Muito se comenta sobre o contraste entre movimentos de afirmação, como a "Parada Gay", que levam multidões às ruas no Brasil, e os protestos contra a corrupção, que arregimentam pouca gente.
Há uma diferença conceitual entre os dois tipos de protesto, sobre a qual pouco ou nada se diz. No primeiro há diversão, alegria.
No segundo desilusão e tristeza.
Simpatizantes dos movimentos pelo direito de expor publicamente sua opção sexual saem em grande número também (não só pela diversão), pela liberação de algo que foi proibido e excluído. O efeito é semelhante ao do carnaval, liberar o que é censurado ou proibido.
Motivos para protestar contra a corrupção não faltam. Mas para mobilizar é preciso uma agenda mais afirmativa e premente. E as razões desse aparente imobilismo talvez não sejam a alienação política, o conformismo e nem o entorpecimento ético.
Passeatas contra a ditadura nas décadas de 60/70 eram duramente reprimidas, mas o forte motivo de combater a ditadura levava multidões às ruas ("Diretas Já").
Mal governos democráticos se instalaram, e cedo a esperança de que fossem honestos e representassem o interesse da nação foi solapada. E justamente pelo partido que se dizia ético, o PT...
Assim, há uma dose compreensível de ceticismo. Parlamentares, com as honrosas exceções de sempre, buscam favorecer interesses ilegítimos, o ex-presidente compactuou com a corrupção, até mesmo a tornou aceita, oficializada pela não punição. Lula não disfarça, considera que governar implica em usar de qualquer meio, mesmo os ilícitos, para atingir o fim: décadas no poder, usufruindo pessoalmente desse poder. Não entende que esse poder é público!
As pessoas se desanimam diante desse quadro político de desfaçatez escancarada! E pensam: adianta sair às ruas? Protestar contra a corrupção dá resultado ou você se sente um palhaço, que, além de tudo é obrigado a votar?
Dos ovos da serpente nascem o apego pelo poder que favorece benesses pessoais e alimenta os cofres partidários, o da vez, é o PCdoB.
Esses políticos pensam, refletem, estão conscientes minimamente de que foram eleitos para um cargo público?
Claro que não!
Pessoas que pensam, refletem, enfim, filosofam, não cometem injustiça. A prática filosófica, expor razões no espaço público, ao público, isto é, aos eleitores, é incompatível com a injustiça.
Por isso se diz que é impossível filosofar sem ser justo.
Portanto, os políticos desonestos e corruptos são, além de tudo, estúpidos no pior sentido da palavra: sem educação, sem ética, sem postura pública, não merecem o cargo que ocupam!
Ora, justamente os mandatários deveriam ser os mais dignos, pessoas excelentes em caráter e em disposição para governar a todos, com justiça, como escreveu Platão:
Nossa política, a política verdadeiramente conforme à natureza, jamais consentiria em constituir uma cidade formada de bons e maus. Ao contrário, começaria por [...] confiá-los a educadores competentes e habilitados para esse serviço. [...] É somente entre caracteres em que a nobreza é inata e mantida pela educação que as leis poderão criar este laço.
Platão se referia ao político e ao sábio legislador, eles são capazes de criar a tessitura social, com sua alma penetrada de verdade, aberta às ideias de justiça.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
O empreendedor e o caminhante: para celebrar o dia das crianças
Até para crianças as escolas, em geral as particulares, treinam para que elas sejam futuras empreendedoras. Quer dizer, aptas para vencer no mundo dos negócios, há que saber organizar, planejar, investir em uma carreira, como se diz, "sólida", leia-se "lucrativa".
Certamente escolas formam em dois sentidos, o da pessoa e seus valores, seus projetos, sua realização; e no sentido profissional, a necessidade de uma habilidade, seguir uma vocação, aliar seu sustento com o prazer de trabalhar, de exercer uma atividade compensadora.
Houve, portanto, um desvio da função educacional, para um objetivo estratégico. No mundo dos negócios é preciso usar técnicas vencedoras de empreendedorismo. E isso foi projetado para o universo infantil: dá-se excessivo valor à capacidade da criança de iniciativa, de jogar e vencer, desenvolver uma capacidade no sentido de expertise, uma logística, um cálculo.
