modalidades de "passe mágico".
Ora, o lado espiritual da vida pode ser sustentado pela paz interior, pela iluminação que a fé proporciona. Nesse caso, a realidade não é anulada, pelo contrário, ela se reveste com as cores da luz interior.
Esse lado benéfico contraste com o lado em que espírito se torna algo ininteligível, é quando esse "espiritual" se reveste de superstição, pode ser estímulo para a fraqueza, para o uso espúrio do sofrimento humano por uma autoridade, por alguém que se investe do poder mágico de solucionar aquele sofrimento. Nesse caso, a razão, os argumentos, o olhar para a realidade é substituído pela submissão ao detentor dos segredos e dos ritos.
O inexorável método racional, da técnica, da ciência, da tecnologia abriu seu caminho, segue até nossos dias. Com sucesso e com falhas. Na maior parte das vezes o êxito tem sido superior aos fracassos. E assim prossegue a marcha humana, esse formigueiro de gente que habita o planeta azul.
No século 16 acreditava-se que realidade e magia eram inseparáveis. As coisas se comunicavam umas com as outras ao que chamavam de simpatia ou se repeliam, era a antipatia. Sem distinguir entre as diversidade dos seres, sem classificá-los, todos se enredavam uns nos outros.
Foi nessa época que despontou Francis Bacon, nascido na Inglaterra em 1561, onde morreu em 1626. A crença em espíritos voláteis, no fantástico, nas fábulas, lendas e na alquimia, conviviam com a necessidade de expansão do comércio e defesa da marinha inglesa. O que levou aos estudos da astronomia (não astrologia) em prol dos estudos mecânicos. Havia necessidade de orientar os navegadores e aprimorar a navegação. Ao mesmo tempo surgiam as primeiras máquinas usadas na manufatura de produtos. Assim, técnica e ciência uma impulsionou a outra.
Bacon, o pai da ciência moderna, aconselhava o método da indução, quer dizer, experiências diretas com a natureza para verificar o que se conservava e o que mudava, e controlar essas modificações anotando-as em tabelas. Em resumo, Bacon preconizou o uso de método, inaugurou assim um novo tipo de mentalidade. Se desde Platão, Aristóteles e todo o medievo as técnicas eram subalternas, ligadas ao trabalho útil mas menos valorizado, menos nobre, para Bacon as técnicas eram primordiais.
Quando há necessidade de uma longa série de razões, a maior parte dos homens desvia-se do caminho e erra por falta de um método correto, dizia ele.
Manufatura de tecidos
E na modernidade? Prevalece o caminho da razão, da justificação, enfim, são adotados métodos e procedimentos racionais, ou não teríamos chegado ao estágio de desenvolvimento a que chegamos. Para fins por vezes antagônicos, como para preservar e favorecer a vida, ou para destruí-la. Isso é bem sabido, notório.A pergunta é:
Por que o pensamento mágico e supersticioso perdura?!
A imaginação, os desejos, o inconsciente, a fragilidade e a capacidade de crer no impossível talvez expliquem porque o pensamento mágico e fantástico têm lugar no mundo moderno. Se ficassem restritos à arte que cultiva a imaginação fantástica, isso seria interessante e serviria para expandir os horizontes da criatividade.
Mas não, o pensamento mágico se aloja no dia a dia, seja nas seitas que orientam pessoas e se deixarem picar por cobras, seja nos rincões com cultos animistas, seja expulsão de demônios e "espíritos do mal" por pastores aos quais se concede poder mágico, seja pela crença em exorcismo ou em videntes. E nem foram mencionadas várias outras modalidades de "passe mágico".
Ora, o lado espiritual da vida pode ser sustentado pela paz interior, pela iluminação que a fé proporciona. Nesse caso, a realidade não é anulada, pelo contrário, ela se reveste com as cores da luz interior.
Esse lado benéfico contraste com o lado em que espírito se torna algo ininteligível, é quando esse "espiritual" se reveste de superstição, pode ser estímulo para a fraqueza, para o uso espúrio do sofrimento humano por uma autoridade, por alguém que se investe do poder mágico de solucionar aquele sofrimento. Nesse caso, a razão, os argumentos, o olhar para a realidade é substituído pela submissão ao detentor dos segredos e dos ritos.
O inexorável método racional, da técnica, da ciência, da tecnologia abriu seu caminho, segue até nossos dias. Com sucesso e com falhas. Na maior parte das vezes o êxito tem sido superior aos fracassos. E assim prossegue a marcha humana, esse formigueiro de gente que habita o planeta azul.
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