Mas, se não houver lugar para a reflexão e para questões como gosto pessoal, fruição da vida, a pergunta essencial sobre o sentido do que se faz, e mesmo sobre a relevância e o valor das escolhas éticas e profissionais, não há por acaso o risco de transformar as crianças em adultos que agem enquanto executivos, gerentes, negociadores?
No fim da vida, mais calmo, escreve sobre a natureza, seus devaneios, seus passeios, despreocupado, reconciliado, talvez feliz. Em Devaneios de um Caminhante Solitário Rousseau mostra que a vida pode ser simples, poética, que é agradável e prazeroso caminhar, contemplar, deitar-se na relva, olhar o céu e perder-se no azul imenso.
As crianças precisam disso: que lhes seja ensinado contemplar, ter paciência, caminhar, passear. E também ler, aprender e saber usufruir disso. Atividades que não exigem nada em troca, sem obrigação alguma.
Tout est dans un flux continuel sur la terre : rien n'y garde une forme constante et arrêtée, et nos affections qui s'attachent aux choses extérieures passent et changent nécessairement comme elles. Toujours en avant ou en arrière de nous, elles rappellent le passé qui n'est plus ou préviennent l'avenir qui souvent ne doit point être : il n'y a rien là de solide à quoi le coeur se puisse attacher. Aussi n'a-t-on guère ici-bas que du plaisir qui passe ; pour le bonheur qui dure je doute qu'il y soit connu. A peine est-il dans nos plus vives jouissances un instant où le coeur puisse véritablement nous dire : Je voudrais que cet instant durât toujours ; et comment peut-on appeler bonheur un état fugitif qui nous laisse encore le coeur inquiet et vide, qui nous fait regretter quelque chose avant, ou désirer encore quelque chose après ?
Arrisco traduzir essas reflexões do caminhante:
"Tudo está em fluxo contínuo sobre a terra: nada retém uma forma constante e parada, e nossas afecções que se ligam às coisas exteriores passam e mudam necessariamente com elas. Sempre antes ou atrás de nós, elas nos lembram o passado que não é mais ou preveem o futuro que no mais das vezes não deverá ser: nada há nisso de sólido com que o coração possa criar laço. Do mesmo modo temos aqui embaixo tão somente o prazer que passa; quanto à felicidade que dura, duvido que ela seja conhecida. Pelo menos haveria em nossos mais vívidos prazeres um instante em que o coração pudesse verdadeiramente nos dizer: Eu gostaria que este instante durasse sempre; e como se poderia chamar felicidade um estado fugidio que nos deixa ainda o coração inquieto e vazio, que nos faz lamentar um acontecimento passado ou desejar ainda algo depois?" (Rousseau, 5e. Promenade).
Certamente escolas formam em dois sentidos, o da pessoa e seus valores, seus projetos, sua realização; e no sentido profissional, a necessidade de uma habilidade, seguir uma vocação, aliar seu sustento com o prazer de trabalhar, de exercer uma atividade compensadora.
Houve, portanto, um desvio da função educacional, para um objetivo estratégico. No mundo dos negócios é preciso usar técnicas vencedoras de empreendedorismo. E isso foi projetado para o universo infantil: dá-se excessivo valor à capacidade da criança de iniciativa, de jogar e vencer, desenvolver uma capacidade no sentido de expertise, uma logística, um cálculo.
Mas, se não houver lugar para a reflexão e para questões como gosto pessoal, fruição da vida, a pergunta essencial sobre o sentido do que se faz, e mesmo sobre a relevância e o valor das escolhas éticas e profissionais, não há por acaso o risco de transformar as crianças em adultos que agem enquanto executivos, gerentes, negociadores?
***
Rousseau (1712-1778) foi péssimo marido e pai de família, pelo menos pelo ângulo da atualidade. A mãe morreu no parto. Na infância foi um leitor voraz, e quando adulto teve uma vida amorosa tumultuada. Escreveu sobre arte, política, educação infantil, romances; compôs peças musicais. Instável no trabalho e com suas finanças, um aventureiro, um romântico e, no fim da vida, sofreu com perturbações, mania de perseguição. Em sua autobiografia com mais de mil páginas, Confissões, revela os motivos mais profundos que o impulsionaram.No fim da vida, mais calmo, escreve sobre a natureza, seus devaneios, seus passeios, despreocupado, reconciliado, talvez feliz. Em Devaneios de um Caminhante Solitário Rousseau mostra que a vida pode ser simples, poética, que é agradável e prazeroso caminhar, contemplar, deitar-se na relva, olhar o céu e perder-se no azul imenso.
As crianças precisam disso: que lhes seja ensinado contemplar, ter paciência, caminhar, passear. E também ler, aprender e saber usufruir disso. Atividades que não exigem nada em troca, sem obrigação alguma.
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Escreve Rousseau em Promenades:Tout est dans un flux continuel sur la terre : rien n'y garde une forme constante et arrêtée, et nos affections qui s'attachent aux choses extérieures passent et changent nécessairement comme elles. Toujours en avant ou en arrière de nous, elles rappellent le passé qui n'est plus ou préviennent l'avenir qui souvent ne doit point être : il n'y a rien là de solide à quoi le coeur se puisse attacher. Aussi n'a-t-on guère ici-bas que du plaisir qui passe ; pour le bonheur qui dure je doute qu'il y soit connu. A peine est-il dans nos plus vives jouissances un instant où le coeur puisse véritablement nous dire : Je voudrais que cet instant durât toujours ; et comment peut-on appeler bonheur un état fugitif qui nous laisse encore le coeur inquiet et vide, qui nous fait regretter quelque chose avant, ou désirer encore quelque chose après ?
Arrisco traduzir essas reflexões do caminhante:
"Tudo está em fluxo contínuo sobre a terra: nada retém uma forma constante e parada, e nossas afecções que se ligam às coisas exteriores passam e mudam necessariamente com elas. Sempre antes ou atrás de nós, elas nos lembram o passado que não é mais ou preveem o futuro que no mais das vezes não deverá ser: nada há nisso de sólido com que o coração possa criar laço. Do mesmo modo temos aqui embaixo tão somente o prazer que passa; quanto à felicidade que dura, duvido que ela seja conhecida. Pelo menos haveria em nossos mais vívidos prazeres um instante em que o coração pudesse verdadeiramente nos dizer: Eu gostaria que este instante durasse sempre; e como se poderia chamar felicidade um estado fugidio que nos deixa ainda o coração inquieto e vazio, que nos faz lamentar um acontecimento passado ou desejar ainda algo depois?" (Rousseau, 5e. Promenade).
terça-feira, 4 de outubro de 2011
A noção de causalidade
Há povos e culturas nos quais está ausente a noção de causalidade, quer dizer, para esses povos não há como conceber que os acontecimentos fazem parte de uma história que muda e cujas mudanças são o estofo de nossas atividades. Buscar a causalidade implica reduzir tudo a uma suposta causa única para todo o universo, para todos os seres, o que leva igualmente a supor uma causa final para a qual todos os seres tendem, à qual todos se subordinam. (Exemplo na história da filosofia: Aristóteles e os conceitos de motor primeiro e causa final).
Povos indígenas que habitaram (e ainda habitam?) o Brasil, aborígenes australianos, tribos africanas, todos eles viviam um eterno presente, caçar, eventualmente plantar; mudavam suas choças em busca de água e alimento, cultuavam a natureza, endeusavam suas forças; esses povos não evoluíram, não transformaram seu modo de ser e nem de pensar. Repetem hábitos e usos de geração a geração.
O intrigante é que outros povos e culturas tiveram uma história, e nela a noção de causalidade era fundamental. Deuses egípcios, sumérios, gregos eram personagens de episódios longos nos quais eram narrados seus feitos heroicos, eles comandavam o destino humano. Essas culturas buscaram uma causa geral para explicar a geração do mundo, que aliviasse o sofrimento, que desse um sentido à existência, às emoções, às guerrras, às conquistas. (Exemplo: Zeus; narrativas: Ilíada, Odisseia)
A narração leva à necessidade de uma escrita que preserva a história e que funda, ao mesmo tempo, a noção de história e, com ela, a de que há uma causa primeira e um destino final.
Apenas em anos recentes e muito devido ao abalo no modo de pensar que tudo tem uma origem e um fim último, levou a poder dispensar a causalidade, o que permitiu compreender que as culturas sem história são parte da própria história da humanidade.
Vive-se hoje, na chamada modernidade, sob um novo padrão de interpretação da história: não é porque seres evoluem que se precisa pôr todos eles sob uma única causa. Quer dizer, estamos como que soltos no ar, desobrigados, um pouco ao modo dos povos primitivos, de buscar uma explicação sobre a origem primeira. Surgem novos conceitos: inconsciente, desconhecido, finitude; a análise se volta para os usos de signos, para a linguagem como detentora da doação de significado, para a criação humana de valores (leia-se: Hegel, Nietzsche, Freud, Wittgenstein, Foucault).
Povos indígenas que habitaram (e ainda habitam?) o Brasil, aborígenes australianos, tribos africanas, todos eles viviam um eterno presente, caçar, eventualmente plantar; mudavam suas choças em busca de água e alimento, cultuavam a natureza, endeusavam suas forças; esses povos não evoluíram, não transformaram seu modo de ser e nem de pensar. Repetem hábitos e usos de geração a geração.
O intrigante é que outros povos e culturas tiveram uma história, e nela a noção de causalidade era fundamental. Deuses egípcios, sumérios, gregos eram personagens de episódios longos nos quais eram narrados seus feitos heroicos, eles comandavam o destino humano. Essas culturas buscaram uma causa geral para explicar a geração do mundo, que aliviasse o sofrimento, que desse um sentido à existência, às emoções, às guerrras, às conquistas. (Exemplo: Zeus; narrativas: Ilíada, Odisseia)
A narração leva à necessidade de uma escrita que preserva a história e que funda, ao mesmo tempo, a noção de história e, com ela, a de que há uma causa primeira e um destino final.
Zeus no comando do destino para os gregos
Quando os aborígenes foram contactados pelos conquistadores da Austrália, o que eles viram foram povos coletores, ligados à terra, aos animais, sem escrita, sem história. Foram colonizados, era preciso convertê-los à cultura e crenças dos europeus, à força; assim foram quase completamente dizimados.Restam 1% dos aborígenes australianos
Apenas em anos recentes e muito devido ao abalo no modo de pensar que tudo tem uma origem e um fim último, levou a poder dispensar a causalidade, o que permitiu compreender que as culturas sem história são parte da própria história da humanidade.
Vive-se hoje, na chamada modernidade, sob um novo padrão de interpretação da história: não é porque seres evoluem que se precisa pôr todos eles sob uma única causa. Quer dizer, estamos como que soltos no ar, desobrigados, um pouco ao modo dos povos primitivos, de buscar uma explicação sobre a origem primeira. Surgem novos conceitos: inconsciente, desconhecido, finitude; a análise se volta para os usos de signos, para a linguagem como detentora da doação de significado, para a criação humana de valores (leia-se: Hegel, Nietzsche, Freud, Wittgenstein, Foucault).
O divã de Freud: somos sujeitados ao que não conhecemos, o inconsciente
Sem a obrigação de impor crenças e sem a autoridade absoluta de reis, não só podemos compreender nossa história dentro de uma perspectiva mais ampla, como também modificá-la, quem sabe um dia para melhor...
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Os vinhedos de Frederico II e o quarto de Van Gogh
Entre as mais vívidas impressões de um breve percurso recém feito a alguns países europeus, há duas que são contrastantes e marcantes. Ambas dão a pensar.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.
Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.
Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.
Frederico II, rei da Prússia (1717-1786) construiu um castelo para lazer onde passava muito de seu tempo, em Potsdam, arredores de Berlim. Entre jardins, estátuas de filósofos e de personagens mitológicos, o rei poliglota, que não se recusava a participar de batalhas e conquistou vastos territórios, ambicionava ser filósofo de estilo platônico, tendo por modelo Marco Aurélio. Foi amigo de Voltaire, a quem hospedou várias vezes e com o qual se correspondia. Flautista, amigo de grandes compositores, não casou, não teve descendentes, há rumores de que seria homossexual. Aberto, brilhante, tolerante, pregou a liberdade religiosa em tempo de dogmatismo. Permitiu que Kant publicassse em Berlim escritos sobre religião, que foram proibidos no resto da Europa.
Ao castelo ele deu o sugestivo nome de Sans Souci (Sem Problemas, em francês). Em estilo rococó, se chega a ele por uma enorme escadaria entremeada de vinhedos, que lá estão até hoje, mas sem produzir. Um sistema de calefação abrigava e ainda abriga as vinhas do frio de 15 a 20 graus abaixo de zero. No verão cada porta era aberta e vinhas e figueiras davam seus frutos.
Na outra ponta, o quarto de Van Gogh, a simplicidade, a austeridade, apenas o estritamente necessário. O museu a ele dedicado em Amsterdam realizou um detalhado e perfeito trabalho de restauração, e ali está o quarto, como também as botas, as flores, as paisagens, a tentativa de aproximar-se de um suposto gosto comum para vender as obras e poder sobreviver, primeiro em Paris, depois retira-se para o sul da França. Voluntariamente se interna, mas a solidão é demasiada.
Em uma das mais emocionantes cartas a seu irmão, Van Gogh escreveu: "Na natureza está tudo pronto para ser pintado, mas é preciso saber interpretar". Quer dizer, o real nada é sem a interpretação do artista, de seu traço, da pincelada, da cor.
Sem ser filósofo, Van Gogh foi mais e melhor filósofo do que muitos prestigiados acadêmicos.
***
É possível usar o fausto para promover a grandeza como fez Frederico II. É possível usar o simples para chegar ao essencial, como fez Van Gogh.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
A perda de referência nos princípios da educação no Brasil
Os índices internacionais mostram as insuficiências na educação básica e na formação profissionalizante brasileiras; mostram também as disparidades regionais e entre ensino público e privado. Inclusive disparidades entre escolas públicas. O ensino médio em escolas técnicas federais tem índice de qualidade bastante alto que rivaliza com países tradicionalmente fortes em educação de jovens.
De cada dez crianças que ingressam no ciclo básico, apenas três concluem o ensino médio!
Basta de índices, eles são bem conhecidos...
Despreparo dos professores, baixo salário, falta de condições físicas, e muitos outros problemas, são igualmente bem conhecidos, podem e devem urgentemente ser sanados.
Há um ponto em que poucos tocam, a formação de professores nos cursos de educação, nos de pedagogia, nas licenciaturas, e, de modo geral, o modo como esses cursos compreendem a função da educação e da formação no ensino fundamental e médio.
A filosofia da educação, quer dizer, os princípios que norteiam o ensino, sofre de uma doença que parece incurável: sua ideologização.
Tudo começou com uma luta justa e necessária contra a ditadura militar (anos sessenta), mas que se enrijeceu em doutrinas, bem ao gosto dos regimes totalitários. Educar passou a incluir obrigatoriamente a ideologia que supostamente combateria um tipo nocivo de educação imposto pelos militares. Ela favoreceria o trabalho, as profissões, a técnica, o que representava uma ameaça, a da intervenção de interesses do grande capital (americano, claro). Se não houvesse uma reação da esquerda dirigida pelo único pensar, o do marxismo, os alunos permaneceriam "alienados".
Infelizmente essa tem sido uma forte motivação por detrás das concepções de educação. A história, decretam esses pensadores, não passa de lutas de classes, a classe oprimida precisa tomar consciência dessa opressão e avançar para o socialismo.
Com um agravante: intelectuais e estudiosos da educação que não seguem essa cartilha ideológica "compactuam" com o capitalismo.
Estuda-se Gramsci, endeusa-se Adorno, cita-se Saviani e Chauí, condena-se a chamada "prática mercantil" (sic), a "desumanização produzida pelo capitalismo" (sic), como se nesse tipo de filosofia da esquerda houvesse solução para os problemas crônicos da educação, como se buscar qualidade no ensino fosse incompatível com o trabalho e a profissionalização.
Nessa "filosofia" há noções aceitas sem nenhum exame crítico, ela é cega para a história dos acontecimentos recentes como mundialização, como o crescente e poderoso capitalismo financeiro que invade fronteiras, os acelerados processos de industrialização que aos poucos cedem lugar à sociedade de informação.
Há necessidade de alta qualidade na educação para compreender e reagir a essas novidades.
Se alguém mencionar J. Dewey ou Anísio Teixeira, por exemplo, corre o risco de não ter seu trabalho ou sua proposta aceitos.
"Para Dewey o fim da educação é a vida progressiva, em constante ampliação...ela cresce à medida em que aumentamos o conteúdo de nossa experiência, alargando-lhe o sentido, enriquecendo-a com ideias novas, novas distinções e novas percepções...O mundo em que vivemos é essencialmente precário e indeterminado, mas o esforço humano conta como fator predominante no destino que esse mesmo mundo pode tomar. O homem refaz o mundo pelo seu esforço."
Quem diz isso é Anísio Teixeira e como ele há outros para inspirar uma urgente renovação na filosofia da educação que possa acompanhar mais de perto nossa época e dar condições para uma melhoria na educação, na formação e no preparo de nossos alunos.
De cada dez crianças que ingressam no ciclo básico, apenas três concluem o ensino médio!
Basta de índices, eles são bem conhecidos...
Despreparo dos professores, baixo salário, falta de condições físicas, e muitos outros problemas, são igualmente bem conhecidos, podem e devem urgentemente ser sanados.
Há um ponto em que poucos tocam, a formação de professores nos cursos de educação, nos de pedagogia, nas licenciaturas, e, de modo geral, o modo como esses cursos compreendem a função da educação e da formação no ensino fundamental e médio.
A filosofia da educação, quer dizer, os princípios que norteiam o ensino, sofre de uma doença que parece incurável: sua ideologização.
Tudo começou com uma luta justa e necessária contra a ditadura militar (anos sessenta), mas que se enrijeceu em doutrinas, bem ao gosto dos regimes totalitários. Educar passou a incluir obrigatoriamente a ideologia que supostamente combateria um tipo nocivo de educação imposto pelos militares. Ela favoreceria o trabalho, as profissões, a técnica, o que representava uma ameaça, a da intervenção de interesses do grande capital (americano, claro). Se não houvesse uma reação da esquerda dirigida pelo único pensar, o do marxismo, os alunos permaneceriam "alienados".
Infelizmente essa tem sido uma forte motivação por detrás das concepções de educação. A história, decretam esses pensadores, não passa de lutas de classes, a classe oprimida precisa tomar consciência dessa opressão e avançar para o socialismo.
Com um agravante: intelectuais e estudiosos da educação que não seguem essa cartilha ideológica "compactuam" com o capitalismo.
Estuda-se Gramsci, endeusa-se Adorno, cita-se Saviani e Chauí, condena-se a chamada "prática mercantil" (sic), a "desumanização produzida pelo capitalismo" (sic), como se nesse tipo de filosofia da esquerda houvesse solução para os problemas crônicos da educação, como se buscar qualidade no ensino fosse incompatível com o trabalho e a profissionalização.
Nessa "filosofia" há noções aceitas sem nenhum exame crítico, ela é cega para a história dos acontecimentos recentes como mundialização, como o crescente e poderoso capitalismo financeiro que invade fronteiras, os acelerados processos de industrialização que aos poucos cedem lugar à sociedade de informação.
Há necessidade de alta qualidade na educação para compreender e reagir a essas novidades.
Se alguém mencionar J. Dewey ou Anísio Teixeira, por exemplo, corre o risco de não ter seu trabalho ou sua proposta aceitos.
"Para Dewey o fim da educação é a vida progressiva, em constante ampliação...ela cresce à medida em que aumentamos o conteúdo de nossa experiência, alargando-lhe o sentido, enriquecendo-a com ideias novas, novas distinções e novas percepções...O mundo em que vivemos é essencialmente precário e indeterminado, mas o esforço humano conta como fator predominante no destino que esse mesmo mundo pode tomar. O homem refaz o mundo pelo seu esforço."
Quem diz isso é Anísio Teixeira e como ele há outros para inspirar uma urgente renovação na filosofia da educação que possa acompanhar mais de perto nossa época e dar condições para uma melhoria na educação, na formação e no preparo de nossos alunos.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Você conhece algum filósofo (a) brasileiro (a) digno (a) do nome?
As publicações em filosofia cresceram bastante nos últimos 30 anos, aproximadamente. Mas creio que nada de original, relevante, interessante, produtivo ou que valha uma reflexão foi escrito. Nem livros, nem artigos e nem cursos transmitiram uma única ideia ou um conceito inovador, um método ou uma nova maneira de ver nas mais diversas áreas da filosofia. Talvez alguma contribuição exista na lógica, porém esse é cada vez mais um domínio da ciência formal e não da filosofia.
Escrevem-se livros pesados no sentido físico e pesados no sentido metafórico, tão pesados que o leitor se sente desestimulado...
Razões para tal?
Obrigações acadêmicas, luta para publicar, muitas vezes sob pressão, seguindo critérios burocráticos e arbitrários.
É bem verdade que nem todos os países e culturas produzem filosofia original. Filósofos relevantes estão em geral na Europa e nos Estados Unidos, com raras exceções.Os livros didáticos apontam Farias Brito, mas sua importância é quase nula. Não há curso algum, nem professores ou alunos que sabem de sua existência.
O mesmo não se pode dizer de outras áreas como direito, sociologia, história, literatura, nelas há brasileiros que se destacaram.
Houve época em que predominaram os estudos de filosofia cristã; desde a década de 60 e até os dias atuais, com cada vez menos intensidade, houve uma avassaladora invasão de marxismo dos mais variados matizes. Isso produziu mais doutrinação do que reflexão.
Atualmente há bastante liberdade de escolha, tanto de filósofos como de escolas de pensamento, o que é promissor.
Ainda assim, dificilmente há filósofos brasileiros de renome internacional ou cujas ideias tenham mudado algo na cabeça das pessoas. Repete-se, repete-se e nada se cria.
Aliás, doutores em filosofia se concentram em um único autor, em geral aquele escolhido para sua dissertação de mestrado, que depois é estudado no doutorado, até aí tudo bem. O problema é suas pesquisas afunilarem certo tema ou certo aspecto da obra de um filósofo ad nauseam, e eles se tornam super especialistas, ficam cegos para a contextualização do pensamento do autor de sua eleição, e pior, estão certos de que o "seu" filósofo basta, que aquela visão de mundo é a única verdadeira, que fora daquela doutrina falta o ar!
E o modo como os cursos universitários de pós-graduação são avaliados contribui para esses afunilamentos, para as análises cheias de pretensão, com citações a perder de vista, uma bibliografia que exige consulta no original. Quanto mais citação no original (em geral alemão) maior é o sinal de maturidade intelectual.
Interessante observar que nos EUA basta saber inglês...
E, contudo, não faltam os pretensos filósofos e filósofas que se apoiam na autoridade da fama adquirida na academia. Fulano ou fulana é um estudioso em tal ou tal filósofo, escreveu um catatau de 600 páginas, oram vejam só, que proeza. Pergunta crucial: alguém leu, alguém sorveu nessa fonte uma ideia interessante sequer? Algo original para pensar as coisas, nossa situação? Nada! Uma impressionante pobreza intelectual!
Mas esse professor (a) se torna um oráculo, é preciso consultá-lo (a) e tentar pelo menos que ele ou ela oriente o trabalho de alunos que, com isso, ganharão pontos em seu currículo.
Ora, a prática da filosofia requer liberdade de criação, o argumento de autoridade mata o pensamento.
É preciso cultivar outro tipo de relação com a filosofia e com a história da filosofia: estudo sério, capacidade de inovar, criar e, principalmente, de amar a sabedoria.
Escrevem-se livros pesados no sentido físico e pesados no sentido metafórico, tão pesados que o leitor se sente desestimulado...
Razões para tal?
Obrigações acadêmicas, luta para publicar, muitas vezes sob pressão, seguindo critérios burocráticos e arbitrários.
É bem verdade que nem todos os países e culturas produzem filosofia original. Filósofos relevantes estão em geral na Europa e nos Estados Unidos, com raras exceções.Os livros didáticos apontam Farias Brito, mas sua importância é quase nula. Não há curso algum, nem professores ou alunos que sabem de sua existência.
O mesmo não se pode dizer de outras áreas como direito, sociologia, história, literatura, nelas há brasileiros que se destacaram.
Houve época em que predominaram os estudos de filosofia cristã; desde a década de 60 e até os dias atuais, com cada vez menos intensidade, houve uma avassaladora invasão de marxismo dos mais variados matizes. Isso produziu mais doutrinação do que reflexão.
Atualmente há bastante liberdade de escolha, tanto de filósofos como de escolas de pensamento, o que é promissor.
Ainda assim, dificilmente há filósofos brasileiros de renome internacional ou cujas ideias tenham mudado algo na cabeça das pessoas. Repete-se, repete-se e nada se cria.
Aliás, doutores em filosofia se concentram em um único autor, em geral aquele escolhido para sua dissertação de mestrado, que depois é estudado no doutorado, até aí tudo bem. O problema é suas pesquisas afunilarem certo tema ou certo aspecto da obra de um filósofo ad nauseam, e eles se tornam super especialistas, ficam cegos para a contextualização do pensamento do autor de sua eleição, e pior, estão certos de que o "seu" filósofo basta, que aquela visão de mundo é a única verdadeira, que fora daquela doutrina falta o ar!
E o modo como os cursos universitários de pós-graduação são avaliados contribui para esses afunilamentos, para as análises cheias de pretensão, com citações a perder de vista, uma bibliografia que exige consulta no original. Quanto mais citação no original (em geral alemão) maior é o sinal de maturidade intelectual.
Interessante observar que nos EUA basta saber inglês...
E, contudo, não faltam os pretensos filósofos e filósofas que se apoiam na autoridade da fama adquirida na academia. Fulano ou fulana é um estudioso em tal ou tal filósofo, escreveu um catatau de 600 páginas, oram vejam só, que proeza. Pergunta crucial: alguém leu, alguém sorveu nessa fonte uma ideia interessante sequer? Algo original para pensar as coisas, nossa situação? Nada! Uma impressionante pobreza intelectual!
Mas esse professor (a) se torna um oráculo, é preciso consultá-lo (a) e tentar pelo menos que ele ou ela oriente o trabalho de alunos que, com isso, ganharão pontos em seu currículo.
Ora, a prática da filosofia requer liberdade de criação, o argumento de autoridade mata o pensamento.
É preciso cultivar outro tipo de relação com a filosofia e com a história da filosofia: estudo sério, capacidade de inovar, criar e, principalmente, de amar a sabedoria.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Liberdade de expressão, protesto e censura
Mensagens pelo facebook e pelo blackberry levaram jovens a depredar lojas, incendiar e assaltar o comércio em Londres e outras cidades inglesas. Bagunçar, enfrentar a polícia, levar para casa o que pudessem, sem temer represália, tudo isso começou como protesto pela morte de um jovem por policiais e acabou em bandos incitados a depredar.
Dois usos do mesmo veículo de comunicação. No segundo caso a polícia londrina aventou a hipótese de bloquear ou pelo menos cercear o uso de redes sociais quando incitam à violência. Não há como, a menos que se monte um esquema de censura como na China.
As mensagens eletrônicas são rápidas, atingem um público vasto e, como se vê, produzem mobilização. Quando bandos e multidões depredam, incendeiam e se escondem em capuzes, isso não se deve à pobreza, exclusão, revolta para com a sociedade ou protesto pela injustiça social e econômica. É pura e simples violência descontrolada, rebanho enfurecido, tumulto.
No caso dos protestos na praça Tahir havia um objetivo político defensável e justo, que levou pessoas a certo tipo de consenso, as palavras de ordem representaram reivindicações, todas elas públicas.
Protestos desse tipo se dão no que Habermas chama de "esfera pública". Nela pessoas responsáveis, com informação e com sinceridade de propósitos, discutem, exercem o poder de comunicação. E esse poder é o de atos de fala que produzem troca de informação, com intenção de esclarecer regras e normas, propor mudanças, alçar a um patamar em que razões pró e contra são livremente discutidas.
Ameaçar, incitar, proibir são atos estratégicos que barram a possibilidade de responder com um sim ou um não, de entrar em acordo ou de discordar.
Nos regimes democráticos há liberdade de expressão.
A expressão de ideias, conceitos e mensagens é garantida pela liberdade de credo e de opinião por constituições em democracias modernas. Tampouco a liberdade de expressão artística poderia, por princípio, ser censurada.
Mas ela é regulada em nome dos indefesos (crianças, por exemplo). Há imagens, filmes, propaganda cuja veiculação é regrada, regras essas que são discutidas e depois são aceitas e praticadas. Isso não viola a liberdade de expressão e nem caracteriza censura.
No caso do cinema, filmes polêmicos, como o recente "Serbian Film" e muitos outros que escandalizaram no passado como Bertolucci com "Último Tango em Paris" ou Godard com "Je vous salue Marie", acabam por levantar a questão da legitimidade ou da utilidade da censura.
Mas a questão não é essa e nem se resolve pela censura. A preocupação deveria ser antes a de educar, instruir, discutir valores, aprimorar os juízos estéticos. Censurar quando se pode ver de tudo pela internet?
A capacidade de usar a comunicação para veicular livremente ideias e conceitos deveria ser suficiente para condenar a incitação, pelos mesmos meios de comunicação, à violência. Talvez evitassem também o péssimo gosto.
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